Nemesis não foi para muito longe, apenas até onde a vontade de outra conseguiu afasta-la. Ela se viu no topo de uma grande construção e percebeu que não era agradável permitir que seu corpo cedesse a vontade de outro ser, mas, como espectadora, isso apenas deixava o espetáculo muito mais interessante de se assistir, já que de nenhuma outra forma poderia sentir as falhas entorpecendo seus próprios sentidos como se sentisse algum tipo de empatia por aquela raça detestável.

Ela olhou em volta apreciando a destruição e deixando que sua mente absorvesse todo o sangue e os restos mortais, como se fosse a primeira vez que visse tal carnificina, porém também olhou ainda mais além e encontrou no planeta os descendentes de seus antigos súditos que se negaram a lutar, mesmo que estivessem em total condição de ajudar. Haviam indivíduos que esperaram por ela durante todos esses anos e que agora comemoravam sua chegada, enquanto outros, entre esse mesmo povo fiel, imploravam para que os demais humanos também fossem poupados. Jamais levantariam uma arma contra sua deusa, mas todos possuíam sua própria forma de reagir ao seu domínio.

Cada uma dessas pessoas não merecia ao seu ver o mesmo fim que o resto da população teria, matar quem a acolheu em seu coração desta forma lhe parecia cruel, portanto decidiu que quando se cansasse do entretenimento por aqui encontraria um bom lugar eles dentro de seu próprio mundo particular e faria com que fossem recompensados por sua lealdade.

- MAGIA COM SOCO! - O grito veio sem que ela conseguisse prevê-lo e isso fez com que o primeiro sortudo causasse algum dano em si.

Parker... Ela reconheceu pelo cheiro, conforme sentia o punho armado chocar conta sua pele e lhe arrancar sangue. Não lhe pareceu certo que isso houvesse acontecido, já que suas defesas definitivamente não estavam tão baixas até segundos atrás. Peter aparentemente se sentiu tão surpreso quando ela, já que sua expressão denunciou seus sentimentos enquanto voltava a desaparecer em um portal.

Era um ótimo plano considerando que foi feito por um pirralho. Inicialmente ele contava com o auxílio de duas pessoas que lhe davam a impressão de que não estava cometendo uma loucura, mas ao longo do caminho outros conhecidos muito uteis se mostraram dispostos a ouvi-lo. Agora até parecia que poderia dar certo!

A Original esperou por mais ataques consecutivos, mas não conseguia muito bem prever de onde eles viriam e isso era definitivamente algo que não deveria estar acontecendo. Strange apareceu em sua frente, sem o manto da levitação, e mesmo assim ela conseguiu sentir sua energia em outro lugar, algo realista demais para um dois ser um clone. Nemesis sentia a raiva emanando dele e apreciava o trabalho de seja lá quem havia tirado sua influência das ações do mago.

- Nemesis... - Ele estendeu os braços, sem indícios de que faria algum de seus truques. - Eu vim barganhar. - A mulher ergueu uma das sobrancelhas em quase diversão.

- Estou ouvindo. - Ela cruzou os próprios braços e relaxou a postura, ainda o desfiando com o olhar a impressiona-la.

- Vá embora deste planeta e deixe os humanos em paz. - Stephen entonou, como se realmente esperasse passar algum tipo de autoridade. - Caso o contrário seremos obrigados a agir.

- Eliminando a existência da sua espécie eu estou salvando o futuro de sua querida Terra. - O homem ficou tenso, o que não lhe passou despercebido. - Você sabe do que estou falando. - Um sorriso arrogante se formou nos lábios arroxeados. - Não há esperança para criaturas como vocês, não negue que tenha visto o que acontece, sua raça está condenada a destruição e eu nem precisaria estar aqui para que isso acontecesse.

- Vou considerar isto um não para a oferta. - O mago demonstrou descaso e é admirável como tentou se proteger o que viria. A mão dela o atravessou no estomago tão rápido que seu escudo nem mesmo chegou a ser formado, mas ela o manteve por perto e se aproximou ainda mais para sussurrar em seu ouvido.

- Você poderia ter vivido para ver esse lugar prosperar, eu lhe dei essa chance e o considerei digno de estar ao meu lado quando o momento chegasse. Poderia ter escolhido uma fêmea para recriar o que seu povo destruiu. Eu não sou um monstro, haveria uma chance de recomeçarem sobre o meu comando e, no entanto, você escolheu rejeitar o meu acolhimento.

- Vai acabar aprendendo que somos um bando de imbecis persistentes... - Ele cuspiu sangue, mas atenção dela já havia encontrado outro alvo.

Magia puxou Strange para longe de si, enquanto a mesma energia mais forte e mais confiante a segurou onde estava. Foi vergonhoso reconhecer que possuía afeto pela criatura que estava ali para tentar destrui-la. Wanda se juntou a sua imagem refletida e ambas se esforçaram para conte-la. Parte da Original queria mata-las em instantes, mas outra parte jurou que jamais a machucaria. Nemesis optou por seguir o lado que dizia para afastar o incomodo e fez exatamente isso, as arremessou para longe com tanta força que teriam sorte em ainda conseguir manter os batimentos cardíacos quando chegassem ao chão.

Seu coração ardeu quando moveu as mãos para feri-las, porém depois isso se tornou tão angustiante que não era possível respirar e mesmo que não necessariamente precisasse fazer isso a dor não permitia que pensasse coerentemente ou que enxergasse. Ela se perguntou se era assim que os humanos descobriam que estavam amando, conforme restabelecia o controle. Esse era um sentimento deveras intrigante e talvez optasse por explora-lo mais tarde.

Aproveitando-se de seu estado emotivo mais pessoas apareceram. Crianças e adultos em armaduras junto de um Capitão América atacaram em conjunto, eles se organizaram em uma sincronia descente para que não morressem enquanto ela os observava, entretanto, quando o mais velho lançou seu escudo, desta vez não houve piedade, ela o agarrou apenas para lança-lo de volta e ver o homem fora de seu tempo ser partido ao meio. O ato desestabilizou a mulher de armadura, que parecia dividida ente correr até o parceiro e continuar a missão, sua distração teria lhe dado o mesmo fim, porém quando se moveu para ataca-la um Homem de Ferro entrou em sua frente e abaixou o capacete.

Olhar naqueles olhos fez com que parasse e não conseguisse se mover. Pensamentos que não eram seus invadiram sua mente, todo o anseio, a esperança, a admiração, o amor e tristeza de uma criança que cresceu sem pai a desestabilizou. Houve segundos em que Robert poderia ter acreditado ver os olhos dourados se tornando castanhos.

- Ninguém lhe disse que é muito feio atacar planetas? - Ele falou com carinho. Talvez o fato de que Tony estava morto fizesse com que as emoções dele passassem por si, o ator conseguia se ver destroçado pela perda de uma filha que nunca conheceu e sabia agora que essas lembranças pertenciam ao herói. A vontade de chorar era presente tanto para si quanto para a maior ameaça que a humanidade já teve, seu lado Stark não se conteve tão bem.

- Eu matei você... - Nemesis disse, como se estivesse apavorada. - Ela queria protege-lo e tentou fazer com que minhas partes não rejeitassem a sua posse sobre elas, mas eu garanti que nenhuma ameaça existiria quando me tornasse o que sou. - Em seu sorriso instável ela mostrou que algo a afetava, como se fosse obrigada a lutar com algum desconforto interno. Lagrimas escorriam sem que fossem motivadas pelos sentimentos de quem ainda estava no controle.

- Se me considera uma ameaça então admite não ser invencível. - Robert começou, sem desviar os olhos dos da outra, por mais que esta estivesse tentada a fugir de si. - Você pode ser mais forte que qualquer outra entidade cósmica, mas viu em nós inimigos mesmo quando não sabíamos que da sua existência. Você não está aqui só por diversão, está porque sabe que podemos superar até o que acredita ser insuperável.

Quando se encontra uma falha em um adversário perfeito é de lá que você traça o caminho para derruba-lo.

A impossibilidade da mulher em acatar o homem que via como sua figura paterna fez com que os outros conseguissem continuar a agir. Trovões ecoaram nos céus e a Thor apareceu com Elizabeth segura em seus braços, enquanto Visão era quem dava suporte a Wanda. A cópia do Doutor Estranho flutuou até o topo daquele prédio e o Homem Aranha se posicionou perto de Riri. Venceriam, ou morreriam tentando.

"Dimensão espelhada", o sussurro do ator os levou até um lugar onde não causariam danos em seu planeta independentemente do que fizessem. Clint e Jeremy já se encontravam lá dentro, apenas aguardando que o momento de acatarem chegasse. Todos estavam prontos para dar o melhor do que possuíam e ir além do que aguentavam. A Original sorriu ironicamente com a determinação daquelas pessoas, se eles desejavam tanto assim terem o mesmo destino das outras centenas que partiram sobre suas mãos, que assim seja.

- Vamos ver do que são capazes. - Engolindo seu sentimentalismo e sufocando o incomodo interno, ela se posicionou com a arrogância de alguém que está entediada.

Uma corrida pela coroa começou. Os arqueiros lançaram suas flechas e teriam acertado se elas não houvessem se destruído com a defesa do inimigo, Peter ativou mais uma vez naquele dia o modo morte subida e se lançou pelas alterações da realidade produzidas por Benedict que favoreciam seus movimentos. Micro robôs lançados por Harley testavam os reflexos de Nemesis enquanto junto de Robert e Riri combinavam os movimentos e ataques de suas armaduras procurando por qualquer brecha. Natasha não foi incluída nesta luta, havia outra tarefa para terminar no momento.

O mundo ao redor se tornou uma porção de matéria completamente distorcida, conforme atriz, ator e a feiticeira o moldavam para auxiliar seus aliados e confundir seu inimigo. Para eles que se responsabilizavam pela estabilidade incerta da dimensão, foi possível enxergar a Original como ela realmente era, o que não poderia ser uma perspectiva que diminuía o pavor já provocado, a mulher se comportava como se fosse difícil mover um músculo sem destruir o planeta em que estavam e agora neste novo lugar não era preciso se preocupar com essas limitações.

O corpo roxo se ergueu lançando-se em voou e liberando sua energia, ela era como um buraco negro super massivo que estava prestes a engoli-los, com o diferencial de que sua consciência a tornava muito pior. Visão não parecia meramente amedrontado, ele conhecia a natureza daquele poder e ele já não o assustava mais, os poderes de Wanda e de Elizabeth reagiam com a proximidade daquela que deu origem a eles e isso os ampliava sem que o inimigo percebesse, Jane encarava a morte todos os dias desde que o câncer se alastrou e mesmo sabendo do risco significava para si poder empunhar o mjolnir outra vez, ela olhava nos olhos do monstro e não via nada além de mais um indivíduo acreditando na ilusão de que a veria morta.

Humanos "normais" eram quem mais sentiam a pressão dos poderes alheios, para Robert, Riri e Harley a armadura que os envolvia parecia ceder e encolher, enquanto para Jeremy e Barton era possível que sentissem suas peles queimarem. Ficar de olhos abertos se tornou um tormento e permanecer de pé parecia tão insuportável que o desejo de desistir se alastrava sem controle sobre seus corpos, mas aqueles eram homens lutando ao lado de deuses com apenas um arco e flechas, aguentariam e sobreviveriam como sempre fizeram em suas histórias.

A magia vermelha envolveu Nemesis como se pertencesse a ela, mas a reprimiu de maneira tão agressiva que quase foi possível para a mulher sentir algum tipo de dor física. Não foi um problema afastar tais encantos e então o primeiro alvo foi escolhido, sua intenção era se livrar se suas distrações da melhor forma que conhecia. Quando seu olhar procurou por sua figura paterna cada um ali entendeu o que ela pretendia. Cumberbatch não perdeu tempo até ativar a razão de Strange ter se permitido sangrar, magia sombria não era nada agradável, porém se lhes desse uma chance isso não importaria por enquanto. Combinações entre os gestos de suas mãos foram feitas e então a parte excessiva da energia do inimigo desapareceu, momentaneamente.

Havia certa malícia no rosto da Original quando ela voou para pegar sua presa, parecia se divertir em faze-los acreditar que chegariam em algum lugar, quando certamente sairão fracassados. A Thor se aproximou rapidamente do reflexo de Tony e estendeu a mão, ela sabia que sua armadura não funcionaria em perfeitas condições com a pressão que restava e que mesmo se funcionasse sua velocidade máxima não estaria nem perto de ser capaz de fugir de alguém como sua adversaria. Com o auxílio do martelo ambos partiram pela realidade distorcida cientes de que seriam seguidos.

Acompanhando seus passos cada herói se beneficiou das alterações do ator para não deixarem que Nemesis ganhassem muita vantagem em distância, mas eventualmente isso não foi o suficiente para atrasa-la. Harley interviu primeiro, porém ela nem mesmo o olhou para saber que havia feito o suficiente para que ele não a alcançasse, um simples movimento de dedo fez com que a armadura de se encolhesse ao ponto de esmagar sua pele e perfurar seus músculos. Clint lançou uma flecha que a distrairia, mas ao mesmo tempo teve seu corpo atraído diretamente para o inimigo que com uma das mãos o segurou e com a outra usou a mesma arma lançada para perfurar sua cabeça. As joias brilharam e todas modificações de Benedict foram desfeitas, tudo voltando para ponto de partida, o mesmo prédio em que estavam quando Peter iniciou seu plano.

Apenas a adrenalina e o desespero fizeram com que agissem antes que ela cerrasse os punhos e os destruísse, um passo até Robert e o reflexo de Stephen a segurou com cordas místicas, dois passos e Wanda fez com que precisasse forçar um pouco para seguir adiante, três passos e Elizabeth fez com que o próximo fosse levemente difícil de se formar, quatro passos e Riri se pôs junto de Jane na frente do alvo, cinco passos e Visão sinalizou que haviam chegando no momento perfeito para agir.

A realidade se distorceu outra vez em instantes e Peter voltou a aparecer aproveitando-se de sua vantagem para que ela não o notasse de imediato. Jeremy lançou flechas em direção ao rosto da Original e sorriu de volta para ela quando foi encarado com as três armas paralisadas no ar. Visão lançou uma intensa rajada de energia solar reativando as flechas e provocando a explosão de cada uma delas. Uma distração. Servindo de suporte o androide se colocou no caminho, levou Parker até o que desejavam arrancar e as mãos do pirralho se fecharam ao redor da coroa. Feiticeira Escarlate mudou sua contenção e foi em ajuda ao garoto puxando com toda a força que possuía, Riri se colou atrás do aracnídeo fornecendo o impulso que poderia fazer a diferença caso a coroa houvesse ao menos se mexido.

Todos ouviram uma risada debochada antes da repulsão que aconteceu. Nemesis liberou um pouco a mais de seu poder em um gesto de arrogância apenas para que eles sobrevivessem para se ver falhando, a Dimensão Espalhada não era uma prisão para ela e sua barreira com o mundo real foi quebrada conforme cada um dos heróis inúteis eram arremessados a quilômetros de distância. Somente Robert permaneceu onde estava, para ter seu pescoço agarrado e seu corpo erguido pela mão poderosa de quem queria destrui-lo, ele sentiu a energia dela entrando em si e seus nervos entrando em colapso.

- Eu sou inevitável. - A boca do humano não conseguia se mexer, respirar não era possível e a morte parecia acolhe-lo de boa vontade, mas ele não estava sozinho. Uma certa Stark acabou o que estava fazendo.

- E ele é o Homem de Ferro. - Imponente e banhada pelo sangue de seu marido o reflexo da Senhora Downey ergueu a mão e estalou os dedos.

Não que de início o gesto fizesse sentido, mas o mundo sentiu as mudanças e tremeu por isso, Nemesis sentiu as mudanças e chegou perto de chorar por isso. Era ela quem não estava conseguindo respirar agora. As feras que havia criado saíram de seu controle com a intervenção de Natasha e Xavier e rugiram junto de seu novo líder para destruir o inimigo em comum.

- Meus filhos... - Sua raiva teria matado o homem em suas mãos, mas ela não viu Chris com Stormbreaker atrás de seu magnifico escudo se aproximando até que o braço que segurava sua figura paterna fosse partido. Não haviam segundos para comemorar, ele pegou o amigo e partiu novamente, deixando que Mark e Venom fizessem o seu trabalho.

A Stark não pretendia ficar para ver, mas o ódio da Original foi lançado sobre ela e lhe foi concedido a honra de morrer pelas mãos do ser quase divino. Nat olhou para o corpo do marido quando se sentiu sendo puxada para perto de sua destruição e no momento em que a palma da arroxeada se fechou em sua nuca ela morreu como viveu, com um sorriso sarcástico no rosto e protegendo as vidas do multiverso.

A monstruosidade que o Hulk se tornou, chegou no topo do prédio em instantes e a socou com uma força tão alta que seu impacto destruiu toda a construção em que estavam e as que existiam ao redor também, mesmo que isso não afetasse a mulher. Não era uma boa ideia confrontar diretamente alguém como ela, principalmente quando a fúria toma suas veias, mas a tentativa não raciocinada até merece certa admiração. Ao trazer seu braço de volta, ela segurou um dos punhos da besta, o que não foi o suficiente para acalma-la ou alerta-la, apenas lhe rendeu mais um berro de desafio e um golpe certeiro em seu rosto tão forte e tão dedicado que o vento foi rompido com a ação, mantendo todas as outras criaturas longe o suficiente. É uma pena que tenha sido o grandalhão a quebrar sua mão.

O som que Nemesis emitiu foi uma das coisas mais horripilantes que qualquer ser vivo já teve a chance de escutar, mas os golpes desajeitados que se seguiram foram a prova de que tal grito atingiu seu objetivo. O monstro antes tão assustador e poderoso agora levava as mãos até a própria cabeça como se sofresse de um tormento indescritível, Venom se debateu e se forçou a sair do hospedeiro poderoso, na tentativa desesperada de sobreviver e com isso Hulk era apenas o Hulk e não precisou de mais que um tapa para ser forçado a voltar para a sua forma humana. Um ser como aquele, pouco acordado e indefeso, não merecia sua atenção e, portanto, ela voltou seu olhar para os filhos traidores que a desafiavam com a cada fibra de suas existências mesmo que chegassem a tremer de medo em sua presença.

Enquanto o ser quase divino eliminava suas criações defeituosas, como havia feito com tantas outras, um homem estampando o símbolo da América pousou entre os escombros, de escudo no braço e preocupação no rosto. Não foi difícil carregar Mark, mas pretendia conseguir alguma informação enquanto ele ainda estivesse meramente consciente.

- O que aconteceu com o Homem Aranha? - O homem frágil acenou com a cabeça em negação, em um momento o amigo da vizinhança estava consigo atirando suas teias e no outro Hulk e Venom o viram morto, esmagado no chão. - E Scarlett...?

- Viva. - Havia uma vaga lembrança de que ela havia se afastado do confronto junto de Sam Wilson, mas ele não possuía mais informações do que isso. Evans voltou a voar com sua armadura, afastando-os dali o mais rápido que podia.

Olhando para a região lá de cima, lhe pareceu que o fim estava próximo. O sangue manchava tanto a planície quanto a região da cidade que foi envolvida no confronto, não haviam muitas chances para saírem vivos dali e a cada segundo seus números de combatentes dispostos diminuía drasticamente.

A Original respirava profundamente enquanto observava a poeira que restou do que foram as suas criaturas, esse sempre acabava sendo o cenário que se deparava quando optava por criar vida. Criaturinhas ingratas como essas sempre se voltavam contra a própria criadora e por fim viravam poeira. Essa era uma das razões que faziam com que a mulher continuasse a se sentir tão absurdamente sozinha.

O escudo protetor que envolvia a Terra foi rompido tempos atrás, mas até agora nada havia passado por ele que fosse capaz de intervir no rumo da batalha que se seguia em solo. Entretanto Carol faria com que isso fosse diferente. Quando ela acordou na casa de sua velha amiga sem seus poderes inicialmente se sentiu devastada, mas quando notou a ameaça sobre o planeta em que nasceu, se sentiu obrigada a forçar seu corpo a se levantar e a agir.

Contra um adversário como o que agora enfrentavam ela estava completamente ciente de que não sobreviveria caso o confrontasse diretamente, porém isso não significa que ela não sabia como ajudar. A partir do momento em que conseguiu andar sem ter problemas seu primeiro objetivo foi chegar até uma aeronave veloz o suficiente para ir até as pessoas que tinha em mente e depois disso, somente precisou esperar que os protetores do planeta desfizessem o feitiço de Strange. Desde que isso de fato aconteceu ela esteve no espaço contatando amigos de longa data e agora voltava com um reforço para contribuir com a derrota daquele maldito ser infernal.

No momento em que Nemesis a viu se aproximando com a aeronave, sua melancolia se transformou em desprezo e ela poderia ter rido de seus esforços se estivesse com algum bom-humor. Deixando o solo a mulher foi de encontro a humana fraca e até admirou o fato de que, por mais que instigasse os instintos dela a implorarem por sobrevivência, a Capitã não desviou o olhar da ameaça ou demonstrou qualquer sinal de medo.

- Você ganhou a chance de continuar viva e agradece desta forma? - Havia certa curiosidade em seu olhar, como se buscasse pela coisa que capaz de motivar criaturas como a que agora a desafiava.

- Pessoas precisam de mim agora, posso escolher aproveitar a vida em outro momento. - Suas mãos se moveram para alterar os botões da máquina cujo a Original não buscou entender.

- Houve um período em que você poderia ter representado alguém digno de me enfrentar. - Danvers sentiu a pressão esmagadora em seus ossos, nesta nova perspectiva lhe parecia tão difícil não ceder que até falar se tornou um desafio, porém em comparação ao que já havia enfrentado vindo daquele mesmo monstro, poderia se dizer que ela não estava de fato tentando machuca-la. - E agora você não é nada além de mais uma humana qualquer, frágil e sem nada que me impressione.

- Posso ser essa "humana qualquer" ou esse ser desinteressante e incapaz de detê-la atualmente. - Ela voltou a encarar os olhos dourados da inimiga e sorriu minimamente com sua determinação elevada. - Mas não estou sozinha.

Um golpe poderoso e devastador vindo de mãos femininas a arremessou para longe da aeronave em seu momento de surpresa e logo Nemesis se viu cercada por um grupo de guerreiros com uma aparência um tanto familiar e martelos em suas mãos. Um gigante de gelo mestiço, um deus e uma valquíria, foi o que lhe pareceu inicialmente. Entretanto havia algo a mais nesses novos adversários, cada um deles apresentava uma força tão bem desenvolvida e grandiosa que fazia com que chegassem perto de serem as criaturas mais formidáveis que já cruzaram seu caminho. Olhar para eles lembrava a ela da sensação que teve quando olhou para Odin pela primeira vez.

- Carol sempre surpreende quando pede ajuda para matar alguma coisa. - O mais alto e de pele azul comentou com sua voz trovejante enquanto analisava o novo desafio, seus companheiros se limitaram a concordar com um sorriso que não escondia em nada a sede por sangue particular de cada um.

A aura do grupo emanava em conjunto para responder a da mulher arroxeada, eles não pareciam meramente amedrontados e não demoraram a fazer com que suas armas saudassem sua nova rival. Rápidos como trovões e fortes como as divindades que pareciam ser, cada um deles se colocou contra a ameaça sem hesitação, mantendo um ritmo no combate agradável como uma dança e letal como a verdadeira batalha que tratavam. Pela forma com que agiam e pelas expressões em seus rostos a Original decidiu que poderiam ter sido bons amigos em outras circunstâncias, talvez no final de tudo ela os trouxesse de volta para se juntarem ao seu império.

Magni, Thrud, Vidar e Bragi, os Bastardos de Odin. Esses eram os novos desafiantes de Nemesis, indivíduos as vezes mercenários e conquistadores, mas principalmente exploradores do universo e além disso protetores dos planetas que conquistavam suas afeições, armados com martelos encantados de Asgard, eles seguem a milênios se envolvendo nos mais diversos conflitos até que cada guerra encontre a sua paz, seja ela qual for. Um grupo que conheceu Carol Danvers quando os Krees os procuraram para finalizarem a ameaça Skrull, mas que mesmo em posições rivais receberam a ajuda dela nos dias mais devastadores que já haviam enfrentado, isso eventualmente fez com que qualquer investida contra aqueles que a humana protege deixasse de fazer sentido.

Não eram poderosos o suficiente para deter alguém como a inimiga que agora possuíam, mas não possuíam problemas para chegar mais o perto disto do que qualquer outra pessoa pode fazer até agora.

(...)

- Pety? - Deadpool chamou quando próximo à fronteira da cidade se deparou com um rapaz com trajes de Homem Aranha, ferido em ângulos estranhos para a maioria das pessoas, mas não para o homem, aparentemente.

- W-Wade? - O indivíduo chamou de volta, confuso e com a visão atordoada demais para conseguir enxergar corretamente. Ele não parecia nada bem.

- O que você está fazendo aqui? - Aquele que conseguia andar desceu do carro e se aproximou o suficiente para encara-lo de perto (talvez até demais). - Parece que um gigante acabou de bater em você com um chinelo!

- Obrigada por dizer isso... - Ele franziu o cenho desconfortavelmente. - Não consigo fazer muito mais do que falar e respirar no momento, eu acho. - O garoto divagava, não necessariamente falando com o mercenário. Até que seus olhos se estreitaram em desconfiança. - Achei que estivesse morto...

- Ah, eu estava. Longa história. - Wilson pegou o Parker em seu colo como se ele fosse uma noiva e se moveu de volta para o automóvel tentando não machuca-lo ainda mais. - Imagino que você conheça o Thanos, um grandalhão muito feio, cuzão, filho da puta e...

- É, eu sei quem é o Thanos. - Buscando respirar melhor Peter tirou a máscara com dificuldade, também interrompendo a série de xingamentos alheios.

- Ótimo! Ou não, dependendo do ponto de vista. - O mercenário animadamente voltou a dar partida no carro. - Eu tenho um envolvimento com a pessoa que ele gosta, que por acaso é a própria Morte, uma entidade sádica, gostosa, terrivelmente quente, insaciável e... - O olhar de seu agora companheiro de viagem fez com que sorrisse interrompendo os detalhes desnecessários. - Mas ele nunca fica muito feliz em nos ver juntos e acaba me amaldiçoando com a imortalidade para que eu não volte a vê-la. Por isso mesmo que eu perca meus poderes e o câncer ou alguma outra coisa idiota acabe me matando eu sempre volto.

- Não parece muito agradável. - A visão nublada e a expressão perdida no rosto do garoto não possibilitaram que Deadpool distinguisse se ele estava sendo sincero ou se era apenas um delírio febril. Da mesma forma que o estranho suéter escrito "Melhor traseiro da América" usado pelo homem confundia o ferido sobre estar ou não em sonho muito vivido.

De onde estavam era possível vislumbrar de forma privilegiada a destruição deixada pelas batalhas já travadas e por aquela que ainda acontecia. O sentido aranha do Parker parecia atualmente alerta-lo sobre o perigo eminente e reagia tanto quanto o poder do inimigo merecia, o que por consequência fazia com que rapaz não conseguisse controlar a tremedeira e violentos espasmos de seu corpo na tentativa desesperada de tira-lo dali. O único conforto que foi possível encontrar naquela situação angustiante foi o da mão marcada que se entrelaçou com a dele para tentar acalma-lo.

- Vamos fazer uma oração aos deuses para que salvem nossos cús. - Parecia uma sugestão séria mesmo vindo de alguém como Wade, para reforçar sua ideia, ele usou a mão livre (ou nem tão livre assim, já que era com ela que ele controlava o volante) para adiantar uma, duas vezes à música no rádio até que por fim cantou junto de Robert Plant. - Ah-ah, ah! Ah-ah, ah!

- We come from the land of the ice and snow – Peter cantarolou em um sussurro frágil e com um sorriso nostálgico no rosto, reconhecendo a canção mesmo em seu estado debilitado.

- From the midnight sun, where the hot springs flow – Continuou o ainda mascarado, satisfeito por dar um alivio para aquele rosto bonito.

Ambos continuaram entonando os versos da música empolgadamente (mais por parte do mercenário do que do aracnídeo que não estava muito longe de balbuciar) e seguiram rumo ao caos. Eventualmente quando o refrão se repetiu, aconteceu algo que lhes deu um susto tão grande que quase causou a batida do automóvel. A Bifrost abriu passagem em um raio de quilômetros trazendo guerreiros e feras de outra realidade.

Um rei montado em seu cavalo de oito pernas estava à frente de um exército gigantesco e em suas mãos ele segurava a fusão de Gungnir com a Caixa dos Invernos Antigos. A seu comando estavam asgardianos, jotuns e feras terrivelmente poderosas como a serpente Jormungand e lobo Fenris, cada um deles pronto para mandar seu inimigo para Hel ou para partirem para Valhalla. Uma esperança para a proteção da vida.

- VIU SÓ! - Gritou Daedpool com seu companheiro. - EU SABIA QUE IA DAR CERTO!

Ao mesmo tempo, uma figura apareceu, próxima o suficiente para forçar veiculo a parar. Um ser de longos cabelos negros, pele pálida, olhos verdes e traços femininos se aproximou com delicadeza e se dirigiu ao garoto envolvendo-o com uma poderosa e reconfortante magia curadora enquanto gesticulava com as mãos. Silenciosamente ele regenerou cada célula danificada no corpo alheio e voltou sua atenção para Wilson, como se procurasse por mais ferimentos.

- Você pode fazer essa coisa com as mãos em mim também se quiser. - Wade sugeriu com mais do que um sorriso malicioso e foi recebido por uma careta adorável. O homem negou e não demorou a voltar aos céus voando em seu martelo, aquele era Bragi, o único entre os bastardos que odiava a guerra e estava ali apenas para de fato ajudar pessoas. - Deuses nórdicos são maravilhosos não é, Pety? - Comentou, suspirando sonhadoramente para o novo parceiro de viagem. - Pety? - Alguém que não estava mais ali.

Peter fez o que seu corpo mandava que ele fizesse, ele fugiu. Mesmo que não houvessem mais feridas que o impediriam de lutar, resistir não parecia uma hipótese viável quando seus pensamentos deixam de ser coerentes e seus músculos tremem de pavor ao ponto de lhe forçarem a ir embora.

Por onde ele passava não havia sangue ou restos mortais, apenas fragmentos do que um dia foram pessoas protegendo seus mundos. Sua visão buscava por trajetos que colocariam uma distância segura entre ele e a Original, apenas algo muito próximo de instinto o movia. O barulho do confronto ao redor nem mesmo lhe era perceptível e Parker desviava de destroços arremessados em sua direção sem que percebesse que eles estavam vindo.

Escapar, escapar, sobreviver eram essas as únicas palavras que compreensíveis que se repetiam em sua mente. Não importavam as mortes, não lhe importava a destruição, estavam condenados desde o início e foram tolos o suficiente para acreditar que possuíam uma chance. Ele precisava sair dali, precisava se proteger, com certeza encontraria um lugar onde não poderiam alcança-lo e...

Seus olhos a identificaram antes que pudesse simplesmente ignorar. Gwen estava presa abaixo dos escombros de uma construção. Os ossos dela, mesmo com todos os metros que o separavam, estavam perceptivelmente quebrados e com o rumo que a batalha estava tomando não demoraria para que ela morresse, assim como aconteceu com todos os outros amigos de teia que pode conhecer nas últimas horas. Aquela era uma noção desesperadora e parecia ser apenas mais um motivo para fugir como estava fazendo, porém assistindo aquela cena ele não conseguiu mais se mover.

Haviam pessoas tentando ajuda-la mesmo com o planeta ruindo tão ridiculamente perto dali. Um homem e uma mulher, Capitão América e Viúva Negra. Seus olhos piscaram com desorientação, não, não eram os vingadores que conheceu e sim os atores de algum lugar no multiverso. Não eram heróis de verdade, nunca haviam estado em uma guerra antes e nunca presenciaram algo tão terrível como o que está acontecendo, mas mesmo assim eles estavam enfrentando juntos a ameaça invencível e salvando pessoas que não possuíam mais nenhuma esperança de viver.

Uma dor de cabeça terrível e latejante quase o derrubou, como se ordenasse que ele seguisse em frente a qualquer custo e que ignorasse completamente o seu dever com o mundo. Foi preciso que apoiasse seu corpo em alguma coisa firme o bastante para segura-lo, porém seu atual desejo envolvia não ceder a esse sentido auto preservativo e, mesmo que seu corpo se recusasse a voltar, ele não iria mais embora. Algo estava errado, o amigo da vizinhança não pode simplesmente abandonar um confronto enquanto ainda existem vidas para salvar.

Wade, que por acaso era a coisa firme o bastante, viu um rápido vislumbre dourado nos olhos do rapaz que acabou seguindo. Inicialmente sua intenção era rir da covardia alheia, mas, quando alcançou o Homem Aranha, precisou morder a própria língua para se conter. De fato ele não esperava que o outro se agarraria a si desta maneira logo quando estava prestes a saudá-lo. Não era preciso ter uma mente completamente sã para notar como algo perturbava completamente os sentidos do herói.

Com uma mão apoiada nas costas do Parker e a outra com o punho fechado Wilson aplicou um intencionalmente doloroso soco na barriga do aracnídeo. Sutileza nunca foi seu ponto forte, mas lhe pareceu vantajoso fazer alguma coisa que trouxesse os pensamentos do outro completamente de volta para a realidade em que estavam.

O som do vomito que se seguiu foi abafado pelos deuses que tentavam ganhar alguma chance verdadeira de vitória, porém Deadpool não se afastou ou se incomodou com o cheiro nauseante, ele apenas se colocou na altura do corpo jovem agora curvado, para dar a ele um conforto que não era exatamente bom em atribuir. Peter o encarou depois de colocar todo o conteúdo de seu estômago para fora como se estivesse grato por sua presença, o que era algo na qual o mercenário não estava nenhum pouco acostumado e por isso ele fez uma tentativa um tanto inútil de lhe dizer que tudo ficaria bem.

- Quando toda essa merda acabar, eu vou comprar chimichangas para você.