Patrick Jane estava cochilando tranquilamente em seu sofá surrado de couro; ele passara grande parte da noite estudando uma nova pista no caso de Red John, a qual não deu em nada como todas as outras. Era frustrante não ter nada depois de 5 longos anos; todas as pessoas que ele matou, as vidas de sua gentil esposa e sua amada filha, ceifadas muito cedo, por causa de uma estupidez da parte dele. Sempre que ele fechava os olhos, ele podia escutar as risadas estridentes de sua filha enquanto brincavam juntos pela casa, para o horror de sua esposa que ficava em dúvida de quem era mais criança, Patrick ou a filha deles. Era muito difícil retornar para aquela casa enorme, vazia e sem vida. Ele só fazia isso para nunca esquecer do seu objetivo de vida: vingar a morte delas. Por alguns anos, era somente isso que interessava. Ele aceitara o trabalho de consultor na CBI para conseguir ficar mais próximo possível dos arquivos de Red John. Assim que ele chegou aos escritórios da CBI, ele passou boa parte do tempo lendo todas aqueles documentos, relatórios, revendo fotos e mais fotos da perícia, sendo que seu estomago embrulhava todas as vezes que tinha que ler algo em relação a sua família.

Nos momentos em que não estava estudando os casos, ele observava com curiosidade os membros da equipe com a qual trabalhava. Do seu sofá, ele via como Cho, o agente Kimball Cho era frio, determinado, plenamente consciente que seu objetivo no trabalho: prender os bandidos como uma espécie de redenção. A qualquer custo. Então, Jane acreditava que era por isso que Cho era o mais maleável com seus esquemas dentro da equipe, bem como raramente deixava-se levar com os truques de Jane. Aliás, várias vezes ele era um desmancha-prazeres por não querer participar das suas traquinagens.

Wayne Risgby era um grande Rusky: forte e inocente ao mesmo tempo. Era engraçado brincar com ele, enganá-lo com truques simples de cartas e moedas. Jane realmente se divertia muito quando podia pegar Risgby em alguma pequena trapaça. Porém, por debaixo de toda simplicidade, havia um homem forte e determinado, que agia dentro das regras, e fazia questão de deixar claro para qualquer um que era um homem honesto. Com certeza, ele teve um pai com problemas com a lei e Risgby lutava com todas suas forças para deixar essa parte da sua vida o mais fundo possível, bem escondido. Se fosse no passado, Jane aproveitar desta fraqueza; basta algumas revelações bem pontuadas, um olhar profundo, uma voz macia, e Jane tiraria todo o dinheiro de Risgby e tudo mais que pudesse. Mas não agora, não, no momento ele era um novo homem, ele só sentia que sua transformação tivesse custado tão caro.

A novata Grace Van Pelt merecia um comentário a parte; uma menininha pura e ingênua, presa no corpo de uma mulher. Com certeza, ela trazia sonhos de uma infância conturbada, cheia de cobranças e limitações. Ver-se liberta disso, ter o poder nas mãos, mesmo que involuntariamente, era uma realização para a jovem Grace Van Pelt. E claro, havia a paixão fulminante que atingira os agentes mais novos: Risgby e Van Pelt apaixonaram-se instantaneamente ao se verem. Mas com as regras estupidas da agência, eles inutilmente tentavam esconder de si próprios e dos outros o que sentiam.

Teresa Lisbon. Essa era uma mulher fantástica. Forte, determinada, cheia de compaixão e empatia. Seu coração era o maior do que ele vira antes. Desde o começo, ela o acolheu e o protegeu, muitas vezes colocando sua própria carreira em risco. Todas as vezes que ele a enganava, mentia para ela, a enrolava com um de seus esquemas, ele sentia -se profundamente envergonhado, porém, tudo que ele fazia era uma forma de mantê-la a uma distância segura, porque ela era a única pessoa que o tiraria do propósito de sua vida: vingança. Lisbon, com seu jeito autoritário e maternal, exercia um poder sobre ele que ela não tinha ideia. Ela era encantadora e indecifrável; cheia de compaixão e severa; desconfiada, contudo, com uma fé inabalável no próximo. Ele ainda não tinha descoberto porquê, mas ela, de certa forma, confiava plenamente nele, apesar de sempre dizer que não.

Ele sorriu de seu lugar, com os olhos fechados, imaginando o olhar de fúria de Lisbon cada vez que ele fazia das suas para esclarecer um crime; os olhos dela brilhavam em um verde perigosamente mortal. Jane ainda sustentava o riso no rosto, quando ele sentiu Lisbon se aproximar, um leve aroma de creme e canela preenchendo o ar:

'' – Do que está rindo? O que você fez?'' – ela perguntou arisca.

'' – Eu não fiz nada.'' – ele respondeu em uma voz fingida de mágoa. '' – O que temos.''

'' – Um caso em Napa. Vamos, Risgby irá dirigindo.''

'' – ok.'' – ele deu um leve impulso para levantar o dorso, agora com os olhos bem abertos, alargando sua boca em um grande bocejo.

A viagem até Napa deu-se em um silêncio confortável dentre os membros da equipe. Logo de cara, Jane criou caso com o Xerife McAllister, provocando-o sem piedade com um jogo de pedra, papel e tesoura, só para provar seu ponto. A investigação transcorreu como sempre: Lisbon e sua equipe perseguiam uma pista e Jane perseguia outra, fato que irritava profundamente a Lisbon. Agora ele cismara que o assassino era um psicopata atraído por ruivas:

'' – Sério, não sei como ele tem essas ideias malucas.'' – ela desabafou para Adam ao telefone, quando todos se recolheram a seus quartos do hotel para descansar do dia cheio.

'' – Se ele te irrita tanto, porque ainda o mantém na equipe Teresa?'' – Adam estava perturbado com o modo com o qual Lisbon levava a situação. Todos na CBI conheciam os métodos nada ortodoxos dele de investigação e quantas vezes Lisbon teve seu emprego e sua posição ameaçados. E ainda assim, ela mantinha o sujeito na equipe.

'' – Ele resolve casos, por mais irritante que seja.'' – ela respondeu mecanicamente, pois era uma resposta pronta a todos que a questionavam sobre as razões para aturar um homem instável como Jane.

'' – Um dia você acabará perdendo o emprego por proteger esse maluco.'' – Adam estava desgostoso. Ele ligara para ela com saudades, afinal, estavam saindo há dois meses, sem compromisso, mas ele estava aos poucos rendendo-se à intensidade charmosa da personalidade de Lisbon.

'' – Eu sei. Mas esse emprego é tudo que ele tem, você sabe o que aconteceu com a família dele.''

''- É, eu sei. Teresa, só não quero que você seja prejudicada.'' – a voz dele tornou-se macia e ansiosa: '' Você é importante para mim, não quero que se machuque.'' – ele finalizou tenso, atropelando as palavras de modo que Lisbon quase não entendeu o que ele quis dizer. Quando ela percebeu qual caminho a conversa estava tomando, ela armou-se imediatamente.

'' – E... tenho que descansar agora Adam. Amanhã teremos que cumprir um mandado de prisão de um suspeito; quero estar alerta para liderar a equipe. Boa noite.'' – ela disse rapidamente, desligando o telefone antes mesmo que Adam tivesse chance de se despedir. Com um profundo suspiro de desanimo, ela largou o telefone no lado vazio de sua cama, desejando tudo no mundo que ela pudesse se entregar a uma paixão como todo mundo. Contudo, ela não conseguia. Simplesmente não era possível. Lisbon passou a noite rolando de um lado para outro, dormindo em um sono sobressaltado com sonhos estranhos dela casando-se com Adam em uma manhã ensolarada de primavera, sendo que Jane era o celebrante, e ele tinha o olhar mais triste que ela já tinha visto ele sustentar. Era como se ele estivesse sofrendo com o fato dela estar se casando com outro homem. Esse maldito sonho permeou o sono de Lisbon até o final da madrugada, quando ela finalmente emplacou em um sono sem sonhos estúpidos envolvendo Adam e Jane.

O dia seguinte foi cansativo (por causa da noite mal dormida), mas rendeu bons frutos, pois haviam conseguido deter Hector Ramirez e ela estava pronta para acusa-lo da morte de Melody, a despeito da insistência de Jane de que ele não era o culpado. No final da manhã, seu dia perfeito começou a desmoronar quando Jane armou mais um de seus planos malucos.

'' – Não se preocupe. Eu não iria seduzir você durante o jantar. Seria muito clichê. Deixo isso para seu namoradinho Adam.''

'' – Eu não pensei nisso.'' – ela respondeu indignada

'' – O que me espanta é você negar isso.'' – ele completou zombeteiro.

'' – Cala a boca.'' – ela finalizou com um toque de irritação na voz. '' E Adam não é meu ''namoradinho''. Ela completou enfezada.

'' – Demorou para responder hein?'' – o rosto dele abriu-se todo sorrisos de alegria e petulância. Revirando muito os olhos, ela o acompanhou até o quarto de motel onde ele havia aprontado uma vigilância eletrônica com Van Pelt e Rigsby. Enquanto a ação se desenrolava diante da tela, Lisbon soltou vários suspiros impacientes, chegando à conclusão que tudo era uma perda enorme de tempo. Jane via psicopatas e assassinos loucos em toda a parte. No momento que o xerife McAllister e Risgby rolaram no chão, em uma disputa arcaica de dominância, Lisbon deu por encerrada a encenação de Jane, levantando-se furiosa para ir até o local e aplacar os ânimos entre seus agentes e o xerife.

Enfurecida, ela bateu a porta do seu carro ao mesmo tempo que atendia à chamada de Cho, relatando aquilo que ela tinha visto poucos momentos atrás na pequena tela do monitor de vigilância instalado no quarto. Quando ela terminou a ligação, outra chamada fez seu telefone tocar e com aborrecimento na voz, atendeu de má vontade:

'' – O que você quer Jane?'', todavia, não foi a voz irritante de seu consultor melodramático que ela ouviu do outro lado, e sim, a discussão acalorada entre a dona do restaurante e o chef, esposa e marido, empurrando um para o outro a culpa por Jane estar ali. Ela entreouviu a voz de Jane baixa por trás dos gritos exasperados dos dois loucos, obviamente culpados pela morte de Melody e pelo sequestro de uma outra garota, que pelo que ela pode perceber, havia sido arrastada até o quarto. Sem tempo para chamar por reforço, Lisbon resolveu agir por impulso, sacando sua Glock, chutando a porta do quarto, anunciando com firmeza sua presença e exigindo que largassem as armas. O chef, pego de surpresa, apontou a faca em direção a ela, e sem dar tempo dele reagir, ela atirou, acertando em cheio no peito; sua esposa, do outro lado do quarto, gritou um não aflito, apontando a arma para Lisbon, sendo almejada por um tiro no peito. Lisbon soltou a respiração que ela não percebeu que estava prendendo, guardando a arma no coldre e abaixando-se para acudir a vítima de sequestro. Jane estava parado em um canto, ainda perplexo com o desenrolar dos acontecimentos.

Após tudo ser sido esclarecido, inclusive a contenda entre Risgby e McAllister, Lisbon e sua equipe acompanharam o enterro da jovem Melody, que havia perdido a vida tão abruptamente devido a uma pervertida mania sexual de um casal louco. Ela não respondeu ao comentário entristecido de Van Pelt : '' ...o casamento não devia ser um exemplo de amor?'', humpf, exemplo de amor...Lisbon bem sabia que casamentos não eram o conto de fadas que Grace Van Pelt pintava na imaginação. Seus pais tinham o casamento dos sonhos até que sua mãe morreu e seu pai rendeu-se a uma vida de depressão e bebedeira. Desde então, Lisbon perdera toda a ilusão de que amor e felicidade eram sinônimos. Talvez por isso ela fosse tão reticente em estar em um relacionamento sério. Isso a fez lembrar de Adam e que ela deveria cuidar disso assim que chegasse em Sacramento. Foi bom quanto durou.

Por sua vez, Jane estava satisfeito por terem resolvido o caso, e ainda mais por que o irmão mais novo da vítima não se corrompeu com os enlaces da vingança. Ele era um garotinho tímido, carinhoso, e ele não deveria ter que manchar sua alma e suas mãos com o sangue daqueles estúpidos e idiotas assassinos. Pelo menos, o garoto teria tempo para se recuperar e quem sabe quando fosse mais velho, essa dor e angustia tenham se dissolvido nas asas do tempo. Para ele, Jane, era um caso perdido. Ele estava entranhado demais nas garras da vingança e do ódio de si mesmo, então, tudo que restava era salvar o máximo de pessoas possível da mancha negra da vingança. Mas Jane não tinha mais nada a perder; mais nada para o que viver.