A família Tao estava à sua frente. Não os Tao que Manta conhecia - mas os antepassados dos Tao. Os antepassados de Tao Ren.
De repente, tudo fazia sentido.
Como é que ele não adivinhou? Devia ter sabido desde o princípio quando Miyo lhe contou a sua história... A viagem com Yoh para resgatar o seu novo amigo fora mais do que suficiente para lhe mostrar que os Tao tinham um longo legado de derramamento de sangue, medo e domínio. Eram da China, eram temidos, eram assustadores.
Quem mais poderia ser?
A pequena pausa foi tensa, embora Manta mal tivesse reparado, estando tão absorvido no seu próprio choque que só conseguiu mostrar um olhar esbugalhado.
- Tão pequeno - uma voz disse inesperadamente. Com um salto, os olhos de Manta giraram para o jovem e estranho sósia de Ren.
- P-p-pequeno? - balbuciou Manta inteligentemente.
O rapaz, em vez de parecer envergonhado pela sua rudeza, limitou-se a rir perante o corar furioso e a indignação acalorada que se formou no rosto do rapaz loiro. - Pequeno - afirmou petulantemente, com toda a sabedoria de um velho ancião.
- O-o-o-o quê? - O rapaz loiro parecia-se agora com um minúsculo vulcão, rugindo e estremecendo para irromper.
- Gaguejante também - acrescentou o rapaz de forma demasiado maliciosa para o gosto de Manta.
Tão rude! !
No seu próprio embaraço e raiva, Manta não ouviu a pequena tossidela de divertimento que veio de Hao, que estava de pé atrás dele. Os mais atentos na sala ouviram, no entanto.
- Hao-sama! - exclamou o rapaz em admiração trocista e reverência exagerada, como se tivesse acabado de ver um deus que lhe concedera todos os seus desejos. - Estais tão galante como sempre! - Acabou com uma profunda vénia.
Era bom que Manta (e os outros governantes que pairavam na sala, já agora) não estarem a comer ou a beber nada naquele momento, porque ele tinha a certeza que não teria sido capaz de os manter na relativa segurança da sua boca.
- Ora, obrigado, Li - o onmyōji respondeu calmamente, um pequeno traço de riso evidente na sua voz quando olhou para o rapaz muito mais pequeno ao seu lado pelo canto do olho. O seu divertimento foi apenas aumentado pelo maxilar caído na cara do pequeno rapaz loiro.
- Acalma-te, fedelho - repreendeu um homem. Só podia ser o pai do rapaz e o chefe da família Tao. Com o seu andar confiante e dominante, parecia bastante entediado com os trejeitos do filho, aparentemente demasiado acostumado a eles.
- Hai, Pai - o rapaz respondeu de forma preguiçosa, obviamente apenas a dizê-lo por uma questão de hábito e sem expectativas de enganar quem quer que fosse.
Michinaga aclarou a garganta, tentando chamar de novo a atenção para o assunto em mãos. - Como estava a dizer, eles irão permanecer aqui até o culpado ser capturado, por isso espero que todos os... tratem apropriadamente. - Pareceu haver um significado mais sombrio nas duas últimas palavras, mas ninguém se atreveu a comentar.
- Bem, acho que as apresentações são devidas - continuou Michinaga, numa tentativa de aliviar o ar. - Para o benefício dos meus gover...nadores... - Deixou a última palavra desvanecer quando o olhar deambulou para Manta, que ainda estava com a cara vermelha.
- Oh, hm... Eu vou só... andando, então... - assegurou Manta meio atordoado, tentando aclarar a mente.
- Não importa - a voz resignada do lorde travou-o quando se dirigia à porta. - É tão importante para ti e o resto do domicílio saber os seus nomes, de qualquer das formas.
- Tao Long. É um prazer - o pai disse na sua voz grave e áspera, inclinando a cabeça ligeiramente.
- Tratem-me por Jin - o homem mais novo na casa dos vinte apresentou-se. A sua linguagem e a voz que parecia recentemente amadurecida expressava-se numa forma preguiçosa e despreocupada. O seu cabelo castanho claro parecia despenteado e desalinhado pelo vento. - O segundo filho dos Tao. Prazer em conhecer-vos.
- E eu sou Tao Li - o rapaz de cabelo azul marinho falou, um brilho matreiro e divertido reluzindo nos seus olhos. - O filho mais novo, caso queriam saber.
Alguns dos governadores debateram-se por palavras por algum tempo, aparentemente incertos de como reagir a tal... introdução adequada de uma das mais temidas famílias de assassinos. - Um prazer - murmuraram eles por fim.
O rapaz chamado Tao Li voltou o olhar para Manta de forma bastante inesperada, e curvou-se para a frente. - E o teu nome é? - O seu tom era trocista, mas agradável. Deixou Manta ainda mais desconcertado do que da primeira vez que falara com Hao, por impressionante que fosse.
- Ah...hã... - gaguejou Manta.
O meu nome! A sua mente gritou. Sentindo a necessidade de levar as coisas tão devagar e formalmente quanto conseguisse, conseguiu dizer: - O meu nome é Oyamada Manta.
- Oyamada...Manta... - Li rolou o nome na língua. - Heh. Esquisito. Nunca ouvi ninguém com um nome assim.
Então, sorriu. A sua aura amigável deixou Manta estranhamente agradado com ele, apesar do desconforto que ainda se agitava sob esse sentimento. Tao Li era tão parecido com o seu descendente, Ren.
No entanto, as suas personalidades eram tão diferentes quanto a noite e o dia. Talvez fosse por isso que Manta o achasse tão... perturbadoramente estranho. Sim, talvez essa fosse a forma de o descrever.
- É mesmo muito bom conhecer-te, Manta - disse Li alegremente, o seu comportamento fácil e relaxado. - Talvez vaiamos conviver um pouco um dia destes, eh?
- Conhece-los? - Manta disparou assim que ficaram sozinhos.
Depois de terem sido dispensados pelo Lorde Michinaga, os governadores tinham dispersado de volta para os seus afazeres enquanto os Tao foram conduzidos aos seus aposentos - Manta não sabia onde - por uma criada trémula. Matamune escapulira-se algures, provavelmente para fazer uma sesta. E agora, caminhando ao lado de Hao enquanto regressavam para as secções principais, o rapaz loiro estava finalmente livre para obter algumas respostas.
- Mm - disse Hao. O seu cabelo ondulou ligeiramente para o lado quando o vento soprou pela casa. - Fui destacado para a China para realizar uns trabalhos quando conheci a família Tao. Foi bom ter tido a sua assistência para me garantir fácil passagem por áreas difíceis. Conforme já expliquei a Michinaga.
- Áreas difíceis?
- Lugares onde as pessoas não costumam ser bem recebidas - respondeu Hao em jeito de explicação. - Muitas partes da China não são facilmente acessíveis por qualquer um.
Em privado, Manta perguntou-se o que a família Tao tivera feito para dar a Hao "fácil passagem", mas seguindo o seu bom senso, decidiu não perguntar.
- Não te preocupes - comentou Hao de forma directa, olhando de lado para Manta com uma curva irónica nos lábios. - Não mataram ninguém para o fazer. Não precisam. Até os imperadores chineses lhes obedecem às vezes.
- Oh. Certo - murmurou Manta.
Uma breve pausa passou por um momento antes de qualquer um deles voltar a falar. - Bem? Gostaste dele? - inquiriu Hao agradavelmente.
- Quem? - Manta não pôde evitar perguntar, embora tivesse uma boa ideia a quem ele se referia.
- Tao Li. - Hao disse o nome com o ar de alguém que se recordava de algo muito carinhoso e divertido ao mesmo tempo.
- Hãã...sim, suponho eu... - A voz de Manta tinha uma certa, bem, incerteza. Suponha que Tao Li fora bastante agradável, à sua maneira animada, se não um pouco bizarra. No entanto, não podia fingir que não ficara desconcertado pela excessiva exuberância do rapaz.
Eles eram assassinos, por amor de Deus.
Não ajudava que ele fosse uma réplica quase perfeita de Ren, claro, sendo seu antepassado e assim... A sua mente irracional gritou que simplesmente não era possível duas pessoas serem tão parecidas e no entanto comportarem-se de forma tão inteiramente diferente. Li era quase como uma completa paródia do (...original?) Tao Ren do futuro.
Pensando nisso, Manta estava a começar a ver o lado cómico da troca de personalidade. Sentiu os lábios enrolarem-se involuntariamente.
Os seus anteriores pensamentos frenéticos eram uma absoluta idiotice, de qualquer das formas. Tudo o que alguém tinha de fazer era olhar para Hao e para Yoh, e não poderiam continuar aquela discussão por muito tempo com ninguém.
- Então eles vão ficar aqui até o culpado por detrás dos ataques ser apanhado? - perguntou.
- Sim. - Manta não estava a olhar para o homem mais alto, por isso não o viu franzir ligeiramente o rosto quase de irritação, antes de isso passar rapidamente.
Resignado, o rapaz loiro sabia que não valia a pena começar a chatear Hao directamente por informação, a menos que quisesse levá-los a outra discussão que apenas acabaria num medo aberto e frustração.
- Eles não são o que eu chamaria de pessoas seguras, só para que saibas - avisou Hao, desta vez levando o rapaz loiro a olhar para ele. - Mas são muito reclusivos, portanto tratar os Tao como um dragão adormecido seria... aconselhável.
Bem verdade, Manta não pôde evitar pensar astutamente.
Hao deixou um sorriso igualmente seco alastrar-se pelas suas feições.
Na altura em que Manta entrara de novo na área dos residentes, parecia que quase toda a gente já sabia da chegada da família Tao. Sem surpresa, Manta observou que as pessoas falavam em sussurros suspeitos e lançavam olhares furtivos quer a ele quer a Hao.
Era deveras impressionante o quão depressa as notícias se espalhavam mesmo sem o uso dos média.
Quando Hao se despediu de Manta assim que chegaram às salas dos preparativos, o rapaz loiro teve a impressão que era apenas a presença do onmyōji que contivera as pessoas de o bombardearem por informação acerca dos Tao. De facto, assim que Hao desapareceu, quase toda a gente praticamente saltou para cima do pequeno rapaz e começaram a falar ao mesmo tempo:
- Qual é o aspecto deles?
- Como é que eles são?
- Eram assustadores?
- É verdade que a família Tao vai atrás daquele assassino?
- Eram amigáveis? - (alguém recebeu um 'bop' particularmente audível na cabeça por aquela pergunta, a julgar pelo praguejar baixinho que Manta ouviu.)
A transpirar pelo súbito tumulto que agora o cercada como um enxame de abelhas (ou podia ter sido parcialmente pelo calor irradiado pela condensado amontoado de corpos), Manta deu o seu melhor para explicar o que vira e tudo o que Michinaga dissera sem ser esmagado. Mas não importava o que dissesse, as pessoas continuavam a pressioná-lo incansavelmente por mais, como se insatisfeitas pela falta de grandeza da chegada da conhecida família Tao.
Assim que Manta estava a começar a ficar irritado com o constante incómodo, um súbito silêncio varreu a multidão, seguido por uma imediata divisão ao meio para revelar um homem de pé à entrada da sala.
- Yorimichi-sama! - várias mulheres exclamaram em conjunto, obviamente assoberbadas pela chegada de dois nobres em tão poucas horas.
A pessoa em questão apenas sorriu de forma desarmante. - Não há de todo necessidade de entusiasmo - disse Yorimichi. - A família Tao apenas ficará aqui por pouco tempo até o assassino ser capturado, e nem farão muitas aparições públicas. O que será do agradado da maioria de nós.
Algumas das pessoas da multidão moveram-se desconfortavalmente enquanto murmuravam entre si. Manta, no entanto, apenas olhou para o homem à sua frente com uma vaga amostra de irritação nos seus olhos. Mal conhecia qualquer um dos Tao, mas talvez por já ter tido um futuro Tao como aliado - um precioso nakama - o rapaz loiro não gostou muito do que Yorimichi estava a insinuar. Era como se estivesse a tentar incitar o domicilio inteiro contra a família Tao mesmo antes de os terem conhecido em pessoa.
Ou talvez estivesse apenas a ser preconceituoso. Depois dos avisos de Matamune...
- Porque haveria Michinaga-sama de confiar neles? Yorimichi-sama - alguém reuniu por fim coragem suficiente para fazer a pergunta que todos estavam ansiosos por ver respondida.
- Não sei dizer - respondeu Yorimichi, para grande surpresa geral. - Talvez ele ache que seja o último recurso para lidar com este assassino. Têm havido incidentes, como sabem.
Os rostos de algumas mulheres empalideceram ligeiramente, e Manta arriscou o palpite que Yorimichi estava a referir-se a quando a Senhora Akiko encontrara um dedo humano na sua sopa.
- Afinal... - O sorriso de Yorimichi quase raiava a ironia. - ...a única forma de lidar com monstros é ter outro monstro para o derrotar.
- Não sabe isso.
Muitas das pessoas arquejaram enquanto os olhos giraram para a pequena forma, aparentemente chocadas pela ousadia de questionar as palavras de um aristocrata. Manta ergueu-se em desafio em frente a Yorimichi, com os braços firmemente presos contra os lados do corpo e os punhos cerrados.
- Oh? Por favor elabora, Manta-kun - disse Yorimichi com voz de seda, erguendo uma mão num gesto convidativo.
Apesar do rubor que começava a formar-se no seu rosto, o rapaz loiro engoliu e continuou. - I-isso é muito preconceituoso, não é? Só porque eles são...assassinos, não significa que devam ser tratados como completos monstros.
- Terás de arranjar um argumento mais convincente, Manta-kun - respondeu Yorimichi com um traço de condescendência divertida. - Assassinos são assassinos. Existem para roubar a vida humana. Apenas por dinheiro. Compreendes? Sustentam-se cometendo homicídios.
- São precisas pessoas que não são assassinos para os ajudar a sustentarem-se - explodiu Manta.
O silêncio caiu pesado sobre toda a sala. Os espectadores mal se atreviam a respirar, aguardando a próxima jogada de Yorimichi, atordoado pela inacreditável impertinência deste rapaz. No entanto, muitos estavam secretamente impressionados pelo seu atrevimento em expressar a sua clara oposição contra o filho Fujiwara.
Para seu espanto, Yorimichi relaxou o seu olhar sombrio, e até esboçou um pequeno sorriso como se estivesse satisfeito. - Que introspectivo - disse ele.
Uma rápida introdução oficial à família Tao seguiu-se mais tarde nesse dia, desta vez em frente de todos os residentes dos Fujiwara. Não houve palavras de boas-vindas, nenhumas cortesias entre Michinaga e os Tao, e nem definitivamente sorrisos. A dispensa veio meros minutos após anunciarem os nomes e algumas palavras para explicar a presença dos Taos. Manta viu como os Tao saíram rapidamente antes de os residentes, reparando na desconfiança e medo presentes em todos os seus rostos enquanto os seus olhares seguiam os Tao para fora da sala.
Mas se Manta achara que não iria ver Tao Li tão depressa, estava sinceramente enganado.
- Yo! - cumprimentou o rapaz de cabelo violeta, apoiado casualmente contra a porta do quarto de Manta, um sorriso alegre espalhado pelo seu rosto jovial.
- T-Tao Li - gaguejou Manta, estacando. - Como é que tu...?
- Sabia onde dormias? Não é assim tão difícil obter informação por aqui - respondeu Li. Içou-se para longe da porta e avançou uns passos na direcção do rapaz loiro muito mais baixo. - Especialmente quando toda a gente sabe quem eu sou agora. - Tao Li deixou o seu sorriso ganhar um aspecto mais matreiro.
Manta riu nervosamente, e depressa parou. - Hm, precisavas de alguma coisa?
Li encolheu os ombros. - Nem por isso. Só estava aborrecido. - O rapaz então curvou-se ligeiramente para olhar Manta mais de perto, o seu sorriso desvanecendo um pouco. - Não tens assim tanto medo de mim, pois não?
- Hã... Bem não, acho eu, nem por isso... - Manta debateu-se com as palavras. Era verdade, mais ou menos. Não achava que tinha medo dele, ou de nenhum dos Tao, já agora. Apenas se sentia inseguro e... desconfortável.
Li ficou calado por algum tempo, e então relaxou para o seu maneirismo descontraído de novo. - Ainda bem - disse ele. - Muitas pessoas têm demasiado medo para se aproximarem de mim, e torna-se mesmo aborrecido assim.
Manta apenas conseguiu esboçar um meio sorriso. - Queres entrar? - apontou para a sua porta.
- Hm, obrigado, mas está-se muito bem cá fora - respondeu Li. - E se fossemos para o telhado?
- T-telhado? Mas... EI! Espera! - As palavras de Manta rapidamente se tornaram ganidos de protesto quando Li começou a arrastá-lo na outra direcção sem esperar pela sua resposta.
O rapaz mais baixo não era competição para a surpreendente força do assassino (Li era na verdade bastante baixo), e passaram por alguns residentes dos Fujiwara que puderam apenas olhar em em medo e quase com pena enquanto Li puxava Manta sem grande esforço.
Só quando o duo chegou a outra área deserta, completamente coberta de neve, é que pararam. - A-a-aqui? - Manta conseguiu chiar.
- Ainda não - disse Li alegremente. Deu uns passos para trás, o rosto fechado num tipo de determinação confiante.
- W-whoa, espera, vamos... YEEAAAARGGGHH! ! - As palavras balbuciadas deram lugar a um guincho agudo quando o assassino os lançou a ambos pelo céu antes de aterrar habilidosamente no telhado cheio de neve após um salto quase sobre-humano. O rapaz loiro, cuja aterragem não foi tão suave, tropeçou loucamente por todo o lado, gritando com pouca convicção durante todo esse tempo.
Parou abruptamente quando Li lhe deu um puxão para o pôr de pé, e fê-lo sentar-se com a mesma firmeza sobre o traseiro. Quando Manta arquejou para recuperar o ar gloriosamente gélido, o rapaz de cabelo violeta riu alto. - Tu fazes mesmo um espectáculo, hã?
- Isto... isto foi... - ofegou Manta, engolindo outra lufada de ar fresco. - DE LOUCOS!
- O quê? Saltar para o telhado? - perguntou Li inocentemente. - Tch, isto não foi nada. Já o fiz umas mil vezes lá em casa na China. - Procedeu então a cair de costas com as mãos atrás da cabeça, a neve esmagando-se sob o seu peso.
Felizmente, o rapaz foi amável o suficiente para deixar Manta em paz para recuperar o fôlego e acalmar o ritmo cardíaco. Após alguns momentos, quando a respiração de Manta voltara a um passo mais calmo, começou a reparar no que os rodeava. A neve parara de cair por um momento, o sol surgira, mas tudo o resto sob eles era o mais puro branco. No telhado, olhando para os jardins, viu que o lago estava congelado, a sua superfície reluzindo de forma bonita de vez em quando quando reflectia a fraca luz solar. Haviam muito mais árvores despidas deste lado da propriedade, os seus muitos ramos estalando sob o peso do gelo. Talvez fosse por isso que o som vindo dos domicílios principais dos Fujiwara estavam abafados, porque só havia um silêncio tranquilo por toda a volta.
Estava frio, por certo, mas de forma agradável. Manta puxou os joelhos ao peito, vendo a sua respiração sair em nuvenzinhas.
- Então, Manta - começou Li. - De onde és? Ouvi dizer que foste encontrado inconsciente fora desta casa.
O rapaz loiro ficou rígido.- Hã, Funbari Hill, em, hã, Timbuktu. Provavelmente nunca ouviste falar - acrescentou rapidamente.
- Não ouvi. O que aconteceu? Passaste fome ou assim? Não tens família?
- Hm, sim... - Manta contorceu-se. - Hã, então e tu? - divergiu ele à pressa. - Só tens o teu pai e o teu irmão aqui contigo?
Li suspirou, coçando o nariz com uma mão. - Sim - respondeu. - Mas tenho mãe, algumas irmãs, o meu irmão mais velho, e o meu avô à espera em casa. Não há fêmeas aqui.
- Porquê?
- Porquê? É suposto as mulheres ficarem em casa e tratarem do lar, claro - disse Li, parecendo surpreso com a pergunta. - O Pai desencoraja-as sempre de viajar para fora do país a menos que tenham mesmo de o fazer.
Manta remexeu-se. Oh, pois, pensou. Tempos antigos. Sem saber o que mais dizer, escolheu ficar calado, mas Li, por outro lado, não parecia querer deixar passar a oportunidade de fazer um novo amigo. - Ouvi dizer que te impuseste contra o Yorimichi ontem. - disse ele.
- H-heh?! - O queixo de Manta caiu. - Como é que tu...
- Oh, acredita - disse Li com um tom leviano. - Eu oiço estas coisas. Aquelas pessoas também não estavam a ser muito discretas sobre isso. Tens sido o tema de conversa desde o incidente de ontem.
- T-tenho? - gaguejou o rapaz loiro, uma mancha cor de rosa espalhando-se pelas suas bochechas. Retorceu as mãos uma na outra desesperadamente.
- Hm - Li acenou afirmativamente, sempre a sorrir. - O miúdinho a ir contra o nobre Yorimichi-sama! Imagine-se!
Manta corou ainda mais, desta vez ficando de uma tonalidade vermelho tão brilhante que teria causado inveja a uma maçã. - Bem... o que têm estado a dizer, exactamente? - perguntou Manta, quase com medo de saber a resposta.
Li voltou a encolher os ombros. - As coisas do costume. Sabes, "inacreditável, que excitante, quanta ousadia, que pretensioso, que assustador"... - Recitou ele numa imitação de raparigas excitadas que era inacreditavelmente certeira. Tao Li terminou com uma alta gargalhada.
Manta, no entanto, estava agora a desejar que uma avalanche o viesse enterrar debaixo de uma enxurrada de neve. De preferência com sete palmos de profundidade. - Não queria tê-lo dito dessa forma - gemeu ele, abanando a cabeça pela memória. - Agora a minha tentativa de passar despercebido foi pelo cano a baixo...
- A sério? Mas estou bastante grato, sabes - interjeitou Li. Sentou-se abruptamente, um olhar estranho surgindo no seu rosto.
- O quê?
- Esta foi a primeira vez que alguém se dispôs a defender os Tao. Ainda por cima à frente de toda a gente - explicou Li, o seu sorriso de mil watts sobre Manta. - Devo dizer "obrigado", então?
Manta remexeu a bainha da sua vestimenta tradicional. - Nem por isso - murmurou ele. - É só que, bem...como eu já conheço alguém...
O sorriso desapareceu da cara de Li por um momento. - Hã?
- Esquece - disse Manta rapidamente. Olhou para cima para o céu. - Ei, está a começar a nevar outra vez!
E assim era. Flocos brancos caíam em montinhos, acumulando-se nos cabelos deles quase de imediato. Olhando para o chão coberto de neve, Manta foi de repente tomado por outro desejo impulsivo, desta vez de fazer algo...divertido. - Sabes - começou ele a dizer, os olhos a brilhar de entusiasmo. - Com toda esta neve, podemos fazer bonecos de neve.
- Bonecos de...neve? - ecoou Li devagar. Os seus olhos amarelos franziram-se ao pronunciar a palavra estranha.
- Sim. Na minha terra natal, muitas crianças costumam fazer bonecos de neve quando neva mesmo muito. Juntamos a neve e fazemos uma bola grande... - Manta moveu as mãos num movimento circular. - ...e depois com outra bola mais pequena em cima para fazer a cabeça. E depois pomos, por exemplo, ramos para as mãos, e talvez cenouras para o nariz, e carvão para os olhos.
Os orbes amarelos de Li iluminaram-se. - Então, vamos fazer um humano feito de neve? - perguntou, o tom claramente mostrando o seu interesse.
- Mais ou menos, suponho - respondeu Manta, agradado com a recepção deste pequeno pedaço de cultura moderna. - Queres fazer um?
- Definitivamente. - Li praticamente irradiava entusiasmo infantil, e Manta teve de conter o riso perante a imagem. Oh, nunca mais ia olhar para Tao Ren da mesma maneira.
Mas os dois rapazes mal tinham aterrado (o pesado cobertor de neve amparou a queda de Manta) quando um recém-chegado interrompeu o começo da sua brincadeira. - Keiko-san? - Manta voltou-se em surpresa.
- É a tua criada? - perguntou Li, olhando com curiosidade para a jovem mulher algo ofegante.
- Bem, não é bem... - Manta calou-se ao reparar na expressão trémula, quase desesperada da jovem criada. Preocupação instalou-se quase instantaneamente. - O que se passa?
Keiko engoliu, e lançou um olhar incerto para Li, aparentemente desconfortável em dizer o que quer que tinha de dizer a Manta em frente dele. - Hai, hai - suspirou Li, erguendo as mãos em gesto de rendição. - Eu vou-me embora e deixo-vos em paz.
- Desculpa - disse Manta fracamente enquanto Li se afastava. O rapaz chinês fez-lhe adeus com a mão sem olhar para trás.
Assim que ele desapareceu, Manta voltou-se de novo para Keiko, um mau-pressentimento começando a crescer no fundo do seu estômago quando a criada engoliu em seco. Conflito estava escrito claramente no seu rosto. - O que se passa?
Keiko lambeu os lábios, rachados do frio, e abriu por fim a boca. - Manta - começou ela tremulamente. - A Senhora Murasaki quis que eu fizesse uma coisa.
A boca de Manta estava aberta, os olhos vidrados. Não era a primeira vez que tinha aquela expressão. Acontecia sempre perto de Yoh, na Shaman Fight, com os amigos de Yoh, Shaman Fight, e Yoh de novo.
Mas aí, ele fora simplesmente um espectador, alguém que observava as batalhas (ou jogos, como o futuro Hao tão alegremente os classificava) a decorrer. O grupo sempre resolvera tudo, cada conflito que lhes surgia, e Manta apenas observava, incapaz de fazer nada. Era precisamente isso que o frustrava tantas noites, apesar de nunca o ter confessado a ninguém. Fora demasiado confuso e doloroso.
No entanto, tudo se tornou assustador ao aperceber-se que ele, por razões inexplicáveis, tornara-se de repente parte do jogo. Só que este jogo era um pouco diferente de todos aqueles a que ele fora um espectador no passado/futuro.
- O que é que a Senhora Murasaki quer que faças? - Manta não conseguiu impedir-se de lhe pedir para repetir.
- Manta - Keiko disse com uma nota quase suplicante na voz. - Não me faças trair a minha senhora novamente. A senhora quer que eu diga às outras criadas... ela sabe que tu e eu somos próximos... que consegues ver fantasmas.
- Mas porquê?
- Não sei, não sei mesmo - respondeu Keiko, agitada. - Mas o facto é que ela quer que eu espalhe rumores que consegues ver espíritos e demónios e fantasmas. Quer que eu te difame, Manta. E ela até... - Keiko engoliu. - ...quer que eu encoraje rumores de que tu... de que tu és a causa dos acontecimentos recentes. Ordenou-me que informasse as pessoas que têm havido na verdade mais mortes do que as anunciadas.
- Eventos? Queres dizer as mortes que têm acontecido? - a voz de Manta começou a levantar-se.
Keiko não pôde evitar arquejar. - Queres... queres dizer... - gaguejou ela. - São verdade? Morreram mais pessoas? Mas... como é que tu...
- Ouvi quando estava com o Hao - murmurou Manta distraidamente. - O Michinaga-sama provavelmente preferiu manter a situação escondida por causa do casamento, não sei, mas ia saber-se de uma maneira ou de outra...
A criada, agora sem palavras, apenas olhou para ele, a sua expressão reflectindo o estado mental do rapaz loiro.
- Tu... vieste avisar-me, então? - perguntou eventualmente, a pergunta soando bastante idiota.
Keiko fechou os olhos. - Sim - murmurou. - Não posso... Eu só... - Ela abanou a cabeça.
Manta, apesar da sua própria situação complicada, começou a sentir pena por ela. Pobre Keiko, dividida entre a sua preocupação por ele a sua lealdade para com a sua senhora. - Muito obrigado, Keiko - disse em gratidão. - Por me avisares. Isso foi... simpático. Da tua parte, quero dizer - acrescentou o rapaz estupidamente no fim.
Keiko conseguiu esboçar um pequeno sorriso aguado que depressa desvaneceu. - Manta... Talvez seja cobarde da minha parte pedir-te isto... Mas espero mesmo que não contes a ninguém que eu... - Ela calou-se, não precisando de mais palavras para expressar os seus medos.
- Oh, não te preocupes! - assegurou-a Manta rapidamente, abanando as mãos de maneira brusca. - Nem ia sonhar em contar nada sobre isto. Mas, hã, o Hao-sama sabe sobre isto?
- Ele... Não tenho a certeza... Mas talvez saiba, até certo ponto. Ele disse-me que "sabia de tudo" quando tentei contar-lhe acerca de algo como isto.
- Oh... Pois. Seja como for, obrigado de novo, Keiko-san. Acho que preciso de... Bem, preciso de pensar sobre isto. - Manta pausou, antes de se voltar abruptamente. - Vejo-te depois. - Com um último gesto constrangedor de despedida, o rapaz loiro acenou e correu de volta para a secção principal, os pensamos num redemoinho e focados num destino: o seu quarto, felizmente privado e vazio.
A escuridão depressa caiu, as actividades cessaram mais cedo que o normal devido aos dias mais curtos de Inverno. Muitos se retiraram para os seus quartos, e com o casamento da Senhora Akiko e do Príncipe Ichijo em quase apenas duas semanas, a maior parte das pessoas caiu facilmente num sono profundo após outro dia atarefado.
Numa área proibida pertencente aos aristocratas, no entanto, sono era a última coisa nas suas mentes.
A jovem criada deixou outro grito de dor escapar os seus lábios secos quando um golpe voltou a cair de novo sobre si. O verdadeiro perpetrador, no entanto, não era o implacável soldado que a torturava com o longo chicote de cavalo, mas o homem que se erguia calmamente à frente dela, observando a cena com uma indiferença gelada.
O homem fez por fim sinal de forma quase preguiçosa para o seu homem cessar o espancamento, deixando a mulher a arquejar e fraca de fadiga. - Então, Keiko? - disse Yorimichi. - Tens algo para dizer em tua defesa?
- Nada que faça diferença, senhor - respondeu Keiko fracamente, impotente contra as apertadas cordas que prendiam cada um dos seus pulsos contra um poste de madeira.
O soldado rosnou pela sua impertinência, mas Yorimichi apenas lhe acenou com dois dedos. A multidão de homens armados erguia-se dos lados da sala, observando silenciosamente.
Yorimichi sorriu. - Verdade - denotou ele cruelmente. - Nada que digas vai fazer diferença. Vais ser punida pela tua desobediência para com a minha irmã, e para comigo, de facto, digas o que disseres. Mas... - Baixou-se da sua considerável altura para agarrar no queixo dela entre os dedos, forçando-a a olhar para ele. - ...Posso, talvez, torná-lo um pouco mais fácil para ti. Pede perdão, admite o teu erro, e faz o que a tua senhora te mandou fazer. Asseguro-te que serei mais brando contigo.
Keiko permaneceu em silêncio.
- Vá lá, Keiko - persuadiu o aristocrata. - Não é assim tão difícil. Vale a pena fazeres isto a ti própria em prol de um único rapaz?
A criada, apesar de trémula e assustada, reuniu toda a sua coragem para olhar resolutamente para Yorimichi. - As minhas desculpas, Yorimichi-sama - murmurou ela com firmeza. - Não posso.
O homem jovem olhou para ela por alguns segundos antes de lhe largar o queixo com um movimento frio e descuidado. - Assim seja. Homens - comandou ele.
- Sim, senhor! - Os seus soldados ficaram atentos num instante.
- Tomem bem conta desta mulher - disse Yorimichi. - É toda vossa esta noite.
Os soldados pestanejaram, e então riram maliciosamente uns para os outros e para Keiko antes de avançar ameaçadoramente para ela.
Os olhos de Keiko esbugalharam-se, todo o corpo em pele de galinha de repente ao recuperar nova força desesperada para lutar violentamente contra as amarras. - NÃO! - gritou ela, terror tomando conta r de todos os seus sentidos.
- Levem-na e saiam da minha vista - ordenou Yorimichi calmamente.
- Sim senhor! - o grito unificado de todos os homens estava agora cheio de alegria perversa e descontrolada ao puxarem a mulher horrorizada rudemente dos aposentos do seu mestre para outro quarto vazio ali perto.
Quando as portas se fecharam com um baque, os sons abafados de gritos e de risos excitados e estridentes ecoaram horrivelmente pelo quarto.
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fim do capítulo 11
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