Manta pestanejou.
Sentou-se, grunhindo pela vaga pressão que ainda persistia na sua cabeça, e pela rigidez dos músculos depois de dormir numa posição estranha. O rapaz viu-se no chão duro a usar a mochila da escola como almofada.
Quando a fraca luz do sol penetrou no seu quarto, Manta apercebeu-se que já era meio da manhã. Porque é que Keiko não o viera acordar?
Falando de Keiko...
De repente, Manta lembrou-se como acabara no chão. Ficara tão perturbado com as recentes notícias que Keiko lhe dera ontem que não saíra uma única vez do quarto. Nem para ajudar nos preparativos do casamento. Nem para jantar. E agora perdera o pequeno-almoço. Não admira que o seu estômago esteve a roncar.
Manta fez uma careta, coçando a cabeça. Ficara tão preocupado que adormecera na mochila. E bolas, estava com frio. Como se o seu corpo tivesse finalmente percebido esse facto, soltou vários espirros altos, o seu castigo por não se tapar com um cobertor a noite passada.
Que idiota.
- MANTA! ! - uma voz soou quando a porta se abriu com um estrondo.
- ARGH! ! ! - O rapaz loiro soltou um guincho e caiu para trás instantaneamente. A pessoa de pé à porta estava a sorrir. - Tu!
- Eu? - disse Tao Li inocentemente.
- Não voltes a fazer-me isso! - guinchou Manta e atirou a mochila ao rapaz de cabelo violeta com toda a sua força. Que ele apanhou com facilidade.
- O que é isto? - disse Li, franzindo o rosto. Rodou a mochila experimentalmente, sentindo o seu material e o fecho. - Não é de pano...
Manta engoliu em seco. Grande erro.
- Não... não é nada de especial - gaguejou ele, fazendo uma tentativa louca de apreender a mochila de Li, o que foi estúpido da sua parte. O outro rapaz era muito mais alto.
Algo na voz de Manta fez Li querer mesmo ver o que estava no interior deste ornamento de aspecto estranho. Sorrindo, Li começou a puxar a coisa aqui e ali, tentando perceber como é que se abria.
- DEVOLVE ISSO! - rugiu Manta, agora saltando como um lunático para recuperar a sua preciosa mochila com o seu caderno, estojo e pior, os seus...!
Ficaram assim durante vários minutos, com Li a dançar para dentro e para fora alegremente, troçando de Manta e provocando-o por ser um anão (o que apenas inflamou o fogo de Manta), e em pouco tempo, os dois rapazes viram-se fora do quarto e nos campos brancos.
- DEVOLVE-ME ISSO!
- Não dou!
- DEVOLVE!
- Não!
- AH-HAH! - Manta rugiu em triunfo quando finalmente conseguiu agarrar as alças e puxou para baixo com toda a sua força.
- Quem é que tu pensas que eu sou? - exigiu Li, simplesmente levantando a mochila e Manta no ar. Abanou-a (abanou-os) de forma brusca, como se estivesse a tentar livrar-se de uma data de formigas particularmente irritantes.
Mas no seu deleite perverso, o jovem assassino convenientemente descurou a teimosia de Manta, e não viu a perna que Manta disparou em desafio (bem, a mochila tinha bloqueado a sua visão do anão, afinal. Era a desculpa que tencionava dar ao seu pai mais tarde) e acertou-lhe no estômago.
- Oof! - Momentaneamente sem ar, um Manta esbaforido deu um último puxão que os lançou a ambos ao chão (foi impressionantemente mais forte do que esperava que fosse naquele momento) e lá caíram as coisas da sua mochila.
- Porra! - Tão grande era o horror de Manta que nem reparou na sua linguagem. As suas coisas da escola estavam no chão, incluindo o seu...o seu...
- O que é isto? - repetiu Li, ofegante mas agradado ao pegar no manual de História caído perto dele. Murmurou, folheando as páginas descontraidamente, alheio ao choque do rapaz loiro.
Li franziu o rosto. Manta debruçou-se, assoberbado.
OhnãoOhnãoOhnãoOhnão...!
- ...Isto é suposto serem palavras?
- O quê?
- Não as consigo ler - disse Li, olhando para cima. - O que é que significam? Parecem Japonês, mas são... esquisitas.
Oh...pois... Todos aqueles caracteres kanji ainda não tinham sido totalmente inventados, por isso as pessoas não seriam capazes de os reconhecer.
Agora Manta não sabia se se devia sentir aliviado ou um idiota.
- Oi. Manta. Terra chama Manta? - Li estalou os dedos vivamente em frente dos olhos de Manta.
Antes de Manta poder responder, teve de soltar outro grito, mais suave, quando uma outra voz irrompeu atrás de si.
- O QUE RAIOS SE ESTÁ A PASSAR AQUI?
Manta voltou-se e viu Michinaga de pé vários metros atrás do par, com madrugadores insatisfeitos e espectadores curiosos reunidos pelos corredores, espreitando a cena ou com irritação ou com interesse. Novamente, o rapaz loiro engoliu em seco, gelando de imediato.
- Vocês os dois estavam a fazer uma algazarra ainda agora! - repreendeu Michinaga furiosamente, aparentemente esquecendo-se que um de "vocês os dois" era o filho de um assassino. - Esta área não é o vosso recreio!
As entranhas de Manta pareciam estar a murchar e a desaparecer, tal como quando o sensei na sua escola gritava com ele por algum mau comportamento. Não era frequente Manta quebrar as regras, mas era desagradável, ter de suportar as reprimendas de algum professor em frente da turma inteira.
- Peço... peço desculpa - foi tudo o que conseguiu gaguejar de forma idiota.
Os olhos de Michinaga piscaram para as coisas espalhadas pelo chão, e Manta ficou tenso. Mas felizmente, ou não, o lorde dos Fujiwara tinha coisas melhores para fazer naquela manhã do que inspeccionar os brinquedos de uma criança. - Reúne os teus pertences - ordenou ele. Voltou-se, resmungando de forma bastante audível. - As crianças de hoje em dia...
Pensava que isso era uma coisa que só se dia nos dias modernos, pensou Manta entorpecidamente enquanto o lorde se voltava e marchava de regresso à casa. Após verem a figura regressar, os residentes rapidamente dispersaram, não querendo ser acusados de mandriar (o que alguns estavam a fazer).
- O Michinaga parece estar de mau humor hoje~ - assobiou Li, ainda que de forma um pouco descarada.
- Michinaga-sama - corrigiu Manta forçosamente, enfatizando o sufixo respeitoso ao pegar nas suas coisas e as enfiar na mochila. - Tens a certeza que não faz mal chamares as pessoas da maneira que te apetece?
Li encolheu os ombros. - Não lhe estou a dizer a ele. E não me dirijo a ninguém com títulos excepto ao Hao-sama e ao meu pai. - Levantou-se, sacudindo a neve da sua pessoa. - Seja como for, vamos continuar aquele jogo de ontem.
- Qual jogo?
- Fazer elfos de neve, ou o que era. Vá lá, mostra-me!
Com aquilo, Manta foi levado a tentar mostrar a Tao Li a forma correcta de fazer um boneco de neve. A neve ainda estava espessa, por isso usaram bastante para a rebolar numa enorme, enorme bola, algo que requereu a ajuda de Li, apesar de o rapaz loiro ter tido alguma dificuldade em tentar convencer o outro rapaz a não o rebolar a ele juntamente com a bola de neve. Li até carregou Manta para que ele pudesse colocar outra bola mais pequena de neve no monte em baixo, antes de o largar prontamente de cabeça na neve.
A tossir e a cuspir pedaços brancos, Manta ameaçou não lhe mostrar mais nada se Li continuasse a maltratá-lo, mas o rapaz apenas sorriu e disse "desculpa" de uma maneira inocente mas culpada, o que - raios partissem tudo aquilo - era provavelmente capaz de amansar até Anna.
Tiveram de correr os dois de volta para a casa e para as cozinhas para pedir algum carvão para os olhos do boneco de neve e para a boca. Apesar de Manta já ter dito a Li que um cesto inteiro não era necessário (que era o que Li queria), Li estava inflexível, dizendo que precisava. O rapaz alegre com o outro ligeiramente desconcertado marcharam juntos para fora da casa.
As mãos e o nariz foram fáceis - ramos das árvores despidas seriam suficientes. Depois de espetar os ramos de cada lado da grande figura branca, Manta ofereceu o cesto de carvão a Li enquanto o rapaz cravava alegremente os grandes pedaços redondos pretos para fazer os olhos e a boca. A finalização do enorme boneco de neve fez ambos os rapazes festejar - embora não se atrevessem a fazê-lo demasiado alto - até Li arrancar o cesto das mãos de Manta e o virar ao contrário em cima do rapaz loiro, que ainda estava a festejar.
Totalmente coberto de preto, o pequeno rapaz era um contraste gritante contra o fundo branco, a pestanejar e confuso com o que acabara de acontecer. Quando finalmente recuperou, soltou algo que se assemelhava a um grito de guerra enquanto atirava desordenadamente mãos cheias de neve a Li, que rugia de riso.
Quando Manta se refugiou perto do boneco de neve (Li não queria danificá-lo, e portanto era incapaz de medidas extremas contra Manta), o rapaz loiro fez a maior bola de neve o mais rápido que conseguiu, e tão grande quanto coubesse na sua mão e atirou-se para fora da barricada, arremessando a enorme massa contra a cabeça de Li. Só que o rapaz, claro, esquivou-se, e ela voou directamente para alguém que estava a observar a cena com algum divertimento.
- Estou a ver que vocês os dois se estão a divertir - comentou Hao, sorrindo aos dois rapazes que pareciam eles próprios bonecos de neve. O onmyōji usou uma mão para afastar a neve que estava espalhada pelo seu leque, o objecto que usara para prevenir que a bola de neve lhe acertasse em cheio na cara.
- H-H-Hao-sama - gaguejou Manta (porquê que fazia sempre aquilo quando Hao aparecia?!) - D-Desculpe...
- Oh, tu és cruel, Manta-san - disse Li, sorrindo. - É o segundo nobre que afrontas em dois dias.
- Foste tu que-! - Manta quase guinchou.
Uma bola branca acertou-lhe de lado na cara a meio do grito. Assim como Li.
- Agora - respondeu Hao calmamente, fechando o seu leque. - Importas-te de me seguir, Manta? - Manta contorceu-se para obedecer.
- Oh não - grunhiu Li. - Hao-sama, tendes mesmo de levar o Manta-san...
- Deixa lá o -san - resmungou Manta.
- ...agora? Vá lá, só mais alguns minutos...
- Duvido que o Manta-san possa sobreviver a muitos mais maus-tratos da tua parte - respondeu Hao secamente. - Podes ficar com ele depois de terminar. Bom dia, Li.
- Vou cobrar-vos isso! - disse Li às costas deles enquanto se afastavam.
- "Ficar comigo" diz ele - Manta murmurou sombriamente. - Mas por quem raios me tomam...?
- Disseste alguma coisa, Manta?
- Oh, nada, nada, Hao-sama...
O duo prosseguiu em silêncio por algum tempo, antes de Manta voltar a intervir. - Ano... Porque pediu para que viesse caminhar consigo de novo?
- Desagrada-te?
- B-bem, não, não é...não é... - gaguejou Manta, corando.
Hao sorriu. - Conto-te assim que voltarmos aos aposentos dos Asakura.
Quando alcançaram a pequena divisão escura apenas com uma vela acesa, Hao fechou a porta atrás deles enquanto Manta olhava em redor. A sala era exactamente como um sítio onde os sacerdotes Budistas ou Shinto praticavam os seus rituais e rezas. Pauzinhos de incenso por acender estavam espetados num altar ali perto, enquanto pergaminhos de preces estavam espalhados pelo que parecia ser todo o lado. Com um susto, Manta viu um enorme pergaminho com o infame pentagrama que o futuro Hao tanto amava, pendurado na parede oposta a ele.
Manta seguiu Hao até ao meio da sala, onde estava uma pequena mesa redonda, e no centro, repousava um livro castanho.
Manta fitou-o. Não era tão velha, nem tão esfarrapada, mas não havia como confundir a Chō Senji Ryakketsu. Quando Hao gesticulou para Manta se sentar à mesa, não pôde evitar reparar numa boneca Hina pousada perto deles, meio escondida por entre pergaminhos de orações e parecendo estranhamente deslocada com as suas roupas coloridas de boneca.
Não viu Hao olhar para onde Manta olhava. - Manta.
- Hã, hai?
- Consegui descobrir o método de viagem no tempo - disse Hao. - Vou tentar isto.
Abriu o livro para uma página com diagramas complicados e símbolos estranhos, o padrão geral composto por espirais curiosas que pareciam deixar qualquer um absorvido, na falta de melhor descrição. De novo, a estrela de cinco pontas aparecia nos diagramas.
O estômago de Manta contorceu-se. - A-ah - disse com voz rouca. - Então... então isto...vai levar-me para casa?
- Espero que sim. Não tenho a certeza absoluta que isto vá funcionar, embora deva dizer que nenhum dos feitiços aqui... - apontou para o livro - ...alguma vez tenham falhado.
Bem, foste tu que o escreveste, Manta pensou vagamente. Ainda a olhar para a página, abriu e fechou a boca como um peixe, mas foi incapaz de formar palavras para expressar o que sentia.
- Não tens de te preocupar - comentou Hao, soando divertido, tendo uma boa ideia do que passava loucamente pela mente do rapaz. - Este feitiço funcionará daqui a quinze dias, porque haverá lua nova então.
- O feitiço não funciona se houver lua?
- Atrevo-me a dizer que ainda terá chance de funcionar devidamente neste momento, mas a magia shamânica mais poderosa está presente na lua nova. Achei que irias preferir ter chance de te despedir de...tudo aqui.
Por vários longos momentos, nenhum dos dois falou. Manta lambeu os lábios. - Hmm...bem. Suponho..Bem, obrigado.
- De nada - respondeu Hao agradavelmente. - Devemos ir e comer algo? Devo admitir que tenho bastante fome.
Como que seguindo a deixa, o estômago de Manta soltou um enorme rugido que penetrou no pesado silêncio da sala. - Parece que o teu estômago concorda comigo - disse Hao.
Corando violentamente, Manta levantou-se desajeitadamente enquanto um Hao sorridente se ergueu com mais dignidade mesmo da sua posição de pernas cruzadas (engraçado, achou que alguém como Hao insistiria em sentar-se na postura seiza formal), mas foram interrompidos quando a porta deslizou.
O gato Matamune entrou na sala, mas travou, parecendo muito espantado por encontrar Manta. - Matamune? Há alguma coisa? - perguntou Hao.
- Hao-sama... - disse Matamune, soando incerto e, por alguma razão misteriosa, angustiado. Os seus olhos de pupilas verticais caíram sobre Manta o tempo todo.
Desta vez, no entanto, Manta não estava pronto a ser afastado. - Quem é que morreu desta vez? - perguntou, uma sensação de terrível desgraça a crescer nele.
Matamune pausou, o olhar movendo-se para trás e para a frente entre o seu mestre e esta criança inocente. - Não creio que fosses... capaz de suportar isto, Manta.
Ninguém reparou no livro atrás deles brilhar durante alguns segundos antes de a luz desvanecer.
Manta pensou que o coração ia rebentar, estava a bater com tanta força contra a caixa torácica. Frio arranhou o interior do peito. Oh por favor, nãopodesernãopodesernãopodeser... - Não a Keiko? - disse com a voz rouca.
Matamune curvou a cabeça.
Novembro, 1999, Funbari Hill
Funbari Inn nunca estivera tão cheia. Além da adição da Equipa O Ren e da Equipa Funbari Onsen, Hao e os seus seguidores (que tinham respeitosamente insistido em acompanhar o seu mestre) tinham sido espremidos no quarto de solteira que pertencia a Anna.
Um lufada de vento soprou quando Hao invocou o seu próprio feitiço. O pergaminho de oração que Hao usara para o feitiço desaparecera em chamas e... mais nada.
Hao franziu o rosto, a sua expressão dando lugar a uma rara confusão e reflexão.
- Hao-sama? - a pequena criança africana perguntou, puxando o poncho do seu mestre. - O que se passa?
- Não deu? - sugeriu Yoh fracamente.
- Não deu - repetiu Hao calmamente.
Horo Horo explodiu, causando alguns dos ocupantes quase esmagados no quarto de Anna a fulminá-lo com o olhar. - Não deu?! - gritou ele, tentando erguer os punhos o melhor que conseguiu, tendo em conta que os braços estavam quase presos contra o peito. - Não consegues fazê-lo funcionar?! É o TEU feitiço, rai's partam!
Uma pancada irada aterrou imediatamente na parte de trás da cabeça do Ainu. - Pára de te dirigires ao Hao-sama de forma tão grosseira, rapaz! - um homem chinês obeso disse furiosamente.
- Seu-!
Outro dos seguidores de Hao, um homem vestido com roupas árabes, lançou um olhar reprovador ao homem chinês a seu lado. - Cala-te, Zang Ching.
- Oh, cala-te tu, Turbin-!
- Chega - ordenou Hao, a voz tão calma como sempre, mas cada murmúrio no quarto cessou de imediato.
Anna foi a primeira a falar. - O que aconteceu?
- O feitiço não funciona - respondeu Hao, voltando o rosto para a multidão de pessoas, a expressão desprovida daquele sorriso alegre/ameaçador. - A corrente não consegue passar suavemente.
Silêncio permeou pelo quarto quando a multidão tentou compreender o que aquilo significava, mas escapava-lhes. - O que quer isso dizer? - uma pessoa, escondida de vista e soando terrivelmente abafada, guinchou. Podia ter sido Chocolove.
- Há algo a interferir. Um obstáculo, se quiserem uma analogia.
- Mas não sabes o que é? - disse Ren, soando um pouco presunçoso de mais por apanhar Asakura Hao a não saber algo.
Hao lançou-lhe um olhar que, para seu horror, fez Ren estremecer um pouco. - Não, não sei o que é, ao certo - disse Hao, erguendo-se da sua posição sentada. - Mas vou explicar a história, já que é o que todos vocês querem ouvir.
- Há três razões para um feitiço de viagem do tempo falhar - começou Hao, a voz recuperando algum do seu antigo bom humor. - Primeira: Os participantes no feitiço são incompetentes. - Um sorriso formou-se quando algumas pessoas, previsivelmente, rosnaram a isto. - Segunda: A altura não é a ideal, embora esse facto seja mais para garantia do que de significativa importância. Terceira: A pessoa envolvida na viagem do tempo em si, que neste caso é o Manta, não deseja voltar a este tempo.
Ryu franziu o rosto. - "A altura não é a ideal"? O que é que isso quer dizer?
Desta vez, foi Anna que respondeu. - A magia shamânica mais poderosa, - explicou ela - é sempre reunida na lua nova, quando o lado negro da lua está voltada para a Terra. Isto não é exactamente fiável, claro, porque os shamans podem sempre empregar as suas habilidades a qualquer altura com o resultado desejado desde que essas habilidades tenham poder considerável.
- Correcto - concordou Hao, olhando para ela com o que parecia ser um tipo superior de aprovação, para grande desgosto de Anna. - A lua não está na fase preferível hoje, mas asseguro-vos que não sou nem incompetente nem fraco ao ponto de depender das fases da lua.
- Queres dizer - disse Yoh, a garganta seca. - Que a única razão que pode haver é o Manta não desejar voltar?
- Neste momento, parece ser a única razão plausível - respondeu Hao despreocupadamente, andando para o parapeito da janela para se apoiar contra ele.
- Mas porque é que ele não quer voltar?! - explodiu Yoh. - Ele tem de saber que estamos preocupados com ele!
- Yoh... - murmuraram Chocolove e Ryu.
- A explicação também me escapa - o gémeo mais velho dos Asakura disse. - Mas, dada a natureza egoísta dos humanos, não me surpreenderia muito que ele talvez quisesse aproveitar uma vida melhor onde quer que esteja agora. Não fazemos ideia de onde está a viver neste momento, afinal de contas. Poderia um humano preocupar-se com amizades insignificantes perante uma vida mais próspera?
- Isso nem sequer faz sentido nenhum - sibilou Yoh, um reflexo quase assustador da raiva ocasional do seu irmão trespassando pelo seu jovem rosto. - O Manta não é nada assim.
- A sério? Yoh.
- Não sejas estúpido - a voz calma mas gelada de Anna cortou o ar abafado.
- Senhorita Anna! - exclamou Ryu em surpresa.
- Para tua informação, o Manta é de uma das famílias mais prestigiadas, os Oyamada, do Japão - começou ela friamente. - Têm companhias de electrónica, creio. Oyamada Manta pode contratar o próprio avião privado, o seu próprio carro com chauffeur, o seu próprio submarino, a qualquer momento, e nunca mostrou único sinal de arrogância que venha da sua riqueza. Achas sinceramente que ele vai ser tentado por riqueza ou fama ou o que quer que seja que os humanos usam para se arruinar?
Um novo surto de silêncio se seguiu, desta vez pesado com aprovação e espanto inflados pelas palavras de Anna. Anna, de entre todos, estava a defender Manta.
Por fim, Hao falou. - Também não estou inclinado a pensar isso, na verdade.
Vários pares de sobrancelhas ergueram-se.
Voltou a cara para eles de novo. - Quando toquei naquela página - suspirou ele, apontando o polegar para o seu livro aberto. - Senti algo. Choque? Ou tristeza, talvez. Se calhar algo está a prender o Manta seja em que mundo ele esteja agora, e ele se sinta incapaz, ou relutante, em regressar.
- Ainda - Yoh não pôde evitar acrescentar.
- Ainda - ecoou Hao, sorrindo de forma irónica. - Não tenho ideia do que se passou, mas sugiro que esperemos que o caro Manta aclare as ideias, ou as emoções, na verdade. Talvez vá estar mais preparado para regressar a casa nessa altura.
Ninguém sabia o que dizer, excepto que não podiam evitar sentirem-se um pouco surpreendidos por Hao ter acabado de facto de dizer algo que soou remotamente reconfortante.
Período Heian, Japão
- NÃO - PODE - SER! - rugiu Manta.
As pernas estavam fracas, e provavelmente teriam cedido se uma mão quente não o estivesse a segurar.
- Manta - disse Hao, apesar de um curioso tremor enlaçasse o seu tom.
- Ela está... está morta - cuspiu Manta, a palavra "morta" sabendo a veneno. Olhou para baixo, a tremer da cabeça aos pés, e mal reparou em Hao a conduzi-lo para se sentar, ou em Matamune a fechar a porta. - A Murasaki. Ela matou-a, eu sei!
Os olhos de Hao escureceram perante a menção a nome.
- A Murasaki queria que a Keiko espalhasse rumores sobre mim, de ser filho do demónio e que posso ver fantasmas e demónios e...e que eu sou a causa de todas estas mortes! - Manta odiou-se por não se levantar, por não ceder ao seu desejo de pontapear ou atirar alguma coisa, mas não conseguia reunir a força. - A Keiko avisou-me ontem, e agora, ela... ela está morta! Não pode ser coincidência! A Murasaski deve tê-la matado!
- Não.
Manta girou para olhar para o gato. - N-não? - disse, acalmando-se um pouco.
- A Senhora Murasaki não matou a Keiko, Manta - disse Matamune baixinho. - Ela matou-se.
As pupilas dos olhos de Manta contraíram até um mero ponto ao engolir uma golfada de ar. - Ela... matou-se? - conseguiu dizer, sufocado. Quando ninguém respondeu, explodiu. - Porquê?! Ela ficou com tanto medo de-
- Escutai, Manta - disse Matamune, o tom interrompendo o rapaz loiro. Soava imensamente angustiado e quase engasgado com algum tipo de repulsa furiosa. - Keiko... ela foi descoberta, sim. Yorimichi...
- Matamune - disse Hao em aviso.
- Perdoai-me, Hao-sama - Matamune respondeu trémula mas firmemente. - Mas o rapaz... ele tem o direito de saber. Não pode ser mantido às escuras durante mais tempo.
Manta registou vagamente o facto de que esta tinha de ser a primeira vez que Matamune desobedecia ao seu mestre, e então não conseguiu acreditar que estava a pensar naquilo. - O Yorimichi esteve envolvido? - murmurou Manta.
- Os espíritos ali perto... contaram-me. Estava a tentar recolher informação, e consegui que me contassem. Ordenou aos seus homens que a amarrassem - Matamune continuou rigidamente. - E um dos seus soldados iria chicoteá-la para a punir.
Olhou para Manta, cuja cara estava terrivelmente pálida, mas acenou para que o gato continuasse.
- Creio que lhe deu uma chance de se redimir. Cumprindo as ordens da sua senhora para... vos desacreditar. Keiko recusou.
Manta engoliu o nó que se formava na sua garganta. - Continua.
- E então ele... - Matamune pausou, parecendo ter a maior mágoa que Manta e Hao alguma vez tinham visto na expressão do gato. Uma mistura de pena e nojo preencheram o seu semblante. - Disse aos homens a para a arrastarem para... Foi terrível, Hao-sama. Uma jovem tão amável... Yorimichi disse-lhes para se divertirem com ela, Conseguis acreditar em tal criatura?
Hao gelou. Mas Manta... O rapaz loiro tremia como uma folha. - Ela foi... - arquejou, incapaz de usar aquela palavra horrível.
- Nesta era - Hao falou com a voz baixa. - A honra de uma mulher é da maior importância. Muitas consideram-na mais importante do que a própria vida. Se essa honra alguma vez for manchada ou arrancada, a morte é frequentemente a melhor saída para tais mulheres.
Manta achou que ia ou vomitar ou desmaiar. Keiko...a criada que tomara conta dele, que tivera tanta coragem e tanta maldita honra de o avisar do que lhe ia acontecer. E pagara o derradeiro preço por isso. Por ele...
Manta gemeu, pressionando as palmas das mãos contra os olhos cerrados e começou a balançar-se para a frente e para a trás como costumava fazer quando era criança sempre que se sentia perturbado. Perdera esse hábito quando tinha seis anos, depois de muitas, muitas reprimendas do pai por tal "comportamento patético".
- Manta? - A voz de Hao flutuou até ele, como se estivesse muito longe. - Manta... - A mesma mão massajou as suas costas gentilmente.
- A culpa é minha - balbuciou. - A culpa é minha...
- Não tens-
- EU TENHO culpa! - gritou Manta, nojo de si próprio correndo pelas suas veias como um fogo ardente. - A Keiko foi... foi violada... por causa de mim... - As últimas palavras pareceram morrer num leve sufoco. - Fazem alguma ideia de como deve ter sido para ela... enquanto foi... - Oh Deus, oh Deus, oh Deus, não podia pensar naquilo, não podia, ia vomitar-
- Manta. - Desta vez, a voz de Hao alcançou-o. - Bebe isto.
Quando o rapaz loiro não aceitou a taça, Hao forçou-a nas suas mãos transpiradas e fê-lo beber. O líquido deveria ter tido um sabor ligeiramente estranho e quente, mas ele não conseguiu sentir nada. Nem sequer se perguntou como é que o onmyōji obteve a bebida.
- Não tens culpa - disse Hao. - Ouviste-me? Tu não. Se a culpa tiver de recair sobre alguém, deverá ser comigo. Tu...tu não sabias. Isso foi culpa minha. Eu deveria ter sabido que não podia deixar a Keiko desprotegida, com a sua relação próxima a ti e servitude para com eles...
Manta não compreendeu. Mesmo se Hao tivesse culpa como dissera, ainda fora por Manta que Keiko sofrera e morrera. Morrera por partilhar informação com ele... O que provavelmente significava que as outras mortes que tinham ocorrido...
Tinham sido por causa dele?
Não, não podia pensar naquilo agora. Ameaçava destruí-lo. Tinha outra coisa para fazer.
- Onde está ela? - perguntou Manta num tom de falsa calma.
- Manta?
- Keiko. O...o corpo dela tem de estar algures, certo?
Matamune hesitou, mas algo na voz do rapaz não lhe permitia discordar. Agora perguntava-se como isto mudaria a criança. E não gostava de pensar em tal coisa. - Muito bem - disse, lançando um olhar ao seu mestre, que subitamente parecia ter rosto esculpido numa máscara.
O trio saiu da sala, mas não chegaram longe até alguém os interceptar. - Párem - um soldado, com outros quatro homens atrás de si, disse.
- O que se passa? - perguntou Hao. A sua voz estava controlada, mas os guardas não conseguiram evitar estremecer. O seu líder também esmoreceu ligeiramente antes de tentar recuperar o seu anterior maneirismo autoritário. - Posso perguntar onde vós e os vossos... companheiros vão, Hao-sama?
- Se tendes de saber, vamos ver o corpo da jovem criada. Creio que sabe da sua morte? - disse Hao friamente, sentindo Manta tremer contra a sua perna. - Não vejo como é que isto é do vosso respeito, no entanto.
- Receio que seja, Hao-sama. Foram descobertos alguns cabelos no cadáver dela- - Manta reprimiu o impulso de gritar ao guarda. Como podia ser tão insensível, falando de Keiko como se ela não fosse mais do que outra perda de guerra? - -que podem identificar o seu assassino. - Voltou os frios olhos cinzentos para o rapaz mais baixo. - Cabelos loiros, na verdade.
- Cabelos loiros - Matamune repetiu em horror, esquecendo-se das instruções do seu mestre para se manter em silêncio na presença de outros humanos. As pessoas normais não se sentiam confortáveis com gatos falantes.
Manta ficou rígido, apercebendo-se da magnitude da situação. - O vosso ponto sendo? - perguntou Hao friamente.
- Hao-sama, deverá ser óbvio para vós. Não há mais ninguém nesta casa que tenha essa cor de cabelo. Talvez Matamune-san tenha um pêlo semelhante, mas duvido que um gato seja capaz de enforcar alguém.
Manta engoliu uma nova golfada de ar, soando quase como um silvo quando empalideceu.
- Sim, rapaz - disse o soldado sombriamente. - Vem calmamente connosco, por favor. Estás preso.
.
.
fim do capítulo 12
.
