As lembranças entre a saída de Harvey até o momento antes do que Donna se via agora, deitada em sua cama em roupas de dormir, eram todas borrões e flashes. Louis, Rachel, Mike e Jessica todos se mostraram presentes e dando suporte. Rachel só saiu do apartamento 206 depois de quase ser expulsa por Paulsen que garantiu que ficaria bem e que ela deveria aproveitar o, agora marido, Mike Ross. A última lembrança da amiga partindo era o mais nítido que tinha em sua cabeça.
A ruiva sabia que precisava descansar e precisava dormir, mas mesmo estando deitada há horas na cama, tudo o que conseguiu foi se revirar de um lado para outro, repassando memórias com o Harvey e imaginando cenários dele na prisão. Depois de diversas tentativas de pegar no sono e notar que não conseguiria, ela se levantou da cama e decidiu sair para caminhar. Já era tarde da noite e a voz de Harvey ecoava em sua cabeça "Você é louca de andar pelas ruas de Nova Iorque sozinha a essa hora?" era tudo o que conseguia pensar.
Ao sair de seu prédio ela andou algumas quadras pelas ruas mais movimentadas, apesar de estar perdida, ela ainda tinha um tanto de consciência e prezava pela própria segurança. Não demorou muito mais que 20 minutos para que ela percebesse que toda a sua caminhada havia sido guiada para o prédio do chefe. Ela suspirou em derrota e sem pensar duas vezes, adentrou o edifício e chamou o elevador para o andar dele. Ao entrar na máquina, observou que carregava nas mãos dois molhos de chave: um com as suas e outro, com a da casa de Harvey. Deu de ombros!
A campainha de aviso do elevador tocou, abrindo as portas e passagem para a entrada do apartamento dele. Ela encarou a porta principal por alguns segundos e então encaixou a chave na fechadura e entrou. O local estava escuro e frio, mostrando claramente que não havia vida alguma ali. Não que ela esperasse que ele ainda estivesse lá, mas a ideia de que a casa dele já parecia estar tão adaptada à sua ausência com poucas horas de sua partida, pareceu a ela um pouco perturbadora. Acendeu as luzes e, mesmo com a iluminação, o local ainda parecia escuro. Caminhou pela cozinha, sala até dar de cara com o quarto dele. e sem muito pensar deitou na cama que ainda tinha o cheiro dele. Não demorou muito tempo para que ela pegasse no sono.
Logo nos primeiros raios de sol que pareciam focados em seu rosto, a secretária acordou. Precisou piscar algumas vezes para se acostumar com a luz e por fim se dar conta de onde estava. Balançou a cabeça negativamente enquanto as lembranças invadiram sua cabeça. Ainda um pouco desorientada pelas poucas horas de sono e por ter acabado de acordar, buscou um relógio e se sobressaltou com a hora: 08h. Geralmente ela chegava no escritório um pouco antes disso, para garantir que tudo estivesse em ordem para quando ele chegasse. Mesmo sabendo que agora já não tinha mais ele, ela precisava ir até a firma. Eles não haviam discutido ainda como ficaria a sua situação como funcionária da empresa. Ela tinha para si que, uma vez Louis tendo Gretchen como secretária, Jessica já tendo a sua secretária fiel de anos, e Harvey fora, eles não tinham o porquê mantê-la na firma. Tudo o que ela precisava era de um aviso prévio para procurar um novo local de trabalho e era isso o que precisava ser conversado com Jessica e Louis no dia de hoje.
Correndo, saiu dali em direção à sua casa e, não demorou mais de uma hora para estar pronta e já à caminho da Pearson Litt para conversar com os sócios da firma. O caminho foi calmo e rapidamente ela já estava apertando o botão do 50° andar. Com as portas abertas do elevador, ela tomou a coragem necessária e disparou pelo corredor. Haviam as duas recepcionistas na mesa de entrada, mas algo não parecia estar certo. Caminhou por ali e viu muitas salas vazias. Estava acontecendo uma reunião? Não sabia! O seu coração parecia congelar no momento em que passou em frente daquela que era a sala de Harvey e a sua mesa. Não perdeu tempo ali e foi caminhando até chegar na grande sala que tinha as mesas dos associados e o que visualizou ali a deixou de boca aberta.
Jéssica, Louis, Rachel e Mike estavam parados e todas as mesas estavam vazias, sem nenhum associado, todos haviam partido. Algumas folhas estavam pelo chão. — Mas que merda aconteceu aqui? — ela perguntou muito mais por impulso do que racionalmente, ela sabia o que tinha acontecido. — Todos foram embora, Donna. Abandonaram o navio, antes que ele afundasse. — foi Jéssica quem respondeu, olhando fixamente para uma das paredes. Todos estavam desacreditados. Sabiam que todo o julgamento, a fraude de Mike e a prisão de um sócio fariam com que o clima na firma ficasse estranho e a confiança balançada, mas ninguém jamais imaginou que a lealdade dos associados era tão sensível e eles nem se sequer tentaram lutar.
Adicionado ao fato de todos os associados terem ido, todos os outros funcionários de outros departamentos (financeiro, contabilidade, controladoria, T-O-D-O-S) terem abandonado, assim que chegaram na sala da Jéssica para conversarem sobre como poderiam resolver a situação, receberam uma intimação em que dizia que estavam sendo processados por cada caso que Mike havia participado, além disso, os outros sócios estavam indo atrás de todos os clientes. Naquele momento Donna sentiu certo alívio por Harvey não estar ali e ver a firma que era a sua casa e família desmoronando daquela forma. E agora, para Donna, a sua vida mais uma vez sofreria mudanças. Ela havia acordado, até certo ponto, preparada para conversar e ajustar com Jéssica a sua saída da Pearson Litt, mas com as coisas daquela forma, ela sabia que não poderia sair e que precisaria auxiliá-los de alguma forma.
E foi isso o que aconteceu. Durante as próximas semanas cada uma deles fez a sua parte para conseguir fazer com quê a firma ficasse de pé e não perdesse os maiores e mais importantes clientes. Primeiro, decidiram que Mike precisaria se afastar por um tempo, visto que, apesar de não ter sido condenado, o fato dele ser uma fraude era de conhecimento geral. Com o processo recebido, o valor somado era extremamente alto e com as perdas dos clientes eles não teriam dinheiro suficiente para manter a empresa. Não foi uma tarefa fácil, todos eles trabalharam dobrado para que pudessem dar conta da rotina dos clientes que ficaram, lutaram para convencer o máximo possível de clientes a permanecer, contrataram novos associados -essa foi uma tarefa difícil para Louis que precisou ceder e abrir mão da regra de contratar somente estudantes de Harvard e, mesmo assim, encontrar interessados de universidades de renome foi penoso. Entre muitas tentativas e grande esforço geral, obtiveram pequeno sucesso para conseguirem ter dinheiro suficiente para conseguir manter a firma e tomar outras atitudes.
Um grande passo dado nessa encruzilhada de pequenas ações para manter a firma foi dividir parte do espaço que eles tinham alugado no prédio com uma empresa de corretores de ações. O que no início foi uma grande problema para Louis, dividir o seu tão sagrado espaço com pessoas desconhecidas, que não obedeciam as suas regras e tinham comportamentos tão diferentes. Donna precisou lidar com toda a situação, controlando os nervos de Louis e também dos corretores. Todo o processo foi extremamente cansativo e estressante para cada um deles. Ao final, depois de já conseguirem um momento de alívio e que já conseguiam manter, minimamente, o financeiro da companhia, veio a luta de Mike de conseguir entrar na ordem e poder finalmente praticar advocacia de maneira legal. Durante toda a luta, ele auxiliou como pôde, mas como ele precisava, acabou indo trabalhar para uma empresa de um antigo cliente e as coisas se mantinham dessa forma.
— Donna? — Rachel abordou a amiga que estava presa em alguns papéis no que era a antiga sala de Harvey. O lugar havia permanecido intacto. Nenhum deles tinha tido coragem o suficiente para desfazer-se das coisas dele. Manter a sala daquele jeito dava a sensação de que ele voltaria a qualquer momento. Por muitas vezes a ruiva entrava ali para trabalhar e passava o dia inteiro, era como se Harvey estivesse em reuniões, isso mantinha um pouco da sua sanidade e a ajudava nesse processo de luto. — Sim, Rachel? — ela respondeu, olhando para a advogada que trazia uma pequena pasta nas mãos. — Já se passaram dois meses desde que… — Zane ponderou um pouco as últimas palavras, receosa com as emoções que poderiam vir a tona. — Tudo bem, Rachel. A gente pode falar que ele foi preso e não está mais aqui. — afirmou com firmeza. — Okay! — a mulher entrou de vez na sala e sentou-se numa das cadeiras em frente. — Nosso presente para você. — ela entregou a pasta para a Donna e foi capaz de ver o sorriso da amiga se iluminando como não havia visto desde que ele se fora. — E-eu… Obrigada, Rachel! — foi tudo o quê ela conseguiu responder.
Entre a prisão de Harvey e o momento de alívio, passaram-se de dois meses e, finalmente, foi liberado para que Donna pudesse visitar Harvey na prisão e ela não poderia estar mais ansiosa para que esse dia chegasse.
Nota da Autora: Depois de tanto tempo eu apareci novamente com uma atualização. Peço desculpas pelo sumiço, mas muita aconteceu nesses meses e mesmo após tudo ter se acalmado, e eu acabei perdendo um pouco da inspiração e não conseguir escrever. Mas cá estou novamente!
Um agradecimento muito especial para a Erika e para a Pams que sempre se mostraram apaixonadas pela minha fic. Muito provavelmente se não fosse pelo entusiasmo de vocês eu já teria desistido! Obrigada, nenês :3
