Nota pt-pt para pt-br:
- "rapariga" é o mesmo que "moça". Não tem o significado que tem em pt-br.
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Houve um período de tempo em que tudo estava apenas em branco na memória de Manta. Quando recuperou a consciência, o rapaz viu-se a olhar para um tecto alto e antiquado, com vozes abafadas penetrando a sua mente desfocada.
- Sshh! Ele acordou, ele acordou!
- Recuperastes a consciência, rapaz? - uma voz feminina desconhecida perguntou.
- Acho que sim... - respondeu Manta, grogue, olhando em frente com os olhos entreabertos, até se lembrar.
- Yoh! - gritou, e sentou-se forma tão abrupta que provocou uma onda de arquejos. Só aí se apercebeu que várias mulheres vestidas com kimonos tradicionais simples o rodeavam, olhando para ele como se não fosse bem humano. - Hãã... desculpem, mas quem são vocês?
Uma mulher recatada de voz suave falou. - O meu nome é Keiko. Estas são as minhas restantes criadas. - As outras mulheres, não parecendo ter mais de vinte anos, murmuraram os seus nomes, que Manta mal registou. - E vós?
- Oyamada Manta. Onde estou, exactamente? - perguntou.
- Numa câmara nos domicílios dos Fujiwara - respondeu Keiko gentilmente. - Lembrai-vos do que aconteceu?
- Não, eu... nem por isso... quero dizer, acho que fui sugado por um vortex... - disse Manta, soando confuso.
Ouviu distintamente uma das criadas murmurar "Delírios" à mulher ao seu lado, e uma suave nota de concordância, e repreendeu-se por ter dito algo tão improvável. Para humanos normais, pelo menos.
- Fostes encontrado inconsciente fora dos portões principais - informou-o Keiko, não soando surpreendida. - Uma das minhas criadas encontrou-vos, e trouxe-vos para dentro com os vossos pertences. - O que fez Manta reparar na sua mochila da escola pousada a um canto.
Manta coçou a cabeça, distraído. Algo estava muito estranho.
- De onde sois, então? - inquiriu Keiko.
- De onde...
- De onde sois. - Pelo seu tom simpático, era fácil perceber que ela pensava que Manta perdera a memória. - Residis num país estrangeiro? As vossas roupas são deveras estranhas. - O olhar dela voltou-se para o seu uniforme escolar.
- Sou de Funbari Hill - disse-lhe Manta, um estranho sexto sentido dizendo-lhe que elas não fariam ideia de onde ele se referia.
- Funbari? - repetiu a criada devagar, como se estivesse a aprender uma língua estrangeira. - É uma aldeia em Heian-kyō?
A última palavra chocou Manta. - Heian-kyō? - disse sem força.
- É onde estais agora.
Foi como se alguém tivesse ateado fogo na sua mente. Roupas tradicionais japonesas, a estrutura antiquada da sala, o uso formal da língua Japonesa. E Heian-kyō...
- Desculpe, mais uma pergunta. Estamos exactamente em que ano? - Quando recebeu um olhar inexpressivo, reformulou a questão. - Em que era estamos?
- Estamos no Período Heian do Japão.
Como é que me meti nesta confusão?
Manta estava deitado no futon depois das criadas saírem, com a excepção de Keiko a fazer-lhe vigília do lado de lá da porta, aconselhando-o a descansar bem. Mas Manta sentia-se muito pouco descansado.
Por alguma razão inexplicável, o feitiço correra mal e em vez de enviar os seus amigos shamans para o passado, escolhera-o a ele e enviara-o a ele para trás um grande total de 1000 anos. Era quase 500 anos a mais do que a janela de tempo estimada por Faust. Estava completamente sozinho num tempo estranho, com absolutamente nada a não ser a sua mochila com material escolar. Pior, não fazia ideia de como regressar em segurança ao século XX. Estes pensamentos ameaçavam provocar um pânico brutal que tinha de tentar combater.
Manta perguntou-se sobre Yoh e os outros - estariam a tentar trazê-lo de volta freneticamente, folheando o livro antigo por algum feitiço de reverter? Não tinha ninguém a quem recorrer, ninguém a quem contar a sua história bizarra sem ser condenado como terminantemente louco. O melhor que podia fazer era esperar que Yoh e Anna encontrassem alguma forma de o salvar. Como de costume, disse uma vozinha desagradável na sua mente.
A menos que...
Manta sentou-se direito uma segunda vez. Não importava a era, shamans estavam sempre presentes entre os seres humanos. Se conseguisse encontrar alguns, então talvez eles o pudessem ajudar!
Embora isso ainda deixasse o problema de como iria reconhecer um. Mas Manta decidiu deixar isso para depois. Nos entretantos, tinha de se manter neste sítio o máximo de tempo possível. Não fazia intenção de ser atirado para o mundo lá fora, onde haviam doenças à solta e bandidos vagueavam em plena luz do dia.
Além disso, se este era o domicílio dos Fujiwara, então talvez as suas chances de encontrar um shaman fossem maiores. O Clã Fujiwara era provavelmente a família mais influente do Período Heian, e ouvira dizer que costumavam consultar videntes para defender as suas fortunas de infortúnios e espíritos malignos.
Sentindo-se melhor agora que tinha um plano (mais ou menos), Manta voltou a deitar-se, tentando pensar em maneiras de se manter a salvo nesta propriedade. No entanto, uma distração chegou à sua porta quase no momento em que a sua cabeça caiu na almofada dura.
- Saudações a Sua Senhoria, a Senhora Murasaki - Manta ouviu a voz de Keiko passar a tons respeitosos do lado de lá da porta do seu quarto.
A porta abriu-se para revelar a silhueta escura como sendo uma jovem mulher alta, imponente, de pele branca, com cabelo negro tão longo que se arrastava pelo chão. Envergando as cores fortes e contrastantes do junihitoe (Manta lembrava-se do termo da sua aula de História), a senhora era certamente uma presença intimidante. Mas não estava sozinha. Duas aias com finas sobrancelhas pretas e compleições brancas acompanhavam-na, as cabeças ligeiramente curvadas.
Manta, por sua vez, apenas olhou para cima para ela de olhos esbugalhados. Aparentemente, a mulher não gostou disto, pois disse: - Este rapaz esqueceu-se de como se dirigir aos seus superiores?
Keiko interviu imediatamente. - Perdão, Vossa Senhoria. O rapaz não parece ser um local, e dessa forma não conhece os costumes. E foi negligência da minha parte não o informar da vossa chegada.
- Hã... É um prazer... conhecer-vos? - A sua tentativa em dirigir-se a ela da forma apropriada saiu mais como uma pergunta. - Vossa Senhoria - acrescentou rapidamente.
- Hm. - Para grande gratidão de Manta, a Senhora Murasaki pareceu ter afastado o seu desagrado. - Vens de uma terra estrangeira, rapaz?
- O meu nome é Oyamada Manta, Vossa Senhoria - disse Manta, levantando-se rapidamente, e então fez uma curta vénia. - E sim, venho de, hã... Funbari Hill. É um local remoto em... Timbuktu. - Para dentro, Manta ficou vermelho de vergonha. Timbuktu?! gritou na sua mente.
- E no entanto falas a nossa língua? Bem, devo dizer que estou impressionada - denotou Senhora Murasaki, não parecendo nada impressionada. Na verdade, fixou Manta com um olhar penetrante que era quase digno do de Anna.
- Aprendo muito depressa - contrapôs Manta fracamente. - Aprendi quando aqui cheguei. Sabe, com camponeses e muita prática.
- Estou a ver. - Senhora Murasaki olhou para ele por mais alguns segundos, e então relaxou o olhar, para alívio dele. - Bem, podes contar-nos tudo acerca de ti mais logo no festival de Observação Lunar. Porque não desces aos jardins mais logo? Tenho a certeza que o Pai terá todo o interesse em saber tudo sobre ti.
- C-claro - gaguejou Manta.
- Então estarei à tua espera, Manta. - Sem mais nenhuma palavra, Senhora Murasaki girou graciosamente sobre o calcanhar e saiu da sala.
No geral, o festival de Observação Lunar estava a ser uma experiência interessante e bastante agradável até agora, mesmo que fosse um pouco assustadora. Quando Manta entrou juntamente com Keiko nos jardins bem arranjados, muitas cabeças se voltaram na sua direcção e fitaram o rapazinho baixo com roupas estranhas. Profundamente intimidado, Manta tentou não reparar neles e sentou-se na relva (com folhas outonais espalhadas por todo o lado), com vista para um bonito lago, ao lado do que pareciam ser vários lordes e damas.
Bastantes destas pessoas começaram a questionar Manta avidamente acerca das suas roupas e do seu país. Inventou rapidamente uma história sobre como desmaiara de fome, e repetiu a mesma coisa que dissera à Senhora Murasaki. Começou gradualmente a relaxar quando começou a revelar pedaços do Japão 1000 anos depois sob a fachada do país de Timbuktu. Mas deixou de fora as máquinas e aviões e computadores. Havia uma linha que separava o revigorante do insano.
O pai da Senhora Murasaki, Lorde Michinaga, era o patriarca da família, e portanto não era grande surpresa que detivesse imenso poder e autoridade. Era tratado com respeito e reverência pelos membros da corte, mas nenhum parecia gostar realmente dele, porque Manta definitivamente ouviu alguns sussurros sobre os seus comportamentos arrogantes e de superioridade. Havia, no entanto, um brilho astuto naqueles olhos do Lorde Michinaga que parecia irradiar inteligência, e Manta sentiu que ele deveria ser alguém difícil de enganar.
Mas o Lorde pareceu aceitar a história de Manta - pelo menos a nível superficial - embora ele e os outros nobres parecerem ter ficado horrorizados quando Manta lhes disse que o uso de poesia era raro no seu país. Manta só conseguira recitar alguns versos de Shakespeare quando lhe pediam. Também tinham ficado atónitos com a menção da sua idade (a sua altura prejudicava-o muito) e Manta teve de combater a sua irritação.
Felizmente, comida e sake foram servidos em pouco tempo. Manta foi autorizado a comer com os nobres, enquanto que as outras crianças, de servos ou de nobres, foram deixadas sair da propriedade. Explicaram a Manta que iam procurar doces como bolas de arroz de outras casas, lembrando-o da época do Halloween. Passou o resto do tempo a apreciar a comida, admirando o quão cheia a lua estava (nunca era tão clara no século XX), ouvindo os versos poéticos dos aristocratas, vendo-os comparar a qualidade das suas poesias, e explicando tudo sobre o Halloween aos nobres e damas, e aos restantes presentes.
O próprio Imperador também estava presente, sentado num trono com dossel, e espantara Manta a princípio, pois não podia ter mais que 10 anos de idade. Mas o choque não foi grande, tendo já ouvido acerca destes costumes em muitos países antigos. Manta estava a começar a sentir-se bastante arrebatado por toda a grandeza, e ainda estava a questionar a sua sanidade, até artistas começarem a dançar e a tocar música nuns instrumentos de aspecto curioso. Não foi capaz de identificar os nomes de vários, para além da flauta de bambú, mas partilhou o seu conhecimento do piano e do violino a Lorde Michinaga e aos outros aristocratas.
Manta estava mesmo a começar a divertir-se quando ouviu Lorde Michinaga chamar: - Ah! Hao! Há quanto tempo chegastes?
Manta engasgou-se no sashimi, e congelou momentaneamente. Por sorte, os outros nobres não pareceram reparar pois a sua atenção estava focada num certo alguém atrás de Manta, alguém que ele tinha a certeza que NUNCA queria ver...
- Acabei de chegar, Vossa Excelência. Peço perdão pelo meu atraso. - A voz era gentil e calma, mas Manta conseguia perceber que era de um homem.
Já para não falar que soava bastante familiar.
Manta voltou-se para olhar para ele e, apesar de já saber quem era, teve de abafar um pequeno arquejo. Um homem usando um chapéu da corte, com longo cabelo negro-acinzentando fluindo sob ele, envergando vestes da corte, erguia-se diante dele antes de se ajoelhar na relva.
- Hao, este é Oyamada Manta - disse o Lorde Michinaga. - Juntou-se-nos em circunstâncias curiosas, que explicarei mais tarde. Manta, este é Asakura Hao, e certifiquai-vos que o trata com o devido respeito. É tido em alta consideração entre os Fujiwara e na Corte Imperial.
Asakura Hao voltou os olhos para o rapaz à sua frente. - É um prazer conhecer-vos... Manta.
Por um momento, Manta poderia ter jurado que algo brilhou naqueles orbes calmos. Confusão? Curiosidade? Ou talvez... dúvida? O que quer que fosse, não pareceu ser ameaçador, e isso deu a Manta um pouco de coragem.
- É um prazer conhecer-vos também, Hao-sama - cumprimentou Manta respeitosamente.
Hao sorriu, e não foi aquele sorrisinho sinistro que Manta via demasiadas vezes. Era caloroso, amável, e no entanto, o jovem rapaz achou que conseguia sentir uma certa tristeza vinda daquele sorriso.
O próprio Manta esboçou um meio-sorriso, e voltou-se de novo para a actuação. A sua mente estava noutro lugar completamente diferente, no entanto, e afogou os risos e conversas à sua volta.
O que fazes quando encontras um inimigo mil anos mais novo que não tem qualquer recordação de ti?
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