Capítulo 38 – Acidentes

Linny adorava aquele inicio do mês de dezembro, quando a paisagem começava a se cobrir de gelo.

Acordava aninhada a Remo todos os dias em que ele estava com ela, cheia de cobertores quentinhos na cama dos dois.

Levantava e fazia o café, depois sentava e esperava por ele.

Mesmo com todas as notícias macabras do mundo exterior, mesmo com a guerra e todos os seus terrores, ela se sentia etranhamente segura em sua casa, como se uma bolha protetora a separasse do mundo. Mas, em meio a sua felicidade, um novo pensamento a assombrava: Ela queria ter filhos.

E no momento, sua menstruação estava atrasada. Queria muito que fosse realmente um bebê, mas Remo não gostaria da idéia. E em meio aquela guerra, com certeza não era um opção muito segura.

Com um suspiro, ela colocou o chá para ferver. Eles não haviam tocado muito no assunto, mas Linny conhecia bem seu marido, e tinha certeza que ele não achava que ter um bebê fosse uma boa idéia.

Se estivesse realmente grávida, ela sabia que forá por descuido. Não havia planejado engravidar, por mais que quisesse

E como queria... - ela pensou, suspirando novamente. Seu afilhado, Harry, a enchia de alegrias, e o brilho nos olhos de Lílian quando segurava o pequenino estava impresso em sua memória até agora.

Foi tirada do pequeno devaneio quando Remo beijou sua bochecha.

-Bom dia. - ele cumprimentou, sentando-se na frente dela

- Bom dia... - ela respondeu, aérea, demorando alguns minutos para encarar seu marido. – Dormiu bem?

-Dormi sim. Apesar desse frio. Não entendo como você consegue gostar. - Remo resmungou um pouco, tocando a mão dela.

- É que você fica ainda mais quentinho... - ela explicou, rindo, enquanto servia-se de mais chá.

Por alguns segundos eles permaneceram em silêncio, comendo lentamente, e logo os pensamentos de Linny continuaram a seguir o rumo que tomavam antes da conversa.

Se estivesse grávida, como ela contaria para ele? E como será que ele reagiria?

Antes de tudo, obviamente, ela deveria ter absoluta certeza do que estava acontecendo...

Mas, mesmo assim, decidiu falar trazer o assunto à tona.

-Remo, você já imaginou se eu engravidasse? - perguntou, aparentando um pouco de ansiedade.

Linny pensava estar preparada para tudo, mas não para o que aconteceu em seguida: Os olhos de Remo pareciam querer saltar de suas órbitas, de tão arregalados, e ele deixou sua caneca cair, atônito.

O quê? - ele perguntou, em um fio de voz.

-É uma pergunta simples – ela começou, para não assustá-lo - e hipotética. - completou.

- Você me assustou... - ele disse, pegando sua varinha e consertando a caneca com um feitiço. - Eu realmente não estava esperando por isso. Mas por que quer saber? - assumindo seu tom controlado novamente, ele

esquadrinhou Linny com o olhar, preocupado.

-Por que eu ando pensando bastante nessa situação. E tenho vontade de ter filhos.

Um silêncio um tanto quanto pesado se abateu sobre os dois, enquanto Remo parecia adquirir um enorme interesse na caneca recém consertada.

- Linny... - ele começou, hesitante. - Você não pode estar falando sério.

-Na verdade, eu estou. Sempre sonhei com crianças e agora sinto enorme vontade de ter uma.

-M-mas... Mas você sabe que nós não podemos. - firmando a voz, ele tornou a encarar sua esposa.

-Por que não? Nós somos um homem e uma mulher, maduros, que se amam. Acho que temos todos os requisitos pra ser pais.

- Incluindo o fato de eu ser um lobisomem? - ele perguntou, irônico. - Eu não sei nem se isto é ilegal, Linny.

-Então eu vou ter que passar minha vida inteira sem filhos?

- Era algo a se considerar antes de ter se casado com um lobisomem, não é? - ele respondeu, calmamente, embora o tom de mágoa fosse visível em sua voz.

-Eu amo você, independente de você ser um lobisomem. Você não devia ficar magoado, parece que é errado que eu queira ter filhos.

- E em uma época como esta, é errado, sim. - ele disse, sua voz agora até mesmo fria. - Você não pode ignorar que nós estamos em guerra... Como você conseguiria criar uma criança em um ambiente assim? Nós dois podemos estar mortos amanhã. - ele constatou.

-Tiago e Lílian conseguem. - ela disse. - Por que nós não conseguíriamos?

- Eles são, bem... Eles são Tiago e Lílian... - em uma última tentativa exasperada, ele começou a falar, mas foi bruscamente interrompido.

-E nós somos o que? NÓS NÃO SOMOS TÃO BOM QUANTO ELES? É ISSO QUE VOCÊ ESTÁ QUERENDO ME DIZER? - Linny perdeu o controle e começou a gritar.

- NÃO GRITE COMIGO! - seu tom de voz também aumentou, e ele se levantou da cadeira. - Eu só digo que para nós as coisas são bem mais complicadas, mais difíceis. Você não entende...

-Eu não entendo o que? QUE TE AMO E QUERO CARREGAR UM FILHO SEU? Um filho nosso?

-VOCÊ NÃO ENTENDE AS CONSEQUÊNCIAS DAS COISAS! - ele começou a andar de um lado para o outro, nervoso. - VOCÊ NÃO PENSA EM COMO A CRIANÇA IRIA SOFRER?

-Eu amaria essa criança. E faria tudo pra que ela não sofresse.

- Essas coisas não dependem de nós. E uma criança seria mais uma isca para Voldemort. O que você pensaria se nosso bebê fosse feito refém? Se fosse torturado ou morto em troca de informações. E esta vida que você quer para um eventual filho nosso? Não,

definitivamente, eu não iria permitir que isto

acontecesse.

-Então veja se você permite isso. - ela disse, apanhando um casaco e saindo do apartamento.

- Mas você não entende... - ele murmurou para a porta fechada, antes de afundar em sua cadeira, desesperado.

Linny fechou a porta e se encostou na parede, nervosa. Deixando que as lágrimas fluíssem por seu rosto.

O que ela acabara de fazer? Por que Remo tinha reagido tão mal? Por que tudo isso tinha que ser tão difícil?

Ele falara como se ela fosse botar uma criança no mundo para morrer. E ela nunca faria isso.

Ela sabia que não seria fácil... Mas o que os tornava tão diferente dos outros, que podiam ter filhos sem tantas brigas e lágrimas?

E isso que ele achava que era realmente hipotético, e se ela estivesse realmente grávida?

Com os olhos se enchendo de lágrimas novamente, ela não queria nem pensar em como ele reagiria se ela estivesse, de fato, carregando um filho de seu marido. "Mas, de um jeito ou de outro, ele teria que aceitar...", ela pensou, não sem alguma satisfação.

Mas de que adiantaria ele aceitar se fosse ser uma briga assim sempre? Ela preferia não estar grávida do que criar um filho entre brigas dos dois. Por que isso era pior que uma guerra pra ela.

Ela sabia que agira impulsivamente a sair de casa daquele jeito, mas seu orgulho a impedia de voltar. Sem saber que rumo tomar, ela saiu para a rua, tremendo com o choque térmico ao se confrontar com a neve.

Com lágrimas ainda turvando seus olhos, Linny tentou ignorar o frio e continuou caminhando, abraçando a sí mesma para evitar que seus braços ficassem dormentes com o frio. Sua cabeça estava tumultuada, com pensamentos incoerentes indo e vindo com uma velocidade incrível, e o frio só aumentava a sensação de surrealidade que a cercava. Aquilo simplesmente não poderia estar acontecendo... Sem enxergar direito aonde ia, ela simplesmente começou a andar, tentando fazer com que algum pensamento fizesse sentido...

E só notou que estava no meio da rua quando um carro veio em alta velocidade, não conseguiu frear por causa da neve que caía na rua e acertou Linny em cheio.

No apartamento, Remo continuava sentado na cadeira, pensando na mulher caminhando na rua fria.

Até que ouviu um burburinho na rua e foi olhar pela janela. Parecia ter havido um acidente, pelo que ele conseguia ver. Um carro parado, pessoas envolta, sangue na neve.

Não conseguia observar a pessoa que havia sido atropelada, mas quando conseguiu ver. Ele não podia acreditar. Era... Linny.

Nervoso, Remo pegou seu próprio casaco e desceu as escadas correndo. Foi difícil atravessar a multidão e chegar ao corpo da esposa.

E foi um choque vê-lo. Havia muito sangue. Os joelhos dela estavam arranhados, e havia cortes pelas pernas, pequenos, e um maior, na cabeça.

A ambulância chegou naquele exato momento.

-O que aconteceu por aqui? - um dos paramédicos perguntou.

-Foi ela, minha mulher. - Remo respondeu, a voz embargada. - Acho que ela foi atropelada.

-Por aqui. - o paramédico, auxiliado por outro, guiou a maca, colocando Linny sobre ela e voltando a ambuLância.

-Posso ir junto? - Remo indagou, achando que aquilo era o melhor a fazer.

-Entre aí, senhor.

Remo segurava firme a mão de Linny na ambulância, enquanto o paramédico prestava os primeiros socorros.

Sem saber o que acontecia, ele suava frio, e a expressão preocupada do jovem que cuidava de sua esposa não o acalmava em nada.

Logo ela estava na ambulância, onde um equipamento estranho emitia um leve bipe para cada batida do coração de Linny. Com agonia, ele observava enquanto os minutos passavam e os bipes iam se tornando cada vez mais espaçados.

O sangue continuava a correr por todos os lados, e os médicos tentavam em vão estancá-lo.

-Nós a estamos perdendo. - ele ouviu alguém falar, em voz baixa.

Aflito, ele ouvia os bipes quase cessarem, e a palidez de Linny só se evidenciava. Se a deixasse nas mãos dos trouxas, ela poderia morrer...

Mas no St. Mungus, eles ainda poderiam dar um jeito nela.

E, ao ver os bipes cessarem, tomou uma medida desesperada: sem pensar, agarrou o braço de Linny e aparatou para o hospital.

No meio do hall do hospital, todos pararam ao ver aquele homem com a mulher ensangüentada nos braços.

E, poucos segundos depois, Linny estava sendo levada pelos Medibruxos, deixando um trêmulo e pálido Remo parado no meio do Hall, sangue manchando seu casaco, e seus olhos turvos de desespero.

Remo não saberia dizer quanto tempo ficou parado no corredor do hospital, em estado de choque, as roupas manchadas, o coração descompassado.

Só sabia que foi Lílian quem o chamou novamente a realidade, meio histérica quando o viu sujo de sangue.

-Remo! Remo! – Lílian falava, séria, tentando ter sua atenção.

Aos poucos ele recuperou sua noção de espaço, percebendo onde estava. O corredor do hospital, e enquanto Lílian chamava seu nome freneticamente, ele começou a lembrar de tudo o que acontecera, e por fim, falando mais alto que a amiga, disse:

-LINNY!

Lílian parou de cutucar Remo, segurando firme as mãos dele e obrigando-o a olhar pra ela.

-O que houve com Linny? – ela perguntou, com a voz firme.

-Ela... carro... acidente... sangue. – Remo dizia, confuso.

-Certo. – Linny pegou-o pelo braço e o fez sentar-se. – Eu vou chamar algum dos meninos e ver o que houve com Lin. Controle-se, Remo. Assim as coisas só vão piorar.

Lílian deixou sozinho e foi até a sala de descanso das enfermeiras.

Lá, pela lareira, chamou Tiago, avisando-o do que acontecera e pedindo que viessa logo para o hospital.

Depois, foi descobrir onde Linny havia ido parar.

Tiago chegou ao St. Mungus e encontrou Remo onde a esposa havia dito que ele estaria. Sentado, num canto da ampla sala de recepção.

Os olhos dele pareciam vidrados num lugar onde não havia nada.

O moreno sentou-se ao lado do amigo loiro, com cuidado para não assustá-lo e colocando a mão sobre o ombro de outro, finalmente decidiu chamar a atenção dele.

-Remo? É Tiago.

-Eu sei. – Remo disse. – Como Linny está?

-Eu não sei. Recém cheguei. Me explique, o que aconteceu com ela?

-Eu... nós.. brigamos. Ela saiu de casa e foi atropelada. Foi minha culpa... tudo minha culpa. – e entrou em desespero de novo.

Tiago ficou quieto, sem saber o que fazer.

-Remo, não foi sua culpa. – ele começou, cauteloso. – Você não jogou Linny na frente do carro.

-Mas você não entende. Se nós não tivéssemos brigado, ela não teria saído e não teria sido atropelada.

-Você não pode mudar a natureza das coisas, Remo. Agora temos que esperar para ver como ela está.

-Se ela morrer, eu nunca vou me perdoar.

-Ela não vai morrer, Aluado. Pare de drama antes da hora. Veja, lá vem Lily. Ela deve ter algo pra dizer.

Lily se aproximou dos dois, séria, o que deixou Remo mais assustado.

-E então, como ela está? – ele se apressou em perguntar.

-Ela vai sobreviver. – Lily anunciou e Remo deixou que algumas lágrimas de alívio lhe escapassem.

-Eu posso vê-la? – Remo perguntou.

-Pode. Mas ela está desacordada.

-Eu não me importo. Só me deixe vê-la.

Lílian guiou Remo até o quarto onde a amiga estava. Linny estava deitada na cama, pálida, os olhos fechados, num sono induzido.

Remo entrou, e puxou uma cadeira para o lado da cama. Estaria do lado dela quando ela acordasse.

Segurou a mão dela e ficou esperando.

No corredor do hospital, Tiago e Lílian conversavam sobre Linny.

-O que aconteceu? – Lílian perguntou, abraçando o marido.

-Remo disse que eles brigaram, Linny saiu correndo e foi atropelada.

-Ele disse por que brigaram?

-Não. E ele estava tão descontrolado que eu não quis me meter.

-Fez bem. É melhor deixá-lo com ela. Vai ser bom para quando ela acordar.

-Também acho. Foi uma coisa triste, mas pelo menos me trouxe pra perto da minha mulher.

Lílian não negou um pequeno sorriso.

-Acho que vou pra casa. – ela disse. – Só preciso me trocar. Meu turno acabou.

-Então se troque. E vamos juntos. Estou louco para ver nosso menino. – Tiago falou, como um pai coruja.

Lílian sorriu, ficou na ponta do pé, beijou a bochecha do marido e disse:

-Volto logo.

Linny acordou sem saber exatamente onde estava e quanto tempo havia passado.

Não lembrava de nada do que ocorrera depois de deixar a casa.

Estava num quarto que parecia ser o hospital e Remo estava deitada na cama, dormindo.

As lembranças voltaram devagar a sua mente e ela sorriu, por que ele estava ali.

N/A: Muito tempo depois, de volta a essa fic.

Agradecimentos a Lily Dragon, que foi grande incentivadora pra essa volta e dividiu a cena inicial comigo.