Nota pt-pt para pt-br:
- "giro" é o mesmo que "engraçado", "bonito". No original é "fun", que seria melhor traduzido para "fixe" (o mesmo que "legal"), mas achei demasiado contemporâneo para o Hao.
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Manta cantarolou para si próprio enquanto caminhava na direcção do ponto designado onde devia encontrar-se com Keiko, o lugar onde vira o Imperador durante o Festival de Observação Lunar. A jovem empregada prometera mostrar-lhe partes da mansão onde nunca fora antes (com autorização do próprio Lorde Michinaga) e a perspectiva animara bastante Manta. Ainda estava a tentar acostumar-se à vida na era Heian, mas começava a sentir-se mais em casa após persuadir Keiko a procurar um modelito menos conspícuo.
As roupas pareciam ser um pouco grandes demais para o seu porte pequeno, dando a Manta a estranha sensação de estar a boiar, mas até isto Keiko conseguira com enorme dificuldade, já que até as crianças eram maiores do que o rapaz loiro. Mas Manta agradecera a Keiko à mesma.
Ao longo da tarde, Manta vira e aprendera algumas coisas sobre o Período Heian. Como o facto de as mulheres serem encorajadas a ter uma educação superior, ou até consideradas iguais. Manta sempre achara que as mulheres no passado tinham sido oprimidas pelos homens e que a educação era impensável para elas, e que apenas as senhoras da aristocracia tinham hipótese de o fazer. Mas aqui, parecia que quase toda a literatura sobre a qual Manta perguntara casualmente fora escrita por mulheres.
Poesia era frequentemente usada para transmitir mensagens (conforme deduzido por inúmeros criados que andavam de um lado para o outro com pedaços de papel nas mãos), e outra forma de medir o nível de educação de alguém era julgar a qualidade dos poemas. Pessoalmente, Manta achava que isso era pretensioso, já que nunca fora pessoa de se vangloriar do seu vasto conhecimento geral (excepto quando envolvia Lee Pailong, Yoh, a sua amada Internet...), mas bem, cada um com a sua.
Internet? De repente, Manta sentiu-se ficar mais animado ao pensar no item precioso guardado em segurança na sua mochila da escola.
Ainda assim, divertira-se bastante a recontar melodias e poemas tolos da primária, que ele nem sequer se apercebera que se lembrava. Não conseguia bem distinguir a diferença entre um poema bom ou mau, mas Manta sabia que estavam longe de ser refinados ou bonitos. Quero dizer, pensou ele, quão refinado pode ser "Baa baa Ovelha Negra"?
Mas era interessante ensinar algo tão comum a pessoas do passado, desde que não começassem a registar canções infantis e arruinassem a linha do tempo. Manta passou horas a recitar algumas canções de embalar ocidentais como "Rock-a-bye-baby" e algumas mais engraçadas como "Peter Piper picked a peck of picked paper..." no pouco Inglês que sabia.
Também visitou a biblioteca, onde teve dificuldade a ler os manuscritos devido à diferente ordem de palavras e do uso ainda em desenvolvimento de hiragana. Muitos dos pergaminhos eram histórias escritas num estilo que Manta não conseguia compreender na totalidade, e a maioria eram escritas por mulheres. Manta recordou-se da professora de História a dizer que as mulheres normalmente só usavam hiragana em vez de Chinês e Kanji, que eram reservados maioritariamente apenas para homens. O Japão Heian no presente momento, aparentemente, começara a depender menos de relações diplomáticas com a China e estava a desenvolver a sua própria cultura, resultando na - falta de - hiragana como seu único sistema de escrita, em vez de Chinês.
Para sua grande desilusão, Manta não foi autorizado a aproximar-se a uma pequena secção de ensinamentos monges, que estavam quase escondidos fora de vista. Eram provavelmente considerados sagrados e valiosos, escritos em katakana, e isso era tudo o que Keiko sabia. Com um salto, Manta perguntou-se se a Chō Senji Ryakketsu estava escondida algures ali também.
Depois de visitas às câmaras dos aristocratas (todas as 20 ou assim), onde Manta foi barrado de entrar, a cozinha (que tinha o que parecia ser um exército de criados a correr de um lado para o outro), o salão de baile, o trono, os corredores sem fim, Manta sentiu que as pernas estavam a ceder. Keiko acenou em compreensão quando Manta finalmente confessou que ia desmaiar, e foi para o seu quarto descansar, mas também para conferir algo muito importante.
Depois de se certificar de que a porta estava firmemente fechada, Manta desenterrou o computador portátil da mochila. Permanecera intocado e praticamente esquecido, mas a sensação de algo tão moderno e ligado ao seu próprio mundo trouxe Manta de volta à terra, e relembrou-o que não estava a sonhar.
O rapaz loiro carregou no botão e sentiu o coração bater com força quando sentiu o súbito jorro de ar quente emanar da bateria quando o aparelho se ligou. Não sabia bem porque estava a fazer isto - era impossível ter acesso à Internet, por isso não podia sequer ir à sua conta de mensagens automáticas para contactar alguém 1000 anos mais tarde. Mas Manta estava apenas curioso como um produto do século XX funcionaria no século IX. E a sua curiosidade, uma vez provocada, exigia satisfação imediata.
O ecrã mostrava "Recuperando o Windows", o que Manta achou estranho. Da última vez que vira, tinha desligado o computador totalmente em vez de o colocar em hibernação.
Depressa descobriu a razão.
- WAAAAAAARRRRRGGGGGGHHHHHHHHHHH!
Manta gritou como se não houvesse amanhã e quase caiu para trás de choque. Pois imagens enormes, horrivelmente claras de mulheres parcamente vestidas - ou antes, mulheres despidas, ponto - encheram o ecrã por completo.
- O que... o quê... como, abuh... - gaguejou Manta, totalmente sem fôlego. Com a força de um touro, Manta lembrou-se de Ryu no seu computador uma semana antes de ter sido trazido para o Japão Heian. O homem vira Manta regressar após lavar um trilião de pratos, e fechara o computador à pressa, murmurando algo acerca de pesquisar sobre o Shaman Fight. Aparentemente, Ryu era estúpido ao ponto de o deixar em modo de hibernação sem sequer fechar as fotos. Manta nem sequer pensara nisso. Até agora.
- RyuuuuuUUUUUU - Manta rugiu a última sílaba como um cão enraivecido, afastando a cara como um chicote para longe das imagens ofensivas. - Estava a pesquisar por... por... por... PORNOGRAFIA!
- A pesquisar pelo quê? - uma voz confusa soou da ombreira da porta. E ali estava Asakura Hao, segurando o seu leque, espreitando Manta do cimo da sua grande altura.
- AAAAARRRRHHHHHHHHHH! - Manta soltou um grito ainda maior e lançou-se para o ecrã de corpo e alma, bloqueando tudo aquilo misericordiosamente.
- O que se passa? - perguntou Hao, genuinamente alarmado.
- É o mal - declarou Manta com uma determinação ardente. - É uma coisa maléfica, digo-te eu!
- O que é? - inquiriu Hao, meio dividido entre preocupação e divertimento. - Não posso ver?
- Não! Nem pensar! - gritou Manta, abraçando o computador ainda mais para perto com todo o desespero de um lunático. Ficou sem sangue de imaginar Hao a ver a... exibição colorida no ecrã. - És um monge, não posso corromper a tua virtude, não posso... - Entrou num devaneio incoerente antes de exigir: - Vira-te de costas primeiro.
Silêncio. - Por favor? - acrescentou humildemente.
Hao suspirou. - Muito bem. - Conforme as instruções, voltou-se totalmente de costas para Manta.
- Certo... - murmurou Manta, levantando-se de cima do ecrã. Fixou determinado a barra de tarefas ao mover o cursor para apagar cada vestígio de...
- Não sabia que tinhas tais hobbies, Manta - disse Hao.
Manta rodou, horrorizado por encontrar Hao a espreitar por cima do ombro directamente para as imagens no ecrã. A sua expressão estava completamente impassível, salvo um traço de sapiência orgulhosa com que Manta estava demasiado familiarizado.
- Di... DISSESTE QUE NÃO IAS OLHAR! - guinchou Manta, apontando loucamente um dedo trémulo para o onmyōji. Num frenesim fora de controlo, desligou o sistema todo, batendo com o ecrã ao fechá-lo antes de o monitor desligar.
- Só pediste para me virar. Virei-me - disse Hao descontraidamente, o seu sorriso divertido de novo iluminando as suas feições. - Mas foste tu que não especificaste durante quanto tempo.
- Eu nunca... o que tu... não importa - chiou Manta. - Seja como for, só para deixar as coisas claras: EU NÃO vejo aquelas coisas para me entreter, sou menor de idade! O meu amigo estava a usar o computador para pesquisar por... - Manta fechou a boca.
Hao inclinou a cabeça ligeiramente para o lado da mesma maneira que fazia sempre que considerava alguma coisa. - O que é um computador?
- Ehhh... uma coisa do meu tempo - respondeu Manta. - Sabes, é uma coisa que usas para pesquisar informação de bases online, e usamos a Internet para navegar websites ou procurar imagens, é mesmo muito útil... E às vezes podemos usá-la para guardar todos os nossos trabalhos de casa ou jogos ou música ou... - Voltou a parar de falar quando se apercebeu que Hao estava simplesmente a olhar para ele em silêncio.
- Desculpa - balbuciou Manta, envergonhado. - Não fazes ideia do que acabei de dizer, pois não?
- Não - respondeu Hao, fazendo um pequeno gesto com o leque que pareceu ser mais devido ao hábito do que ter algum significado real. - Mas provavelmente é bom eu não saber.
Manta sabia que ele estava certo. Saber demasiado sobre o futuro poderia causar uma confusão na linha temporal, e se Manta cometesse um único erro, podia deixar de existir no futuro.
A ideia levou Manta a outra pergunta. - Porque está aqui, Hao-sama? - Tropeçou um pouco no honorífico, uma vez que nunca pensara na prespectiva de se curvar perante Asakura Hao.
Hao pareceu também ele se ter relembrado do propósito da sua visita, mas foi interrompido por passos apressados. Um criado rechonchudo e esbaforido apareceu quase instantaneamente atrás de Hao, todo o seu comportamento frenético. - H-hao-sama - arquejou ele. - Perdão, mas parece haver um problema com as damas de companhia da Senhora Akiko! Por favor...
Hao não hesitou. Rodou rapidamente sobre os calcanhares e saiu do quarto de Manta sem uma palavra, o seu longo cabelo esvoaçando atrás dele. Lançando um rápido relance ao rapaz, o criado apressou-se atrás do onmyōji.
Atordoado, Manta limitou-se a ficar ali sentado a pestanejar, e então tomou uma decisão. - Ei, esperem por mim! Também quero ir! - gritou atrás das figuras que se afastavam enquanto os seus pés martelavam contra o chão de madeira.
O que estava ele ali a fazer, não sabia ao certo. Manta fora tomado por uma onda arrebatadora de culpa por antecipação, e fora atrás dos dois homens sem pensar duas vezes. Se tivesse parado para reflectir por um momento, o rapaz loiro ter-se-ia apercebido que esta emoção era comum sempre que Yoh ia para os seus combates shamans ou sempre que ia fazer alguma coisa heróica.
Mas quando Manta espreitou pelo lado da porta, a imagem à sua frente era muito mais terrível. Duas das damas de Akiko, que Manta vira serem alegres e educadas, estavam deitadas em dois futons separados, reduzidas a destroços pálidos e trémulos. O pior era que proferiam gemidos lastimáveis de dor que igualavam as suas expressões. Com o coração pesado, o rapaz sabia que isto estava além de uma qualquer doença normal.
Hao ajoelhou-se para mais perto para examinar as duas mulheres, a testa ligeiramente franzida. Quando se levantou por fim, acenou para o criado. - Estas damas não parecem estar possuídas por nenhum espírito. Talvez devessem convocar o médico em vez disso.
- Já o fizemos - respondeu o criado com uma cara entristecida. - Mas embora ele tenha sido capaz de diagnosticar que foram provavelmente envenenadas, foi incapaz de identificar o veneno ou como o curar. As únicas plantas venenosas por perto estão em jardins proibidos ou nas florestas circundantes, e o doutor está familiarizado com todas elas. Confirmou que os efeitos não resultam de nenhuma dessas plantas.
O onmyōji ergueu os olhos para o tecto, como se contemplasse algo. Apenas alguns segundos depois, falou: - Creio conhecer a solução. Leve-me ao Monte Fuji de imediato.
- M-monte Fuji, senhor? - gaguejou o criado. - Não a montanha sagrada?
- Sim - disse Hao firmemente. - Já.
- Claro, já, senhor - o criado respondeu rapidamente e saiu do quarto à pressa. Após dar várias instruções às criadas que cuidavam das mulheres doentes, Hao também se preparou para sair, mas não sem antes olhar para baixo para Manta.
- Queres vir, não queres?
A única resposta de Manta foi um sorriso humilde.
Nos minutos seguintes, Manta viu-se dentro de uma carruagem puxada por um boi, ao lado do onmyōji e do gato Matamune, que estava confortavelmente deitado no colo de Hao. Estava um pouco apertada, pois a carruagem só se destinava a uma pessoa, mas felizmente, o tamanho pequeno de Manta permitia que houvesse espaço.
- Regressaremos amanhã ao fim da manhã ou começo da tarde - Hao informou os guardas que supervisionavam a preparação da viagem. - Entretanto, passem a mensagem às criadas que ninguém deve entrar no quarto excepto elas e o médico. Desencorajem os Fujiwara de entrar.
- Certo - responderam os guardas em uníssono. Voltaram então os olhos para Manta.
- Hao-sama - um deles falou tentativamente. - Tendes a certeza que não haverá problema este rapaz ir convosco? Sei acerca de Matamune-san, mas...
- Está tudo bem - respondeu Hao com paciência mas também de forma simples. Reconhecendo a sílaba que deixava claro que não deviam fazer mais perguntas, os guardas recuaram imediatamente e curvaram-se.
Após se certificarem que todas as cordas e rodas estavam devidamente no lugar, o condutor fez sinal que podiam ir. Dentro de momentos, Manta sentiu a sacudidela da carruagem, e então ouviu o suave clip-clop do boi.
- Mas na verdade - começou Hao. - Porque queres vir também?
- Hã? Oh, bem, sabes... pensei que poderia ser giro ver o que há lá fora.
- Mera curiosidade, então?
O tom ligeiramente provocatório deixava implícito que o onmyōji sabia que havia mais para além disso. - Ou essa é apenas uma pequena parte da razão para vires comigo?
- Pronto - admitiu Manta, contrariado. - Quero saber como é o Japão de Heian, e também quero saber uma maneira para salvar as damas da Senhora Akiko...
- Mas também me queres sondar - finalizou Hao por ele. - Já que esta é uma boa oportunidade para uma conversa privada.
Manta lançou um olhar cauteloso à divisória de shoji, pensando no homem que levava o boi. Não querendo ser ouvido, baixou a voz e respondeu: - Sim.
- Na verdade, era acerca disso que queria falar contigo. - Hao coçou atrás das orelhas de Matamune distraidamente. O gato aninhou-se mais no seu colo, claramente apreciando o conforto.
- Descobriste alguma coisa? - perguntou Manta, ansioso.
- Não muito - admitiu Hao. - Mas há algum progresso. Viagens temporais estão a provar ser muito mais complexas do que pensei. Parece que ainda não aprendi tanto acerca das artes shamans quanto gosto de pensar.
- Complexas? Mas tu já escreveste... - De imediato, Manta interrompeu-se abruptamente, amaldiçoando-se.
- Escrevi o quê? - perguntou Hao, erguendo as sobrancelhas. Para sua consternação, Manta não gostou do olhar conhecedor nos olhos do onmyōji. Sugeria a habilidade perturbadora que sabia o que havia dentro da mente do rapaz loiro.
- Ah, não, esquece...
Como podia ser tão estúpido? Manta podia ter-se denunciado em apenas uma frase. Não era preciso ser-se engenheiro espacial para perceber que Hao ainda não acabara de escrever a Chō Senji Ryakketsu, e que o método de viagem temporal estava portanto ainda no seu estágio de desenvolvimento. Manta estremeceu quando pensou no quão perto estivera de confessar o seu conhecimento sobre o futuro Asakura Hao. - Mais alguma coisa?
- Qual é o teu verdadeiro local de nascimento? - perguntou Hao directamente.
- Bem...
- Assumo que não é Timbuktu.
Manta, pelo que parecia ser a centésima vez, sentiu os intestinos contorcerem-se de vergonha. - É o Japão, na verdade. Em Funbari Hill. Bem, não acho que tenhas ouvido falar. - Hao fez um som de concordância, e inclinou-se para trás.
Ficaram sentados em silêncio por algum tempo, apenas quebrado pelos suaves e periódicos miados de prazer que Matamune lançava enquanto Hao continuava a afagá-lo atrás das orelhas. Manta perguntou como é que as damas de Akiko tinham sido envenenadas, mas Hao apenas respondeu que não tinha importância de momento.
Era Outono, com uma matriz de folhas coloridas espalhadas por todo o lado, e Manta conseguia sentiu o vento frio que corria lá fora quando espreitou pela divisória de shoji. Mas a temperatura dentro da carruagem estava estranhamente amena, apesar de o rapaz loiro não estar sequer a usar um cachecol. Com um salto, Manta perguntou-se se seria graças ao controlo de Hao sobre os cinco elementos da natureza.
Manta apanhou vislumbres de várias vilas pelo caminho, onde camponeses se atarefavam, evitando a carruagem com um respeito assustado como se reconhecessem uma figura importante. Foi interessante durante um bocado, mas quando o tempo passou, Manta começou a sentir-se ensonado. Quão grande era a viagem, afinal?
Passaram-se algumas horas e a carruagem não mostrou sinais de abrandar. Se houvessem carros, pensou Manta exausto, isto ia provavelmente demorar menos de 2 horas. Cedendo por fim ao sono, o rapaz loiro adormeceu, e nem sequer acordou quando a carruagem foi conduzida por terrenos cada vez mais acidentados.
Manta acordou com um susto só quando sentiu uma mão a abaná-lo gentilmente. - Manta - chamou Hao de forma calma. - Chegámos.
- O quê...? - Ainda meio a dormir, Manta levantou-se do lugar e saiu da carruagem. Pestanejando, viu com um choque que já estava escuro. - É de noite? Já? - deixou escapar.
- O Inverno está a chegar, portanto os dias são mais curtos - respondeu Hao, acompanhando Manta na saída enquanto Matamune saltava para o chão.
Estavam numa área desolada, apercebeu-se Manta. Além deles, não havia uma alma à vista. Mas o que realmente chamou a sua atenção foi a paisagem magnífica à sua frente. Não tivera muitas chances de visitar o Monte Fuji no seu tempo, e vendo agora a gloriosa montanha de perto, mesmo na luz fraca, deixou-o sufocado num arquejo impressionado.
- Hao-sama - chamou o cocheiro. Manta reparou que ele parecia bastante apreensivo, lançando olhares cautelosos em frente.
- Sim, espere aqui - ordenou Hao. - Não precisa de se preocupar. Não nos acontecerá nada de mal daqui em frente. - O cocheiro pareceu mais tranquilo, apesar de ainda não perder a tensão nas suas feições.
- Hã... mal? - perguntou Manta em nervosismo enquanto o trio caminhou em direcção à montanha.
- Vamos para a floresta de Aokigahara, Manta - respondeu Hao. - Já ouviste falar sobre ela?
- Aoki...gahara? - repetiu Manta lentamente. Um súbito arrepio que não tinha nada a ver com a temperatura atravessou-o. - Mas não é esse o sítio onde...?
- Onde os humanos vão com frequência para cometer suicídio - confirmou Matamune inesperada mas gravemente.
Manta já lera sobre Aokigahara antes. A floresta de Aokigahara ficava na base do Monte Fuji, e era sinistramente descrita como "o lugar perfeito para morrer". Era conhecida como a floresta da morte, onde muitas pessoas cansadas de viver iam e encontravam uma inexplicável beleza em matarem-se na base do vulcão sagrado. Aparentemente, as mortes por suicídio neste local já eram galopantes na era Heian.
- Espero que não te sintas demasiado assustado - disse Hao calmamente. - Os espíritos não te irão magoar desde que não os perturbes, mas compreendo se não desejares entrar. Se em qualquer momento te sentires desconfortável, podes sempre regressar à carruagem.
Manta tomou uma golfada de ar. - Não, eu vou - anunciou, tentando manter a voz firme.
Hao sorriu de forma quase avaliadora para o rapaz. - Óptimo.
Caminharam com dificuldade em silêncio enquanto Manta dava o seu melhor para suprimir a sua crescente apreensão. Quando finalmente chegaram aos arredores da floresta, o seu medo surtiu efeito. Talvez fosse imaginação sua, mas a atmosfera que a rodeava emanava uma sensação de extrema animosidade. A forma como as árvores se agitavam arrepiaram Manta; era como se estivessem a sussurrar umas às outras.
- Vamos - disse Hao suavemente.
Contra o seu bom senso, Manta acompanhou-o, mantendo-se tão perto quanto possível do onmyōji. O suave toque do pêlo de Matamune contra a sua perna reconfortou-o um pouco, mas não muito. A escuridão era assombrosa, por isso Hao teve de iluminar a área com uma pequena bola de chamas que dançavam na palma da sua mão. Manta teve de resistir o impulso de se agarrar à manga de Hao quando as sombras que foram lançadas dançaram ameaçadoramente nas árvores.
Enquanto se embrenhavam mais, o som começou gradualmente a desaparecer, deixando uma compressão horrível nos ouvidos. Manta só conseguia ouvir o raspar arrepiante dos passos deles.
Sem aviso, uma súbita rajada de vento atravessou-os, fazendo as chamas estremecer vigorosamente. Mas o que realmente aterrorizou Manta não foi o movimento rápido dos contornos negros, mas um grito ecoante. Não foi exactamente muito claro ou estridente, mas foi muito pior, como se revibrasse na sua alma, nos confins da sua mente, e tapar os ouvidos para abafar o som não ajudou em nada. Manta sabia que alguma coisa - ou alguém - estava a gritar a sua agonia no vento.
- H-h-hao - gemeu Manta, rastejando ainda para mais perto do onmyōji. - Consigo senti-lo, alguém está a sofrer... Uma dor mesmo terrível...
Não houve resposta. Manta olhou para cima e viu, com outra ronda de medo mas também de preocupação, a expressão na cara de Hao.
- Hao-sama - chamou Matamune. O gato também parecia assustado com o semblante do seu mestre.
Hao estava curvado, agarrado ao peito com a mão livre, os olhos cerrados em angústia. A boca estava cerrada numa linha apertada, como se estivesse a tentar reprimir qualquer emoção de escapar. Por um momento que quase lhe parou o coração, Manta quase pensou que o onmyōji estava prestes a chorar. Estremeceu quando se apercebeu que a expressão de Hao espelhava na perfeição a agonia que o grito carregara.
- Ei, estás... estás bem? - gaguejou Manta, esticando-se cautelosamente para tocar na manga volumosa. O rapaz loiro nunca vira Hao desta forma antes. O grito afectara-o assim tanto?
- Ele só precisa de um pouco de tempo - declarou Matamune. A sua voz estava firme, mas Manta reparou que os seus olhos diziam outra coisa.
Segundos passaram-se enquanto Hao tentou estabilizar a respiração. Por fim, endireitou-se, e Manta ficou aliviado por ver que parecia menos transtornado do que antes, mas ainda em sofrimento. - Peço perdão - disse Hao de forma controlada. - Um lapso momentâneo. Vamos continuar, então?
Manta estava a roer-se para perguntar o que raios acabara de acontecer, mas tinha um palpite que nem Hao nem Matamune lhe iriam responder.
As suas questões, espanto e choque pelo encontro estavam a rodopiar tão furiosamente na sua cabeça que Manta até se esqueceu do seu medo inicial da floresta. Isso era uma coisa boa, já que o olhar de Manta estava maioritariamente fixo no chão irregular e não observou muito do que havia à sua volta. Se o tivesse feito, teria sofrido múltiplos ataques cardíacos e possivelmente pesadelos com alguns cadáveres pendurados de ramos, suicídios por enforcamento. Hao e Matamune, claro, não disseram nada.
Manta só notou algumas vezes que Hao contraiu o rosto de forma familiar como antes, mas não tão agitado como antes. Foi uma surpresa quando Hao parou mais tarde.
- Chegámos - anunciou Hao.
- Eh? Aqui? - Momentaneamente distraído, Manta olhou da direita para a esquerda. A massa de árvores parecia de facto terrivelmente densa. Estariam eles mesmo no coração da floresta? Para além das vozes deles e do ocasional grilo, todos os sons tinham sido completamente sufocados.
- Penso que nos embrenhámos o suficiente. Matamune, podes ajudar-me a procurar? - Hao dobrou-se sobre um joelho e escortinou a área enquanto falava.
- Certo. - Matamune começou a farejar, maioritariamente perto das raízes das árvores.
- Do que é que estão à procura? - perguntou Manta com curiosidade.
- É uma flor púrpura de quatro pétalas, e cresce em cachos - respondeu Hao sem olhar para cima. - Deverá estar perto das raízes das árvores. Podes ajudar-me a encontrá-la?
- É para já. - Manta juntou-se-lhes e começou a procurar.
Não era nada fácil, mesmo com a luz produzida pelas chamas de Hao. Eram mais fortes do que uma lanterna normal, mas ainda assim bastante fracas por entre toda a vegetação e não se conseguiam espalhar por toda a área. Para além disso, as raízes das árvores estavam tão entrelaçadas que Manta teve dificuldade em decifrar lugares específicos onde procurar, e tinha de estar constantemente atento a onde punha os pés.
Um grande pedaço do que parecia ser madeira preta um pouco mais à frente chamou a atenção de Manta. - O que é aquilo? - apontou.
Matamune surgiu atrás dele para examinar a massa preta. - Oh - disse o gato. - Aquilo é uma perna humana, creio.
Manta saltou violentamente e tropeçou para trás. - P-p-perna humana? - guinchou.
- O corpo deverá provavelmente ter sido devorado por animais - suspirou Matamune. - Javalis, talvez. É mórbido, bem sei, mas assim é a natureza. Os humanos morrem e regressam à terra e aos animais, repetindo o ciclo da vida. Nada deveria interferir com essa ordem natural.
- A-acho que sim - respondeu Manta sem muita convicção. Apesar de Matamune ter razão, não podia evitar tremer quando pensava na ideia de mais restos mortais humanos na floresta.
- Não fiqueis tão assustado. Estais a salvo desde que estejais com Hao-sama - o sábio gato tranquilizou-o. Matamune preparou-se para se afastar, as suas duas caudas agitando-se no ar. - Até mesmo de javalis selvagens. - Acrescentou aquela última parte como um pormenor de que se esquecera.
A nota travessa fez Manta sentir-se melhor e vulnerável ao mesmo tempo. - Não tenho medo de porcos!
Matamune estava prestes a responder, provavelmente para corrigir a interpretação de Manta de javalis e porcos, quando uma voz os interrompeu. - Matamune, Manta, venham cá.
O par regressou para a sua posição original e confirmou a pequena planta que Hao estava a segurar. Parecia-se um pouco com pequenos caramujos.
- Como podem ver - disse Hao sarcasticamente. - Encontrei-a mesmo atrás de vocês e sem qualquer ajuda vossa.
Manta corou, e até Matamune pareceu embaraçado. Murmuraram pedidos de desculpa, mas Hao não parecia desagradado.
- É bom ver-vos tornarem-se amigos - comentou Hao alegremente.
Fosse como fosse, Manta estava feliz que o ânimo de Hao tivesse melhorado consideravelmente. A saída da floresta foi menos tensa, devido à determinação de Manta em manter uma corrente constante de conversa sobre nada em particular para dispersar o medo. Por sorte, Hao e Matamune não pareceram importar-se muito, e talvez - Manta não conseguia ter a certeza - até tenham gostado até certo ponto.
Mais tarde, num capricho, Manta perguntou-se vagamente (ou antes, gostava de pensar) se o ambiente mais positivo influenciara os espíritos miseráveis a não chorarem os seus lamentos aos ventos.
Foi um alívio imenso sair finalmente da floresta. O ar era tão mais aberto, e Manta deleitou-se com a sensação mais livre de audição quando comparado com o horrível silêncio da floresta de Aokigahara.
Como era mesmo muito tarde, Hao sugeriu passar a noite numa pequena habitação ali perto. Assolado pela fadiga assim que o assunto foi mencionado, Manta aceitou calorosamente a ideia. Haviam alguns empregados presentes, carregando madeiras e mercadorias, e o homem responsável, após reconhecer Hao como uma figura imperial, forneceu-lhes de imediato guarida. Hao e Matamune partilharam um quarto, enquanto que Manta foi conduzido a um quarto mais pequeno, onde estavam dois futons.
Sem parar para se perguntar a razão para dois futons, Manta caiu num sono profundo no momento em que se deitou. Não se apercebeu de todo de três figuras furtivas que carregaram alguma coisa volumosa para o quarto, esgueirando-se silenciosamente.
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fim do capítulo 5
