EPISÓDIO 7 – DURAS REVELAÇÕES
Não posso crer que as pessoas são tão ingênuas em acreditar em falsos médiuns. Eu fui um deles por muito tempo, conheço todos os truques, todas as artimanhas, todos os toques sutis em determinados lugares dos alvos para passar segurança e confiança. Fiquei rico com isso; perdi tudo por causa disso. Agora, com Lisbon e sua equipe, uso minhas ''habilidades'' (Lisbon insiste neste termo simplório, eu tenho por mim que é uma maldição) para identificar e ajudar a prender os criminosos. Quando se conhece o ofício, fica fácil identificar os sinais de mentira, manipulação, intriga. Essa gente pensa que me engana, mas estão redondamente errados. Humpf, é tão frio, desprezível, baixo; ganhar dinheiro abusando da crença do outro é a pior fraude. Fiz isso por muitos anos, no parque de diversões com meu pai, na minha carreira de psíquico, e na época não via problema nisso; era uma segunda natureza para mim. O que me interessava era ganhar mais e mais dinheiro, não importando as consequências, não importando se magoava ou não as pessoas. Não significava nada para mim, apenas o dinheiro. Por isso, falei com zombaria sobre um assassínio em série na TV, visando aumentar meu leque de clientes, buscando glória e fama, contudo, esse homem cruel e frio assassinou minha esposa e filha para me dar a mais dura e dolorosa lição. Minha vida de celebridade, acabou abruptamente quando encontrei os corpos das duas criaturas mais puras e sinceras da minha vida. Eu aprendi com meus erros, e tento mostrar de qualquer forma que não há médiuns de verdade; é tudo fraude e enganação.
E daí aparece essa Kristina Frye. Uma mulherzinha farsante, que brinca com as emoções de seus clientes, iludindo-os de que pode se comunicar com seus entes mortos. A coitada da Rosemary achava mesmo que essa ilusionista contatava seu marido morto, que era capaz de mandar recados e dar avisos. Durante o desenrolar do caso, eu percebi o quanto era difícil fazer as pessoas enxergarem o óbvio, o ardil; por isso, resolvi me aproveitar disso e armar um esquema inteligente que obrigasse a filha da vítima a confessar o assassinato. A raiva pode nos levar a cometer os atos mais bárbaros. No momento da confissão, eu via o arrependimento no olhos dela, como ela estava verdadeiramente sofrendo por ser responsável pela morte da mãe. A única coisa boa é que o irmão irá procurar ajuda com o vício e de quebra, desmascaramos o namorado aproveitador e mulherengo da vítima. Foi uma vitória. Agora, poderei relaxar no meu adorado sofá.
'' – Dorme aqui?'' – porque ela tinha que me incomodar?
'' – Às vezes, gosto do barulho; me lembra o mar.'' – tomara que minha resposta condescendente a faça ir embora; ela ainda está parada ao meu lado, o que diabos quer essa mulher?
'' – Deseja alguma coisa?''
'' – Vim buscar meus CD's''
'' – Ah, claro, estão ali, pode pegar.'' – eu apontei o amontado de mídias em cima de uma mesa que me foi designada e que nunca eu usei. Ela recolhe os discos e me olha de uma maneira no mínimo estranha.
'' – Hã...podemos falar em particular?''
'' – Isso é particular.'' – o que ela quer, infernos?
'' – Um pouco mais.'' – bom, já que é assim, vamos ver do que se trata. Provavelmente uma das suas bobagens espirituais. Guio Kristina Frye para uma das salas de interrogatório. Para manter um certo controle da conversa, enquanto ela se senta na cadeira, eu me empoleiro em cima da mesa, para encará-la de cima.
'' – Prometa que não vai me interromper.''
Abro os braços em descrença. Como ela insistiu, prometi.
'' – Falei com sua mulher...'' – ela começou com a tolice, como se ela pudesse me enganar, me impressionar. Com quem ela pensa que está falando? '' – Ah não, vamos parar...'' mas ela me interrompe com tal firmeza que sou tomado de surpresa, fico curioso.
'' – Falei com sua mulher. Desde a noite das mortes, há uma dúvida que te atormenta, não é?!''
Meu sorriso falso de segurança vacila, mesmo eu não querendo. Ela conseguiu me desestabilizar, mas não caio no jogo dela. Fico calado, desafiando-a com o olhar, porém, ela insiste:
'' – Não é?!'' – ela mantem o contato visual sem vacilar. Concordo para ela acabar logo com a encenação.
'' – Sua mulher pediu para dizer que sua filha não acordou. Ela não soube o que aconteceu; não sentiu medo nem por um segundo.'' Essas palavras me tocaram fundo; é claro que essa dúvida permeou minhas divagações, meus sonhos por muito tempo. Não tinha como ela saber disso, é impossível; ninguém sabia, nunca disse nenhuma pessoa do meu convívio, nem à Lisbon, a pessoa mais importante para mim atualmente. Então, como essa Kristina Friye poderia saber a esse respeito, sobre esse tormento que me corrói há tanto tempo. Tenho que admitir que é um bom truque, ela é realmente boa. Luto com todas minhas forças contra as lágrimas que enchem meus olhos e digo a ela em uma falsa segurança na voz:
'' – É só isso?'' – respondi grosseiramente de propósito, virando o rosto para que ela não pense que conseguiu me abalar.
'' – Sim.''
'' – Ok.'' – minhas lágrimas picam meus olhos. Por que essa mulher não vai embora com suas fraudes e mentiras e me deixa em paz? Ela finalmente se levanta para ir, e na porta, dá um adeus que eu torço para que seja para sempre. Depois dela sair, do seu leve perfume deixar de pairar no ar, deixo todo peso que sufoca meu peito sair e as lágrimas vencem minha vontade e choro. Choro copiosamente porque Kristina estava certa; e por mais que eu não queira admitir, o que ela disse trouxe um estranho alívio para minha consciência, por um momento, eu me permiti chorar de tristeza, de saudade e não por culpa, por autopiedade. Mesmo de costas, eu percebo que Van Pelt me viu chorando, contudo, ela teve a decência de fechar a porta, me deixando sozinho. E choro, choro muito, indignado que minhas garotas estejam mortas. Minhas garotas puras e gentis estão mortas e não posso fazer nada para mudar isso. Não tenho o poder de alterar minhas ações no passado, as quais levaram à morte terrível delas. As lágrimas continuam a escorrer pelo meu rosto, pingando com vontade em minha camisa, molhando meus braços que continuam firmemente cruzados; recuso-me diariamente que minhas emoções mais cruas tomem conta. Então, quando surge uma oportunidade, parece que as lágrimas e a dor encontram seu caminho de libertação e não consigo controlar, elas simplesmente tomam conta, mostram para mim de como elas são poderosas, fortes e podem conseguir me subjugar quando quiserem, a despeito da minha fraca fortaleza de arrogância e soberba que exibo para o mundo. Não sei há quanto tempo estou aqui, nesta sala escura e fria, mergulhado na minha triste solidão de sofrimento e amargura. Então, um leve perfume de canela enche o ar e pressinto a presença dela, da pessoa que jamais me viu como vítima, jamais me tratou com pena. Ela se aproxima muito devagar, talvez receosa da minha reação. Pela primeira vez em muito tempo, não impeço que alguém se aproxime de mim, me veja neste estado patético de fragilidade. Sinto suas pequenas mãos envolvendo-me em um abraço pelas costas; ela esfrega as mãos delicadamente sobre meus braços cruzados, como se estivesse pedindo permissão para estar ali comigo. Não sei como, mas choro ainda mais, deixando escapar alguns soluços doídos. Então, ela fica de frente para mim e muito vagarosamente, descruza meus braços, colocando-os ao redor da cintura dela. Ela circula suas mãos em volta do meu pescoço, em um abraço apertado e fraterno. E que estranho. Sinto-me bem; sinto-me seguro; sinto-me melhor. Ignoro as pitadas de remorso que pinicam meu peito e entrego-me ao abraço, apertando minhas mãos nas costas dela. Lisbon não diz nada e depois de vários minutos de um aperto silencioso, ela move-se, coloca suas mãos em meu rosto, limpa minhas lágrimas com seus dedos polegares. Ainda sem dizer nada, ela se aproxima mais e me dá um leve beijo nos lábios.
'' – Estou aqui. Se quiser desabafar.'' – ela diz baixinho, perfurando-me com seus lindos e vivazes olhos verdes, de certo modo, encurralando-me dentro da minha tristeza e necessidade de sentir-me novamente um ser humano normal. Eu sorrio levemente para ela, agradecendo com o olhar tudo que ela faz por mim. E ela entende. Ela consegue decifrar meu olhar e compreende o que quero dizer sem palavras. A última pessoa capaz disso foi minha esposa. Por um milésimo de segundo, a tentação de abraça-la mais, beijá-la como fiz há três meses, leva-la ao meu quarto de hotel e fazer amor com ela me domina, imediatamente suplantada pelo terrível medo e insegurança de deixar alguém se aproximar tanto assim. Por isso, suavemente, desvencilho-me dos braços dela, dou um sorriso em tom de agradecimento e saio da sala. Tenho infortúnios o suficiente para lidar. Não preciso arrastar Teresa comigo.
