Olá leitores.
Gostaria de agradecer ao convidado que me alertou a respeito da formatação do texto. Estava usando um recurso do site e não percebi que o capítulo ficou ilegível. Agora corrigi e espero que o leitor convidado continue a ler e postar suas opiniões. Obrigada!
1ª TEMPORADA – EPISÓDIO 11 – O QUASE MACHUCA TANTO QUANTO NÃO TENTAR
Esse quarto fede; fede a miséria, bebida barata e maconha. Essa cama é tão dura e desconfortável quanto a que tive no quarto do primeiro hotel que aluguei para mim e minha esposa, assim que fugimos do circo. Eram tempos fáceis, simples, iluminados. Tudo era cercado de brilho e magia, pois ao meu lado estava a mulher da minha vida. Mas o hotel em que ficamos após a fuga era horrível. Tínhamos que brigar com as pulgas da cama e o chuveiro era tão falível, que tomávamos banho juntos não para o sexo, e sim para que ambos pudessem aproveitar a água quente. Porém, com tudo isso, éramos felizes, mais felizes do que jamais fomos enquanto estávamos no circo. Eu era um homem feliz, tinha tudo em minhas mãos, e joguei tudo pela janela. Eu não deveria ter deixado aquele rapaz simples e puro, que fugiu do circo com o amor da sua vida, ser subjugado pelo homem ganancioso e egoísta, assim que o sucesso e dinheiro começaram a aparecer. De repente, o reflexo que olhava para mim no espelho era uma sombra perturbadora do meu pai; e mesmo assim, eu não lutei, não quis largar o osso da fama. Todo o mal que pratiquei usando a crença das pessoas para tomar seu dinheiro voltou-se contra mim de uma maneira cruel e incisiva. Provoquei, descuidadamente, um assassino serial na TV para me exibir, aumentar minha fama e então, perdi tudo o que mais prezava neste mundo.
Em um átimo, o rapaz ingênuo e o homem ganancioso fundiram-se em uma embaçada lembrança de um ser humano. Uma figura amargurada e infeliz que anda pelos cantos arrastando as correntes de sua culpa; um fantasma da pessoa que fora antes de ter sua vida fragmentada em tantos pedaços que duvido muito que um dia será recomposta de novo. Esse sou eu. Patrick Jane, seguindo a vida em um caminho negro e espinhoso, tentando ignorar os indivíduos que circulam a minha volta. Trabalhar na CBI é apenas um meio para alcançar o fim. Não tenho interesse em criar laço com qualquer pessoa, apesar de que meu coração teimoso bate um tom a mais quando se refere a Lisbon e sua equipe.
Achei que poderia investigar sozinho, provar a inocência de Jared Reyfrield sozinho e surpresa! A colaboração deles foi decisiva e pela primeira vez em muitos anos senti-me acolhido. Pensando bem, olhando com cuidado, posso ousar dizer que alguns pequenos pedaços de mim mesmo foram colados. Eles são fantásticos, determinados, altruístas, leais; e Lisbon é a mais ferrenha deles. Quantas vezes ela arriscou sua carreira por mim? Quantas vezes ela me apoiou, mesmo não concordando comigo. Ela nunca me tratou como vítima, com pena e dó, mas com compaixão e rigor. A força dela é contagiante.
Contudo, mesmo com ela sentada ao meu lado nesse quarto fétido e barato de Tchihuana, não consigo sentir-me melhor. Eu acreditei piamente que com as informações de Jared, eu conseguiria finalmente matar o homem que acabou com minha vida. Fiz tudo que fiz, provei a inocência dele, só para que ele fugisse para esse lugar lamentável para ser estripado por Red John. E ainda por cima, a pobre moça que estava com Jared foi morta; imagino o terror de seus olhos quando ela viu o sujeito impondo uma faca na mão, cortando sua pele e de seu cliente sem piedade. Será que ela teve tempo para implorar por sua vida? Quais teriam sido os últimos pensamentos dela.
'' – Ei, da próxima, pegaremos ele.'' – sinto os delicados dedos de Lisbon roçarem em um dos meus braços. O toque dela é reconfortante, cheio de carinho e compreensão. Ela tem o incrível poder de me fazer sentir melhor, a despeito de todo desanimo que toma conta de mim. Bom, o pessoal da perícia acabou por aqui e ficar sentado, literalmente de pernas cruzadas, achatando minha bunda neste colchão duro e barato não irá fazer me aproximar de pegar Red John. Estou triste, chateado, confuso e intrigado. Tudo que quero saber agora é me enfiar nas cobertas aconchegantes do quarto do meu hotel de longa permanência. Pelo menos o colchão de lá é infinitamente mais confortável. No momento, quero um tempo para pensar em tudo e minha casa em Malibu não ajudará em nada com seus fantasmas circulando pelos cômodos e as sombras que permeiam seu interior. Não quero passar a noite deitado em um colchão no chão, debaixo daquele maldito sorriso. Hoje tive punição o suficiente. Fui derrotado de uma maneira espetacular. Apostei tudo em um homem sem palavra e o que me sobrou foram dois corpos e uma inscrição enigmática na parede, feita por Reyfrield em seus últimos momentos de vida.
Levanto-me desta cama desconfortável e saio desse quarto cheirando a morte e podridão. Do lado de fora, observo o vai e vem de carros e pessoas, acotovelando-se na rua na disputa por espaço. Permaneço olhando enquanto os técnicos e policiais encerram a sua rotina robótica de anotar dados e preencher formulários. O carro alugado pela CBI está estacionado na esquina, e mecanicamente, movo-me até lá, arrastando os pés. Lisbon está com as chaves, é claro, então tenho que esperar pacientemente enquanto ela conclui tudo com a polícia local. Daqui posso vê-la imponente apesar do seu diminuto tamanho; a brisa quente brinca com os cabelos castanhos dela, arrastando-os para seu rosto e ela, um pouco incomodada, puxa as mechas para trás das orelhas, até que perde a paciência, prendendo o cabelo em um rabo de cavalo descuidado, de onde escapam alguns fios que são soprados pelo vento. Ela é encantadora. Ao finalizar o expediente, Lisbon me procura com os olhos, virando a cabeça de um lado para outro e posso ver daqui o tom preocupado de seus olhos, imaginando em que encrenca eu possa ter me metido no tempo em que ela estava tratando com a polícia local. Ela levanta as sobrancelhas ao me ver aqui, parado ao lado do carro, esperando pacientemente por ela. Lisbon despede-se de todos e faz seu caminho até o carro, esboça um sorriso tímido e diz:
'' – Oi. Esperou muito tempo?''
'' – Não, eu estava admirando a vista. É bonito o caos urbano, não acha?!'' – eu respondo displicente, sentindo que toda minha força e coragem esvaíram-se junto com o sangue que está sendo lavado do quarto nesse exato momento. Assim que ela destranca do carro, eu pego meu assento no banco do passageiro ao lado de Lisbon e vou calado, observando sem dar atenção a paisagem, até o aeroporto. Tivemos sorte e havia um voo saindo para Califórnia dali a 30 minutos. No avião, pego meu assento no corredor, ajusto a cadeira e fecho meus olhos. Uso meu biofeeback para manter uma respiração regular, simulando estar dormindo, porém, a verdade é que meu cérebro está trabalhando em vários cenários possíveis de quem seria e de como Red John descobriu a respeito de Reyfield. Lisbon está sentada ao meu lado e pressinto sua ansiedade, nem preciso abrir os olhos para visualizar a encantadora carranca que ela deve estar exibindo. Sua testa está franzida, seus olhos verdes – brilhantes como esmeraldas – estão fixos em mim, carregados de preocupação. Sua boca está apertada em uma linha fina ao mesmo tempo que seus lábios estão cerrados. Ainda que tivemos uma jornada longa e cansativa, posso sentir o leve aroma de seu perfume chegando as minhas narinas, inundando meu espirito. É inebriante o perfume dela.
Ao chegarmos em California/Sacramento, ela me cutuca levemente, receosa que eu estivesse mesmo dormindo. Contudo, eu não estava; há muito tempo eu tinha parado de pensar em Red John, voltando meus sentidos e atenção para ela ao meu lado. Sua preocupação maternal é reconfortante e me traz paz. Saímos do aeroporto com as SVU da CBI que tínhamos deixado no estacionamento. Vou com Lisbon, como um cachorro segue uma linguiça, e apesar do meu jeito taciturno, ela não diz nada. A paisagem de Sacramento à noite é linda e no horizonte, posso ver o céu delineado com as cores amarela e azul, indicando que o amanhecer estava próximo. Desta vez, eu estava mesmo distraído com a figura do céu, a ponto de que me assustei quando o carro parou abruptamente. Tínhamos chegado ao meu hotel. Lisbon conhecia um pouco dos meus hábitos, então, ela dirigiu direto para lá. Ela me olha, estudando-me com curiosidade e tudo que posso fazer é retribuir o olhar dela. Repentinamente, sinto uma forte necessidade de ficar como ela mais um pouco, de me deliciar com um abraço acolhedor:
'' – Você quer entrar?'' – as palavras escapam por minha boca antes que eu pudesse evitar.
'' – Estou cansada, quero ir para minha casa.'' – ela responde timidamente, fugindo do meu olhar, um pouco envergonhada de negar o meu convite assim de cara.
'' – Teresa, por favor. Preciso de você.'' – eu suplico. Sim, imploro por sua companhia e seu abraço, pois neste mundo frio e triste, somente isso pode trazer-me um pouco de paz. Ela me encara com tanta surpresa que não acredito quando ela diz:
'' – Ok. Só quinze minutos.''
'' – Não preciso mais do que isso.'' – minha voz revela meu alívio. Caminhamos juntos do estacionamento até a porta do meu quarto, que destranco e coloco-me de lado, com o braço direito esticando, convidando-a para entrar sem palavras. Ela entra e fica de pé no meio do cômodo, claramente perdida do que fazer agora. Tiro meu paletó, coloco-o no mancebo que está próximo a uma camiseira, de onde tiro uma calça de moletom e uma camiseta.
'' – Vou trocar de roupa, espere um pouco, por favor.'' – digo a ela com meus olhos irritantemente suplicantes. Ela acena em concordância e meu rosto me trai quando abro um grande sorriso. Vou até o banheiro, desfaço-me da calça e da camisa cheirando à morte e a Red John, jogando-os descuidadamente no cesto de roupa suja do banheiro. Tomo um banho rápido, enxugando-me com urgência, e com pressa, visto a calça e a camiseta, levemente ciente de que esqueci de pegar uma cueca. Mas acho que ela não vai se importar. Quando volto ao quarto, Lisbon está sentada na beira da cama, e pelos traços de seu rosto, ela está lutando contra o sono. Arrasto-me do outro lado da cama até os travesseiros e com um tapinha amigável no espaço vazio ao meu lado, convido-a para se aproximar. Relutante, ela empurra-se lentamente até estar ao alcance de meus braços.
'' – Só quero, por uma vez, dormir no calor de outra pessoa.'' – eu confesso a ela sem pudor, sem rodeios. Devagar, levo minha mão para o braço dela, acariciando-o levemente e me afundo nos cabelos dela, sentindo os fios pinicarem meu rosto, mas não me incomodo. A sensação é incrível e sinto-me relaxado. Minha mão traça seu caminho até sua cabeça e eu não posso fugir do desejo de dar-lhe um beijo nos cabelos. Envolvo meu braço na cintura dela, empurrando-a para mais perto, para que eu possa sentir todo seu corpo miúdo espremido contra o meu. No começo, Lisbon estava tensa, mas pouco a pouco, a vi relaxar em meus braços até que ela se rendeu ao sono. E eu também deixo-me levar pela exaustão e caio no sono, um sono que não tenho há muito tempo, revigorante e sem pesadelos.
