1° TEMPORADA – EPISÓDIO 9- "A VINGANÇA É PARA TOLOS"

" Nunca discutimos isso antes porque achei que era óbvio; quando eu pegar Red John vou retalha-lo todo, como ele fez com minha esposa e filha. Se isso é um problema, devíamos conversar."

" – Então vamos conversar." Lisbon respondeu friamente, sustentando o olhar dele. " – Quando pegarmos Red John, ele ficará sob nossa custódia e será julgado por um tribunal de justiça."

" – Não enquanto estiver respirando." Ele interrompeu enfático

" – Se você tentar ser violento com ele, vou impedir você; se você for violento com ele, eu irei prender você."

" – Eu compreendo." – apesar de seus olhos brilhavam de fúria, sua voz gelada e séria como ela nunca tinha visto antes.

" – Eu espero que sim." Ela tentou retribuir no mesmo tom dele.

" – Que bom que conversamos. Não sabia que você era tão burguesa e convencional a esse respeito." O olha de Jane era duro, suas palavras ásperas, com um toque de decepçã resposta, Lisbon apenas murmurou, voltando aos seus afazeres, dando por encerrada a conversa.

Jane voltou para seu sofá contemplativo. Havia alguns anos que estavam trabalhando juntos e ele podia jurar que Lisbon tinha pela consciência do seu objetivo de vida: fazer ao seu alcance para vingar sua família ou morrer tentando. De qualquer forma, nessa equação não havia outra solução senão a morte de Red John e ele estava disposto a sacrificar sua vida se necessário. Afinal, ele não tinha outro objetivo, outra perspectiva; tudo acabara naquela terrível noite quando encontrou os corpos massacrados de sua esposa e filha. Essas imagens tenebrosas permeavam seus sonhos, aterrorizantes pesadelos que o impediam de ter uma noite inteira de sono. Ele estava envolvido em suas divagações, matutando sobre as pistas de Red John, quando ele se lembrou do caso atual em que estavam trabalhando. Estalando os lábios de excitação, esfregando as mãos contente por ter bolado um plano esplêndido, ele saiu correndo do escritório, sendo seguido por Cho e Risgby, por ordem de Lisbon, que vira de relance seu consultor problemático caminhar apressadamente em direção aos elevadores, com ar de quem estava planejando algum esquema maluco. Antes que ele pudesse se encrencar, ou pior, ou que ela se encrencasse.

Lógico, ela estava certa e Jane se envolveu em confusão e de jeito tortuoso, ele resolveu o caso e de quebra, conseguiu esclarecer o incêndio que vitimou um homem inocente, provocado por seus amigos gananciosos. Para atender ao pedido torpe de Thomas, o responsável pelas morte, Lisbon e Jane voltaram à Marquesa, para conversar com Maddie Garcia.

'' – Ele lamenta?'' – ela gritou a plenos pulmões do topo da escada '' – Ele lamenta? Pode dizer para ele que se sair da prisão vou colocar fogo nele para ver se ele gosta.''

'' – Maddie, o seu pai foi...'' – sua mãe tentou conciliar

'' – Não fale do meu pai, você não tem esse direito, não tem!'' – o tom de Maddie era ao mesmo tempo triste e revoltado.

'' – Seu pai matou um homem e Tommy o matou por causa disso e você sabe. A vingança é um veneno, a vingança é para tolos e malucos.'' – Jane interveio com a voz séria e formal.

'' – Eu não ligo!'' – Maddie ainda estava brava, mas seu tom era mais baixo, quase que resignado.

'' – Você pode me fazer um favor?'' – ele perguntou suavemente e voltou-se para a mãe – '' as duas podem me fazer um favor. Eu quero que finjam que se abracem, isso assim...desde modo eu e Lisbon acreditaremos que fizemos a diferença. Obrigado.'' – enquanto as duas estavam abraçadas, ele conduziu Lisbon para fora, tocando levemente suas costas com a mão esquerda.

'' – Então...esse caso o fez mudar de ideia.'' – Lisbon disse vitoriosa, enquanto estavam observando a chuva que caía em grossas gotas que marcavam o chão.

'' – Como assim?''

'' – A vingança é para tolos e malucos?!'' – ela levantou uma sobrancelha.

'' – Ah é... muito bom não é?! Pura bobagem, mas enfim... Vamos nessa?'' Seu tom era leve e descuidado, tendo Jane se lançado para a chuva primeiro, seguido por uma desconcertada Lisbon; porém, assim que ela sentiu as gostas da chuva molhando seu rosto, ela sentiu-se estranhamente livre, despreocupada, uma sensação quase infantil, ingênua, como se todas as preocupações do mundo estivessem sido lavadas pela água da chuva. Por um instante, ela gostaria de simplesmente permanecer ali, em pé, tomando banho de chuva, livrando-se de todos os aborrecimentos. Mas ao chegar na porta, muito rápido para o gosto dela, a realidade a atingiu em cheio e ela teve que voltar ao mundo real: duro e frio; Jane, mesmo estando gostando muito da sensação da chuva molhando seu rosto, lembrando-o dos dias inocentes de sua infância, quando tudo era mais simples e sincero. Não havia esquemas, nem manipulações, nem enganações. Ao entrar o carro depois de bater levemente no vidro para lembrar a Lisbon que estava do lado de fora, ele deixou que suas poucas lembranças felizes de sua infância tomassem conta dele. Tudo que ele sentia era um calor intenso tomando conta de seu peito. Era prazeroso demais para deixar de aproveitar; era acolhedor, envolvente, cativante. Por poucos momentos, ele se permitiu sentir algo que não fosse ódio de si mesmo, culpa, uma vontade incontrolável de preservar suas ideias e sentimentos e uma emoção dúbia em relação a Lisbon. A mulher ao seu lado, dirigindo prudentemente na estrada durante a chuva, o intrigava e perturbava de uma maneira que há muito ele não percebia. Apesar dela ser uma pessoa fácil de ler, incapaz de contar uma boa mentira sem ser pega, havia algum tipo de aura misteriosa ao redor dela e ele pressentia que, assim como ele, ela mantinha algumas coisas muito bem guardadas e a salvo de outras pessoas. E estranhamente, ele não tinha vontade e interesse de descobrir; geralmente, ele cavaria fundo até encontrar uma brecha em sua armadura e desvendar os mais íntimos segredos de Lisbon e usá-los contra ela. Seria fácil para ele; corriqueiro, todavia, depois da morte de sua família, Jane perdera todo o desejo de fuçar a vida das pessoas, de perceber o mais amago de seus corações. Agora, ele só queria ajudar a resolver os casos, aprimorando suas técnicas de observação e interrogatório ao mesmo tempo que tinha pleno acesso aos arquivos de Red John. Por mais que Lisbon demonstrasse irritação e indignação por sua busca obsessiva por vingança, por mais que ela não entendesse seus motivos, por mais que ela achasse que Red John deveria ser levado à justiça, ele tinha certeza que ele conseguiria vingança, a qualquer custo. Mesmo que ele estava atualmente em conflito com o que quer que ele e Lisbon estavam vivendo, os beijos que trocaram mexiam com ele, com sua luxúria, seu desejo. Ele e ela nunca discutiram a respeito, nunca tocaram o assunto e ainda assim, de vez em quando, os dois trocavam olhares significativos ou flagraram um ou outro observando-se discretamente no escritório ou durante as reuniões de discussão de casos. Jane não poderia permitir que isso o distraísse. Ele não estava disponível para relacionamentos, seja de amizade ou românticos. Não, ele tinha uma só meta na vida, vingar a morte de sua família e depois, deixar esse mundo, já que ele não tinha mais nada por que lutar depois de realizar sua vingança. E ainda assim, um frio desconfortável corria por sua espinha todas as vezes que encarava os olhos verdes e intensos de Lisbon. Não, não, ele não deveria deixar se levar, não deveria alimentar algo que não pudesse manter. Ele não deveria incentivar seja lá o que for que estivesse acontecendo entre Lisbon e ele.

'' – Ei, você está bem?'' – ela lhe perguntou baixinho, pegando-o de surpresa, arrancando-o de seus pensamentos, justamente quando ele estava pensando nela. Impressionante como ela tinha esse poder sobre ele.

'' – Sim, estou bem.'' – ele respondeu rápido demais, discordando de seu habitual jeito suave e controlado.

'' – hum...'' Lisbon meditou desconfiada, mas não pressionou mais. Eles ficaram em um silêncio confortável até chegarem a Sacramento, no meio da noite. Estando o caso encerrado e ainda restava uma papelada incomoda para terminar, porém, Lisbon estava cansada demais para subir e concluir seu trabalho. Então, ela saiu da SUV da CBI e foi em direção a seu local onde seu carro estava estacionado. Por um momento, ela esqueceu que estava na companhia de Jane. Ele saiu da SUV, envolvido em seus próprios pensamentos, debatendo-se internamente se ele estava cansado o suficiente para dormir na CBI ou restava alguma vontade para dirigir até seu quarto no hotel de longa permanência. Ele ficou parado ao lado da SUV, mordendo o lábio inferior enquanto refletia qual decisão deveria tomar. De repente, um Ford Mustang azul profundo parou derrapando ao lado dele; o vidro escurecido abaixou para revelar uma Lisbon sorridente:

'' – Quer uma carona?''

Ele abaixou-se, apoiando uma das mãos no teto do carro, enquanto a outra descansava frouxamente em sua cintura.

'' – Ah, sinceramente, não sei o que quero.''

'' – Que tal um jantar? Depois você decide.''

'' – Eu não sei.'' – lá estava de novo o familiar frio na barriga quando Lisbon o encarava.

'' – Eu pago. Vamos?'' – ela insistiu de um modo tão adorável que ele não resistiu e acabou entrando. Eles foram a uma lanchonete próxima da casa de Lisbon, que servia ótimos hamburgueres e permanecia aberta 24 horas. Embora ele estivesse reticente no início, no final foi uma ótima ideia eles saírem para jantar. Eles conversaram amenidades, riram muito das piadas sem graça um do outro e no final, Jane sentia-se relaxado como há muito tempo não sentia.

'' – Seu hotel é perto daqui, não é?!'' – ela perguntou quando terminaram a refeição e notaram que teriam que ir cada um para seu canto. '' – Posso te dar uma carona. O que acha?'' – Lisbon perguntou com um sorriso quase infantil.

'' – Teresa, eu...''

'' – Patrick, por favor.'' O primeiro nome dele prendeu sua atenção, e ele acabou cedendo. De volta ao carro, eles continuaram com a conversa amigável que tiveram na lanchonete. Ele nem percebeu quando ela estacionou em frente ao seu hotel de longa permanência. Antes dele sair do carro, eles olharam-se intensamente, conversando sem palavras do modo que só eles conseguiam. Porém, desta vez, ele seria forte e não cederia à tentação de beijá-la. De alguma forma, ele deveria parar imediatamente com isso. Então, ele deu um sorriso leve, piscou para ela, e abriu a porta do carro.

'' – Obrigado, Teresa.'' – ele abaixou-se na janela do passageiro, colocando uma distância segura entre eles. '' – Foi um ótimo jantar. Obrigado pela carona.'' Ele finalizou, lutando contra as borboletas que mexiam em seu estômago e o frio familiar na espinha que percorreu sua coluna e formou um bolo desconfortável em sua garganta. '' – Até amanhã.'' Deus, por que o olhar dela é tão intenso e interessante. Maldição!'' – uma vozinha irritante cochichou em sua mente.

'' – Até amanhã.'' – ela respondeu simpática, com um sorriso tímido nos lábios. Ela arrancou com o carro, rezando para que ele não percebesse que ela por dentro estava tremendo em nervosismo, intimamente tentada a sair do carro e cair nos braços dele. Mas tudo gritava que ela não podia, não podia se deixar levar: sua posição como chefe, a instabilidade emocional de Jane, o fato dele estar casado com a esposa morta e a sua própria incapacidade de se entregar incondicionalmente a outra pessoa. Então, sem olhar para trás, ela saiu deixando-o parado no estacionamento do hotel, pensando exatamente a mesma coisa que ela.