NOTAS DO AUTOR:
Yo, yo!
Eis um novo capítulo e devo dizer que acho que vão gostar do que tem nele, principalmente do final. *-*
Vão lá! Boa leitura!*~
[…]
Forgotten phrases…
Frases esquecidas…
Tender and sweet…
Suave e doce…
[…]
O dia passou rápido. Depois de Itachi lhe dizer aquelas palavras generosas e gentis, ela esperou o almoço fazer digestão enquanto continuava lendo o livro que interrompeu um pouco antes de tudo sair do controle e ter que aplicar seus conhecimentos médicos num Itachi gravemente ferido. Quando achou apropriado, deixou a leitura de lado e se deitou. Iniciou a sessão de cura e cochilou depois de três horas.
Acordou e se deu conta de que já havia anoitecido, mas aquela não foi sua única percepção. Quem estava ao seu lado era Itachi, o verdadeiro e não o clone.
Ela esboçou um pequeno sorriso inconsciente e se sentou, sentindo uma leve labirintite. Levou a mão à testa e fechou os olhos. As consequências de acelerar seu processo de cura estava se juntando as consequências que já estava arcando. Cogitou, pela primeira vez, parar por algum tempo suas sessões de autocura, antes que tivesse que lidar com alguma sequela permanente.
— Descanse devidamente esta noite.
Ouviu o timbre absoluto em tom baixo e calmo, e levantou a cabeça, vendo-o ao seu lado, em pé, com uma bandeja em mãos. Ele a pousou sobre seu colo, expondo uma variedade de alimentos ricos em proteínas e vitaminas que uma pessoa que usava regularmente Chakra precisava para uma recuperação acelerada natural.
Ela sentiu as sobrancelhas rosadas arquearem e levantou a cabeça para encará-lo, mas ele já estava de costas e em frente à janela. Observou-o cruzar os braços e apoiar-se contra a parede, a cabeça voltada para a paisagem, impedindo-a de ver qual o olhar que seus olhos fixos lá fora carregavam. Indiferente? Decepcionado? Irritado? Infelizmente o tom de voz dele sempre era muito constante, raramente sofria alguma alteração, então a única maneira de lê-lo era pelo tipo de olhar que carregava, e, ainda assim, eram poucas as oportunidades que tinha para observá-lo. Se não estava com medo de ser presa num Genjutsu, era privada por ele, que sempre lhe dava as costas.
Sem ter outra escolha a não ser engolir a frustração, Sakura iniciou sua refeição e a finalizou minutos depois, sem se alimentar devidamente. Estava enjoada. O estômago embrulhado contraía-se frequentemente ainda devido ao uso excessivo de pílulas de reposição de Chakra.
Era difícil ser afetada por aquela consequência a ponto de se restringir a não se alimentar, mas sentia que colocaria tudo para fora antes mesmo de ingerir mais alguma coisa se tentasse. Só a ideia a pressionava a fechar os olhos e respirar fundo. O enjoo, em forma literal de avalanche, subiu a garganta a queimando por onde passou.
No automático ela afastou a bandeja de seu colo para o lado e levou a outra mão, já com uma concentração de Chakra de Cura significativa a rodeando contra o estômago, mas antes de aplicá-lo para se curar foi surpreendida por uma mão a impedindo através de um agarre no pulso.
— Deixe seu corpo passar por este processo sem interferência. Vai pressioná-lo ainda mais se forçá-lo com Chakra de Cura.
Ela ficou em choque; a mente em branco, o corpo inerte e o coração a toda.
Ele permitiu a troca de olhares, permitiu-a mergulhar nas íris perigosas da cor sangue sem arcar com nenhuma consequência. A mão quente dele ainda envolvia o pulso fino feminino, deixando dormente sob seu toque.
Sakura mergulhou em lembranças, lembranças que a todo custo tentava esquecer. Aqueles fios negros sobre o rosto, ainda que fossem mais cumpridos, lhe traziam uma familiaridade indesejada. O par de carmesim a fitando com intensidade também, mesmo que não lhe fizessem mergulhar num Genjutsu cruel. Os traços robustos bem definidos, o maxilar viril tenso, os lábios em uma expressiva linha reta. Oh, aquela expressão facial indecifrável, mas que instigava no auge sua curiosidade…
Aquele rosto mais maduro, com peculiares traços sob os olhos, levava-a a ver um rosto mais jovem, daquele que roubou seu coração sem intenção e que o machucava da mesma maneira, porque não representava nada para ele, nem mesmo a posição de alguém a ser odiado.
Mas, estranhamente, quando ela deixava de observar as semelhanças faciais e voltava ao par de carmesim encontrava diferenças entre eles, diferenças eloquentes. Aqueles olhos, apesar de ter à disposição um poder inimaginável e sombrio, não usavam suas armas contra ela; somente encaravam-na, tão intenso… tão… exclusivo.
Ela engoliu a seco, ele também.
O silêncio perigosamente abriu brechas para que ambos fizessem algo do qual pudessem se arrepender futuramente, porque Sakura sentia o coração ser preenchido por sentimentos incompreensíveis, mas acalentadores, minando qualquer ódio que ela tinha por ele em respeito ao Sasuke, e Itachi, porque estava lutando contra pretensões intimidantes, um instinto irracional de ignorar a razão e agir à base da emoção e, principalmente, contra um desejo que jamais sentiu antes. O pior de tudo era que tinha plena consciência de que a sua frente estava uma mulher que por toda a vida se sacrificou em prol do amor que sentia por seu irmão mais novo e que também era a única chance de Sasuke um dia ser feliz.
Ele a observou desde que viu Sasuke deixá-la desacordada sobre um banco, depois de dizer um único e carregado "Obrigado." antes de partir, deixando Konoha para trás a fim de seguir um caminho obscuro para conseguir o poder que ele mostrou que era necessário para sobreviver. Haruno Sakura tinha uma real importância para seu irmão, apesar de ela não ter tal percepção. E ele realmente ficou feliz por Sasuke poder contar com uma pessoa para voltar um dia, mas aqueles anos, um após o outro, a observando a distância, transformou aquela felicidade em… frustração. Por muitas vezes se pegou, secretamente, a admirando; a doce e meiga menina, diante de seus olhos, evoluiu e se transformou numa obstinada e forte mulher. E todas as vezes que ela superava um desafio autoimposto de crescer, de se desenvolver ou mudar, ele sentia uma mélica e audaz sensação de orgulho e curiosidade. Via-se cada vez mais tentado a continuar a observando. O que antes era apenas uma questão de estratégia, converteu-se em uma questão pessoal, uma busca de uma luz para sua escuridão.
Por quantas vezes ele finalizou uma missão em que cometeu pecados monstruosos e fugiu para Konoha, apenas para observá-la? Vê-la treinando ou fazendo algo supérfluo com as amigas acalmava seu coração e o fazia esquecer das atrocidades que cometia pelos seus objetivos, por raros e breves segundos, mas que tinham uma importância e necessidade palpável de tempos em tempos, contudo, concentrava-se em apenas vigiá-la, aguardando o momento certo para usá-la.
Lentamente e com uma sofreguidão desconhecida até para si mesmo, Itachi afrouxou o aperto sobre o pulso feminino até finalmente soltá-lo. Ele se aproximou um pouco mais, deixando o rosto próximo ao dela, o que o permitiu sentir a respiração dela contra a própria, mas só para sua mão alcançar a bandeja que ela deixou ao lado antes do mal estar. Depois de pegá-la, endireitou-se e foi para o banheiro depois de dizer um "Descanse." e deixar a bandeja sobre a cômoda.
Sakura ainda tinha a respiração engatada com aquela repentina aproximação. Sentia a pulsação no ouvido e latejando no pescoço. O coração estava tão acelerado que parecia que ia pular a qualquer momento boca afora.
Precisava ser franca consigo mesma, admitir o que estava acontecendo para que pudesse se corrigir. Por um milésimo de segundo, ela esperou; esperou que ele a beijasse quando se aproximou. E não obstante, sentiu-se decepcionada, pois ela o queria.
Soltou a respiração numa única exasperação e fechou os olhos, ciente do quão doloroso foi admitir aquilo. Abriu-os decidida a se corrigir, porque esperar que Itachi lhe beijasse era o mesmo que apunhalar Sasuke pelas costas e não estava disposta a ir tão longe, não quando o amor por Sasuke pulsava tão ardentemente quanto dolorosamente forte em seu coração.
Contudo, uma percepção, retarda levando em conta o próprio mal julgamento que fazia de si mesma, a salvou: a aproximação e a permissão que ele lhe deu de olhá-lo nos olhos a fez ver Sasuke. Era possível que, em algum lugar de sua mente distorcida, tivesse se enganado propositalmente, aproveitando-se da aproximação que Sasuke nunca permitiria acontecer para fantasiá-lo no lugar do irmão? Oh, céus… aquilo era ainda mais errado!
Soltou um muxoxo indignado e repreensivo e se deitou, cobrindo-se até o topo de sua cabeça.
Tinha vergonha de si mesma. Uma grande e maldita vergonha. Como chegou a tão baixo? Quando foi que se transformou naquele ser desprezível? Seu amor por Sasuke era doentio, a transformava na pior pessoa do mundo.
E com aqueles pensamentos a perturbando, dormiu. As incoerências dos seus sentimentos ganhavam forma sob as pálpebras fechadas. Um rosto. Um olhar. Nenhuma palavra. Uchiha Sasuke apenas a encarava e em seu ínfimo sabia o porquê.
"Você me traiu. Me traiu com ele.", aquele olhar acusador dizia.
E, mesmo que não houvesse nenhuma ligação com seu corpo, ela estremeceu e se encolheu, porque tinha ciência de sua culpa. Não fantasiou Sasuke naquele momento, pelo contrário, finalmente encontrou diferenças entre aquelas semelhanças. Era Uchiha Itachi que torceu para que a beijasse.
"Me desculpe.", sussurrou e aquelas palavras ecoaram tanto, mas tanto, que apunhalava dolorosamente seu coração. Viu-se em desespero, perdida, culpada e sufocada. "Eu não quis-…", tentou explicar, mas Sasuke a interrompeu com um estalo de língua.
"Não desperdice palavras mentindo para mim.", o Uchiha mais novo acusou, encarando-a com perigosos olhos carmesim, voraz, numa fúria mal contida. "Você quis e ainda quer.".
Aquelas palavras ganharam forma; a forma da espada de Sasuke, desembainhada lentamente e empunhada em sua direção com firmeza e extrema rudeza.
"Não é simples assim… eu te amo. Te amo mais do que tudo, Sasuke-kun!", defendeu-se, tentando se mover na direção dele, mas não conseguiu, porque sentia-se presa, enraizada ali.
"Mas também começou a amá-lo. Vejo isso em seus olhos.", o escárnio presente em cada palavra.
Um sorriso cruel desenhou os lábios finos e Sakura precisou fechar os olhos para expulsar lágrimas que distorciam sua visão.
Não houve tempo, como também não houve nenhuma chance de reverter aquele resultado. Ela sentiu uma dor imensurável espalhar-se lentamente por seu corpo a partir do ferimento lhe infringido no abdômen. A espada a atravessou e agora estava banhada com seu sangue, como as mãos que a empunhavam. Os rostos tão próximos, que ainda que se sentisse culpada, era capaz de lembrar-se de quando ficou à mesma distância do rosto do irmão mais velho dele, fazendo-a sorrir tristemente.
"Eu nunca vou te perdoar.", foram as últimas palavras ouvidas na voz de Sasuke.
Em seguida despertou daquele pesadelo, num movimento brusco que a fez se sentar alarmada, levando as mãos no ferimento psicológico causado pela espada daquele que ela amava tanto.
Engoliu a seco e levou algum tempo para reconhecer que aquilo era só um pesadelo causado por sua consciência perturbada.
Sakura respirou fundo, livrando sua mente daquele pesadelo e quando finalmente deixou-a em branco, pôde relaxar um pouco. Uma das mãos enxugou a testa úmida, a outra apertou-se sobre o lençol.
Desde o encontro com o antigo membro do Time 7, acostumou-se a ter pesadelos quase que diariamente, mas atualmente havia uma diferença: os pesadelos eram movidos apenas por lembranças, de todos os momentos em que Sasuke a feriu ou feriu Naruto e todas as tentativas dele contra suas vidas, entretanto, desde que se juntou a Itachi, vem tendo pesadelos novos – por assim dizer –, pesadelos vívidos, com situações inéditas, sempre em torno do que ela sentia ou pensava. Isso deveria significar alguma coisa?
Não podia deixar de considerar também algo um pouco menos racional: superstição. Sempre ouviu sua falar, desde pequena, que os sonhos eram uma maneira de comunicação com os ancestrais ou Deuses. Uma maneira de eles guiá-los pelos caminhos sinuosos que a vida dispunha.
E se esse fosse o caso, seus ancestrais ou Deuses queriam lhe mostrar que continuar ao lado do irmão mais velho a fará perder de vez o irmão mais novo? Céus… perder ainda mais, se é que isso ainda era possível.
Não era como se ela tivesse alguma escolha, embora não tenha tentado fugir nenhuma vez sequer.
Tudo bem, ela estava ali por vontade própria também, queria fugir das consequências de suas escolhas ficando o mais longe possível de Konoha e de sua família e amigos.
Por todos os Deuses, ela tinha escolha sim e escolheu ficar com ele.
Levou uma mão impaciente à testa, num tapa agressivo onde descontou toda sua indignação para consigo.
O que aquilo significava? Que ela abriu mão do amor que sentia pelo Uchiha caçula?
— Argh! — frustrou um grito mais alto de sair, prendendo-o na garganta, apesar de ter emitido um som gutural.
Tinha que parar de refletir, precisava urgentemente se afastar de todos aqueles pensamentos que somente a perturbavam.
Seus sentidos despertaram daquela confusão e logo trouxe-lhe algumas percepções.
O primeiro foi que Itachi – e não o clone – ainda estava no quarto. Ele não saiu do seu lado?
Estava sentado na cadeira que ficava ao lado da porta do banheiro, de frente para sua cama. As pernas cruzadas, os braços também. Observou-o abrir os olhos, expondo aquele belo par de carmesim.
Com aquela convivência percebeu que ele não usaria o Sharingan contra ela. Por quê? Porque ela escorregou inúmeras vezes durante as discussões com ele e o encarou mais do que uma pessoa inteligente encararia. Se tivesse alguma intenção de prendê-la num Genjutsu já o teria feito, além do que, Uchiha Itachi provou que não era hostil como ela pensava, muito pelo contrário. Ele era reservado sim, também muito discreto, talvez até um pouco antissocial, mas não hostil, não consigo.
Ele a encarou e se levantou. Caminhou até o armário velho e tirou de lá um manto negro com capuz. Com sua postura imponente e natureza relaxada deixou o manto sobre a cama.
— Vista-o. Vamos sair.
Sakura não conseguiu frear suas reações; boquiaberta, encarava-o como se para adverti-lo de que deveria repensar sobre o que disse. Os olhos estavam arregalados, a respiração engatada. E Itachi, este riria se não quisesse manter a seriedade, por isso apenas lhe deu as costas indo até a janela, observando a penumbra da noite pouco agraciada com raios lunares.
A Médica-Nin não poderia estar mais surpresa, talvez até embasbacada. Não sabia dizer quanto tempo se passou, mas, ao vê-lo olhá-la de esguelha, percebeu que ainda a aguardava obedecê-lo e imediatamente se levantou e vestiu o manto negro.
Itachi se virou completamente para ela e só o que lhe restou foi engatar a respiração mais uma vez.
O semblante sério, o olhar, banhado por uma das cores mais lindas e cheias de significados; amor, ódio, desejo, repulsa, calma, perigo… um olhar vazio, mas que a fitando parecia preenchido, inteiramente. Do quê? Ela queria perguntar, mas só conseguiu permanecer altiva o encarando, sem um pingo de medo, mas entregue à curiosidade e ele demonstrou, pela primeira vez, apreciar tal atitude, pois, mesmo que minimamente, quase dando margens para dúvidas se realmente havia acontecido, o canto de sua boca ergueu, como se sorrisse.
Sakura ouviu passos avançarem calmamente em sua direção e por reflexo fechou os olhos. Ela sentiu a respiração dele contra o rosto, tão suave quanto a brisa sob o calor, e logo o sentiu colocar o capuz sobre sua cabeça.
Abriu os grandes olhos esmeraldinos quando o sentiu paralisar e o coração acelerou de imediato encarando-o tão perto que tinha plena convicção de que sua respiração mais uma vez se misturava à dele.
Engoliu a seco, perdendo-se na imensidão do par de íris carmesim, e sentiu a lateral do rosto aquecer pela pouca distância que a mão dele tinha do seu rosto, paralisada no ar, indecisa sobre tocá-la ou não.
E por mais que o semblante dele estivesse sério, não havia rigidez, apenas tranquilidade e quem sabe curiosidade.
O Nukenin deixou a mão cair ao lado do corpo, deixando claro que qualquer intenção que tivesse de tocá-la se esvaiu e Sakura, por um instante, sentiu-se à deriva.
A troca de olhares permaneceu. Nenhum dos dois ousou interromper o silêncio, por mais que seus corações estivessem agitados, tanto, que desconfiavam que um era capaz de ouvir as batidas do outro.
Ele foi o primeiro a encerrar aquele contato visual e se virar, caminhando para a porta, e só então Sakura ousou concluir que Itachi realmente tinha uma presença marcante. A ausência dele abriu um buraco à sua frente, um buraco que abria cada vez mais conforme ele se distanciava e aquela sensação a sufocava mais e mais.
Sempre foi assim. Desde que ele a deixou pouco depois de despedir-se de Naruto.
— Para-… para onde vamos? — ousou perguntar, mas não por curiosidade, como sempre fez, apenas queria estender o momento que já se dissipava.
Ela respirou fundo e sentiu o diafragma tremular sua respiração; o estômago, revirado, trouxe-lhe aquele incômodo frio na barriga.
Tentava, mas não conseguia frear o crescimento das expectativas… oh, era uma armadilha. O destino que queria lhe pregar mais uma peça.
Quando foi a última vez que sentiu todas aquelas sensações?
Fechou brevemente os olhos, buscando na memória, e sob as pálpebras viu um rosto alvo, cabelos negros e desalinhados dançando com a brisa, os olhos ainda mais negros que a escuridão refletida em seu coração e a postura imponente, indiferente.
Sim, sim… ainda o via no alto do rochedo, com uma das mãos na cintura. Ele tinha acabado de dizer seu nome. Tanta arrogância numa só palavra…, mas seu coração não negava ser dele. Batia forte contra o peito, sentia a pulsação no ouvido, ainda que também sentisse como se o mundo tivesse parado.
O Nukenin se virou e o movimento tirou Sakura daquela zona de risco, fazendo-a abrir os olhos e virar-se para encará-lo, agarrá-lo visualmente para que não voltasse para aquelas lembranças, nem para o Sasuke, porque doía, doía tanto que se via sem motivos para continuar vivendo e ela não era fraca, não podia deixar-se abater por aquela dor, nem mesmo por um instante.
O orgulho ferido de Haruno Sakura ainda era forte o suficiente para fazê-la, de todas as maneiras possíveis e impossíveis, reprimir aquela dor, superar. "Já basta.", se repreendia duramente e então se jogava na cara todos os motivos que a fez se tornar uma refém consentida.
Ela aceitou ser refém de Uchiha Itachi porque não suportava mais a forma como vivia em Konoha;
Aceitou viver clandestinamente, limitada e sem expectativas, porque não suportava mais ser livre e ainda assim se sentir prisioneira das consequências das próprias escolhas;
Aceitou até mesmo morrer pelas mãos daquele homem, porque a ideia de morrer era ainda mais fácil de lidar do que com a ideia de continuar vivendo daquela forma, mas, definitivamente, não era um tipo de "suicídio", porque, embora ela aceitasse morrer pelas mãos daquele homem, jamais morreria sem tentar se salvar.
E era o que estava fazendo, tentando se salvar.
Tentando encontrar uma luz que a tirasse da escuridão em que Sasuke lhe deixou.
Tentando com todas as suas forças encontrar uma causa pelo qual valesse à pena lutar.
Itachi não disse nenhuma palavra, apesar de ter estendido a troca de olhares. Minimamente, o canto direito da boca dele ergueu-se, mais uma vez lhe dando dúvidas se ele sorria ou se estava imaginando coisas, e depois abriu a porta, caminhando para fora do quarto.
Ela precisou de alguns segundos para se recuperar da taquicardia. Aquele "quase" sorriso fez seu coração quase parar.
Ouvindo os passos dele se distanciarem cada vez mais, apressou-se em segui-lo.
O silêncio reinava sob o som dos passos deles. Itachi caminhava calmamente pelos corredores da pensão, até sair do prédio. Sakura, em seu encalço, observava tudo com muita curiosidade, principalmente quando chegaram à rua. Apesar de desconfiar de que aquela Vila era clandestina, era bastante agitada a noite, pois seus cidadãos e turistas pareciam frequentar os bares a qualquer dia.
Havia todo o tipo de gente perambulando as ruas congestionadas. Homens e mulheres de diferentes Clãs e etnias perambulavam, às vezes sozinhas, outras acompanhadas, pelas ruas sem preocupação nenhuma, embora o fizessem altamente armados. Eram fugitivos, afinal.
— Espere aqui. — Itachi ordenou sem olhá-la e entrou num estabelecimento que ela pôde identificar pela placa ser um restaurante.
Sakura abaixou a cabeça quando, ao passar por ela, um homem a encarou demoradamente. Ele parou há alguns passos dela e manteve-se a encarando.
Nervosa, discretamente pousou a mão sobre a Kunai em seu coldre lateral da coxa e aguardou qualquer movimento brusco do homem em sua direção, entretanto nada aconteceu. Minutos depois Itachi se aproximou e o homem foi embora.
— Vamos. — ele abriu espaço para que ela entrasse no restaurante.
Ela obedeceu em seguida, mas ainda manteve a cabeça abaixada para não ser reconhecida, no fim das contas, quantas pessoas com cabelos róseos e olhos verdes existiam? Ainda que usasse capuz, alguns fios fugiam de seu interior e seus olhos também.
A surpresa estava estampada em seu rosto, tinha certeza. Ao entrar, percebeu que, apesar de o exterior do estabelecimento ser bem rudimentar, miserável e sórdido, o interior era impecavelmente limpo e bem cuidado. Funcionários, vestidos com o uniforme do estabelecimento – avental e uma variação de touca na cabeça – serviam o lugar com eficiência.
— Tire o capuz. — ouviu e virou-se imediatamente para encará-lo.
— Mas-…
— Tire. — Insistiu, sem ouvi-la.
Itachi começou a caminhar sem aguardá-la, no entanto, parou alguns passos a frente quando percebeu que não estava sendo seguido. Não aparentava estar impaciente, mas ela sabia que estava por desobedecê-lo.
Era até cômico perceber que passou a conhecê-lo e reconhecer ao menos alguns dos seus trejeitos, que não eram tão diferentes do irmão mais novo.
Seria o "jeito" Uchiha de ser? Porque, pelo que sabia, Sasuke não conviveu por muito tempo com o irmão a ponto de adquirir os trejeitos dele.
Sakura quis rir de si mesma. Como era capaz de pensar numa coisa daquelas?
Ela abaixou o capuz e moveu os pés na direção de Itachi, o vendo retomar a caminhada.
Ele a levou para o centro do restaurante. Puxou uma cadeira, que deduziu que era para ela se sentar, e a aguardou sentar.
— Fique aqui. — ordenou e em seguida a deixou, seguindo pela direção contrária em que ela podia vê-lo.
Intrigada, a Médica-Nin pensou em se virar para ver para onde ele foi, mas a ausência do capuz a deixava apreensiva, quase imóvel. Algum tempo se passou e ela já se perguntava o que estava acontecendo.
Por acaso Itachi tinha alguma missão por ali? Bom, se tinha, ainda não explicava o motivo de ela estar presente, já que era de praxe ele deixar um Clone com ela no quarto quando precisava sair.
Depois de algum tempo ousou olhar ao seu redor, discretamente, e estranhou ninguém nem mesmo olhá-la.
Seus cabelos róseos deixaram de ser exóticos de uma hora para outra? Ou ninguém ali já viu ou ouviu falar dela?
Ela era a aprendiz da Princesa das Lesmas e atualmente Godaime Hokage, a Kunoichi que matou o Akatsuki Akasuna no Sasori ao lado de Chiyo, a Conselheira de Suna aposentada, famosa Marionetista, Líder da Brigada de Marionetes e Médica-Nin. A segunda melhor Médica-Nin do mundo. Deveria ser conhecida até mesmo num buraco daqueles.
Então passou a se sentir indignada. O ego mais uma vez ferido.
Bufou e apoiou o cotovelo na mesa e o queixo na mão, reprimindo o desgosto num bico infantil, mas irrefreável.
"Tudo bem. Ser um ninguém tinha suas vantagens. Pelo menos estava segura, Shannaro!", pensou, observando ao longe um grupo de homens brindando animadamente o sucesso de uma missão mercenária.
Ela sorriu com aquilo. Permitiu-se mergulhar em lembranças agradáveis.
Uma vez, há muito tempo, o Time Kakashi, excepcionalmente naquela missão com os cinco membros, concluiu uma missão de alta periculosidade. Todos estavam exaustos, acabados física e também psicologicamente, mas quando chegaram, foram direto para um bar.
Foi a primeira vez que todos os membros do time aceitaram. Geralmente Kakashi ou, em sua ausência, Yamato, eram os primeiros a lhes dar um perdido e em seguida era ela, que se recusava a passar um minuto a mais de sua vida na presença dos comentários excêntricos do Sai ou dos gritos histéricos do Naruto, porém, naquele dia, todos estavam predispostos a aproveitar aquele momento raro, que se tornou uma das lembranças mais doces que tinha ao lado de sua segunda família.
Teria sido perfeito se Sasuke, um membro da formação original do Time 7 e seu eterno amor, estivesse presente, mas seria querer demais tal coisa. Talvez meros humanos não tivessem o direito de ser plenamente felizes, ou talvez, só ela não tivesse esse direito.
O fato era que eles ficaram até as três da madrugada lá, bebendo, comendo e conversando sobre banalidades que os faziam descobrir coisas em comum, unindo-os ainda mais.
Logo depois sua Mestra descobriu que tinham chegado e, sem entregar o relatório da missão – primeiro descuido do Kakashi e do Yamato em nem mesmo terem lembrado disso –, foram beber, por mais que fossem menores e teoricamente não pudessem, mas que mal havia em embriagar-se uma primeira vez? Bom, a Godaime enlouqueceu. Apareceu naquele bar aos gritos, deu um sermão por mais de vinte minutos ininterruptos aos menores de idade e mais vinte minutos aos maiores, por terem permitido um absurdo daqueles, e sob o desespero de Shizune de acalmá-la, sentou-se à mesa, pediu uma garrafa de Sakê e juntou-se a eles.
Shizune, que geralmente ficava indignada e tentava convencê-la de voltar para a Torre Hokage – porque o trabalho de uma Hokage era longo e árduo – ou mesmo para casa, naquele dia cedeu e juntou-se a eles também.
Os raios solares invadiram o bar quando Naruto finalmente parou de matracar e caiu num sono tão pesado que nem o próprio ronco o acordava. Sai, apesar de não ser tão escandaloso para dormir, não estava numa situação tão diferente. Kakashi resmungava coisas incompreensíveis devido ao nível de álcool ingerido e Yamato soluçava tanto que a fazia rir. Tsunade e Shizune discutiam algo em uma língua inexistente, efeito da embriaguez, e ela, por mais exausta que estivesse, aproveitou cada segundo daquele momento, gravando todos os semblantes, palavras jogadas ao vento… a sensação de um lar, de família.
Lágrimas acumularam-se em seus olhos. A felicidade passou a dar espaço para uma nostalgia estranha, uma que sentia somente quando se lembrava do antigo Time 7, do Sasuke… era saudade.
Levou uma mão à boca para impedir o gemido de dor de fugir e a outra enxugou o canto dos olhos. Dizia a si mesma de que fez a coisa certa. Por mais que sentisse saudade naquele momento, não conseguia mais sentir nada de bom estando ao lado deles. O último encontro com Sasuke a deixou cega, insensível para qualquer coisa boa que acontecesse. Mesmo estando entre aqueles que amava com todo o seu coração, não era capaz de se envolver com eles.
Fez a coisa certa. Deixar seu lar e sua família foi a melhor coisa que fez em meses.
— Não deveria chorar logo hoje! — ouviu a exclamação feminina e ergueu a cabeça, confusa com a repentina aproximação — Posso me sentar? — A mulher, funcionária da pensão, Aya, não esperou por uma resposta. Sentou-se, colocando uma caixa embrulhada à mão com papel de presente sobre a mesa, empurrando-a para o lado e sorriu a encarando — Este lugar está bem animado hoje, não é mesmo?
— O que faz aqui? — Sakura perguntou, alheia à própria grosseria.
Foi inconsciente, estava alarmada e receosa de Itachi não gostar daquela aproximação. Ele mandou ela ficar lá, mas não sabia se podia ficar "acompanhada".
— Está com fome? Vamos pedir alguma coisa para jantarmos? — Aya a ignorou com tanta animação que Sakura apenas paralisou.
O sorriso que a mulher lhe direcionava, a animação incontida na postura, voz e gestos… tudo, tudo a lembrava Ino.
A bile subiu à garganta e os olhos inundaram-se com lágrimas mais uma vez.
"Por que diabos estou tão emotiva hoje?!", praguejou, desviando o olhar para a multidão à volta para se distrair.
Aya, diferente dela, exalava segurança e animação. Discursava sobre trivialidades enquanto aguardava um funcionário do estabelecimento atendê-la. Não sabia se era proposital, mas estava alheia à sua redoma depressiva.
— O que acha? — perguntou, fazendo-a encará-la.
— O quê? — infelizmente, não ouviu nenhuma palavra do que a mulher disse e aquela grosseria a fez se sentir realmente mal — Desculpe, estava distraída. O que disse? — corrigiu sua postura e forçou um pequeno sorriso, dedicando-se à mulher.
— Estava pensando em pedir o prato do dia… dizem que é a especialidade da casa. O que acha? — Aya repetiu sem, aparentemente, se importar.
Sorriu quando Sakura assentiu e voltou a interagir com funcionário.
Ele mal saiu e a mulher comentou que pediu também uma garrafa de Sakê artesanal. Disse que era um dos melhores da região e que ela deveria provar. Avisou também que ali ninguém se preocupava em não vender para menores, para o caso de Sakura não ser. "Ossos do ofício de viver numa Vila Clandestina", alegou.
Minutos depois Sakura conferiu com o próprio paladar a veracidade daquele título e não pôde deixar de pensar que sua Mestra adoraria experimentá-lo também, mas logo afastou aquela saudade, animando-se com a facilidade de alguém um pouco embriagada.
— Você nunca saiu desta Vila?! — exclamou, alto demais para quem estava sóbria.
Aya assentiu e depois monologou sobre como era frustrada por nunca ter tido oportunidade de sair daquela Vila, onde nasceu, cresceu e muito provavelmente também morrerá.
A mulher contou a história de vida miserável que tinha. Desde quando era uma criança passou por inúmeras dificuldades, tendo até a infelicidade de passar fome. Os pais a trocaram por um saco de 20 kg de arroz quando tinha seis anos para o dono da pensão onde trabalhava e desde então vive da mesma maneira: sobrevivendo um dia após o outro, sem expectativas e esperanças, apenas aguardando a morte buscá-la.
Era uma história triste, apesar de ela maquiar aquela realidade cruel com histórias de hóspedes que conheceu, que lhe eram contadas pelos próprios e que a faziam mergulhar na imaginação de se ver junto a eles.
Apesar de tudo, Aya era uma mulher sonhadora e Sakura se sentiu uma péssima pessoa por ter tido tudo na vida: amor, família e conforto, e, ainda assim, ser incapaz de ser feliz.
Elas quase esvaziaram a garrafa de Sakê conforme Sakura contava sobre sua viagem de cinco meses quando decidiu aprimorar seus conhecimentos e habilidades, e também, criar seu próprio Jutsu. Aya ouvia com atenção, seus olhos – castanhos claros, quase mel – brilhavam durante sua narração de como Sunagakure era terrivelmente quente durante o dia e inexplicavelmente fresca durante a noite.
— Oh, isso parece maravilhoso! — a funcionária da pensão exclamou, soluçando em seguida. Sakura riu e ela também, depois, levantou o dedo indicador, num gesto solícito: — Posso perguntar uma coisa? É verdade que no deserto existe miragem?
A risada da Médica-Nin foi genuína, tão gostosa que dispersou qualquer tristeza ou saudade que sentiu antes. Depois de se recuperar, ela olhou para o lado, buscando na memória a resposta para aquela pergunta, rindo em seguida pelo que encontrou.
— Sim! — respondeu, fazendo Aya arregalar os olhos de tanta surpresa — Inclusive, eu caí nessa armadilha local. — soltou um breve riso e assentiu quando Aya reforçou a surpresa — Eu tinha me perdido. As dunas irritantemente se moviam por causa dos fortes ventos e tinha perdido há pouco tempo minha bússola, então, depois de algumas horas andando, percebi que estava andando praticamente em círculos. Não tinha mais água em minhas reservas de invocação e eu estava com sintomas de desidratação severa… não demorou muito para eu ver, há alguns metros, um maravilhoso lago de água cristalina em meio a árvores e muitas sombras no meio daquela areia toda.
— E aí?!
— Ah… eu vergonhosamente corri para lá! — Sakura explodiu em risadas, já lembrando do constrangimento que passou minutos depois — Tinha me jogado na água, mergulhando de cabeça no frescor, bebendo tudo o que eu podia, até descobrir que mergulhei e "bebi" areia. Não havia nada lá, era uma miragem e eu estava alucinando…
— Não acredito! — Aya exclamou com incredulidade e Sakura riu.
— E essa nem é a pior parte… O Kazekage de Suna e seus subordinados assistiram tudo de camarote!
— Nossa! Como isso foi acontecer?!
— Ele estranhou minha demora para chegar. Quando estava na cidade vizinha, enviei uma mensagem para ele de que estava a caminho, porque foi uma exigência da minha Mestra quando disse que iria para lá. Então, como ia anoitecer em breve, ele achou prudente sair, junto de uma equipe de rastreio, em minha busca.
— Que situação!
— Pois é… eu não consegui sair do quarto por dias, de tanta vergonha!
Há muito tempo Sakura não se sentia tão leve. Apreciava verdadeiramente aquela descontração.
Aya lidou muito bem com ela e com seus breves momentos de introspecção. Em nenhum momento a pressionou ou tentou consolá-la, apenas a instigava a lembrar e falar de coisas boas e, curiosamente, nem mesmo uma vez, a chamou de Kyoko-San, como geralmente fazia.
Naquela altura, o motivo de estar ali e de Itachi não ter voltado ainda foi esquecido. Nem mesmo lhe passou pela cabeça aquele questionamento desde que iniciaram a conversa.
Algumas horas se passaram, o bar já não estava mais tão cheio e Sakura já estava levemente e perigosamente embriagada a ponto de sentir uma leve dormência pelo corpo e tontura.
— Né… eu trouxe uma coisa para você.
Aya disse repentinamente, arrastando a caixa embrulhada até o centro da mesa. Encarou Sakura com expectativa e um sorriso expansivo de orelha a orelha, fazendo-a arquear as sobrancelhas, confusa.
— Para mim?
— Sim! Abra! — a funcionária empurrou o embrulho na direção de Sakura e ela não teve como se recusar a abrir.
E depois de abrir demorou para compreender o que era.
Quando desenrolou o laço foi surpreendida por uma ativação automática de um selo interno que, de repente, acendeu uma pequena chama. Os olhos, curiosos, levaram algum tempo para perceber que a chama acesa estava sobre uma vela. Uma vela sobre um pequeno bolo individual.
Era conhecida por ser dotada de uma inteligência ímpar, uma das mentes mais brilhantes de sua Vila, mas, de repente, aquilo não significava nada diante daquele bolo com uma vela acesa sobre ele.
— Feliz aniversário! — Aya exclamou e bateu palmas, chamando a atenção das pessoas ao redor.
Estava tão paralisada que a Médica-Nin deixava claro a surpresa e confusão.
E, de fato, estava. As esmeraldas correram de um lado para o outro buscando se localizar no calendário. Passou tanto tempo assim?
E então foi assolada por um Tsunami de sentimentos. Era seu primeiro aniversário longe de casa, de sua família, de seus amigos… seu aniversário… uma data de suma importância para si, mas que na atual situação não significou nada a ponto de ter se esquecido. Seu aniversário… que, de alguma forma, Aya descobriu e a encontrou para que não passasse sozinha.
— Faça um pedido e assopre a vela! — foi incentivada, mas só o que fez foi encará-la.
A inteligência da qual tanto se orgulhava e que tinha a abandonado há pouco tempo voltou, mas voltada a algo muito mais importante. Ligou um ponto no outro:
Itachi passando os dois últimos dias consigo, sem deixá-la nem por um instante;
Depois a levando para sair e a deixando sozinha num restaurante;
A coincidência, que talvez não fosse tão coincidência assim, de Aya jantar no mesmo restaurante que Itachi a levou e por último, o bolo.
Poderia… ser? Uchiha Itachi seria capaz de tudo aquilo?
— Ei, morena! Que tal me dar um pedaço desse bolo, hein?
Um homem alto e intrometido perguntou, a fazendo olhá-lo.
Morena?
Em seguida olhou Aya. A funcionária tinha lindas madeixas loiras na altura dos ombros.
Quem aquele homem estava chamando de "morena"?
— Não finja que não é com você só para não me dar isso aqui. — O homem bateu com o punho fechado em sua mesa, causando um estrondo em meio ao silêncio repentino do ambiente.
Ele ameaçou pegar o suporte do bolo, mas Aya se levantou exasperada e o impediu de pegar.
— Você não pode fazer isso! É o aniversário dela!
— Não me importune, mulher!
Sakura foi mais ágil do que o brutamonte. Num segundo estava sentada observando, no seguinte estava em pé, em frente a Aya, bloqueando um tapa lateral com as costas da mão o ataque covarde do homem que se surpreendeu pela velocidade dela.
— Espere um instante. Minha amiga me trouxe este bolo com muito carinho. Ao menos espere até eu assoprar a vela. — disse em tom controlado, franzindo o cenho para adverti-lo de não prosseguir com a violência.
O homem compreendeu. Recuou a mão e a aguardou se virar sorrindo para a mulher que a acompanhava e depois se curvar sobre a mesa, deixando a boca próxima do bolo. "Esperança.", foi seu pedido mudo através de um pequeno sorriso involuntário.
Um suave sopro apagou a chama e em seguida ela discretamente enfiou o indicador no bolo antes de entregá-lo ao homem, olhando com cumplicidade Aya e piscando em seguida conforme ambas riram baixinho.
— Estava uma delícia. Obrigada, Aya. — aproveitou a oportunidade para expressar seu mais sincero agradecimento a abraçando, depois de degustar o dedo coberto pela cobertura do bolo.
— Espero que não tenha sido tão solitário sua festa por ter sido só entre nós duas.
— Não. De modo algum me sentiria solitária. Me fez muito bem o que vivenciamos hoje. Só tenho a agradecer.
— Que bom!
Elas conversaram mais um pouco até Aya se despedir dizendo que precisava voltar, pois ainda tinha que higienizar a cozinha. Chamaram o funcionário do restaurante para pagar a conta, mas ele informou que já estava pago.
Novamente se abraçaram e quando a mais nova amiga de Sakura estava prestes a sair, virou-se para ela sorrindo:
— Ele está lá fora.
Não deu tempo de Sakura ter alguma reação. A mulher se virou em seguida e sumiu por entre as pessoas.
Claro que isso não a impediu de sentir o coração acelerar quando ouviu "ele", nem de ter aquele tão surpreendente frio na barriga.
Ela engoliu a seco e levando uma mão ao peito decidiu encontrá-lo. Um pouco antes de sair do estabelecimento, resolveu confirmar sua teoria. Havia um homem há alguns metros e ele olhava em volta, como se ela fosse invisível, por isso se aproximou e depois de criar coragem o abordou:
— Oi… — o homem a encarou sem muito interesse, mas isso não a intimou, pelo contrário. Pensou nas palavras certas para descobrir o que queria — Sabe… acabaram de falar sobre o meu cabelo… você acha que devo mudar a cor?
Oh, aquela pergunta soaria estúpida se não estivesse usando táticas de sedução aprendidas com Ino; usou o tom mais manhoso que conhecia de si mesma, passou a mão no cabelo fazendo-o deslizar em camadas, o encarou com a cabeça levemente abaixada, ainda que o olhar estivesse fixo nos olhos dele e claro, sentia a ardência nas bochechas, era vergonhoso, querendo ou não, no entanto aquilo não era de todo ruim naquele momento: bochechas coradas davam um ar gracioso; um ponto a mais na sedução.
O olhar do homem mudou drasticamente, confirmando que aquelas técnicas eram realmente infalíveis; nível ANBU, como Ino mesma dizia.
Ele estreitou os olhos, umedeceu o lábio inferior e dispôs um sorriso ladino.
— Não sou muito fã de morenas, mas você é linda, não tem que mudar nada. Abriria uma exceção por você-…
— Ah, obrigada por responder! — Sakura o cortou assim que ouviu o que queria.
Imediatamente acenou e se retirou do restaurante, enfiando-se numa viela para sair da vista daquele homem.
Ela sabia o que aquilo significava. Desde que entrou no restaurante percebeu que as pessoas, que geralmente lhe olhavam e encaravam por tempo demais, a ignoraram. Itachi entrou primeiro. Claro que era um Genjutsu.
Mas por que ir tão longe?
Desconfiava de qual era a resposta, mas não acreditava.
E ignorando o coração acelerado, ela procurou pela assinatura de Chakra dele, que estava fraca, mas ainda servia para rastreá-lo e sabia que essa era a intenção dele.
Rastreá-lo provou ser uma tarefa surpreendente. Ela teve que subir no telhado de uma casa para conferir com os próprios olhos se ele estava mesmo onde ela achava que estava.
Uchiha Itachi estava sentado sobre o telhado. Uma perna levemente dobrada, fugindo do alcance da abertura da capa negra com nuvens vermelhas, a outra esticada. Uma mão se apoiava contra o chão, arqueada levemente para trás e a outra no ar, pendurada pelo cotovelo apoiado contra o joelho. O chapéu de palha estava ao seu lado. A cabeça voltada para cima, os olhos pareciam fixos na lua.
Tão lindo… uma beleza estonteante, enaltecida pela luz da lua.
Sakura sentia como se o coração fosse sair boca afora a qualquer momento. Suava frio e sentia o nervosismo percorrer cada centímetro de seu corpo.
Respirou fundo discretamente e se aproximou a passos lentos e cautelosos; temia o chão se abrir sob seus pés. E a cada passo à frente, sentia como se desse dois para trás, de tão ansiosa que passou a ficar. Pareceu uma eternidade até alcançá-lo.
Sentou-se o mais sutil possível ao lado dele e se forçou a encarar a lua, assim teria coragem de perguntar o que sua mente gritava:
— Por quê?
Sua voz não passou de um sussurro, quase inaudível, mas sabia que ele ouviu. Ele sempre ouvia tudo, até mesmo o bater de um coração se bobeasse.
Como sempre, a resposta não veio de prontidão. Parecia perder-se em si mesmo, apreciar cada letra proferida, refletir… ela já nem esperava mais por uma resposta quando a voz grave e rouca dele rompeu o silêncio:
— Essa vida… — iniciou, minutos depois. A voz estava tão distante, mas tão próxima ao mesmo tempo. Ele parecia preso em outra dimensão, ainda que estivesse em seu lado — …é a minha realidade, não a sua.
Sakura sentiu um sorriso se formar nos próprios lábios, mas não tentou escondê-lo. A mente interpretou o que foi dito do seu jeito, como sempre fazia com Sasuke e agora com ele: Itachi, do jeito dele, se preocupava com ela, era fato.
E não só isso, ele se importava. Se importava com ela.
— Obrigada. — ousou dizer e também sorrir, porque a felicidade estava preenchendo inteiramente seu coração machucado.
O silêncio reinou e ambos continuaram apreciando a luz do luar e da companhia um do outro.
E em sua mente, Itachi ainda era capaz de ouvir e ver Sakura rir da história que contava a Aya, porque através de um Clone transformado em um civil qualquer, observou de perto tudo o que as duas conversaram, levado pela mais pura curiosidade de saber mais dela.
[…]
NOTAS FINAIS:
O trecho em negrito e itálico no início do capítulo é da música Vanity – Yuki Kajiura.
Bom, primeiramente eu quero deixar claro uma coisa referente ao trecho do capítulo em que Sakura lembra de um rolê no bar com o Time 7, em que ela se lembra como foi e talz…
Sim, Sakura estava deprimida. E depressão é sorrateira e muito algo muito sério. A pessoa se sente infeliz e passa a se tornar indiferente ao que há ao redor e apática a qualquer emoção. Não porque quer, mas porque seu corpo e mente não processam mais tudo como deveria. É uma fase difícil que precisa de muito apoio, ajuda psicológica e em casos mais graves ajuda psiquiátrica.
Se informem sobre. Qualquer pessoa pode passar por isso e pode ser até mesmo alguém que você conhece e convive.
Outro ponto é que Aya é uma personagem original pertencente a mim, ok? Eu, sinceramente, amo ela! E ela será importante para a Sakura.
AAAAAAA e vou aproveitar a deixa para dizer que aquela história da Sakura sobre a temporada de cinco meses que passou em Sunagakure virou uma Three-shot GaaSaku UN +18 que logo vou postar! Não tem muito a ver com essa fanfic aqui, é tipo um Spin-off em outra realidade, porque aqui a Sakura é virgem e lá ela perdeu a virgindade com ele kkkkk
Só preciso revisar porque escrevi no ano que escrevi Mienai, então deve ter muitos erros e coisas para melhorar. Me sigam aqui, no Facebook, Instagram e Twitter caso queiram receber notificação quando eu postá-la ^^
Agora aqui, sobre o fim desse capítulo, gente… eu amei escrever essa cena! A coisa está se estreitando, Brasil! Bora começar os surtos!
Comentem! Quero que me digam o que estão achando, está bem? Me motiva demais!
E fiquem com uma pergunta que já vem rondando a fic desde o começo e que quero que me respondam também: Por que Itachi tirou a Sakura de Konoha?
PRÓXIMO CAPÍTULO: Empatia.
DATA DA POSTAGEM: 30/06/2021.
Até a próxima!*~
Obs.: Caso queiram ter prévias de capítulo, spoiler e interagir comigo além daqui, me sigam no Twitter por SenpaiNani, Instagram por NaniSenpaiNK e Facebook por Haruno Sah ou Nani Senpai!
