Durante os 2 dias seguintes, Manta passou muito tempo preocupado - não que isso já não fosse um hábito seu - e a pensar. Não voltara a ver Hao desde o festival de Observação Lunar, e apesar de se ter tentado convencer que isso era pelo melhor, não podia fingir que a sua sensação de segurança estabilizara.
Ao longo de todo o resto do festival, Manta fingira estar fascinado com as dançarinas, e no entanto não conseguira evitar ouvir a conversa entre Hao e o Lorde Michinaga, assim como mais uma mão cheia de aristocratas. Todos pareciam respeitá-lo como o Lorde Michinaga, talvez até mais, a julgar pelos seus sussurros impressionados. O onmyōji respondera graciosamente aos seus elogios, mas não parecera gostar particularmente disso, muito diferente dos seus barulhentos pares.
De facto, Manta tivera a estranhíssima sensação que o venerado homem o estivera a observar umas duas vezes quando houvera pausas na conversa, mas não se atrevera a olhar para confirmar. Fixara os olhos resolutamente na lua enquanto o Lorde Michinaga relatara a sua história a Hao, e esperara que a sua cara não tivesse ficado demasiado vermelha.
Apesar de Hao ter simpatizado levemente com a difícil situação de Manta, o rapaz loiro ficara com a impressão que Hao não se deixara enganar. Isto, claro, só o fizera engolir em seco ainda mais.
E no entanto, não conseguira evitar reparar o quão... humano o onmyōji parecera. Não havia nada neste Hao que sugerisse algo sequer remotamente ameaçador. Nenhuma arrogância, nenhum instinto assassino, e acima de tudo, nenhum desprezo pela raça humana.
Mostrava isto o quanto uma pessoa podia mudar?
Neste momento, Manta estava a caminhar sem rumo pelos jardins sob o sol do amanhecer, a propriedade ainda em silêncio e adormecida, com Keiko atrás de si. Foi a primeira vez que viu bem toda a mansão, e até agora, estava fascinado. Os jardins também eram bonitos, com as folhas coloridas de Outono espalhadas por todo o lado, e as lentas ondulações do lago sob a brisa suave.
- Gostais da paisagem, Manta? - perguntou Keiko.
- O quê? Oh, sim... eu não costumava muito ver este tipo de coisa em casa, sabe - Manta respondeu entusiasmado.
Curiosidade atravessou o rosto de Keiko. - Não? Como é lá, então?
Uh-oh. - Bem, há paisagens... mas é maioritariamente só árvores e relva, e durante a Primavera podemos ver as flores... só isso. - Aquilo era o mais próximo da verdade sem mencionar arranha-céus.
- Bem, devíeis ver a propriedade durante a Primavera, então - disse Keiko, parecendo agradada com a apreço dele. - Quando as flores de cerejeira começavam a desabrochar, é deveras uma imagem espectacular.
- Tenho a certeza que sim - Manta lembrava-se vagamente das flores de cerejeira do Japão do século XX, quando o pai o levara a ele e à família a algum evento de trabalho. Isso fora antes de conhecer Yoh, e antes de toda a sua vida passar a se resumir a ter as notas mais altas...
Prosseguiram para um silêncio confortável, não sentindo nem pressão nem uma sensação de urgência. Seria tão bom se todos os dias fossem assim... reflectiu Manta. Nada com que entrar em pânico... nada com que me preocupar... A total paz afastou até o problema de regressar a casa para o fundo da sua mente por agora. O Yoh iria gostar tanto disto aqui...
- É agradável, não é?
Manta quase caiu da pequena ponte que estava a atravessar, e teria ido directo para o lago se uma mão firme não o tivesse apanhado a tempo.
- Manta, estais bem? - a voz preocupada de Keiko aproximou-se dele.
- S-sim, estou bem - gaguejou Manta, e olhou para cima para a pessoa que o segurava firmemente pelo braço. Engoliu em seco.
Asakura Hao olhou para baixo para ele, e apesar de todas as suas vestes volumosas e porte elevado, os seus olhos cintilavam com o que parecia ser divertimento. - Ainda bem - disse ele agradavelmente. - Assustei-te assim tanto?
Manta sentiu como se a cara estivesse a arder. - Não - respondeu automaticamente. Quando Hao arqueou uma sobrancelha, sorriu de forma fraca. - Bem, na verdade, sim, não estava à espera que estivesse mais alguém aqui...
- Peço perdão - desculpou-se Hao, enquanto soltava Manta. - Estava a perguntar-me quem estaria de pé tão cedo. Não há muitas pessoas que desejem estar acordados a esta hora.
- Não conseguia dormir - disse Manta honestamente. - E encontrei a Keiko-san acordada também, por isso ela veio comigo.
- Bom dia, Hao-sama - cumprimentou Keiko, curvando-se numa pequena vénia.
- Bom dia, Keiko - respondeu Hao educadamente. - Fizeste um esplêndido trabalho a preparar o festival de Observação Lunar. Ouvi dizer que Lorde Michinaga e os seus ministros acham que tudo estava de acordo com os parâmetros.
Talvez fosse a imaginação hiperativa de Manta, mas poderia ter jurado que viu um toque de vermelho aparecer no rosto de Keiko ao acenar em agradecimento pelo elogio.
- Também não conseguiu dormir? - perguntou Manta, incapaz de pensar em mais nada para dizer. Não baixaria a guarda de maneira alguma, não importava o quão inofensivo este Hao aparentasse ser, e estava determinado em manter-se por tópicos seguros.
- Sou apenas madrugador - disse Hao com suavidade. - Gostaste do festival?
- Bastante, obrigado.
- Lorde Michinaga parece estar muito interessado em ti, Manta. - Hao ergueu um leque com um padrão intricado e deu-lhe uma pancadinha casual no ombro. - Assim como os outros nobres, já que falo nisso. Não que os culpe, claro.
- Er... estão? - Demasiado interessados para o meu gosto.
- Apesar de deverem parecer estar demasiado interessados para o teu gosto - comentou Hao. - Pareceste um pouco tenso com toda a atenção que recebeste há duas noites, se não te importas que o diga.
Manta ficou a olhar, e depois abanou-se. As emoções na sua cara eram apenas sempre deploravelmente fáceis de ler, só isso.
- Bem, não me visto como eles - resmoneou Manta. - Também não me pareço com eles.
- Estranhamente, não te condenam por isso - respondeu Hao. - Os Fujiwara, e muitos outros, normalmente tomam imenso cuidado com o seu aspecto assim como o dos seus pares. Especialmente as senhoras, na verdade.
- As mulheres passam-se sempre com o seu aspecto - comentou Manta secamente.
Hao riu-se com aquilo, e Manta ficou espantado com o quão despreocupado o som era, tão parecido com o Asakura Hao dos dias modernos. - Suponho que sim. Mas por favor recorda-te que temos uma mulher na nossa presença, por isso toma nota do que dizes.
Manta assustou-se, apercebendo-se que quase se esquecera da jovem criada. - D-Desculpe, Keiko-san! Não estou a dizer que é vaidosa ou assim, mas bem, é normal para as raparigas preocuparem-se se estão bonitas ou não, não que esteja a dizer que a Keiko-san não se preocupe, claro... - tagarelou Manta.
- Não estou ofendida, Manta - assegurou-o Keiko, sorrindo suavemente, tentando não deixar o seu divertimento transparecer. Hao, por seu lado, estava a rir com as divagações exageradas do rapaz loiro, que irrompiam em torrentes.
- Parece que as mulheres não são as únicas que entram em pânico - riu Hao. - Relaxa, Manta. A Keiko não é tão mesquinha.
- Não, não, não é... - balbuciou Manta, acalmando-se quase tão depressa quanto começara, agora sentindo-se extremamente constrangido. Porquê que tinha sempre de se descontrolar?
Hao apoiou-se no parapeito de madeira da ponte. - Mas não precisas mesmo de te sentir constrangido pelo interesse deles. Gostam bastante de ti.
- A sério? - perguntou Manta, esperançoso.
- A sério. Na verdade - um novo sorriso estendeu-se no rosto dele. - Algumas das senhoras dizem que te pareces com um adorável gatinho em ponto grande.
- Pareço-me com o quê? - Manta soou revoltado.
- Não precisas de ficar assim. Estão a elogiar-te.
- Mas, um gatinho em ponto grande? Pareço-me mesmo com um?
- Aparentemente, é o que pensam - disse Hao. - Que dizes tu, Keiko?
Pelo canto do olho, Manta conseguiu ver Keiko considerá-lo. Não se atreva, Keiko-san...
- Concordo, Hao-sama - confirmou Keiko, com toda a sinceridade.
Os residentes que já estavam a acordar conseguiram ouvir o som distante de gargalhadas de duas pessoas que geralmente nunca expressavam sons tão alegres.
Bem, lá se vai o não baixar a guarda, pensou Manta ironicamente. Ao longo da maior parte da conversa nos jardins, não estivera bem preocupado em se proteger contra o futuro piromaníaco, apesar de definitivamente não ser estúpido ao ponto de confiar totalmente nele.
Mas na verdade, Manta ponderou, o Hao original fora assim? Se sim, o que raio acontecera para alterar a sua visão dos humanos tão drasticamente? Acontecera algum incidente tão impactante que enfurecera este homem amável ao ponto de querer apagar todos os humanos do planeta?
Ou, a mesma voz desagradável que o atormentara há 2 dias atrás disse, ele estava só a tentar ganhar a tua confiança. Porque ele sabe.
Sabe o quê? O que - como - poderia Hao saber tudo sobre ele?
Livrando-se de pensamentos desnecessários, Manta tentou focar-se na sua comida. Estava a comer com vários residentes dentro da sala de refeições dos Fujiwara, juntamente com a Senhora Murasaki e as suas aias. Lá, Manta foi apresentado a várias outras pessoas, que incluíram os outros filhos do Lorde Michinaga.
A Senhora Murasaki tinha mais quatro irmãs, todas extremamente faladoras e amigáveis para com o seu novo convidado. Manta gostou bastante delas, apesar de parecerem gostar de o tratar um pouquinho demais como uma criança de cinco anos. Ou um animal de estimação muito adorável.
Ao longo da refeição, não conseguiu evitar comparar o vasto contraste entre a Senhora Murasaki e as suas irmãs. Enquanto que as irmãs eram vivazes e gostavam de conversar, Murasaki era calma - mas não era de maneira alguma aborrecida. Quando a conversa alternara para línguas e religião, a Senhora Murasaki demonstrara muito conhecimento do assunto, e impressionara todos - incluindo Manta - com algumas das suas opiniões. Aqui estava uma mulher que certamente herdara a inteligência afiada do pai, e os homens à mesa murmuravam acerca da sua impressionante educação, verdadeiramente digna de uma senhora da corte. Mas por alguma razão, Manta não se conseguia fazer gostar dela tanto quanto das irmãs. Parecia demasiada fria e calculista para seu gosto.
Também conheceu os três filhos do Lorde Michinaga, um dos quais foi apresentado como Yorimichi. Foi ele quem causou maior impacto em Manta, pois exalava charme e elegância, muito para admiração das senhoras. Era claro que ele também possuía conhecimento invejável. Compunha versos poéticos excepcionais com imensa facilidade, respondendo a cada verso dos outros homens quase de imediato. Isto valia-lhe o apreço quer dos homens, quer das mulheres.
- A propósito - Manta ouviu uma mulher a seu lado dizer a outra. - Como estão a correr os preparativos para o casamento?
- Bem, suponho. Ainda faltam três meses - respondeu a outra mulher, encolhendo os ombros.
- Preparativos para o casamento? - Manta não conseguiu evitar perguntar.
- Oh, sois novo aqui, portanto não sabeis... A filha mais velha vai casar-se com a família real daqui a alguns meses - respondeu a mulher. Manta seguiu o olhar dela para o topo da mesa, onde uma jovem mulher bonita estava a rir juntamente com outra irmã.
- Com o Imperador? - Manta não conseguia imaginar como alguém poderia casar com um rapaz que ainda nem estava na adolescência.
- Oh, não - uma mulher mais velha à sua frente contrariou. - Com o Príncipe Ichijo, o filho mais velho da família real. Ele irá tomar o lugar do jovem Imperador na tomada da decisão.
- Não será o Lorde Michinaga?
- O Lorde controla os assuntos de estado, claro, mas é o Imperador quem decide dar a sua aprovação ou não - respondeu a velhota. - Mas sim, é verdade que ainda é Fujiwara no Michinaga que exerce de facto o poder supremo, não o Imperador.
- O Príncipe é um bom partido para a Senhora Akiko - uma mulher mais nova comentou.
- Ora, eu digo que deveria ser a Senhora Murasaki a casar - disse a velhota de forma firme mas discreta, com cuidado para que a filha mais velha não ouvisse. - A sua inteligência provar-se-ia um benefício para a realeza.
- Mas o Príncipe Ichijo tem os seus olhos fixos apenas na Senhora Akiko, e diz que apenas se casará com ela...
- Isso importa, de facto? Desde que uma filha dos Fujiwara se case com a família real, o reinado dos Fujiwara florescerá de certo...
Manta desligou-se da restante conversa, e olhou de esguelha para a Senhora Murasaki. Ficou bastante espantado com o olhar gelado no seu rosto, que de alguma forma se aguçara ainda mais. Teria sido por ter ouvido a discussão deles?
Como se tivesse conseguido sentir os olhos sobre si, a Senhora Murasaki voltou o olhar rapidamente para Manta, que baixou então a cabeça e começou a atulhar a boca de arroz.
Já era de noite quando Manta se voltou a cruzar com Hao, desta vez nos corredores.
- Boa noite - cumprimentou Hao formalmente. - Vais voltar para o teu quarto?
- Vou sim - respondeu Manta, endireitando-se inconscientemente. - A Keiko-san pediu-me para me preparar antes de descer para mais um convívio. Para ouvir música de corte ou assim.
- Também vou lá para baixo - disse Hao. Parecia bastante cansado com a ideia.
- Estás cansado?
Hao pareceu apanhado de surpresa, de uma forma muito pouco característica, pela pergunta, e Manta ficou imediatamente tenso. Mas a expressão desapareceu rapidamente, e o onmyōji relaxou num pequeno sorriso. - Estou, na verdade. Mas prometi estar no convívio esta noite, por isso não há escapatória, receio. - Riu tristemente.
- Porque é que estás cansado? - perguntou Manta preocupado, apesar de tudo.
- Tive de comparecer a uma reunião na assembleia imperial à pouco. Todo o género de disputas para resolver. - Desilusão e reprovação pareciam permanecer no seu rosto.
Manta já vira aquele tipo de expressão na cara do pai, talvez depois de lidar com clientes complicados, e interrupções no trabalho. - Talvez devesses ir descansar primeiro - sugeriu Manta.
- Obrigado, Manta - disse Hao. - Mas a família real requisitou a minha presença em breve.
Manta franziu o rosto. - Isso parece difícil.
- Não pode ser evitado. Vejo-te mais tarde, Manta.
- Até depois então. - Com aquilo, Manta voltou-se e correu até ao quarto, os pés a bater contra o chão de madeira. Não viu Hao a olhar pensativamente para ele até virar uma esquina e desaparecer.
Foi bom não haver ninguém por perto, porque no momento em que abriu a porta do quarto, gritou em choque. Pois estavam várias criaturas a vaguear pelo chão, assim como espectros transparentes a pairar no tecto. Manta demorou vários segundos a reconhecer os espectros como espíritos.
- Consegues ver-nos, rapaz? - um fantasma na forma de um idoso perguntou, espreitando para baixo em curiosidade.
- S-sim - assentiu Manta.
- Isso é raro - outro fantasma, uma criança pequena, comentou. - Aqueles que nos conseguem ver são normalmente shamans, como o Hao-sama.
Hao-sama? Então estes fantasmas também conhecem o Hao...
- Conheces bem o Hao-sama? - a criança dirigiu-se a Manta.
- Conheço - admitiu Manta.
- Bem, foi uma pergunta estúpida, hã, toda a gente conhece. Mas não és um shaman, pois não? - Manta abanou a cabeça.
- Pronto, pronto, vamos lá embora agora - disse o velho firmemente. - O convívio vai começar não tarda, e não gosto do barulho... Adeus, jovem.
- Adeus. - Os fantasmas e as estranhas criaturas deixaram então o quarto numa névoa; menos uma. Um coelhinho parecido a gelatina, pequeno e branco, estava a olhar para Manta curiosamente. Apesar de os seus olhos estarem distorcidos de forma estranha, Manta achou a pequena criatura bastante adorável.
- Olá - cumprimentou Manta, curvando-se e dando-lhe uma festinha na cabeça. - O meu nome é Manta. - Perguntou-se se a criatura o conseguia sequer perceber.
A criatura pareceu gostar da atenção, e começou a esfregar-se contra a mão de Manta. O rapaz não pôde evitar rir um pouco.
Sem que nenhum deles soubesse, um par de olhos cheios de malícia estavam a espreitar para o quarto antes de desaparecem.
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fim do capítulo 3
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