Nota pt-pt para pt-br:

- de novo, "rapariga" é tão normal e inocente quanto "moça"

- "autocarro" é o mesmo que "ônibus"

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Nota de tradutor: Como disse no começo, o jogo/escolha entre diferentes níveis de 'tu', 'você' e 'vós' dependeria do que eu considerasse mais apropriado para os personagens em questão, tendo em conta o período histórico em que se encontram.

Tinha em mente situações específicas no futuro em que personagens usariam o 'vós' normalmente em contextos sociais, mas que cairiam para um 'tu' mais tarde e isso serviria para mostrar o desprezo real e a queda da reputação da pessoa a quem ele se dirige *tosse*Yorimichi*tosse*. No caso do Manta, por exemplo, sempre usei o 'tu' do Yorimichi para com ele por o Manta ser uma criança (e porque não abusemos, não estou a ver o Yorimichi tratar alguém como o Manta com um pronome muito elaborado) E os aristocratas dirigem-se aos criados, por exemplo, por 'tu' por motivos óbvios.

No caso do Manta a dirigir-se ao Hao, por exemplo, ele deveria fazê-lo com um 'você'', mas o Manta conhece o Hao do futuro e portanto está sempre a esquecer-se e a deslizar para um 'tu'.

Isto tudo para falar da Keiko:

sempre usei 'vós' dela para com o Manta para tentar mostrar que a Keiko o trata com respeito por defeito/princípio. Para tentar mostrar que a Keiko não veria o Manta como 'inferior', de alguma forma (O Matamune é igual). Neste capítulo, optei por a Keiko passar a tratar o Manta por 'tu' não com a mesma ideia que personagens como o Yorimichi fariam, mas sim por aumento de familiaridade/protecção da Keiko para com o Manta.

Para agradecer o tempo a lerem esta nota descomunal, vou deixar um fanartzeco do Michinaga e dos 3 filhos relevantes para a história, Murasaki, Yorimichi e Akiko, que fiz de memória em 2016 no final deste capítulo no ao3 (sorry pessoal do ffnet. Haverei de fazer uma publicação única no tumblr com todos os fanarts, já que links aqui não são muito fáceis)

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Manta caminhou atrás do criado que o conduzia ao chefe da família Fujiwara, sentindo-se bastante nervoso. Pouco depois de ter chegado ao seu quarto após um rápido jantar, o criado aparecera e batera à porta. Silenciosamente, ponderou as razões por detrás da estranha convocatória e só desejava não ter feito nada de errado.

O criado depressa parou em frente de uma porta. - Michinaga-sama - chamou. - Trouxe o rapaz.

- Manda-o entrar - a trovão distante que pertencia a Michinaga penetrou através da porta.

Manta entrou numa sala iluminada por velas, tenso, e um mau pressentimento rapidamente substituiu a sua surpresa inicial por ver Yorimichi de pé atrás do pai.

- Hm, chamou-me, Michinaga-sama? - perguntou Manta enquanto a porta se fechava atrás de si.

- Sim, de facto - respondeu Michinaga. - Deves estar-te a perguntar porque te convoquei de repente sem razão aparente, por isso vou directo ao assunto. Lembras-te de um homem chamado Nobunaga?

O rapaz loiro franziu a testa, tentando recordar-se do nome familiar. - Nobunaga?

- O homem que conheceste ontem, Manta - disse Yorimichi. - O que... bem, gritou contigo por interromperes a sessão de filosofia.

A memória do homem ressurgiu de imediato na sua mente. - Oh sim, lembro-me dele. Porque me perguntais isso?

- Está doente - anunciou Michinaga abruptamente. - Muito doente.

- Doente?

- Nobunaga colapsou ontem pouco depois da sua refeição, a seguir à sessão de filosofia - explicou Michinaga. - Queixava-se de enxaquecas terríveis e dores abdominais, e foi mais tarde encontrado inconsciente junto do lago no jardim. Foi levado para a enfermaria pouco depois.

Manta não sabia o que dizer. - Eu...eu não sabia disso - gaguejou. - Porquê? O que se passa com ele? Como é que ele está?

- Vivo, mas em estado crítico - Yorimichi respondeu à sua última pergunta. - O médico diz que não está, de maneira alguma, fora de perigo.

- Foi intoxicação alimentar?

Yorimichi olhou para ele atentamente, o olhar concentrado fazendo Manta sentir-se mais do que apenas desconfortável. - Porque dizes que é intoxicação?

- Bem, mencionastes dor abdominal, e isso é típico de uma intoxicação alimentar, não é? - disse Manta, franzindo o rosto.

Houve uma pequena pausa antes de Yorimichi responder: - Suponho que sim.

- Intoxicação alimentar está fora de questão - disse Michinaga. Começou a andar para trás e para a frente na sala, colocando as mãos atrás das costas, olhando para a janela atrás dele. A brisa gelada fazia as velas tremeluzir. - Todos comeram da mesma comida que o Nobunaga, e ninguém adoeceu.

- Os seus sintomas são ainda piores do que as anteriores pacientes, as damas-de-companhia da minha filha Akiko - prosseguiu o lorde com uma carranca. - É um dos meus melhores conselheiros. Não desejo perdê-lo.

- Pediram uma solução ao Hao-sama? Como da última vez - perguntou Manta cautelosamente.

O olhar de Michinaga voltou-se para ele, com uma estranha expressão nos seus olhos antes desta desaparecer tão depressa quanto aparecera. - Pedimos. Clama que não ter ideia.

Manta mordeu o lábio, mas depois franziu o sobrolho quando se apercebeu de algo. - É mau para o Nobunaga-san, mas o que é que isso tem a ver comigo? - perguntou, confuso.

Talvez tivesse sido a imaginação de Manta, mas achou que tinha visto um vislumbre ser trocado entre pai e filho. - Alguém te viu perto dos aposentos do Nobunaga, onde ele passara a maior parte do seu dia - disse Michinaga, observando atentamente a surpresa e confusão que se instalavam em Manta.

- Viram? - perguntou Manta, o queixo caído. - Mas...eu não o voltei a ver depois da sessão. Na verdade, eu estive com o Hao-sama logo a seguir, e depois voltei para o meu quarto.

- Alguém pode confirmar isso? Além do Hao - acrescentou Yorimichi quando Manta abriu a boca.

- N-ninguém - respondeu Manta, incerto, não gostando muito da maneira como as perguntas lhe estavam a ser feitas. Parecia mais um interrogatório do que questões inofensivas.

- Eu... - começou Manta, mas Michinaga foi mais rápido.

- Muito bem. Podes ir. - O tom enigmático na voz do lorde deixou claro que Manta estava a ser resolutamente dispensado.

Após um momento de hesitação, Manta fez uma rápida vénia. - Hai - murmurou. Com o desconforto nele ainda a remexer-se, Manta saiu da sala.

Houve um momento de silêncio quando a porta se fechou atrás dele. - Bem - Yorimichi falou primeiro. - O que pensais, Pai?

- Acho que estás a ver coisas, Yorimichi - respondeu Michinaga bruscamente, voltando-se para olhar para o seu filho. - O rapaz não parece ameaçador, apenas confuso. Não me pareceu ardiloso ou culpado.

- Talvez - disse Yorimichi, enquanto o seu pai se voltava para olhar para uma pintura pendurada na parede atrás dele. - Mas ainda acho suspeito que o Nobunaga tenha adoecido logo após gritar com o Manta ontem. E não crês que o seu passado é questionável? Aparece mesmo em frente de nossa casa, inconsciente e com roupas estranhas, a dar-nos uma história pouco convincente de fome e inanição. Ele-

Michinaga ergueu a mão, cortando o monólogo de Yorimichi. - Questiono-me, de facto, acerca da veracidade da alegada origem do rapaz - admitiu. - Mas isso nada tem que ver com a doença do Nobunaga. Quanto à repreensão que o Nobunaga lhe deu ontem, bem, isso é uma fraca motivação. Muito fraca. Não concordas, filho?

- Suponho que sim, Pai. Mas o rapaz-

- Não quero distrações do teu trabalho, e nem do futuro casamento da tua irmã, Yorimichi - continuou Michinaga, inclinando a cabeça para olhar severamente para o filho. - E o médico cuidará da saúde do Nobunaga. Compreendeste?

- Sim, Pai. - Sem mais outra palavra, Michinaga saiu da sala, o criado lá fora curvando-se à sua passagem.

- Yori- - O criado começou a falar.

- Deixa-me - comandou Yorimichi. O criado apressou-se a obedecer e fechou as portas da sala.

O poder que o seu pai ainda tinha sobre si levou uma enorme bolha de ressentimento a crescer dentro dele, mas o aristocrata combateu-a. A recusa de Michinaga em acreditar em Yorimichi não era inesperada, mas era boa o suficiente; por agora. Pelo menos, lançara alguma sombra de dúvida sobre a credibilidade de Oyamada Manta.

Yorimichi andou para trás e para a frente enquanto se recordava do incidente de Aokigahara. O homem pusera o cadáver ao lado do rapaz, mas se Manta conversara com o espírito do velho de todo, fizera um brilhante trabalho a escondê-lo. Ou talvez a chance de apanhar o rapaz em flagrante fora simplesmente perdida, tendo em conta que o plano não fora um plano de todo. Não havia mal em aproveitar-se da oportunidade, por mais pequenas que fossem as chances de sucesso.

Tirando isso, estava tudo a correr bem. Era apenas uma questão de tempo antes de os ministros das várias famílias nobres - assim como aqueles camponeses patéticos - se voltassem para o lado dele e então nada o impediria de alcançar a posição de topo.

Sorrindo amarga mas triunfantemente ao mesmo tempo, Yorimichi saiu da sala da mesma maneira que o seu pai.


Entretanto, era apenas o medo de perturbar os residentes dos Fujiwara que impedia Manta de gritar de frustração.

- Estou PERDIDO! - grunhiu desesperadamente. Como podia ter sido tão estúpido, saindo daquela forma sem ter nenhuma noção para onde ia? Dera a volta, indo por aqui e por ali sem rumo, tentando recuar os passos, tudo para nada.

Não conseguia. Tinha de encontrar alguém, qualquer um, para o ajudar a voltar para o quarto.

Manta voltou rapidamente para o lado e deu um pequeno grito. Várias outras pessoas gritaram também.

- Manta! - arquejou alguém, apoiando-se contra o parapeito.

- K-k-keiko? - gaguejou Manta, tentando abrandar o seu coração aos saltos. Pestanejou várias vezes, pois estava cara a cara com várias mulheres, empregadas, pelo que parecia, todas com as respirações entrecortadas do súbito choque.

Olharam uns para os outros durante um momento, e então depois alguém começou a rir. Pouco depois, estavam todos a rir, apesar de não se atreverem a fazê-lo muito alto por medo de punição dos superiores.

- D-desculpem - disse Manta assim que conseguiu recuperar o fôlego. Limpou as mãos transpiradas (apesar de estar frio cá fora) na roupa, e tomou uma posição mais tímida.

- Porque estás aqui no escuro, Manta? - perguntou Keiko. - Não é seguro, sabes.

- Nunca estive nesta parte da casa antes, por isso perdi-me - admitiu Manta. - Estava a tentar encontrar o caminho de volta para o meu quarto.

- Nesse caso - disse Keiko amavelmente. - Eu levo-te de volta. Vocês todas; entreguem as ervas ao Nobunaga-sama. Eu vou lá ter daqui a pouco - acrescentou ela às criadas.

As mulheres fizeram vénias e passaram por eles, uma delas carregando um tabuleiro de madeira com várias plantas de aspecto estranho e água. - O Nobunaga-san está doente, não está? - disse Manta.

- Aparentemente, sim - suspirou Keiko enquanto começava a conduzir Manta de regresso ao quarto. - Não faço ideia porquê. Sei que os cozinheiros se certificam sempre que são higiénicos na preparação da comida para os mestres, portanto não pode ser intoxicação alimentar...

- Bem, o Michinaga-sama não acha que seja intoxicação alimentar - murmurou Manta, a mente a voltar para a bizarra e estranhamente desagradável troca de palavras de antes.

- Passa-se alguma coisa?

Manta hesitou por uma fracção de segundo; então decidiu ser honesto com Keiko. Ela merecia, especialmente após a longa separação nestes últimos dias. - Fui ter com o Michinaga-sama e o filho, Yorimichi-san, ainda agora. Fizeram-me perguntas sobre a doença do Nobunaga-san.

- O quê? - Keiko parecia surpreendida. - Mas porque haverias de ter algo a ver com isso?

- Não sei - disse Manta, franzindo o rosto de confusão. - O Yorimichi-san disse que alguém me viu fora do quarto do Nobunaga-san ontem. Mas não estive nem lá perto! Não que o saiba, pelo menos... Talvez tenha passado por lá acidentalmente sem saber? - Manta acabou numa meia-pergunta, sem ele próprio acreditar.

Muitas pessoas podiam ter passado pelo quarto do Nobunaga. Porque é que ele recebera atenção em especial?

- Ouvi um pouco acerca da interrupção na discussão de filosofia - Keiko comentou tentativamente. A caminhada deles estava agora abrandada para um passo gentil, cada um absorvido no mistério da questão. - Nobunaga repreendeu-te, não foi?

- Bem, sim, mas eu não quis perturbar a reunião, só ouvi por acidente... - A voz do rapaz loiro dispersou numa suspeita crescente. - Espera lá... eles não acham... que eu sou responsável pela doença dele, pois não?

- Podem achar. Já que Nobunaga-sama não te tratou muito bem no vosso primeiro encontro.

Manta voltou a ficar sem palavras, a boca ainda mais aberta do que durante a conversa com o Lorde Michinaga. - Mas... - balbuciou ele. - Isso é de loucos! Nem me lembrava do incidente até o Yorimichi-san me falar disso! Porque haveria eu de... sei lá, envenená-lo por causa de uma coisa tão estúpida como essa?

- Acalma-te, Manta - advertiu Keiko de forma urgente. Enquanto Manta se debatia para o fazer, ela falou mais gentilmente. - É apenas um palpite. Eu sei que não tiveste nada que ver com isso, por isso não te deves preocupar demasiado.

O que Manta não reparou foi na preocupação real que estava a crescer na própria jovem criada. Keiko não conseguia evitar suspeitar que aquilo que escutara da sua senhora tinha algo a ver com o Manta acabara de lhe contar.

Vais contar-me tudo acerca dele, não vais?

Seria mera coincidência? Ou talvez algo mais sinistro?

- Hãã... Keiko-san? Já chegámos.

Surpresa, Keiko voltou-se para ver Manta um pouco mais atrás dela, mesmo à porta do seu quarto. - Oh - disse ela, embaraçada. - Desculpa. É melhor que tenhas uma boa noite de descanso, então.

- O que se passa? - perguntou Manta antes que ela pudesse ir-se embora. - Pareces um pouco preocupada.

Keiko abriu a boca para falar, mas as palavras não surgiram ao lembrar-se do que Hao lhe dissera: Para deixar as coisas com ele e não se preocupar. Mas quereria isso dizer que ela não estava autorizada a contar ao rapaz as suas suspeitas?

Para sua surpresa, a expressão do rapaz escureceu. - Sabes de alguma coisa, não sabes?

Keiko hesitou, sem saber como responder. - Manta?

- As pessoas têm-me escondido tantas coisas ultimamente, eu consigo perceber os sinais de imediato - disse Manta, sorrindo sem humor. - Sei que há algo... apenas algo... e que também não é bom... que está relacionado de alguma forma comigo. Só não consigo perceber o que é.

Até o tom dele soava deslocado, mas sob ele, Keiko conseguia ouvir a frustração e a raiva subjacentes. Sentiu uma súbita onda de compaixão pelo rapaz.

- Não sei tudo - começou Keiko a dizer, e o seu tom fez Manta olhar para cima em surpresa, com uma ligeira amostra de ansiedade. - Mas escutei a Senhora Murasaki falar com alguém noutro dia... dizendo que estava interessada em ti e no Hao-sama.

Passaram-se alguns segundos.

- ...Hã? - foi a resposta mais inteligente que conseguiu dar.

- Tentei avisar o Hao-sama acerca disso, mas ele apenas disse para deixar o assunto com ele, e que... - Keiko hesitou ao recordar as suas palavras. - E que ele sabe de tudo o que lhe quero contar.

Manta olhou à volta em incerteza, mas a última frase não fora uma surpresa. - Aposto que sabe - murmurou. - Mas não vejo como vou conseguir arrancar seja o que for dele.

- Devias confiar nele, Manta - Keiko aconselhou o rapaz loiro. - O Hao-sama alguma vez te deu algum incentivo para não o fazeres?

- B-bem, não, mas... - Confiar no Asakura Hao? Não o farias tão depressa se o conhecesses daqui a mil anos...

- Conheço Hao-sama há algum tempo... mesmo não sendo próxima a ele... - disse Keiko, puxando Manta para fora dos seus pensamentos atribulados. - Ele é... amável. Digno de confiança. Tenho a certeza que ele fará o seu melhor para te ajudar, seja o que for que se passe. - Estivera à beira de contar ao rapaz loiro sobre o seu intimidante encontro com a Senhora Murasaki, mas decidiu não o fazer.

Manta olhou para ela com curiosidade. A expressão facial dela lembrava-o de alguém que ele conhecia no futuro, de alguma forma...

Tamao, apercebeu-se ele num salto. Quando está a falar sobre o Yoh.

- Gostas dele, não gostas?

Keiko pareceu ser trazida de volta à Terra com um rude choque, pois voltou o olhar chocado para ele, envergonhada. - C-claro que não! - gaguejou ela. - Eu não...não é dessa forma...

A criada pareceu debater-se numa luta interna enquanto Manta olhava abertamente para ela, sem expressão. - Boa noite, Manta - atirou ela, e então afastou-se apressadamente, deixando um rapaz muito confuso à porta do seu quarto.


Na manhã seguinte, parecia que o Inverno se instalara finalmente. As árvores pareciam desamparadas e solitárias sem as folhas que lhes davam tantas cores vibrantes no Verão ou na Primavera, e os ventos gelados que sopravam cortavam cada pedaço de pele exposta dos residentes Fujiwara. Tremendo ao levantar-se, Manta vestiu-se parcamente, e o ar frio deu-lhe uma chapada de despertar gelada assim que saiu.

- A seguir vem neve - disse Manta para si ao enrolar o cachecol à volta do pescoço com mais força.

Apesar do tempo frio, Manta decidira dar um pequeno passeio antes do pequeno-almoço, e pelo caminho, apanhou um vislumbre da Senhora Akiko recebendo várias prendas matrimoniais no salão de jantar, tais como joias e alfinetes de cabelo para ela e para as suas damas-de-companhia.

- Manta-kun! - uma das muitas mulheres que a rodeavam guinchou ao ver a forma do rapaz loiro.

- Hã, olá - cumprimentou Manta desleixadamente, e depois repreendeu-se por se dirigir a pessoas de classe elevada de forma tão casual, mas ninguém pareceu ter reparado.

- Entra! Entra! - Antes de perceber, Manta fora puxado para o meio da linha de raparigas entusiasmadas, Akiko incluída.

Questões como "Fico bem com isto?" e "Ou achas que este me fica melhor?" ou "O que achas desta bracelete?" foram ficando mais e mais altas, fazendo Manta desejar mais e mais que tivesse a habilidade de se evaporar.

- Hã, bem, eu não sei bem... - gaguejou Manta, remexendo-se. - Porque continuam a perguntar-me isto, afinal...? - balbuciou esta última parte.

- És um rapaz, deves saber! - protestou uma delas, e todo o ciclo começou de novo.

Manta estava a ficar bastante desesperado, até a forma de um homem corpulento aparecer na ombreira, a sua expressão séria silenciando a multidão de mulheres de imediato. - Minha senhora - ele dirigiu-se à Senhora Akiko respeitosamente.

- O que se passa? - perguntou Akiko.

- Devem todos reunir-se no Grande Salão de imediato - anunciou a todas. - Michinaga-sama tem algo para nos informar. Minha senhora, por favor. - Fez então um gesto para que ela caminhasse à sua frente.

Em silêncio, todos se levantaram, uma atmosfera submissa instalando-se de imediato, e puseram-se a caminho do Grande Salão.

Pergunto-me o que se terá passado, pensou Manta, ele próprio com uma sensação de pavor a crescer dentro de si.

Uma enorme multidão aguardava no Grande Salão, mas a atmosfera não continha nada das festividades que em tempos tivera durante o anúncio do casamento do Príncipe Ichijo e da Senhora Akiko. Em vez disso, sussurros curiosos se espalhavam por todo o lado como resfarfalhar de folhas, e alguns rostos de pedra eram exibidos, sugerindo que sabiam acerca do que se passava.

Manta deslizou humildemente para a frente onde a maioria estava reunida, reconhecendo o perfil de Hao por entre o grupo de onmyōji. A sua expressão não aliviou a inquietação do rapaz loiro.

Pouco depois, até os sussurros cessaram. O Príncipe Ichijo e o Lorde Michinaga entraram no salão régia e apressadamente, os rostos sombrios. Uma vez no topo do pódio, Michinaga começou a falar.

- Atenção a todos - revibrou ele. - Receio ter más notícias. O ministro dos Negócios Centrais, Nobunaga, faleceu após ter piorado durante a noite passada.

Arquejos horrorizados soaram de todo o lado quando as pessoas murmuraram agitadas umas às outras. Várias mulheres começaram a chorar. - Como faleceu ele? Foi veneno? Michinaga-sama! - um homem ousado gritou da audiência angustiada.

- O médico não pode ter a certeza. Nem podem os outros curandeiros - explicou Michinaga apressadamente, como se não desejasse colocar-se na culpa do mistério que rodeava a morte de Nobunaga. - Ainda estamos a investigar.

- Não foi apenas Nobunaga - acrescentou Ichijo roucamente. Olhou para cima para a multidão novamente silenciosa, as suas sobrancelhas franzidas. - Vários dos meus guardas foram encontrados perto da área isolada dos jardins... Mortos. Provavelmente aconteceu enquanto estavam em patrulha. Foram horrivelmente mutilados.

A declaração chocante não arrancou sussurros das pessoas desta vez. Apenas um silêncio chocado permaneceu no ar.

- Foram assassinados? - alguém arquejou por fim, e os murmúrios, mais urgentes e consternados, começaram de novo a espalhar-se.

- Mutilados... - murmurou Manta. Imagens horríveis de corpos ensanguentados em decomposição surgiram na sua mente, e abanou a cabeça violentamente para as afastar.

Manta levantou a cabeça e olhou para Michinaga; e congelou por um breve segundo. Os olhos de Michinaga estavam direccionados directamente para ele, num olhar de esguelha que mais ninguém viu. O rapaz loiro limitou-se a olhar de volta para ele, tentando não quebrar o contacto visual, ou parecer culpado. Com uma pancada desagradável, lembrou-se da suspeita que provavelmente fora atirada para cima dele na noite passada.

Eu... não fiz nada...

Michinaga afastou o olhar por fim, permitindo a Manta respirar mais livremente. - Estou terrivelmente perturbado por estas múltiplas perdas. Nobunaga era um bom ministro, e os guardas eram dos melhores. Podem ter a certeza que iremos caçar o criminoso sem coração por detrás dos ataques aos homens do Príncipe Ichijo.

- O casamento ainda irá decorrer? - perguntou outra pessoa.

Michinaga e Ichijo trocaram olhares rápidos antes de o lorde Fujiwara responder. - Sim - disse firmemente. - O casamento decorrerá conforme originalmente planeado. Este desastre não pode afectar a ocasião.

- É mais o facto de ele ir perder a ligação à realeza se o casamento não for feito - Manta ouviu alguém resmonear atrás de si, apesar para ser rapidamente silenciado por outra pessoa.

Manta olhou para a outra multidão sentada numa linha recta atrás de Michinaga, como uma assembleia oficial. Yorimichi e Murasaki estavam ali, os seus rostos impassíveis por entre toda a tensão e ansiedade. O rapaz loiro tentou não os escrutinar de forma demasiado aberta. O aviso de Keiko na noite passada lançara os alarmes na sua mente.

Mas um homem atraiu de facto a atenção de Manta. O semblante de Hao mudara, a cabeça ligeiramente inclinada para que ninguém mais alto conseguisse ver a sua expressão facial com facilidade. Mas a baixa altura de Manta providenciou-lhe uma visão perfeita do rosto do onmyōji.

Tal como em Aokigahara, Manta lembrou-se do encontro com o trabalhador que colocara o cadáver ao seu lado com um arrepio. Frio. Zangado.

- Haverá uma simples procissão em honra de Nobunaga, mas não será algo ostensivo - a voz sucinta de Michinaga forçou Manta a olhar de novo para ele. - Confio que todos saibam porquê. Estão dispensados.

A abrupta dispensa espantou todos ligeiramente, mas apressaram-se a obedecer de igual forma. Enquanto Manta procurava na multidão, evitando propositadamente Michinaga, viu Hao também a seguir com o resto dos Asakura. Disse algo a um dos onmyōji, que assentiu, e Hao separou-se do resto, seguindo sozinho algures.

Manta não demorou muito a chegar a uma decisão.


- Espere! Huff, huff... ESPERA! Hao-sama!

O onmyōji travou, as costas ainda voltadas para Manta. O pequeno rapaz loiro alcançou-o por fim, arfando violentamente.

- H-hao-sama - arquejou Manta. - Agora pode contar-me o que é que se está a passar?

- Creio que já te dei essa resposta antes - respondeu Hao inexpressivamente.

Cerrando os dentes em frustração, Manta tentou controlar o temperamento. - Olha - fervilhou ele. - Estava mesmo a tentar confiar em ti e deixar isto, o que quer que isto seja, para ti. Mas morreram pessoas, Hao-sama! E tu ainda estás-

- Não posso impedir todos os infortúnios que assolam esta casa - atirou Hao. - Ao contrário do que as pessoas parecem pensar.

Se não fosse pela própria raiva crescente de Manta, teria recuado no momento em que ouviu a nota perigosa que a voz de Hao ganhou. Por isso, não sentiu medo.

- O Michinaga-sama desconfia de mim, Hao! - gritou Manta, agora sem sequer se incomodar a acrescentar o sufixo respeitável. - Ele e o filho parecem acreditar que eu causei a doença do Nobunaga, o que eu não fiz... E a Keiko-san acabou de me avisar ontem à noite sobre a Senhora Murasaki... Ela quer saber coisas sobre mim! E sobre ti!

O rosto de Hao ficou rígido.

Manta continuou incansavelmente. - Estou metido no meio disto tudo... desta coisa... disto que eu- eu nem sei o que é! E pareço ser o único que ainda não sabe nada de nada-

- Chega - ordenou Hao, e desta vez, Manta parou.

Hao parecia prestes a quebrar a qualquer momento. A respiração estava entrecortada, a mão sobre o coração, e o seu rosto... já era a segunda vez que Manta o comparava a Aokigahara. Manta estremeceu perante a angústia e quase ódio assustador cravado nas feições do onmyōji.

Recebeu uma nova onda de choque quando Hao caiu sobre um joelho, a tremer. - H-hao-sama - começou Manta, hesitante, aproximando-se dele. - Está bem? O que se pa-?

- Chega! - disse Hao com muito mais veemência e veneno, quase gritando.

Manta afastou-se instantaneamente, o coração na garganta. - Vai - Hao falou com a voz mais baixa, mas com a mesma quantidade de força aplicada naquela única palavra.

- Desculpa - foi tudo o que Manta disse antes de fugir pela segunda vez em dois dias.


1999, Novembro.

Naquele preciso momento, Yoh, Anna, Faust, Ren, Horo Horo, Chocolove, Tamao e Ryu, juntamente com os seus espíritos acompanhantes, tinham apanhado um autocarro nocturno para Hokkaido, por coincidência a cidade de origem do rapaz Ainu ("Foi para Hokkaido nesta altura? É bom que não tenha incinerado nada por lá..." ameaçara Horo Horo).

Cerca de 3 horas se tinham passado desde que tinham partido, e já passava da meia noite. Quase todos no autocarro estavam a dormir, cansados da longa viagem e das discussões aleatórias acerca do confronto com Hao - desta vez, por iniciativa deles.

Eram por volta das 5:30 quando finalmente chegaram ao seu destino. O que os recebeu foram planícies de puro branco, com árvores de folha permanente como pinheiros escassamente plantados, grossas camadas de neve apinhadas em cada ramo. Todos eles aconchegaram os cachecóis e casacos, as respirações a saírem em condensações de fumo. O ar frio soprou à volta deles, picando-lhes os rostos e dando-lhes um bom despertar.

Havia uma pequena estalagem quente aberta para os passageiros cansados e esgotados, mas apesar de tremerem pelas temperaturas geladas, ninguém parou para considerar ficarem um pouco mais.

- Tamao - Anna falou primeiro, ignorando as espreguiçadelas e bocejos atrás de si, excepto de uma pessoa. - Leva-nos até ele.

- Pergunto-me se ele nos vai contar o que quer que seja - resmungou Chocolove.

- Saberemos quando lá chegarmos - disse Yoh inesperadamente, a sua mente ainda cheia das perguntas sobre a segurança de Manta. Fora o único que não dormira durante a viagem.

Se alguém reparara na totalmente estranha preocupação que marcava o seu rosto, ninguém o comentou.

- Está na área noroeste do desfiladeiro Sounkyo! - revelou Tamao de repente, erguendo o olhar do seu tabuleiro Ouija.

- Soun...?

- Deixem comigo - anunciou Horo Horo com confiança, tentando afastar o sono. - Eu conheço este sítio como a palma da minha mão! Sigam-me!

Ainda mais estranhamente, Anna não lhe bateu por se atrever a tomar a liderança na sua presença e seguiu-o em silêncio com o resto.

Após uma caminhada exaustiva mas refrescante pelos campos cobertos de neve, depressa chegaram a uma cascata que ainda corria continuamente sobre as rochas perto de uma íngreme inclinação, apesar da fina camada de gelo que se formara sobre certas partes da água. As árvores em redor do desfiladeiro estavam abismalmente despidas, e havia uma estranha serenidade no lugar, com sua imagem invernal.

- Mais em frente, e depois virar à esquerda - murmurou Tamao, os olhos fielmente no tabuleiro.

O encontro com Hao agora totalmente gravado nas suas mentes, começaram todos a sentir a inquietação a acumular-se neles, e da parte dos rapazes, os instintos naturais que os preparavam para a batalha começaram a despertar.

- Não - avisou Anna, atirando-lhes um olhar fulminante como se tivesse lido as mentes deles. - Agora não.

- Quase lá - Tamao disse tão suavemente que o grupo mal o ouviu. Os passos deles tornaram-se um pouco mais agressivos.

Havia uma abertura na rocha um pouco mais à frente. Entraram todos, contendo a respiração, aguardando pela imagem à frente deles, e-

Nada.

Ficaram todos pregados ao chão. Demorou alguns segundos até alguém falar. - Ele não está aqui - sussurrou Yoh.

- O que se passa, Tamao? - exigiu Anna.

- M-mas...! - gaguejou Tamao, analisando o tabuleiro desesperadamente. - Ainda agora o sinal era tão forte! Não sei para ele, o Hao, foi!

- Porquê? - perguntaram todos, irados, fazendo Tamao encolher-se em nervosismo.

- D-desculpem... - pediu ela miseravelmente.

- Raios! - rugiu Ren de repente, pontapeando o enorme monte de pedras perto deles em fúria. - Deve ter desaparecido quando nos sentiu chegar! O pequeno...

- Então, então - uma voz com uma desilusão trocista soou vinda de cima deles. - Não é muito apropriado para ninguém descarregar as frustrações num monumento da natureza.

A atmosfera sofreu uma mudança brusca, cheia de uma estranha tensão eléctrica. Todos ficaram tensos, e voltaram as cabeças para cima.

- Olá a todos! - cumprimentou Hao alegremente. As mãos estavam entrelaçadas, as pernas cruzadas, e estava sentado no topo da rocha mesmo por cima das cabeças deles. A imagem perfeita de despreocupação. - Porque não sobem até aqui e saem do frio, eh?

- E aproximarmo-nos de ti? Morrer congelado seria preferível - atirou Anna, fulminando o shaman de fogo com o olhar.

- Mas não para ti, Anna. Não é? - disse Hao a sorrir. - Já que és Rainha do Gelo em pessoa...

A itako loira fungou desdenhosamente enquanto o grupo à sua volta apenas de remexeu desconfortável e atiraram os olhares para outro lado.

Hao limitou-se a encolher os ombros e levantou-se do chão, deixando cair pedaços de neve à volta de Ren como resultado do movimento súbito. O shaman chinês teve de recuar, a rosnar.

- Bem, como eu vejo as coisas, vocês podem ou irem embora agora, uma vez que acho que um sítio tão maravilhoso quanto este não merece sofrer com as minhas chamas, ou podem subir. E podemos saber a razão da vossa tão rara e agradável visita. - Hao sorriu, um sorriso que não sugeria absolutamente nada a não ser intenções amigáveis. - Acho que ambos sabemos a opção a tomar. - Virou-se então e desapareceu de vista, o seu longo cabelo castanho ondulando com os ventos sendo a última coisa que o grupo de pessoas desagradado viu lá em baixo.

Yoh cerrou os dentes. - Ei, espera! - gritou ao irmão mais velho, começando a escalar a custo as íngremes rochas ao mesmo tempo.

As suas acções foram como um gatilho, e depressa o gangue estava a seguir Yoh. Uma pergunta, apesar de aplacada pelo sono e longas horas, estava agora de repente a arder nas suas mentes de novo.

Será que Hao traria Manta de volta?

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fim do capítulo 9

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