1ª TEMPORADA – EPISÓDIO 10 – FLERTES DO PASSADO E DO PRESENTE
O dia de Lisbon havia começado bem. Não tinham um novo caso e ela estava conseguindo por em dia sua papelada. De vez em quando, o visor do seu celular pessoal brilhava com uma notificação de uma mensagem de Eduard, um policial da central de Sacramento. Eles haviam se encontrado na antepenúltima cena de crime que a CBI investigou e ele, todo sorrisos e com o rosto corado de vergonha, pediu seu telefone. Lisbon foi pega de surpresa, pois geralmente os policiais não se aproximavam, intimidados por sua posição de liderança. Mas pela coragem do rapaz, que parecia ser da idade dela, se não uns dois anos mais velho, Lisbon deu seu telefone pessoal e há uma semana, eles trocavam mensagens bobas de paquera. Estava divertido, contudo, Lisbon estava se esquivando de marcar um encontro, confusa com o que estava acontecendo – ou não – entre ela e Jane. Jane era sedutor, charmoso, carinhoso, porém, aparentemente, não tinha intenção de engatar nada com ela; afora que ele era tecnicamente seu subordinado e isso iria contra as normas da CBI. Já com o encantador policial Eduard, ela não teria essa preocupação e de quebra, não seria alvo de fofocas nos bebedouros e banheiros da CBI. Ela estava refletindo sobre aceitar tomar aquela xícara de café que Eduard havia oferecido, quando Jane apareceu em sua porta, estranhamente preocupado:
'' – Se um crime acontece em uma universidade estadual, é nosso, não é?!''
'' – Se a policia local pedir nossa ajuda, é.'' – ela respondeu franzindo a testa.
'' – Preciso de um favor.'' – Jane pediu em tom de urgência. Ora, isso era novo, Jane não costumava pedir favores. Geralmente, ele simplesmente agia sem dar satisfação a ninguém. Curiosa para saber o que levou Jane a pedir um favor, Lisbon pegou suas coisas e seguiu Jane até o departamento de polícia de Leyland, onde um pesquisador havia sido assassinado (veneno) e outra pesquisadora estava detida para interrogatório. Lisbon e Jane acompanharam o interrogatório do outro lado da sala, observando pelo vidro espelhado e Lisbon prestou mais atenção na figura da mulher que estava ali sentada do que ela estava falando: Sophie Miller era uma mulher alta, loira, perspicazes olhos azuis e mantinha uma fala desafiadora e desdenhosa enquanto respondia as perguntas. Jane permaneceu calado, somente assistindo muito concentrado o desenrolar da conversa. Mesmo contrariada e arrependida, o caso acabou nas mãos da CBI pela suspeito de envolvimento de grupos ambientalistas; o chancelar havia ido pessoalmente na sede da CBI para conversar com Minelli, solicitando a melhor equipe para investigar e resolver o caso. Minelli manteve a pose política – cheia de sorrisos e considerações – até o chanceler ir embora. Assim que ouviu o apito do elevador, ele voltou-se irado para Lisbon, cobrando uma solução rápida do caso, gritando com ela no meio das mesas dos agentes, deixando-a sem graça e encurralada. Suspirando fundo, ela foi para sua sala, descontando a irritação em velhas pastas de arquivos:
'' – Obrigada por não contar a ele que convenci você a pegar o caso.''
'' – Diga-me a verdade.''
'' – A verdade? Dath Vader é o pai de Luke.'' – Jane tentou escapulir da conversa.
Lisbon fechou com raiva a gaveta do armário em que estava jogando as pastas de arquivo:
'' – Estou arriscando meu pescoço pela enésima vez; a verdade, eu acho que mereço.''
Jane deu um sorriso sem dentes, com um olhar preocupado e culpado, fechou a porta e virou-se para ela:
'' – Ela era minha médica.''
'' – Ela é psiquiatra.''
'' – É...ela era minha psiquiatra.''
'' – Mas você detesta psiquiatras, vive dizendo isso.''
'' – Devia ser muito boa, para manter você na sala.''
'' – Era sala trancada.'' – ele respondeu baixo e constrangido.
'' – Ah...'' – de repente, a compreensão de tudo caiu para Lisbon.
'' – Eu passei por maus bocados, fiquei um tempo no hospital e a Sophie me ajudou muito naquela época. ''
'' – Não está na sua ficha.''
'' – Acredite, não é nada fácil. Eu sei que não é vergonha nenhuma ter um colapso, mas confesso que tenho vergonha sim. Ele a encarou sério e Lisbon pode ver a sinceridade em seu olhar.
'' – Obrigada por ser sincero comigo.''
'' – Desculpe pelo segredo.'' – pela primeira vez, ela percebeu que ele havia pedido verdadeiramente desculpas e estava envergonhado com o fato de ter sido internado devido a um colapso nervoso após a morte de sua família.
Durante essa troca, eles trocaram um olhar intenso, significativo. Naquele momento, Jane permitiu que ela vislumbrasse sua dor, sua tragédia, sua culpa, sua saudade, a imensa falta que sentia de sua esposa e filha. Do imenso arrependimento que ele corroía por dentro por ter sido arrogante, ganancioso, egoísta, mesquinho e todos os adjetivos pejorativos que o dicionário pudesse descrever. Ela pode ver o quanto ele estava magoado, triste, deprimido. De repente, ela percebeu o quanto ele escondia sob sua máscara esnobe e insolente. A verdade era que o resto das pessoas não tinha a menor ideia de quem era o verdadeiro Patrick Jane; e agora, ela se sentia lisonjeada e ansiosa por ele deixar sua máscara deslizar por poucos segundos. Ele não era frio e insensível quanto sua maneira de tratar as pessoas deixa parecer; não, Jane era um homem triste, muito triste e sofria, sofria tanto que não tinha coragem de encarar esses sentimentos, então, ele vestia uma armadura rígida de ousado e desdenhoso. E ela viu o mesmo traço do verdadeiro Jane quando ele se despediu de Sophie Miller, após resolverem o caso. Lá, nublado em sua fachada de emproado, estava de novo um homem que consumia-se em seu sofrimento. Enquanto ele voltava para o carro, ela pode ver o quanto ele estava triste e desolado; por isso, ela resolveu provoca-lo para amenizar o clima de infelicidade que o acompanhava:
'' – Hum, Jane beijou uma mulher.'' O tom dela era incitador.
'' – É... beijei... no rosto.'' Ele respondeu constrangido, sem graça por ela tê-lo visto beijar alguém
'' – Mas conta.'' – ela não pode resistir ser irritante
'' – Conta como o quê?'' ele devolveu com o velho ar de desafio
'' – Que não sou a única a ter o privilégio de provar seus lábios.'' – ela balançou os ombros em tom insinuante. Como resposta, ele deu apenas um risinho irônico.
'' – Quer dirigir?'' – ela ofereceu como oferta de paz.
'' – Pareço tão triste assim?''
'' – O que, eu apenas perguntei se quer dirigir.'' Ela começou a se arrepender por oferecer.
'' – Você não gosta quando eu dirijo, detesta.'' Ele desafiou, com a velha máscara de maldoso firmemente no lugar
'' – Só porque corre muito.'' – Definitivamente, ela estava arrependida.
'' – Eu não corro; mas é uma oferta generosa, você abriu mão de seu medo infundado, do seu controle, é ótimo Lisbon. Sim, eu quero, adoraria dirigir.'' – Ele não resistiu a insolência.
'' – Sem chance.'' – Ela arrancou com o carro, muito brava com ele.
'' – Eu só estava brincando.'' – ele tentou a reconciliação, mas Lisbon manteve o queixo duro, sem querer trocar nenhuma palavra com ele. '' – Teresa, por favor.'' – ela permaneceu calada. '' – Eu sei que não sou a pessoa mais fácil do mundo, mas eu agradeço tudo que fez por mim. Hoje e desde o dia que nos conhecemos.'' – ele falou baixinho, olhando para as mãos que se torciam nervosamente no colo.
Lisbon suspirou profundamente, estalou os lábios e cedeu:
'' – Tudo bem. De nada.''
Eles continuaram o caminho até Sacramento em um agradável silêncio. Jane estava feliz por ter ganhado um sorriso dela.
