POR RODRIGO:

Daqui a uma hora vou para minha casa e recuperar minha mulher!

Será que vou conseguir? Será que a Manu vai acreditar em mim, confiar no meu amor?

Meu Deus, eu não consigo viver sem ela, isso não pode ser uma possibilidade!

Quando nosso casamento acabou, no meio de tanta confusão, não percebi o que aconteceu com ela, mas agora, olhando para trás, tenho um medo imenso de ela me cortar da vida dela como daquela vez, eu sei que deve ter sido difícil, mas ela é tão forte que sei que pode acontecer.

Não sei bem se minha abordagem foi a melhor em tentar recuperá-la, mas pensei que a primeira coisa a ser feita era me inserir de novo na vida dela, compartilhar com ela o que nos uniu da primeira vez, aquele senso de família.

Eu sei que forcei um pouco a barra, mas acho que peguei ela tão de surpresa que acabou dando certo.

Estar todos os dias naquela casa, ajudando na cozinha, conversando com a Manu foi ótimo. Como senti falta de dividir minha vida com ela, que no final das contas, foi minha única companheira, alguém que me fazia crescer, ser um homem melhor, um pai melhor... enfim...

Pude dividir com a minha mulher (porque ela é minha mulher!) os meus planos para o nosso futuro – ainda que ela não soubesse que estava pensando na gente – falar com ela sobre o meu trabalho, fazer planos para nossa filha, foi o que me recarregou e espero que ela também tenha visto aqueles momentos como uma coisa boa.

Quando percebi que não tinha conseguido mudar as coisas de fato, que ela ainda estava com aquele mané, me desesperei.

Só de pensar naquele dia que eu fui até a nossa casa e encontrei o tal do Gabriel lá, me enche de raiva.

Eu tinha tudo planejado. Com a desculpa do carro eu iria lá, puxava assunto, convencia ela a jantar comigo, quem sabe me declararia de verdade, daria um empurrãozinho para a nossa volta, de repente poderia até enfraquecer aquele namoro dela...

Mas quando vi a Manu abrindo a porta, senti meu sangue ferver! Ela estava tão atraente, como eu nunca mais tinha visto.

O cabelo bagunçado pelos dedos dela e dele que passaram por lá, o rosto com marcas da barba dele, a boca vermelha de tanto ser beijada, o vestido que estava levemente levantado com botões fora de ordem me deixaram certo que as mãos daquele babaca estiveram no corpo dela e eu não sabia se pulava de uma ponte ou no pescoço do Gabriel.

Se a minha visita não serviu para me aproximar dela, espero que com o constrangimento que eu causei, tenha ao menos prejudicado a noite que ele pensava que teria com a minha esposa.

Depois disso percebi que tinha que fazer mais, o que a Nanda me falou sobre não deixar ela em paz não saía da minha cabeça, até esconder material da Julia eu escondi, só para ter que levar na casa dela.

Mas parece que eu consegui pelo menos uma recompensa pelo meu esforço! Foi indescritível o momento em que, sem querer, flagrei a Manu saindo do banho!

Como ela está linda! Sempre foi, claro, mas agora parece que tem alguma coisa a mais, eu nunca quis tanto tê-la em meus braços como naquele momento. Me senti um menino levado, espiando a vizinha gostosa, quando na verdade eu sou um ex-marido apaixonado louco pela mulher gostosa que tanto amo.

Depois que eu levei bronca e praticamente fugi antes que ela pudesse brecar minhas visitas constantes eu até parei para pensar nessa parte do nosso relacionamento.

Cama nunca foi o nosso forte, não que eu não me sentisse atraído pela Manu, claro que depois que eu a percebi, não conseguia entender como não tinha reparado na beleza dela.

Mas era difícil, a gente vivia naquela casa e Gramado, com uma filha pequena e uma avó morando com a gente. Era complicado roubar momentos pra gente.

A gente tinha que se amar baixinho, no meio da noite e sempre com a preocupação de alertar alguém do que a gente tava fazendo, o que era um absurdo, já que poucas vezes consegui levar a Manu para cama antes de casarmos e depois disso ninguém poderia recriminar a gente.

Com o passar do tempo eu consegui romper aquela timidez dela, consegui tocá-la com liberdade e quando estávamos verdadeiramente sozinhos era ainda melhor. Só que no fundo eu sempre tive muito cuidado com a minha mulher, não queria ofendê-la ou assustá-la, afinal, apesar de não ter sido o primeiro homem na vida dela, ela com certeza não tinha experiência antes de ficarmos juntos.

Pensei que quando nos mudássemos para Porto Alegre as coisas iam ficar mais quentes, mas a verdade é que já tínhamos nossos jeito e por mais que eu desejasse a Manu, eu não sentia o descontrole que lembrava sentir quando olhava a Ana antes do acidente.

Para me ensinar, a vida resolveu me pregar uma peça, pois foi apenas quando não tinha mais a Manu que eu voltei a percebê-la.

Lembro quando a Nanda me disse que os caras queriam a Manu na balada, o quanto aquilo me preocupou, quando surgiu o Gabriel nem se fala, mas foi mesmo no momento que eu me libertei da Ana, que depois da cirurgia eu roubava olhares da Manuela que eu lembrei do quanto ela era maravilhosa. Uma companheira maravilhosa, uma mulher maravilhosa!

Não sei o que aconteceu, nem gosto de pensar que o idiota do Gabriel teve alguma parcela de contribuição para isso, mas de uns meses pra cá tenho achado a Manu tão mais mulher.

Os vestidos que eu sempre amei foram perdendo o casaquinho que a escondia, a forma como ela estava andando, falando, até de calça jeans eu vi a Manu nesses tempos, marcando cada curva que eu tanto queria voltar a tocar.

Enfim... além de toda a saudade que eu já estava sentindo, depois de vê-la naquele dia, saindo do banho, eu precisava voltar a ter aquela mulher nos meus braços e provar pra ela que tudo seria diferente, que tudo seria melhor!

Pelo menos agora parece que o caminho finalmente está livre! Claro que preferia mil vezes que ela tivesse terminado com ele do que ter visto o namoro acabar por conta de uma viagem dele.

Mal me contive de tanta alegria quando soube que meu rival iria embora! Abracei a Nanda aos risos, com tanta alegria que ela nem me recriminou.

Já estava pensando como iria abordar a Manu de novo quando aquela maldita foto foi aparecer na coluna social.

Quase quebrei o computador quando vi a legenda "A empresária Manuela Fonseca e o solteiro mais cobiçado do RS Gabriel Figueiredo em despedida de amor de cortar o coração".

A foto dizia tudo, claro que eles estavam juntos, dava pra ver o quanto aquele beijo tinha promessas e eu não suportei! Tentei tirar satisfações com a Nanda que de repente criou consciência e disse que preferia não divulgar nada da vida da amiga. Amiga? Ela era minha irmã, ela me devia lealdade... Tentei minha filha - cuja inocência era indubitável – que falou o quanto a mãe estava triste, com saudades do namorado.

Aquilo deu um giro na minha cabeça, meu ciúme me consumia e eu só conseguia sentir raiva do idiota que mesmo longe me atormentava. Como não consegui descontar meu ódio em quem eu queria, acabou sobrando para a Manu, que na nossa nova rotina, teve que aguentar minhas patadas provenientes do ciúme que nem tentava conter.

Claro que ela iria tirar satisfação, já esperava por isso, o que não esperava era despejar nela, de forma totalmente diferente do que planejava, que a amava e que queria ela de volta.

Pelo menos a minha raiva serviu para me tirar dali antes de estragar tudo e agora, depois de pensar nisso o dia inteiro, chegou a hora de pegar o carro e voltar para minha casa, em busca da minha mulher!

POR MANU:

Abro a porta para Rodrigo e tenho uma sensação de deja vu, quando logo depois da minha recuperação ele veio me procurar.

Diferentemente daquela época, que ele queria falar sobre a Julia, eu sabia que hoje ele estava aqui para falar da gente.

Depois de um oi desconfortável, me vejo sentada de frente para ele esperando alguma coisa acontecer.

R: Manu, desculpa pelo meu surto de hoje de manhã, não era minha intenção falar com você daquele jeito.

M: Não tem problema Rodrigo, na verdade a gente pode esquecer toda aquela conversa, nem precisava você ter vindo aqui para isso.

R: Você não entendeu, eu estou pedindo desculpas por ter me alterado, por ter sido grosseiro, mas tudo o que eu disse... eu não estou me desculpando por isso... afinal, era tudo verdade.

M: Rodrigo... por favor... nós já tivemos essa conversa, a gente não precisa..

R: Precisa sim Manuela, por favor, vamos esclarecer tudo, eu estou explodindo de tanta coisa que tenho guardado nesses últimos tempos, sentimentos que se confundem e aumentam desde que a gente se separou.

M: Ok, se você não quer deixar pra lá, fala o que você quer falar.

Rodrigo chega mais perto, pega a mão de Manu – ela resiste um pouco, mas deixa, ele dá um sorriso tímido.

R: Primeiro me responde uma coisa, por favor... Afinal de contas, você e o Gabriel ainda estão juntos?

M: Não estamos Rodrigo, eu te disse a verdade, nós terminamos antes de ele ir embora.

R: E aquela foto no jornal? A Julia também me disse que você estava sofrendo com a ausência dele. – Rodrigo olha pra baixo, respira fundo e pergunta – Você realmente ama o Gabriel?

Manu fica com dó, o ex-marido está tão vulnerável que ela percebe que de fato tinha que baixar as defesas para aquela conversa.

R: Eu não concordo que devo te explicar essas coisas, mas se você quer tanto saber...

Apesar daquela legenda sem noção, aquele beijo da foto era um beijo de despedida, uma despedida permanente.

Eu realmente fiquei triste com o término do meu namoro, não acho que seja apropriado elaborar, mas o Gabriel me fez muito feliz – O olhar do Rodrigo para ela é de cortar o coração.

R: Mas você queria que ele estivesse aqui? Você estava firme com ele?

M: Eu não sei até onde isso é relevante, já que a realidade é que não estou mais namorando, mas se isso é importante para você... Eu não estava segura no meu relacionamento, estávamos passando por um momento difícil e eu tinha a intenção de romper com o Gabriel. Ele sabia disso quando me falou que ia embora. O nosso término acabou sendo uma coisa natural. Eu não o amo!

Rodrigo respira aliviado.

R: Obrigado Manu, por me falar isso, mesmo se a resposta fosse diferente eu fico feliz em ter noção do que enfrentar.

M: Como assim enfrentar?

R: Como assim? Há meses eu durmo e acordo pensando no dia que você estaria livre novamente. O que eu falei hoje de manhã é sério Manu.

Eu te amo! Eu te amo muito!

M: Rodrigo... - Manu solta a mão dele e se levanta, anda um pouco na sala e Rodrigo se levanta, virando-a lentamente em sua direção, mantendo as mãos em seus braços.

R: Por favor, não foge de mim.

M: Eu não estou fugindo, só acho que talvez essa conversa não tenha mais sentido. Nós já não passamos por isso? Aqui nessa mesma sala, meses atrás.

R: Não, não passamos.

Daquela vez eu vim aqui me explicar quanto às circunstancias do nosso término, eu vim te pedir perdão e apesar de tudo que foi dito, eu lembro que você me perdoou pelos meus erros daquela época.

M: E eu te perdoei. Mas como eu disse, isso não significava nenhuma mudança no nosso relacionamento.

R: É essa parte que eu não me conformo e não vou me conformar.

Eu estava respeitando tua vida, o teu namoro com aquele cara, mas acho que deu pra perceber a minha presença, não é mesmo? Desde que eu percebi que a minha vida acabou sem você eu sabia que ia ter que lutar, que ia ter que recuperar a tua confiança e, claro, o teu amor.

Vir pra cá, para o buffet, te ver com a nossa filha, te ver cozinhando com um sorriso nos olhos, te ver irritada com a minha presença, te ver nua no nosso quarto... – Manu instantaneamente ruboriza com a lembrança, Rodrigo sorri novamente – Todos esses momentos tem sido uma migalha da vida que nós tivemos juntos e que eu quero de volta e me desculpa pela presunção, mas acredito que você também quer.

Eu te disse que te amo e eu não vou aceitar que você não acredite, que você duvide da mesma forma que disse ter duvidado durante a tempestade que nossa vida passou.

Eu te amo mais do que quando nos casamos, quando nos mudamos pra cá, quando íamos para Paris, eu te amo mais todo dia, eu te descubro, te redescubro todos os dias e eu preciso estar com você, conversar contigo, te olhar, te tocar, te beijar.

Nesse momento, Rodrigo aproveita que Manu estava absorta em tudo que ele falava e lentamente se aproxima, fechando o espaço entre eles com o mesmo cuidado da primeira vez.

Encosta o nariz no dela e percebe que não tem resistência, ele lentamente encaixa seus lábios nos dela e se sente um homem completo novamente.

Quando tenta aprofundar percebe que ela se afasta e sem pensar duas vezes coloca uma mão em sua cintura e a segura no beijo com uma mão em sua nuca.

Manu ainda resiste, tenta fugir do beijo, mas sucumbe a ele, abre a boca para o gosto doce do marido e se entrega ao beijo dele, o beijo que faltava na sua vida por tanto tempo.

Rodrigo sente os braços de Manu envolta do seu pescoço e sorri, aproveitando cada segundo do contato de suas bocas, sofre com a necessidade de se afastar para pegar fôlego, mas não consegue para de beijá-la.

Manu sente a necessidade de uma respirada mas profunda e desacelera o contato entre eles. Assustada com a entrega ela se afasta e o encara com medo do que estar por vir.

R: Manu, dá uma chance pra gente, eu te amo! - Ele fala mergulhando em outro beijo.

Manu afasta a boca da dele, o que o faz encher seu pescoço, cabelo, rosto, o que encontra, de beijos e ela não pode negar o quanto é difícil resistir.

M: Eu não vou mais mentir Rodrigo, eu também te amo, mas não é tão simples.

Rodrigo abre um sorriso iluminado ao ouvir que ela o ama: Por que não?

M: Porque eu aprendi que amor não é o suficiente para um relacionamento, eu preciso de mais.

R: Me fala o que você precisa, eu faço o que for necessário, nós fazemos o que for necessário. Não deixa a gente ser infeliz, por favor.

M: Eu preciso confiar em você, confiar no seu amor. Eu preciso te conhecer de novo e preciso que você saiba que eu não sou a mesma mulher que você casou e que separou de você.

R: Eu sei que você mudou e eu sei que eu também mudei, mas se a gente se ama, a gente pode fazer isso, a gente pode se conhecer de novo. Eu tenho certeza que nós somos capazes de fazer isso dar certo, de retomar nosso casamento.

M: Ai Rodrigo, seria tão mais fácil não te amar, não te querer mais.

R: Não fala assim, não fica triste que você me ama, meu coração fica tão apertado com a possibilidade de não te ter – Ele a beija novamente.

M: Me desculpa Rodrigo, é que eu tenho tanto medo de dar tudo errado.

R: Não vai dar errado.

M: Como você pode estar tão certo?

R: Por que eu sei o que tem dentro de mim e quando eu te beijo eu lembro do amor que eu tive a sorte de receber de você. Você é a mulher da minha vida, você é minha companheira, minha parceira, a mãe da minha filha, o meu amor. Não tem como dar errado, a gente só pode dar certo.

M: Nós já demos certo uma vez... e não foi o suficiente.

R: Como você mesma disse, nós mudamos, eu não sou mais aquele cara inseguro, assustado por uma história adormecida. Eu sou um homem que acorda todos os dias com o coração cheio da Julia e de você.

M: Já eu criei inseguranças, eu não sou mais segura do que está dentro de mim.

R: Mas isso vai mudar. Você pode ter perdido um pouco da sua inocência, e me dói pensar que sou responsável, mas você está mais forte e juntos a gente é capaz de superar tudo que nos afasta.

M: Eu não sei como você consegue.

R: O que?

M: Ressuscitar tudo que eu fiquei tentando matar dentro de mim. Parece que estamos começando de novo, eu sinto as borboletas na minha barriga, mas não sinto a mesma certeza de anos atrás.

R: É melhor assim Manu, vamos começar de novo, sem as expectativas impossíveis do primeiro amor, mas com a maturidade de um casal que é companheiro, que decide trabalhar na relação, que decide conscientemente investir no amor que a gente sente um pelo outro.

M: Eu realmente te amo, apesar de tudo, eu te amo Rodrigo.

R: E eu te amo, não duvida disso, eu te amo! Manu... meu amor...

Eles se beijam com vontade, com sofreguidão, com saudade.

Rodrigo empurra Manu para o sofá e não para de beijá-la, ela retribui e eles ficam ali, namorando não como adolescentes, mas como um casal que se reencontrou e que não consegue parar de sentir o outro.

Quando Rodrigo percebe que tem Manu nos braços ele não resiste em tocá-la com mais liberdade, a mão que estava no joelho da esposa vai subindo bem devagarzinho, levando com ela o vestido de Manu.

Nessa hora Manuela recobra os sentidos e breca o marido.

M: Ainda não Rodrigo.

R: Eu estou com tanta saudade de você.

M: Eu também sinto sua falta, mas vamos devagar, se a gente vai trabalhar na gente eu preciso de tempo.

R: Claro, eu te entendo, sofro – eles riem – mas entendo. Eu sei que não posso retomar nosso casamento agora, nesse exato momento, mas preciso da esperança de que vamos conseguir.

M: Nós vamos, você me disse que vamos.

R: E agora? Já que vc não voltou a ser minha mulher , o que somos?

M: O que acha da gente namorar? Pulamos essa parte lembra?

R: Eu vou adorar namorar você meu amor...

Entre beijos e beijos os dois conversam sem defesas.

Eles falam do tempo que estiveram separados, da época que ela estava em Floripa, do trabalho dela lá.

Falam da Julia, relembram a criação da menina, e se derretem de orgulho por ela.

Lembram da cirurgia da filha e choram juntos, ele a segura como queria ter feito naquela ocasião e despeja toda a sua gratidão pela mulher.

Conversam sobre as inseguranças dele tanto no trabalho, mas também como pai.

Ela acalma o ciúme descontrolado do Rodrigo, cuja raiva pelo Gabriel ameaça a paz do casal em reconciliação. Ela se envaidece e o enche de beijinhos.

Passam a madrugada nessa nuvem de passado e presente e quando o sol já aprecia, eles sobem ao quarto que era deles e dormem abraçados, de conchinha, exaustos, preocupados e felizes por estarem nos braços um do outro.