Quartier de La Sorbonne, Paris, França. 2018.

POV Hyoga

Hyoga estava na frente da porta do apartamento, hesitante. Seu mestre Camus, o frio e implacável Camus de Aquário, era um estudante de filosofia de uma faculdade francesa. Ele não conseguia imaginar que uma figura tão imponente como ele se tornaria um mero jovem estudante de faculdade, que vivia uma vida comum e pacata, longe da bagunça que eram as guerras contra os deuses.

Isso lhe fez lembrar que eles, todos eles, eram muito jovens. Seu mestre Camus era como se fosse um pai para ele, mas ele só tinha 20 anos. Começou a treinar Hyoga quando ele era ainda um adolescente. O próprio Hyoga era muito jovem, no auge de sua adolescência, aos 14 anos de idade, lutando por uma deusa. Mas os cavaleiros de Atena se tornavam homens e mulheres muito cedo, pois a batalha era dura e exigia força e maturidade. E Hyoga conseguiu atingir esses objetivos, graças ao sacrifício que seu mestre fez para lhe passar tais ensinamentos.

Ele seria eternamente grato por isso.

Agora, a situação se inverteu, e Hyoga não deixa de pensar que aquilo era cômico. Agora, ele era dois anos mais velhos que seu próprio mestre, e muito mais experiente em batalhas do que ele. Não somente pelo fato de que Hyoga ajudara Seiya e Atena a matarem um deus, como também o próprio Camus não se lembrava dos acontecimentos da batalha das doze casas e da guerra santa contra Hades, de acordo com as informações da Saori. Ele agora teria que ser o mestre de seu próprio mestre, se sentia orgulhoso de poder lhe passar seus ensinamentos, e estava pronto para todos os desafios.

Era nisso que pensou quando tocou a campainha, feliz.

O problema era que Hyoga não estava pronto para ser atendido por um rapaz, com os cabelos azuis escuros repicados, calças jeans escuras justas e rasgadas e com uma corrente pendurada, camiseta de alguma banda barulhenta, jaqueta de couro, unhas escuras devidamente pintadas e bandana preta na cabeça.

- Sim?

- Sim?

Milo?

Espera... Aquele era... Aquele era o Milo? O cavaleiro de ouro de Escorpião, sério e dedicado, competente e justo... Com uma bandana preta na cabeça e jaqueta de couro com spikes?

Hyoga tinha vaga consciência de que estava com a boca aberta, os olhos arregalados e com uma expressão espantada. Ele tinha noção disso pois viu Milo converter sua expressão cordial para uma expressão confusa, pois não entendia o que um homem estava fazendo na sua porta àquela hora da manhã do fim de semana.

- Senhor...? Senhor...? – Milo o chamava – o que deseja?

Pensa rápido, Hyoga, pensa rápido!

- Ah, é que... eu estava procurando pelo Sr. Camus, mas...

- Ah, você deve ser o Sr. Hyoga, o entrevistador do Camye! Pode entrar, a casa é sua! – disse Milo, empolgado – Eu imaginei que vocês marcariam um local de encontro para conversarem, não sabia que os entrevistadores vinham nas casas! Camus foi fazer as compras de comida da semana, logo, logo ele volta! Você quer um café? E ah, e eu sou o Milo! A gente vive juntos.

Hyoga não conseguia raciocinar direito. O que Milo estava fazendo na casa de Camus, àquela hora da manhã? Como ele conhecia Camus? Como assim, eles moravam juntos?

Ele se lembrava que seu mestre Camus tinha uma forte conexão com Milo. Os dois eram muito amigos, muito próximos um do outro. Algumas raras vezes, Milo veio visitar seu mestre na Sibéria, no seu local de treinamento, para saber se seu mestre estava bem (1). Hyoga achava aquela amizade linda, que não se desfazia durante o tempo. Foi ali que ele percebeu o poder da amizade, que ele próprio compartilhava com os seus colegas de bronze.

Então deveria ter sido isso, pensou Hyoga, feliz. Nem mesmo os deuses, nem mesmo o destino, foram capazes de separar os caminhos da amizade entre Milo e Camus. Dois amigos, dois irmãos, dois companheiros de batalha e de luta se reencontraram num cubículo em Paris e começaram a morar juntos, enfrentando as mazelas que jovens estudantes de universidades poderiam enfrentar. Juntos. Além disso, ele havia encontrado Milo, que estava na mira da Fundação Graad, mas que não fora localizado. Deve ter sido um erro de endereço.

Bons amigos, bons irmãos, Hyoga pensou. Como ele e Isaak eram durante o treinamento, seu mestre Camus tinha um bom amigo para lhe ajudar.

- Camus ficou tão feliz com a oportunidade que a Fundação deu pra ele – continuava tagarelando Milo. Não havia mudado nada – ele estava louco por essa bolsa. Você sabe, as universidades de humanas têm sofrido ataques da opinião pública, acham que filósofos não fazem nada... Um absurdo! Na minha terra natal, um filósofo tem muito prestígio e orgulho! A filosofia é a mãe de todas as ciências... Tenho muito orgulho de ter alguém como Camus do meu lado...

- Nós estávamos tentando te procurar, Milo. A Fundação também tinha uma bolsa para você.

- É, eu vi! Mandei e-mail, mas ninguém me respondeu... Achei que tivessem desistido de mim – disse Milo, rindo.

- Não achamos seu endereço. Eu estava responsável por procurá-lo, inclusive – disse Hyoga.

- Ah, é que no começo da graduação, meu endereço ficou errado na faculdade, e eles não consertaram até hoje, acredita? Eu não tinha um teto ainda, quando me matriculei na faculdade...

Milo continuava tagarelando e Hyoga começou a reparar no cativeiro que eles chamavam de apartamento. Muito, mas muito apertado. Uma cozinha minúscula, com armário, geladeira, micro-ondas, mesa e fogão, um banheiro mais minúsculo ainda, um corredor com uma estante repleta de livros (e mais livros empilhados no chão), uma varandinha francesa charmosa e um quarto, somente um quarto.

Com uma cama. De casal.

-... Eu fico tão feliz de ter um namorado tão inteligente quanto Camus!

Quê?

Namorado?

Namorado?

NAMORADO?

- Namorado? – disse Hyoga. Foi a única coisa que ele conseguiu pensar. Foi a única coisa que ele conseguiu falar.

Seu mestre Camus de Aquário, o cavaleiro mais frio e implacável, duro feito as rochas de gelo da Sibéria... Tinha um namorado?

E era o Milo?

Antes que Milo pudesse responder, Camus entrou no apartamento, com as chaves e uma sacola de supermercado na mão.

- Mon amour, eu não achei aquele iogurte que você pediu, mas eu peguei outro de mesma mar...

Mon amour?

Mon amour?

MON AMOUR?

Desde quando seu mestre Camus de Aquário chamava alguém de mon amour?

- Camye, o entrevistador da Fundação Graad está aqui! – disse Milo, indo ao encontro de Camus – ele disse que não te achou, mas achou o nosso endereço e veio para cá!

- Ah, então ele não precisa mais me entrevistar – disse Camus – você já deve ter dito tudo aquilo que ele precisava ouvir de mim, tenho mais nada a acrescentar.

- Safado! – disse Milo rindo.

Hyoga olhava a dinâmica dos dois, embasbacado.

Há quanto tempo eles namoravam? Há quanto tempo eles tinham sentimentos amorosos um pelo outro? Isso aconteceu agora, nessa nova vida, ou eles já se amavam desde a batalha das Doze Casas? Ou desde o seu treinamento? Ou antes disso? Como eles se apaixonara, quando eles se apaixonaram?

As regras do Santuário eram claras. Os cavaleiros deveriam evitar relacionamentos amorosos. Mesmo as amazonas, caso mostrassem o rosto para um homem (e o Santuário era antiquado nesse requisito, pois achavam que a mulher só se apaixonaria por um homem), deveriam amá-lo em segredo. Sem relacionamento, sem casamento, sem filhos, afinal, toda essa situação poderia deixar tanto o cavaleiro quanto a pessoa amada em risco. E se o inimigo atacasse a esposa de um cavaleiro e pedisse a vida de Athena em troca? O cavaleiro em questão poderia sucumbir e o Santuário facilmente perderia uma guerra.

Claro que houve cavaleiros que "desobedeceram" às regras. Um deles foi seu amigo Shiryu, que já namorava Shunrei durante a batalha das Doze Casas. O outro foi Ikki, que teve um caso com uma menina na Ilha da Rainha da Morte. Orfeu de Lira era o maior exemplo do motivo pelos quais os cavaleiros não poderiam ter esposas ou família, já que ele se aliou ao imperador Hades só para trazer sua amada Eurídice de volta.

Se seu mestre Camus e Milo tinham relacionamento, deveria ter sido às escondidas, para que não sofressem represálias dos seus pares. E esse era o problema: ele jurava que conhecia Camus. Só que ele estava agora na sua frente, com roupas comuns, roupas de gente jovem, com um sorriso tímido no rosto enquanto colocava as compras em cima da bancada. Aquele Camus não seria o seu mestre. Quando foi que esse Camus começou a existir?

- Senhor? Senhor? – perguntou Camus.

Hyoga acordou de seu transe.

- Ah, desculpe! – disse Hyoga – só estou pensando na coincidência que foi encontrar vocês dois juntos. Estávamos procurando por Milo, mas não sabíamos seu endereço.

- É, ainda não mudaram o endereço dele na faculdade, não importa quantas vezes ele peça – disse Camus – Bom, eu estou surpreso. Não esperava que teria uma entrevista no sábado.

- Não se preocupe, hoje é só uma conversa informal – respondeu Hyoga – como os dois estão aqui, poderei conversar com os dois a respeito das bolsas.

E, no geral, conversaram formalmente sobre o assunto, cada um com suas respectivas dúvidas. Claro que toda aquela conversa era falsa, assim como as bolsas em questão: eles seriam atraídos para a sede da Fundação Graad na Grécia e enviados para o Santuário, para ficarem protegidos dos ataques dos novos inimigos que surgiam. Essa era a ideia de Saori, pelo menos. Não que ele concordasse com o fato de que teria que enganar o seu mestre e o seu namorado, mas não é como se tivessem muita escolha.

- Posso fazer uma pergunta pessoal? – disse Hyoga. Ele não poderia sair dali sem aquela resposta.

- Pode – respondeu Camus.

- É uma estranha coincidência pra mim que vocês morem juntos. Juro, foi impossível encontrar o Milo – disse Hyoga – Como vocês se conheceram?

- Ah, eu estava procurando por um teto aqui em Paris, e tudo é muito caro por aqui – disse Milo – então eu encontrei um ranzinza que queria dividir um apartamento.

- Você é muito engraçado, não é Milo? – disse Camus.

- Obrigado – disse Milo, sorrindo – então eu encontrei Camye. O resto todos já sabem. Rolou um clima, a gente gostou e ele me pediu em namoro! Estamos juntos há um ano desde então. – Terminou com uma piscadela.

- Acho engraçado que você sempre gosta de mencionar que foi eu quem te pediu em namoro.

- Claro – disse Milo – seu entrevistador tem que saber que por trás dessa muralha de gelo existe um coração ardente como fogo – disse Milo, rindo, e beijou Camus nos lábios, segurando o seu rosto, enquanto Camus sorria e olhava para ele, apaixonado.

Hyoga não conseguia acreditar no que via.

Hyoga entrou no táxi para voltar para o aeroporto, desnorteado. Camus não se lembrava de nada. Milo não se lembrava de nada. Absolutamente nada.

Camus não se lembrava que tinha ensinado Hyoga por cinco longos anos. Não se lembrava que jogou a sua própria mãe nas profundezas do mar. Não se lembrava que sacrificou a própria vida para lhe passar o ensinamento sobre o zero absoluto. Não se lembrava que ressuscitou como traidor, que matou Shaka, que ajudou a matar Atena, que foi enforcado pelo próprio Milo, pelo próprio namorado. Não se lembrava que foi humilhado e pisoteado por um espectro de baixa patente de Hades. Não se lembrava que se sacrificou no Muro das Lamentações.

Milo não se lembrava de ter lhe ferido com as 15 Agulhas Escarlates. De ter tentado matar quem ele considera ser o amor da sua vida, duas vezes. De ter se ajoelhado perante o homem que ama e ter soltado lágrimas amargas, por ter que ver Athena morrer, por ter que ver o amigo como um homem traidor, por ser um cavaleiro. Não se lembra dos seus sacrifícios.

Nada daquilo fazia parte deles. Do mundo deles. Das vivências deles. Camus e Milo eram somente dois jovens normais, com vivências normais, que se conheceram na romântica Paris e vivem o romance dos sonhos, com uma carreira incrível pela frente. Talvez, eles pensem que um dia vão casar-se, ter uma família e filhos. Morar num apartamento legal em Paris, e se beijarem antes de saírem para o trabalho.

Hyoga não iria salvá-los. Hyoga iria destruí-los.

Rezou para o deus de sua mãe, pedindo forças para o que viria. Mas os deuses não eram bons em escutar suas preces.

(1) Na minha história não vai ter o Cavaleiro de Cristal como mestre do Hyoga, vai ser só o Camus mesmo. Motivo: já tem personagem demais, não sou o George R.R. Martin.