Nota da autora: as informações do livro do Manta são da wikipedia, e na História real, Ichijo era de facto imperador, mas neste fic, o título pertence a uma criança enquanto que o Ichijo é apenas um membro da realeza que assume o papel.
.
.
As áreas proibidas da propriedade dos Fujiwara continham os aposentos dos aristocratas, onde poucos se aventuravam sem permissão. A ala oeste pertencia estritamente à linhagem directa dos membros dos Fujiwara - qualquer um tolo o suficiente para desafiar essa autoridade seria devidamente disciplinado.
No entanto, longe de quaisquer olhares bisbilhoteiros, estava um homem, um dos ministros dos Fujiwara, ajoelhado num tapete de tatami do lado de fora dos quartos das irmãs Fujiwara. No lado oposto do painel de shoji estava a figura distinta de uma mulher.
- Então? - A voz ríspida pertencente à Senhora Murasaki disse.
- Minha senhora - respondeu o homem. - Recebi a informação que os ministros dos Taira virão pedir uma audiência convosco mais tarde esta noite. Parece que as vossas palavras os convenceram.
- Não, não parece - respondeu Murasaki friamente. - Os homens menosprezam as mulheres, especialmente em assuntos de política, e ficaria surpreendida se de facto tivessem sido tão facilmente persuadidos.
- Mas, suponho que não importe - continuou Murasaki, suspirando. - Falarei com eles, e verei se podem ser confiados.
- Escolha sábia, Senhora Murasaki - disse o homem em reverência.
Murasaki ignorou-o. - Os outros governadores dos Fujiwara?
De forma quase imperceptível, o homem moveu-se desconfortavelmente, como se guardasse um segredo. - Bem... - começou, hesitante. - Falei com eles, e consegui convencer um número considerável. Mas a maioria é demasiado cautelosa, têm reservas acerca desta vossa oposição a vosso pai.
- Cobardes - disse a mulher nobre friamente. - Oposição? É assim que o vêem? Odeiam o meu pai, mas não têm a coragem de se libertar do seu domínio. Têm tudo a ganhar, e no entanto desperdiçam-no por medo.
- Sim, claro - concordou o homem apressadamente. - Mas já ouviram falsas promessas antes... não há garantia que desta vez-
- Isso - Mesmo através do painel de shoji, o homem conseguiu sentir o olhar de Murasaki perfurá-lo. - É o teu trabalho, Kensei.
Kensei engoliu em seco e encolheu-se. Sabia muito bem a ameaça silenciosa que pairava sobre si se falhasse em completar as suas responsabilidades de influenciar os ministros dos Fujiwara. - Conheço os meus erros. Perdoai-me, minha senhora.
- Esperemos que me poupes das tuas desculpas desnecessárias da próxima vez que te vir.
- S-sim, minha senhora.
- E da próxima vez, quero um relatório sobre Asakura Hao e Oyamada Manta. A amizade deles pode provar-se útil.
Já se passara uma semana desde a última vez que Manta estivera com Hao, e o Inverno aproximava-se rapidamente. Só apanhou relances à distância do onmyōji antes de ser sempre conduzido à pressa para outro lugar, e nunca o viu durante as horas de refeição. O palpite de Manta era que ele estava provavelmente atarefado, porque nos raros momentos em que viu Hao, ele estava sempre rodeado de duas ou mais pessoas que pareciam estar constantemente a pedir-lhe ajuda ou conselho. A última vez que vira Hao, ele estivera a responder ao agradecimento das duas damas-de-companhia da Senhora Akiko, agora totalmente recuperadas.
Manta, que nunca fora alguém que gostasse de mandriar por muito tempo, perguntara a Keiko se havia algo que pudesse fazer no seu tempo livre. Apesar de Keiko ter prometido que iria tentar encontrar alguma coisa, ela ainda estava ocupada com os preparativos para o casamento vindouro do Príncipe Ichijo e da Senhora Akiko, e raramente a via sem estar a fazer trabalhos como transporte dos presentes matrimoniais e escolhas de tecidos. Devido a isso, o rapaz não se atrevia a incomodá-la muitas vezes.
Depois do pequeno-almoço, Manta tomou uma decisão e dirigiu-se para o seu quarto. Acabara de se lembrar que ainda haviam trabalhos de casa e material de referência histórica sobre o Período Heian na sua mochila da escola. A ironia era quase irrisória, na verdade, mas qual era melhor maneira de passar o tempo?
O rapaz loiro fora atrasado brevemente por residentes curiosos dos Fujiwara, devido ao cachecol que estava a usar para se manter quente no tempo frio. De forma estranha a princípio, não se importou muito por o emprestar "só por um bocadinho" (que demorou meia hora). O seu único momento de horror veio quando a sua atenção divergira e um dos últimos inspectores, uma mulher velhota, o confundiu com um pano e tentou usá-lo para limpar óleo de bacalhau que caíra ao chão.
Manta dirigiu-se para o seu quarto depois de recuperar o cachecol e bater em rápida retirada, e passou por uma porta ligeiramente aberta.
Vozes...
- ...não devem ser desnecessariamente perseguidos. Nem todos os espíritos e demónios nos desejam mal.
Os olhos de Manta arregalaram. Era a voz de Hao.
- Seja como for... - Desta vez, Manta reconheceu a voz como pertencendo a Yorimichi. - ...receio que os constantes ataques de demónios a aldeões e até mesmo neste domicílio provam a vossa afirmação como errada.
- Constantes? Dificilmente. É mais frequente os demónios passarem pela capital e nada mais. Apesar de alguns de facto não desejarem o bem da humanidade, iniciar extermínios por norma é algo que reside do lado dos humanos.
- Peço perdão se soar rude - retorquiu Yorimichi. - Estais a referir-vos a humanos? Nós? Fá-lo soar como se os humanos sejam a causa de tudo, e todos os infortúnios das pessoas nada têm que ver com demónios ou espíritos malignos de todo.
Ondas de murmúrios flutuaram pela nesga na ombreira da porta perante esta resposta.
- Não exactamente - disse Hao, e no entanto, Manta achou que ele soava algo tenso, como se fosse incapaz de suportar um certo facto. - Mas não pode ser discutido que, em muitos casos, quem está quase sempre na ofensiva são os próprios humanos. Demónios e espíritos são seres etéreos, e as pessoas não conseguem compreendê-los e aceitá-los simplesmente porque não são iguais. Têm medo.
- E podemos culpá-los por terem? Não podemos simplesmente sentar-nos e esperar, observando cada ser etéreo passar por nós! - ouviu-se a voz de outro homem, mais rouca e velha.
- Porque não, se são inofensivos para nós?
- Na altura em que descubramos se são de facto inofensivos ou não - a voz suave de Yorimichi voltou a cortar. - Será demasiado tarde para todos, Hao. E mesmo se essas criaturas não tiverem más intenções, não é a segurança dos humanos a primeira prioridade acima de qualquer outra coisa?
- Tinha a impressão que vos estáveis também a referir aos humanos - respondeu Hao simplesmente.
- Perdão?
- Humanos que podiam ver e comunicar com espíritos. Estávamos a discutir isso ainda há pouco.
- Ah, referir-vos a isso? - O tom de Yorimichi sofrera uma mudança indectetável. - Não tinha nada contra vós pessoalmente... ou aquele gato...
Manta nunca tivera interesse em discussões que envolvessem filosofia ou política. Mas só de estar de fora a ouvir os comentários insultuosos contra seres humanos espirituais que o filho Fujiwara estava a fazer deixou-o arrepiado da cabeça aos pés. Mesmo se não tivesse conhecido Yoh, nunca teria acreditado em nada daquilo para começar...
- Não, não levo isso a peito, Yorimichi-san - disse Hao, mas com um tom suspeitosamente mais leve na voz. - A propósito, sabem que parece estar alguém lá fora que parece estar particularmente interessado em se nos juntar?
Manta saltou, e tentou engolir o pequeno guincho que ameaçava escapar da sua garganta atirando com as duas mãos contra a boca. Mesmo através da pequena abertura na porta, conseguia ver várias cabeças voltarem-se em curiosidade na direcção da porta.
- Abre a porta, Manta - chamou Hao agradavelmente.
Desejando que tivesse coragem suficiente para fugir e nunca olhar para trás, o rapaz loiro deslizou a porta pouco a pouco, envergonhado perante a audiência espantada.
- Eu...eu... Hã, eu estava só... a andar por aí, só passei por aqui, sabem... - gaguejou Manta descontroladamente. - Não têm de se importar comigo... a sério... - Manta tentou não se lembrar da primeira vez que conhecera Ryu e o seu gangue.
Ouviu um homem praguejar, e voltou o olhar assustado para ele. - Era suposto estarem servos fora da sala! Quando descobrir, vão ser açoitados...
- Acalmai-vos, Nobunaga - Yorimichi recuperou da sua surpresa o suficiente para falar. - A sessão de filosofia pode sempre continuar mais tarde.
- Tu, rapaz! - o homem chamado Nobunaga ladrou, fazendo Manta estremecer violentamente. - O que estavas a fazer lá fora? Não sabes que bisbilhotar desta forma merece um castigo severo?
- Eu... lamento - Manta conseguiu forçar-se a dizer. - Não sabia, eu posso ir, a sério... - Engoliu em seco. Como podia explicar isto?
- Nobunaga - interveio Hao. - Precisais assustar o rapaz desta forma? Ele é novo aqui, e fui eu quem o convidei a entrar.
- Relaxa, Nobunaga, ele não é mais que uma criança. - Foi então que Manta se apercebeu que havia um contorno negro de um homem escondido atrás de um painel de shoji. - Não há necessidade de começar alarido.
Nobunaga recuou perante as palavras do homem misterioso, e então fez uma vénia. - Compreendo, Vossa Majestade.
Vossa Majestade? Oh meu, até o Príncipe Ichijo está aqui...
Manta olhou para trás e para a frente, imensamente intimidado pela presença autoritária da multidão de pessoas que o fixavam. - Desculpem - repetiu ele fracamente, não desejando outra coisa se não fugir dali o mais rápido possível. - Acho que me vou embora, então...
- Espera.
Parou.
- Vossa Majestade, concedeis a vossa permissão para que este rapaz se sente connosco?
- Bem, por mim está tudo bem - respondeu Ichijo.
Antes que se tivesse apercebido, Manta estava sentado no tapete de tatami. - Não te preocupes - disse Hao, os olhos brilhando de divertimento. - Eu disse que te convidei, não disse?
Com aquilo, a sessão regressou a plena procissão novamente.
Na altura em que a discussão filosófica acabara, as pernas de Manta estavam fracas de fadiga por se sentar na desconfortável posição seiza durante duas horas inteiras. Sentara-se de pernas cruzadas a princípio, até se ter apercebido dos olhares reprovadores lançados na sua direcção. O rapaz não conseguia perceber a razão até reparar que estavam todos sentados rigidamente com as pernas sob si.
A discussão (mais um debate) poderia ter sido interessante para ele se Manta não estivesse tão concentrado no seu próprio desconforto, desejando que cada segundo passasse mais depressa. Mais uma vez, maravilhou-se com o poder de Anna, desta vez por ela conseguir de facto sentar-se sempre daquela maneira ao jantar.
- Estás bem? - perguntou Hao quando Manta atirou com as duas mãos ao tapete para se içar, estremecendo enquanto o fazia.
- Hã, sim... quero dizer, nem por isso... - murmurou enquanto esboçava uma nova careta.
Várias pessoas murmuraram cumprimentos a Hao durante a saída, enquanto que Yorimichi apenas acenou arrogantemente, o que o onmyōji pareceu fingir não reparar.
Hao sorriu ligeiramente enquanto Manta se debatia enquanto ia para a porta, parecendo que estivera sentado num cavalo durante demasiado tempo. - Não sabia que não estavas habituado à posição seiza. Parece que os meus esforços para te incluir foram pelo cano abaixo.
- Só ouvi o começo. Lá fora, refiro-me - gaguejou Manta. Uma dor latejante pulsou pelo seu pequeno corpo. - Sobre os espíritos e os humanos e assim...
- Estou a ver. - Apesar de as pernas lhe estarem a fazer a vida num inferno, Manta não deixou de ver a nuvem negra que passou rapidamente pelo rosto do onmyōji. Desviou o olhar.
Hao não falou, e o silêncio só deixou Manta mais nervoso enquanto caminhava lentamente ao lado dele. - O Yorimichi-san foi um bocado... - disse o rapaz loiro, apesar de não saber porque o fez, e então apercebeu-se que não sabia como continuar.
Hao parou e olhou para ele inquisidoramente.
Manta atrapalhou-se à procura das palavras certas e amaldiçoou-se por ter de o fazer. - Não acho que ele esteja certo - deixou ele escapar por fim.
Manta não parecia ser capaz de olhar para o homem à sua frente, por isso não viu o suave sorriso que substituiu a escuridão antes de Hao se afastar sem uma palavra.
Já estava escuro quando Manta por fim regressou ao seu quarto após a lenta e dolorosa caminhada, já que os dias estavam muito mais curtos com o Inverno a aproximar-se. Fechando a porta, viu várias pequenas criaturas que só podiam ser demónios e alguns fantasmas desaparecerem através da parede. Já se acostumara muito a esta imagem durante o seu tempo na mansão Fujiwara.
Abriu a mochila da escola pousada a um canto, e ao tirar o seu manual de História, não pôde evitar olhar feliz para ele. Estar na Era Heian era longe de desagradável, mas tendo de se misturar com as pessoas da sua idade, por vezes esquecia-se que vinha mesmo de 1000 anos do futuro. Aqui, pelo menos, estava a prova da sua experiência surreal, prova do mundo de onde vinha.
Claro, tivera um lembrete anteriormente pelo seu computador portátil, mas não se ia aproximar dele ainda. Não depois daquele incidente horrível...
Esticando as pernas despreocupadamente, Manta começou a ler.
A maioria do texto sobre o Período Heian era acerca de política e datas, da conquista de territórios entre nobres e da ascensão dos quatro clãs da nobreza - Fujiwara, Minamoto, Tachibana e Taira. Escusado será dizer, os Fujiwara dominavam estas famílias e o Japão. Particularmente interessado na secção acerca de Fujiwara no Michinaga, voltou a sua atenção para ela.
"Fujiwara no Michinaga (966-1028) foi o chefe do clã Fujiwara durante o Período Heian do Japão, e portanto possivelmente a pessoa mais poderosa na corte Heian. Nascido Fujiwara no Kaneie, era o filho mais novo e assim só ganhou influência na corte aos 15 anos, após as mortes dos seus dois irmãos, Michitaka e Michikane, que faleceram de doença.
Conseguiu tirar o poder político do seu sobrinho, Fujiwara no Korechika, que era filho de Michitaka, com o apoio da mãe e irmã do regente Príncipe Ichijo. Continuou então a ganhar apoio da corte, e depressa foi apontado como "Nairan", secretário do imperador.
Para assegurar mais o poder durante o seu reinado, Michinaga casou as suas filhas ou mulheres do vasto clã Fujiwara com a família real. No ano 1000, fez a sua filha Shoshi (também conhecida por Akiko) tornar-se esposa do Príncipe Ichijo, e pouco depois, enlaces semelhantes seguiram as suas outras filhas, que casaram com membros da realeza.
Michinaga retirou-se em 1019, mas ainda continuou a deter extraordinária influência sobre assuntos correntes, apesar de nunca tomar oficialmente o título de regente kampaku, e reteve o título de regente sessho de 1016 a 1017. Em 1017, o seu filho Yorimichi sucedeu-o como regente sessho.
Manta notou o asterisco ao lado de "sessho" e "kampaku" e foi à nota de rodapé:
Sessho - título dado a um regente que assistia uma criança imperador, ou uma imperatriz.
Kampaku - semelhante a um conselheiro-mor de um imperador adulto. Quer sessho quer kampaku eram praticamente regentes do Japão.
Manta ergueu os olhos do livro. História continuava a ser História, mas aqui estava ele, um rapaz moderno transportado para trás no tempo para praticamente testemunhar estes eventos históricos decorrerem perante os seus próprios olhos. Whew.
De repente, o olhar de Manta disparou na direcção da porta. Tinha mais ou menos a certeza que não havia ninguém perto do seu quarto, mas sem pensar, levantou-se e deslizou a porta.
O puxão que sentiu dentro de si sugeria que alguém estava... atrever-se-ia ele a dizer? Era quase como se alguém precisasse dele. Precisasse da sua ajuda desesperadamente.
Abanando a cabeça, Manta atribuiu-o à sua imaginação. Porque raios haveria alguém de precisar da ajuda dele agora? Ele é que precisava de ajuda a voltar para casa.
Com frevor renovado, o jovem rapaz loiro abriu os outros dois livros de referência que requisitara da biblioteca (do século XX, claro), tirou o seu caderno e caneta, e começou a tirar notas para o seu relatório.
Nos aposentos privados na mansão dos Fujiwara, Asakura Hao estava sozinho na sala de adivinhação. As chamas das velas estremeciam, lançando sombras a dançar pelas paredes e iluminando as suas feições com um brilho terrível. Sentando ao centro, Hao estava rodeado pela insígnia da estrela de cinco pontas - a representação da Mãe Natureza.
Maximizando os seus poderes, o onmyōji focou toda a sua força de vontade no último elemento que completaria o seu controlo sobre os cinco elementos. Demorara cinco anos inteiros a dominar o Fogo, a Água, o Ar e a Terra. Seis meses de prática e meditação tinham sido investidos a dominar o Metal - e Asakura Hao recusava-se ponderar em desistir, não quando estava tão perto do seu objectivo.
Rezando pela orientação das estrelas, Hao ergueu as mãos com os dedos entrelaçados e fechou os olhos.
- Madeira supera Terra, Terra supera Água, Água supera Fogo, Fogo supera Metal, Metal supera Madeira... Madeira supera a Terra, Terra supera Água... - Repetiu a mesma frase uma e outra e outra vez.
As chamas começaram a tremer de forma ainda mais violenta, e a marca da estrela começou a reluzir.
Sou um com a natureza.
De repente, as chamas das velas apagaram-se e o ar ficou anormalmente imóvel.
Hao deixou escapar um suspiro de cansaço, a sua exaustão aparente. Tinha sido assim durante os últimos seis meses, quase todas as noites. Realizando o mesmo ritual de novo, pegou no pedaço de casca de árvore ao seu lado e deixou o seu Furyoku fluir.
Durante um momento, nada aconteceu. Então, para sua grande admiração, uma camada de metal prateado começou a alastrar sobre a madeira.
O onmyōji olhou para o pedaço de metal transformado na sua mão, mal se atrevendo a acreditar. Tanto trabalho, tantos meses de esperanças e desilusões. E finalmente. Finalmente dominara os cinco elementos, de verdade.
Sou um com a natureza.
Não - eu sou a natureza.
A sua sensação de triunfo durou pouco ao ouvir o som distante de vozes, faladas em sussurros abafados. As suas sobrancelhas contraíram-se involuntariamente. Visitantes a esta hora? Porque não fora informado? Levantou-se e deslizou ligeiramente a porta de madeira mesmo a tempo de ver vários contornos escuros abrir caminho serenamente pelo pequeno trilho no jardim, a sua direcção os aposentos aristocráticos.
Sem aviso, o onmyōji quase colapsou de joelhos quando um vento forte soprou, agitando as árvores e fazendo-as balançar sinistramente. Foi tal como Aokigahara - a dor, a inquietação dos espíritos, os problemas do mundo...
Arquejando, Hao agarrou-se ao coração e fechou os olhos com força, desejando apenas que a dor parasse.
Algo estava a perturbar terrivelmente os espíritos. Tinham morrido devido a eventos semelhantes aos que estavam prestes a decorrer, a traição, os esquemas que aconteciam a toda a hora-
Cegamente, Hao deslizou a porta e cambaleou até uma mesa redonda e baixa que estava cheia de amuletos e o objecto que em breve iria conter todo o seu conhecimento das artes Budistas, a Chō Senji Ryakketsu, Estava aberta numa página onde tinha estado a tentar elaborar um método de viagem no tempo, para Manta.
Afastou-os a todos, atirando-os ao chão até encontrar a coisa com que sempre contava durante momentos como este. Na sua mão estava uma pequena boneca Hina que a sua mãe talhara para ele quando era uma criança muito pequena. Brincara com ela sem saber exactamente o que era durante muito tempo.
Mãe...
Hao pousou a cabeça na mesa, olhando para a boneca e tentando conter as lágrimas que queriam tão desesperadamente cair.
Uma batida na porta quase o fez ranger os dentes. De todas as alturas...
Meio que contemplou simplesmente ignorá-lo, mas uma voz feminina familiar soou pela porta fechada: - Hao-sama?
Se era ela, então ignorar a sua presença seria quase um insulto...
Soltando um suave suspiro, levantou-se, tentando manter a sua aparência dignificada. - Entre.
A porta deslizou, revelando a silhueta escura de uma mulher. Aproximando-se das velas, Hao reacendeu-as, e as luzes revelaram uma Keiko de aspecto hesitante à porta. - Hmm... lamento incomodar-vos tão tarde, Hao-sama... - começou ela.
Hao deu um pequeno sorriso. - Não me importo. Entra, e fecha a porta. - Após um momento de hesitação, Keiko entrou e fechou a porta.
- Então, sobre o que querias falar comigo?
Inspirando profundamente, a jovem criada abriu a boca para falar, mas Hao já sabia o que ela ia dizer antes de ela aparentemente perder a coragem e parar.
1000 anos depois...
- Então... - disse Yoh hesitantemente. - Como é que contactamos o Hao?
Depois de chegarem à decisão unânime de pedir ajuda a Hao, depressa se aperceberam que estavam intrigados quanto a esta questão. - Então e o telefone? - sugeriu Amidamaru um pouco alegremente demais.
- Hã, bem, acham que ele tem sequer um telefone? - perguntou Yoh.
- Mesmo que tenha, o que duvido, como é que arranjamos o número dele? - resfolegou Anna desdenhosamente com talvez mais veneno do que costume. Pedir ajuda à própria pessoa que tinham tentado matar não lhe agradava, embora não tivessem outra escolha.
- Vou pedir à Tamao para vir cá - anunciou Anna, decidida. - Ela pode fazer o trabalho dela com o tabuleiro Ouija e providenciar algumas respostas acerca da localização dele. Depois vamos para onde quer que ele esteja. - Com aquilo, saiu da divisão.
- Abram alas à rainha - murmurou Yoh, após se certificar que a futura mulher estava bem fora de alcance. O seu parceiro samurai só pôde sorrir fracamente.
Apenas uns minutos depois, houve um tumulto lá em baixo, envolvendo muitos grunhidos, gritos; que eram todos bastante familiares.
- O que é que vocês pensam que estão a fazer a esgueirarem-se para aqui?!
A voz enfurecida de Anna fê-los a todos encolherem-se, mas os ocupantes do quarto amontoaram-se todos à mesma para descobrirem a origem da confusão lá em baixo, e encontraram Anna perto da entrada, as costas voltadas para eles e segurando o telefone fora do descanso numa mão.
- Não nos estávamos a esgueirar... só queríamos fazer surpresa...
A voz abafada veio algures da pilha de corpos que bloqueavam completamente a entrada.
- BORO- QUERO DIZER, HORO HORO! - exclamou Yoh em choque.
- TAO REN! - Amidamaru usou exactamente o mesmo tom e volume.
- CHOCO- - Mas Ryu foi rapidamente interrompido pelo olhar penetrante de Anna que indicava claramente um castigo severo se continuassem todos a gritar.
- SAIAM DE CIMA! - rugiu Ren, e atirou as duas pessoas em cima dele a voar para trás. Levantou-se, tentando recuperar qualquer dignidade que ainda lhe restasse sacudindo pó invisível das suas calças.
- Bem? O que estão todos a fazer aqui? - repetiu Anna.
- Estes dois arrastaram-me até aqui - espetou um dedo para os dois rapazes atrás de si que tinham adoptado expressões furiosas semelhantes a carnívoros enlouquecidos. - Disseram que se aborreceram em casa, por isso decidiram encontrar-se na casa do Yoh.
- O senhor também queria muito vir, bocchama...
- A sério? - disse Yoh antes que Ren pudesse retaliar. O shaman descontraído deu uma gargalhada nervosa. - Obrigado, pessoal...
- Obrigado? - ecoou Chocolove. - Pelo quê?
- Seja como for, onde está o Manta? - perguntou Horo Horo a espreitar, pensando que não tinha reparado no rapaz devido à sua altura minúscula. - Não o estou a ver.
Yoh encarou-o com uma seriedade que deixou de imediato os três visitantes inesperados em alerta e atentos. - Temos um problema.
.
.
fim do capítulo 7
.
