"Mas vejo, em contrapartida, que muitas pessoas morrem porque consideram que a vida não vale a pena ser vivida. Vejo outros que, paradoxalmente, deixam-se matar pelas ideias ou ilusões que lhes dão uma razão de viver (o que se denomina razão de viver é ao mesmo tempo uma excelente razão de morrer)." – Albert Camus

POV Camus

Camus estava deitado, olhando para o teto branco do quarto, esperando o sono aparecer. Ele dormia pouco. Seu organismo já havia se acostumado com a ideia de que ele não conseguia dormir mais que 6 horas por dia, pois isso era suficiente para recuperar suas energias. Quando ele dormia mais do que isso, ele sabia que algo estava errado, e muito provavelmente ele estava muito doente ou muito exausto.

No entanto, a pessoa com quem ele teimou em compartilhar um quarto gostava muito de dormir. E precisava dormir muito. A ausência de um sono adequado para o dito cujo poderia lhe causar diversos efeitos negativos, que variavam desde o mau humor até a lentidão extrema do pensamento e das ações.

Milo.

Milo estava com a cabeça deitada em seu peito, respirando tranquilamente. Camus acariciava seus cabelos, pensando que talvez não existisse uma pessoa que ficasse mais linda do que Milo dormindo. Ele nunca disse isso ao sujeito em questão, é claro, mas um leve sorriso lhe passou pelos lábios ao admirá-lo em sono profundo.

E por Deus, Milo era lindo.

Milo tinha lindos olhos azuis, que neste momento estavam fechados, mas que se mexiam constantemente por debaixo das pálpebras, o que lhe indicava que provavelmente ele estava sonhando. Seu nariz era arrebitado, seus lábios eram grossos, seus cílios eram enormes. Seu rosto era angelical, parecia um menino. Seus longos cabelos azuis (que eram mais escuros que os de Camus) eram macios como seda, sempre devidamente repicados, lhe dando a aparência de uma estrela do rock dos anos 80. Aliás, todo o seu estilo parecia de uma estrela de rock. Suas calças pretas eram sempre rasgadas, suas camisas eram de tons escuros, suas jaquetas eram sempre de couro e ele tinha vários coturnos. Isso sem falar nas unhas pintadas de vermelho ou de preto (o gosto por pintar as unhas também era compartilhado por Camus, muito antes de conhecer Milo. Era um dos poucos pontos que tinham em comum). Seu corpo era magro, musculoso e esbelto, além de ser alto e ter imponência.

Camus nunca imaginaria que se apaixonaria por alguém que se veste como uma estrela do rock, mas cá estava ele. A vida gostava de pregar peças.

Camus sempre fora muito sério e pacato. Sua mãe era francesa, seu pai era russo. Nasceu no interior da França, em uma daquelas regiões bucólicas francesas que sempre aparecem em filmes. Ele se lembra dos enormes campos verdes da região da Alsácia iluminados pelo sol, com vinhedas e montanhas belíssimas, que só o interior da França poderia fornecer.

Viveu assim até os dez anos. Depois disso, seu pai se separou de sua mãe, que ficou na França, enquanto ele foi para a Rússia, viver na Sibéria. A separação dos pais não foi muito bem aceita na cabeça do pequeno Camus, que não estava entendendo muito a situação e o motivo da separação. Camus pensou que odiaria o lugar, pois, diferente dos campos verdes e quentes, cheios de verão da França, ele veria apenas gelo e mais gelo, num ambiente hostil e pouco acolhedor como a Sibéria. Mas o que ocorreu, na verdade, é que ele se adaptou ao local, perfeitamente. A Sibéria lhe revelou um lado frio, hostil e forte como as paredes de gelo. Os campos verdes da Alsácia lhe revelavam seu lado mais doce, puro e amigo.

Ser Camus significava ser essas duas pessoas, e ele realmente não se importava.

Voltou para a França quando já era maior de idade, para estudar por lá. Tinha um apreço enorme pelas ciências humanas e desde o colégio, devorava livros de filosofia e sociologia. Leu Aristóteles e Platão, Nietzsche e Heidegger, Foucault e Sartre. Se esforçava para entender a dialética platônica, a escolástica da idade média e até mesmo se arriscou no materialismo histórico-dialético de Marx. Era conhecido por ser muito inteligente na escola, com a cara enfiada em livros, um verdadeiro nerd. Foi esse apreço pelas ciências humanas que lhe fez escolher filosofia, além do fato de que ele e certo filósofo, do qual ele gostava muito compartilhavam os mesmos nomes, além de compartilharem o gosto pelo socialismo libertário e pela classe trabalhadora.

Assim, os vinte anos, foi para a Sorbonne Uniservité, casa de Simone de Beauvoir e de Jacques Lacan. Pensou que sua vida continuaria pacata e tranquila, como nos velhos tempos da Alsácia.

Aí um baderneiro, falastrão, desordeiro e fadista entrou em sua vida, parecendo o Taz do Looney Tunes (Camus não conseguia achar comparação melhor, de tão caótico que o ser era), destruiu todo o conceito de vida que Camus tinha até então, botou todos os seus pilares e conceitos abaixo e como se não bastasse, sorria para ele como um cachorro feliz depois de ter arruinado a casa toda.

Ai, Milo. Ai, Milo.

Camus tinha que dar o braço a torcer. Milo era desarrumado com a casa? Era. Milo um pouco desastrado? Era. Milo era calmo demais, a ponto de ser meio relaxado? Era. Mas quando o rapaz queria ser organizado, ele conseguia ser melhor do que Camus. Suas notas na faculdade eram muito boas, era conhecido por ser um dos melhores alunos da turma e quando se propunha a limpar a casa, conseguia ficar acima do padrão Camus de qualidade.

Mas eles eram incrivelmente o oposto do outro. E foi justamente essa oposição de ideais, conceitos, modos de viver e de se portar que encantou Camus. Foi pego de desprevenido. Ele, que nunca deu muita atenção para sexualidade, se via atraído por aquele homem. Havia beijado algumas meninas e meninos, é claro, mas não sabia dizer sobre sua orientação sexual. E de repente, se pegou olhando para os lábios de Milo, para o corpo de Milo, para os olhos de Milo. Estava na faculdade e pensava em Milo. Estava estudando e pensava em Milo. Estava no supermercado e pensava em Milo. Tudo passou a girar em torno de Milo. Dadas as hipóteses e as evidências, chegou a seguinte conclusão, mais uma vez, embasada pelo método: Camus estava apaixonado.

Começaram a namorar, e estavam bem desde então. Milo brincava em seu egocentrismo, falando que Camus era milossexual ou seja, só gostava de Milo. Camus ria com o tamanho do ego do namorado, mas não queria dar o braço a torcer para admitir o que era óbvio: ele só tinha olhos para Milo.

E estava pensando no dito cujo de novo, que se movimentou em seu sono e tirou a cabeça do peito de Camus, virando-se de lado para continuar a dormir. Camus aproveitou a deixa e se levantou, pois já era de manhã cedo, e eles precisavam tomar café para ir para a faculdade.

Camus não sabe dizer em que momento decidiu se tornar professor. O desejo de lecionar sempre esteve lá, suave como uma brisa de verão, mas nunca foi o seu maior objetivo de vida. Milo dizia que ele tinha talento para a arte do ensino, que explicava bem os conceitos, que tinha paciência e serenidade para lidar com alunos. No começo, ele achou que era coisa da cabeça de Milo, mas outras pessoas lhe disseram isso também: colegas da faculdade, professores, amigos próximos. Decidiu dar uma chance ao ensino, e agora considera a carreira como professor universitário. Seria um caminho muito longo, mas que ele estava disposto a cumprir.

E com Milo do lado dele, ele faria qualquer coisa.

Como não estava no terceiro ano, ainda não poderia se candidatar para uma bolsa ERASMUS (1). Portanto, para impressionar seus futuros avaliadores, começou a tentar, desde já, uma bolsa de estudos mais cedo: se ele já tivesse um bom currículo, seria aceito para um mestrado com a bolsa, talvez. Por isso, candidatou numa bolsa de estudos oferecida pela Fundação Graad para conseguir fazer um intercâmbio de seis meses para a Inglaterra. Milo também se candidatou, na área dele. Estavam esperando o resultado sair (que estava atrasado inclusive).

Sentiu alguém lhe abraçando por trás e lhe beijando a nuca. Virou-se.

- Como uma pessoa acorda às 6h da manhã tão cheiroso? É mal de francês? – disse Milo.

Ele estava com os olhos semicerrados e com cara de sono. Seu hálito cheirava a pasta de dentes e seu cabelo macio encostava no rosto de Camus, enquanto Milo passava a ponta do nariz em sua face. Os cabelos de Milo eram sempre cheirosos e macios e Camus passava os dedos pelos fios azuis enquanto Milo o abraçava. Finalmente, Milo o olhou e sorriu, e naquela hora, Camus não poderia ter se enchido mais de desejo por aquele homem, aquele homem que se atrevia a ser o mais belo do mundo ao acordar às 6h da manhã.

Camus não hesitou e deu um beijo em Milo, mas não os selinhos que eles davam nos cafés da manhã. O beijou com volúpia e sensualidade, enquanto suas mãos exploravam o pescoço e o peitoral de Milo, descendo para o abdômen e para os pelos pubianos.

- Agora de manhã? – Perguntou Milo, confuso. Camus não era um homem com cheio de desejos sexuais, mas nada o aparava quando ele queria transar.

- Agora não é hora de falar, monamour – disse Camus, enquanto cheirava e beijava o pescoço de Milo. Quando que ele estava tão cheio de desejo assim? Não soube dizer. Mas, quando se tratava de Milo, ele não conseguia ser o homem racional, frio e sereno que todos diziam que ele era. Milo era perfeito, uma obra prima a ser vista e admirada, que precisava ser amada todo o tempo, todos os dias. Camus faria um esforço para deixar a racionalidade de lado.

Continuou beijando o pescoço de Milo, mas dessa vez, em seu pomo de Adão. Subiu os beijos até seus lábios, que se encontraram e Camus o beijou novamente, enquanto suas mãos entravam nas calças de Milo, sedentos por seu pênis. Era melhor que pegassem o lubrificante logo, pois ele iria foder Milo em cima daquela mesinha minúscula da cozinha, e ele iria querer ver Milo arfar enquanto ele adentrava dentro dele, queria ver o prazo de Milo, queria...

Brim...Brim...Brim...

O celular de Camus vibrava em cima da mesinha da cozinha.

Mas quem é o connard que inventa de ligar uma hora dessas?

- Ignore – disse Camus – ninguém que presta ligaria uma hora dessas.

- Não sei Camye – disse Milo, docemente – pode ser alguém importante.

Camus grunhiu. Essa pessoa iria pagar por interromper a foda de Camus.

- Allô?

- Bom dia – uma voz arrastada e masculina, mas muito bonita, lhe respondeu – Eu falo com Camus?

Sim, connard. É o telefone dele.

- Oui, ele mesmo – disse Camus, enquanto respirava para não perder a paciência.

- Ah, eu sou Hyoga, colaborador da Fundação Graad – disse o rapaz – eu te liguei para avisar que analisamos o seu currículo e que você foi aprovado na sua bolsa de estudos!

O que?

- O que, sério? – disse Camus, atônito. Ficou tão feliz que quase se esqueceu de reclamar que aquela conversa poderia ser facilmente resolvida por um e-mail. Quase.

- Sim! Acreditamos que você pode trazer enormes benefícios como bolsista da Fundação Graad – disse o tal Hyoga – Eu liguei para você pois queria dizer que em breve entraremos em contato para conversarmos sobre os detalhes da sua bolsa, tudo bem? Não é uma entrevista e nem nada do tipo: é uma conversa informal mesmo.

- Ah, oui. Tudo bem.

- Perfeito! Logo, conversaremos por e-mail.

- Ok, merci!

- Nós que agradecemos! Mais uma vez, bem-vindo ao time da Fundação Graad! Tenha um bom dia!

- Para você também!

Camus desligou o telefone e olhou incrédulo para a sua tela. Ele conseguiu.

- E então? – perguntou Milo, ansioso – O que era?

- Da Fundação Graad – disse Camus – eles me aceitaram. Vão me dar uma bolsa.

A face de Milo de encheu de alegria e ele correu para Camus e o abraçou, enchendo-lhe de beijos.

- Eu sabia! Eu sabia que você iria conseguir eu te disse! – Ele segurou o rosto de Camus e sorriu o sorriso mais largo do mundo, e por um milésimo de segundo, Camus pensou em como era o homem mais sortudo do mundo por ter Milo ao seu lado – Ah Camye, eu estou tão feliz por você!

- Mas e você, Mi? – perguntou Camus – ainda não sabemos se você foi aprovado ou não.

- Ah, não se preocupe comigo – disse Milo – Vá fazer seu intercâmbio, tranquilo e em paz. Eu te esperarei, bem aqui, morrendo de saudades.

Camus sorriu, um de seus raros sorrisos para o mundo, mas cotidiano para Milo. Depositou suas mãos em seus quadris, e olhou profundamente nos olhos de Milo., aqueles olhos azuis, sempre tão cheios de alegria e amor, amor só para Camus.

- Merci, Mi. Merci.

(1) O curso de Filosofia na Universidade de Sorbonne dura 3 anos. No último ano, o aluno pode se candidatar para uma bolsa ERASMUS, que é um programa de bolsas europeu (sonho de consumo dos acadêmicos de todo mundo). Qualquer estudante ou pesquisador do mundo pode se candidatar, mas é concorridíssimo.