POV Shura
Shura não sabia quando e como esse amor surgiu. Mas soube que ele sentia desde pequeno, quando via sua mãe naquele espaço da casa, trabalhando, criando arte através dos temperos, dos utensílios e da comida.
A cozinha era como um ateliê, e seus pratos eram as suas obras-primas.
O que mais encantava Shura eram os cortes perfeitos. Desde a cebola cortada em brunoise (1) até os cortes premium de carnes bovinas, todos eles deveriam atender milimetricamente a perfeição que ele exigia. Para Shura, as facas eram como pincéis na mão de um artista, que está prestes a pintar a sua maior obra em seus quadros. E ele era um artista, seus pincéis eram as facas, seu ateliê era a cozinha e sua obra de arte era seu prato.
A vida de Shura era pacata, rotineira e sem aventuras. Nasceu em Madrid, cresceu em Madrid, vive em Madrid. Era bom aluno na escola, conhecido por ser excessivamente calmo. Poucos conseguiram a façanha de deixá-lo irritado a ponto de gerar discussão. E Deus sabe, que Shura poderia ser calmo, mas isso não significava que ele era trouxa: quando era necessário, ele poderia ser mais firme que uma rocha e mais letal do que a espada mais afiada que poderia existir.
Aos 18 anos conseguiu uma bolsa e se mandou para a Le Cordon Bleu, um dos melhores e mais famosos institutos de culinária do mundo. Era um prodígio, se formou rápido e montou o restaurante Ropera, que logo havia se tornado um sucesso em Madrid. Ele era jovem, mas já tinha nome e fama no mercado da alta culinária espanhola.
Ele participou de uma edição do Masterchef Espanha, que ele detestou, pois a ideia de cozinhar sob pressão sempre o deixou incomodado. Além disso, já gravou vídeos para diversos canais do YouTube e o restaurante estava pensando em montar um canal próprio, que mostravam um making of das cozinhas de restaurantes. Ele também estava tentando lançar um livro, sem um nome definido ainda, mas que teria como objetivo ajudar pessoas que, por diversos motivos, não conseguem apresentar pratos bonitos pois não possuem as habilidades necessárias com as facas.
Era nisso que ele pensava enquanto fazia um steak de carne. O livro era focado em receitas mais simples, para iniciantes, mas bem detalhadas e com fotos demonstrando o passo a passo para se cozinhar em casa como se fosse um chef. E um steak de carne era fácil de se fazer, se o leitor não é uma pessoa tão detalhista. Mas Shura é um amante da precisão, principalmente quando se trata de cozinha.
O bife da carne tem que ser largo. O suficiente para que fique com uma cor interessante por cima, mas sem cozinhar muito internamente. Não queremos uma carne queimada, que não tem suculência nem sabor. Shura usa cortes como T-bone, é o seu favorito. Deixe a carne descansar, para atingir a temperatura ambiente. É importante que ela descanse. Depois disso, frigideira de ferro, duas colheres de sopa de óleo, deixe esquentar bem. Enquanto isso, tempere a carne, que deve estar no ponto perfeito de tempero, que é absolutamente simples, mas que pode arruinar ou trazer a glória para a carne: sal e pimenta. É preciso temperar bem, pois se perde muito do tempero na hora de cozinhar. Coloque a carne na panela, que deve estar bem aquecida com o óleo. Dois a três minutos de cada lado. Manteiga, alho e alecrim. Molhe a carne muito bem com a manteiga, para dar gosto e suculência. Retire da panela, coloque no prato e jogue a manteiga por cima. Simples, fácil e pronto. Todos iriam adorar.
Mas nem só de culinária é que vive o homem.
É claro que ele tinha outros amores, que iriam além da cozinha. Era apaixonado pelo Real Madrid (obrigado Cristiano Ronaldo, por existir) e gostava de ver séries com temáticas medievais (obrigado Game of Thrones, por existir).
Mas, principalmente, acima de tudo que lhe era sagrado, amava sua família.
Casou-se com Inez ainda jovem, com 22 anos. Ela também era chef e, juntos, administravam o restaurante. Ele amava a mulher, com seus longos cabelos vermelhos e lisos e olhos muito verdes, que emitiam uma bravura e doçura que em qualquer outra pessoa, seriam inconciliáveis, mas nela, os sentimentos se casavam muito bem. Era uma mulher determinada dentro do meio que viva, pronta para enfrentar qualquer situação. E dentro da cozinha, eles estavam em perfeito equilíbrio: não havia melhor ou pior, apenas dois cozinheiros firmes e convictos de suas capacidades e habilidades culinárias.
No entanto, ela teve que se afastar por um tempo, pois eles dois tiveram um pequeno, mas delicioso imprevisto: o nascimento de Mia, a menina deles. Ela agora tinha um ano e alguns meses, suas bochechas rosadas e seu rosto sempre sorridente, dando seus primeiros passinhos com suas perninhas gorduchas. Para Shura, não existia coisa melhor do que chegar em casa e ver a menina correndo (ou tentando) em sua direção, com os braços abertos, enquanto ele se ajoelhava no chão para pegá-la, abraçá-la, e suspendê-la para cima, enquanto ela ria, ria em seu sorriso de bebê.
Shura faria de tudo pela família. Era leal a ela até o fim.
Por isso, nos últimos tempos, havia se dedicado as atividades mais administrativas do restaurante, ao invés de ficar na cozinha. Só recentemente ele se sentiu seguro para voltar para o seu verdadeiro local de trabalho (pelo menos, era assim que ele considerava) depois de muita insistência de Inez e a garantia de que eles procurariam por creches e babás, mas que iriam acompanhar 100% o crescimento da filha.
- Papi! Papi!
A menina lhe tirava dos devaneios com seus gritinhos agudos, pedindo-lhe atenção.
- O que quer, bebê?
E então ela mostrava os brinquedos, a boneca, pronta para mais uma de suas travessuras.
- Já está tarde, não é bebê?
Shura a pegou no colo, e seus bracinhos gorduchos foram para perto de sua nuca. Ela o encarava com os olhos escuros e puxados que herdara dele, e que possuíam a mesma calma e serenidade que ele possuía, mas com os cabelos ruivos da mãe. Ela era linda, um bebê radiante que ganhava a atenção de todos. Ele a amava com todas as suas forças, e sua filha foi o maior presente que qualquer ser superior, se existisse algum, poderia ter lhe dado. Seu amor pela menina não poderia ser descrito por palavras, não poderia ser traduzida em nenhuma língua e nem sequer poderia se expressada por nenhum símbolo. Só poderia ser sentido, e ele se considerava a pessoa mais sortuda do mundo por conseguir sentir.
Shura tem que admitir: a menina foi uma linda surpresa, mas foi uma surpresa. Sua vida foi tão focada na culinária que ele nunca pensou em filhos. Inez era a sua primeira namorada e eles decidiram se casar logo, mas não pensavam em ter filhos. Além disso, Shura nunca teve muito apego com crianças. É certo que ele não as odiava, mas antes de ter Mia, era fácil ver Shura um pouco impaciente com alguma criança berrando dentro do seu restaurante. Hoje, com uma filha para criar, ele não somente tem paciência com a própria criança e com os pais, como também não se imagina rolando os olhos para demonstrar seu pouco traquejo com os pequenos.
Também se tornou cuidadoso demais, mais do que já era. Crianças perdidas em algum parque? Meu Deus do céu, alguém ache os pais dessa criança! Como assim estão deixando o menino comer tantos doces? Uma criança tem que se alimentar de forma saudável! Mia está chorando, o que ela tem? Mas ela ainda não sabe falar direito, como vamos saber qual o local que está doendo? Precisamos ir ao médico imediatamente!
Assim, quando menos percebeu, ele, que durante a gravidez de Inez, pensou que seria um pai distante e frio, estava lendo livros de autoajuda para a criação e desenvolvimento de crianças com estratégias não-violentas, além de livros sobre alimentação saudável para bebês e compra de diversos apetrechos para garantir a segurança da menina.
Levou a menina para a cama e a deitou, esperando a menina dormiu. Quando estava velando o seu sono, sentiu a mulher chegar em casa, após uma noite dura de trabalho no restaurante. Deixou a menina no quarto e foi receber a esposa na sala.
- Olha, ainda bem que amanhã é o seu turno – disse ela, jogando as chaves do carro na mesa de centro – hoje o restaurante estava particularmente exaustivo.
- As receitas não estão fáceis de serem desenvolvidas. Ainda não consegui achar as proporções certas pro tempero daquele steak com gorgonzola que te disse ontem.
- Um típico capricorniano você é, né? Eu bem que poderia te ajudar numa dessas, mas você nunca aceita.
- Olha só quem fala, você também é capricorniana. E me desculpe se sou orgulhoso – disse Shura, a abraçando por trás – é que você já vive muito atarefada. Queria resolver sozinho as confusões que me meto.
- Falando em fazer coisas sozinho – começou Inez – a Corporação Kido está sondando nosso restaurante para um evento. Mais precisamente, você, para um evento deles.
- Como assim?
- Um representante da Fundação Graad veio lá no restaurante. Disse que queria conversar com você pessoalmente, pois Saori Kido faria um evento e queria ter você como chef. Eu disse para voltar amanhã, pois é amanhã que é seu turno.
Shura franziu a testa.
- Que estranho. Só pode ser resolvido comigo? Essa situação pode ser facilmente resolvida com a nossa secretária.
- Pois é. Mas o rapaz foi firme e exigente. Não queria outra pessoa, só você.
- Não vamos pensar nisso agora – disse Shura, beijando a lateral do seu pescoço – você me parece muito estressada... Eu poderia dar um jeito nisso.
- Você tem que dar um jeito é na minha fome, isso sim – disse Inez, rindo – preciso comer, tomar um bom banho e cair na cama.
- E na cama a gente faz alguma coisa? – disse Shura, sorrindo.
- Na cama a gente dorme! Quero ver se você vai estar com toda essa disposição amanhã de noite.
Shura riu com a esposa.
(1) Corte brunoise é um tipo de corte de vegetais crus da culinária francesa, em cubinhos pequenos.
