Notad de tradutor: A autora não tem os nomes do pessoal do Hao escritos correctamente ('Lucifer' seria o Luchist, por exemplo) mas optei por deixar como no original.

Gosto tanto deste capítulo que o copiei todo à mão quando estava no 11º ano (ou no 10º?) para o ler durante a viagem de autocarro numa visita de estudo a que fui. Sim, possíveis-leitores-jovens: não haviam computadores de bolso na altura. Os telemóveis eram telemóveis. Quando achar o caderno, mostro fotos só porque sim :)

Enjoy~

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Novembro, 1999

A palavra "desconfortável" nem começaria a descrever a situação estranha em que os jovens shamans se encontravam.

Yoh e os seus amigos estavam rigidamente de pé, remexendo ocasionalmente pedaços de neve com os pés. Do lado oposto estava Hao, divergindo da pose dos seus visitantes no facto de estar em vez disso sentado descontraidamente num pedregulho, os braços cruzados complacentemente. Não havia nada no seu rosto sorridente que sugerisse qualquer sinal de ameaça aos oito recém-chegados, mas a fila de pessoas que o cercava indicava o contrário. Os seguidores de Hao encaravam-nos hostilmente, lembrando uma batalha fria e silenciosa a decorrer nos olhares gelados que cada lado lançava ao outro.

- Vá lá. - Hao foi o primeiro a quebrar o gelo, fechando os olhos numa desilusão trocista. - Temos de ser tão hostis? Não é habitual nós shamans termos férias do Torneio, e acho que o mínimo que podíamos fazer era relaxar.

- Diz isso aos teus lacaios - resmungou Ren, provocando olhares ainda mais ferozes, particularmente de uma certa rapariga de cabelo laranja, conhecida pela alcunha 'Macchi'.

- "Lacaios?" - disse ela furiosamente. A bruxa volátil não tinha de maneira alguma esquecido a última batalha, da qual ele emergira vencedor, claro, pensou Ren orgulhosamente.

- Que termo tão pouco civilizado - um homem de barba e voz grave denotou, parecendo estar dividido algures entre irritação e divertimento. - Tal como esperado de crianças como eles.

- Não digas coisas assim, Lucifer - repreendeu Hao na brincadeira, o seu olhar divertido nunca se afastando do grupo à sua frente. - Na verdade, porque não levas todos para dentro de casa? Parece que o meu irmão tem alguns... assuntos pessoais para partilhar.

Lucifer apenas acenou em aquiescência, guiando os seguidores de Hao de volta para a pequena cabana que se erguia aconchegante perto deles. A facção devota seguiu atrás do ex X-Law em silêncio, o tempo todo lançando olhares insatisfeitos ao gangue, que a maior parte retribuiu com entusiasmo. - Tu também, Opacho - acrescentou Hao amavelmente à pequena criança africana perto dele.

- Temos de te pedir uma coisa - Yoh apressou-se a dizer imediatamente a seguir de os subalternos de Hao terem retirado em segurança para a cabana. Era melhor ir directo ao assunto agora que estavam todos aqui.

- Sim, eu supus que sim - respondeu Hao levemente. - Tem a ver com a minha Chō Senji Ryakketsu... algo assim?

Yoh não parou para se perguntar como é que ele sabia disso. - Algo... aconteceu algo de errado com ela - pressionou ele. - É o Manta, ele foi sugado num...num...num estilo de buraco negro, e achamos que ele provavelmente foi parar a um tempo errado.

Hao não disse nada por um momento, antes de lhes sorrir novamente. - Manta? Aquele teu pequeno amigo humano que está sempre atrás de ti, Yoh?

- Ele desapareceu, e precisamos tê-lo de volta, está bem? - Horo Horo ladrou. O Ainu, na sua agitação, remexeu a prancha de snowboard rudemente sobre o ombro.

- Ahhh, não admira que estejam todos tão tensos - disse Hao em tom de provocação, saltando do pedregulho e aterrando com um pequeno baque no chão coberto de neve. Pelo canto do olho, Yoh conseguia ver a mão esquerda da sua noiva contrair, como se resistindo ao impulso de dar ao shaman de fogo outra amostra das suas lendárias chapadas. Yoh perguntou-se quanto tempo demoraria a que a paciência dela acabásse.

- E?

A descontração, a fingida confusão inquisitória, e aquele interminável sorrisinho divertido que envolveram aquela única palavra certamente puxaram os limites de todos um pouco mais ao extremo. A mão de Anna contorceu-se mais um pouco.

- Como assim, "e"? - rosnou Ren, soando indignado e engasgado com humilhação zangada. - Sabes o que queremos!

- Viajam tantas horas, e ainda assim recusam-se pedir o que precisam de mim - suspirou Hao.

A itako podia ter explodido neste momento, mas Yoh, felizmente, intrometeu-se. - Queremos a tua ajuda para trazer o Manta de volta! - A sua voz ganhara apenas uma nota de desespero determinado.

- Claro que querem - comentou Hao alegremente, não respondendo ao apelo de todo. - Embora me pergunte o que vos fez tentar um nível de magia tão avançado. O que vos deu a noção que viajar no tempo era uma boa forma de matar o tempo livre nas vossas mãos?

Ali estava. A pergunta que todos tinham estado a temer. E ali estava ele, olhando para todos com um tal interesse exagerado que nenhum duvidou por um único momento que este rapaz estava a fazer tudo aquilo de propósito.

Até um cego teria sido capaz de ver aquele brilho insuportavelmente trocista nos seus olhos castanhos.

- ... Nenhuma resposta, eh?

- Sim, estávamos a tentar matar-te - disse Anna rispidamente, atirando um olhar feio aos seus homólogos masculinos, como se irritada com a sua cobardia. A sua paciência já era pouca na presença dele, e Hao não ia ter a satisfação de ver o seu próprio embaraço irado. - E então? Não é assim um segredo tão grande que quase todos os shamans que te conheçam hão-de querer livrar-se de ti.

A declaração, tal como ela deveria ter esperado, não teve qualquer efeito em Hao. Em vez disso, teve o impacto oposto de aumentar o seu já de si alegre sorriso, tornando o seu divertimento tão palpável que alguns deles quase perderam as suas batalhas em tentar serem civis. - De facto, Anna. Mas esta deve ser a primeira vez que esses mesmos shamans vêem a necessidade de procurar a minha ajuda numa das suas tentativas falhadas em me matar. Interessante.

A única resposta foi um silêncio de pedra.

Outro suspiro. - Muito bem, então.

Por um momento, alguém que não estivesse a prestar muita atenção teria pensado que fora Yoh a falar. Então, depois de perceber de onde a voz viera, o grupo só pôde ficar de boca aberta numa descrença desconfiada.

- Vais... ajudar-nos? - Faust, inesperadamente, perguntou de maneira cautelosa. Lançaram breves olhares ao doutor, surpresos pelo normalmente calado necromancer ter decidido falar.

- Correcto - concordou Hao, com a habitual vivacidade infantil mas madura que adornava as suas feições demasiadas vezes.

- Estávamos a tentar matar-te, e tu vais fazer-nos um favor? - disse Ryu, sem acreditar.

O shaman de fogo apenas riu um pouco mais pelas suas expressões estupefactas. - Sou assim tão mesquinho? Afinal de contas, é o amigo do meu querido irmão que necessita ser resgatado. - O sorriso de Hao ganhou então uma sombra gradual de algo semelhante a interesse concentrado e obscuro, que qualquer um que o conhecesse minimamente perceberia que havia mais nas suas intenções. - Acho que tenho o dever enquanto aniki do Yoh de atender a este pedido.


Período Heian, Japão

Quer tivesse sido ou não apenas a sua imaginação, Manta tinha a noção persistente que "eles" (não tinha bem a certeza quem) não estavam a contar aos residentes dos Fujiwara. Conseguiu perceber pelas pequenas pistas durante estes últimas dias, na maneira como às vezes via expressões preocupadas nas caras dos governantes e os sussurros que apanhava ocasionalmente enquanto andava pelos corredores. Mas sempre que se aproximava, calavam-se de imediato, ou fingiam estar a fazer outra coisa. Ou assim ele achava.

E Michinaga andava a lançar-lhe olhares atentos, quase suspeitosos, durante os momentos em que cruzavam vagamente caminhos. Tudo o que Manta podia fazer era engolir a sua indignação e medo, e fingir não reparar.

Tentando tirar-se do seu humor depressivo, Manta puxou de forma bastante violenta as faixas enroladas à volta das prendas, que já estavam embrulhadas em tecidos de cores vibrantes. Rangendo os dentes, o rapaz loiro deu o seu melhor para as prender firmemente com tanta força quanto o seu pequeno corpo permitia.

- Como está, Manta? Está a correr bem? - um jovem homem mal-arranjado perguntou-lhe. Carregava um enorme saco de melões de Inverno e de ameixas sem esforço enquanto falava, recolhidos com muito custo das reservas do domicílio.

- Muito bem, obrigado - respondeu Manta, sorrindo desajeitadamente. Teve de levantar a voz acima dos ruídos de movimentar e mover bens, já que os criados e empregadas corriam para cumprir ordens ladradas por várias damas-de-companhia. O espaço apinhado, cheio de vozes agitadas e uma ambiência atarefada no geral, era quase um pandemónio, mas o rapaz loiro sentiu-se estranhamente reconfortado por toda a confusão.

O jovem homem abanou a cabeça em desespero ao debater-se para passar pelas pessoas que se apertavam contra ele. - E pensar que Michinaga-sama quer fazer isto para todas as suas filhas!

- Silêncio! - repreendeu outra mulher. Pausou a meio de embrulhar ornamentos de aspecto estranho numa caixa, voltando a sua cabeça bem adornada para fulminar o homem com o olhar. - Que audácia! - A mulher acenou furiosamente para as damas-de-companhia que não estavam muito longe.

- Ah, relaxe, estão demasiado ocupadas a andar por aí, a gritar ordens daquelas... Faz uma pessoa pensar como podem cantar de forma tão bonita em frente de Sua Majestade...

Manta conteve um sorriso ao regressar ao seu trabalho, o ruído circundante afogando quaisquer resquícios da discussão que decorria. Era por isto que gostava de ajudar com os preparativos do casamento do Príncipe Ichijo e da Senhora Akiko, onde não tinha de passar os dias em silêncio e tédio, já que os seus trabalhos de casa sobre o Período Heian já estavam há muito terminados (e escondidos).

Já para não falar que também o impediam de pensar demasiado naquele último incidente com Hao...

Uma voz aguda de uma rapariga nova soou algures à sua esquerda. - Ouviram? Vamos ter recém-chegados hoje, provavelmente ao final da tarde...

- A sério? Quem? - um pequeno rapaz intrometeu-se com curiosidade, pausando no seu processo de amarrar as prendas.

- Não sei, mas ouvi que são membros de uma certa família...

Mas para afastar a memória do infeliz encontro para longe da mente, Manta juntou-se à conversa deles. - Família?

- Sim. - A rapariga voltou-se para olhar para Manta, agradada por ter mais uma pessoa na sua audiência. - Pareciam ser mesmo importantes, mas não acho que nos vão dizer até os membros da família chegarem...

- De onde é que ouves tudo isto afinal, Miyo? - perguntou o rapaz, parecendo um pouco irritado.

- Só oiço - disse a rapariga obstinadamente. - Seja como for... - Voltou-se para Manta. - O que é mesmo interessante é que eles não são do Japão.

- Oh? De onde são, então?

A rapariga coçou a cabeça com vergonha. - Não consegui ouvir tudo - admitiu ela. - Eles viram-me e mandaram-me logo embora.

Manta assumiu que "eles" significavam oficiais governantes. Mas a rapariga tinha uma última coisa a acrescentar. Inclinando-se para a frente, sussurrou conspiradoramente para Manta e para o seu companheiro. - Mas esta família parece ser assustadora. Consegui perceber pelas vozes deles. Pareciam ter medo da família.

- Miyo! Estás a contar uma das tuas histórias outra vez? - uma mulher mais velha e de aspecto severo repreendeu, erguendo-se sobre as três crianças. - Não distraias os rapazes e faz o teu trabalho! Ainda temos muito para fazer!

- Hai, hai - obedeceu a rapariga, contrariada. Levantou-se e afastou-se, carregando um cesto de prendas embrulhadas, resmoneando algo parecido a "escravatura" e "nada engraçado". Manta viu a velhota abanar a cabeça antes de desaparecer na confusão.

Família, hã... As palavras percorreram-lhe a mente, mas além da família ter uma reputação assustadora e ser de outro país, havia... Manta afastou os pensamentos porque queria acabar de embrulhar. Após prender um laço para terminar, Manta levantou-se e empilhou as coisas nos braços, tentando olhar à volta do monte para ver o caminho.

Era difícil tentar navegar por entre o mar de pessoas, e de novo, a baixa altura de Manta colocava-o em desvantagem. Após se torcer e retorcer e ter vários quase-embates, conseguiu finalmente sair, a arfar, para as carroças de madeira, onde os homens as levariam para sabe-se lá onde.

- Precisas de ajuda?

Manta congelou. Virou a cabeça violentamente para cima para a figura que se erguia sobre ele.

- Hao-sama! - alguém arquejou, e como se tivessem carregador num interruptor, quase toda a actividade cessou quando a multidão se voltou para olhar para o famoso onmyōji.

Hao ergueu a cabeça e sorriu ligeiramente para as pessoas. - Não me deixem interromper o vosso trabalho. Só vim buscar uma pessoa.

Murmúrios de "hai" gaguejados ecoaram pela multidão enquanto tentavam recuperar da sua momentânea surpresa e confusão, e continuaram os seus trabalhos. - Bem, Manta? - perguntou Hao, olhando para baixo para ele de novo. - Podes caminhar um pouco comigo?

- Hmm...as coisas... - balbuciou Manta pateticamente.

- Pode carregar as coisas deste rapaz para as carroças, por favor? - Manta demorou um momento a aperceber-se que Hao se estava a dirigir a uma jovem mulher perto deles.

- S-sim, Hao-sama! - a mulher gaguejou, quase saltando para a frente para aliviar Manta do seu peso.

- Obrigado - agradeceu Manta, mas a mulher não pareceu tê-lo ouvido, pois afastara-se assim que oso bens estavam nas suas mãos. Pelo canto do olho, Manta viu um monte de mulheres, murmurando sob as mãos ao olharem para Hao, tons cor de rosa tingindo as suas faces pálidas. Um clube de fãs, de facto.

- Vamos? - disse Hao, desviando-se para indicar a Manta para caminhar a seu lado.

Apesar do tom gentil, havia uma firmeza na voz de Hao que deixou o rapaz loiro sem escolha a não ser concordar. Assentiu, incerto.

Ignorando os olhares curiosos da multidão, os dois deslizaram por entre eles e desapareceram para fora de vista alguns momentos mais tarde.


- Tens frio?

Manta assustou-se com o som inesperado da voz de Hao. Tinham estado a caminhar em silêncio durante os últimos minutos, por passadiços cobertos de pesados cobertores de neve que caíra tarde na noite anterior. Ainda caía.

- Mm, nem por isso - respondeu, abanando a cabeça. Era verdade. O ar estava estranhamente ameno mesmo com a temperatura negativa e Manta nem precisava usar o seu cachecol ou algum dos casacos de lã que a maioria dos residentes vestia; mas claro, já sabia a razão.

- Não pareces muito interessado em saber porquê.

- Oh - disse Manta, apanhado desprevenido. - Hummm... pois... sabes... - Oh, tanto faz, pensou ele. - Deve ser por tua causa, suponho, já que és um shaman e assim...

- Verdade - disse Hao, revelando uma nota de divertimento. - Estava a perguntar-me porque não demonstravas a tua habitual curiosidade em saber porque ainda te sentias tão quente num tempo tão frio, mesmo durante aquela viagem a Aokigahara.

Eu sabia. Ele está mesmo a topar-me. resmungou Manta para dentro.

Para ser alívio, Hao mudou de assunto, embora para um não menos constrangedor.

- Não te devia ter levantado a voz no outro dia. Peço perdão - desculpou-se Hao, inclinando a cabeça para o rapaz.

- O-oh, hum... - Apanhado de surpresa pela sinceridade no tom do onmyōji, Manta atrapalhou-se com as palavras. - Não há problema... Também, fui eu que comecei...

Com a voz a dispersar em silêncio novamente, Manta lançou um olhar tentativo ao onmyōji, tentando ler a sua expressão. O rapaz loiro achou que os orbes de Hao tinham um ar bastante pensativo, embora as restantes feições do seu rosto se mantivessem cuidadosamente inexpressivas. Era uma expressão que se estava a tornar familiar para ele, e de novo voltou a fazê-lo reflectir o quão diferente este Hao era do do futuro.

Mas por mais que tentasse, Manta não conseguia evitar o pressentimento ao recordar-se da forma que Hao tomara no outro dia. A centelha de insanidade que residira naqueles olhos puxara à força a sua mente para o Asakura Hao do presente, onde por vezes o velho ódio flamejava sempre que ficava desagradado.

Fora algo que assustara Manta na altura. Na era Heian, não era diferente. Mas na verdade, era muito pior, porque Manta já vira um lado neste Hao que nunca soubera que existira, um lado que Manta começara a gostar inconscientemente, ainda que com cautela.

Raios. Era tudo tão confuso. Tudo faria muito mais sentido se Manta simplesmente soubesse o que se passava exactamente à sua volta, a coisa que causara tanto sofrimento ao onmyōji que fora suficiente para deixar o famoso Asakura Hao cair de joelhos.

Manta estava tão profundamente preso no seu tumulto interno que não reparou para onde se dirigiam até Hao parar.

- A neve vem tarde este ano - disse Hao em voz baixa, estendendo a mão para deixar bocadinhos brancos cair na sua palma.

- ...Sim, também acho. - Sem pensar, Manta estendeu um único dedo para que um fragmento de neve pousasse gentilmente na ponta. Não havia ninguém por perto a não serem eles os dois. - Mas a neve parece estar a cair mais do que costume - acrescentou Manta, o olhar em círculos ao analisar a área à volta deles. O lugar deserto estava coberto do branco mais puro, o pesado cobertor cobrindo os ramos despidos das árvores e dos telhados das várias secções do domicílio dos Fujiwara.

Manta moveu-se um pouco, os pés causando um pequeno som de esmagamento ao tocarem na neve, que quase envolvia a totalidade do exterior dos seus sapatos. Num impulso, disse: - Sabes, a minha mãe costumava dizer que as flores que desabrocham mais tarde no ano tendem a ser mais bonitas de todas.

Quase imediatamente depois de as palavras deixarem a sua boca, Manta corou. Aquilo fora uma coisa muito aleatória de se dizer, até estúpida... Talvez a neve, silenciosa na sua descida, o tivesse feito sentir tranquilo, quase melancólico, o suficiente para levar pensamentos e desejos idiotas a serem ditos em voz alta.

Mas Hao não reagiu. Sorriu, tristemente, ao céu. - Engraçado. Havia uma pessoa que também costumava dizer-me coisas assim.

- Quem? - Manta não conseguiu evitar perguntar.

- A minha mãe. - Hao não se voltou para olhar para Manta, mas em vez disso, manteve o olhar fixo acima de si, sem reparar na neve que esvoaçava sobre o seu rosto e também para o seu longo cabelo acinzentado.

- A tua mãe? - ecoou Manta, sem se importar em esconder a sua surpresa. Ate aí, o rapaz loiro nunca considerara perguntar sobre as relações pessoais de Hao, ou sequer pensara sobre o assunto... Sem dúvida teria sido ousado e embaraçoso, mas desta vez, sob a presença calmante do Inverno, parecia natural puxar o assunto.

- A estação do ano preferida dela era o Inverno - disse Hao, ainda sem olhar para o rapaz atrás de si. - A minha era a Primavera. - Deu então um riso suave. - Quando era criança, costumava tentar todas as maneiras para mudar a preferência dela para a minha, porque acreditava que uma mãe e um filho deviam de partilhar de tudo juntos.

Manta pausou, sem saber como proceder. Se alguém alguma vez lhe tivesse dito que estaria a ouvir a história de vida de Hao em primeira mão no futuro (mais ou menos), ou teria resfolegado ou pensado que a pessoa estava drogada.

- O que lhe aconteceu? - perguntou cuidadosamente.

- Morreu - respondeu Hao. A sua voz, marcada de tristeza, tornou-se algo brusca.

- Oh. - Não admira, pensou tristemente. Numa era como esta, devem haver muitas doenças...

- Não foi doença que a matou.

Os olhos de Manta esbugalharam-se e a cabeça disparou para cima, e abriu a boca sem saber o que dizer por um momento.

- Tu consegues ler mentes ou assim? - A pergunta, automática e totalmente involuntária, saiu disparada da sua boca e para o ar entre eles.

Então, recuperando a noção de forma abrupta, Manta arquejou e atirou com a mão contra a boca. - Desculpa, q-quero dizer... - gaguejou. - E só que... bem...

Hao voltou-se, e poderia ter dado a Manta o que se parecia com um sorriso, se não fosse a sua imaginação hiperactiva de novo. - Prometo-te, Manta, vou encontrar uma forma de te enviar de volta ao a casa. Ao teu tempo.

- H-Hah?

O sorriso de Hao tornou-se mais brincalhão ao olhar para a inquietação na cara do rapaz loiro. - Sei que tens saudades de casa. E dos teus amigos também, se não estou enganado.

Bingo.

Completamente nervoso, Manta só conseguia olhar para o onmyōji. Era bastante...assustador...

- Conseguiste...conseguiste fazer algum, hã, progresso? - perguntou Manta, tentando manter a mente calma e os nervos sob controlo.

- Um pouco. Mas acho que talvez os teus amigos do futuro também te estão a tentar contactar. - Hao esfregou uma única partícula branca entre o polegar e o indicador, aparentemente fascinado pela rapidez com que derreteu.

- A sério? - exclamou Manta, animando-se de imediato. - Como é que sabes?

- Houve alguma pressão espiritual quando terminei uma parte - explicou Hao. - Talvez vinda do outro lado, se se pode chamar assim.

- Então, já acabaste o feitiço todo? - perguntou Manta, ansioso.

Hao sorriu de forma cansada. - Não sou assim tão milagroso. Disse que apenas completei uma parte, mas o resto ainda permanece por ver. Mas - acrescentou ele, baixando a mão. Voltou-se de novo para Manta, e então deixou a cabeça deslizar para o lado, os olhos em Manta. - Vou terminá-lo. Podes confiar firmemente em mim nesse facto.

Manta não queria pensar o que aquela última afirmação implicava. - Seja como for - começou a dizer, determinado. - Acho que já tenho uma ideia do que se passa. Um pouco.

Foi deveras imprudente da sua parte, arriscar destruir qualquer que fosse a emenda na relação deles que tinha ocorrido na última meia hora. Mas Manta queria insinuar algo mais a Hao: que o que quer que o onmyōji pudesse dizer ou fazer, não o iria impedir de descobrir a verdade se conseguisse. Com a respiração entrecortada, aguardou para ver a reacção do homem.

Hao olhou para ele, a expressão vazia, uma arte que Manta sabia que ele dominara com mestreia ao longo dos anos. Limitou-se a olhar para o rapaz loiro, a cabeça quase totalmente dobrada para olhar nos olhos do pequeno rapaz.

Então, para espanto múltiplefacetado de Manta (isso era sequer uma palavra?), Hao voltou a sorrir, apesar de talvez de forma bastante pesarosa. - Sempre soube que a Keiko tinha um coração demasiado mole para o seu próprio bem - disse ele.

Manta mal teve tempo de compreender o poder assombroso que ele pensava já ter testemunhado vindo de Hao, quando uma figura mais pequena, magra e quase despreocupada, caminhou na direcção do par.

- Hao-sama - cumprimentou Matamune, inclinando a cabeça para Manta também.

- Matamune? - disse Manta, surpresa superando o seu momentâneo vacilo há pouco.

Manta viu Hao inclinar a cabeça para o gato num gesto inquiridor. - Novidades, Matamune?

- Sim. - O gato castanho olhou directamente para ambos. - Eles chegaram.


Para grande irritação de Manta, Hao e Matamune recusaram dizer-lhe quem "eles" eram, além de um enfurecedor "Vais ver" quando fez a pergunta.

Assim que regressaram a uma área mais ocupada perto das salas de preparativos para o casamento, viu governadores e guardas de aspecto rígido à espreita fora da porta que pertenciam ao Ramo do Norte, a comitiva de conselheiros de Michinaga, conforme Manta lera no seu manual de História. As faces dos governadores estavam pálidas.

Após verem as três (dois, corrigiu-se Manta, já que Matamune fora deixado invísivel) figuras aproximarem-se deles, os ministros saltaram, mas agruparam-se de imediato. - Boa tarde, Hao-sama - murmuraram todos em uníssono.

- Estão lá dentro? - perguntou Hao, voltando a cabeça para a porta fechada.

- S-sim - um dos governadores respondeu, lançando um olhar preocupado à porta. - Michinaga-sama está a recebê-los neste exacto momento.

- Foi uma medida bastante drástica da parte de Michinaga-sama, não foi? - disse Hao, voltando o olhar de novo para os ministros. - Fazê-los vir até aqui para esta missão?

Os ministros remexeram-se, aparentemente desconfortáveis com o misterioso acordo. - Não pode ser evitado. - murmurou outro governador. - As coisas chegaram longe demais. Houve demasiado acidentes, demasiadas mortes. E ontem, a mãe do Príncipe Ichijo quase caiu fora do domicílio-

- O quê? Morreram mais pessoas? - perguntou Manta, aterrado, antes de conseguir controlar.

Vários pares de olhos dispararam na sua direcção, mas Manta estava demasiado horrorizado para reagir apropriadamente desta vez.

- Mais homens do Príncipe Ichijo - disse o governador por fim. - Um estribo rebentou ontem, e quase atirou a honorável mãe do Príncipe Ichijo para o rio da sua carruagem. E... - A sua voz dispersou.

- E? - perguntou Hao.

O governador agitou-se. - E há apenas dois dias atrás, a... o que pareceu ser um dedo humano surgiu na sopa da Senhora Akiko durante a hora da refeição, e ninguém sabe como. A pobre senhora recebeu um enorme choque.

- Deve ter recebido - comentou Hao suavemente.

Manta engoliu em seco. Partes de corpo humanas na sopa. Apetecia-lhe vomitar.

Quem raios teria uma mente perversa ao ponto de fazer isto?

De repente, um ribombar de vozes vindas de dentro da sala deu lugar a uma grande comoção. Para enorme choque de Manta, um homem saiu a voar da sala e aterrou no terreno coberto de neve lá fora, vindo de uma porta quase arrancada que baloiçou contra a parede pelo impacto.

- O-o-o quê? ? - arquejou Manta, o corpo gelado e os olhos tão grandes quanto pratos.

As expressões dos ministros espelhavam maravilhosamente a da cara do rapaz loiro enquanto fixavam o homem aparentemente inconsciente caído na neve. A cena era quase cómica do ponto de vista de alguém de fora.

- LI! - uma voz de homem, alta, estrondosa e autoritária (não de Michinaga) dirigiu os olhares chocados de todos para o interior da sala. - Comporta-te, rapazola!

- Não foi culpa minha - uma voz despreocupada e completamente sem remorso soou em resposta. A voz pertencia a um rapaz mais novo. - Ele estava mesmo a gabar-se, o quão capaz ele era, e o quão perigosos nós éramos...

- Contigo por perto, qualquer pessoa sã chegaria a essa conclusão - um jovem rapaz comentou, estupefacto.

- Isso magoa os meus sentimentos, aniki...

Como se de repente se apercebesse da sua nova audiência, a multidão de homens voltou-se para encarar as pessoas embasbacadas no exterior. Mas o que mais apavorou Manta foi o rapaz que era obviamente culpado de alguma forma atirar o infeliz homem para fora da sala.

Tinha olhos amarelos. Cabelo azul escuro. Até um pequeno toutiço de cabelo espetado na parte de trás da cabeça que concedera a alguém, alguém que Manta conhecia muito bem, a imagem de marca...

- Planeei apresentar estes recém-chegados a todos vós de uma forma mais... dignificada, mas mais vale assim. - A voz seca de Michinaga veio da frente da sala. Manta viu-o abanar a cabeça em resignação. - Cavalheiros, a família Tao estará aqui durante todo o tempo que demorem a cumprir a sua missão. Ficarão encarregues de caçar o culpado responsável por estes actos desprezíveis.

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fim do capítulo 10

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