CAPÍTULO 17 - Castelo de cartas marcadas
Eles pareciam dois adolescentes.
Tinham estacionado há pouco na caverna. Estavam sozinhos em um carro no escuro e não conseguiam tirar as mãos um do outro.
Após estacionar, Bruce inclinou-se sobre Selina e a beijou como se nunca tivesse feito isso antes. Como se quisesse beijá-la há muito tempo e só agora conseguira. Selina correspondeu do mesmo modo, o abraçou e agarrou-lhe a nuca, sentia a mesma urgência de beijá-lo, de tê-lo junto de si, sobre seu corpo, entre suas pernas...
O veículo era fenomenal, mas também era apertado e desconfortável. Os dois pareciam não se importar, tinham tanto desejo guardado, estavam tão leves e despreocupados, nada poderia interrompê-los naquele momento.
Ou quase nada.
As luzes da caverna foram ligadas e a luz forte de um holofote voltado para o carro, encandeou a visão de Bruce.
- Mas... o que? – ele indagou protegendo os olhos com a mão.
Selina suspirou insatisfeita quando Bruce afastou-se e saiu do veículo. Sem alternativa, ela levantou-se e o acompanhou.
- Alfred? – Bruce chamou já do lado de fora do carro. – Apague os holofotes, por favor. Já sabemos que está aí... – falou olhando para a poltrona que ficava em frente ao grande computador.
O comando foi atendido e os holofotes foram desligados, a iluminação normal da caverna foi acionada. Após a mudança na iluminação, a poltrona em frente ao computador girou, e o ocupante dela os encarou.
Não era Alfred. Era alguém pequeno demais para a cadeira de espaldar alto.
- Helena! – Selina falou correndo até a menina.
- Vocês voltaram! – a menina abriu um sorriso quando a mãe se aproximou.
- Claro que voltamos, querida. – Selina agachou-se e abraçou a filha.
- Achei que tinham me abandonado. – a menina disse quando Selina a soltou, mas não falava com a mãe, ela encarava o pai.
- Jamais faríamos isso, princesa. – Bruce disse também agachando-se para encarar a menina.
- Então, onde vocês estavam? – ela olhou para os pais, ambos agachados a sua frente.
- Fomos enfrentar o homem mau, querida. – Selina revelou, sentia que a filha merecia a verdade.
- Vocês venceram ele? – ela indagou em expectativa.
- Seu pai o venceu, querida. – Selina falou para menina, encarando Bruce enquanto falava. – Ele nos salvou do homem mal.
-Claro que você ia vencer ele, papai. – Helena abriu um sorriso para Bruce. – Você é o Batman!
Bruce e Selina sobressaltaram-se.
- Helena, precisamos falar sobre isso... – Bruce começou, preocupado. Incapaz de desmentir a menina, já que ele vestia o traje do morcego.
- Não se preocupe, papai. Alfred já me explicou tudo. – a menina disse como se fosse a coisa mais natural do mundo.
- Ele explicou? – Bruce indagou surpreso.
- Sim, depois que eu descobri a caverna, as armaduras... E, claro, depois que eu vi o senhor sair vestido de morcego naquele carro... – ela apontou o batmóvel e depois se aproximou do pai. - Eu sei que é segredo, papai. Eu não vou contar pra ninguém. – a menina disse piscando para Bruce.
Ele olhou agradecido para a filha. Ela sempre o surpreendia e poucas pessoas eram capazes dessa façanha.
- Devo admitir que essa é uma cena pitoresca, para dizer o mínimo. – o casal e a menina olharam para o mordomo que acabara de adentrar a caverna. – Senhorita Selina, a senhorita vai se resfriar, já viu a condição em que se encontra?
Bruce levantou-se e ajudou Selina a fazer o mesmo. Ela ainda estava de camiseta regata e calcinha, seu lábio estava roxo onde Luthor a socara e seus cabelos eram uma massa emaranhada e disforme.
- Venha comigo, senhorita Helena. – o mordomo chamou. - Seus pais precisam descansar. Amanhã eles lhe contam quaisquer detalhes de mais essa aventura estranha. A senhorita vai se acostumar com isso.
Helena olhou para os pais e leu em seus olhares que não era hora de contrariar o mordomo. A menina foi até Alfred que lhe pegou a mão.
- Quanto aos senhores, - o mordomo continuou enquanto se afastava com a menina. – servirei a ceia em quinze minutos, é bom que estejam apresentáveis até lá. Essa família precisa de algum padrão de normalidade, que Deus nos ajude.
Selina e Bruce se entreolharam, cúmplices. Quando o mordomo desapareceu no elevador da caverna com Helena, eles foram atraídos como imã e metal. Bruce levantou Selina e a colocou sentada sobre a bancada em frente ao computador. Ela cruzou as pernas em torno dos quadris do morcego. Voltaram a beijar-se como adolescentes.
Alfred teve que esperar mais do que quinze minutos.
/
No dia seguinte, os jovens pais chamaram Helena e contaram-lhe toda a verdade sobre Luthor. Bruce contou para a menina que uma feiticeira tinha feito Luthor esquecer dela e de Selina para sempre. A menina ficou muito entusiasmada com o desfecho, disse que já tinha lido sobre poções de esquecimento em seus livros de histórias de bruxos, e fez Bruce prometer-lhe que a apresentaria a Zatanna.
Nos dias que se seguiram, o tempo tornou-se menos gelado, as rosas de Alfred desabrocharam no jardim e logo a primavera chegou.
Sem a perseguição de Luthor, Selina e Helena estavam livres dos muros da mansão Wayne, mas permaneceram lá por escolha própria.
E um novo mundo de possibilidades surgiu.
Selina voltara a usar seu belo anel de noivado. Ela e Bruce saíam para restaurantes, festas e demais eventos sociais. Em público, ele ainda vestia sua persona de playboy despreocupado e Selina adotou um personagem, era uma socialite chic e burra. Fazia questão de parecer a alpinista social que julgavam que ela era.
Bruce levava Selina para museus e galerias de arte. Ele descobriu que a gata passara a apreciar esses lugares ao longo dos anos, e não apenas com intenção de roubá-los. Os dois tinham tardes agradáveis apreciando monumentos históricos e obras de arte, Bruce sempre interessado nos detalhes técnicos e históricos. Selina sempre interessada na beleza das obras, em como elas a faziam se sentir e, claro, no quanto deveriam valer.
O jovem casal tinha muitos planos. Eles iriam matricular Helena em uma escola perto da mansão e Selina pesquisava um bom curso de história da arte nas universidades mais próximas. Bruce descobriu que Selina tornara-se fascinada pela França e pretendia levá-la a Paris no verão, na lua de mel deles.
Mas para que tivessem a lua de mel, era preciso que marcassem a data do casamento e Bruce já tinha um plano para isso também.
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Era meio-dia de um domingo agradável de primavera e o jovem casal acompanhado pela filha estavam na piscina aquecida no topo da torre Wayne. Havia um restaurante no lugar e que estava muito movimentado para o brunch.
Helena brincava na piscina, linda em seu maiô roxo com detalhes pretos que ela mesmo havia escolhido, para desgosto de Alfred. A menina parecia um peixinho e quem a visse não imaginava que havia poucas semanas que o pai dela a ensinara a nadar.
Selina encontrava-se estendida em uma espreguiçadeira próximo a piscina, usava um chapéu de verão, óculos escuros e um minúsculo biquini preto de modelo fio dental. Ela conversava com a mulher na espreguiçadeira ao seu lado, a mulher usava um maiô azul mais discreto, mas era tão bonita quanto a noiva de Bruce Wayne.
Lois viera com Clark para visitá-los. Embora seu relacionamento com o amigo jornalista ainda fosse platônico, ela apreciava a amizade do casal de Gotham, e aceitou acompanhá-lo quando soube do convite de Bruce.
- Eu não sou muito de agradecer, mas estou grata que você não tenha contado aos rapazes sobre o meu plano de ir até Luthor... – Selina falava para Lois depois de contá-la detalhes sobre o confronto que tiveram com o bilionário de Metrópolis.
- Não contei por que você pediu segredo, mas confesso que ia me sentir culpada se Luthor tivesse feito algo a você. – Lois disse pensativa enquanto bebia uma mimosa. – Mas você tinha o direito de tentar resolver as coisas por você mesma, sem que os caras se metessem. Era a sua vingança, afinal...
- Mas no final eles se meteram, e só por isso deu certo. Nossa, eu sou um fiasco pro feminismo. – Selina riu provando seu cosmopolitan.
- Às vezes, a gente precisa reconhecer que precisa de ajuda. Isso não nos torna menos fortes, ou menos independentes. – Lois filosofou enquanto olhava Clark que conversava com Bruce em uma mesa do restaurante, na outra extremidade. – Às vezes é bom ter alguém que nos pega no ar...
- Ainda suspirando pelo bonitão que usa cueca por cima da roupa? – Selina zombou. – Acorda, garota. Quem você realmente precisa, não tá lá no céu, pode estar bem na sua frente...
- Quem sabe? – Lois disse pensativa ainda olhando o amigo ao longe.
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Meia hora mais tarde, quando Helena já tinha os dedos enrugados pela água da piscina, mas antes de Selina beber cosmopolitans demais, Bruce conseguiu levar as duas ao restaurante para que aproveitassem o brunch com o casal de amigos de Metrópolis.
Helena sentara-se ao lado de Clark, a quem a menina passou chamar de padrinho, após desenvolverem uma relação de afeto nos últimos meses. Ela contava ao rapaz sobre seus fatos cotidianos e sobre as últimas coisas que vinha estudando. Já Selina bebia mais alguns cosmopolitans, aproveitando que Bruce estava distraído conversando com Lois sobre política internacional.
Foi uma refeição agradável e tranquila. Já tinham finalizado o brunch quando Selina saiu da mesa com Helena para levar a menina à toalete. As duas deixaram a mesa e Bruce permaneceu conversando com Lois. Clark pediu licença em seguida e saiu da mesa também. O jornalista voltou alguns minutos depois, parecendo irritado.
- Aconteceu alguma coisa? – Lois indagou ante ao incomum semblante aborrecido do amigo.
- Havia um paparazzi na outra mesa. – Clark explicou sério. – Estava seguindo Selina e Helena, mas eu o impedi e o expulsei daqui.
- Ele teve sorte que você o impediu. – Bruce mencionou despreocupado. – Ele estaria em perigo se Selina o visse...
- Não sei como você aguenta... – Lois observou para o jovem bilionário. – Deve ser estranho ser observado o tempo todo...
- O segredo é dar a eles o que eles querem. – Bruce explicou para Lois, mantendo o personagem de playboy despreocupado para a jornalista de Metrópolis. – Eles devem estar achando que vocês dois estão nos entrevistando. Estão em polvorosa hoje, por que eu dei a eles isso aqui...
Bruce mostrou a tela do celular para Lois, havia uma notícia do Gotham Globe. Havia foto enorme dele ao lado de Selina, Helena entre os dois, estavam incrivelmente lindos. A seguinte manchete estava sobre a foto em letras garrafais:
A família perfeita: Bruce Wayne anuncia casamento.
Lois sorriu impressionada, e ela não era uma mulher de se impressionar facilmente.
O playboy Bruce Wayne sabia como ganhar uma primeira página.
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Bruce desfez o nó da gravata depois de retornar do quarto de Helena. Era final de tarde e ele havia colocado a menina na cama. Depois de brincar o dia todo na piscina, a garota caiu no sono ainda no caminho de volta para a mansão.
Selina encontrava-se do mesmo jeito. Cochilava na cama, sonolenta demais depois de todos os cosmopolitans que bebera durante o dia, não se importava com os raios amarelos do pôr do sol que riscavam seu rosto e davam um tom dourado a seus cabelos.
Bruce achou engraçada toda a cena, suas duas garotas sonolentas depois de se divertirem o dia inteiro. Riu pra si mesmo, aproveitando toda a paz que sentia naquele final de tarde.
Olhou pela grande janela em frente a cama. O céu estava dourado pelos raios do sol que sumia no horizonte. Lembrou do anúncio que colocara nos jornais aquele dia. Agora todos sabiam. Agora eles tinham uma data. Era oficial. Sua família era oficial. Sentia que uma pequena parte dentro de si fora resgatada.
Pensou em seus pais e como queria que eles o vissem naquele momento. Sufocou os sentimentos ruins que queriam sair da caixa, e olhou para Selina que agora tinha os olhos abertos e olhava para ele.
- Vem cá. – murmurou sonolenta levantando a mão na direção dele.
Ele tirou o paletó e a camisa antes de deitar-se ao lado dela e abraçá-la.
- Foi um dia ótimo... – Selina disse de olhos fechados, pressionando seu corpo contra o de Bruce. – Mas foi estranho você chamar o Kent para um Brunch... O que deu em você? Você não é esse tipo de amigo...
- Os pais dele estavam com problemas para pagar a hipoteca da fazenda... o banco ia executá-la. – Bruce disse permitindo-se fechar os olhos, enquanto aspirava o perfume dos cabelos de Selina.
- Ele pediu ajuda? Não faz o tipo dele. Ele é íntegro demais.
- Não, Clark nunca faria isso... Então, eu o chamei hoje...
- Pra dizer que saldou a hipoteca... – Selina o interrompeu. – É bem a sua cara isso. – ela riu.
- Não, eles continuam devendo a hipoteca pro banco...
- Então por que você chamou o Clark? – Selina abriu os olhos e virou-se olhando acusadora para Bruce.
- Chamei ele pra dizer que comprei o banco.
Selina riu alto.
- Você é inacreditável, Wayne.
- Sabe o que é inacreditável, Kyle? – ele indagou apoiando o corpo sobre o dela. – Aquele biquini obsceno que você estava usando hoje...
Ela riu alto novamente.
- É sério. Você sabe o que isso faz comigo? - ele disse deixando uma trilha de beijos no maxilar de Selina. – Vou te contar uma história... Era uma vez um garoto introvertido que se apaixonou por uma garota durona, - disse agora beijando-a no colo – Então eles cresceram e, o garoto não sabe como lidar com a grande gostosa que a garota se tornou...
Ele a olhou bem e ela não riu dessa vez.
- Ele sabe como. – disse séria. – eles são os mesmos de antes... só estão mais velhos...
- Selina...
- Shi... – ela levou o polegar aos lábios de Bruce. Selando-os. – A garota durona só quer que o garoto introvertido a beije.
E eles se beijaram enquanto o sol desaparecia no horizonte, fizeram amor e já anoitecera quando adormeceram abraçados.
A mansão estava calma e silenciosa, o tempo parecia ter parado.
/
Mais tarde aquela noite, eles já haviam jantado e Selina assistia TV com Helena no quarto da menina, por isso ela não ouviu quando a campainha tocou. Bruce, que estivera na caverna se preparando para sair em patrulha, teve que colocar novamente suas roupas civis para encontrar seu visitante na biblioteca, após Alfred anunciá-lo.
- A que devo a visita, Comissário? – Bruce indagou fingindo surpresa ao entrar no aposento. – Veio nos felicitar pessoalmente?
- Gostaria que o motivo fosse tão agradável assim, Bruce. – O comissário disse parecendo preocupado. - Embora devo dizer que estou muito feliz por sua união com Selina. E é por gostar de vocês, que vim aqui pessoalmente.
- Aconteceu alguma coisa?
- Não sei se você já sabe, mas Jeremiah Valeska fugiu do Arkham poucas horas atrás.
Bruce sabia. Quando acordou de seu cochilo com Selina, Alfred lhe informara do fato e ele já estava buscando pistas que levassem ao paradeiro do lunático. Ele estava, inclusive, de saída para procurá-lo em Gotham antes do comissário aparecer na sua porta, mas como não podia revelar nada disso, Bruce apenas acenou positivamente com cabeça.
- Pois bem, eu estive agora há pouco com os peritos na cela de Jeremiah no Arkham. – O comissário continuou. - E eles encontraram isso...
Gordon estendeu um jornal para Bruce. Era o jornal onde havia o anúncio de seu casamento com Selina. A foto fora rabiscada. Havia grandes sorrisos maníacos pintados de vermelho em sua boca e na boca de Selina, mas o rosto de Helena não fora rabiscado.
Jeremiah não rabiscara um sorriso no rosto de Helena.
Ele havia colocado um alvo no peito da menina.
NOTAS FINAIS
O próximo capítulo será o último.
Eu gosto tanto de Lois e Clark que eu tive que colocá-los de novo nessa história, eu sou viciada na amizade deles com Bruce e Selina desde a HQ "Encontro de casais" do Tom King. Eu sempre os escrevo pensando em Teri Hatcher e Dean Cain de "Lois & Clark: The New Adventures of Superman", a primeira série de super-heróis que eu lembro de assistir. Eu também adoro o Luthor e o Jimmy Olsen dessa série. É engraçado meu super herói favorito ser o Batman, pois na infância eu amava "Lois & Clark" e meu crush da adolescência foi Tom Welling de Smallville. O Superman sempre esteve presente na minha vida. Ah, nesse capítulo também tem uma referência ao BatAffleck, outro crush da minha adolescência. Eu gosto de Ben Afleck desde Armageddon e "Pearl Harbor", então eu fui as estrelas quando ele virou o Batman, embora meu Batman favorito no cinema não seja ele (Keaton é), ele ainda é o mais gostoso, na minha opinião.
Hoje estou falando demais, porque estou de bom humor. É feriado e, finalmente, depois de muito tempo, há esperança. Eu fui vacinada! E pra melhorar o Batman vai vir ao Brasil na HQ "Batman – The World". Venha, morcego! Há um super vilão e só você pode detê-lo!
Obrigada por seu tempo.
