O irmão bateu na porta, demonstrando relutância ao fazê-lo. Somente o irmão mais novo para obrigá-lo a fazer uma estupidez daquelas, preponderou Kankuro com as sobrancelhas ligeiramente inclinadas em reprovação e desgosto. Claro, como o perfeito mulherengo que era e totalmente avesso a relacionamentos sérios, entendia ou pensava entender os critérios do ruivo para permanecer solteiro, mas aquela história de recusar uma esposa,ainda que de fachada, ele seria incapaz de compreender, sobretudo fingir compreender. Não podia negar, em seu ponto de vista particularmente, as coisas seriam muito mais fáceis e simplistas se Gaara resolvesse se casar com Matsuri. Sabia que, mesmo que ele não morresse de amores e paixão pela assistente, tinha respeito e até certo ponto uma atração por ela, podiam aprender a conviver juntos e assim construir um casamento estável.
Mas não. A ideia, de acordo com o próprio ruivo, era inconcebível. Kankuro revirou os olhos, talvez aquilo fosse conseqüência da influência esmagadora que o Uzumaki, conscientemente ou não, tinha sobre o apático de olhos esverdeados. Sabia melhor do que ninguém, que, mesmo que Gaara não estivesse disposto a uma mudança completa e total de seu caráter e personalidade, ao menos boa parte foi dissuadida, e graças, a Naruto.
Bateu na porta uma segunda vez, ainda que ligeiramente frustrado e aborrecido. Ordens são ordens, no entanto, e ele não podia se dar ao luxo de desobedecê-la, especialmente conhecendo a personalidade pontual e excêntrica do mais novo, que em palavras mais curtas era cheio dos mimimi - pelo menos, era assim que o Sabaku No mais velho via.
Gaara balbuciou um alto "entre", concedendo permissão ao mais velho, enquanto interrompia a leitura das fichas técnicas dos profissionais que seriam enviados, ainda que temporariamente, para a Vila da Areia.
—Você realmente vai levar essa loucura adiante? — indagou, sem obter uma resposta verbal por parte do outro que realmente o irritou. — Pelo menos tenha a decência de responder sim ou não. — aborreceu-se Kankuro, que detestava respostas monossílabas, e não, ele nunca iria se acostumar aquele comportamento levemente bipolar do mais novo, não importasse quantos anos ou séculos se passassem, ele continuaria desprezando veementemente aquele mecanismo de defesa – e muitas vezes, inclusive de ataque – criado friamente pelo líder do País do Vento.
—Sim. — limitou-se a responder, evitando o impulso de sorrir debochadamente na direção do irmão, que estava claramente reprimindo a vontade de assassiná-lo. No fundo, talvez todos os três tivessem tendências fratricidas.
Contando até dez mentalmente, ele tentou lembrar a si próprio que de nada adiantaria brigar fisicamente com aquele cretino, especialmente porque o cretino, querendo ou não, era muito mais forte do que ele e provavelmente não hesitaria em arremessá-lo pela janela, ou até mesmo o afogasse em areia.
—Muito bem, então. — comprimiu os lábios, apressando os passos em direção a mesa do grande e temível Kazekage de Suna. — Aqui está o esboço do contrato. — disse pausadamente, escolhendo com o máximo de cuidado possível as próximas palavras que diria. — Posso lhe fazer uma pergunta? — ao vê-lo assentir em confirmação, prosseguiu, soltando um pigarro. — Como você pode ter um contrato se ainda não tem uma candidata que lhe agrade?
—Estou providenciando isso. — fora sisudo e sucinto em sua replica, não queria prolongar aquela discussão, inútil e irrelevante. — Algo mais? — arqueou a sobrancelha, aguardando, pelo o que obviamente viria a seguir.
Não era tolo, embora muitas pessoas acreditassem ridiculamente nisso, o Kage era inteligente o suficiente para conseguir ler entrelinhas, especialmente quando se referiam aos seus irmãos. Ele conseguia ver além das camadas.
Kankuro relaxou os músculos, refletindo consigo o quanto toda aquela formalidade e falsa educação estava-o enchendo os nervos, entretanto, não se atreveu a balbuciar tais pensamentos. Não era hora de arrumar confusão.
—Gaara, você já parou para imaginar como você quer a criança? Sabe, teoricamente falando, está no seu direito, como comprador, de selecionar o "produto" e a sua barriga de aluguel. — começou, fazendo uso das aspas e gesticulando de forma eloqüente. — O que estou querendo dizer, caso não tenha ficado claro, é que você pode escolher como quer a criança, se vai querê-la ruiva, morena, loira, de cabelos coloridos... Branca, negra, parda... — conforme ia dizendo, ia enumerando as opções do irmão. — Se quer que a criança nasça com olhos escuros, olhos claros, olhos castanhos, pretos, azuis, verdes, âmbares, e etc...
Aquele era um ponto genuinamente interessante, foi obrigado a constatar, ainda que contrariado. Ele realmente não tinha parado para pensar a respeito. Imediatamente lembrou-se de Shikadai, e do quão parecido era com o pai, embora possuísse as características da mãe; a mesma coisa com Naruto, e tantos outros da vila, que já tivera a oportunidade de ver em ocasiões anteriores. Será que ele desejava uma criança com seus olhos verdes e cabelos vermelhos? Emudeceu-se, seriamente pensativo. O que internamente satisfez Kankuro, que havia conseguido cutucar a ferida da onça direitinho, agora bastava que aquilo clareasse a mente do irmão. Ora, se ele não ia mudar de ideia, o mínimo que poderia fazer a respeito seria auxiliá-lo, não é mesmo? Sabia que com Temari, de qualquer maneira, eles não poderiam contar.
—Você também já deveria começar a pensar no sexo. — continuou. — Vai querer que seja menina, ou menino?
Sabia que muitos esperavam que seu primeiro herdeiro fosse do sexo masculino... Crispou os lábios, reflexivamente. Não era birra com a história do conselho e nada do tipo; se viesse um garoto, certamente ficaria muito feliz e satisfeito, poderia ensiná-lo muitas coisas e prepará-lo não somente para a vida como líder da nação, como também para a vida shinobi, no entanto... A ideia de ter uma garota não era nada apavorante.
—O sexo não me importa. — decidiu, finalizando as fichas selecionadas que enviaria ainda naquela mesma tarde para os anciões malditos que esperavam, com ansiedade. — Eu tenho certeza que amarei e cuidarei da mesma forma.
—É, mas se for um garoto você vai passar tudo o que sabe da vida de shinobi. — contrapôs Kankuro.
—E se for uma garota eu também poderei passar tudo o que sei sobre a vida ninja, Temari mesmo é um exemplo de que pode ser mais forte e útil do que muitos homens, inclusive você. — ralhou friamente, vendo o outro lhe lançar um olhar irritante. Ele sorriu, era muito fácil provocá-lo. — De qualquer forma — prosseguiu, em tom comedido, respirando fundo. — Eu já tenho dados e informações suficientes da possíveis candidatas.
—Parece que você tem tudo planejado. — observou o outro, impressionado. — Sinceramente, eu não sei qual é seu problema mental, mas desde que você esteja feliz e ciente de que esse tipo de negócio é indissolúvel... — dera de ombros. Percebendo o olhar intrigado de Gaara,ele acresceu — Você pode se livrar da barriga de aluguel, proibi-la de ver a criança ou até mesmo de entrar em contato com você, mas do bebê não. Ele vai ficar com você, para o resto da sua vida. Você vai vê-lo nascer, crescer, se desenvolver e partir... Vai ser sangue do seu sangue, vai ser um Sabaku no, independente de ter uma mãe ou não. — finalizo, erguendo-se da cadeira. — Espero que realmente saiba o que está fazendo. — o alertou, antes de deixar a sala a passos rápidos, fechando a porta atrás de si.
O ruivo apoiou o rosto em seu antebraço, pensativo. Inspirou fundo,massageando as têmporas. E então os olhos recaíram-se para o papel que a loira de olhos azuis havia o entregado discretamente, ainda dentro do restaurante. Ali possuía os nomes das candidatas que ela considerava preparadas e adequadas. Continha todas as informações breves possíveis: nacionalidade, idade, nome e sobrenome, características físicas e etc. Ele encarou atentamente aquele papel, pensativo.
Obviamente, não podia escolher qualquer uma para aquela missão. Os conselheiros iriam arrancar o coro de sua pele e dar de comida aos animais selvagens. Temari provavelmente acabaria com sua masculinidade, para se certificar de que ele nunca mais se reproduzisse e Kankuro... Esse último provavelmente iria apoiá-lo, se lhe desse dinheiro o suficiente. Rolando os olhos, ele voltou a esfregar o rosto entre as mãos.
Queria saber qual era a sensação de ser pai. De ter alguém para cuidar, para amar, brincar e até mesmo contar histórias. Queria saber qual era a sensação de ser chamado de pai, apresentado aos amiguinhos... Queria desfrutar dessa sensação e desse sentimento incondicional de lealdade, já que ele próprio havia sido privado durante a infância. Tamborilou os dedos em cima da mesa, aflitamente. Surpreendentemente, as palavras de Kankuro ainda ecoavam dentro de sua cabeça, como um grito repreensivo. Embora não quisesse admitir, nem em voz alta, nem em voz baixa, nem para si mesmo, sabia que o irmão tinha razão na maioria dos argumentos levantados, seria estupidez negar isso. Era verdade. Algumas coisas estariam totalmente dentro de seu controle,mas talvez não saíssem da maneira que ele planejava e aspirava.
Recostou-se na poltrona de couro. O escritório do Nara,embora não se comparasse nem em metros nem em termos de conforto ao seu, ainda assim, era um bom lugar para se refletir e trabalhar sem ser perturbado.
Ajuntou a papelada, a colocando dentro da pasta e na seqüencia a guardou na primeira gaveta, antes de se levantar a passos rápidos, deixando o lugar.
Desesperada para fazer algo, mostrar-se útil de alguma maneira, a loira estava aceitando realizar tarefas alheias, simplesmente para evitar mais uma conversa constrangedora em família e foi assim que ela acabou frente aos portões dos Nara, para entregar uma mensagem do Hokage ao companheiro de time. Não era nada suspeito, ela vinha fazendo aquilo basicamente a manhã inteira, e inconvenientemente ou não, aquela era a ultima residência que ela ainda não havia visitado. Já entregara a mensagem até mesmo alguns ninjas ANBU.
Ah, o que a falta de trabalho não faz com uma mulher! Pensou, em meio a suspiros frustrado, abrindo os portões sem qualquer cerimônia e caminhando em direção a residência. Assim que abriu a porta, Ino foi surpreendida com uma cena, no mínimo, inusitada.
No centro da sala, o Kage estava brincando de carrinho com Shikadai, que ria largamente, às vezes até mesmo gargalhando, enquanto o ruivo sorumbático fazia voz infantil. Um sorriso imperceptivelmente tomou conta dos lábios da kunoichi, que precisou lutar contra o ímpeto de rir diante da cena.
Gaara sabia ser humano! Ela não podia demonstrar mais surpresa. Sim,é claro que durante aquelas vinte e quatro horas basicamente havia escutado muitas explicações e voltas desnecessárias sobre a história de alugar o útero,mas,ali, ela percebeu que ele realmente falara a sério sobre desejar ser pai e não podia ficar mais surpresa.
Ela observou, num misto de incredulidade com admiração, o homem de cabelos vermelhos apertar as bochechas do sobrinho, que gargalhava de maneira prazerosa e gostosa, vez ou outra mordiscando o dedo dele, que sorria de maneira pura na direção do pequeno ser de cabelos negros e pele bronzeada. Ino escorou-se no batente da porta, esquecendo-se brevemente do real propósito que a levara até ali.
As palavras saltaram de sua boca, antes que conseguisse se controlar.
—Você vai ser um ótimo pai. — e, amaldiçoando-se pela estupidez, acabou por quebrar o encanto privilegiado que estava tendo. Os poderosos olhos verdes d'água giraram até alcançá-la, encarando-a.
Tossindo compulsivamente, ela consertou sua postura, afastando-se da porta.
—Ah, Kage-sama, eu... Eu não...
—Há quanto tempo você está aí parada na porta, garota? — garota? Será que ele fazia ideia de quantos anos ela tinha? Com uma gota deslizando da testa, ela sorriu amarelamente. Ele realmente parecia constrangido,com as bochechas enrubescidas e os olhos ligeiramente arregalados. Ino não se conteve e acabou rindo.
—Digamos que a tempo demais, coisinha fofa do titio Gaa — debochou, vendo o homem ficar ainda mais vermelho, coisa que julgara impossível. Estava tão ou mais vermelho que os fios de sua cabeleira, e a Yamanaka gargalhou diante desse fato. — Não se preocupe, Kazekage-sama, seu segredo está a salvo comigo. — disse divertidamente, dirigindo-se até a cozinha, onde provavelmente encontraria Shikamaru auxiliando Temari a preparar o almoço.
Gaara fechou o rosto com uma mão, visivelmente nervoso e embaraçado pela cena protagonizada, enquanto o traidorzinho fofo ao seu lado continuava rindo da sua cara de bobo.
—Tsc. Shikadai, homens devem ficar unidos. — sibilou ao gorduchinho, que ronronou como um filhote de gato. — Você é mesmo um traidor. Podia ter me avisado! — sussurrou, enquanto brincava com a barriga do sobrinho, que desatava a rir ainda mais.
Alguns minutos então se passaram desde a chegada da moça de risada alta e escandalosa, e quando a mesma regressou da cozinha, tinha um sorrisinho que era uma mescla de satisfação com deboche que realmente frustrou o Sabaku, que respirando fundo e pausadamente, ameaçou.
—Se você algum dia, contar sobre o que presenciou ou escutou aqui, Yamanaka, eu juro que te acerto com um Sabaku no Kyuu.
Isso só serviu para levar Ino às gargalhadas, rindo com dificuldade, tentou parar de rir, escondendo a boca com a mão.
—Desculpe, Gaa, mas é meio difícil de acreditar que um homem que se apresente com esse apelidinho fofinho para um bebê, seja alguém ameaçador ou intimidador. Eu te respeitava mais no exame chuunin — provocou, sorrindo largamente.
O ruivo piscou, os enormes cílios avermelhados, desferindo a ela um olhar desconfortável.
—Você realmente não tem medo de morrer, tem, kunoichi?
—Não. — sorriu sarcasticamente, com ambas as mãos a frente do corpo em uma pose ainda mais irônica. Rindo, ela aproximou-se minimamente do lugar em que Gaara e Shikadai estavam sentados e inclinou-se para beijar a cabeleira negra do garotinho rechonchudo de olhos verdes, que derreteu-se em seus braços. — É difícil não fazer voz de retardado com essa coisinha, tão cute cute, não é Shika-kun? — disse sorridente, erguendo o bebê para cima e fazendo cócegas na barriguinha do bebê, que reagia sorridente,entre gargalhadas. — Você tem um tio babão, não tem? Mas lembre-se que a sua tia preferida continua sendo a tia Ino! É sim, a titia é muito mais legal do que esse maluco de cabelos de fogo. — disse, fazendo beicinho, antes de encher o neném de beijos e apertos nas bochechinhas.
Gaara permaneceu quieto,assistindo a cena com a mais pura devoção. Os olhos esverdeados não conseguiam desviar-se, mesmo que brevemente, da cena da loira com o seu sobrinho, que ria animadamente. Ela fazia graça, acariciava os cabelos negros do mesmo e tinha um sorriso tão lindo e animado que era difícil não ater-se a ele. Desconfortável com a possibilidade de estar parecendo um tarado sexual por estar a encarando tempos demais, o Sabaku esforçou-se para desviar o olhar, sem muito êxito. Era difícil não resistir à tentação. Aquela era, provavelmente, uma das cenas mais bonitas que já tinha presenciado. E não era surpresa ou espanto algum perceber que Shikadai também parecia explodir de felicidade e diversão com a titia Ino. Gaara esboçou um sorriso de canto, diante desse pensamento.
—Kage-sama? — a voz da loura, cortou sua ponderação. — Algo de errado?
—Não. Nada. Só estava pensando em algo. — obviamente não fazia parte de suas intenções dizer a ela que parecia ter um dom nato com crianças. E se cutucasse alguma ferida ou algo do tipo? Até onde pudera perceber, a Yamanaka tinha anseio em ser mãe e não tinha filhos nenhum, além de não usar aliança no dedo.
Se mencionasse todas essas observações a Temari, pior ainda a Kankuro,sabia muito bem o que aqueles otários diriam, por esse motivo resguardou esse pensamento.
—Sei. — Ino sorriu, antes de devolver o bebezinho ao colo do tio babão. Embora quisesse ficar e brincar mais com a criança, sabia que deveria abrir mão daquela carinha fofa, afinal, Gaara iria embora ainda pelo fim de tarde. Ela,não. Ela iria ficar e teria tempo de sobra para mimar o gorduchinho mais lindo de Konoha. — Bom, estou indo agora... Na verdade, eu já deveria ter ido faz algum tempo — e, rindo, ergueu-se do chão, retirando o excesso de poeira da roupa. — Até mais.
—Até mais,Yamanaka. — despediu-se o ruivo, vendo-a se afastar gradualmente. Assim que ela deixou a casa, fechando a porta, ele permitiu-se inspirar o cheiro doce do bebê em seu colo. Ela cheira a rosas, percebeu, ligeiramente fascinado.
O Sabaku mais velho, esperançoso, decidiu fazer algo que vinha desejando e adiando desde que havia chegado à aldeia: procurar pela linda e estressada mestra das armas. Sempre que ia a Suna, Tenten e ele compartilhavam de momentos íntimos demais para serem esquecidos com facilidade pelo irmão de Gaara. Dirigiu-se até a porta da casa da morena de coques e tocou a campainha, esperando ansiosamente para rever a sua ex-ficante, se é que ela podia ser chamada daquela forma.
Quando a porta se abriu, veio o balde de água frio. Não foi ela quem abriu a porta e sim um homem de longos cabelos negros, olhos perolados e roupas sem graças de algum clã importante. Com o cenho franzido, Kankuro limpou a garganta, antes de dizer.
—Essa é a casa da Tenten-san?
Com o cenho franzido as narinas infladas, o Hyuuga encarou-o friamente da cabeça aos pés. Os olhos opacos estavam vazios, e sua voz transbordava desprezo.
—Você é o irmão do Kazekage. — passou longe de ser uma pergunta. Kankuro assentiu a cabeça vagarosamente em afirmação, e Neji estreitou os olhos, com a mão no batente da porta. — Sim, essa costumava ser a casa da Tenten. Não é mais. Agora ela vive no clã Hyuuga, com o marido dela.
—Esse marido por acaso seria você que vos fala?
Neji sequer deu-se ao trabalho de responder a pergunta, apenas adentrou a residência e bateu a porta com força na cara do outro que, entendendo imediatamente o recado, decidiu ir embora. Ora, ele é que não iria arrumar confusão justamente no último dia de sua estadia pela aldeia.
Revoltado e ainda mais frustrado com a revelação inesperada, Kankuro exprimiu alguns palavrões, respirando fundo. Tenten estava casada. Casada! Mas que falta de sorte a dele!
Estava rumando em direção ao distrito Nara, quando teve a infelicidade de ser avistado e reconhecido pela a irmã.
—Você por acaso enlouqueceu? — Temari o surpreendeu com um murro na cabeça, que o levou a soltar alguns palavrões em voz alta. — O que pensa que está fazendo, Kankuro? Vir atrás de uma mulher casada! E pior ainda grávida do Neji! Você é demente, caralho?!
Os olhos do Sabaku arregalaram-se.
—Ela...Ela... Eu não fazia a mínima ideia — disse, engasgando-se brevemente com a saliva.
—Se essa história chegar aos ouvidos do Gaara, você vai apanhar. O que diabos você pretende afinal, estrupício? Começar uma guerra entre as nações?! O Neji acaba com a sua vida se você chegar perto da Tenten! — sibilou, desesperadamente.
Com uma careta, ele assentiu, escutando quietamente o sermão da irmã. É óbvio que se ele soubesse que a morena estava grávida jamais teria ido atrás dela, embora fosse louco, Kankuro não era exatamente suicida.
—Eu já disse que não sabia! Não tem necessidade do Gaara precisar sabendo. — afirmou, emburrado e ainda mais frustrado.
—Ótimo. — Temari bufou. — Demente. — o xingou, andando a frente do irmão que bufou, irritadamente.
Ela ficou sabendo por alto, que a comitiva estava se preparando para partir. Temari, naturalmente, permaneceria em Konoha com o marido e filho, mas os irmãos iriam embora. Ino estava, de certo modo, aliviada por não ser mais obrigada a trabalhar como "provadora de venenos". Sentia-se servindo a um rei, o que nem de longe Gaara chegava a ser. Embora possuísse a aparência e a postura de um, era relativamente ridículo que se desse ao trabalho de solicitar uma kunoichi para experimentar sua comida e sua bebida. Por outro lado, ela estava se sentindo incomodada e até angustiada com a ida do mesmo. Seria muito mais complicado – e trabalhoso – procurar candidatas que fossem de agrado do ruivo, sem o ruivo estar presente para dizer o que achava ou deixava de achar.
Ela não tinha a mínima ideia do perfil de mulher que ele gostava. Céus, estava fodida. Impreterivelmente fodida, concluiu, lendo e relendo mais uma vez de possíveis nomes... Havia colocado Shiho também, embora fosse uma tresloucada era muito inteligente e bonita; algumas mulheres selecionadas sequer eram da vila, mesmo assim ela achou interessante colocá-las, concedendo um leque de possibilidades de escolhas ao imperioso ruivo. Assim, era garantia absoluta que o mesmo não iria ter a oportunidade de reclamar da falta de opções, pensou Ino.
Estando confortavelmente consciente de que seu trabalho estava prestes a expirar, a Yamanaka não pôde ficar mais surpresa ou intrigada quando Aburame adentrou o estabelecimento do senhor Teuchi.
—Ino? — chamou, fazendo-a erguer a cabeça do balcão para fitá-lo.
—Ah, olá Shino-kun. Veio comer um pouco de ramén, também?
—Na verdade não. Como bem deve saber, não como ramén desde que Naruto colocou minhocas na minha cumbuca. — essa lembrança levou a kunoichi a rir divertidamente, até perder o fôlego. Shino permaneceu imóvel e inexpressivo, como de costume. — Estou aqui a mando do Hokage, parece-me que o Kazekage-sama deixou um pergaminho, mencionando seu nome.
—Uh? — imediatamente o sorriso murchou em seus lábios, e Ino viu-se piscando os olhos repetidamente, confusa. — O que?
Shino assentiu.
—Ele pediu que você se dirigisse ao prédio Hokage, com urgência.
—Aconteceu alguma coisa? Pensei que o Kage estivesse de partida...
—E ele está, aliás, acabou de partir. — corrigiu-se, entre pigarros. A Yamanaka estreitou as sobrancelhas, subitamente alarmada.
Definitivamente não estava gostando nada do rumo daquela conversa, especialmente da expressão no rosto do sempre quieto e misterioso Aburame.
—Tudo bem. — ela disse, dando de ombros. — Já que é assim tão urgente, acho que não tenho muitas escolhas, não é mesmo?
Ela então enfiou as folhas, dobradas, dentro do bolso da calça e deixou o restaurante, rumando em direção ao prédio do loiro sem imaginar o baque que teria ainda naquele mesmo dia. Já deveria imaginar que, alguém como Gaara nunca daria pontos sem nós.
O ruivo relutou muito antes de decidir falar com o Uzumaki, sabia que talvez estivesse sendo incisivo demais, e até invasivo, mas não tinha alternativa,se quisesse que a loira aceitasse sua proposta,precisava jogar sujo. E havia jogo mais sujo do que envolver um amigo de infância e atual líder da nação de Konohagakure no Sato?! Ele fora enfático ao estabelecer alguns termos, e alterando algumas condições, queria que tudo fluísse da forma mais natural possível para evitar precedentes e conseqüentemente mal-entendidos e interpretações.
Enquanto ele e a comitiva marchavam, distanciando-se da Aldeia, ao longe, ele podia jurar ter escutado Ino gritar furiosamente, o que acabou fazendo-o a esboçar um sorrisinho cínico. Ela leu os termos, constatou, controlando-se para não rir.
Ao seu lado, Kankuro lhe fitou com os olhos estreitos, porém não disse nada.
