Nota: (1) Harry Potter e seus personagens não me pertencem. E sim a J.K. Rowling e a Warner Bros. Entertainment Int. Essa fanfic não tem nenhum fim lucrativo, é pura diversão.

(2) Contém relação Homem x Homem, portanto, se você não gosta ou se sente incomodado com isso, é simples: não leia.

-x-

Foi como se ele se precipitasse por um escorrega escuro, viscoso e sem fim. Viu outros canos saindo para todas as direções, mas nenhum tão largo quanto aquele, que virava e dobrava, sempre íngreme para baixo, e Harry percebeu que estava descendo cada vez mais fundo sob a escola, para além das masmorras mais fundas. Atrás ele ouvia Pansy, seu gritinho fino ecoando a cada curva mais acentuada que faziam. Então, quando começava a se preocupar com o que aconteceria quando chegasse ao chão, o cano nivelou e ele foi atirado pela extremidade com um baque aquoso, e aterrissou no chão úmido de um túnel de pedra às escuras. Lockhart – que havia sido gentilmente empurrado na frente por Pansy – estava se levantando um pouco adiante, coberto de limo e branco como um fantasma.

Harry afastou-se para um lado enquanto Pansy também saía chispando do cano:

- Céus, por Morgana, nunca mais quero fazer isso de novo... – resmungava ela, colocando-se a sacodir a sujeira grudada na túnica.

- Devemos estar quilômetros abaixo da escola - disse Harry, sua voz ecoando pelo túnel escuro - Talvez, abaixo do próprio lago.

Os três então se viraram para encarar a escuridão à frente.

- Lumos! – murmurou Harry, vendo a ponta da varinha acender logo em seguida – Vamos, vamos por aqui.

Com a varinha de Pansy cutucando ameaçadoramente suas costelas, Lockhart os seguiu. O túnel era tão escuro que eles só conseguiam ver uma pequena distância à frente, suas sombras nas paredes molhadas pareciam monstruosas à luz da varinha. Todo o lugar estava tão silencioso quanto um túmulo, e o primeiro som inesperado que ouviram foi um ruído de alguma coisa sendo esmagada quando Pansy pisou naquilo que logo descobriram ser o crânio de um rato:

- AHHHHHhhh...!

- Está tudo bem, Pam – assegurou, abraçando a amiga – Você já deu um soco em Theodore Nott, o esqueleto desse ratinho morto não é nada para você.

Ela respirou fundo para se acalmar. Então, disse:

- Na verdade, prefiro pisar em dezenas de ratos do que olhar para aquele imbecil.

- Tenho certeza disso – Harry sorriu, colocando-se a caminhar novamente quando a voz de Lockhart os interrompeu:

- Tem alguma coisa ali...

Harry olhou na direção apontada e conseguiu ver apenas o contorno de uma coisa enorme e curvilínea, deitada atravessada no túnel. A coisa não se mexia.

- Será que esse é o monstro...? – Pansy sussurrou, os olhos arregalados de medo.

- Não sei – engoliu em seco, o coração batendo tão forte que chegava a doer - Parece estar dormindo.

Muito devagarinho, Harry avançou aos poucos com a varinha erguida, enquanto Pansy gesticulava frenética para que ele não fizesse isso. A luz da ponta da varinha então deslizou pela pele de uma cobra gigantesca, colorida e venenosa, que se encontrava enroscada e oca no chão do túnel. O bicho que se desfizera dela devia ter no mínimo uns seis metros de comprimento.

- Pele de cobra...

- Uma cobra tão grande assim, será...? – Pansy arregalou os olhos.

- O que?

- Harry, a criatura guardada por Salazar Slytherin só pode ser um basilisco!

- Um o que?

- Basilisco! Meu pai adorava criaturas mágicas, ele me mostrou essa criatura em um de seus livros quando eu era pequena. É uma serpente gigante, por isso Salazar conseguia controlá-lo, mas se você olhar diretamente nos olhos dela você morre!

Lockhart aproveitou a comoção dos dois para tentar arrebatar a varinha das mãos de Pansy, mas esta foi mais rápida e lhe deu um chute certeiro no meio das pernas, o que imediatamente fez o alfa cair no chão com lágrimas nos olhos. Harry se encolheu em simpatia, mas não pôde deixar de sorrir.

- Ora, coloque-se no seu lugar – Pansy bufou. Então, quando um corpo gigantesco pareceu deslizar por um dos túneis acima deles, pedaços do teto começaram a desmoronar. Harry se jogou para o lado a tempo, assim como Pansy, que se jogou para o outro lado enquanto pedaços do teto do túnel caíam com estrondo no chão. No momento seguinte, o ômega se viu sozinho contemplando uma parede maciça formada pelos destroços.

- Pansy! – gritou – Você está bem? Pansy!

- Estou bem! – respondeu a voz abafada atrás do entulho – Estou bem, mas esse babaca aqui não está, um pedregulho caiu na cabeça dele... Acho que ele está desmaiado, ou morto.

Ela deu um chute no professor, que resmungou dolorido.

- Apenas desmaiado – esclareceu, não muito preocupada com ele.

- Certo – Harry suspirou – Tente voltar e pedir ajuda. Acha que consegue convocar uma vassoura, ou fazer um feitiço de levitação para flutuar de volta por onde entramos?

- Acho que sim, mas e você?

- Eu vou achar a garota Weasley. "E o meu diário" – acrescentou mentalmente – Busque os outros professores.

Antes que Pansy pudesse discutir, argumentando de todas as formas que aquela não era uma boa ideia, Harry retomou sozinho a caminhada para além da pele de cobra. O túnel dava voltas e mais voltas. Cada nervo do corpo de Harry formigava desagradavelmente. Ele queria que o túnel terminasse, mas temia o que encontraria no final. Um basilisco? O lunático fundador de sua casa havia realmente escondido um basilisco no castelo? Ele seria capaz de controlá-lo? Sinceramente, não gostaria de pagar para ver. De repente, ao dobrar mais uma curva, Harry se deparou com uma parede sólida à sua frente em que havia duas cobras entrelaçadas talhadas em pedra, os olhos engastados com duas enormes esmeraldas brilhantes.

Harry se aproximou, a garganta seca. Não havia necessidade de fingir que essas cobras de pedra eram reais, pois seus olhos pareciam estranhamente vivos.

- Abram – disse num sibilo fraco.

As cobras se separaram e as paredes se afastaram, as duas metades deslizaram suavemente, desaparecendo de vista e Harry, tremendo dos pés à cabeça, entrou.

Ele se viu parado no fim de uma câmara muito comprida e mal iluminada. Altas colunas de pedra entrelaçadas com cobras em relevo sustentavam um teto que se perdia na escuridão, projetando longas sombras negras na luz estranha e esverdeada que iluminava o lugar. Então, com o coração batendo depressa, aguçou os ouvidos, mas se deparou apenas com o silêncio hostil. Será que o basilisco estaria à espreita num canto sombrio? Onde estaria Gina Weasley? E o mais importante, onde estaria o seu diário?

Tom certamente notara sua ausência.

Seria necessário inventar uma desculpa depois que recuperasse o diário, pois seu amigo ficaria preocupado se soubesse que havia se colocado em perigo dessa forma. Então, pensando em seu adorado alfa para reunir coragem, Harry puxou a varinha e avançou por entre as colunas serpentinas. Cada passo cauteloso ecoava alto nas paredes sombreadas. Manteve os olhos semicerrados, lembrando-se das palavras de Pansy, de que o basilisco poderia matá-lo com um simples olhar, e seguiu adiante, pronto para fechar os olhos ao menor sinal de movimento.

Então, quando emparelhou com o último par de colunas, uma estátua alta como a própria câmara apareceu contra a parede do fundo. Harry teve que esticar o pescoço para ver o rosto gigantesco lá no alto. Era antigo, com uma barba longa que emergia do piso molhado, onde jazia um pequeno vulto de cabelos flamejantes vestido de negro.

Gina Weasley.

Harry reconheceu a Gryffindor do primeiro ano e se aproximou com cuidado, olhando a sua volta em busca do diário. Ela certamente havia trazido consigo, não? Então, finalmente, algo clicou em sua cabeça e ele se perguntou o que ela estaria fazendo ali.

Teria sido sequestrada?

Mas por quem?

E onde estava o seu diário, afinal?

- Hey, acorde – murmurou, deixando a varinha no chão para se ajoelhar ao seu lado – Weasley, acorde, precisamos sair daqui e você precisa devolver o que roubou de mim.

Ele a sacodiu, mas a garota permaneceu inerte.

- Vamos, acorde.

- Ela não vai acordar – disse uma voz indulgente.

Harry sobressaltou e se virou ainda de joelhos. O coração estava disparado no peito e as pupilas dilatadas. O aroma daquele alfa parecia distante, como sua imagem, que parecia vista através de uma janela embaçada. Mas, mesmo assim, o aroma incomum e tão magnético parecia tomá-lo por completo. Era cru e terroso, algo como raiz com fortes tons masculinos, notas de couro e cacau, o que o fizeram engolir em seco e respirar profundamente para gravar aquele perfume para sempre em sua memória.

Quando ele chegou ao seu lado, Harry ofegou com a proximidade daquele aroma e com a beleza daquele garoto alto, de cabelos negros e olhos escuros que o observava atentamente. Ele não lhe era estranho...

Seria possível?

- Tom?

O aludido sorriu, um sorriso perfeito, como seus traços aristocráticos.

- É você mesmo? – murmurou, encantando. Tom era tão bonito quanto havia imaginado, senão mais, pois sequer a sua imaginação vasta fora capaz de fazer jus ao alfa à sua frente.

- Sou eu mesmo, pequeno.

O ômega imediatamente corou ao ouvir o apelido afetuoso. No entanto, lembrou-se das primeiras palavras de Tom e franziu o cenho, confuso:

- O que você quer dizer com 'ela não vai acordar'?

- Ela ainda está viva – disse Riddle – Mas por um fio.

Os lábios de Harry se abriram com um pequeno "o". Tom Riddle estivera em Hogwarts cinquenta anos atrás, contudo, achava-se ali parado, envolto por uma luz estranha e enevoada, com os seus exatos dezesseis anos.

- Você é um fantasma?

- Uma lembrança – disse o alfa com suavidade – Conservada em um diário durante cinquenta anos.

Ele apontou para o chão perto dos pés da estátua. Caído ali encontrava-se o pequeno diário preto que Harry tanto buscava. Por um segundo, Harry se sentiu aliviado, então se deu conta de que a razão de toda a sua urgência estava ali parada à sua frente.

- Nós precisamos tirá-la daqui, certo? – perguntou incerto – Tem um basilisco... Não sei onde está, mas Pansy disse que não podemos olhar em seus olhos...

Riddle apenas sorriu e disse:

- Não se preocupe, ele só virá se for chamado, e não penso chamá-lo para atacar você.

- O que...?

- Eu esperei muito tempo por isso, Harry, por uma chance de vê-lo e sentir o seu aroma.

Harry engasgou, o rosto tão vermelho quanto os cabelos da menina caída aos seus pés.

- É tão doce quanto eu imaginei.

- Tom...

- Eu tinha outros planos para você no começo, é claro, mas depois de conhecê-lo um pouco mais, depois de tudo o que conversamos e de ver o quão talentoso você é, tive a certeza de que poderá dar frutos promissores se guiado no caminho certo.

Harry, que até então estava com o coração acelerado como um ômega apaixonado – o que de fato era – franziu o cenho, desconfiado:

- Do que você está falando?

- É claro que você seria especial – Riddle continuou, ignorando a pergunta de Harry – afinal, você conseguiu derrotar o maior bruxo de todos os tempos quando era só um bebê e escapou apenas com uma cicatriz, enquanto reduziu os poderes de Lord Voldermort a cinzas.

Os olhos escuros se demoraram em sua cicatriz, vidrados, o que fez Harry dar um passo cauteloso para trás.

- Por que isso interessa você? – perguntou lentamente – Voldemort foi depois do seu tempo...

- Voldemort – disse o alfa, um sorriso que teria deixado as pernas de Harry bambas, se não estivesse tão confuso – é o meu passado, presente e futuro, Harry.

Então, tomando a varinha do próprio Harry, que jazia esquecida no chão, ele escreveu no ar três palavras cintilantes:

TOM SERVOLO RIDDLE

Em seguida, agitou a varinha e as letras do nome se rearrumaram:

EIS LORD VOLDEMORT

Harry arregalou os olhos e tentou correr, mas a poderosa voz utilizando-se da entonação alfa o deteve:

- Fique parado!

Imediatamente, Harry caiu de joelhos, os ouvidos sangrando e as lágrimas banhando seus olhos.

- Sinto muito, pequeno – Tom suspirou – Você não me deu escolha senão usar a vantagem injusta que nossos gêneros me dá. Mas não se preocupe, eu não vou machucá-lo.

Harry queria acreditar nele, queria voltar a sentir o amor e a admiração que por tanto tempo cultivara, mas, naquele momento, sentia apenas medo. Então, ainda paralisado, ele viu o corpo de Gina Weasley perder cada vez mais a cor até se tornar completamente pálido e dar o seu último suspiro. Em seguida, sentiu o toque suave do alfa em sua bochecha, secando-lhe as lágrimas.

- Finalmente – disse Riddle, vitorioso.

Weasley estava...

Harry engasgou, as lágrimas agora acompanhadas de pequenos soluços que lutavam para sair de seu corpo imóvel.

Weasleu estava morta.

- Durma agora, pequeno. No momento, estou muito fraco para levá-lo comigo, mas voltarei para buscá-lo...

As palavras de Riddle soaram distantes quando Harry começou a fechar os olhos, compelido por sua cruel biologia a seguir as instruções do alfa. A última coisa que sentiu foi o toque macio em seus lábios. Seu primeiro beijo. Tom Riddle havia roubado seu primeiro beijo. No instante seguinte, Harry mergulhou na inconsciência.

-x-

Harry abriu os olhos de repente.

Seus lábios formigavam.

A lembrança daquele toque suave fez seu coração acelerar. Então, ainda atordoado, finalmente notou as paredes brancas da enfermaria à sua volta. Ele estava deitado numa das camas e rostos desconhecidos pairavam ao seu redor, acompanhados de sussurros urgentes e olhos inquisitórios que ainda não haviam notado seu despertar. Fechando os olhos novamente, Harry fingiu estar desacordado quando a ponta de uma varinha tocou sua testa e começou a extrair uma névoa branca. Neste mesmo instante, todas as memórias de Tom, do diário e da câmara inundaram seus pensamentos como um filme mudo. Harry sentiu-se tonto e última coisa que notou antes de perder a consciência novamente foram os olhos azuis suspicazes do diretor de Hogwarts.

Quando abriu os olhos outra vez, algumas horas depois, Harry voltou a ver o diretor, porém, este o encava com suavidade e certa melancolia, diferente da última vez.

- Espero que nossos encontros na enfermaria deixem de ser tão frequentes, meu querido menino, prefiro recebê-lo em meu escritório para uma boa xícara ao invés disso.

- Senhor, Voldemort, ele...! – Harry engasgou, as lembranças dos últimos acontecimentos ressurgindo em sua mente – Eu não pude fazer nada, a menina Weasley, ela... A câmara!

- Acalme-se, meu rapaz – Dumbledore suspirou, os olhos azuis opacos, entristecidos – A senhorita Parkinson nos ajudou a chegar até vocês, mas receio que não tenhamos sido rápidos o suficiente.

- O que...?

- Infelizmente, Voldemort usou a energia vital de Ginny Weasley para sua ressurreição.

- O que?! Mas, como?!

- Aparentemente, o diário que encontramos na câmara com resquícios de magia das trevas continha um fragmento da alma de Voldemort conservado há cinquenta anos por um poderoso feitiço que ainda não conseguimos desvendar completamente. Suspeitamos que algum seguidor de Voldemort tenha colocado o diário nas coisas da senhorita Weasley quando ela e seus irmãos foram comprar seus materiais no Beco Diagonal com a intenção de trazer seu senhor à vida utilizando-se da energia vital da pobre menina – suspirou, o rosto envelhecido parecendo derrotado –, pelo o que conversei com os irmãos dela, durante todo o ano ela parecia hipnotizada e ausente, apenas dando atenção para o perigoso diário, até que este desapareceu...

Harry engoliu em seco, suas bochechas tingindo-se de vermelho.

Dumbledore, por sua vez, encarou-o por cima dos óculos em formato de meia lua:

- Acredito que você tenha encontrado o diário quando a senhorita Weasley, assustada com o seu poder, tentou se livrar dele.

- E-Eu não sabia... – Harry murmurou – Tom, quero dizer, Voldemort parecia tão...

- Eu posso imaginar, meu garoto. Tom sempre foi um jovem manipulador e sedutor.

- Eu não o ajudei, senhor! Eu juro que não sabia...!

- Fique tranquilo, Harry. Os aurores estiveram aqui mais cedo, quando você estava desacordado, e apuraram exatamente o que aconteceu. Eu peço desculpas por isso, mas foi preciso extrair suas lembranças para averiguarmos tudo o que aconteceu e, então, provarmos sua inocência, não que houvesse qualquer dúvida quanto a isso para mim.

- Obrigado, senhor – murmurou, não muito seguro se deveria sentir-se grato ou com raiva por vasculharem suas memórias.

Harry, então, franziu o cenho ao pensar em algo:

- Como podem haver dois deles? – vendo o semblante confuso do diretor, o jovem ômega tentou explicar – No ano passado, quando o professor Quirrell morreu, o senhor disse que Voldemort não morreu com ele, que o abandonou e continua por aí em algum lugar esperando para recuperar seu poder, mas agora Tom, quero dizer, o diário o trouxe de volta a vida... Isso significa que há dois dele agora, senhor?

- Na verdade, imagino que existam dois fragmentos da alma de Voldemort coexistindo no mundo neste exato momento, nenhum deles está completo, com seu poder total – explicou – mas receio que, em breve, esses fragmentos se tornarão um só...

- Fragmentos de sua alma? C-Como ele pôde separar sua própria alma?

- É apenas uma teoria – seus olhos escureceram por um instante, assustando o pequeno ômega, mas logo voltaram ao normal –, mas não pense nisso agora, Harry. Enquanto ele estiver fraco, ele não tentará atacá-lo, você está seguro aqui.

Harry balançou a cabeça, concordando em silêncio, não muito convencido porém. Então, corou novamente ao pensar no último "ataque" de Voldemort e sentiu seus lábios formigarem.

Seu primeiro beijo.

Aquele maldito alfa o havia engado, manipulado e roubado seu primeiro beijo.

Harry certamente o odiava. E seu coração acelerado só podia ser a prova disso, certo?

-x-

Harry voltou para seu quarto nas masmorras na noite seguinte. Pelo o que Pansy e Hermione lhe contaram, Dumbledore havia se dirigido a todos no café da manhã e pedido que apenas deixassem Harry em paz, que ninguém lhe fizesse perguntas nem o aborrecesse pedindo que contasse o que acontecera na câmara. A maioria dos colegas, reparou Harry, estava lhe dando distância nos corredores, evitando olhá-lo. Alguns cochichavam tampando a boca com as mãos quando o ômega passava e ele imaginou que muitos estariam formulando as próprias teorias sobre a morte de Ginny Weasley, mas descobriu que não fazia muita diferença. Harry e suas amigas haviam chegado a um entendimento que não precisava ser expresso com palavras: cada um estava a espera de um sinal sobre o que estava acontecendo fora dos muros de Hogwarts e seria inútil especular até que soubessem de alguma coisa ao certo. A única vez que tocaram no assunto foi quando Pansy contou a Harry sobre o encontro que a Sra. Parkinson tivera com Dumbledore há alguns dias.

- Ela queria que você fosse direto para nossa casa no verão, mas o diretor insistiu que você vá para a casa dos Dursley, pelo menos no começo.

- Por quê?

- Ela disse que Dumbledore tem lá as razões dele – explicou, revirando os olhos com desdém – mas prometeu castrá-lo caso seus parentes voltem a tratá-lo daquela forma odiosa.

Harry não pôde conter as risadas.

A Sra. Parkinson poderia ser uma mãe controversa, sem dúvida, mas somente ela poderia ameaçar castrar o alfa considerado um dos maiores bruxos de todos os tempos com um olhar frio e uma convicção assustadora.

Quando ele, Pansy e Hermione entraram no Salão Principal dias depois, notaram imediatamente que não havia as decorações de costume. O salão em geral era enfeitado com as cores da casa vencedora na festa de despedida. Naquela noite, no entanto, havia panos pretos na parede ao fundo onde ficava a mesa dos professores. Harry percebeu instantaneamente que era um sinal de respeito por Ginny Weasley.

- O fim – disse Dumbledore olhando para todos – de mais um ano.

Ele fez uma pausa e seu olhar pousou na mesa Gryffindor, a mais silenciosa de todas, de rostos tristes e pálidos, onde cabeleiras ruivas já não podiam ser localizadas, pois, por razões óbvias, haviam voltado para casa mais cedo. Harry, com um suspiro entristecido, lembrou-se do olhar repleto de ódio e lágrimas que Rony Weasley lhe lançara antes de seguir seus pais e irmãos para a saída do castelo, o corpo sem vida da irmã num caixão preto ao seu lado.

- Há muita coisa que eu gostaria de dizer a todos vocês esta noite, mas, primeiro, quero lembrar a perda de uma excelente pessoa que deveria estar sentada aqui – ele fez um gesto em direção à mesa Gryffindor – Ginny Weasley era uma jovem menina exemplar que, em seu primeiro ano, já mostrou ser bondosa, aplicada e corajosa. Sua morte, é claro, afetou a todos, quer vocês a conhecessem bem ou não. Portanto, creio que vocês têm o direito de saber como esta tragédia aconteceu.

Harry ergueu a cabeça e encarou Dumbledore.

- Ginny Weasley foi morta por Lord Voldemort.

Um murmúrio de pânico varreu o Salão Principal. As pessoas olharam para Dumbledore incrédulas, horrorizadas. Ele parecia perfeitamente calmo ao observar os presentes até pararem de murmura.

- Como o Ministério da Magia e o Conselho de Pais e Mestres já está ciente, Voldemort conseguiu se infiltrar em nossa escola com um objeto repleto de magia negra com o qual usou a energia vital da Srta. Weasley para recuperar seu corpo. Ele também aterrorizou nossa escola ao longo desse ano petrificando os alunos nascidos-muggles com um mostro que Salazar Slytherin havia aprisionado nas profundezas do castelo, um basilisco.

Novamente, os murmúrios de pânico se fizeram presentes, mas Dumbledore continuou, acalmando-os:

- Eu e os demais professores conseguimos afugentar o basilisco e matá-lo, graças ao Sr. Harry Potter e à Srta. Pansy Parkinson que, com sua imensa bravura, conseguiram achar a localização da câmara. O Sr. Potter tentou deter Voldemort, ele colocou sua própria segurança em risco para salvar a Srta. Weasley, mas, infelizmente, Voldemort o afugentou com sua cruel entonação alfa, algo que um pobre ômega de doze anos de idade não poderia resistir, e o deixou inconsciente e pronto para ser devorado pelo basilisco, caso não chegássemos a tempo.

Harry franziu o cenho, Dumbledore estava distorcendo os fatos. Ele tinha certeza que Voldemort não havia chamado o basilisco para atacá-lo, mas o diretor parecia acreditar no contrário. À sua volta, olhares perplexos o fitavam.

- Como um ômega poderia deter você-sabe-quem?

- Ele teve sorte quando nasceu e tentou provar sua fama agora, que ômega estúpido.

- Por isso ômegas não podem ser deixados sozinhos.

- Ômegas não pensam direito... – Harry revirou os olhos, ignorando os comentários odiosos de alfas, betas e até mesmo de diversos ômegas ao seu redor, então sentiu o aperto de Draco em sua perna. Este o encarava com os olhos arregalados, finalmente descobrindo o que havia acontecido naquela noite.

Harry suspirou e ofereceu um sorriso tranquilizador ao jovem alfa:

- Eu estou bem, não se preocupe.

- Você poderia ter morrido – Draco grunhiu – e por uma estupidez!

- Draco...

- Eu não vou deixar você sair de perto de mim outra vez, nem mesmo para escrever naquele estúpido diário!

Pansy revirou os olhos, mas ficou quieta. Ela mesma ainda estava abalada por ter quase perdido seu melhor amigo.

- Não se preocupe – Harry suspirou tentando esconder o olhar abatido – Eu não quero mais saber de diários.

- Ótimo – Draco deu um tapinha satisfeito em sua perna – Vou comprar qualquer bobagem ômega que você queira para se distrair, mas você não sairá de perto de mim outra vez.

- Eu ainda precisarei passar as férias com meus parentes...

- Meu pai vai cuidar disso – disse, confiante – Ele conversará com Dumbledore.

Harry achava pouco provável o diretor permitir que ele fosse para a mansão Malfoy, já que nem a Sra. Parkinson conseguira convencê-lo a deixá-lo livre dos Dursley naquelas férias, mas ele não discutiria com Draco. Ele havia aprendido a duras penas que não adiantava discutir com Draco.

No púlpito, Dumbledore encerrava seu discurso:

-...Lembrem-se de Ginny Weasley como a jovem bondosa, generosa e corajosa que não conseguiu terminar o seu primeiro ano em Hogwarts, mas que estará sempre em nossos corações.

Clichê.

Harry suspirou, contendo-se para não revirar os olhos. Ginny Weasley não estaria em seu coração. E ela também não estaria morta se não tivesse roubado seu diário, mas ele não pensaria nisso agora. Aquele nunca fora o seu diário. Nada do que havia conversado com Tom fora real, pelo menos não para o Lord das Trevas.

-x-

- Eu sabia que você estaria aqui.

- Ótimo, então por que demorou tanto? E por que está com essa aparência?

- Porque, minha querida Nagini, eu precisei usar o fragmento da minha alma que guardei aos dezesseis anos no meu diário para recuperar o meu corpo e, pelo menos, uma parcela da minha magia.

- Bom, da próxima vez que você sumir por doze anos, abasteça a Mansão Riddle com ratos mais gordos, estou morrendo de fome aqui.

Tom olhou para a gigantesca serpente que rodeava a poltrona velha de seu odioso pai muggle e riu.

- Você parece muito bem alimentada – ignorando o sibilar ofendido de sua guardiã, ele continuou – mas vou providenciar os ratos que você quiser quando eu recuperar o segundo fragmento da minha alma que está vagando enfraquecido por aí. Tão logo eu faça o ritual para absorvê-lo, minha magia será restaurada por completo.

Então, lembrando-se daqueles inocentes olhos verdes, Tom sorriu.

Harry Potter.

Interagir com o jovem ômega certamente fora surpreendente. No começo, Tom quis manipulá-lo como havia feito com a garota Weasley para matá-lo, é claro. Mas, ao longo do tempo que passavam juntos, notou que o menino era inteligente e habilidoso, e que poderia lhe servir como um importante aliado para derrubar Dumbledore e conseguir o controle do mundo mágico. No entanto, um impulso desconhecido – talvez hipnotizado por aquele doce aroma – o fez tocar levemente, quase com reverência, aqueles lábios suaves. Um toque inocente que, não obstante, o deixou intrigado.

- Nos encontraremos em breve, pequeno.

Uma ameaça ou uma promessa?

O próprio Lord das Trevas não sabia dizer.

Continua...

-x-

Olá, meus amores! Por favor, me desculpem pela demora... Eu sei que fazem séculos que não atualizo nenhuma história e não há desculpas para isso, mas eu me casei há pouco tempo e toda a preparação, a ansiedade e depois a viagem de lua de mel me deixaram um pouco fora de órbita, mas eu não poderia deixar o ano acabar sem trazer um novo capítulo para vocês. Infelizmente, ele não é muito longo, mas nos traz a primeira interação Tomarry! A partir de agora, preparem os corações... rs.

Feliz Natal, meus amores!

E se quiserem mais, já sabem, deixem suas REVIEWS!