Mansão dos Kido, Tóquio, Japão, 2018

POV Saori

Dez anos depois do fim do julgamento, todos seguiram com as suas vidas normais. Ela queria tanto que seus cavaleiros vivessem uma vida comum, de jovens comuns, e eles conseguiram. Aos trancos e barrancos, mas conseguiram.

Shiryu foi morar com Shunrei, na China. Quis levar a vida de um agricultor simples nos Cinco Picos de Rozan. Até adotaram uma criança recentemente, um menino de colo ainda. Shunrei e seu enorme coração de ouro deram uma chance para uma criança órfã ter uma família, do mesmo jeito que, quando ela era mais nova, Dohko havia dado para ela. Eram uma família perfeita, e Shiryu vivia mandando fotos da criança para Saori, que era madrinha do menino. Uma fofura de criança, rechonchuda e alegre.

Hyoga foi viver na Sibéria. Dizia que o gelo lhe fazia bem, que Tóquio era um lugar muito quente para ele. Ele ficou cuidando de algumas burocracias para ela na cidade de Irkutsk, na região da Sibéria. A região tinha extração de minérios, principalmente de alumínio, e ela achou melhor expandir os negócios. Ele reclamou um pouco, pois lá não era o extremo frio do meio do nada, mas entendeu a decisão de Saori. Ela não queria perder contato com ninguém.

Ikki... bom, é o Ikki. Ela não sabe o que ele faz da vida. Vive de canto em canto, mas vem visitar o irmão de vez em quando. Ele também a visita, mas bem raramente. Ele basicamente esqueceu que um dia lutou por Atena e pela Terra e foi... viver o mundo. As relações entre eles dois eram desconfortavelmente formais, mas ela entendia o afastamento dele.

Nachi foi para Quioto, que era sua região natal, pois tinha uma tia que ainda estava viva e estava querendo vê-la. Jabu e Ichi ficaram em Tóquio, e parece que abriram uma loja juntos. Geki virou lutador de artes marciais e Ban já estava casado e com filhos.

Marin foi procurar pelo irmão, Tohma. Não sabe onde ele está até hoje, mas a procura não a impediu de seguir em frente. De todos, ela e Shina foram as que mais lhe impressionaram pois elas quiseram fazer faculdade e seguir uma carreira profissional. Ninguém nunca iria imaginar que duas mulheres que sempre tiveram suas rivalidades fossem se tornar tão amigas. As duas viviam em Atenas, e frequentemente a visitavam. Saori amava, pois, apesar de tudo, estar com elas era um dos poucos momentos em que ela se sentia uma mulher normal da sua idade.

Shun ficou pelo Japão, em Tóquio. Ele foi o único que ficou mais próximo dela, atuando como seu assessor substituto, ao lado de Tatsumi, que já estava com seus 64 anos de idade, um vistoso bigode branco e algumas rugas no rosto, mas com a mesma vivacidade de sempre. Shun seria seu substituto. No começo, ele vivia com ela, mas depois, se mudou para seu próprio apartamento minúsculo no Japão.

E ela, bom... Ela se tornou a CEO das Corporações Kido, assim como a presidente da Fundação Kido. Era uma mulher de negócios, uma das mais ricas do mundo e a mulher mais rica do Japão. Jovem, bonita, com carreira invejável e muito bem sucedida. Um exemplo para as meninas de seu tempo, que não se arriscavam na área dos negócios, que sempre era tão misógina. Ela tinha consciência de que, bem, ela meio que herdou tudo aquilo então teria que administrar de qualquer forma, mas gostava de saber que meninas estavam tomando o espaço que, na época dela, não era tão receptivo para mulheres.

O único problema era o vazio que ela sentia.

Ninguém quis morar com ela. Absolutamente ninguém. Todo mundo quis viver a sua vida, arranjar seu cantinho, seguir em frente. Nem mesmo Shun, que quis ficar com ela por um tempo, não aguentou o clima pesado que aquela mansão tinha, pois aquele lugar não somente trazia muitas lembranças dolorosas como também abrigava uma outra pessoa, além dela e de Tatsumi.

Seiya.

Saori se lembrou dele, e saiu de seu escritório na mansão. Vagou a casa com inúmeros quartos e parou na porta e um, que poucos empregados tinham a coragem de vir limpar, devido a energia pesada que o local tinha. Abriu a maçaneta e lá estava ele.

Desde a batalha de Hades, o cosmo de Seiya estava selado pela espada do deus do submundo. A espada não aparecia fisicamente, obviamente, mas seu cosmo o envolvia, trancando a alma de Seiya, ao ponto de que nem ela, nem ninguém conseguia sentir a mente dele. O cosmo de Athena conseguia manter as funções vitais dele, mas era mesma coisa que cuidar de um boneco. Ele não precisava se alimentar ou beber água, pois o cosmo da deusa lhe dava tudo, assim como ele crescia e se desenvolvia normalmente. Algo parecido com o que ela fez com Kanon no Cabo Sunion, para mantê-lo vivo.

Mas parecia que tinha um muro entre Seiya e o mundo exterior, e ele estava trancado dentro daquele muro, no escuro, sozinho. Ele devia pensar que Atena o abandonou, que ele serviu Saori durante anos para que ela o abandonasse, mas os deuses sabem, as moiras sabem, todos sabem que ela viveu ali, por ele, todos os dias. Vinha vê-lo no quarto todos os dias, conversava com ele, contava seus problemas, lia livros, lhe dava carinho. É claro que ele tinha cuidadores que davam banho, verificavam seus sinais vitais e saúde, mas elas não ficavam por muito tempo e Saori não as culpava. Mesmo para ela, que era uma deusa, o cosmo de Hades poderia ser terrível.

Seika, sua irmã, tentou conviver com ele e com ela na mansão, mas não conseguiu. O cosmo de Hades que envolvia Seiya era muito tóxico para ela ficar ali todos os dias, vendo o irmão sofrer. O fato de que ela não possuía um cosmo treinado como o dos cavaleiros também não ajudava. Ela era uma mera mortal, e não conseguia fazer frente ao sofrimento de Seiya. Voltou para Rodório e, com a morte do senhor que a adotou, começou a administrar o pequeno mercado local, vindo visitar o irmão de vez em quando.

Seiya vivia numa cadeira de rodas, sempre perto da janela, que dava para um jardim de flores. Ela queria que ele sempre sentisse o calor do sol, o vento no rosto e que as pétalas das flores caíssem em seu colo. Ele mantinha os olhos abertos, mas opacos. Seu rosto não tinha expressão nenhuma, e ele não tinha nenhum tipo de reação. Mas às vezes, ela sentia alguma coisa mudando nele. Quando ela chegava muito feliz para lhe contar uma notícia, ela sentia que ele dava um leve sorriso. Quando ela ficava triste e chorava com ele, sua testa enrugava, e ela sentia que ele ficava triste também.

Pode ser que ela tenha ficado louca, mas ela não se importava. Perderia tudo para tentar salvá-lo, para trazê-lo de volta. Mas nem os deuses tinham solução para o caso dela.

Só lhe restava chorar e pedir perdão a Seiya, por tudo que ela fez.

Ela não imaginava que seria tão fácil encontrá-los. Também não imaginava que seria tão difícil contatá-los.

Sabe o que é pior? Eles haviam se esquecido. Eles não se lembravam de nada. Nenhum deles.

Seus cavaleiros de ouro pensavam que tinham vivido uma vida inteira da maneira mais normal possível. O deus que os libertaram, apagaram suas memórias e implantaram novas, que não passavam de pura ilusão. Modificaram suas memórias para que eles se tornassem vulneráveis diante do possível castigo que os deuses os reservassem, e Atena jamais perdoaria isso. Pior do que você tirar a vida de alguém, é você roubar o seu passado e o seu destino. Fazer com que seus cavaleiros se esquecessem de que eram cavaleiros não era ruim pelo fato de que ela queria sua elite de exército de volta, mas era ruim pois tudo que ela queria dar para eles era uma vida normal, e ela não pode fazer isso. Quem fez foi o rival.

Mas veja, eles deixaram rastros.

Atena tinha vontade de rir, sobre como eles foram tão óbvios. Aparentemente, o deus que os libertou não foi tão esperto quanto deveria. Pois, acreditem se quiser, os caminhos que eles tomaram foram tão parecidos com os caminhos que eles seguiam quando eram cavaleiros que parecia proposital, até ridículo.

O mais fácil de achar foi Afrodite. Aparentemente Afrodite era um jovem youtuber que estava fazendo sucesso na internet, dando reviews e opiniões sobre maquiagem, moda e beleza. Saori ficou sabendo quando uma das empresas da qual ela era acionista queria colocá-lo como garoto propaganda. Além disso, aparentemente ele era alguém que, aprendendo com os mais jovens, não tinha um gênero definido. Não binário, era o que ele afirmava ser, e exigia o pronome neutro em inglês ao se referirem a ele, como it ou they. A cabeça de Saori, nascida na década de 70 e crescida na década de 80 não entendia muito sobre isso, mas respeitava.

Shura também foi fácil, pois ele era um chef renomado na Espanha, participando de reality shows de cozinha na TV e também em alguns canais do YouTube. Máscara da Morte foi um pouco difícil, pois seu nome verdadeiro não era esse, mas ela também conseguiu. Milo e Camus estavam terrivelmente próximos, mas ela só conseguiu o endereço de Camus.

Agora, um cavaleiro que realmente a surpreendeu, foi Kanon.

Ela não sabia onde morava, nem o paradeiro. Tudo que sabia era que tanto ele quanto Saga estavam na Universidade de Atenas, Kanon na área de biologia marinha e Saga na física. Aparentemente, Saga era um geniozinho do ramo da astrofísica e estava pronto para ser o novo Stephen Hawking, entretanto, teve que se afastar por algum motivo. Mas num belo dia, ela estava sentada em seu escritório resolvendo algum pepino quando Shun entrou sem bater, chocado e paralisado.

- Saori, olha quem a gente achou.

Saori deu play num vídeo do Instagram, no perfil de um jornal alternativo europeu. No vídeo, Kanon aparecia em cima de um palanque, na movimentada Exarquia, bairro anarquista de Atenas. Ela segurava um megafone e bradava para a população, que estava ao seu redor, protestando contra as empresas petrolíferas do Mediterrâneo.

"E aquela lá, aquela socialite que a Grécia tanto ama... Como é mesmo o nome dela? Saori Kido. A madame mais querida da Grécia está envolvida até o pescoço com o vazamento das petrolíferas no Mar Mediterrâneo. Saori Kido nunca atendeu, não atende e jamais vai atender aos nossos interesses, ela tá por trás de tudo isso! A fundação ridícula dela tá movimentando esses porcos no parlamento pra poder livrar a cara dela enquanto ela posa de socialite 'amante dos pobres' aqui na Grécia. Nós não podemos deixar que ela e os lacaios dela afunde a Grécia em mais políticas de austeridade, nós não podemos deixar que essa porca burguesa junto com os outros porcos continue estragando os nossos mares para eles poderem ficar mais podres de ricos do que já são."

Porca burguesa?

Mas claro, a vida é uma poesia que rima o tempo todo. E a rima era que, pela segunda vez na vida, Kanon estava bradando de ódio contra ela, por uma coisa que ela não fez e que não era culpa dela. De fato, a Fundação Kido estava enfiada até o pescoço na questão das petrolíferas do Mediterrâneo. Os documentos que ele jogou na internet mostravam isso, e em nenhum momento ela negou a situação. Mas a Fundação não era responsável pelo vazamento de petróleo, muito pelo contrário, ela estava investigando, a mando da própria Saori. As plataformas petrolíferas estouraram no dia que ela sentiu uma das várias explosões de cosmo que tem surgido a após a fuga deles, e era justamente na região do vazamento. Ela suspeita que alguma entidade divina esteja por trás disso, por isso quis investigar o caso.

Não que ela se importasse com as ofensas de Kanon. Ele já havia xingado Athena de nomes muito piores do que um "porca burguesa", mas a insistência dele nesse caso estava atrapalhando as investigações. Com a mídia em cima dela e da fundação feito abutres, ficava difícil de descobrir quem era o deus responsável. Além disso, se um ataque desses já tinha sido feito, para que os cavaleiros de ouro sofressem assassinatos era muito fácil e rápido.

Pelo menos ela descobriu o endereço de Kanon. E de todos os cavaleiros de ouro, que logo receberiam visitas muito queridas em suas casas.

- E então a gente vai ter que procurá-los pelo mundo todo? – disse Shiryu – nós temos os endereços deles, pelo menos?

- Temos – disse Saori – consegui com alguns contatos meus. Tenho que admitir que não foi fácil. Parecia que alguns dos cavaleiros estavam tentando se esconder, não morar em algum lugar.

Ah, Kanon.

- E como vamos nos aproximar deles? – disse Shina – Não é como se pudéssemos chegar em suas casas e dizer "Oi, você é um cavaleiro de ouro!" e esperar que venham até aqui por livre e espontânea vontade.

- Eu sei disso – disse Saori – por isso, utilizei a Fundação Graad como fachada. Vamos fingir que estamos interessados em seus serviços, ou que queremos dar bolsas de estudos, ou que queremos fazer exposições com as suas obras, enfim... Há um leque de possibilidades.

- E se eles não aceitarem? – disse Ikki – há uma enorme possibilidade deles simplesmente não quererem participar desses "benefícios".

- Então teremos que usar a força – disse Saori, de forma sombria – não me importo de sujar as mãos para trazê-los pra cá. Já sujei minhas mãos para encontrar todos eles.

Eles silenciaram.

- Todos eles correm riscos de vida, vocês entendem? O lugar deles é aqui, junto conosco.

- Saori – disse Hyoga – Não há pessoa que mais queira que eles estejam conosco do que eu, você sabe muito bem disso. Mas não podemos nos precipitar.

- O problema – disse Shun – é que eles não vão aceitar. Pra eles, tudo isso não passam de mitos, histórias que se contam pras crianças. E não podemos usar a violência pois...

- Podemos e devemos – interrompeu Saori – se for necessário. Não temos tempo pra discussões sobre ética.

- Mas Saori... – disse Hyoga.

- Não há "mas" – disse Saori – eu fui pacífica e paciente por tempo demais. E eu pago os custos disso até hoje. Vocês viram no que deu.

- Durante muitos e muitos anos eu escutei os conselhos de vovô, me avisando sobre como Atena sempre tratava os cavaleiros com doçura, que era característica das mulheres. Sobre como eu precisava de um coração terno e doce. E vocês são a prova viva de que eu tentei. Eu fiz o que pude. E o que aconteceu?

Todos eles abaixaram a cabeça, resignados.

- Não temos exército. Não temos forças. Até o nosso Santuário está abandonado. Tudo morreu.

Seiya.

- Tudo bem Saori – disse Marin – nós entendemos a sua pressa em querer resolver tudo isso o mais rápido possível.

- Só esperamos que se lembre de uma coisa – ela continuou – você é a deusa da guerra estratégica. Contamos com você para recuperar os cavaleiros pois você tem que ser uma boa estrategista. Não deixe a sua fúria contra o destino tirar a sabedoria de você.

Saori olhou para aquela mulher, aquela mulher que já havia perdido muito, e lhe pedia prudência. Prudência, uma coisa que os deuses nunca tiveram, mas que ela era conhecida por ter. Limites.

Olhou para os seus olhos cansados, de quem perdeu o irmão, o amigo, o pupilo, os companheiros, o posto de Amazona. Ela, mera mortal, pedia prudência para Saori, uma deusa.

O problema era justamente esse. Ela foi prudente. Até demais. E por conta de sua prudência, Seiya está em estado vegetativo, numa cadeira de rodas.

- Serei prudente quando for necessário ser – disse Saori, firme – Serei furiosa quando for necessário ser. Tentei ser boa, e hoje estamos destruídos.

- Não temos tempo para isso – disse Saori – Temos que salvar nossos amigos. Eles precisam de nós.

- Tudo bem, Saori – disse Shun – só não se esqueça de quem você é.

Só não se esqueça de quem você é.

Isso é o que ela mais queria fazer. Esquecer.

Seiya.