Nota: A autora tinha algumas interjeições japonesas no original, como "ano", "ne", que mantenho na tradução. Para quem não sabe, são basicamente equivalentes a "hm", "ei", "não é".
A autora também deixava nota que o Matamune fica visível para os humanos dependendo da vontade do Hao.
.
.
A primeira coisa que despertou Manta foi o começo de nascer do sol outonal, vertendo pelas pequenas frestas na parede de pedra. Os raios ofuscantes acertaram-lhe em cheio na cara, fazendo-o entreabrir os olhos e grunhir com o seu habitual mau-humor matinal.
Suspirando pesadamente, Manta voltou-se para o outro lado para evitar a luz forte. E ficou a olhar.
E então berrou como se o mundo fosse acabar pelo que estava ao seu lado.
Em outro quarto, Matamune abriu os olhos, pestanejando ensonado várias vezes antes de se espreguiçar numa tentativa de se despertar com um bocejo. O animal de pêlo castanho reparou então no seu mestre a seu lado, também a dormitar com o braço apoiado no parapeito da janela, descansando a cabeça contra um punho firmemente cerrado.
Pela respiração estável de Hao, Matamune conseguia perceber que ele estava de facto num sono descansado. Deve estar exausto, pensou Matamune. Com algum divertimento, o gato notou que esta era provavelmente uma das raras e poucas vezes que acordara antes de Hao, que por norma estava a pé antes de qualquer outra pessoa.
Não o culpava, claro. O temporário divertimento de Matamune rapidamente deu lugar a um humor mais soturno, ao recordar-se da noite na floresta. Com toda aquela dor dos espíritos errantes e inquietos em Aokigahara, não era de estranhar que Hao tivesse sido bastante afectado por ela. A sua habilidade reishi, aquele poder que lhe permitia não só ler mentes humanas mas até sentir e experienciar a dor deles como se fosse sua... Matamune não conseguia sequer começar a imaginar esse tipo de tortura.
Mas o rapaz Manta ajudara de facto a aliviar o humor desanimado. O próprio Matamune achara que a forma como o rapaz estivera tão determinado a noite passada em mantê-los de bom humor no caminho de regresso fora estranhamente enternecedora. O gato de duas caudas não se teria lembrado de fazer algo assim, por mais simples que parecesse.
Que rapaz curioso.
- YYYAAAAAAARRRRRGGGGGHHHHH! !
O grito aterrorizado arrancou Matamune dos seus pensamentos, o pêlo arrepiado instintivamente. Quanto ao onmyōji, abriu os olhos de forma abrupta pelo som totalmente inesperado, completamente desperto. Os dois trocaram breves olhares chocados antes de se dirigirem de imediato para onde o grito estridente viera, a urgência evidente nos seus passos.
Assim que o par chegou ao quarto de Manta, Hao deslizou a porta de madeira rapidamente, mesmo a tempo de encontrar o rapaz loiro a correr em direcção à porta. Antes de Manta esbarrar contra o onmyōji sem pensar, cerrou os braços em torno da perna de Hao em pânico, apontando para a coisa que lhe causara tanto medo.
- H-h-h-hao - gaguejou Manta violentamente. - Vês... vês...vês... - Espetou um dedo trémulo com cada sílaba.
Hao e Matamune viam claramente o objecto do terror do rapaz loiro.
Um cadáver grotesco e pálido de um homem idoso coberto por um lençol branco até ao peito estava deitado ao lado de onde Manta estivera a dormir. O pormenor verdadeiramente horrível era que os olhos do velho estavam escancarados, com a língua de fora num ângulo estranho. Os hematomas roxos no seu pescoço indicavam que morrera por estrangulamento com uma corda.
- O-o-o que... é que está a fazer ao meu la... - engasgou-se Manta, respirando com demasiada dificuldade para conseguir sequer falar devidamente.
- Tentai acalmar-vos, Manta - apaziguou Matamune, tentando reconfortar o rapaz assustado. Não funcionou.
- ACALMAR-ME! - guinchou Manta, aumentando o seu aperto mais umas dez vezes. - Achas que... que... que acordar de manhã e encontrar um cadáver mesmo ao meu lado me vai acalmar?!
- Manta. - A voz firme conseguiu alcançar o rapaz loiro mesmo no seu estado frenético. Olhou timidamente para cima para encontrar Hao a olhar para ele. - O Matamune tem razão. Ouve. Achas que talvez estivesses tão exausto na noite passada que possas ter entrado no quarto errado?
Manta abanou a cabeça loucamente. - Não - respondeu com ênfase. - Um homem trouxe-me até aqui de certeza, e eu sei que.. que isto não estava aqui a noite passada. - Nem se atreveu a olhar para a imagem horrível.
- Estou a ver. - A voz de Hao ganhara uma certa frieza, os olhos enublados pelo que parecia ser reprovação. Então suspirou e chamou:
- Os três cavalheiros escondidos no quarto ao lado podem sair, por favor?
- Eh? - Manta pestanejou em confusão.
O rapaz loiro pensou ter ouvido um farfalhar desconfortável no quarto ao lado, mas ninguém respondeu. - Devo tirá-los de lá, Hao-sama? - perguntou Matamune de forma calma, mas ainda assim, Manta engoliu em seco quando viu aquelas garras afiadas ganhar um brilho ameaçador.
- Se não te importas, Matamune.
Assim que Matamune tomou uma posição de quem parecia estar prestes a lançar um ataque, os três homens emergiram do quarto. Dispuseram-se em frente do outro trio como se estivessem a encarar um julgamento.
- Ano... Hao-sama - murmurou um deles, sem se atrever a olhar para cima. - H-há algum serviço que possamos providenciar?
- Ora, sim, há - disse Hao agradavelmente. - Sabem, por alguma razão, o meu amigo sofreu um susto terrível após testemunhar a presença de um pobre cadáver mesmo a seu lado assim que despertou. Como já conseguiram compreender, enquanto estavam amontoados naquele quarto.
Os homens moveram-se cautelosamente.
- Acordar e encontrar um corpo em decomposição ao seu lado dificilmente pode ser uma boa forma de despertar para um novo dia - continuou Hao. - Especialmente quando se é apanhado desprevenido por completo. Não é responsabilidade dos empregados apaziguar o espírito deste idoso em vez de os hóspedes?
- B-b-bem - outro homem gaguejou. - Nós... pensámos que talvez se conseguíssemos acordar cedo o suficiente... podíamos retirar o corpo antes de o vosso amigo despertar, Hao-sama. De facto, lidar com este tipo de trabalho a toda a hora é bastante difícil...
- Então preferem atirar a responsabilidade para um inocente de passagem? - inquiriu Hao, já sem sorrir. - O Manta é um rapaz de apenas 13 anos. Gostaria de acreditar que cavalheiros como vocês teriam pelo menos a decência, e a moral, de seleccionar alguém mais preparado.
Por esta altura, outros trabalhadores se tinham levantado para ver a causa da comoção com grande interesse, incluindo o responsável pela estalagem. - Mas o que...
- Estes três homens acharam por bem colocar um cadáver ao lado deste rapaz enquanto ele dormia - respondeu Hao friamente. - Vou deixá-los a seu encargo agora.
- O quê! - exclamou ele, totalmente surpreendido. O patrão olhou para os culpados, registou os factos e voltou a sua total atenção para o trio encolhido. - Agora oiçam-me bem, vocês três! - começou ele a disparar.
- Espera um minuto! - gritou Manta de repente, atraindo olhares surpresos. - O que é tudo isto? Porque é que vocês três... - Apontou para cada indivíduo de forma acusatória - ...colocaram um corpo ao meu lado sem razão nenhuma?!
- Sempre que uma vítima de suicídio é retirada da floresta de Aokigahara - explicou Matamune. - É trazida para aqui, e é o trabalho dos empregados escolher um homem para dormir ao lado do corpo.
- Dormir ao lado dele?!
- Acredita-se que se não houver ninguém para acompanhar o cadáver durante a primeira noite - disse Hao. - A alma inquieta continuará a gritar noite dentro e moverá o seu corpo até aos outros quartos. É por isso que os homens que aqui trabalham têm de seleccionar um trabalhador para dormir ao lado do corpo. Como fazem a vossa escolha, mesmo? - Dirigiu-se ao responsável.
Ligeiramente atrapalhado pela abrupta mudança de assunto, o homem respondeu: - Fazemos jan-ken para ver quem deverá dormir ao lado do cadáver.
- Jan-ken? Pedra, papel, tesoura? - perguntou Manta, incrédulo.
- Isso mesmo.
Manta riu-se nervosamente, o som não soando remotamente divertido. Bem, aquilo era certamente uma coisa de que nunca ouvira falar antes. Os trabalhadores realmente não têm uma vida fácil...
- MAS! - gritou, fazendo-os saltar de novo. - Porquê eu, de entre toda a gente? Não podiam ter escolhido outra pessoa?
Os culpados murmuraram algo inaudível. - Eh? O que foi isso?
- Bem... Éreis o único que estava a dormir tão profundamente em toda a estalagem, e o resto dos homens estavam a trabalhar - o homem que parecia ser o líder do trio explicou de forma algo acanhada. - Achei que não ireis acordar tão cedo, e que poderíamos retirar o corpo quando a alvorada chegasse. Mas depois adormecemos, e então...
- E você é que era suposto estar no lugar do Manta, não era? - disse Hao ao homem. - Deve ter sido fácil levá-lo para aquele quarto e então esgueirar o cadáver.
O homem curvou-se em desespero. - Garanto-vos, Hao-sama, não havia malícia intencional da minha parte! As minhas mais profundas desculpas, senhor.
Hao arqueou as sobrancelhas. - Não deveria estar a dizer isso ao Manta?
O homem hesitou, e então curvou-se em desculpa. - Peço perdão, Manta-dono.
- Ah... tudo bem - respondeu Manta hesitantemente, abanando as mãos de forma desconfortável. Com a expressão aflita do homem, sentiu-se mais inclinado a perdoá-lo após a indignação inicial. Estaria totalmente preparado para esquecer o assunto, se não tivesse reparado na expressão nos olhos de Hao.
Hao estava a fixar o homem curvado, mas os seus olhos não continham nenhuma da gentileza que Manta vira antes. O olhar estava duro, frio e claramente trespassava o homem à sua frente. O coração de Manta apertou quando reconheceu o olhar como sendo o mesmo que o shaman de fogo exibia por vezes 1000 anos depois quando estava desagradado. O que já era raro por si só.
Aparentemente, o homem devia ter sentido o mesmo também, porque encolheu-se de forma visível sob o olhar gelado de Hao. Novas gotas de suor se formaram na testa do homem enquanto ele engolia com esforço.
- Hmm... - a voz de Manta pareceu demasiado alta no silêncio desconfortável. - E-eu estou bem, sabes, por isso... hehehehe... - Apesar das suas tentativas nervosas de reconforto eram para todos, estava a direccioná-las maioritariamente para o onmyōji.
Por fim, Hao fechou os olhos e voltou-se, como se estivesse enojado. - Vem, vamos regressar agora. - Falou então com o responsável, parecia totalmente confuso com a troca de palavras. - Obrigado pela vossa hospitalidade - disse Hao duramente.
- U-um prazer, Hao-sa- - Mas Hao já começara a afastar-se com os outros dois atrás antes de ele poder terminar a sua frase.
Hao despertou o condutor do seu sono ao volante, que então preparou as rédeas apressadamente e auxiliou o pequeno rapaz loiro a entrar na carruagem. O resto da viagem foi silenciosa, salvo o bater dos cascos do boi no chão.
Manta lançou olhares furtivos ao onmyōji ao seu lado sempre que se atrevia. A cara de Hao estava ligeiramente menos dura do que quando estavam na estalagem, mas ainda restavam traços severos. E preocupados. Manta achou que era bastante inquietante que alguém tão descontraído como Hao tivesse ficado tão furioso com algo que o rapaz loiro acreditava ser um erro que acontecera apenas uma vez.
Fosse qual fosse a razão, Hao estava imerso em pensamentos, e Manta não fazia intenção de o perturbar. Após várias longas horas passadas em silêncio de novo, os três chegaram por fim ao domicílio dos Fujiwara.
Manta tropeçou a sair, exausto pela longa viagem, mas a sua preocupação quase esquecida mantivera-o acordado. Hao entregou a flor ao médico, que começou de imediato o trabalho de a ferver e triturar num pó fino. As empregadas administraram então o medicamento às duas damas de companhia da Senhora Akiko.
- Estas duas senhoras deverão estar bem dentro de algumas horas - disse Hao ao médico. - Provavelmente não deverão acordar até amanhã, mas pelo menos a sua condição deverá estabilizar em breve.
- Muito obrigado, Hao-sama - disse o médico em gratidão, fazendo uma vénia.
- Porque não vais dormir, Manta? - Hao dirigiu-se então a Manta. - Pareces bastante cansado também.
- Estou bem - respondeu Manta rapidamente. - Posso ficar aqui um pouco? Quero ver se elas melhoram
- Ouvistes o Hao-sama. Estas mulheres não acordarão até amanhã. Planeais ficar aqui até lá? - relembrou-o Matamune.
- Vou só ver se melhoraram hoje - disse Manta.
- Isso seria permitido? - perguntou Hao ao médico.
- Bem... - o curandeiro hesitou. - Se o rapaz não fizer demasiado barulho ou perturbe o nosso trabalho, não vejo porque não.
- Então deixo-te aqui, Manta - disse Hao. Manta sentiu uma curiosa sensação de alívio quando viu uma sombra do antigo sorriso de Hao se esgueirar sobre os seus lábios. - Eu ainda tenho trabalho a fazer.
- Mm, vemo-nos a- - Manta parou quando viu um homem alto e familiar aparecer na entrada atrás de Hao.
- Bom dia - cumprimentou Yorimichi de forma agradável. - Vejo que vós e a vossa comitiva regressaram, Hao.
- Parece que sim - respondeu Hao friamente.
Manta engoliu em seco. Estava de volta, aquele brilho de aço nos orbes amáveis de Hao e o frio na sua voz. O que é que se estava a passar?
Yorimichi, no entanto, não pareceu tão afectado quanto o homem responsável pelo fiasco com o cadáver na estalagem. Sorriu, o olhar vagueando para o rapaz loiro. - Estou surpreso que logo tu tenhas ido com o nosso principal onmyōji, Manta.
Manta não conseguiu bem perceber o que era, mas as palavras pareceram-lhe ser uma insinuação de alguma coisa. - E-eu, hã... - gaguejou o rapaz, sem saber como reagir.
- Yorimichi-san - Hao interviu prontamente. - Requeris algo de mim?
- Não, de todo - Yorimichi abanou uma mão desdenhosa. - Só queria ver que milagres haveríeis de praticar nestas pobres damas após o vosso regresso, só isso.
- Não há milagre algum da minha parte, Yorimichi-san - declarou Hao. - Apenas das curas que a natureza nos dá.
O sorriso de Yorimichi raiava a malícia. - Estou a ver. Então medicina normal foi a resposta o tempo todo?
- Esperáveis algo diferente? - perguntou Hao. O seu tom manteve-se cuidadosamente neutro, assim como o seu semblante, mas havia definitivamente uma frieza que Manta reparou de imediato.
Yorimichi encolheu os ombros despreocupadamente, mas ainda assim de maneira refinada conforme esperado de um nobre. - Talvez. Mas não importa. É melhor não vos distrair do vosso trabalho então, Hao.
Houve uma pausa sufocante em que nenhum dos dois se moveu. - Planeais ficar aqui também, Yorimichi-san? - Hao quebrou por fim do silêncio.
O filho dos Fujiwara ergueu as sobrancelhas delicadamente. - Não há problema, de certo?
- Suponho que não - respondeu Hao. Então voltou-se para Matamune, que estava a observar a conversa gélida com cautela. - Matamune, podes ficar aqui também?
- Claro, Hao-sama.
O aristocrata ergueu os dedos ao queixo. - Porque deixais o vosso gato falante assim que sabeis que também vou ficar, pergunto-me eu? - inquiriu Yorimichi suavemente.
- Deixai-me passar, por favor - disse Hao, ignorando a pergunta. O sorriso de Yorimichi desvaneceu um pouco antes de se desviar para Hao desaparecer para fora da porta.
Após mais algumas horas, Manta sentiu que já sofrera experiências desagradáveis suficientes no período Heian. Yorimichi ficou, fazendo perguntas ao rapaz loiro que não pareciam suspeitas para qualquer pessoa de fora, mas Manta soube instintivamente que eram na maioria centradas em torno de Hao e dele próprio. A troca de palavras antes deixara Manta em guarda, enquanto dava o seu melhor para responder às questões do aristocrata tão concisamente quanto possível sem revelar demais.
Mas houve momentos em que Manta teve de contar com a presença de Matamune para o resgatar, levando o pequeno rapaz loiro a acreditar que talvez Hao tivera bons motivos para deixar o gato de duas caudas para trás.
Por fim, Yorimichi desistiu e saiu, permitindo que Manta e Matamune se retirassem para um canto. - Ne, Matamune - disse Manta baixinho, assim que os passos de Yorimichi estavam fora de alcance. - O que se está a passar hoje?
- Ao que vos referis? - respondeu Matamune igualmente baixo, já que as criadas e empregados estavam atarefados por perto, carregando toalhas e bacias com água quente.
- Sabes ao que me refiro. Eu percebi, sabes - bufou Manta. Pousou a cabeça nos joelhos amarrotados. - O Hao parecia... quero dizer, Hao-sama... estava mesmo zangado hoje com aquele homem que pôs o cadáver ao meu lado.
- Também não estáveis? - perguntou Matamune, a boca torcendo-se um pouco num pequeno sorriso.
- Não me estou a referir dessa forma! - protestou Manta, e então acalmou-se quando as criadas lançaram olhares surpresos para ele. - Quero dizer, mesmo zangado. Quase pensei que ele ia matar alguém ali mesmo. - Voltou a estremecer pela memória.
- Na verdade, não sei - suspirou Matamune. - Hao-sama conta-me muitas coisas, mas não me tem contado muita coisa ultimamente.
- Ele nunca conta muita coisa - disse Manta em frustração. - É o que eu acho.
Matamune riu com pouco entusiasmo. - Haha, suponho que sim. Hao-sama é um homem discreto, e não gosta que nada perturbe a sua paz e privacidade. Devereis lembrar-vos disso.
- Já sei disso - respondeu Manta. - E ele também estava zangado com o Yorimichi-sama. Porquê?
O sorriso de Matamune morreu, e a sua voz tomou uma entoação mais séria. - Não o sentistes?
- Hm?
- Aquele homem, Yorimichi, não é de confiança - clarificou Matamune, olhando para algum ponto distante. - Não sei porque estava ele a desafiar Hao-sama daquela forma, mas fareis bem em estar de guarda perto dele.
Manta assentiu, batendo com o queixo gentilmente nos joelhos como sinal da sua inquietação. - Ele... ele parece ser simpático, suponho eu. Mas não sei porque é que ele estava a perguntar-me tantas coisas sobre mim, e sobre o Hao-sama. E ele não foi muito amigável com o Hao-sama, pois não?
Após o aceno de confirmação de Matamune, Manta voltou a suspirar. Já ouvira falar de coisas assim antes, quando o seu pai tivera de lidar com clientes traiçoeiros e competidores de negócio implacáveis, mas era diferente ser ele a encará-lo. Haviam tantas coisas que não sabia, tanto mal-estar num só dia. Não sabia, e não queria saber o que as pessoas estavam a planear, com todos os duplos sentidos e dúvidas. Tudo o que queria era ir para casa.
- Seja como for, o que é que aconteceu ontem à noite também? - perguntou Manta, lembrando-se de repente da noite na floresta.
- A que vos referis?
- O que aconteceu ao Hao-sama? Ele estava a agir de forma... estranha. Como se estivesse a sofrer, quando aquele espírito passou por nós. Acho eu. - Manta sentiu-se desconfortável só de pensar no encontro.
Manta lançou um olhar de relance na direcção do gato quando ele não respondeu. Os olhos de Matamune estavam enevoados, escuros, e pesarosos, enquanto ele contemplava.
Uma coisa era certa. Matamune definitivamente sabia a razão. Só não a estava a contar.
- Oh bem - murmurou Manta. - Se não queres dizer, não tens de o...
A expressão grave de Matamune aliviou um pouco, o suficiente para dar um pequeno sorriso ao rapaz loiro. - Não vos preocupeis tanto. Ficará tudo bem, ireis ver. Não é como se estivésseis sozinho nisto.
- Sim... - ponderou Manta, e lembrou-se do mantra habitual de Yoh. - Não vale a pena preocuparmo-nos tanto com as coisas, não é?
- Exactamente - respondeu Matamune em aprovação. - As senhoras já deverão estar melhores. Quereis ir embora agora?
- Ok, mas espera um pouco. Vou confirmar primeiro com o médico. - Com aquilo, Manta levantou-se e saiu à procura do médico que não estava presente.
No momento em que o rapaz loiro saiu, Matamune pensou nas perguntas do rapaz. O que quer que se passasse, o que quer que Hao já soubesse mas não contasse, estava relacionado com Oyamada Manta, sim. A primeira prioridade que Matamune sabia que o seu mestre tomaria era certificar o regresso rápido e seguro de Manta ao seu próprio tempo, onde ficaria longe do perigo que Hao previra.
De alguma forma, o gato tinha a sensação desagradável que as coisas não seriam tão simples. Como sempre acontecia.
1000 anos no futuro...
- MANTA! - rugiu Ryu, as mãos em toda a parede como se esperasse encontrar o rapaz nela.
O resto dos shamans dentro do quarto estavam congelados de choque. O feitiço correra mal, horrivelmente mal. O que estivera Manta a fazer do lado de fora do quarto? O coração de Yoh afundou-se quando pensou na conversa sobre o seu melhor amigo que tinham tido. Teria Manta ouvido tudo?
Mas mais importante, era quando ele tinha ido parar. Ele desaparecera num redemoinho de névoa preta, que Yoh sabia provavelmente ser algum género de portal do tempo. Quantos anos recuara Manta? De repente, Yoh teve a imagem mental de um rapaz pequeno loiro acabar na era dos dinossauros, com T-Rex ferozes erguendo-se acima dele, as mandíbulas abertas para o devorar inteiro...
- GAAAAH! - gritou Yoh, chocando todos e fazendo com que até Ryu parasse o seu pranto. - O Manta vai ser comido vivo! Como é que posso alguma vez me perdoar, Manta...
- A-Acalme-se, Yoh-dono... - gaguejou Amidamaru, segurando nas suas mãos num gesto apaziguador. Não sabia sobre o que o seu mestre falava, mas o fantasma samurai sabia que tinha de travar a imaginação de Yoh de correr desenfreada. Asakura Yoh perder a sua compostura... não era um bom sinal.
- MANTA! ! - recomeçou Ryu.
- Houve apenas algum erro no feitiço, vamos apenas procurar na Chō Senji Ryakketsu por respostas para trazer o Manta-dono de volta... - Amidamaru tentou tranquilizar o adolescente transtornado.
- Mas e se o Manta tiver recuado à Era dos Dinossauros? E-Eu estive a ver um documentário sobre isso noutro dia, e os dinossauros eram tão grandes, e se o esmagassem, ou o comam inteiro? Ele é tão pequeno e baixo comparado com eles, ele ia ser só ser feito em pedaços...
- Está a pensar demais, Yoh-dono...
- MANTA! !
- Calem-se todos já!
Os shikigamis de Anna, anteriormente de Hao, materializaram-se instantaneamente para dar aos dois um enorme soco. Aquilo funcionou, como sempre. - Sinceramente - escarneceu a itako de forma irada. - Vocês só estão todos a tomar conclusões precipitadas sobre coisas estúpidas quando é suposto estarmos a tentar descobrir como trazer o Manta de volta.
- Mas como vamos fazer isso? - perguntou Yoh, as mãos batendo com força na mesa. O seu comportamento normalmente relaxado desaparecera, substituído quer por culpa, quer por preocupação. - Não sabemos onde o Manta foi parar, ou quantos anos recuou... ou se até avançou... O que vamos fazer? O que vai o Manta fazer?
- Não há nada no livro, Faust? - perguntou Amidamaru em preocupação.
- Não consigo encontrar nada - respondeu o doutor, parecendo tenso. - Mas... suponho que haja uma maneira... apenas uma... Não consigo pensar noutra coisa.
- Que maneira? - perguntaram Yoh e Amidamaru rapidamente.
- O que tens em mente, Faust? - perguntou Anna de forma ríspida.
- Bem, pensem - respondeu Faust calmamente, e ergueu o livro comido pela traça e esfarrapado. - Qualquer inventor deve saber a forma como o seu projecto foi manufacturado e desenhado. Quem é que conhecemos que terá definitivamente as respostas para os seus próprios ensinamentos?
Um silêncio estupefacto caiu sobre todos eles, tão ensurdecedor que se conseguiria ouvir uma agulha a cair no chão. - Q-Queres dizer... - falou Amidamaru por fim, sem voz.
- Temos de... - continuou Yoh com a voz rouca
- Encontrar... - acrescentou Anna secamente.
- O Hao? - terminou Ryu inesperadamente. Afastou a cara esplamada contra o chão e olhou para cima para ver três pares de olhos esbugalhados fixos nele.
.
.
fim do capítulo 6
.
