- O QUÊ? ?
O grito horrorizado foi emitido em conjunto das bocas abertas do trio, quase tão grandes quanto aquários, parecidos com os olhos arregalados e chocados em cada uma das suas caras.
- O Manta desapareceu?! No passado? - Horo Horo atirou com o punho contra a mesa com tanta força que Yoh podia jurar que via uma mossa na madeira. - E não sabem onde ele está?
- Atenção ao que dizes, idiota - atirou Anna, calando de imediato o Ainu agitado. - Estás a dizer que é culpa nossa?
- N-não, quero dizer...
- E tira as mãos da minha mobília. Não te vou deixar destruir tudo na minha sala de estar.
Horo Horo afastou as mãos rapidamente e olhou para a mesa, os dentes cerrados. - Mas... - balbuciou. - O que vamos fazer? Não podemos só deixar isto ficar assim!
- Claro que não, baka - resfolegou Ren, causando um som indignado de Horo Horo. O rapaz chinês voltou-se para se dirigir a Yoh e aos outros residentes de Funbari Hill. - Vocês têm algum plano?
- Bem, sim, mais ou menos - respondeu Yoh embaraçado, coçando a cabeça. - Mas eu... não acho que vás gostar.
- Qual é? - perguntou Chocolove quando os três ficaram tensos em antecipação.
Após um momento hesitante, Yoh foi directo ao assunto. - Vamos pedir ajuda ao Hao - disse taxativamente, e preparou-se para a explosão.
Silêncio. Um vento frio soprou fora da casa. E então...
- NEM PENSES QUE VOU-! - Ren e Horo Horo rugiram em conjunto, levantando-se num salto, antes de os shikigami de Anna fazerem uma segunda aparição e os deixar redondos no chão.
- Eu sabia - murmuraram Yoh e Amidamaru em uníssono.
- Não temos de facto escolha - interveio Faust inesperadamente, chamando a atenção de todos em torno da mesa. - O Hao inventou isto, por isso é o único que deverá ter algumas respostas, não concordam? Examinei o livro, mas não há nenhum método a detalhar como trazer de volta alguém de um tempo diferente.
- Espera um minuto. Se é esse o caso, então isso não quer dizer que nem o Hao sabe de uma maneira? - cortou Ryu. - Esta coisa - gesticulou para o livro esfarrapado aberto na mesa - é suposto conter tudo o que ele sabe e assim.
- Mesmo que saiba, acham que ele nos vai de facto dizer? - resfolegou Chocolove, cruzando os braços e franzindo o sobrolho numa carranca. - Quero dizer, vocês estavam a tentar matá-lo, afinal, e o Manta provavelmente é só mais um ser humano sem valor para ele.
As palavras foram certeiras, e com certeza não aumentaram as esperanças de nenhum deles. - Também devia ter pensado nisso - disse Yoh, parecendo desanimado. - Mas temos de trazer o Manta de volta. E esta é a única maneira. Eu... eu faço o que quer que o Hao queira, por isso-
- Não sejas estúpido - cortou Ren rudemente. - Vais simplesmente ouvir o que aquele tipo te disser assim sem mais nem menos? Ele provavelmente vai forçar-te a juntares-te a ele para que possa obter a sua 'outra metade' em troca do Manta!
- Mas não temos-!
- Temos - disse Ren, cortanto o protesto de Yoh.
- Temos? - repetiram todos eles, confusos.
O guerreiro chinês suspirou. - Disseste que estavam a tentar recuar 13 anos para matar o Hao, não foi? - começou Ren. - Devíamos tentar isso de novo. O Manta foi possivelmente enviado para essa altura.
- Estou a ver - disse Anna, contemplativa. - É verdade.
- Ok - anunciou Yoh, deixando as mãos cair rigidamente na mesa. - Vamos tentar esse feitiço de novo, e desta vez com todos nós. Não vejo porque isto não há-de aumentar as nossas hipóteses de ser bem sucedidos. E se falhar... - Não queria pensar em todas as complicações que iriam ocorrer se voltasse a correr mal. E se mais algum deles desaparecesse como Manta? - ...se falhar, nós... nós vamos ter com o Hao. Certo?
Todos concordaram. - Vamos lá começar isto - rosnou Horo Horo.
Na altura em que a reunião com os ministros dos Taira terminara, a Senhora Murasaki estava cansada. Muito cansada. No último minuto, deixara uma mensagem aos ministros dizendo que o encontro decorreria numa localização diferente que não o seu quarto, diferente do que originalmente planeado. Não se atrevia arriscar a reunião perto dos seus aposentos privados por medo de espiões ou madrugadores, e preparara tudo para que fosse realizada numa área diferente, perto de onde o Ramo Norte - que era um gabinete dos governadores que assistiam o seu pai - costumavam realizar as suas reuniões.
Era bastante arriscado, pondera ela enquanto caminhava pelo corredor de regresso ao seu quarto, receber os ministros dos Taira discretamente. Ela sabia perfeitamente que havia a hipótese de as pessoas verem estas figuras, mas Yorimichi afastara o assunto dizendo que não teria importância. Apesar de serem de clãs rivais, os Fujiwara ainda tinham ligações com a família Taira, assim como com as outras casas nobres, portanto não pareceria demasiado estranho que prestassem uma visita. Ninguém poderia apontar a culpa a nenhum deles mesmo que fossem descobertos.
Suponho que não possa discutir com isso, pensou Murasaki, bastante insatisfeita.
Levou o seu tempo a regressar ao quarto, desejando pensar. O plano era deveras simples, na verdade: livrar-se de Akiko e das pessoas ao seu redor, e acusar o rapaz Manta das suas mortes. Ele podia ver espíritos e demónios, portanto dificilmente seria preciso muito para que os idiotas que aqui viviam acreditassem que o rapaz era algum tipo de criança demoníaca que viera causar o caos e impedir a subida ao poder dos Fujiwara. Não ficaria surpreendida se isso fosse verdade; as suas origens eram imensamente questionáveis. Ninguém sabia de onde ele viera antes de ter de alguma forma acabado inconsciente fora da mansão.
O rapaz seria um bode espiatório, e nada mais.
Ainda restava o problema de como convencer exactamente as pessoas que Oyamada Manta podia mesmo ver demónios, mas Yorimichi trataria disso, ou assim ele dissera. Aconteceria assim que todos os planos tivessem sido finalizados e postos em prática.
Murasaki estacou e olhou distraidamente para a água negra do lago enquanto ponderava. O seu irmão ficaria com o mérito por liderar as campanhas de extermínio demoníaco, na sua maioria envolvendo Manta e as mortes que ocorreriam dentro de muito em breve. Ganharia o favor da corte e do seu pai, e tudo procederia com muito mais facilidade para ele assim que estivesse em cargos mais elevados. Michinaga ainda era uma presença bastante autoritária e demasiado influente para seu próprio bem, daí Yorimichi estar determinado a reunir apoiantes, ministros de vários clãs e camponeses também, enquanto ficava mais poderoso, antes de finalmente destronar o pai e apagar todos os vestígios da sua influência de uma vez por todas.
Murasaki suspirou e olhou para o céu. Mesmo agora, Yorimichi estava provavelmente lá fora ou acabara de regressar a casa após reunir os camponeses e os convencer a apoiá-lo na sua revolução contra o pai. O que não será difícil, ponderou Murasaki. Aqueles plebeus têm vivido vidas deploráveis com o meu pai como governante.
Quanto a ela? O seu trabalho era convencer os ministros em prol do seu irmão, e deixar promessas de riquezas e promoções; tudo coisas que ela própria duvidava que Yorimichi alguma vez fosse cumprir.
Mas não se importava. Tudo o que importava era se Yorimichi manteria a sua promessa a ela: certificar-se-ia de que os laços matrimoniais seriam celebrados entre o Príncipe Ichijo e ela própria após a sua subida ao poder. Não só ela seria então um membro prestigiado da realeza, como poderia aconselhar e tomar decisões em assuntos políticos e religiosos. Murasaki estava bem ciente da sua mente e inteligência afiadas; teria bons resultados nessas áreas e colocar-se-ia entre aqueles que estavam no topo da próspera força dos Fujiwara.
Ao contrário daquela minha irmã idiota e facilmente excitável, pensou a nobre senhora desdenhosamente.
A Senhora Murasaki sorriu então, um sorriso que era frio e vazio de qualquer compaixão. Claro, Asakura Hao teria de ser retirado do caminho. O onmyōji era tido em demasiada consideração na corte, com os seus conselhos e ensinamentos filosóficos a Michinaga e a outros governantes importantes. Já para não falar das suas habilidades que afastavam quaisquer seres malignos que ameaçavam a prosperidade da família Fujiwara; era sem dúvida impressionante. Era dolorosamente óbvio para Murasaki que o irmão odiava e invejava Hao por toda a influência que ele possuía.
E a melhor parte era que a crescente proximidade de Asakura Hao e Oyamada Manta não escapara a atenção deles.
Não poderia ter a certeza se eram amigos, mas seria suficiente. Era claro que eram conhecidos próximos.
Inspirando longa e satisfatoriamente, Murasaki começou a caminhar de novo para o seu quarto. Ao virar uma esquina, uma figura veio directa e quase chocou com ela.
- M-minha senhora! - soou o arquejo chocado. A figura estacou de imediato, e então recuou vários passos, numa vénia.
- Keiko? O que fazes aqui? - perguntou Murasaki friamente, olhando para a criada na penumbra.
- E-eu estava... - balbuciou Keiko, as mãos agarrando-se às dobras do seu kimono. - Peço perdão, minha senhora... tive de fazer algumas coisas que me esqueci durante o dia...
- A sério? Onde foste?
- À-à ala sul. Perto dos aposentos dos Asakura.
- Ai foste?
Murasaki possuía a característica muito conhecida de olhar as pessoas de cima, e era uma habilidade que dominara na perfeição ao longo dos anos. Keiko começou a remexer-se desconfortavelmente passado vários minutos de silêncio.
- P-peço perdão, Senhora Murasaki - murmurou a criada. - Desejais algo mais?
A sua senhora olhou para ela mais alguns segundos desconfortáveis antes de dar um pequeno aceno indiferente. - Não - respondeu. - Podes ir.
- Obrigada, minha senhora - suspirou Keiko, e apressou-se a passar por Murasaki antes que a voz da nobre a parásse.
- És próxima do Oyamada Manta, não és?
Os olhos de Keiko esbugalharam-se e voltou-se de volta para a sua senhora. - Eu... - gaguejou ela. - Suponho que sim.
- Muito bem - disse Murasaki quase gentilmente, o que na verdade assustou Keiko mais do que qualquer outra coisa. - Vais contar-me tudo acerca dele, não vais? Que criança tão curiosa ele é.
- Eu...
- Sim?
Keiko engoliu, tentando humedecer a garganta seca. - Boa noite, Senhora Murasaki - murmurou ela, e afastou-se após uma curta vénia.
A jovem criada caminhou apressadamente, sem olhar para a esquerda ou para a direita, mas em vez disso com o olhar fixo no chão. O coração martelava, não apenas com medo, mas também culpa. Com medo da escuridão que de repente parecia pairar a cada curva, foi directa à enfermaria onde os fogos ainda estavam acesos para aqueles que se sentiam indispostos à noite.
Uma vez do lado de fora da pequena divisão espartana, Keiko pegou num frasco, verteu água numa tigela e bebeu-a rapidamente. Fixando o seu reflexo na superfície da água, recordou-se da conversa com Hao-sama antes de se ter cruzado com a Senhora Murasaki:
- Hao-sama... - começou Keiko, e então parou, a sua consciência a espicaçar-lhe os recantos da mente.
Hao olhou para ela por um momento, mas não cruelmente. Hao nunca fora cruel com ela.
- É só... Vim avisar-vos - desabafou Keiko à pressa. O que quer que a Senhora Murasaki estivesse a fazer, não podia ser nada de bom para Hao e Manta, daí ela ter estado a tentar tanto suprimir os seus sentimentos de vergonha por trair a sua senhora.
- Ah - suspirou Hao, erguendo uma mão. - Aconselho-te a não te preocupares com isso, Keiko.
Keiko vacilou, a boca ligeiramente aberta. - Hao-sama? - perguntou ela, hesitante.
- Sei bem tudo o que me desejas contar - respondeu o onmyōji.
Quando a criada só conseguiu olhar em descrença pela quase indiferença calma que ele estava a dar ao assunto, ele sorriu. Pequeno, mas ainda assim um sorriso. - Apesar disso - continuou ele, avançando para ela. - Obrigado. Pela tua... lealdade. - Colocou uma mão no ombro dela, apertou muito ligeiramente, e depois desapareceu.
Keiko bebeu o resto do líquido e pousou a taça a seu lado. "Lealdade" fora uma palavra que não esperara. Pensara que seria algo como "preocupação", talvez até uma frase como "por seres tão ansiosa". Mas então ela percebeu que Hao acertara de facto ao usar uma única palavra que somava tudo o que lhe causava tantas dores de cabeça.
Lealdade para com a sua senhora e para com o clã Fujiwara era o que a tinha colocado em tal dilema. Quando passara perto dos aposentos de Murasaki para buscar um alfinete de cabelo para a Senhora Akiko (nunca se teria lá dirigido se não tivesse recebido permissão dos aristocratas), Keiko ouvira apenas a parte final das palavras da Senhora Murasaki:
- E da próxima vez, quero um relatório sobre Asakura Hao e Oyamada Manta. A amizade deles pode provar-se útil.
Apenas estas poucas palavras tinham levado os seus instintos a despertar. Só se descolara do chão quando ouvira passos, talvez o homem que se encontrara com a Senhora Murasaki, e fugira instantaneamente.
Estaria Hao a referir-se à sua lealdade para com a Senhora Murasaki? Ou para com ele? Ou talvez para com o rapaz por quem se afeiçoara, Manta?
Hao-sama...
Keiko curvou a cabeça. Suponho que agora, pensou ela, tudo o que tenho de fazer é acreditar nele.
O começo da tarde chegou demasiado depressa, e Manta ainda estava a meio do seu relatório sobre o Período Heian quando ouviu uma pequena batida na porta.
- Rapaz? Oyamada Manta, estais- - A voz de um jovem homem começou a falar, mas parou quando encontrou o pequeno rapaz numa posição algo estranha.
- E-estou bem, nãosepassanada... ahh... s-sóaespreguiçar...! - balbuciou Manta com uma nota estranhamente aguda na voz. Conseguia sentir as palavras misturarem-se umas nas outras ao voarem da sua boca, mas as cordas vocais não pareciam estar sob seu controlo, nem o seu coração.
O criado pestanejou várias vezes, e então encolheu os ombros e descartou a estranheza do rapaz.
- Michinaga-sama deseja-vos nos seus aposentos esta noite - disse-lhe o criado apressadamente. - E a noite chega cedo agora, portanto aconselho-vos a estar pronto depressa.
- O quê? - Manta quase se esqueceu do seu súbito momento de pânico. - Michinaga-sama? Porque é que ele me quer?
O criado encolheu os ombros. - Cumpro o meu dever, obedeço a ordens. O resto não me diz respeito. Ou eu ou outra pessoa virá aqui para vos escoltar após a vossa refeição da noite, por isso certificai-vos que estais de volta ao vosso quarto a horas. - Sem outra palavra, o criado desapareceu antes de Manta conseguir falar.
Completamente pasmado, o rapaz loiro voltou-se para a sua mochila. Afastou as duas mãos da protecção em torno da mochila e então apressou-se para a porta e fechou-a firmemente.
Esta foi por pouco... Manta estremeceu, limpando suor da testa. Um milissegundo mais tarde, e aquele criado teria visto tudo no livro de História...
Só de pensar nas duras consequências caso o criado tivesse visto o trabalho de casa que Manta estava a fazer sobre o Período Heian fê-lo engolir em seco pesadamente. Agora com um desespero acrescido à sua veemência em fechar a mochila da escola e a enfiar no canto mais escuro que conseguia encontrar, ao sair do quarto só desejava puder trancar a porta.
As folhas de cores garridas estavam vibrantemente espalhadas por todo o chão, o que poderia encorajar qualquer criança corajosa a aninhar-se debaixo de uma pilha de folhas e transformá-la num brilhante esconderijo; algo que, de facto, algumas crianças aristocratas estavam a fazer naquele momento, tal como Manta pôde ver ao caminhar pelo corredor. Sorriu ligeiramente quando ouviu as vozes das suas amas repreendê-las por serem muito barulhentas, e exigiram que as crianças viessem para dentro, para longe do frio.
Ah, as crianças vão ser crianças, Manta teve vontade de lhes dizer. Para quê restringir aquela pouca liberdade quando ainda são tão pequenas, antes de crescerem e passarem pelo desequilíbrio hormonal da adolescência-
- MATAMUNE! - gritou em pura surpresa.
O gato, que estivera a caminhar pelos corrimões, arregalou os olhos. Não foi o único, no entanto. As amas e as crianças olharam para cima, surpresa evidente nas suas caras.
- O que estás... - começou Manta a perguntar a Matamune, mas o gato arqueara as costas, numa aparência algo intimidante.
- Manta! Aquelas pessoas não me conseguem ver!
- O quê-?
Manta olhou de volta para os observadores e viu a clara confusão e suspeita com que o encaravam. - D-desculpem! - gritou para eles, agitando as mãos loucamente antes de virar na direcção oposta.
- Ide aos aposentos dos Asakura. Falaremos lá - ordenou Matamune.
Ele assim fez. Pediu ajuda navegacional ao gato pela enorme mansão, até parar, ofegante e exausto, exactamente no mesmo sítio onde conhecera Matamune pela primeira vez.
- P-porquê... - chiou Manta, agarrando-se a um pilar ali perto para se apoiar. - Não...gasp...conseguiam eles...gasp...ver-te?
- Precisais trabalhar a vossa resistência - comentou Matamune, e recebeu um olhar indignado do rapaz. O gato riu um pouco ao saltar suavemente para o parapeito e se sentar. - Sou um Goryōshin, recordai-vos?
- Sim, mas... - Algo não fazia sentido, algo que ele não registara antes... - ...O Yorimichi conseguiu ver-te. E os guardas.
- Apenas porque o Hao-sama assim o permitiu - explicou Matamune brevemente. - Ele é o meu mestre; deu-me este corpo com o seu Furyoku.
- Então... és invisível para todos os outros?
- Para todos que não sejam shamans - respondeu Matamune, coçando-se com a pata traseira de uma forma preguiçosa. - Ou para todos os que não tenham poderes espirituais. Ao contrário de vós.
- Heh... então é tipo, como um botão? - comentou Manta, curioso. - Se o Hao-sama o liga, as pessoas podem ver-te, e se o desligar, não podem, certo?
Matamune limitou-se a olhar para ele.
- Esquece - resmungou Manta. - Porque é que o Hao-sama te tornou invisível?
O gato pausou, como se considerasses se devia ou não contar-lhe. - Ele deu-me uma tarefa - relatou.
- Uma tarefa?
- Confirmar algo - disse Matamune. - Seria mais problemático se as pessoas me pudessem ver.
- O que queres... ah... estavas a espiar? - perguntou Manta acusadoramente.
Matamune pareceu afrontado. - Não precisais de usar esse tom comigo, rapaz. Era uma absoluta necessidade, dado... dado certos eventos.
Manta fez uma carranca. - Certos eventos? Para quê todo este secretismo? Do que estás a falar?
- Coisas que são apenas assunto do Hao-sama.
Mas Manta não era o melhor aluno do seu ano de toda a escola sem motivo. - Não acho. Tem algo a ver comigo, não é?
Matamune não disse nada.
- Diz-me!
O gato suspirou, exasperado. - Porque crês que tem algo a ver convosco?
- Simplesmente sei que tem. Não sou completamente idiota. Há coisas que tu e o Hao-sama não me estão a contar - bufou Manta. - Se só tivesse a ver convosco, eu deixar-vos-ia em paz, mas estou preso nesta era estranha sem nenhum motivo, e eu só... argh, não sei! - Nem ele sabia porque a frustração se estava a acumular e borbulhar dentro dele enquanto se agarrava à cabeça.
- Sou sempre deixado às escuras de uma forma ou de outra! Nem o Yoh me queria contar o que ia fazer! Provavelmente estou no meio do que quer que se tenha estado a passar, não sei o quê, mas as pessoas simplesmente não parecem capazes de pensar que eu valho mais do que aparento... - Vales?
Acreditava mesmo naquilo?
- Eu só quero saber a verdade-! - Manta gritou para calar a voz na sua cabeça.
- Manta.
O rapaz loiro cessou de imediato o seu protesto e girou de forma brusca. Atrás de si estava Hao em pessoa, olhando para baixo para ele com uma expressão indecifrável no rosto.
O silêncio que permeou foi mais desconfortável do que qualquer outro que Manta já tinha experienciado antes. - Hmmm... - tentou ele. - Eu estava... hã...
- A fazer uma birra - terminou Hao por ele, e apesar do seu embaraço, o nó no peito de Manta dissolveu-se ligeiramente ao olhar para cima e ver a amostra de um sorriso formar-se na cara do onmyōji.
- Hao-sama - a voz de Matamune ressou atrás de si.
Manta, demasiado ocupado a olhar para o chão como se estivesse fascinado com ele, não viu o olhar que passou entre eles os dois. - Muito bem - concedeu Hao. - Vou dar-te a verdade, se é o que queres, mas... - disse-lo em resposta ao olhar ansioso na cara do rapaz. - ...há coisas que é melhor não saberes demasiado. Darei o meu melhor para responder quaisquer questões que tenhas, mas não esperes que te conte tudo.
- O-ok.
Hao apoiou as costas no pilar e gesticulou a Manta para se sentar no parapeito ao lado de Matamune. - Manta - começou ele. - Sabes alguma coisa acerca de disputas de poder?
- Claro - confirmou Manta, surpreendido. - Quero dizer, o meu pai está no mundo dos negócios, por isso tem de competir com outros rivais para continuar a ter lucro, e já o ouvi mencionar... bem, algumas coisas más que as pessoas fazem no trabalho dele. Às vezes, os parceiros de negócios viram-se uns contra os outros e os rivais normalmente fazem coisas muito desprezíveis para chegarem ao topo.
- Então o teu pai compreende - disse Hao. Fechou os olhos, parecendo quase cansado, até repugnado. - Qual crês que seja o seu principal objectivo?
- Hã... dinheiro, suponho eu. O que mais?
- É poder, Manta. Os humanos são egoístas, e podem fazer coisas terríveis para conquistar ou manter o seu poder. Com poder, os humanos convencem-se que são deus, que o mundo está na ponta dos seus dedos. Daí o poder ser tão tentador que as pessoas estão dispostas a quaisquer meios para o conseguir.
Manta quase parou de respirar, abalado pelas palavras ditas de forma tão brusca. O Hao de mil anos depois odiava os humanos até ao âmago. Era por isto-?
Hao inspirou profundamente e expirou com as palavras que disse em seguida: - Nesta era, não é diferente - continuou um pouco mais calmamente. - Os aristocratas têm de disputar uns com os outros para se manterem no poder. Lorde Michinaga tem de disputar incansavelmente com as outras casas nobres. E... os humanos podem estar dispostos a trair os seus, os próprios familiares de sangue, para alcançar os seus objectivos.
- Eu percebo tudo isso - disse Manta, confuso. - É bastante revoltante, mas o que é que isso tem a ver comigo?
- Já está a decorrer uma enorme disputa - respondeu Hao simplesmente. - A minha ideia é devolver-te ao teu tempo antes que testemunhes tudo isso.
- Já está a decorrer? - O coração de Manta ficou gelado. - O que é? Tem alguma coisa a ver... comigo? - Não conseguia perceber porque ele haveria de ser apanhado no meio de assuntos aristocráticos. - Mas eu não pertenço a ninguém importante... pelo menos não neste tempo. Porque haveria eu de-?
Devia ter soado bastante desesperado, porque Matamune estendeu uma pata e afagou as costas de Manta. - Acho melhor não responder a isso, Manta - disse Hao impassivelmente. - Tudo o que tens de fazer é manter-te discreto e deixar o resto comigo.
Manta abriu a boca para protestar, mas então fechou-a e afastou o olhar. - Eu percebo - disse inexpressivamente. - Suponho que me vou embora então. - Voltou-se de forma brusca e desapareceu, os passos desvanecendo depressa mas gradualmente, tentando fugir de tudo o que sempre conhecera; tudo o que sempre o magoara.
- ...Porque não lhe contais? - Matamune observou tristemente a figura do rapaz que se retirava ao colocar a questão ao seu mestre. - O rapaz não está habituado às mentiras que persistem neste lugar.
Hao respondeu de forma indiferente. - É melhor ele não saber, já que não planeio deixá-lo permanecer aqui durante muito mais tempo. Nem ele planeia.
O assunto de relatar os desenvolvimentos mais recentes que o gato testemunhara tinha sido completamente esquecido. - Perdão por dizer isto, Hao-sama - protestou Matamune. - Mas nunca fostes alguém de apregoar o ditado, "A ignorância é uma bênção".
- Ele não pertence a este tempo, Matamune - respondeu Hao com um pouco mais de persistência. - Se lhe contasse o que o aguardaria, e o que aconteceria quer ele aqui ficasse ou não, teria de carregar essas memórias com ele quando regressasse... - O onmyōji voltou-se para lançar um olhar ao seu gato que quase raiava a raiva. - Tu não compreendes.
Hao apoiou a cabeça para trás contra o pilar e suspirou, sabendo que as suas últimas três palavras haviam trespassado o coração do seu amigo. Mas não havia nada que ele pudesse fazer.
- Tendes razão, Hao-sama - disse Matamune secamente, e saltou do parapeito para o chão com um baque que ressoou com um terrível género de finalidade. - Não compreendo. Nenhum de nós compreende.
Apercebi-me que não compreendo nada acerca de vós, Hao-sama, porque nunca me tereis dado essa hipótese.
E Matamune retirou-se, deixando o seu mestre mais sozinho do que nunca.
Um milénio depois...
- RAIOS! - gritou Horo Horo, tentando afastar agressivamente o fumo que tapava a sua visão.
- ISTO NÃO FUNCIONA!
As tentativas de recomeçar o feitiço tinham falhado miseravelmente, ao longo das várias horas em que tinham tentado inúmeras vezes. O resultado terminava de diferentes formas de cada vez. Yoh e Ryu tinham recebido uma bufada de vento na cara que quase os tinha atirado pela janela (com Yoh a gritar excitadamente ao mesmo tempo), depois Anna e Faust quase tinham tido as caras borrifadas com água que tinha sido disparada de lado nenhum (o último atirara Horo Horo contra o pilar de cabeça com uma força inacreditável porque ele tinha rido do desastre que quase ocorrera). Continuou assim até que por fim pareceu que o Destino correspondia à sua reputação de acabar com as coisas num grande ka-boom, quando todos eles testemunharam uma pequena explosão ocorrer, enchendo a sala de pesadas nuvens de fumo.
- Estou... farto... - chiou o Ainu, esperneando e tossindo.
Ren, com o seu cabelo pontiagudo completamente espalmado e sujo, lançou um rugido de frustração, apoderando-se do livro antigo e começando a abaná-lo como se quisesse espancá-lo até o levar a admitir o seu erro por os fazer passar por autênticos idiotas. - O QUE RAIOS ESTÁ ELE A APRONTAR?!
- Quem? - Ryu afastou a cara colada no chão uma segunda vez, massajando o nariz.
- O HAO! - gritou Ren. Atirou o livro para o chão e parecia até capaz de o pisar. - QUE RAIO DE PIADA É ESTA? QUE LIXO É QUE ELE PÔS AQUI, AFINAL?!
- A-acalma-te... coff... Ren... - disse Yoh, sacudindo-se e tentando dar um riso fraco. - Sem resultados, hã?
- Parece que vamos ter de perguntar ao Hao, aquele desgraçado - anunciou Chocolove de mau humor.
Tao Ren parecia prestes a sair disparado em fúria de novo até a campainha tocar, o seu som estridente ressoando pela casa. - Com licença! - uma voz aguda e doce ecoou vinda de lá de fora. - Anna-san? Yoh-sama!
- Tamao-chan! - Ryu animou-se.
- Boa, ela já cá está - disse Anna. De alguma forma, apenas ela permanecera a salvo da pequena destruição.
Yoh ficou a olhar para ela enquanto a noiva marchava para fora da sala. - Bolas, isto quer dizer que ela teria chamado a Tamao até aqui para nada se tivéssemos sido bem sucedidos... - murmurou, coçando a cabeça.
No momento seguinte, estavam todos na entrada e ali, na ombreira, estava a tímida shaman de cabelo rosa, cuja boca se abriu ao ver o estado do grupo. - O-o que aconteceu a...? - guinchou ela.
- Não importa - Anna afastou a pergunta dela. - Entra. Precisamos que encontres uma pessoa para nós.
- Hai! - Tamao obedeceu à sua respeitada sénior sem questionar e entrou na casa, murmurando um cumprimento ao resto dos shamans. Anna aclarou a garganta quando Yoh acenou e lhe disse "Yo!"
- Ano, Anna-san? - perguntou Tamao, tentando esquivar-se de Ryu, que tentava abraçá-la. - O que aconteceu ao Manta, exactamente?
- Foi levado para o passado. Ou assim pensamos nós - explicou Anna. - Lamento, mas não há tempo para explicações. É melhor começarmos.
- Hai! - A itako de cabelo loiro guiou o caminho até à sala de estar, onde Tamao em breve utilizaria o tabuleiro Ouija preso sob o seu braço na sua maior extensão.
Assim que estavam todos novamente sentados num círculo, Tamao inspirou profundamente. - Vou começar.
- Encontra-o - disse Yoh determinadamente enquanto Tamao abria o tabuleiro. - Vou onde quer que ele esteja, e vou trazer o Manta de volta. Encontra o Hao.
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fim do capítulo 8
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