1ª TEMPORADA – EPISÓDIO 8 – ANTIGAS FERIDAS, NOVOS COMEÇOS
Davis amanheceu ensolarada, com um leve vento frio, anunciando a chegada do inverno. Patrick Jane caminhava confiante pelas calçadas do centro da cidade, de vez em quando conferindo o endereço para onde ia, marcado em um pedaço de papel. Ao chegar à frente de um prédio de três andares de escritórios, com fachada arquitetônica dos anos 70, pintura na cor azul céu, desgastada aqui e ali, com grandes janelas e uma porta dupla na entrada, na cor vermelho tijolo. Em alguns vidros, o visitante poderia notar que havia vários adesivos colados no lado de dentro. Respirando fundo, ele entrou decidido no prédio do Serviço Social de Davis.
'' – Bom dia!'' – ele cumprimentou a recepcionista com um largo sorriso no rosto, tão simpático que a pobre mulher que beirava aos 40 anos ficou encabulada, com uma vermelhidão tingindo as bochechas.
'' – Bom dia, no que ajudar o senhor?'' – ela perguntou solícita, com um leve sorriso brincando em seus lábios.
'' – Meu nome é Patrick Jane, sou consultor da CBI. Em vim por causa da Kay-le. '' – ele manteve seu sorriso charmoso. '' Descobrimos a família dela e eu gostaria de leva-la até os avós.''
'' – Sr. Jane, isso é um gesto lindo, mas temos alguns protocolos e ...''
'' – Ah, ...'' – ele apoiou-se no balcão para ver o nome da atendente no crachá que estava pendurado em seu pescoço '' – Anne, eu sei que tem um monte de papelada chata, mas a pobre menina sofreu o bastante, não acha? Agora, o que ela precisa é ser acolhida pelos avós e ter a melhor criação possível. Você não concorda?'' – ele alargou ainda mais seu sorriso e as bochechas de Anne ficaram ainda mais vermelhas, ainda que fosse impossível imaginar.
'' – Vou procurar a assistente social responsável pelo caso e dizer que você está aqui.''
'' – Claro, eu aguardo. Enquanto isso, posso tomar uma xícara de chá?''
'' – Com certeza, ali naquela mesa tem água quente, saquinhos de chá, xícaras, tudo que precisa.'' – ela apontou para uma mesa no canto da grande sala de recepção do Serviço Social de Davis. Ele caminhou para lá tranquilo e seguro de si. Quando ele estava terminando a xícara, uma mulher alta, pele bronzeada (artificialmente, pelo que ele notou), loira e astutos olhos azuis. Jane imediatamente soube que para ela, ele teria que usar todo seu arsenal para conseguir tirar Kay-le dali.
'' – Bom dia Sr. Jane.'' – a mulher cumprimentou com um aperto de mão forte. '' – Sou Serena Smith, assistente social responsável pela menor Kay-le.'' – seu tom tinha um toque de severidade. '' – Anne me disse que o senhor gostaria de levar a menor aos seus familiares mais próximos, avós é isso?!'' – ela finalizou com um olhar penetrante e desconfiado.
'' – Bom dia Serena.'' – Jane começou, mantendo seu sorriso neutro, sabendo de antemão que seu toque charmoso não daria certo com rígida Serena Smith. '' – Meu nome é Patrick Jane, sou consultor da CBI, como Anne tenho certeza que lhe adiantou. Bom, finalizamos a investigação do homicídio que vitimou Patrice e descobrimos que ela é filha do detetive Berkley. Então, há laços familiares fortes envolvidos e acredito que nosso papel, como agentes da lei e defensores de um dos principais valores da sociedade – a família, precisamos sempre levar em conta isso ao decidir a respeito do destino de uma garotinha tão adorável como Kay-le, que, em tão tenra idade, sofreu a pior perda do mundo, a morte da mãe.'' – Jane durante todo seu discurso manteve o tom de voz baixo, sereno, calculado cuidadosamente para envolver Serena.
'' – Sim, claro, certamente...'' Jane rapidamente pegou a mão de Serena em um gesto acolhedor, desconcertando-a. '' – Bom, enfim...acho que o senhor tem razão, o mais importante é o bem-estar de Kay-le.''
'' – Então, concordamos que é melhor para ela que esteja com os avós paternos, em cujo lar receberá muito amor e carinho, tenho certeza.'' Jane deu o golpe final, abrindo um sorriso gentil, acariciando quase imperceptivelmente as costas da mão dela.
'' – Sim, está certo.'' – Serena agora estava claramente sem rumo, sua pose de autoridade foi abalada e ela olhou para todos os lados, desesperadamente procurando um ponto onde pudesse fixar sua atenção. '' – Anne, pode buscar a Kay-le?'' – ela disse quando localizou a funcionária que estava um pouco atrás dela.
'' – Certamente, senhora.'' – Anne saiu correndo para o interior do prédio, voltando alguns minutos depois com uma risonha bebê nos braços.
Radiante, Jane estendeu os braços para Kay-le, que logo se jogou no colo dele, pulando alegremente enquanto ele fazia arrulhos para ela. Despedindo-se de Serena e Anne, Jane saiu com Kay-le rumo à casa dos avós paternos, carregando a bebê em um braço e uma pequena bolsa de fraldas no outro. Ele pegou um táxi até a casa dos Berkley's, caminhando suavemente pela calçada, curtindo o finalzinho do sol da manhã. Ele teve que bater várias vezes na porta antes que pudesse ouvir Katherine do interior da casa:
'' – Desculpe, estou ocupada.''
'' – Tenho algo para entregar para você.''
'' – Eu não quero saber.''
'' – Sim, você quer.''
Finalmente, ele ouviu a fechadura destrancando e a porta abrindo:
'' – Essa é Kay-le. Sua neta, por assim dizer.'' – sem rodeios, ele colocou a bebê nos braços de uma confusa Katherine, cujo marido transtornado estava ao seu lado sem fala.
'' – O que?'' – Katherine disse atrapalhada.
'' – A soneca dela é às duas; e ela gosta de cereal, mas eu não tenho nada com isso.'' – ele completou em um tom sério: '' – Ela só tem vocês.''
Katherine e o marido olharam um para o outro perplexos.
'' – Ah, vão precisar disso.'' – Jane disse alegremente, entregando ao casal a pequena bolsa de fraldas, virando para sair sem dar chance que eles contestassem sua decisão. Sorrindo muito, ele caminhou satisfeito pela calçada, decidindo ir a pé até o hotel onde seu carro estava estacionado. Ele marchou por cerca de 50 minutos, desfazendo-se do paletó durante o percurso, devido ao calor da tarde. Ele chegou suado, repensando tarde demais sobre sua escolha de voltar a pé. Subindo pesadamente as escadas, sentindo as pernas pesadas de cansaço e os músculos doloridos.
Ao entrar, ele rapidamente se livrou das roupas suadas e molhadas, indo em direção ao chuveiro tomar um bom banho. Apesar do cansaço e das dores musculares, ele estava feliz por ter conseguido ajudar uma garotinha a ter um lar; mesmo com o ressentimento latente de Katherine, ele tinha certeza que ela iria reconsiderar e cuidaria da menina com carinho e amor. Jane estava ensaboando o corpo quando ouviu alguém bater na porta do quarto:
'' – Jane?'' – ele reconheceu a voz irritada de Lisbon. '' – Você está aí?''
'' – Sim, estou no banho. A porta está aberta, pode entrar.'' – ele gritou do chuveiro, revirando um pouco os olhos para a marcação serrada de Lisbon em cima dele.
Ele ouviu a maçaneta da porta abrir e os passos cautelosos de Lisbon pelo quarto. Para provoca-la, ele disse maldosamente:
'' – Cabe mais um aqui, sabe?!''
Surpreendentemente, ela entrou no banheiro, com seus olhos cuspindo fogo, seus braços cruzados com força no peito, em uma pose pra lá de defensiva.
'' – O que? Mulher, você está invadindo minha privacidade.'' Ele respondeu meio divertido, meio indignado.
'' – Onde é que você estava? Liguei para você o dia todo. Não sabe atender o celular?'' – Lisbon disparou irritada, ignorando totalmente o fato de Jane estar nu no chuveiro.
'' – Fui dar uma volta.'' – ele disse displicente, terminando seu banho fazendo o mesmo jogo de Lisbon.
'' – Aonde você foi e o que estava fazendo?'' – Lisbon bateu o pé no chão, mantendo um bico adorável, típico de quando ela estava muito brava.
Ele suspirou fundo, fechou o chuveiro, pegou a toalha do apoio da parede, enxugando-se dentro do box. Jane, envolveu a toalha em torno de sua cintura, dando o mínimo de dignidade a sua figura. Ele passou por Lisbon, em direção ao quarto, procurando dentro da bolsa de viagem suas roupas.
'' – Preciso me trocar, você vai ficar aí olhando?'' – ele perguntou impaciente para ela.
Lisbon virou os olhos em clara indignação, dirigindo-se para a porta para sair do quarto. Ela fechou a porta com ímpeto, ainda muito brava por ele não ter atendido a suas ligações. Quando ele terminou de se arrumar, ele saiu para encontra-la:
'' – Ainda brava comigo?''
'' – É claro! Todas as vezes que você some, eu acabo limpando sua bagunça.''
'' – Pois bem, pode ficar tranquila. Não fiz nada de errado.'' – ele disse em tom de conciliação.
'' – Então por que não me diz onde estava e o que estava fazendo?'' – Lisbon estava muito irritada e desconfiada.
Jane estalou os lábios, notadamente incomodado por ter que revelar o que fizera mais cedo. Para ele, algumas de suas ações não precisavam passar pelo aval de Lisbon, porém, curiosamente, ela insistia em manter as rédeas curtas e queria saber cada minutinho da rotina dele.
'' – Por que tenho que me justificar sempre para você?''
'' – Sou sua agente supervisora. Claro que tenho que saber o que você está fazendo, porque sempre que você faz alguma coisa, meu pescoço está em risco.'' Ela cuspiu as palavras com raiva.
Jane virou-se para ficar em frente a ela; suavemente, passou suas mãos pelos braços dela firmemente cruzados no peito. Ele manteve esfregando as mãos carinhosamente até que ela cedeu e relaxou os braços. Jane a envolveu em um abraço firme, beijando o lado da cabeça de Lisbon, sentindo nas narinas o leve cheiro de perfume do xampu dos cabelos dela. As velhas conhecidas borboletas do estômago dele apareceram e ele viu-se abraçando-a ainda mais forte. O perfume dela o envolveu, preenchendo seus sentidos, fazendo seu coração disparar, martelando no peito com tanta força que ele ficou com medo de que ela percebesse.
'' – Fui ao prédio do Serviço Social.'' – ele começou lentamente, falando baixo por entre os cabelos dela. '' – O detetive Berkley é avô de Kay-le e pensei que tanto ela quanto os Berkley's merecem uma chance de fazer algo novo.'' Ele desvencilhou-se, para encará-la de frente, enfrentando o olhar desconfiado dela. '' – Eu juro que não fiz nada que prejudique você ou os outros membros da equipe. Por favor, confie em mim.''
'' – Tem certeza?'' – ela ainda não queria ceder, apesar de Jane sentir que ela vacilara em sua decisão.
'' – Sim, tenho.'' – ele disse, ainda mantendo o olhar firme e profundamente nos olhos dela. Sem pensar, ele abaixou-se e selou seus lábios com um beijo carinhoso e amoroso. Devagar, ele pediu entrada de sua língua na boca dela; Lisbon resistiu um pouco, mas acabou cedendo, levando as mãos para acariciar o pescoço dele. Eles pegavam um sopro de ar enquanto viravam a cabeça de um lado para outro. Depois de um tempo prazeroso, eles separaram-se, Jane beijou levemente a testa dela. '' – Teresa, eu quero que saiba que pode confiar em mim.''
'' – Eu tento, mas você faz seus esquemas e planos malucos, não me fala nada, eu fico perdida e ansiosa.''
'' – Desculpe.'' – ele disse em um tom sincero, com os olhos fixos nos dela. '' – Agora que eu disse o que queria saber, eu preciso mesmo descansar um pouco antes de voltar para Sacramento.
'' – Claro, claro. Com certeza.'' – ela falou atrapalhada, soltando-se dos braços de Jane. '' – Desculpe a invasão, vou ... vou deixar você descansar.'' Ela saiu praticamente correndo, provocando um sorriso maroto em Jane.
