EPISÓDIO 14 – '' EU SOU CASADO.''
'' - Hã… oi…Você parece tão solitário, então minha amiga e eu estávamos pensando se você gostaria de se juntar a nós.''
'' - Ah, desculpe, mas eu sou casado.'' a moça é muito bonita, atraente, assim como sua amiga, mas sinceramente, eu não me sinto capaz de me relacionar. Não de novo. Fito tristemente minha aliança de casamento. Minha bela e querida esposa que me foi arrancada tão precocemente. E por minha culpa. Fico chafurdando nessa poça de tristeza, tornando-me pouco a pouco, um homem reservado e aterrorizado. A perda da minha esposa e filha estilhaçou meu coração em vários pedaços; ter o sangue delas em minhas mãos, figurativa e literalmente, fez tudo ao meu redor ruir, meus sonhos, minhas esperanças, minhas expectativas. A bolha ilusória de poder e misticismo estourou assim que abri a porta do quarto naquela maldita noite. Estou tão perdido, tão confuso, tão impotente. Tudo que me restou foi vingança, sob uma forte armadura de racionalidade e arrogância. Não deixo ninguém se aproximar. Não quero que ninguém se aproxime. Não tenho certeza se quero sentir de novo toda a emoção crua e intensa de amar alguém tão desesperadamente, a ponto de entregar sua vida nas mãos daquela pessoa.
Eu estou aqui, afundado em miséria e rancor, enquanto Paul Flick não saber dar valor à mulher que o ama; e o Sr. Walcoot? Um homenzinho baixo, frio, ganancioso, avarento, medíocre. Sua esposa sequer havia sido enterrada e ele já estava pavoneando com seus amigos igualmente medíocres e insensíveis, pouco se importando com a morte prematura de sua esposa. Talvez ele não sinta e não carrega a culpa que eu levo nas costas. Pelo que ouvi seu discurso com Lisbon, ele iria pedir o divórcio porque ela ''se tornou irritante''; como assim, ''irritante''? Homem estúpido, ele estava casado só para exibir a esposa como troféu. Como homens assim não enxergam a sorte que tiveram? Encontraram uma mulher para os amar, apesar de todos seus defeitos.
Minha caminhada até a SVU da CBI é carregada de pesar e infelicidade; antes mesmo de vê-la, sinto seu perfume único no ar. Eu vejo como ela me olha, pressinto onde isso pode parar; eu sei como olho para ela, o que ela faz por mim, o que ela faz comigo. Contudo, eu não posso, não devo. Tenho uma missão, sou casado com minha vingança; comprometido com meu tormento pessoal; preso com meu remorso. Não tenho direito de pensar que poderei um dia ser especial para alguém... eu...
'' – Oi. Pronto para ir?'' – o tom dela é severo, maternal, seus olhos estão carregados de desconfiança, me arrancando do meu raciocínio depressivo.
'' – Claro.'' – eu respondo sorrindo, recolocando minha máscara de indiferença e arrogância.
'' – Onde você estava?'' – Lisbon fica adorável quando franze a testa, atirando punhais de irritação.
'' – Tomando uma bebida.'' – dou de ombros em tom de deboche.
'' – Hum...'' – ela permanece desconfiada.
'' – É verdade mulher. Pode perguntar ao Flick.''
'' – Ah, porque ele é um cara extremamente confiável. Estavam trocando figurinhas de como conquistar mulheres?'' – a voz dela está carregada de sarcasmo, tanto que ela nem percebeu o que disse, o quanto isso me magoou, o quanto dói.
'' – Não, você acha tão pouco de mim.'' – disfarço minha tristeza com um toque de deboche. '' Não preciso das técnicas fajutas de Flick para conquistar mulheres.'' Encerro meu discurso com a voz carregada de convencimento.
'' – Ah, claro. Desculpe minha ignorância.'' Ela fica cativante quando está nervosa comigo. Não, espere. O que estou fazendo? Não deveria me deixar levar por essa ilusão que uma mulher maravilhosa, linda e inteligente como Lisbon possa se interessar por mim. Um homem quebrado, incompetente, inútil.
'' – Jane, vamos logo.'' – ela está impaciente, seus olhos verdes brilham como esmeraldas. Eu dou um sorriso desdenhoso, e entro no carro, tomando meu lugar no banco do passageiro, ao lado dela. Confesso que meu estomago dá cambalhotas todas as vezes que ela me olha. Seguimos para Sacramento em um confortável silêncio. A lembrança do nosso beijo e dos nossos abraços permeia minha mente, enquanto observo o rápido passar da paisagem, trazendo ao meu rosto um sorriso sincero. A companhia de Lisbon me traz paz e tranquiliza meus demônios internos. Como ela consegue?
