Lavrio, Ática, Grécia, próximo ao Cabo Sounion. 2018.

AVISO: GATILHO – CONTÉM CENAS DE AUTOMUTILAÇÃO. SE VOCÊ ESTÁ PASSANDO POR UMA SITUAÇÃO PARECIDA, PROCURE AJUDA PSICOLÓGICA

POV Saga

Saga seguia fazendo o café naquele fim de semana pacífico. Ele estava disposto e bem desperto, pois tinha dormido muito bem naquela noite. Dormir era um ato essencial para ele, significava que sua saúde mental estava indo bem e que o tratamento estava dando certo. Em poucos meses, ele esperava se recuperar o suficiente para voltar ao trabalho e à pesquisa.

Conectou o seu celular em um miniaparelho de som e olhou alguma playlist no Spotify. Colocou alguma coisa dos anos 80 para tocar, enquanto fazia o café e cantarolava a música junto. Saga nunca entendeu o motivo pelo quais ele gostava tanto de música dos anos 70 e 80, visto que ele não viveu o período. Era um típico millennial, nascido em 1988, que leu Harry Potter e esperou sua cartinha para Hogwarts (ele era um típico grifinório com ares de Corvinal, enquanto Kanon era claramente um sonserino), gostava de plantinhas (mas era Kanon que cuidava. É. Vai entender) e que perde muito tempo fazendo testes no BuzzFeed ("monte uma salada e descobriremos quantos filhos você terá!"). E tudo bem, os anos 70 e 80 estavam na moda, então era normal que millenials e zoomers se interessassem. Mas no caso de Saga e Kanon isso ocorria desde quando eles eram crianças.

Vai saber. Certas obsessões a gente não evita.

E foi justamente quando ele estava cantarolando Star Man que a campainha tocou. Kanon havia saído cedo ao mercado para fazer as compras da semana, e se tivesse esquecido a chave, ligaria para ele, não tocaria a campainha. Então, quem visitaria numa manhã de sábado? Fez uma lista mental de quem poderia vir vê-los essa hora e não tinha ninguém. Os parentes sempre avisavam com antecedência. Amigos também. Todos do círculo íntimo dos dois sabiam que eles não gostavam de visitas surpresas.

Deveria ser alguma encomenda que Kanon pediu e esqueceu de avisar, pensou Saga, enquanto gritava um "já vai" e pegava as chaves.

Abriu a porta e tomou o que ele classificaria com um dos maiores sustos da vida.

Uma mulher, na casa dos 25 anos, bonita, com longos cabelos roxos e lisos, olhos azuis feito duas safiras, com um vestido Dolce & Gabbana, sapatos de salto e uma bolsa que deveria custar mais que o salário dele e do irmão juntos, estava na porta de sua casa, às 8 e alguma coisinha da manhã.

- Olá Saga. Você sabe onde está o Kanon? Gostaria de falar com ele.

O inferno estava para começar.

- Olá Saga. Você sabe onde está o Kanon? Gostaria de falar com ele.

O que diabos Saori Kido estava fazendo na sua casa? O que ela queria? Ver Kanon? Por qual motivo? Tá, tinha inúmeros motivos pelos quais ele iria querer ver Kanon, mas provavelmente queria vê-lo com a cabeça decepada numa bandeja, não na sua casa, sábado de manhã.

- Ele foi fazer as compras da semana, daqui a pouco volta.

- Ah, entendo.

Um silêncio vergonhoso se instalou entre os dois, enquanto Saori olhava fixamente para ele e sorria candidamente.

- A senhora quer entrar? Pode esperar na mesa até ele chegar.

- Sem problemas, Saga!

Ele deu passagem e ela entrou na casa, observando tudo com os seus enormes olhos azuis. Saga não pode deixar de reparar o quanto ela era bonita, mas ele jurava que ela era mais alta do que aparentava nas notícias. Era mais magra também. E naquela situação, ele a considerava perigosa. Todos os seus sentidos estavam em alerta.

- A casa de vocês é muito confortável. Adorei a vista para o mar – disse Saori, sorrindo – posso me sentar na mesa da cozinha? Não quero atrapalhar seus afazeres.

- Ah, claro! – disse Saga – E a senhora quer um expresso? Estava fazendo um agora.

- Vou querer sim. E não precisa me chamar de senhora, Saori já é o suficiente – disse Saori, rindo.

Saga entregou a xícara de café para ela, enquanto se sentava na mesa e tomava a sua xícara.

- É uma casa muito antiga, mas muito bem conservada – disse Saori – parece uma típica casa de beira de praia. Tem até a âncora perto da porta.

- Eram dos nossos pais. Eles faleceram faz algum tempo – disse Saga, engolindo a dor – deixaram a casa para Kanon e ele cuida desde então.

- Para Kanon?

- Eu morava em Atenas. Tive que me mudar recentemente, pois... tive alguns problemas.

- Entendo. Fiquei sabendo que você tinha se afastado da Universidade de Atenas, mesmo. Você é professor universitário, certo?

Saga confirmou com a cabeça.

- Já vi um Ted Talks seu no YouTube, Saga. Adorei como você explicou sobre buracos negros, fez parecer coisa de criança – disse Saori, sorrindo – pelo menos, teria que explicar assim para mim, pois eu não entendo nada.

Saga sorriu um pouco. Por mais estranho que isso pudesse parecer, seu nervosismo estava diminuindo. Talvez ela não quisesse matar o irmão, só queria fazer uma ameaça leve. De qualquer forma, ela exalava uma aura extremamente bondosa (não que ele acreditasse em auras, mas ela não parecia uma pessoa ruim), mas nada lembrava o que ele via na TV e nas redes sociais. Ele sabia que Saori poderia ser muito... assertiva quando necessário.

Ela olhou para a caixinha de remédios que estava logo atrás dele, no balcão da cozinha. Eram os remédios que ele tomava, mas ele não ousava tocar na caixinha, pois quem administrava os remédios era Kanon. Saga percebeu, pois, logo depois ela o olhou, preocupada.

Saga achou melhor fingir que não aconteceu nada. Saori sorriu.

- Você está bem, Saga? – perguntou Saori, tentando puxar assunto.

- Ah sim, sim – Saga respondeu, tímido – estamos indo, na medida do possível.

- Claro – disse Saori – te procuramos na universidade que você leciona, mas disseram que você estava afastado. A Fundação Graad se interessa muito por pesquisas em universidades, sabe. Eles queriam apresentar um projeto para os seus alunos.

Saga balançou a cabeça, concordando e pressionou os lábios. Saori parecia um pouco receosa, mas firme ao tentar entrar em um assunto que ele não queria abordar.

- Me desculpe a invasão de privacidade, mas você está doente, Saga? – perguntou Saori. Poderia ser alucinação de Saga, mas ela parecia aflita – são muitos remédios, e você está afastado da faculdade.

Se outra pessoa olhasse para ele do jeito que Saori lhe olhava, ele diria que essa pessoa estava com pena dele. Inclusive, ele já arranjou muitos atritos por conta disso, pois sempre lhe davam aquele maldito olhar de suposta preocupação, com as sobrancelhas enrugadas, mas que ele sabia que era pura pena, afinal o geniozinho perfeitinho não sabia lidar com os próprios demônios, com a própria loucura. E então começavam as atitudes típicas de quem tem pena. Achavam que ele não sabia fazer bons julgamentos para a própria vida, que ele estava sempre em surto. Saga não podia ficar bravo ou indignado, pois lhe dirigiam aquele olhar que dizia apenas uma coisa: "pobre coitado, olha ele, não sabe o que está fazendo. Ele é doente".

- Não é nada – disse Saga, sem jeito – eu apenas tive alguns problemas de estresse, burn out, por conta do trabalho da faculdade e resolvi me afastar. Pra cuidar de mim, sabe...

Mas Saori não lhe dava aquele olhar. Seu semblante era mais parecido com o do irmão, que era o de genuína preocupação. Kanon sempre sabia quando ele estava bravo ou triste por motivos legítimos ou quando ele estava com as suas paranoias da cabeça. E seu olhar era sempre o de preocupação. E era aquele olhar que Saori lhe dava agora.

Só que Saori não era sua irmã. Era a inimiga do seu irmão. Mas ela parecia não se preocupar com isso, pois pegou a mão direita de Saga, que estava perto da xícara de café, com as suas duas mãozinhas pequenas, pintadas com um esmalte claro, e lhe disse:

- Ah, Saga... Vai ficar tudo bem. Uma hora sempre passa. Nada dura pra sempre, nem a dor que você está sentindo.

E ela pegou na mão dele, lhe dando um sorriso sincero. Saga olhou para ela com espanto, a respiração ficando pesada, a garganta começando a doer, dando sinais de que ele começaria a chorar. Como alguém poderia criar uma reação dessas nele tão rápido? Parecia a primeira vez que ele foi ao psicólogo, no qual ele somente conseguiu chorar, pois se sentia tão triste e acabado com toda aquela espiral de merda que tinha acontecido na vida dele. Mas ainda assim, ela lhe dava aquele olhar bondoso, como se quisesse arrancar a dor que ele sentia e tomá-la para si.

E então ela girou a mão, deixando o antebraço de Saga exposto. E não haveria problema nenhum nisso, se não fosse o fato de que ele não estava usando camisas de manga longa. Não havia necessidade, já que ele não planejava sair de casa e nem receber visitas.

Mas ele recebeu. E Saori viu, todas as cicatrizes de cortes em Saga. E olhou para ele, em choque.

Saga não queria encará-la. Não queria. Ela descobriu algo que não devia, ela viu um ponto de vulnerabilidade que não era para ela ver. Ela era a inimiga do seu irmão. A megaempresária bem-sucedida que estava tentando ferrar a vida deles. Mas ele teve que olhar, não tinha jeito. E quando encarou o seu rosto, viu os enormes olhos de safira arregalados, as sobrancelhas enrugadas e, abaixo de suas írises azuis... água.

Lágrimas.

- Saga, eu...

Saga ouviu uma voz.

- Saga, você já preparou o café? Você não vai acreditar o que aconteceu comigo, eu...

Kanon acabava de chegar na cozinha, com as sacolas de compras nas mãos, vendo Saori com as mãos em cima da mão de Saga, lhe fazendo afago.

O inferno estava para começar.

POV Kanon

O que diabos Saori Kido, a Milionária Mais Querida da Grécia™ e sua provável arqui-inimiga, estava fazendo na sua casa, sentada na mesa da sua cozinha, fazendo carinho na mão do seu irmão? A cena era simplesmente inexplicável, e Kanon estava parado ali, boquiaberto com a cena.

- Bom dia, senhora – disse Kanon, hesitante.

- Eu vou deixar vocês dois sozinhos – disse Saga, se levantando.

- Não, não precisa – disse Saori – você pode ficar aqui, Saga. É até bom que escute o que vim dizer ao Kanon.

Kanon achou melhor se recuperar do susto, enquanto colocava as compras em cima do balcão. Sua língua ferina tinha que entrar logo em ação, pois sua casa havia se tornado território inimigo. Principalmente com Saori Kido sentada na mesa de sua cozinha, fazendo carícias ao irmão.

- Posso saber a que devo a honra da milionária mais querida da Grécia estar na minha casa, tão cedo? – disse Kanon, enquanto espremia os lábios num sorriso pouco convidativo – Nós, mortais, temos um café da manhã simples, acredito que não vamos conseguir te servir um brunch de hotel cinco estrelas.

Kanon não iria facilitar. Ah, não, ele não iria deixar barato para ela.

- Vim conversar com você, Kanon – disse Saori – na verdade, vim lhe prestar alguns esclarecimentos sobre... tudo o que tá acontecendo.

- Eu acredito que você não me deva explicações – disse Kanon – Grandes corporações não se importam com o que meros mortais dizem sobre eles nos noticiários. E a Milionária Mais Querida da Grécia deveria estar curtindo as belas praias gregas, fazendo stories no Instagram sobre sua vida cara, não tentando convencer meros mortais de que ela é uma mulher íntegra e de bem.

Saori respirou fundo, aparentando não gostar muito da provocação.

- Kanon, eu... fiquei sabendo que você descobriu alguns documentos sobre os vazamentos de petróleo no Mediterrâneo. E de como a Fundação Graad supostamente estaria envolvida nisso – disse Saori, enquanto Kanon se sentava, na sua frente.

- Ela não está "supostamente" envolvida – disse Kanon, com os cotovelos em cima da mesa, entrelaçando os dedos das mãos e apoiando o queixo nas mãos entrelaçadas – ela está envolvida. Até o pescoço, eu diria.

- Não. Ela está "supostamente" envolvida pois nós não somos os responsáveis pelos vazamentos. Nós participamos da investigação.

- Ah, Saori, você se deu o trabalho de vir até a casa deste mortal que vos fala para dizer a mesma coisa que você diz para a grande mídia? Que isso...

- Kanon... – disse Saga, o reprimindo.

- Kanon, eu entendo a sua descrença em relação a mim e a fundação. Eu entendo que os vazamentos não somente interromperam suas pesquisas, como também causou um enorme dano ambiental para a fauna e flora marinha da região. Eu entendo a sua indignação.

- Vim aqui não somente para me explicar para você como também para demonstrar que posso provar que a Fundação Graad não está envolvida nisso. Nem as Corporações Kido. Assim como acredito que você possa me ajudar a descobrir quem está por trás dos vazamentos. Nós acreditamos que é algo muito maior do que aparenta ser.

- E por que eu confiaria em sua palavra? – disse Kanon.

Saori abaixou a cabeça.

- Eu sei que não há motivo para você acreditar em mim. Tudo que eu posso te dizer é que eu posso te provar que não estamos envolvidos em nada disso.

- Por que isso é tão importante, senhora Kido?

- Saori.

- O que?

- Me chama só de Saori. Não precisa de tantas formalidades.

Kanon respirou fundo.

- Por que isso é tão importante, Saori? Não era mais fácil você jogar suas provas na mídia e simplesmente me desmascarar, derrubar todas as minhas argumentações? Vamos lá, não seria tão difícil as...

- Kanon, me escuta – Saori interrompeu e parecia cansada das acusações que ele fazia contra ela – Eu quero que você veja com os seus próprios olhos o que tá acontecendo. Escute, escute. Eu quero que seja você que veja sobre os vazamentos e que seja você que nos ajude pois só você pode nos ajudar. Só você, mais ninguém. Acreditamos que você seja capaz de descobrir quem está por trás de tudo isso.

- E por que seria eu?

- As suas fontes podem nos dar uma pista.

- Por que eu lhe contaria as minhas fontes?

- Quando eu conseguir te provar que a fundação não tem nada a ver com tudo isso, você vai me entender e vai querer me ajudar.

- E como você vai provar isso?

Saori tirou um cartãozinho do bolso, com um endereço de um local.

- Você consegue comparecer na sede da fundação, daqui a duas semanas? Logo de manhã.

- E por que eu iria?

- Porque eu vou conseguir te provar tudo o que eu falei.

- Você não disse nada. Você só disse que irá me provar algo.

- Sim, quando você for para a sede da fundação. Você precisa ver, e não conseguirei te mostrar aqui.

- E o que garante a minha segurança e integridade física?

- Você tem algum assessor?

- Não.

- Advogado?

- Tem sim – disse Saga, interrompendo – Tem o Aiolos. A gente pode te passar o contato.

Era impressão de Kanon ou o rosto de Saori demonstrava surpresa? Ela parecia chocada com uma informação besta. Afinal, qual era o problema com Aiolos ser seu advogado?

Mas logo ela se recuperou.

- Você está bem acompanhado, Kanon. Aiolos é um advogado de ferro, tem firmeza que poucos tem. Você vai precisar dele – disse Saori.

- Você ainda não me confirmou, Saori. O que garante a minha segurança e integridade física ao ir até a sua fundação para descobrir as provas que você tem de que você não está envolvida nisso?

Saori suspirou.

- Por que eu te machucaria?

- Por que você não me machucaria? Acabar comigo seria perfeito para a sua fundação, só me matar e já era, seus problemas acabariam.

- Nós nunca mataríamos você!

- Como eu posso confirmar isso? Pois até onde sei, a Fundação Graad ficaria muito feliz em me ver morto, já que eu causaria menos problemas para as suas supostas investigações.

- E qual utilidade você nos teria se estivesse morto? – disse Saori, levemente irritada – sejamos práticos, Kanon: se você morresse agora, se tornaria um mártir para a mídia e para o povo. E quem seriam os principais suspeitos do seu assassinato? A gente, já que a fundação é o principal alvo de suas críticas.

- Vocês poderiam muito bem me levar para a fundação para me ameaçarem.

- Se a gente quisesse te ameaçar de algo, a gente não precisaria te levar para a fundação.

Kanon suspirou e cruzou os braços.

- Eu insisto – Saori suspirou – vá até a sede da fundação. Precisamos que você vá pois é de lá que partiremos para outro local, no qual você entenderá tudo o que está acontecendo.

- Então será um sequestro.

- Kanon... – disse Saga, exasperado.

Saori parecia pensativa. Respirava fundo enquanto parecia colocar sua cabeça para funcionar diante daquele jogo de palavras com Kanon. Ele não cederia para ela. Não tão fácil.

- Você me obriga a te mostrar algo.

- Agora nós estamos conversando – disse Kanon, sorrindo.

- Quem é esse? – disse Kanon, olhando para a foto no celular de Saori, de um homem alto, com a cabeleira ruiva – me parece mais um funcionário comum de uma petroleira.

- Não é – disse Saori – ele se infiltrou em uma das petroleiras de uma das empresas que a Corporação Kido tem ações e destruiu tudo. No entanto, a petroleira em questão é norte-americana, e alguns dos suspeitos tem nomes árabes. O problema é que esses nomes são falsos.

- A tensão entre os EUA e o Oriente Médio aumenta – disse Saga, completando.

- Sim – disse Saori – O pior de tudo é que uma das petroleiras na região do Golfo Pérsico também foram atacadas. Os árabes afirmam que é culpa dos EUA, alegando que querem destruir seu comércio e atacar a OPEP (1). Os russos e os chineses estão na jogada, por questões políticas.

- E o que vocês têm a ver com isso?

- A fundação acredita que quem atacou a duas petroleiras são o mesmo grupo.

- Por que eles fariam isso?

- Para desestabilizar as relações políticas entre esses governos, que já é bem frágil – dessa vez, quem disse foi Saga – ficaria muito mais fácil tomar o controle de alguma coisa se as potências mundiais estivessem no caos de uma guerra.

- Seu irmão já respondeu por mim – disse Saori – Os nomes falsos servem para despistar os agentes norte-americanos e jogar a culpa nos países árabes. A mesma coisa aconteceu nas petroleiras arábicas, só que utilizaram nomes comuns entre americanos. Isso que você tem é informação secreta da fundação. Posso te mostrar muito mais do que tudo isso que eu disse, se você for na sede. Falar sobre isso aqui é extremamente perigoso, lá é mais seguro. Depois, você poderá divulgar as informações, se quiser.

Kanon desviou o olhar para o canto, contrariado.

- Por favor, Kanon...

- Eu não confio em você. Sinto muito.

Saori suspirou. Kanon queria que ela jogasse duro.

- Muita falta de vontade da sua parte não confiar em mim, sendo que se não fosse pela fundação, você estaria na cadeia agora.

- O quê? – Kanon se surpreendeu.

- Ora – respondeu Saori. Agora era a vez dela de sorrir sarcasticamente – você realmente acha que conseguiu sair daquela delegacia por conta de Aiolos? A fundação já tinha movido suas peças antes mesmo de você chegar no diretório. Conversamos com os policiais para que você ficasse livre.

Kanon para Saori, surpreso. Saori Kido havia movido suas peças para tirar-lhe da cadeia?

- Por que fez isso? – perguntou Kanon.

- Eu já disse – disse Saori – para que você visse as provas de que nós não causamos os vazamentos. E antes que você me acuse de alguma coisa, não foi para te comprar ou algo do tipo. Afinal, você não poderia ver o que eu tenho para te mostrar se estivesse trancafiado numa cela.

- Então você subornou os policiais para me livrar da cadeia? – perguntou Kanon.

- Subornar é uma palavra muito forte – disse Saori, sorrindo – Você sabia que a Alvorada tá oferecendo uma boa quantia pela sua cabeça? E, até onde me lembro, eles não gostam de "esquerdistas". Eu só mostrei para aqueles lunáticos que não se pode mexer com as pessoas erradas. Não sem sofrer consequências graves, como algum escândalo envolvendo policiais e a Alvorada.

Kanon olhou para ela e estreitou os olhos, com os braços cruzados na mesa, espremendo os lábios. O que ele tinha a perder? Não se importava em dar a vida em nome da sua causa. O que ele não queria era que ela machucasse as pessoas que estavam ao seu redor, incluindo Saga. Como ela mesmo disse, caso ele morresse ou sumissem, ele seria um mártir, sendo que ele já tinha uma boa notoriedade pública.

- Não custa tentar – disse Kanon – irei até a tua fundação. Mas Saga e Aiolos irão comigo e serão testemunhas de tudo que você falar ou fizer comigo. Você não tocará em nenhum dos dois. O seu problema é comigo.

- Não sou sua inimiga, Kanon.

- Nem queira ser.

Saori suspirou e se levantou da cadeira.

- Você já vai, Saori? – disse Saga.

- Consegui convencer seu irmão, e é isso que me importa – disse Saori, sorrindo.

- A gente te acompanha até a porta.

Na porta da casa, perto do carro que trouxera Saori para o lar de Kanon e Saga, ela se virou para eles, antes de entrar no carro.

- Eu conheci um homem que era que nem você, Kanon. Impaciente, ácido e que era bem debochado comigo. Mas tinha a mesma força e liderança que você tem.

- E onde ele está agora? – perguntou Kanon.

Saori suspirou. E de repente, Kanon sentiu que era como se ela fosse velha, muito velha. Os olhos de safira estavam exaustos e tristes, sua face se encheu de uma careta de dor, uma dor que parecia antiga, mas que era revivida com frequência.

- Infelizmente, ele não está aqui para contar a história.

(1) OPEP: Organização dos Países Exportadores de Petróleo. Possui 13 países membros: Angola, Argélia, Guiné Equatorial, Líbia, Nigéria, Gabão, Venezuela, Equador, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Irã, Iraque, Kuwait, Catar e Indonésia. Os países membros possuem 75% das reservas mundiais de petróleo, suprem 40% da produção mundial e 60% das exportações mundiais.