CAPÍTULO 18 – Vou ter que deixá-la ir
"Baby, tanto a aprender...
Meu colo alimenta você e a mim
Deixa eu mimar você, adorar você...
Agora, só agora
Porque um dia eu sei, Vou ter que deixá-lo ir."
(Pitty, Só agora: Chiaroscuro, 2009)
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Os dias passaram e Jeremiah não fora pego.
Uma preocupação, que começou como uma fagulha no íntimo de Bruce, foi crescendo e, pouco a pouco, foi tomando conta de seus pensamentos. E essa preocupação aumentava todas as vezes que ele chegava em casa, após uma noite sem pistas de Jeremiah e olhava a menina que tinha seu rosto e a mulher que ele amava.
Por segurança, Helena ficara novamente restrita à mansão enquanto Selina ajudava Bruce na busca de pistas de Jeremiah, mas ele não contou a noiva sobre o jornal que Gordon lhe mostrara. Achou que isso perturbaria Selina por demais e resolveu poupá-la. Ele lidaria com isso.
E em meio a isso, o casal iniciou o treinamento de Helena. Isso aconteceu por insistência de Selina, que se tornou favorável a antiga ideia de Bruce de que a menina sempre estaria em perigo por ser filha de ambos, e que precisava aprender a se defender.
A questão é que essa ideia tinha mudado na mente de Bruce desde que ele vira aquela foto de jornal rabiscada. E a ideia anterior de treinar a filha, dera lugar a outra ideia, uma muito mais sombria. E ele não saberia dizer em que momento aquela nova convicção tomara conta de sua mente, mas certamente ela já existia naquela noite fresca de primavera quando encontrara Clark em um telhado em Metrópolis.
- Sabe, Bruce, acho que no futuro, vamos precisar de uma base para nos reunirmos, a gente sempre se fala nos telhados. É desconfortável...
- Não use nosso nome civil quando estiver com a armadura. – o morcego respondeu muito sério.
- Você está cada dia mais paranoico... – O kriptoniano brincou.
- Jeremiah Valeska está à solta em Gotham e o alvo dele é Bruce Wayne e sua família. – o morcego falou sem dar ouvidos ao outro. – A fora isso, Cobblepot continua aprontando, Charada nos atacou em uma festa recentemente, Ivy tentou mais de uma vez entrar novamente na mansão... E se todos esses psicóticos descobrirem que sou eu quem os está prendendo? Luthor parece brincadeira de criança perto do que pode acontecer... eles virão atrás de Selina... pior, virão atrás de Helena...
- Onde você quer chegar com isso? – Clark indagou preocupado, o amigo estava anormalmente tagarela aquela noite, isso não era bom sinal.
- Irei para a Suíça ao amanhecer, vou levá-las comigo.
- Mas Gotham está um caos, a cidade precisa de você...
- Por isso que o chamei aqui. Ajude Zatanna, ela vai estar patrulhando Gotham nos próximos dias.
- Eu posso ajudar, mas Gotham é sua cidade. – Clark disse aflito. - Você a conhece melhor do que eu, ela precisa de você.
- Eu avaliei todos os cenários e percebi que para ajudar Gotham, Bruce Wayne precisa se afastar agora. – o morcego disse decidido.
- Tudo bem, pode contar comigo. Mas não é só isso, não é mesmo? – o kriptoniano desconfiou, o amigo estava muito perturbado. - Você está me escondendo alguma coisa?
- Ajude Zatanna. É só isso.
O morcego saltou para o prédio seguinte, sumindo na escuridão. Clark o viu desaparecer, uma ponta de preocupação pairando em seus pensamentos.
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- Eu pensei que seria mais difícil lhe convencer a vir. – Bruce revelou para Selina na noite seguinte, após o jantar. Alfred e Helena já haviam se recolhido e o casal conversava na sala do Chalet Wayne que ficava no interior da Suíça. Bruce estava em um poltrona e Selina deitada em um confortável sofá.
- Eu passei tanto tempo trancada naquela mansão que qualquer paisagem diferente é bem-vinda. – Ela falou enquanto bebia uma taça de vinho. – Primeiro ficamos presos por causa de Luthor e agora por causa de Jeremiah... Desse jeito, Helena nunca vai poder colocar a cara pra fora de casa novamente.
- Sim, ela não vai poder mesmo. – Bruce disse pensativo.
- O que você quer dizer com isso? – Selina perguntou desconfiada, sentando-se no sofá para encará-lo.
- Selina... – Bruce começou sério, agora encarando-a com seu semblante fechado. – Precisamos conversar.
A gata sentiu algo estranho na fala de Bruce. Pousou a taça de vinho sobre a mesa de centro.
- Sobre o que precisamos falar? – perguntou desconfiada.
- Precisamos falar sobre o futuro de Helena.
- Eu pensei que o futuro dela estava resolvido... – Selina sentiu-se alterada.
Bruce resolveu não fazer rodeios, achou melhor expor a ferida de uma vez.
- Ela não pode voltar para Gotham.
- O QUE? – Selina gritou levantando-se e indo até a poltrona de Bruce. – Você enlouqueceu de vez?
- Vão vir atrás dela e vão continuar vindo. – Ele continuou muito contido, muito sombrio. - Bruce Wayne tem alguns inimigos, mas Batman tem inimigos demais...
Selina esperou ele dizer que estava brincando, mas ela sabia que Bruce não costumava brincar. Então, ela explodiu de verdade.
- Ah, então você resolve pular de telhado em telhado prendendo os piores doidos de Gotham e quem vai pagar por isso é nossa filha? – indagou exaltada.
- Helena deve ter uma boa educação. – Bruce continuou, estava calmo, sério e tinha a cabeça baixa e segurada pelas mãos. - Não quero mais treiná-la. Vamos dar a chance de ela ser uma menina normal.
- Eu não tô acreditando nisso... – Selina riu um riso de desespero, levantando-se em seguida.
- Selina... – Bruce falou ao levantar-se, tentando pegar a mão dela, mas ela se afastou.
- EU NÃO QUERO MAIS OUVIR...
Ela disse às lágrimas, dando as costas ao noivo e subindo as escadas em direção ao seu quarto.
Bruce sentou-se novamente na poltrona, levou uma mão aos cabelos. Parecia adulto demais, velho demais para um rapaz de vinte e sete anos. Não era nem sombra do playboy despreocupado que Gotham conhecia.
Ele sentia todo o peso daquela decisão sobre as suas costas. Precisava fazer o que era certo, o que era justo com Helena. Mas, ele conhecia Selina. Ela nunca iria perdoá-lo.
Se sentia desolado.
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Selina estava na varanda do quarto principal enquanto olhava as árvores que balançavam as folhas ao longe no escuro. A noite estava clara e ali ela podia ver o cobertor de estrelas sobre ela.
Não havia as luzes da cidade, e aquelas não eram as mesmas estrelas que ela via dos telhados de Gotham, talvez fossem as mesmas, mas não no mesmo lugar, como Bruce havia explicado uma vez.
Mas as estrelas agora não conseguiam acalmar o peito de Selina.
"Ela não pode voltar para Gotham."
Não. Ela não podia aceitar aquela ideia insana.
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- Você não vai falar comigo?
Ela ouviu a voz de Bruce atrás de si
- Se for pra você me dizer que não podemos voltar para Gotham, eu não quero saber. – ela disse sem olhá-lo.
- Mas nós vamos voltar pra Gotham, – Ele falou dando um passo e ficando ao lado dela - Helena que não vai.
- O QUE? – Selina voltou-se pra ele, incrédula.
- Acredite, eu pensei em todos os cenários, - ele continuou. - Esse é o único que garante a segurança total dela.
- O seu plano não era treiná-la? – Selina indagou exasperada. – Eu aceitei! Aceitei a ideia insana de treinar uma criança pra lidar com criminosos! Estamos fazendo isso! O que mais você quer?
- Eu tenho pensado no que você falou aquele dia no telhado da mansão... – Bruce disse cuidadoso. - Ela merece ser normal. Nós não somos normais, mas sem nós, ela pode ser.
- Você é maluco se acha que eu vou ficar longe da minha filha...
- Gordon me mandou isso hoje à noite. – Bruce falou entregando um tablet a Selina. – É o vídeo da prisão de Jeremiah Valeska. Eu quero que veja, depois tome sua decisão.
Ele entregou o aparelho a Selina e saiu deixando-a sozinha na varanda. Selina deu play no vídeo.
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Bruce estava novamente na poltrona da sala, tinha a cabeça baixa e continuava pensativo. Ele levantou o olhar quando viu os pés de Selina a sua frente.
Ela tinha os olhos molhados e vermelhos, a maquiagem preta manchava seu rosto até a bochecha deixando-a com um aspecto transtornado.
- Ele estava no quarto de Helena.
Ela disse ajoelhando-se e colocando o rosto sobre o colo de Bruce, caindo em um pranto desolado. Bruce levou a mão aos cabelos dela, consolando-a.
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O vídeo das câmeras de segurança da mansão Wayne mostrava Jeremiah invadindo a mansão e esgueirando-se até o quarto de Helena, onde o criminoso entrou e efetuou vários disparos de fuzil contra a criança que dormia na cama. Ele ria descontrolado enquanto disparava.
As luzes foram acesas e em seguida surgiram diversos policiais que cercavam todas as saídas do quarto. Jeremiah foi desarmado por Gordon que o atacou por trás.
O boneco que estivera como isca na cama de Helena, tinha sua espuma espalhada por todo lado.
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- Gordon desconfiava que o alvo de Jeremiah era Helena. - Bruce explicou quando Selina parara de chorar, ela ainda tinha o rosto escondido em seu colo. – Ele armou uma emboscada depois que saímos. E conseguiu pegar Valeska.
- Ele atirou nela! – Selina levantou a cabeça e falou desesperada, sua maquiagem e lágrimas manchavam a calça de Bruce.
- Era um boneco, Selina. Não era nossa filha.
- Era pra ser ela! Era o quarto dela, a cama dela! Se nós não tivéssemos saído... – Selina falou voltando a chorar de forma copiosa. – Ele atirou nela... Atirou nela...
Bruce a levantou e a fez sentar em seu colo. Ele a deixou chorar o quanto quisesse e depois a fez tomar um calmante que Alfred trouxera, o mordomo acordara com o choro da mulher e sugeriu ao patrão que ela tinha passado por muitas emoções e precisava descansar.
Selina ficara pior do que Bruce imaginara. Ele só a viu naquele estado quando Jeremiah a deixara paraplégica numa cama de hospital.
Aquele muro de concreto que sua amada era, parecia ter sido dinamitado mais uma vez.
E novamente por Jeremiah Valeska.
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Selina apareceu na sala do chalet na tarde do dia seguinte. Vestia a mesma camiseta e saia do dia anterior, seus cabelos estavam rebeldes e tinha os olhos inchados. Seu olhar era vazio.
Helena, que jogava um jogo de tabuleiro com Bruce, sorriu quando viu a mãe.
- Mamãe, você acordou! – disse contente. - Foi dormir tarde ontem?
- A senhorita quer comer alguma coisa? – Alfred se aproximou de Selina olhando-a preocupado.
Selina não respondeu ninguém. Ela apenas caminhou até a mesinha onde Helena estava, chegou ao lado da menina e a abraçou.
- Mamãe, você vai me sufocar... – Helena reclamou enquanto Selina pressionava seu rosto contra seu peito. – A senhora precisa de um banho, - a menina disse quando Selina a soltou. – seu desodorante já era, sabia?
- Sua mãe está com enxaqueca, princesa. – Bruce falou levantando-se e indo até Selina.
- Minha mãe nunca fica doente... – Helena retrucou incrédula.
- Está sim, não é, meu amor? – Bruce disse segurando Selina pelo braço, - Vamos lá pra cima, acho que aquele banho vai ser bom...
Selina deixou-se levar e voltou para o quarto com Bruce. Ela não chorava mais, mas isso não era bom, porque ela também não estava falando.
Bruce preparou um banho quente na banheira e ajudou Selina a despir-se, praticamente o fez sozinho. Ele a ajudou entrar na banheira e ela fechou os olhos quando foi coberta pela água morna e perfumada. Bruce ficou na borda da banheira e começou a passar uma esponja pelos ombros de Selina.
Ela pareceu relaxar aos poucos.
- Eu não acredito que você vai me obrigar a deixá-la. – ela falou pela primeira vez, ainda tinha os olhos fechados. – Eu te odeio por isso.
- Eu também me odeio por isso. – Bruce falou sério. – mas prefiro minha filha viva longe de mim, do que morta em Gotham.
- Eu não quero ficar longe dela. – Selina abriu os olhos.
- Você pode ficar com ela, mas não vou conseguir fazer eles esquecerem de você.
- Quem você vai fazer esquecer?
- Gotham. – ele respondeu. – Gotham vai esquecer de Helena. Zatanna vai aplicar o feitiço que fez em Luthor na cidade toda. Ela disse que vai ser muito difícil, que exige muito poder, mas eu contratei outras pessoas com poderes mágicos para ajudá-la. Eles vão esquecer de Helena, mas ela disse que não consegue fazer esquecerem você, existe muito mais lembranças suas em Gotham e de muito mais pessoas.
- Então eles vão continuar vindo atrás de mim. – Selina suspirou. – E se me acharem, podem achar Helena.
- Sim. Você ainda é o amor de Bruce Wayne, e podem descobrir que o Morcego também te ama. Eles sempre vão mirar no meu ponto fraco.
Selina ficou pensativa, Bruce temeu que ela tivesse voltado ao estado de torpor, mas depois de um longo instante, ela voltou a falar.
- Tudo bem. – disse parecendo cansada. – Faça o que tem que fazer.
- Obrigada. – ele disse com sinceridade, aliviado. Voltou a passar a esponja pelo corpo de Selina, mas ela se afastou ao seu toque.
– Acabou, Bruce.
- O que? – falou aturdido.
- Nós vamos resolver as coisas com Helena, – ela continuou, sem olhá-lo. – E depois eu não quero mais te ver. Você é uma maldição, Bruce. Só traz sofrimento pras pessoas ao seu redor. O melhor pra nós dois é ficarmos separados. Obrigada pelo banho, já estou melhor.
Ela levantou-se e vestiu o roupão que ele pegou para oferecê-la.
- Quanto tempo você acha que precisa para resolver a situação de Helena? – ela perguntou impessoal enquanto secava a ponta dos cabelos com uma toalha. – Conheço você, eu sei que já deve ter cuidado de tudo.
- Cuidei de quase tudo. – ele respondeu ainda atordoado. – Vou precisar da sua ajuda em alguns detalhes. Talvez em um dois ou três dias...
- Perfeito. Até lá, é melhor não contarmos a ela sobre a nossa nova situação. – ela continuou indo até o closet, Bruce a acompanhou. – Mas é melhor que você peça ao Alfred pra preparar o quarto de hóspedes pra você. - Disse escolhendo uma roupa. – Agora você poderia me dar licença para que eu me vista?
- Claro, - Bruce disse resignado, deixando-a em seguida.
O semblante indiferente de Selina desabou no momento em que ele saiu pela porta do quarto. Ela se sentou na poltrona do luxuoso closet e chorou.
Chorou até não conseguir mais.
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- Então esse é o lugar? – Selina perguntou inexpressiva ao olhar o grande prédio em estilo neoclássico.
- É uma das melhores escolas da Europa. – Bruce falou olhando o prédio. – Alfred é amigo antigo da diretora. Ela já deve estar nos esperando. – falou consultando o relógio de pulso. – é melhor nos apressarmos.
Um dos detalhes que Bruce ainda precisava decidir era em qual colégio interno Helena seria matriculada. Ele não quis fazer isso sem a participação de Selina. E naquele dia eles saíram cedo para conhecer as instituições que Alfred recomendara, fazia três dias que visitavam escolas.
Eles entraram na escola e conheceram a diretora. Pelo valor obsceno que Selina observara no formulário de apresentação, ela sabia que só gente muito rica mandava seus filhos para aquele lugar. O casal conheceu a diretora, uma senhora muito agradável que falava de Alfred com uma nostalgia apaixonada. Ela mostrou a escola ao jovem casal e discorreu longamente sobre a história do local e o modo de ensino.
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- Eu juro que se ela falasse as palavras "mocinhas bem-educadas" mais uma vez, eu ia arranhar a cara dela. – Selina falou mal humorada quando retornaram ao carro. – Ela vai transformar minha filha numa matrona frígida...
- Selina, é sexta escola que visitamos, você não gostou de nenhuma. – Bruce disse cansado.
- O que eu não gosto é da ideia de trancar a nossa filha nesses quartéis onde gente rica coloca os filhos que não quer criar.
Bruce suspirou, tentava ser o mais paciente possível.
– Essa escola é perfeita. – ele tentou mais uma vez. - Fica perto do chalet, podemos visitar Helena constantemente, passar os verões com ela... e a diretora claramente tem uma queda pelo Alfred, o que ajuda muito. Uma hora vamos precisar decidir. E essa é perfeita. Você viu a segurança? É tão boa quanto a de um presídio federal.
- Deve ser porque o lugar parece um presídio federal... – Selina disse de mal humor. – Mas se não tem outro jeito... só estava tentando adiar o momento, eu acho. – confessou. - Esse quartel é o melhor mesmo. Quando ela disse que Helena pode começar?
- Amanhã.
- Eu não consigo. – Selina disse fechando os olhos e massageando as têmporas. – Eu não consigo dizer a ela...
- Você acha que vai ser fácil pra mim também? Eu prometi que não ia deixá-la. – Bruce falou arrasado. – E eu vou fazer isso.
Eles ficaram em silêncio por um longo momento, sozinhos com suas próprias dores. Ambos lutando contra o desejo de se abraçar e confortar um ao outro.
- Está ficando tarde. – Selina falou antes que fraquejasse. – Eu proponho uma coisa.
Bruce a olhou surpreso.
- Vamos contar a ela só amanhã de manhã. E levamos ela para escola a tarde.
- Vamos levá-la assim que contarmos?
- É melhor que seja rápido.
- Ela vai sofrer muito. – Bruce suspirou pensando na filha, pela primeira vez, pareceu vacilar em sua decisão.
- Ela tem que entender a responsabilidade de ser quem ela é. – Selina falou convencendo-se. - Nós já entendemos isso, nós também tivemos que crescer rápido. Tivemos que deixar tudo pra trás. Ela vai sobreviver. Foi você que decidiu isso. Não fraqueje agora, Wayne.
Bruce manteve-se em silêncio.
- Olha, isso é muito difícil. – Selina continuou ao senti-lo derrotado. - Então eu proponho que a gente esqueça tudo isso por essa noite. – ela o olhou pela primeira vez naquela conversa. - Vamos aproveitar essa noite, vamos fazer alguma coisa legal com nossa filha.
- Isso seria bom. – Bruce replicou sentindo-se menos sombrio pela primeira vez em dias.
Fizeram o caminho de volta em silêncio, Selina sugeriu que passassem em uma delicatessen, compraram todos os doces e guloseimas que Helena mais gostava. Selina combinou com Bruce o que gostaria de fazer aquela noite e ele concordou.
O semblante fechado de Selina se transformou quando chegaram em casa. Ela sabia fingir muito melhor que Bruce. E deixou Alfred escandalizado quando anunciou que aquela noite fariam um piquenique noturno no jardim. O mordomo só concordou quando Bruce lhe revelou o motivo, Alfred também estava muito abalado com aquela situação desde que soubera da decisão do mestre.
Helena ficou muito entusiasmada, principalmente porque Selina disse a menina que seu pai lhe mostraria as constelações, e que eles usariam o velho telescópio de Bruce que ela já vira a menina tentando usar em outras noites.
Alfred acabou por transformar a coisa toda em algo muito mais fino que um piquenique. Havia uma grande mesa de madeira no jardim, e ele preparou um jantar com entrada, prato principal e sobremesa, que foi composta pelos doces que trouxeram da delicatessen. Helena tinha disponível todas as guloseimas que amava, o que era o sonho doce de qualquer criança.
As luzes do jardim foram ligadas e davam um aspecto onírico lugar. Enquanto jantavam, Helena não percebeu o semblante de tristeza que ocupava as faces de seus pais e do mordomo nos momentos em que eles não estavam fingindo felicidade.
Depois do jantar, Bruce ajudou Helena a utilizar o telescópio e a menina ficou impressionada com os astros que viu, ficando especialmente fascinada com as crateras da lua.
- Essa é a noite mais feliz da minha vida. – a menina falou para o pai quando desmontavam o telescópio. – Eu te amo, papai. – disse abraçando-a.
Bruce sentiu a garganta apertar.
Selina, que os estivera observando, chegou próximo a eles com a falsa alegria que carregara a noite toda.
- Quer dizer que você só ama o seu pai?
- Não seja ciumenta, mamãe. – Helena replicou. - Eu também te amo.
- Ah, é? Então por que a minha garotinha não vem me dar um abraço?
- Eu não sou uma garotinha, - Helena respondeu carrancuda, mesmo assim abraçou a mãe.
- Eu te amo tanto, gatinha. – Selina disse emocionada ao abraçar a filha.
- Está tarde, melhor entrarmos. – Bruce interrompeu antes que Selina desabasse outra vez.
Entraram em casa, e ambos foram ao quarto desejar boa noite para a filha.
Demoraram aquela vez, mais do que qualquer outra.
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Bruce rolava na cama há quase vinte minutos buscando um sono que não viria. Ele não ficou de todo surpreso quando a porta do quarto foi aberta.
De algum modo ele sabia que ela viria.
- Não consigo dormir sozinha hoje. – Selina falou na penumbra, despindo a camisola antes de subir na cama, ficando sobre ele.
- Você não precisa. – Ele falou antes de beijá-la.
Tiveram uma de suas noites mais apaixonadas.
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Na manhã seguinte, Bruce outra vez não ficou surpreso quando acordou sozinho.
Foi melhor assim, ele se convenceu. Melhor que ela tivesse ido, ele não teria coragem de deixá-la ir.
Quando desceu, Selina e Helena tomavam café da manhã.
- Bom dia, dorminhoco. – Selina falou em sua falsa alegria. – Estávamos esperando você. Eu disse a Helena que temos uma grande surpresa pra ela.
- Já estou ansiosa. – a menina respondeu contente enquanto comia seu cereal.
- Os senhores me perdoem, - Alfred que estivera servindo o café de Helena, interrompeu. – Mas eu não posso participar disso... Me dê um beijo, princesinha.
Inocente, Helena beijou a bochecha do mordomo. Alfred deixou-os antes que suas lágrimas o denunciassem.
- Alfred tá estranho... – a menina comentou quando o mordomo saiu. – Me pediu pra beijar ele... deve estar doente.
- Quando terminarem o café, estarei esperando na sala. – Bruce anunciou.
- O senhor não vai tomar café da manhã, papai?
- Hoje não, princesa. – Bruce falou saindo, mantinha as mãos nos bolsos e tinha o semblante triste.
- Ué, tá todo mundo doente hoje, eu acho. – Helena disse quando o pai saiu. – Deve ter sido os doces do piquenique...
- Helena, termine seu cereal. – Selina disse séria, entrando em seu modo de defesa. - Não vamos deixar seu pai esperando.
- É, a senhora também deve estar doente... a senhora adora fazer o papai esperar...
- Acho que todos estamos, gatinha. – Selina respondeu perdendo a pouca fome que tinha.
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Helena chegou saltitante a sala, estava acompanhada de Selina e completamente alheia ao semblante funesto de seus pais.
- Qual é a grande surpresa, papai?
A menina perguntou de um jeito tão meigo ao sentar-se no colo de Bruce que ele vacilou por um instante.
- Querida, você gosta daqui, não gosta? – ele começou com rodeios e Selina observou que isso não era coisa dele.
- Gosto sim. Essa casa é muito bonita e a cidade não é feia como Gotham ou Metrópolis.
- Meu bem, é bom que você goste, porque você vai ficar aqui. – ele falou de uma vez. - Vai estudar aqui, em uma escola muito bonita, com muitas meninas da sua idade.
- Essa escola é perto do chalet, papai?
- É sim, princesa.
- Então o senhor vai poder me pegar todos os dias? – a menina indagou animada.
- Não, querida. – Bruce procurou as palavras. – Nós não vamos ficar aqui, você vai morar na escola. Eu e sua mãe vamos voltar para Gotham.
A menina pareceu confusa, depois assustada.
- Eu não quero ficar aqui sem vocês. – ela reclamou, ficando com medo. - Eu não quero morar numa escola idiota!
- Querida, nós vamos vir lhe visitar, - Bruce recomeçou cauteloso. – Podemos passar o verão com você.
- NÃO! – a menina já tinha lágrimas nos olhos, entendendo pelo semblante do pai que ele não estava brincando. - Mamãe! – chamou saindo do colo de Bruce e indo até Selina que observava do outro lado da sala, sem coragem de se aproximar. – diz pra mim que isso não é verdade! Diz pra mim!
- É sim, Helena. – Selina falou séria. - Você precisa ficar.
- Por que vocês não me amam mais? – a menina indagou aflita, olhando do pai para mãe que estavam em lados opostos da sala.
- Nós te amamos, princesa. – Bruce respondeu indo até ela. – mas não podemos ficar com você. É perigoso. Gotham é perigosa...
- Vocês não me querem mais! – a menina disse chorando. – O que foi que eu fiz? Por que vocês vão me abandonar? Eu não vou ficar aqui!
- Você vai. – Selina falou com o tom de voz duro que Helena conhecia. Ela só queria acabar com isso logo. – É definitivo.
- Eu não quero! – Helena chorava. – Papai, - ela chamou exasperada pegando a mão de Bruce. – O senhor prometeu... lembra? prometeu que nunca mais ia me abandonar... o senhor prometeu!
- Você precisa ficar, princesa – Bruce disse sem coragem de olhá-la, soltando a mão da menina. – Alfred já arrumou suas coisas, você vai hoje à tarde.
- Eu não quero, eu não quero... – a menina dizia às lágrimas. – EU NÃO QUERO IR!
- VOCÊ VAI, E NÃO SE FALA MAIS NISSO! – Selina replicou assumindo sua postura mais intimidadora. – Um dia você vai entender.
- EU NÃO QUERO ENTENDER! - Helena gritou abrindo os braços.
- BASTA! – Bruce falou alto com um tom perigoso não usava com a família. – Você vai... e não adianta chorar.
- VOCÊ DISSE QUE NÃO IA MAIS ME ABANDONAR! – Helena gritou pra ele. Tinha a face vermelha e molhada de lágrimas. - EU ODEIO VOCÊ!
- É melhor que os senhores saiam. – A voz de Alfred foi ouvida. – Me deixem cuidar da senhorita Helena, creio que o que foi dito é suficiente.
Alfred abraçou Helena e consolava a menina enquanto seus pais saíram da sala. Bruce foi para o escritório e Selina para seu quarto. De onde estavam, eles ouviram o choro de Helena por muito tempo.
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Helena vestia o uniforme tradicional da Escola Wolpuk para meninas e ainda chorava o tempo todo quando Alfred a levou até o carro aquela tarde.
Bruce e Selina estavam do lado de fora da casa para se despedir da menina.
- Vou sentir saudades. – Bruce disse se aproximando, mas Helena virou o rosto e se recusou a deixá-lo se aproximar.
- Helena, por favor. – Selina pediu sem se importar mais em esconder as lágrimas.
A menina se recusou a olhar para a mãe também. Antes de entrar no carro, ela voltou-se para os pais.
- EU ODEIO VOCÊS!
Ela entrou no carro e Alfred olhou pesaroso para o casal antes de entrar também.
Selina e Bruce viram o carro partir. Ela chorava copiosamente, ele tinha os olhos molhados. Uma dor gigantesca se abatia sobre os dois.
Olharam até o carro desaparecer depois do portão da propriedade.
- Como nós pudemos? – Selina balbuciou olhando para o horizonte.
Bruce ficou ao lado dela, mas não disse nada. Não conseguia dizer nada.
- Pegue. – Selina falou entregando a Bruce o anel de noivado.
- Selina, vamos conversar...
- Não tem nada pra conversar... – Selina cortou. – Já estava decidido antes. Eu não consigo mais ficar perto de você. O seu rosto... eu vou ver Helena o tempo todo, eu vou lembrar que não posso ficar com ela, que ela me odeia. Você me deu ela e voltou só pra tirá-la de mim.
- Eu também estou destruído.
- Então junte os seus pedaços, que eu vou juntar os meus. Eu estou indo embora.
- Para onde? – Bruce indagou, temendo que ela não respondesse.
- Gotham, é claro. – ela respondeu como se fosse óbvio. – Alfred chamou um carro para me levar ao aeroporto, preciso me apressar ou perco meu voo.
- Achei que voltaríamos juntos...
- Não, Bruce. Chega de jatinhos particulares, chega de chalets, chega dessas roupas de grife. – ela falou pegando as próprias roupas. – Eu vou voltar pro meu mundo. E vou viver do meu jeito. Do jeito que eu sei fazer...
- Você vai voltar a roubar?
- Eu vou fazer o que for necessário pra sobreviver, como eu sempre fiz.
- Selina, você não precisa...
- Eu preciso. Eu não quero mais viver na sombra das suas decisões, Bruce. Eu já perdi demais.
Selina o deixou sozinho e pouco tempo depois foi levada pelo carro que Alfred contratara. Bruce a viu da janela do escritório, ela foi embora praticamente com a roupa do corpo, deixara pra trás todas as coisas que Alfred ou Bruce lhe comprara, roupas, joias, cosméticos, até o celular fora deixado no chalet.
Quando Alfred retornou já era noite. Bruce preferiu não perguntar como fora a despedida de Helena, mas pelo semblante triste do mordomo, ele podia imaginar.
Partiram para Gotham aquela noite, Bruce levava um coração oco, vazio. Um luto enorme o preenchia.
Tivera a segunda maior perda de sua vida.
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Helena não voltou a falar com os pais.
Ela não atendia os telefonemas, não respondia as mensagens, não os recebia nas vezes que foram visitá-la na escola. A decisão da menina não esmaeceu com o tempo e não houve verões ou feriados que ela passara com os pais. Seu único contato com a família era Alfred, com quem a menina se comunicava regularmente. Ela passava as férias e feriados na escola, e dizia para todo mundo que era órfã.
Tampouco Bruce e Selina reataram seu relacionamento. Ele se tornou cada dia mais sombrio, mais obsessivo, mais violento, mais solitário. Selina se tornou mais cínica. Mais ardilosa. E muita mais egoísta. Sem Helena, eles finalmente deixaram aqueles dois adolescentes para trás.
Quando Selina retornou a Gotham, voltou ao Narrows onde estabeleceu residência. Depois que Alfred lhe enviou uma caixa com seus pertences antigos e com sua roupa de mulher-gato, ela assumiu de vez a identidade e virou figura conhecida no mundo do crime de Gotham. Mas dessa vez, ela não trabalhava para ninguém, só para si mesma. Certa noite, uma maleta foi deixada na sacada de seu apartamento, a maleta continha em dinheiro o valor exato que havia na maleta que Bruce confiscara. Ela enviou a maleta para Alfred Pennyworth, com orientações para que o dinheiro fosse colocado em uma conta em nome de Helena Martha Kyle Wayne.
Selina desistiu de estudar arte na universidade, mas continuou estudando sozinha nas noites livres em seu apartamento. Sem uma criança pra cuidar, Selina descobriu que tinha muito tempo livre. A ladra também começou a colecionar arte, a arte que ela roubava. Ela foi presa muitas vezes, algumas delas, pelo próprio morcego, mas sua fiança sempre era paga por um benfeitor anônimo poucos dias depois, e os advogados mandados por esse benfeitor, geralmente conseguiam inocentá-la ou achar erros legais para arquivar seus processos.
As pessoas em Gotham lembravam que Bruce Wayne tivera um affair com a controversa gatuna Selina Kyle, e que chegara até a propor-lhe casamento, mas graças ao feitiço de Zatanna, ninguém lembrava da filha que os dois tiveram. Selina era vista apenas como mais uma na lista dos breves e exóticos relacionamentos do extravagante playboy.
E quando o tempo passou e as feridas se tornaram cicatrizes doloridas, a mulher -gato passou a ter breves momentos de paixão com o morcego pelos becos e telhados de Gotham, mas Selina nunca mais esteve com Bruce. A não ser quando eles trocavam algumas palavras educadas ou dançavam uma música nas festas da alta sociedade que ela frequentava quando estava planejando algum golpe.
Bruce teve muitas namoradas, Selina teve muitos casos. Nem as namoradas e nem os casos duravam.
Wayne voltou as notícias como o playboy irresponsável por seus excessos, suas festas e suas mulheres, enquanto o morcego se estabeleceu como o grande vigilante de Gotham. Tanto Wayne quanto o morcego eram conhecidos internacionalmente. Dois anos depois de deixar a filha no colégio interno, Bruce Wayne adotou um jovem órfão que perdeu os pais em um trágico acidente no circo. O garoto tinha a mesma idade de Helena, a menina viu isso nos jornais.
Aos dezesseis anos, Helena Wayne deixou de existir.
Ela cansou das paredes frias e cinzas da velha escola para meninas. Uma noite, fugiu do lugar e saiu em busca de seu lugar no mundo. Ela não sabia onde seria, nem se iria achar. Não sabia se um dia perdoaria os pais, ou se algum dia encontraria um lugar que pudesse chamar de lar outra vez.
Helena só tinha certeza de uma coisa: se ela não tivesse ninguém, ela não corria o risco de ser abandonada novamente.
E o objetivo de Bruce e Selina foi cumprido: sua filha cresceu longe da mira dos malucos de Gotham. Estava viva e estava bem, exceto pelo coração, assim como o de seus pais, o coração de Helena estava quebrado de forma permanente.
/
"Mesmo quando eu não mais estiver
Lembre que me ouviu dizer:
O quanto me importei
E o que eu senti
Agora, só agora
Talvez você perceba,
Que eu nunca vou deixá-lo ir...
Que eu nunca vou deixá-lo ir...
Eu não vou deixá-lo ir."
(Pitty, Só agora: Chiaroscuro, 2009)
NOTAS FINAIS
Obrigada por chegar aqui, deixem seus comentários, e por favor, não me odeiem.
Continua em "O retorno da filha de Gotham".
