1ª TEMPORADA - EPISÓDIO 5 - DÚVIDAS

Jane revirou-se na cama a noite inteira; desta vez, não foram os pesadelos que lhe fizeram companhia. Foi um beijo ''selinho'' nos lábios de uma certa morena de olhos verdes que lhe causou a insônia. Depois da morte de sua esposa, ele nunca se vira envolvido com uma mulher de novo. Tudo que ele queria era vingança e depois morrer, afinal, não havia mais nada para ele neste mundo. Porém, o que começou como uma brincadeira, uma provocação, saiu muito errado e ele cedeu. Ele beijou sua chefe. Ele beijou Teresa Lisbon. Onde na Terra ele iria querer se envolver com uma policial? E tão autoritária e Caxias como ela? Contudo, desde que começou a trabalhar com ela, um montante de confiança tomou conta dele. Ela era rígida, mandona, mas era bondosa e gentil. Para ele, Lisbon no máximo era uma colega de trabalho, quiçá uma amiga. Afinal, Jane tinha seu objetivo muito bem delimitado, e fazer amizades não estava no script. Jane não sabe quando aconteceu, porém, ele se descobriu ligado à Lisbon e aos membros de sua equipe.

Nesse momento, deitado em sua cama de um quarto de hotel de longa permanência, olhando o girar preguiçoso do ventilador de teto, ele se pegou intimamente apegado com Lisbon, Cho, Risgby e Van Pelt. Isso o pegou totalmente de surpresa, pois não era sua intenção quando começou a prestar consultoria na CBI; ele queria acesso aos arquivos de Red John e pronto, nada mais. Mas a convivência diária, o bate-papo, as provocações, as implicações de Lisbon tornaram-se fundamentais para seu dia a dia, completavam sua vida de uma maneira nova, inédita para ele. O povo do circo tinha um jeito distorcido de amizade; não havia essa entrega, essa lealdade que ele estava experimentando com Lisbon e sua equipe. No circo, ele podia contar nos dedos quando as pessoas fizeram algo para ele sem pedir algo em troca. Na verdade, ele só podia confiar em duas pessoas, as quais lhe eram caras e queridas. Sem falar de sua esposa, claro, ela gozava de sua inteira confiança. Quando ela morreu, ele achou que nunca mais poderia confiar em alguém. Foi uma surpresa quando ele percebeu que Lisbon e sua equipe gozavam de sua confiança.

E então veio o beijo. Não foi um beijo no sentido estrito da coisa, foi um leve roçar de lábios, mas ele sentiu borboletas em seu estomago e seu coração acelerou além da sua compreensão. Ele ficou tão perturbado por ter-se dado essa liberdade, que não percebeu que Lisbon havia saído correndo até ouvir o tintilar anunciando a chegada do elevador. De inopino, ele agarrou seu paletó e voou em direção ao hall do elevador, apertando insistentemente o botão e na chegada do carro, ele entrou e apertou o botão do térreo febrilmente. Mas ele chegara tarde, ela já havia ido embora e não tiveram oportunidade de conversar sobre o que tinha acontecido entre eles. Desanimado, suspirando alto, ele foi para seu quarto de hotel de longa permanência, onde rolou a noite inteira, debatendo-se sobre o que aconteceria no dia seguinte. E o dia seguinte chegou, com um sol ardente de primavera. Estalando os lábios, ele deu um impulso e levantou-se da cama; dirigindo-se ao banheiro, ele livrou-se das roupas de trabalho do dia anterior, com as quais dormiu ou pelo menos tentou dormir. Nu, ele encarou seu reflexo no espelho do armário de remédios do pequeno banheiro, e um Patrick Jane confuso e assustado olhou para ele de volta. Jane passou a mão várias vezes no rosto, tentando de alguma forma mudar a expressão que via no espelho, todavia, ela não mudou, continuou lá, como se estivesse zombando dele. Desistindo da batalha, ele entrou no box para tomar banho, constatando estarrecido que sua ereção matinal ainda não havia cedido, mesmo depois dele urinar. O leve beijo de Teresa Lisbon havia despertado o desejo que ele pensou ter enterrado com sua esposa. Indignado, ele conversou com seu pênis semi-ereto:

'' - Amigão, melhor você se recolher, pois não terá nada hoje e nem nunca.'' - era um jeito engraçado do modo que ele estava enxergando sua singular situação. Após terminar o banho, se vestir, tomar um chá, ele trancou a porta do quarto, foi até seu carro e dirigiu até a sede da CBI, onde, quer ele quisesse ou não, teria que enfrentar as consequências de sua fraqueza da noite anterior.

Lisbon, por sua vez, também não havia tido uma noite de sono tranquilo. Pode-se dizer que ela dormiu consideravelmente mais do que Jane, contudo, seus pensamentos insones giravam em torno do beijo que trocaram no meio do escritório da CBI. Ela não podia conceber ter se deixado levar pelo charme e encanto de Jane. O caso havia acirrado sua curiosidade de como Jane seduziria uma mulher, mas daí ela e ele trocarem um beijo no trabalho, isso fora longe demais. Lisbon tinha plena consciência da fidelidade de Jane à esposa morta. Era até um sentimento bonito, apesar de sombrio, de se ver. Ela também sabia que muita desta fidelidade estava atrelada ao fato dele sentir-se profundamente culpado pelas mortes da esposa e filha. A aliança em seu dedo esquerdo era um lembrete diário de que ele fora responsável por seus brutais assassinatos. E não haveria nada no mundo que mudasse a ideia dele. Era muito triste ver um homem inteligente e charmoso como Jane , chafurdar em autopiedade e complexo de culpa. Ela queria muito poder ajudar, poder arrancar do coração dele toda mágoa, toda dor, toda a tristeza. Porém, ela sabia que não era possível e ela respeitava isso nele, dando-lhe o espaço necessário para curar-se sozinho, um dia, quem sabe.

Outra coisa que Lisbon descobriu e não poderia mais negar que ela estava se sentindo atraída por ele. Não era uma atração por pena ou compaixão, era uma atração pelo homem Patrick Jane, seus encantos, sua irritante e impressionante maneira de enxergar os detalhes que nem em m milhão de anos ela notaria. Seu talento nato para detetive a surpreendida todos os dias e ela não entendia por que ele várias e várias vezes negava isso e preferia agir como um bastardo egocêntrico e mesquinho. Talvez fosse esse complexo de ''cavaleiro mascarado'' que despertara seu interesse. Os homens com quem ela estava acostumada a lidar eram basicamente policiais de meia tigela, incomodados com o fato dela ser mulher e chefe de divisão tão jovem; para Jane, isso não importava. De uma maneira só dele, ela percebia que ele a respeitava. Apesar disso, ela não deveria deixar-se levar por uma paixonite como uma adolescente inexperiente. Então, ela empurraria sua atração boba e o beijo casto que trocaram para o fundo de sua mente e nunca mais tocaria no assunto com ele novamente. Firme neste propósito, ela caminhou decidida em direção à porta de sua sala de estar, determinada a deixar tudo isso para trás.

Dessa forma, Jane e Lisbon foram enfrentar mais um dia de trabalho na CBI, plenamente conscientes da estranha tensão que poderia haver entre eles; eles estacionaram seus carros cada qual em um momento diferente, assim como tomaram o elevador em um espaço de tempo distinto. Jane foi direto para a sala de descanso, fazer uma nova xícara de chá e ele estava intimamente feliz por não tê-la encontrado, dando-lhe algum tempo para pensar no que dizer. Ele estava saindo da sala, quando deu de cara com Lisbon, que fora em busca de uma caneca de café. Os dois olharam um para o outro, confusos e envergonhados, como se tivessem sido flagrados pelos pais em um amasso no sofá.

'' - Bom dia Lisbon.'' - ele disse com uma falsa convicção.

'' - Bom dia Jane.'' - ela respondeu, abaixando os olhos e indo rapidamente em direção à cafeteira. '' Não fique muito confortável, temos um caso em Redwood, há três horas daqui. Desaparecimento de duas moças, o xerife local pediu nosso auxílio.''

'' - Claro.'' - ele falou solícito, até demais para seu feitio.

Eles disfarçaram bem sua atual condição de estranheza para os outros membros da equipe, mesmo que Lisbon estivesse visivelmente irritada e impaciente, fator esse justificado ao xerife por Jane como: ''Ela não gosta de acordar cedo; vai melhorar.'', ainda que ele soubesse o verdadeiro motivo pelo aborrecimento dela. Dito isso, ele preferiu manter distância dela durante a investigação, permanecendo ao lado de Nicolle no hospital, juntando as peças do quebra-cabeças sem os inconvenientes comentários assertivos de Lisbon. Ele estava pensando no caso, quando um toque de piano chamou-lhe a atenção; a peça de Mozart que estava sendo tocada era a mesma que sua esposa estava ensinando a filha deles. A lembrança surgiu em sua mente tão clara, tão nítida, tão forte, que ele por um momento desconectou-se do mundo e deixou-se levar pela memória, sentindo-se novamente na sala da casa de Malibu, observando embevecido sua esposa ensinar sua filha a tirar algumas notas no piano. Ela era talentosa e a filha deles puxara essa veia artística dela. Ele pulou quando seu telefone tocou, atendendo de súbito, ouvindo a voz aborrecida de Lisbon chamando-o de volta para acompanhar o interrogatório do caminheiro que assediava Kara. Lógico o homem era inocente, lógico que Jane deu sua opinião controversa e claro, Lisbon discordou e ainda por cima ralhou por ele estar ouvindo o MP3 Player : ''É prova, você não pode tocar. Ponha de volta, é uma ordem!'' Era um pouco extenuante ter que aceitar a mania de Lisbon de seguir estritamente todas as regras; por isso, ele fingira colocar o aparelho de volta, tendo saído para executar seu plano, que incluía tirar Nicolle do hospital, para resgatar sua memória e esclarecer os fatos. Obviamente ele conseguira recuperar a memória de Nicole e descobrira o possível suspeito. Deliberadamente, ele ignorou todas as ligações que recebia de Lisbon, sabendo muito bem que ela gritaria com ele por ter agido pelas costas dela, de novo. Mas era preciso. Quando haviam terminado, ele ligou para Lisbon, a qual recebeu sua ligação com o aborrecimento que ele esperava: ''Ah, quanta consideração. Agora eu quero que faça exatamente o que eu mandar: leve Nicole de volta ao hospital e peça desculpas sinceras ao xerife Nelson.'' Eles encerraram a ligação, sabedores que não seria a última vez que Jane faria algo estúpido, que poria em risco a carreira de Lisbon.

No caminho de volta ao hospital, Jane tentou cavar mais um último detalhe que poderia identificar o suspeito: '' - Abacaxi; ele cheirava a abacaxi.'' - Nicole respondeu meio espantada por poder se lembrar de um detalhe tão bobo. Jane ficou animado e ligou para Lisbon, temporariamente esquecido da bronca que levara há poucos minutos: '' - Abacaxi'' Ele tinha cheiro de abacaxi. - ele disse como se isso fosse uma verdade absoluta, capaz de esclarecer todo o caso. '' - Abacaxi?'' - Lisbon devolveu zangada, '' - Está de gozação...'' ela ia começar uma nova sessão de gritos quando se lembrou que o carro do guarda Kayle tinha um estranho enfeite pendurado no retrovisor interno, que liberava um leve cheiro de abacaxi '' - Certo, ótimo, diga ao Risgby que Teresa precisa de ajuda.'' Intimamente, ela rezava para que o guarda Kayle não tivesse ouvido seu primeiro nome. '' - Eu? Eu estou na pousada Pine, perto da rota 6.'' Ela não desligou o telefone, torcendo para que Jane tivesse entendido a deixa; virando-se lentamente para encarar o guarda Kayle, ela disse com a maior calma que pode reunir, a mão firmemente posta na arma do seu coldre: '' Kayle, vamos ficar calmos e tudo irá se resolver.'' Ele olhou para ela confuso: '' - Como assim?'' Lisbon manteve o tom de voz baixo e controlado: '' - Terei que prender você, então vamos fazer isso de modo que ninguém se machuque.'' - Nesse momento, ele deu um sorrisinho torto de arrogância: '' - Você acha mesmo que é melhor do que eu.'' E por um ínfimo segundo de vantagem, ela sacou mais rápido do que ele, disparando sua Glock ao mesmo tempo que procurou abrigo atrás de uma velha mesa.

Do outro lado da linha, Jane estava com os olhos arregalados e um terrível frio de preocupação passou por sua espinha assim que ele ouviu os tiros: '' Lisbon?'' - ele chamou aflito. '' Xiii...'' ela respondeu murmurando, indicando para ele falar baixo. '' Lisbon, você está bem?'' - ele perguntou ansioso, em um tom sussurrante. '' - Estou. Você ligou para o Risgby?'' - ela devolveu com urgência, vendo-se encurralada e sem noção de como poderia segurar o guarda até a chegada de Risgby. '' - Liguei, ele está a caminho.'' - Jane emendou: '' - Lisbon, eu tenho uma ideia. Aumente o volume do telefone; jogue o aparelho na direção dele e eu vou gritar para você ter cuidado. Aproveite que ele vai procurar outra pessoa dentro do local e fuja para a porta. Entendeu?'' - ''- Entendi.'' - ela disse em um tom de dúvida e desespero. '' - Certo, no três, um, dois, três.''

Ela jogou o telefone ao mesmo tempo que Jane gritou do outro lado da linha: ''Cuidado Lisbon!'' Nos poucos segundos que o guarda se distraiu, Lisbon aproveitou a deixa e correu para a porta, seguida de perto pelo guarda, mas ele foi encurralado por Risbgy que havia chegado ao local. Com o guarda preso e o caso resolvido, eles passaram mais uma noite em um hotel da cidade, muito aliviados por tudo ter terminado bem.

Mais uma noite, Jane e Lisbon reviraram-se em suas camas, repassando o suave beijo que haviam trocado e como ela quase havia sido alvejada durante um tiroteio. Jane podia sentir seu estomago dar cambalhotas, relembrando o horror pelo qual passou quando ouviu os tiros e não sabia se Lisbon estava bem. Ora, que diabos, ele se preocupava com ela, se importava com ela. Para o inferno todas as regras retrógradas de que não era permitido relacionamento entre agentes. Ele não era um agente, era um simples consultor. Então, com uma resolução que surgira do ímpeto de ter ouvido Lisbon envolver-se em um tiroteio, ele se levantou, saiu do seu quarto, e foi em direção ao quarto dela, onde bateu na porta devagar, com medo de que o som chamasse a atenção dos outros membros da equipe. Ela abriu a porta, meio descabelada, com os olhos inchados de sono, confusa por estar sendo chamada àquela hora:

'' - Jane, o que foi? O que aconteceu?'' - no instante seguinte, ele deu dois passos decidido para dentro do quarto dela, a envolveu em seus braços e a beijou, desta vez, com vontade, passando sua língua pelos lábios dela. De início, Lisbon foi pega de surpresa, com os olhos arregalados enquanto sentia a língua de Jane explorando seus lábios, pedindo sua entrada; deixando seus recém-descobertos sentimentos virem à tona, ela fechou os olhos e abriu a boca para receber a língua de Jane, lançando sua própria para a boca dele. E eles ficaram beijando-se na porta do quarto dela por vários minutos, até que a falta de ar exigiu que eles se separassem. Respirando pesado, olhando um para o outro com um certo espanto e desejo, Jane foi o primeiro a falar:

'' Que bom que esteja bem. Fiquei preocupado. Boa noite.'' - e do mesmo modo que ele chegou, saiu repentinamente, deixando Lisbon plantada no meio do quarto, tentando entender o que eles tinham acabado de fazer. Os dedos da mão esquerda dela voaram para seus lábios, onde ela ainda podia sentir o gosto de Jane: uma mistura de chá com bala de hortelã, enquanto sua mão direita fechava devagar a porta. Ainda impactada, ela voltou para cama e meio sem saber o porquê, Lisbon pegou no sono, dormindo tranquilamente até de manhã, o mesmo acontecendo com Jane.

No dia seguinte, ambos optaram novamente por ignorar o que havia acontecido, como se eles tivessem tido um sonho muito bom, o qual não queriam compartilhar com ninguém com medo que a bolha de expectativa gerada em torno dele pudesse estourar. Então, eles agiram como se nada tivesse acontecido, mantendo suas brincadeiras e provocações inocentes até Sacramento.