Madrid, Espanha. 2018.
POV Shura
Acabou que Shura teve que vir trabalhar no restaurante, mas teve que trazer Mia junto. Inez teve um evento de última hora (malditos ricos que querem tudo na hora deles) e não pode ficar com a criança. Como a babá também não podia ficar com ela de última hora, restou para Shura trazer a menina para o seu local de trabalho.
Não é como se essa danadinha não estivesse acostumada com a cozinha do papai.
Ela tinha um espaço seguro para brincar, longe das loucuras que eram praticadas na cozinha, dos óleos espirrando, das facas cortantes e do fogo. E não é como se os clientes não gostassem. O Ropera, apesar de grande, era um restaurante com o intuito de deixar aquele ar familiar, de quem leva os filhos e o cônjuge para um almoço ou jantar, enquanto come uma boa comida. É um espaço family friendly, no qual os pais poderiam deixar seus filhos brincando na brinquedoteca, enquanto apreciavam a comida. Os garçons e garçonetes brincavam com a menina, que sorria, e os clientes viam, e não deixavam de comentar "não é a coisa mais fofa" e se sentiam em casa, aconchegados.
Quem diria que sua filha seria uma boa jogada de marketing.
Mas quem não se encantava pelos bracinhos gordos, pelo sorriso presente, pela alegria contagiante de Mia? Essa parte da personalidade de Mia vinha da mãe, e Shura agradecia todos os deuses por isso. Ele não era um dos melhores em relações sociais.
- Boa noite, o Shura está? – Shura ouviu uma voz perguntar – eu havia marcado uma conversa com ele hoje.
Devia ser o rapaz que Inez havia mencionado.
- Miguel, você cuida da cozinha pra mim, por favor? – Shura perguntou para o rapaz. Ele balançou a cabeça, concordando.
- Acredito que você seja o rapaz que estava me procurando – disse Shura, enquanto andava para a recepção do restaurante – minha esposa falou de você.
Observou bem o rapaz que estava na sua frente. Cabelos escuros e muito lisos, que iam até a cintura. Olhos verde escuros e estreitos, o que mostrava a sua ascendência chinesa. O rosto era bonito e pacífico, dando-lhe um ar de sabedoria, apesar de ser bem jovem (devia ter a idade de Shura). Era forte e musculoso, e vestia uma camisa lilás e uma calça clara (Shura achou uma combinação de roupas meio estranha e inesperada, vindo de um representante da Fundação Graad, mas tudo bem) e estava bem na sua frente, estendendo-lhe a mão.
- Você é o Shura? Podemos conversar?
POV Shiryu
Shura não mudou nada. Absolutamente nada. É como se ele tivesse acabado de sair da casa de Capricórnio e decidido se tornar chef de um restaurante em Madrid. Os mesmos cabelos escuros e arrepiados, os mesmos olhos inexpressivos, o mesmo semblante calmo e sério. A diferença estava, obviamente, em suas roupas: ao invés de trajar a gloriosa armadura de ouro de Capricórnio, Shura vestia um dólmã de cozinheiro preto e calças pretas.
- Ótimo – disse Shura – quer se sentar em uma das mesas? Podemos pedir uma entrada.
- Obrigado. E não precisa, um café já serve – disse Shiryu.
Shura olhou para ele desconfiado, e Shiryu percebeu que ele pensou que Shiryu viria aqui como um sommelier para aprovar ou reprovar a comida do chef. Burrice da minha parte ter recusado, Shiryu pensou, levemente tenso, mas mandar um agricultor dos Montes de Rozan vir apreciar restaurantes espanhóis caros também foi burrice da parte de Saori.
- Eu conversei com a sua esposa ontem – disse Shiryu – ela me disse que você não estava no restaurante no momento, se não me engano.
A esposa de Shura. Uma mulher de cabelos ruivos e olhos muito verdes, mas que não tinha as feições tranquilas do marido. Ela era eloquente e contagiante, mas sua personalidade poderia se transformar, tornando-se séria e imponente, o que ocorreu quando ela descobriu que Shiryu tinha interesse em conversar apenas com Shura, e não com ela. A desconfiança dela ao perceber que Shiryu queria contratar apenas Shura para o tal "evento" foi tamanha que Shiryu chegou a imaginar se ela seria uma armadilha do inimigo para evitar que o cavaleiro de Capricórnio voltasse ao Santuário.
- Ah sim, ela me contou sobre o ocorrido – disse Shura – me falou que você tinha interesse em me contratar para um evento.
- Sim, sim – disse Shiryu – sou um dos assessores de Saori Kido, e ela gostaria de um chef de cozinha para um evento na casa dela na Grécia.
- Na Grécia? - disse Shura, surpreso.
- Sim – disse Shiryu, respirando fundo – o evento é daqui há três semanas, e você terá acesso ao ambiente que vai ocorrer o evento uma semana antes.
- Sim, mas daqui a três semanas? Tá muito perto - disse Shura. Shiryu respirou fundo novamente – a minha agenda é requisitada senhor, eu não posso...
- Nós cobrimos todos os gastos e despesas que você terá para fazer esse evento – disse Shiryu.
- Esse é o mínimo, rapaz – disse Shura.
Meus Deuses, me deem paciência.
- Além disso – disse Shiryu, fechando os olhos – também cobriremos o pagamento de eventos que você terá que cancelar para comparecer nas próximas semanas, para vir para o nosso evento. Pode ligar para os seus clientes, cancelar e nos mandar eventuais gastos, multas contratuais e pagamentos que você vai ter, a gente paga tudo.
Diga a ele que pagaremos tudo, garanta que preço não é problema, Shiryu se lembrou dos conselhos de Saori. Faça ele se sentir seguro de que será um bom negócio.
O problema é que ele não é um sommelier, nem um produtor de eventos. Ele é um agricultor chinês que mora numa casa humilde no meio do nada. Nada daquela vida que Shura levava, eventos caros, comidas chiques, vinhos importados, nada daquilo fazia parte de sua vida.
- Senhor, entenda que a situação é complicada – disse Shura – começa pelo fato de que o senhor quer me contratar como um personal chef. Não funciona assim. Tenho eu conhecer a cozinha, preparar os materiais, estabelecer um cardápio...
E Shura começou a discorrer sobre uma série de problemas que ele teria para um evento como esses, no qual Shiryu balançava a cabeça em aquiescência, com o sorriso forçado, fingindo que entendia absolutamente todos os termos da haute cuisine que Shura falava (e que não estava desesperado por não entender absolutamente nada), e pedindo perdão para Shunrei e para o filho pelos milhares de palavrões e xingamentos que passavam pela sua cabeça, direcionados à Saori, por ter feito ele vir para um bairro chique da Espanha buscar Shura, ao invés de buscar o seu mestre na China (ou seja, muito mais perto de casa), estudando História. Era pra ela estar aqui, amaldiçoou Shiryu.
- Senhor Shura – a recepcionista veio correndo para a mesa no qual os dois se sentavam – Senhor Shura, a Mia está chorando. Não sei o que aconteceu, eu...
- O que? – disse Shura desesperado – o que aconteceu?
- Acho que se machucou, mas não foi nada grav...
Shura nem deu tempo para a recepcionista terminar de falar. Saiu correndo para a brinquedoteca do restaurante, no qual Shiryu acompanhou, curioso. Quem é Mia?
Chegando no local, eles se deparam com uma menina de cabelos muito ruivos, mas de feições parecidas com as de Shura, chorando, com as mãozinhas gordas apoiadas no chão. Shura pegou a menina no colo e viu que ela tinha um leve machucado no joelho, que provavelmente ocorreu pelo fato de que a menina estava correndo com as outras crianças. Nada grave, Shiryu pensou, afinal, crianças não estão acostumadas com a dor, e por isso, choram por qualquer machucado. Ele mesmo era experiente nisso, já que Shoryu (1) vivia se machucando em casa, sabendo muito bem que acalmar a criança e passar um remedinho já era suficiente. Era isso que Shura estava fazendo, enquanto aplicava um spray no joelho da menina.
- Já passou, neném. Já passou.
Em exatos três minutos, a menina já tinha parado de chorar e já pedia para descer do colo e voltar a brincar com as outras crianças. Shura depositou um beijo na bochecha gorda da menina e a colocou no chão com delicadeza.
Shura era pai. Tão pai quanto Shiryu era.
Assim que recebeu o chamado de Saori para convocar os cavaleiros de ouro, Shiryu teve uma discussão séria com Shunrei. O motivo da discussão era o mesmo de décadas atrás: Shunrei não queria que ele arriscasse a sua vida (novamente) para lutar numa batalha sem sentido contra os deuses. Não era justo, ela repetia, depois de todos esses anos, ela quer se preparar para uma guerra que ela nem sabe se vai existir ou não? E se eles foram ressuscitados por uma benção divina para que eles tenham uma vida normal, para que vocês tenham uma vida normal?
E Shunrei estava certa. Certíssima, como sempre. E Shiryu se fez essas mesmas perguntas. Afinal, valeria a pena retirar pessoas, sem treinamento, de suas vidas normais, para mais uma batalha maluca contra os deuses, somente por que em suas vidas passadas eles foram cavaleiros? Nem a morte seria capaz de livrá-los da guerra sanguinária contra os deuses? Eram esses os seus destinos?
Era o destino de Shiryu enviar um pai de família para morrer?
Pai. Marido. Irmão. Sobrinho. Filho. Amigo. Todos eles, naquele mundo, eram entes queridos de alguém, que eles não conheciam e que nem eram nascidos na época que eram cavaleiros. Tinham uma vida normal, com tarefas normais. Deuses gregos e cavaleiros eram coisas para ficarem guardadas nos livros de história. Batalhas sangrentas eram um assunto distante daquilo que vivam. O cotidiano deles era preenchido com pequenos afazeres do dia a dia. Eram aquelas pessoas que Shiryu jurou proteger, quando se tornou cavaleiro de Atena. Eram aquelas pessoas que Shiryu estava levando para mais uma batalha.
Saori tinha noção disso? Saori via a crueldade que eles estavam fazendo? Tentou se lembrar da importância de ter os cavaleiros de ouro no Santuário, pois cavaleiros que já foram condenados ao sofrimento eterno, perambulando pelo mundo sem proteção divina poderia atrair deuses inimigos, que poderiam matá-los. Mas isso realmente aconteceria? Talvez os deuses os tivessem perdoado e, ao invés de castigá-los ao sofrimento eterno, deram o esquecimento como punição. Não sofreriam, mas não se lembrariam dos dias de glória como um santo de Atena. Parecia justo para Shiryu.
Olhou para a menina novamente. Filha de um pai de família. Filha de um cavaleiro de Atena, como seu filho era. Possivelmente condenada a viver sem o seu pai. Como seu filho viveria.
Ele não iria continuar com aquela loucura. Saori que se virasse, mas ele não convocaria cavaleiro nenhum para a morte. Ele poderia até lutar, mas não obrigaria uma criança a viver longe do convívio do pai, como ela queria que Shura fizesse. Decidiu que cancelaria com Shura, que não teria como contratá-lo e...
- Olha – disse Shura, se recuperando do susto – eu aceito a proposta, tá bem? Eu faço o evento que Saori Kido quer. A minha secretária te passa as despesas, e daqui a duas semanas eu vou para a Grécia ajustar os detalhes do evento de Saori. Tudo bem?
Shiryu encarou Shura, atônito. Tarde demais, pensou.
Assim, ele saiu do restaurante com o contato pessoal de Shura e o encarou longamente, enquanto esperava um táxi para o aeroporto. Pensou em Shunrei. Pensou em Shoryu. Pensou na menina ruiva, e como ela e Shoryu pareciam ter idades parecida. Pensou na esposa de Shura, com seus longos cabelos ruivos, indignada ao ver o marido ser convocado para um evento de última hora, assim como Shunrei ficava indignada toda vez que ele era convocado para uma nova batalha contra os deuses. Respirou fundo.
Tarde demais. Que os deuses perdoassem o pecado que ele estava cometendo.
(1) Como eu só uso o enredo do CDZ Clássico quem vai ser o filho de Shiryu é o Shoryu (Next Dimension), e não o Ryuho, como no Omega. No lore da fic, utilizo os spin-offs apenas como inspiração ou para acrescentar na personalidade dos personagens, mas não como um fato.
