1ª TEMPORADA – EPISÓDIOS 12 e 13 – CONVERSAS DE TRAVESSEIRO
'' – Esse no mínimo foi um caso estranho; divertido, mas estranho.'' – Jane deu um suspiro e caiu pesadamente em sua cama, ao lado de Lisbon. Desde que dormiram juntos após o caso de Red John, tornou-se uma excêntrica rotina deles pelo menos duas vezes por semana, Lisbon dormir ao lado de Jane. Não havia nenhum envolvimento sexual. Lisbon considerava essa situação no mínimo inusitada. Ela não costumava fazer isso antes de Jane; Lisbon raramente dormia com seus encontros sexuais. Discretamente, ela empurrava seu par masculino para fora de sua cama e de sua casa. Porém, com Jane, era tão reconfortante, tão inocente, agradável de uma forma difícil de explicar.
'' – Nem me diga... bruxas, abuso doméstico. O que tem essas pessoas? Por que agem assim?'' – ela respondeu, virando para o lado dele, apoiando a cabeça em um dos braços, puxando as pernas em direção ao peito.
'' – Lisbon, não tente encontrar razão da loucura alheia.'' – Jane permanecia deitada de costas, com as mãos cruzadas sobre o peito, girando a cabeça para encontrar com os olhos dela. '' – As pessoas fazem o que fazem para proteger seus segredinhos sujos.''
'' – Segredinhos? Jane, como pode dizer isso?'' – ela devolveu intrigada.
'' – Tezin Dove usa a caricatura de ser uma bruxa só para fugir da verdade de que ela é uma pessoa sozinha, triste, incompleta, incapaz de formar um relacionamento saudável com pessoas adultas. Ser amiga de adolescentes, como ela é, só mostra que ela busca preencher seu vazio interno, tapar o buraco de sua própria adolescência solitária.''
'' – Você é terrível.'' – ela deu um pequeno tapa no ombro dele com o braço que estava apoiado no colchão. '' – O Sr. Elkins é óbvio, ele é um pai e esposo abusivo, encoberto por todos esses anos pela esposa e filhos.''
'' – Muito bem Lisbon, estou vendo que está aprendendo.'' – Jane debochou com um largo sorriso.
'' – Não seja debochado.'' – o comentário dele foi recompensado com um tapa mais forte.
'' – Ai, mulher. Isso é agressão. Vou denunciá-la ao Minelli.'' – ele disse sorrindo muito.
'' – Eu duvido muito que ele acreditaria.'' – ela devolveu incapaz de impedir que um sorriso muito aberto aparecesse em seu rosto.
Jane apenas sorriu, voltando o rosto para encarar o teto; com Lisbon ao seu lado, mirar o ventilador de teto girar lentamente não era tão deprimente. Ela o divertia, o mantinha atento, alerta. Seu jeito rigoroso incentivava sua criatividade, mesmo que por muitas vezes ele passava um pouco dos limites só para ver a fúria brilhando em seus olhos verdes. Era engraçado quando ela ficava furiosa e atirava objetos de escritório nele. Essa reação destemperada dela estava tornando-o muito melhor em seus reflexos. Eles ficaram rindo por um bom tempo, até se olharem profundamente, os olhos de cada um tentando desesperadamente decifrar um ao outro.
'' – E aí, vamos dormir?'' – ele perguntou, virando-se completamente para encará-la.
'' – Vamos. Cada um na sua casa.'' – Lisbon sorriu alegre, levantando-se da cama. '' – Tenho uma reunião bem cedo amanhã. Se eu ficar aqui, não dará tempo de me trocar.''
'' – Ah, a burocracia. Isso vai acabar com
você um dia.'' – ele sorriu desdenhoso.
'' – Você é quem vai acabar comigo um dia, Jane.'' – o tom dela era carregado de sarcasmo.
'' – Touche. '' – ele deu-se por vencido. Eles ainda se encararam por um longo tempo, decidindo-se se beijariam ou não; imaginando as consequências deles se beijarem em um ambiente privado. Silenciosamente, decidiram apenas sorrir um para o outro como forma de despedida.
'' – Você foi cruel.'' – ela marchava com Katherine Hooks, compradora de arte de A. P. Cage. Em um ataque de fúria e ganância, ela matou o pobre Henry.
'' – Eu me desculpei.'' – Jane acelerava o passo para alcança-las.
'' – Você tem que aprender que há outros jeitos de conseguir a confissão.'' – ela cuspia fogo, com os olhos brilhando de raiva.
'' – Meh... um mal necessário. E também mais divertido.'' Ele sorria largamente ao lado dela, sentindo o suor escorrer por sua testa por ter sido obrigado a correr para acompanhar o passo duro e apressado de Lisbon.
'' – Você é um idiota.'' Jane não pode deixar de reparar no balançar elegante e sutil dos quadris dela. '' – Cho, por favor, leve a Senhoria Hooks para indiciamento; Risgby, você, suba e colha os depoimentos do Sr. A.P. Cage e de sua filha.'' Ela sacou seu telefone do bolso interno da jaqueta. '' – Van Pelt, eu quero que você catalogue e separe os quadros. Identifique-os e leve para a sala de provas.'' – ela despejou as ordens com um tom firme e zangado. '' – E você...'' ela voltou-se para Jane bufando – '' vem comigo para não fazer nenhuma besteira. Não quero ficar até mais tarde preenchendo papelada por sua causa. Tenho compromisso.'' – ela entrou no carro, batendo a porta com força e ligando a ignição, sem esperar que ele falasse ou fizesse alguma coisa. Ele pulou no banco do passageiro, bufando um pouco.
'' – Então, você tem compromisso?'' – seu tom era irônico, com um toque de melancolia.
'' – Tenho. Por que é tão estranho?'' – ela respondeu na defensiva e com raiva.
'' – Não, não é estranho... só é interessante.''
'' – Eu não sou um objeto de estudo para você. Não ouse usar seus truques mentais comigo.''
'' – Lisbon , eu nunca faria isso com você.'' – ele respondeu colocando em sua voz o máximo de sinceridade possível.
'' – Acho bom.'' – ela finalizou, dirigindo o resto do percurso sem falar com ele. Quando chegaram à sede da CBI, Lisbon parecia um pouco mais calma, mas cautelosamente, Jane preferiu não provoca-la. Portanto, ele foi direto para a sala de descanso, preparar sua xícara de chá. Sem entender o motivo, ele passou todo o tempo em que a água levou para ferver, mirando sonhadoramente a chaleira; quando ela apitou, ele saltou no lugar de susto. Ele fez sua xícara de chá, caminhou lentamente até seu sofá, onde sentou-se pesadamente, com sua cabeça fritando de pensamentos. Discretamente, ele observava Lisbon em sua sala, finalizando os relatórios e um pouco depois da hora do expediente, ela saiu rapidamente, despedindo-se de todos na porta da sala dos detetives. Atrás dela, a leve fragrância de seu perfume chegou às narinas de Jane, inebriando suas emoções. Ele suspirou profundamente, baixando o olhar para sua aliança de casamento, iluminada pelas lâmpadas do teto, dando um ar etéreo ao objeto que estava com ele há anos, sinal de sua promessa de vingança. Ele deixou-se ficar no sofá até que a sala dos detetives ficou vazia, com apenas algumas luzes acesas do ambiente. Jane não queria dormir de novo no sofá, com a sala ecoando seus pensamentos que o incomodavam. Ele levantou-se, levou sua xícara de chá, há muito tempo fria, para a sala de descanso, onde lavou a sua pequena louça. Abatido, ele dirigiu-se até o elevador, chamando o carro com um aperto frouxo; quando as portas se abriram, ele caminhou silenciosamente para dentro do carro, escolhendo o botão ''T'' com desanimo. No estacionamento, a visão do seu Citroen alegrou seu espírito. Ele dirigiu em uma velocidade mais baixa do que estava acostumado, estacionou seu carro em sua vaga, caminhou pesadamente para seu quarto. Ele soltou outro suspiro ao entrar e ver a cama vazia, sem ela; sem elas. Sua vida era um redemoinho de perdas... Jane despiu-se lentamente, pensando pesarosamente se tinha coragem de tomar um banho ou não. Decidindo-se pelo não, ele jogou-se na cama só de cueca, afofando os travesseiros com socos mais fortes do que necessário. E essa noite, ele passou muito tempo conversando com seus travesseiros, lágrimas de tristeza e saudade, molhando seu rosto até que a madrugada finalmente trouxe um pouco de sono a sua tempestade de emoções.
