Nota pt-pt para pt-br:

- relembrando: "rapariga" é o mesmo de "moça"

- "gozar" é o mesmo que "troçar", "debochar", "rir de". Não tem o mesmo significado que em pt-br.


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Mais uma vez, a performance e a decoração geral estava esplêndida, apesar de o convívio ser supostamente um encontro casual. Desta vez, Keiko desceu com Manta e juntou-se ao resto da criadagem da propriedade. Os sons ricos das pessoas a falarem e rirem ecoaram pelas paredes da câmara, juntamente com o cheiro de comida e bebida no ar. Manta estava empoleirado num banquinho rudemente talhado, agitando as suas curtas pernas para a frente e para trás distraidamente.

Espreitara pela multidão e achara Hao sentado juntamente com o que só podiam ser outros onmyōji. Tinham claramente o espaço de enorme prestígio, especialmente Hao, que parecia ser o líder dos outros dez monges. Ao seu lado estavam os membros de mais alto escalão dos Fujiwara, incluindo o Lorde Michinaga e os seus filhos.

Hao não parecia reparar nele, profundamente imerso em conversa com o Lorde Michinaga. A Manta, a troca de palavras não parecia ser uma jovial, pelo menos da parte de Hao. Não conseguia ouvir do que falavam por entre a cacofonia, mas o Lorde Michinaga parecia estar agradado com alguma coisa. Hao, aparentemente, pensava de outra forma, pois a amostra de uma sombra escura atravessou o seu rosto gentil. Mas Manta duvidava que mais alguém que não ele tivesse reparado, especialmente Michinaga, que estava demasiado imerso na sua própria felicidade. No entanto, o onmyōji tentou aliviar a sua expressão tão depressa quanto ela aparecera, e substituiu-a por um pequeno sorriso ao murmurar palavras em resposta ao Lorde Michinaga.

- Não é habitual, pois não? - disse uma criada a Keiko ao seu lado. - Um convívio tão célere após tal festival tão grande?

- Não sei - respondeu Keiko. - É raro que toda a gente nesta casa esteja aqui para uma ocasião tão normal. Vede, até Michinaga-sama e os outros membros dos Asakura aqui estão.

A última frase puxou Manta para fora do seu devaneio com um enorme choque. - Quem é que está aqui? - perguntou apressadamente, os olhos esbugalhados.

Keiko pareceu surpresa com a urgência dele, mas respondeu-lhe de qualquer das formas. - Michinaga-sama e a família Asakura. São onmyōji sob tutela de Hao-sama. Embora, claro, hajam mais Asakura excluindo eles.

- Eh? - Manta olhou para os dez videntes e pestanejou diversas vezes. Ali, mesmo à sua frente, estavam os tris-tris-tris-trisavós ancestrais de Yoh.

Então isso queria dizer...

- Passa-se algo de errado? - inquiriu Keiko, confusa.

- N-nada, nada...

Felizmente, foi interrompido pelo silêncio que caíra subitamente na multidão ruidosa. Manta ficou confuso por apenas um momento, antes de uma fila de pessoas bem vestidas entrar na sala.

Tinham de facto um ar de grande dominância, com as suas cabeças erguidas bem alto e as costas muito direitas. A sua entrada inesperada chocou a multidão para o silêncio, mas rapidamente se ouviram murmúrios por todo o lado.

- É a família real?

- O que fazem eles aqui?

- Não sei...

- Família real? - arquejou Manta. - Porque é que eles estão aqui?

- Talvez seja por eles que tenhamos sido todos chamados - respondeu Keiko, olhando atentamente.

À cabeça da fila estava um jovem homem bonito, que parou em frente do Lorde Michinaga enquanto este se erguia do lugar para trocar algumas saudações agradadas com o homem.

- Atenção a todos - entoou o Lorde Michinada, parecendo mais feliz do que nunca. - Tenho grandes notícias para partilhar com todos vós. Estaríeis talvez a interrogar-vos acerca da razão para esta reunião. Pois bem, é do meu enorme prazer anunciar que o casamento iminente da minha filha primogénita, Akiko, e o estimado Príncipe Ichijo, será antecipado. O casamento será celebrado daqui a um mês, em vez dos originalmente planeados três meses.

O espanto momentâneo rapidamente deu lugar a altos festejos e conversas excitadas que praticamente fervilhavam de pessoa para pessoa. - Um mês! - várias mulheres perto de Manta guincharam.

- Não posso acreditar!

- Oh, espero que haja tempo suficiente para preparar...

- Então e as prendas matrimoniais?

Lorde Michinaga, parecendo satisfeito com a recepção da notícia, ergueu a mão. Imediatamente, ficaram todos em silêncio.

Mas não foi ele que falou em seguida. - Estou muito feliz - disse o Príncipe Ichijo, sorrindo. - E muito orgulhoso também. É uma enorme felicidade poder casar com a Senhora Akiko. - Ao dizê-lo, voltou a cabeça para a bela senhora, que parecia à beira de lágrimas de felicidade ao tomar a sua deixa e se levantar para segurar a mão do Príncipe Ichijo.

Um novo clamor fez-se ouvir, mais alto e triunfante do que antes. Todos bateram palmas loucamente, e começaram a falar todos ao mesmo tempo.

- É óptimo, não é? - disse Manta a Keiko alegremente. Ao contrário de muitos casamentos arranjados entre a nobreza de que ouvira falar antes, o do Príncipe Ichijo e da Senhora Akiko parecia ser um de verdadeiro amor, e Manta não conseguiu impedir um sorriso de se formar no seu rosto.

Na sua alegria, Manta não reparou no desagrado mal disfarçado no rosto de uma certa senhora, que ela tentou disfarçar a custo com um sorriso de lábios apertados. O onmyōji, no entanto, era muito mais observador e fechou os olhos em resignação.

Ninguém reparou no pequeno sorrisinho que se formou nos lábios num indivíduo diferente.


Por entre todas as distracções, Manta tinha-se quase esquecido do quão estranho ele era considerado nesta fortaleza aristocrática da era Heian. A sua memória foi refrescada quando finalmente começou a reparar nas muitas pessoas que atiravam olhares curiosos às suas roupas enquanto as pessoas deixavam a câmara após a reunião.

No dia seguinte, Manta acordou com azáfama vigorosa, quando embalagens extravagantemente embrulhadas eram enviadas de um lado para o outro. Tiravam-se pedaços de tecido, diferentes junihitoe eram costurados (para grande deleite das senhoras), e raparigas excitadas falavam sem parar sobre o casamento que se avizinhava.

O rapaz loiro conseguiu finalmente arrancar-se do grande hoo-ha que estava a ser feito pelas irmãs Fujiwara ao pequeno-almoço e caminhou vivamente. Até se aperceber que não fazia ideia para onde estar a ir.

Esbofeteando-se mentalmente de novo, Manta tentou encontrar Keiko para lhe pedir direcções, mas por entre o incontável aumento de residentes que vagueavam pelos corredores, ela parecia ter desaparecido misteriosamente. Deve estar provavelmente nas cozinhas ou escondida algures, pensou Manta com uma careta.

Portanto não tinha outra escolha que não perguntar às pessoas que passavam, o que era mais fácil dizer do que fazer, já que ninguém parecia ter tempo para sequer olhar para ele (para variar), quanto mais para falar com ele.

Manta conseguiu por fim reunir pedaços de informação suficientes, e dirigiu-se para onde os Asakura supostamente residiam. Muitos tinham olhado de forma estranha quando Manta lhes perguntara pela sua localização, pois a família Asakura, embora respeitada, era geralmente deixada em paz excepto em momentos de aconselhamento e preocupação.

Gradualmente, o silêncio começou a sobrepôr-se aos ruídos apressados enquanto Manta se dirigia a uma área mais deserta. Manta começou a ensaiar o que ia dizer.

Hmmm... Desculpe, mas estou mais ou menos com um problema - isto enquanto imaginava uma figura alta e sem rosto. - Sabe, eu fui enviado 1000 anos para o passado, daí estar assim vestido. Será que pode enviar-me de volta para o meu tempo, por favor?

Até para ele, as palavras soavam malucas.

Manta suspirou. - Virar à esquerda... na roseira... - murmurou para si, concentrando-se no passo.

- O que faz um pequeno rapaz aqui? - uma voz suave e pequena perguntou, como se apenas a murmurar para si.

Manta ficou pregado ao chão e voltou-se bruscamente para a voz inesperada. Mas tudo o que viu foi... um gato.

Ah, um gato.

- Quer dizer que me conseguis ouvir? - disse o gato, olhos a pestanejar de espanto.

Mas o espanto que o gato demonstrou não foi nada comparado com a reacção de Manta. - Um... um... um... g-gato! NEKO! O gato fala! - berrou, saltando quase meio metro no ar.

- Por favor acalmai-vos, rapaz - respondeu o gato, irritado. - Esta é mesmo a vossa primeira vez a ouvir um gato falar?

- Porque estás a... Eu nunca... Deuses, claro que nunca ouvi um gato falar! Não ajas como se fosse tipo, tipo, tipo, normal ou assim! - gaguejou Manta.

O gato, com o seu pêlo acastanhado e orelhas pontiagudas, escrutinou Manta atentamente da sua posição no parapeito. - Não sois um shaman?

O rapaz loiro pestanejou, temporariamente atordoado. - S-shaman? Não, não sou.

- Mas conseguis ver espíritos?

- Sim... - A voz de Manta falhou quando se começou a aperceber. - Queres dizer que também és um espírito?

- Não

Pestanejou. - Hã... já sei! Um demónio?

- Não.

- Fada?

- NÃO.

- Então és o quê?

- Um gato.

- Isso eu sei! - guinchou Manta, voltando a perder o controlo. - Porque é que estás a... a...

- A falar?

Pela terceira vez em dois dias, Manta quase voltou a ter outro ataque cardíaco.

- H-hao... - Manta respondeu fracamente, esquecendo-se de acrescentar o honorífico depois do nome.

O onmyōji olhou para o rapaz loiro caído sobre o traseiro com uma expressão próxima da surpresa. - Não sabia que conseguias ver espíritos, Manta.

Manta coçou a cabeça, tentando acalmar o ritmo cardíaco. - S-sim, mas só depois de ter conhecido o... alguém. Não conseguia ver até aos 13 anos.

- Deveras? - disse Hao pensativamente.

- Hmm. - Manta olhou para o estranho animal, franzindo o rosto.

Hao aparentemente reparou nisto, pois sorriu e disse: - Ah, as minhas desculpas. Esqueci-me de vos apresentar. Manta, este é o Matamune. Matamune, Manta.

O gato, Matamune, levantou-se da sua posição confortável e curvou-se. - Prazer em conhecer-vos, Manta.

- Hã, pois, prazer em conhecer-te também - respondeu Manta, um pouco atordoado pelo cumprimento formal. - Então... o que és, exactamente?

- Sou um Goryōshin - entoou Matamune, erguendo a cabeça para encarar o olhar de Manta.

- Goryōshin?

- São um tipo especial de espíritos empregues por onmyōji para os proteger de outros espíritos que queiram atentar contra eles - explicou Hao. - O Matamune já está, tecnicamente, morto. Mas o seu espírito converteu-se num Goryōshin, que me protege.

Manta registou a informação enquanto assentia em compreensão, mas após inspecção mais atenta, apercebeu-se que algo estava mal. - Mas se o Matamune é um espírito... - começou. - Como é que parece tão... sólido?

- Graças a isto. - Matamune gesticulou com uma pata felpuda para o seu pescoço, onde Manta reparou, pela primeira vez, que pendia um colar que se parecia com a garra de um urso. - Hao-sama embebeu o seu furyoku, se é que sabeis o que isso é, neste colar para me conceder forma física. É por esta razão que o meu espírito não desaparecerá.

- Oh... não sabia isso. Sempre pensei que o furyoku só servia para combater - disse Manta.

Hao inclinou a cabeça ligeiramente para estudar Manta. - Tens alguns amigos shamans?

Manta hesitou. Mas esta verdade não podia prejudicá-lo. - Sim - admitiu finalmente. - Tenho. Tudo o que os vi fazer foi lutar com o furyoku deles, para, hã, combates. - Combates no Shaman Fight. O torneio que querias ganhar para eliminar todos os humanos como eu. Manta teve de reprimir um arrepio ao lembrar-se involuntariamente com quem estava de facto a falar.

Algo semelhante a confusão voltou a atravessar os olhos de Hao, tão pequeno e rápido que Manta mal reparou.

- És corajoso - disse Hao de repente.

- Hã?

Hao esboçou um sorriso tão terno, e no entanto, tão amargurado ao mesmo tempo, mais aparente do que da primeira vez que Manta o viu no Período Heian. - Muitos humanos não desejam ter nada a ver com shamans, muito menos ser amigos deles. Não tiveste medo, especialmente se só viste fantasmas aos 13 anos?

- Haha - riu o rapaz loiro, constrangido, coçando a cabeça. - Tive, a princípio. Vi-os a rodear o meu amigo num cemitério a primeira vez que o conheci, e fugi. E depois disso, vi o meu amigo de novo no dia seguinte, e sabes que mais? Ele disse que não me conhecia de lado nenhum! Muita gente gozou comigo, disseram que tinha uma imaginação hiperactiva, e eu segui-o para tirar fotos... quero dizer, arranjar provas que não era maluco ou assim... então uma coisa levou a outra, levei uma tareia de uns bandidos, mas no final, ele salvou-me, sabes, usando a Possessão de Espíritos. Passei mais ou menos a segui-lo depois disso.

Silêncio acompanhou esta revelação, e o rapaz loiro começou a remexer-se passado um pouco. Manta teve a sensação muito desconfortável de ter falado demais.

Manta... seu idiota... E se Hao começasse a fazer perguntas complicadas sobre este amigo?

Não precisava de se preocupar com isso. - Então, o que estás a fazer aqui? - perguntou Hao.

Complicada... mas não a que esperava.

- Ah - fez Manta, sem fôlego. Quase se esquecera do motivo porque estava ali para começar. - Bem, hã... eu estava à procura dos Asakura.

Hao arqueou as sobrancelhas. - A sério? Porquê?

- ...vai soar de loucos - encolheu-se Manta.

Hao abanou uma mão. - Quase todos os casos apresentados à família Asakura são. Experimenta.

- Acreditavas em mim se dissesse que venho de há 1000 anos no futuro?

Seguiu-se um novo silêncio, mais prolongado e de alguma forma ridiculamente vazio. Quando Manta tentou estudar a reacção de Hao, conseguiu finalmente apreciar a descrença dos colegas quando lhes falou sobre fantasmas a primeira vez. Mas a diferença era que estava em frente de um shaman, e a pergunta que Manta colocara fazia mais sentido do que se fosse feita a um humano comum.

- Sim, acreditava - respondeu Hao com simplicidade.

Surpreendentemente, Manta não achou estranho que Hao aceitasse a situação com tanta relativa facilidade. A verdade era que há muito que Manta via este homem como um ser inabalável, que revelar emoções mundanas como surpresa pareceria pouco característico.

- Importas-te de explicar? - perguntou Hao gentilmente.

- Eu... eu não acho que possa.

- Muito bem. - Hao abandonou o assunto tão facilmente quanto Yoh teria feito. - Demorará tempo... mas vou tentar retornar-te ao teu tempo.

- A sério? Vais? Oh, obrigado! Muito obrigado! - exclamou Manta em agradecimento, as palavras a saírem em torrentes enquanto batia palmas de felicidade. Tão grande era a sua alegria pela perspectiva de regressar a Yoh e aos outros que quase se esqueceu do seu medo do piromaníaco; ou pelo menos como ele era conhecido um milénio depois. - Então até depois! - Com essa separação meio abrupta e alegre, foi-se embora a correr na direcção oposta.

O onmyōji e Matamune fitaram a pequena figura que se afastava. - Que rapaz estranho - comentou Matamune. O gato voltou-se para o seu mestre após um momento, pois Hao não respondera.

- Acreditais na sua história sobre vir do futuro, Hao-sama? - perguntou Matamune com curiosidade. - Porque é... bem, quase impossível para um mero rapaz humano viajar no tempo.

- Ele está a dizer a verdade - respondeu Hao suavemente. - Nenhum mentiroso usaria uma desculpa tão incrédula.

Matamune fitou o onmyōji por alguns segundos. - Bem, vós saberíeis. Esse vosso poder vê tudo.

- Uma faca de dois gumes, de facto - denotou Hao tristemente, o seu rosto contorcendo-se numa mistura de mágoa e quase ódio. - Mas não tudo, Matamune.

- Aquele rapaz, Manta; tudo nele é tão fácil de ler, mas há vezes, muitas, em que não consigo olhar para a mente dele - Hao respondeu ao olhar inquiridor do gato. Hao voltou-se para se sentar no parapeito ao lado de Matamune. - Talvez esteja relacionado com a passagem de tempo pela qual ele atravessou.

Matamune inclinou a cabeça. - Se me permitis - começou ele respeitosamente. - Parecesseis notavelmente interessado naquele rapaz. E não tem somente a ver com a viagem no tempo, pois não?

- Ele traz-me uma certa sensação de paz, e no entanto, sinto que ele sabe algo acerca de mim que nem eu sei. - Hao suspirou, fechando nos olhos. - Não gosto disso.

- Concordo com a última parte - comentou Matamune secamente. - Mas uma sensação de paz? O seu histerismo há pouco contradiz essa afirmação.

Abrindo os olhos, Hao riu. - O que quero dizer é, ele tem uma boa alma. Não procura benefícios de altos cargos, nem pensa em aproveitar-se de ninguém, pese embora tenha o favor de Lorde Michinaga. A sua inocência não é provável de ser corrompida.

- É tão diferente do que estais acostumado, não é? - Não era uma pergunta. - Hao-sama.

Como se não desejasse pensar nisso, Hao levantou-se. - É precisamente pelo que atormenta... tantos outros espíritos, que farei o meu melhor para ajudar o rapaz. - Começou a caminhar de volta para os seus aposentos. - Ou não tarda será apanhado na disputa de poder que se avizinha, ou que já está a decorrer. Ele não estará seguro aqui.

- O que acontecerá ao rapaz se não partir, Hao-sama? - perguntou Matamune à distância.

- Desfruta do pôr do sol, Matamune - disse Hao, sem responder de todo à pergunta. Mas antes que o gato pudesse insistir mais, não que não soubesse que seria fútil, o onmyōji desapareceu.

Matamune suspirou e olhou para baixo para o pavimento de madeira. Sabia que o seu mestre nunca admitiria a sua própria tortura diária da sua alma tão abertamente, nem sequer ao seu confidente mais íntimo. Por vezes, perguntava-se se estaria a fazer o suficiente pelo homem que merecera o seu total respeito e confiança. Perguntava-se se seria amigo o suficiente.

Mas por muito que se importasse com o seu mestre, será que Hao confiava nele? Matamune sentiu-se profundamente envergonhado por estar a exigir mais da pessoa que o salvara daqueles dias negros nas ruas infestadas de morte, e que tomara conta dele depois. Mas frequentemente se via a desejar que Hao aprendesse a confiar mais nele, e lhe confiasse mais os seus problemas. Por vezes, sentia-se tão inútil, quando não podia ajudar a partilhar o peso do fardo que o onmyōji há tanto carregava, mesmo após receber a benevolência de Hao em muitas, muitas ocasiões. A vida não fora amável para Asakura Hao, e os seus sofrimentos haviam-no deixado cicatrizado e incapaz de confiar.

Como o posso ajudar?

O gato pensou brevemente que, se ao menos houvesse alguém disposto a ser amigo de Hao - talvez esse alguém pudesse fazer o que Matamune não conseguia, apaziguar a miséria que Hao enfrentava todos e cada dia, por culpa daquele poder maldito.


A noite já havia caído, e muitos tinham-se retirado para os seus quartos após um dia exaustivo de actividades. De momento, Manta estava a dormir pacificamente no seu futon.

O mesmo não podia ser dito de duas figuras que permaneciam na periferia da floresta perto da propriedade dos Fujiwara.

- Bem - uma voz irritada pertencente a Yorimichi, o homem encantador que Manta conhecera no dia anterior. - Chamastes-me do meu muito necessário sono nesta hora desolada e perigosa. O que requeris de mim, Onee-san?

- Não me venhas com "Onee-san" - sibilou Senhora Murasaki, os olhos brilhantes. - Sabes perfeitamente porque estás aqui.

Yorimichi suspirou em desilusão trocista. - Onee-san, ouve-me. - O título respeitável soou mais como brincalhão e trocista. - Não era minha intenção acelerar o casamento da nossa irmã mais velha. Devias saber que o Pai possui o poder decisivo de tomar decisões. Por enquanto, pelo menos. - O sorriso sarcástico nos seus lábios tornou-se mais pronunciado do que nunca.

- E no entanto não estás a fazer absolutamente nada acerca disso - disse Murasaki, irada. - Já te disse uma dúzia de vezes antes que casar com o Príncipe Ichijo é o meu trunfo para ganhar reconhecimento da família real e de todo Heian-Kyo! Um mês, Yorimichi, um mês! Aqui estou eu, a dar o meu melhor para te ajudar no teu percurso para uma posição de poder, e tu não estás a fazer nada para o nosso acordo.

- Não estou a fazer nada? - Por fim, o sorriso no rosto de Yorimichi deu lugar a um desagrado que combinava com o da irmã. - Se eu tentasse algo que atraísse a atenção de alguém, incluindo a tua, o nosso pai teria de imediato pressentido algo de errado. Certamente sabe que ele não é um idiota? Deveria compreender isso com clareza, já que dizem que esse seu intelecto é herdado de nosso pai.

- Se não fizesse nada, não seria capaz de alcançar o topo sem a sua assistência - continuou ele. - Sei disto muito bem, Murasaki! Crês que me atrevo a renegar a nossa promessa?

Passou-se um ou dois momentos sem palavras após esta declaração. Por fim, a Senhora Murasaki falou: - Muito bem - disse num tom entrecortado. - Vou confiar em ti desta vez. As minhas ligações com os ministros que assistem o nosso irmão mais velho, que será o herdeiro da família Fujiwara, estão a desenrolar bem. No entanto, está a provar ser... difícil para alguns divergir da tradição. Muitos temem a ira do Pai em caso te apoiem.

- Claro que temem - resfolegou Yorimichi.- Daí que já não procuro mais o lugar do nosso irmão. Derrubar o nosso pai seria o melhor atalho.

- Fá-lo soar tão fácil - disse Murasaki desdenhosamente. - Como raios pensas fazer isso?

Yorimichi sorriu. - Ah, felizmente, há uma maneira.

- Oh?

- O rapaz. Oyamada Manta, é assim que se chama, não é?

Murasaki arqueou uma sobrancelha delicada. - Ele? Quão útil pode ele ser?

- Ao usá-lo, podemos assegurar a minha subida ao poder, e o teu casamento com o Príncipe Ichijo em simultâneo.

- Explica-te.

Yorimichi inclinou-se um pouco para a frente. - Porque - murmurou deliberadamente, apesar de não haver ninguém por perto. - Ele consegue ver fantasmas, Onee-san.

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fim do capítulo 4