Universidade Nacional Capodistriana de Atenas, Zografou, Atenas, Grécia. 2018
POV Aiolia
"Prezado,
Gostaríamos de entrevistá-lo sobre a sua participação no programa de intercâmbio e bolsas que sua universidade realizou com a Fundação Kido. Compareça ao departamento da sua faculdade para manifestar o interesse na sua vaga até a data da entrevista, que será no local combinado anteriormente. Aguardamos sua resposta.
Atenciosamente
Marin"
Aiolia não somente já tinha respondido o e-mail, como já tinha passado no departamento e estava no café da faculdade, esperando a chegada da entrevistadora. Aparentemente, seria essa tal de Marin que o entrevistaria. E, aparentemente, ele foi selecionado para uma bolsa de intercâmbio totalmente paga pela Fundação Kido.
De fato, ele já tinha se inscrito para tantas bolsas e programas que ele já tinha perdido as contas. No entanto, ele não imaginava que ele seria selecionado para alguma bolsa, e pior: ele não sabia que tinha sido selecionado por uma bolsa paga pela Fundação Kido que seu irmão está advogando contra.
Será que eles sabiam disso? Deviam saber, pensou Aiolia enquanto se sentava na cadeira do café, afinal eles deviam investigar a vida de todo mundo para realizar a seleção da bolsa.
E se não sabiam, não iria ser ele que contaria.
O outro problema é que ele não imaginava que eles tinham tanto interesse nele. A tal da Marin queria um encontro com ele imediatamente, e ele nem sequer pode colocar roupas mais formais para poder ser entrevistado. Embora ela o tenha assegurado que seria somente uma conversa informal, Aiolia não sabia que tipo de impressão passaria quando a senhora em questão lhe visse com uma calça jeans velha, tênis All Star meio sujos e camiseta do Arctic Monkeys. Ela tinha um nome meio antigo, o que fazia Aiolia pensar que ela poderia ser mais velha, então a sua aparência lhe preocupava um pouco.
- Cara, vai dar tudo certo – lhe disse Adonis – se ela falou que é só uma conversa, é só uma conversa.
- É cara, você já foi aprovado – completou Dimitris – não é como se ela pudesse te desaprovar num instante. Relaxa aí.
- Mas se ela descobrir sobre meu irmão? – disse Aiolia – porque assim, eu vou perder a vaga, se eles descobrirem que meu irmão tá do lado do Kanon.
- Você acha que eles já não sabem? – disse Adonis colocando as mãos atras da cabeça – com certeza eles já têm o seu histórico. Teu nome até se parece com o dele. Se ele não fosse mais velho, a gente poderia jurar que eram gêmeos.
- A gente vai ficar aqui pra te dar moral, rapaz – disse Dimitris – quando a mulher aparecer a gente cai fora e vocês ficam aqui conversando.
Ali, observando as pessoas, Aiolia viu uma pessoa entrar na cafeteria. Ela estava conversando com o atendente, pedindo alguma coisa. Quando Aiolia focou os olhos nela, percebeu o que parecia ser o mais óbvio.
A mulher era linda.
Cabelos ruivos e repicados, até os ombros, levemente ondulados. Olhos azuis escuros, levemente estreitos, parecendo-lhe que era descendente de asiáticos. Algumas poucas sardas em volta do nariz pequeno. Lábios grossos e sorriso radiante. Magra, alta e forte, com belíssimas curvas, vestida em um vestido justo, formal e escuro, valorizando suas formas ao mesmo tempo que demonstrava seriedade. Tinha uma bolsa do lado, usava sapatos altos. Linda, linda de morrer. Aiolia nunca tinha visto uma mulher tão linda em sua vida, e acreditava que jamais veria.
- Ah não, cara – disse Dimitris – ruiva não, ruiva não!
- Aiolia, se controle – disse Adonis – é só uma mulher ruiva, tem outras várias pelo mundo.
Mas Aiolia nem prestava atenção no que eles diziam. Afinal, como uma mulher poderia ser tão linda? Seu olhar imponente, elegante e avassalador, seu sorriso perfeito. Aquela mulher se encaixava perfeitamente na mulher ruiva que via nos seus sonhos, que sorria para ele, que se sentava do seu lado na grama, abraçando as pernas, com a voz delicada. Ele nunca conseguia ver o rosto, pois ele era sempre coberto por uma névoa, mas ele podia sentir a presença dela ou ouvir sua voz.
Ele estava hipnotizado, mesmerizado, fascinado. Finalmente, a última peça do quebra-cabeça se encaixou, e ele pode ver o rosto da mulher dos sonhos.
Ela se aproximava e ele se levantava, mecanicamente, mas não conseguia tirar os olhos do rosto da mulher. Era como ver um dos afrescos de Michelangelo pela primeira vez, do qual se olha, e tenta se absorver todos os detalhes possíveis, para ficar com a lembrança guardada na memória, para sempre.
Sua voz melodiosa e doce, como nos sonhos, Deus, era igual a voz dos sonhos, direcionou a sua fala para Aiolia:
- Bom dia, você deve ser o Aiolia, certo?
POV Marin
Deuses, como ele estava... diferente.
Ela tinha uma lembrança muito viva e sólida de Aiolia, incrustada em sua mente. Ele era o leal, corajoso e honroso cavaleiro de Leão, um exemplo de soldado nas fileiras do exército de Atena. Seu olhar era altivo, mas bondoso. Tinha uma humildade característica de quem tinha sofrido um enorme estigma por ser o irmão de um traidor. Era diferente dos outros cavaleiros, que tinha seu lado valente, mas que, no fundo, se revelava um homem sensível e cordial. Era um pouco rebelde, sim, mas isso era somente um traço de sua coragem de enfrentar o que fosse necessário para alcançar a justiça.
Aiolia era muito mais do que um companheiro de armas, era um amigo, alguém que lhe ajudava nos momentos difíceis. Eles tinham uma conexão inquebrável e eram inseparáveis.
Só que, agora, ela sentia que existia um abismo entre eles. Aiolia não era mais o cavaleiro de ouro de Leão cheio de cicatrizes e certas mágoas do passado. Ele era um jovem, só mais um jovem universitário de vinte e dois anos com uma carreira brilhante pela frente. Vestia uma calça jeans escura, uns tênis meio sujos, uma camisa de banda. O cabelo continuava sendo a mesma juba rebelde loira, que contrastava com os olhos verdes feito a grama das savanas. A única coisa que mudava em sua aparência, além das roupas, era a barba por fazer, que lhe dava uma aparência relaxada, mas sensual e cheia de juventude. Sentado displicente na cadeira, meio jogado, com um sorriso suave no rosto enquanto conversava com colegas da faculdade e fumava um cigarro.
E foi ali que surgiu um pensamento, não muito forte ou sólido, mas sim aqueles pensamentos suaves que surgem em nossas cabeças enquanto estamos prestando atenção em outras coisas.
Aiolia parecia belo em sua inocência e jovialidade.
Quer dizer, isso não significa que ele não era belo antes, quando eram cavaleiros. Os cavaleiros, em sua maioria, eram homens bonitos. As meninas de Rodório viviam fofocando sobre aquilo (e era um saco, diga-se de passagem). Falavam sobre a beleza andrógina de Afrodite, sobre a beleza divina de Saga, sobre a beleza jovial de Milo. Ela reconhecia a beleza de todos eles, pois afinal, era a mesma coisa que reconhecer a beleza de uma flor. Mas Aiolia era Aiolia, seu amigo, seu camarada, seu irmão de armas. Nunca ousou pensar nele além disso, pois não existia um "além disso". Se uniram por necessidade e continuaram por conexão. Ela era a oriental esquisita que estava roubando a armadura de Águia, ele era o irmão do traidor que estava roubando a armadura de Leão.
Ela se sentia uma velha perto dele.
Lógico, ela passou por muito mais coisas que ele, e agora ela podia falar aquilo com propriedade. Viu o discípulo morrer, viu Atena se despedaçar em tristeza, viu o exército da Justiça se desmanchar, viu todos os ideais pelos quais ela lutou irem por água abaixo, viu o irmão sumir. E, depois de dez anos, nada mudar. Agora são obrigados a enfrentar um inimigo desconhecido, sem a Vitória em mãos, sem o apoio do Olimpo. Antes, possuíam quatro anos de diferença, ele sendo o mais novo. Agora, ela era quatro anos mais velha que ele, e parecia que ela era uma anciã, e ele um menino ainda intocado.
Ela sabia que, naqueles tempos, tudo que eles dois queriam era a paz. Aiolia não queria mais ser perseguido por ser irmão de um suposto traidor, ela não queria ser perseguida por sua nacionalidade. E agora, Aiolia tinha a paz. Seu irmão estava vivo e bem, ele não era um pária no Santuário e tinha uma vida confortável, fazia uma faculdade boa, estava longe das batalhas intermináveis travadas no Santuário.
Quem era ela para tirá-lo daquele local, tirá-lo do seu sossego e de sua vida de um jovem normal e arrastá-lo para mais uma missão suicida sobre assuntos dos quais, agora, ele não tem nada a ver?
Foco, Marin, foco. Marin precisa resgatá-lo, para o bem dele. Aiolia precisa vir para o Santuário pois lá é o lugar mais seguro para os cavaleiros. As forças do mal poderiam perseguí-lo, Saori estava ciente disso. E ela também.
Ela sentiu o olhar dele e sua direção, enquanto ela se aproximava de sua mesa, após pedir um capuccino. Seus colegas de faculdade se afastavam, parecendo... receosos? Ela não lhe faria mal. Aiolia lhe olhava com certo fascínio, um sorriso leve no rosto, enquanto se levantava da mesa para cumprimentá-la.
- Bom dia, você deve ser o Aiolia, certo?
- Sim – disse Aiolia, meio hesitante - Você deve ser a Sra. Marin, certo?
- Sim – Marin respondeu, apertando a sua mão – tudo bem com você, Aiolia?
- Sim, estou ótimo – respondeu Aiolia – e você?
- Estou muito bem, obrigada.
É impressionante como Aiolia é charmoso. Não somente charmoso, como eloquente e persuasivo. Não no sentido ruim das palavras, é claro. Ele é uma pessoa com quem você pode sentar-se num pub e conversar sobre qualquer coisa, e nunca será entediante ou maçante. Enquanto Aiolia conta sobre sua vida pessoal e sobre seus feitos acadêmicos, Marin não deixa de reparar na linha firme do maxilar, de como ele sorri e mostra os dentes brancos e perfeitos, de como ele olha para o lado e passa as mãos pelos cabelos loiros, displicente.
De como ele não tira os olhos verdes dos lábios dela.
Ele falou sobre seu passado. Aparentemente, quem quer que tenha manipulado sua mente, o fez acreditar que ele viveu a vida inteira em Tessalônica, que seu pai morreu quando ele ainda era um bebê e que seu irmão mais velho cuidou dele como um pai cuida de um filho (essa última parte era a mais pura verdade). De como sempre se inspirou no irmão e quis fazer faculdade de direito, como ele, de lutar pela justiça como ele.
- Por que deseja tanto lutar pela justiça? – perguntou Marin
Aiolia suspirou, olhou o jardim do café e deu um leve sorriso.
- Já vi muita gente inocente ser julgada e condenada nesse mundo, sabe? Imagine, a reputação e a vida de uma pessoa ir pro lixo pois ela foi julgada por um crime que não cometeu. E mesmo que tenha cometido, não ter a chance de recomeçar. Não quero ver isso.
Marin sorriu. Os deuses poderiam fazer Aiolia se esquecer de suas origens, mas ele jamais deixaria de ser quem ele era. Os deuses jamais roubariam isso dele.
- E como você se enxerga daqui a cinco anos? – perguntou Marin. Seria um questionamento inofensivo, que é feito por muitos entrevistadores, mas que ela genuinamente queria saber. O que pensava Aiolia sobre seu futuro?
- Terminar a faculdade, obviamente – disse Aiolia sorrindo – Ter o meu escritório. Fazer um mestrado, quem sabe. Continuar estudando bastante.
- Também quero fazer viagens, conhecer alguns lugares, ver o mundo lá fora. E bom, achar a mulher dos meus sonhos – terminou, rindo.
- A mulher dos seus sonhos? Você me parece bem romântico.
- Pra falar a verdade, é literalmente a mulher dos meus sonhos. Sempre que durmo, eu a vejo, chamando meu nome, correndo ou treinando algum esporte, sei lá. Mas eu nunca vejo o rosto dela...
O cérebro de Marin estava pensando muito rápido. Uma mulher. Chamando o nome de Aiolia. Correndo. Treinando. Aiolia sonhava todas as noites com uma mulher, que ele nunca conseguia ver o rosto nos sonhos. As amazonas não mostravam o rosto. Havia várias no Santuário, mas ele só era próximo de duas. E Shina já havia mostrado o rosto para ele, não faria sentido ele não se lembrar. Só havia uma amazona que não tirou a máscara na frente dele.
Aiolia sonhava com Marin. Todas as noites.
Ele deve ter percebido a expressão de espanto que se formou em seu rosto, pois ele já estava pedindo milhões de desculpas, dizendo que o comentário dele foi inapropriado e que ele não queria constrangê-la. Marin aceitava as desculpas, mas não pensava muito nisso no momento, pensava apenas que, de tanta coisa para se lembrar, Aiolia se lembrava justamente dela, correndo pelos campos do Santuário, treinando com ele, como eles sempre faziam.
Marin não queria sentir a felicidade que ela estava sentindo por saber disso.
Como eram os sonhos dele? Será que ele se lembrava das conversas que eles tinham, sentados perto de alguma pilastra quebrada? Ou de quando eles viam o pôr-do-sol na praia, pois ela tinha liberado Seiya dos treinamentos? Ou quando eles treinavam juntos de manhã cedo? Ou até mesmo das vezes que ele mimava Seiya, comprando doces para ele em Rodório enquanto ela brigava para ele não fazer isso, mas ao mesmo tempo, ficava feliz por ele ajudá-la com o pupilo?
- Eu... eu acredito que já temos as informações necessárias, Sr. Aiolia – disse Marin – não se preocupe, eu realmente não estou constrangida pelo seu relato pessoal. Muito pelo contrário, isso mostra a sua sensibilidade, e a Fundação Graad acredita nisso.
- Ah... tudo bem - disse Aiolia, mais aliviado – mas ainda tenho a bolsa de estudos?
- É claro! Olhe, a gente vai conversar bastante ainda. Tome o meu número – ela lhe entregou um cartão – vamos marcar um horário para você visitar a sede da Fundação Graad aqui na Grécia para conhecer mais os nossos projetos. E você pode me mandar mensagem a hora que quiser?
- Posso? – disse Aiolia, com um olhar diferente daquele que ela conhecia. A cabeça de Marin ia criando os pensamentos como se monta peças de um quebra-cabeça. Ele não tirou os olhos dos lábios dela durante toda a entrevista. Ele mencionou que queria encontrar a mulher dos sonhos, justamente para ela. Agora, as suas sobrancelhas levemente arqueadas, um brilho nos olhos malicioso, um sorriso encantador, mas não com a intenção de ser gentil. Com a intenção de seduzir.
Aiolia estava interessado nela?
Eles se levantaram da mesa e ela o acompanhou até o seu campus. Observou o seu rosto jovem, os cachos dourados e curtos bagunçados pelo vento os lábios rosados, os olhos imensamente verdes, o nariz reto. Como nos velhos tempos. Havia apenas duas coisas novas: uma delas era a barba loira.
A outra era a falta de ar e a palpitação que ela sentia diante de Aiolia.
Aiolia estava tentando seduzí-la. Aiolia estava sendo charmoso com ela. Aiolia sentia atração por ela.
Ela não sabia como seria daqui em diante. Quando aceitou o convite de Saori para encontrar os cavaleiros de ouro, pensou que encontraria o seu amigo de volta. Mas em algum momento, ele deixou de ser o seu amigo, e ao invés de ser um estranho, despertou nela sentimentos que nem ela sabia que podia sentir.
O problema é que ela era velha demais, machucada demais. E ele era belo, imaculado, sem as mazelas do passado. O que ela poderia lhe oferecer? Nada, além de tristeza e luto. Prometeu a si mesma que guardaria os sentimentos para si, que eles desapareceriam, que ele deveria perder o interesse nela quando chegasse ao Santuário. Era melhor assim.
O futuro lhe dava um pouco de medo.
