II. BLACK
Petunia despertou de seu sono, sentindo a cabeça pesada. Instintivamente, levou a mão até atrás da cabeça e sentiu um pequeno curativo ali. Os fios de seu cabelo naquela região estavam duros e secos, e ela se sentou de sobressalto. Sentiu-se tonta e não reconheceu o lugar onde estava. O sofá cheirava a gatos e a almofada na qual sua cabeça havia repousado era tão dura quanto uma pedra. Piscou algumas vezes olhando para os lados, tentando entender que lugar era aquele e qual o motivo de ela estar ali.
Lembrou-se, então da noite anterior. Lembrou-se de Guida voando pelo céu, da briga com Vernon e de Harry saindo de casa no meio da noite, arrastando o malão para Deus sabe aonde. Sentiu vontade de chorar ao lembrar do afilhado. Não fazia ideia de onde o menino estava. Apoiou as mãos nos joelhos e colocou o rosto entre as mãos, tentando segurar o pranto.
- Ah, você acordou, querida – uma senhora muito simpática, mas também um pouco excêntrica, entrou no recinto com uma bandeja e duas xícaras de chá fumegantes. O perfume da bebida quase preencheu o ambiente e fez com que a loira levantasse o rosto e limpasse as lágrimas de sua bochecha. Reconheceu a senhora de pronto.
- Sra. Figgs? Por que eu estou na sua casa? – Petunia perguntou, desentendida, levantando-se do sofá e se adiantando para ajudar a vizinha a carregar a bandeja, recebendo uma bronca da mulher, que lhe recomendo ficar sentada.
- Foi uma briga e tanto, não? – Sra, Figgs deu um risinho sem graça, alcançando uma xícara a Petunia e, logo em seguida, sentando-se junto a uma poltrona com a outra xícara em mãos – você caiu de cabeça e eu não podia deixar que você voltasse para casa com aquele homem. Por pouco não chamei a polícia, se quer saber.
- Onde está Vernon? – a loira perguntou, igualmente envergonhada e preocupada.
- Infelizmente em casa, mas sinceramente gostaria de vê-lo na cadeia por ter lhe agredido. Onde vamos parar? Em pleno século vinte um homem daquele tamanho agredir uma mulher do seu porte!
Petunia se sentiu muito envergonhada e humilhada pelo comentário da mulher. Se a Sra. Figgs a havia socorrido, isso quer dizer que toda a vizinhança presenciou Vernon lhe derrubando no chão. A mulher pensava que sua versão jovem morreria de vergonha de saber que se tornaria, no futuro, uma mulher tão fraca e submissa.
- Se não fosse aquele cachorro, eu temo que o pior tivesse acontecido! – a Sra. Figgs comentou, por fim.
- Ca-cachorro? – Petunia gaguejou em questionamento. A vizinha não deixou de perceber as mãos trêmulas da mulher segurando a xícara contra o pires, causando um barulho incômodo de louça batendo. A senhora, no entanto, presumiu que a loira estava simplesmente nervosa pelo ocorrido. Jamais imaginaria que Petunia estava, na verdade, completamente apavorada por não ter, no fim, alucinado com o cachorro. Sirius, ela pensou.
- Você foi muito corajosa, querida – Sra. Figgs lhe respondeu, tentando tranquilizar a mulher – não é fácil sair de um casamento, ainda mais quando há filho envolvido.
- Harry é meu sobrinho... e afilhado – Petunia respondeu, largando a xícara na mesinha de centro e levando as mãos ao rosto. Chorou tão copiosamente que a Sra. Figgs sentiu um aperto no peito e se levantou da poltrona, sentando-se ao lado da loira no sofá. Acariciou de leve as costas da mulher com a palma da mão, tentando acalmá-la – ele sa-saiu no meio da noite... E ele voltou... Ele voltou e Harry sumiu, tudo ao mesmo tempo! O que Lily diria? Minha irmã deve estar co-co-completamente decepcionada comigo. Eu fi-fiz uma promessa!
- Não conheci sua irmã, Sra. Dursley, mas tenho certeza de que ela a agradeceria por tomar conta do menino com tanto carinho – a Sra. Figgs disse, tentando transparecer doçura sob a rouquidão natural de sua voz – o menino é um doce, e isso graças a você. Não se culpe, menina. Você é tão jovem, e mesmo assim criou dois garotos. Mas, se me permite dizer, teve mais sucesso com o sobrinho que com o filho.
- Dudley não é meu filho – Petunia respondeu impulsivamente em meio a um soluço, imediatamente cobrindo a boca com as mãos. Olhou para a vizinha como se suplicasse que ela jamais contasse aos outros vizinhos que Dudley era, na verdade, o filho bastardo de Vernon, fruto da primeira de uma série de traições do marido.
Não que Petunia se importasse com isso. Era, inclusive, acalentador saber que Vernon supria suas necessidades fora de casa e não a procurava para tal. Honestamente, a verdade é que Petunia não tinha relações com o marido desde que Harry passou a manifestar ser um bruxo como Lily. Dumbledore fora bom o suficiente para lhe fornecer um estoque mensal de uma poção que fazia com que o marido não sentisse mais nenhum desejo por ela. Ele o fez assim que Petunia, em um ato de desespero, enviou uma carta ao bruxo dizendo que não conseguiria cumprir a promessa de manter Harry seguro naquela casa com Vernon. Depois disso, todos os meses, durante a tarde – período em que Vernon estava no trabalho – um pequeno frasco aparecia dentro da caixinha de correspondência, e Petunia colocava algumas gotas na bebida do marido.
- Você tem para onde ir? Tem dinheiro, querida? – Sra. Figgs perguntou, tirando a loira de seus devaneios.
- Eu tenho algum dinheiro guardado em um banco sob o nome de uma amiga – Sra. Figgs levantou uma sobrancelha – eu não sou tão tonta assim, Sra. Figgs. Meus pais faleceram quando eu e minha irmã éramos jovens e nos deixaram algum dinheiro. Não é muito, mas foi o suficiente para que não ficássemos à míngua. Especialmente eu – doía lembrar da morte de seus pais, apesar de tanto tempo passado, então algumas lágrimas voltaram a escorrer pelo rosto da loira – Lily morreu, então tudo ficou para mim.
- Eu sabia... – a loira continuava, mais falando para si do que para a Sra. Figgs – que alguma coisa estava errada, era como se... era como se eu já soubesse que um dia precisaria do dinheiro. Então eu o escondi de Vernon. Eu não sei por que estou falando tudo isso, ainda mais para a senhora.
- Você estava precisando de uma amiga, Sra. Dursley. Seu segredo está a salvo comigo – a velha sorriu, passando a palma da mão contra as costas da loira – eu tenho um carro velho, mas funcionando o suficiente para lhe dar uma carona até o banco, o que acha?
- Eu ficaria realmente muito grata, Sra. Figgs – Petunia admitiu, sem graça com a prestatividade da vizinha – por que está me ajudando?
- Sou vizinha de vocês há bastante tempo, e não pense que eu não percebi o temperamento daquele homem. Nós, mulheres, temos que nos ajudar. Eu não a deixaria voltar para dentro daquela casa, criança.
Petunia sorriu fracamente à velha, murmurando um "muito obrigada" de forma muito sincera. A Sra. Figgs lhe ofereceu uma toalha e indicou o caminho do banheiro para que a loira conseguisse tomar um banho e separou um vestido simples que, segundo ela, havia pertencido à sua filha. Petunia se sentiu mal por nunca ter sequer conversado com a vizinha antes dos cumprimentos de "bom dia" e "boa tarde". Sequer sabia que a mulher tinha uma filha. E, no entanto, ela a estava ajudando naquele momento difícil.
Quando saiu do banho, no qual tomou bastante cuidado ao lavar a cabeça, parou em frente ao espelho, vestiu o vestido e penteou os cabelos com os dedos, já que não encontrou nenhuma escova ou pente por perto. Assim que desceu as escadas, a Sra. Figg lhe estendeu uma carta, dizendo que era remetida para ela. Petunia quase chorou de alívio ao ler o conteúdo da carta.
"Prezada Sra. Dursley,
Informo que seu sobrinho Harry James Potter está sob os cuidados do Sr. e da Sra. Weasley, bem como foi verbalmente advertido sobre o uso de magia fora das dependências da escola.
Como menor de idade, o Sr. Potter não deve, sob hipótese alguma, utilizar de magia fora do período letivo. No entanto, cientes de que a magia foi executada sem uma varinha, entende o Ministro que vos subscreve que, desta – e somente desta – vez, o Sr. Potter não passará por julgamento por uso indevido de magia.
Informo, ainda, que a Sra. Guida Dursley foi devidamente esvaziada e sua memória apagada.
Atenciosamente,
Cornelius Fudge
Ministro da Magia"
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Após resgatar uma porção do dinheiro que havia guardado no banco, Petunia procurou, com a ajuda da Sra. Figgs, um advogado, que deu entrada na papelada para o divórcio. A vizinha também lhe ajudou, na presença de outros vizinhos, a buscar os pertences da loira na casa de número 4 na Rua dos Alfeneiros. Petunia aproveitou a oportunidade para entregar a Vernon os documentos do divórcio, e dois vizinhos precisaram segurar o homem para que ele não avançasse em direção à mulher.
Petunia, apesar de acostumada com o comportamento violento do marido, encostou-se contra a parede e fechou os olhos, abrindo-os somente quando a Sra. Figgs tocou em seu braço e lhe garantiu que tudo estava bem. Petunia ficou impressionada ao ver a vizinha sendo tão firme com seu marido, apontando a bengala em direção ao rosto do homem e garantindo que chamaria a polícia caso ele tentasse qualquer coisa.
A loira permaneceu durante duas semanas com a Sra. Figgs, sempre em alerta e sempre com medo de sair de casa e encontrar Vernon. Só saía da residência dentro do carro da vizinha, que prestativamente lhe acompanhou na busca por um lugar para morar. Petunia não queria gastar todas as suas economias, visto que não sabia quando arranjaria um emprego para sustentar a ela e Harry e, por esse motivo, desistiu de procurar por casas e focou sua busca em pequenos apartamentos mais próximos ao centro de Londres. Encontrou o escolhido bem próximo à uma praça. Estava em péssimas condições, mas apresentava potencial. A vista da janela era livre para o parque, era bem ventilado e tinha detalhes bonitos no gesso do teto. A mulher fechou o contrato no mesmo dia, e se despediu da Sra. Figgs com lágrimas nos olhos, agradecendo à mulher pela amizade e por toda a ajuda que recebeu. As duas combinaram de manter contato por carta, visto que Petunia não queria mais chegar perto da Rua dos Alfeneiros, o que era completamente compreensível.
Na primeira manhã em sua nova residência, um sentimento completamente novo de liberdade tomou conta de Petunia enquanto ela limpava o novo e modesto apartamento. Cada parede em má condição e cada pedaço de madeira solto no chão lhe pareciam reconfortantes, visto que aquela agora era a sua casa. Ela comprou em uma loja próxima latas de tinta, lixas, rolos e pincéis, e carregou os materiais com a ajuda de um atendente da loja. Levou quase três semanas para deixar o apartamento em ótimas condições. Havia lixado e encerado o piso, pintado as paredes, tapado alguns buracos e limpado os vidros das janelas. Costurou, a mão, uma bonita cortina para a sala e lavou bem os estofados que já vinham com o imóvel.
Tirou os poucos livros que ainda tinha de uma caixa e os posicionou em cima de uma prateleira na sala, suspirando. Costumava ter tantos livros quando era jovem, amava ler e principalmente escrever. No entanto, parte de seu acervo foi perdido no incêndio à casa em que morava com os pais, enquanto outra parte significativa dos livros que conseguiu salvar das chamas Vernon fez questão de jogar no lixo. Agora, não conseguia fechar duas mãos cheias com a quantidade de livros que tinha, mas prometeu a si mesma comprar mais com o tempo, após conseguir um emprego. Tirou de outra caixa alguns escritos antigos seu, que havia escondido de Vernon. Sentou-se no chão e leu alguns, surpreendendo-se com o quanto costumava levar talento para a escrita. Não lia os próprios textos há anos. Jamais mexeu na caixa por medo de Vernon fazer como fez com outros pertences seus e simplesmente jogá-la fora.
Passado o frenesi dos primeiros dias no novo apartamento, no entanto, Petunia caiu em um estado de melancolia e ansiedade. Certa noite, não conseguiu dormir, e só ficava pensando no que faria da vida para manter Harry seguro e feliz. Queria, desesperadamente, falar com Dumbledore e explicar que tivera que sair da casa na Rua dos Alfeneiros. Queria pedir que ele lançasse algum feitiço de proteção no apartamento. Queria, mais do que tudo, que o diretor da escola do sobrinho a tranquilizasse e dissesse que os dois estariam seguros no novo lar. Pensou, inevitavelmente, em Sirius. Teria mesmo o visto ou apenas alucinou quando bateu com a cabeça contra o chão? A Sra. Figgs disse que havia um cachorro, então ela não poderia estar alucinando. Estaria ele atrás de Harry? Esse pensamento fez com que ela sentisse um arrepio na espinha.
Sabia que Sirius havia fugido da prisão e estava sendo procurado. Sabia, também, que ele podia virar um cachorro negro quando quisesse. Era uma das poucas pessoas vivas que sabia daquilo. Era uma das poucas pessoas no mundo que sabia que James, ele e Peter viravam animais para ajudar Remus durante a lua-cheia. Pensar em Sirius lhe causava não só desconforto como também um nervosismo que ela nunca havia sentido antes. Lembrou do dia em que recebeu a notícia de que Lily e James haviam sido mortos e que só Harry sobrevivera, e essa lembrança doía demais. Lembrou que soube de tudo por meio de uma carta escrita por Dumbledore, deixada junto a Harry na frente de sua casa. Lembrou de ter chorado a noite inteira e de se sentir abandonada por Sirius e Remus, que não lhe deram a notícia ou vieram lhe confortar, até tomar conhecimento, por meio de Hagrid, de que Sirius era quem havia denunciado o paradeiro de sua irmã e seu cunhado a Voldemort.
A verdade é que Petunia tinha sentimentos conflitantes em relação a Sirius no que tangia à morte de sua irmã. Ela não acreditava que ele tivesse traído os dois, sabia que Sirius amava a James como a um irmão. Talvez James fosse a única pessoa que Sirius já amou na vida. Ele não faria isso, ela sabia que ele não faria. Mas se Sirius não havia denunciado, quem denunciou? Ele havia matado Peter! E agora Sirius estava foragido. Sirius, o homem que ela sempre amara e que tinha grandes chances de ser um bruxo das trevas estava foragido. E Harry havia ido embora. Apesar de Harry ter-lhe mandado uma carta garantindo que estava bem e na companhia de seus amigos, o pensamento de que Sirius pudesse encontrá-lo deixava Petunia desesperada.
Como se os seus pensamentos pudessem ser lidos, uma coruja bateu à sua janela, com um pequeno pergaminho amarrado à sua pata. Petunia abriu a janela, pegou o pergaminho e agradeceu à coruja. A verdade é que ela nunca soube se as corujas a conseguiam entender, não entendia muita coisa sobre o mundo mágico, mas considerou que era melhor pecar por excesso de educação do que por falta dela. Fechou a janela e a trancou, como havia trancado todo o resto do apartamento, só por segurança. Ela não sabia exatamente do que tinha medo, mas tinha medo. Sabia que tinha medo de Vernon a encontrar, sabia que tinha medo de Sirius aparecer ali. No entanto, sabia que qualquer uma das alternativas era improvável. Sentou-se à cama e abriu o pergaminho, que fora escrito com uma caligrafia que Petunia reconhecera de pronto.
"Querida Petunia,
Sinto muito por não ter escrito a você nos últimos anos, peço imensas desculpas e espero do fundo do meu coração que me perdoe. Não deixei de pensar em você um dia sequer.
Dumbledore me forneceu seu endereço, ele e eu somos os únicos que sabemos onde você está, então fique tranquila que você está segura. Eu nunca a colocaria em perigo.
Se você aceitar, eu gostaria muito de vê-la nessa próxima semana. A coruja que enviei voltará amanhã cedo para colher a sua resposta. Por favor, considere meu pedido.
Sinto sua falta.
Sinceramente,
Remus Lupin."
Naquela noite Petunia dormiu abraçada à carta e, como combinado, no dia seguinte a coruja retornou e a mulher amarrou na patinha do animal sua resposta, convidando Remus para jantar com ela em dois dias.
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Os dois dias seguintes passaram de forma arrastada para Petunia, no entanto, quando o fatídico dia chegou, a mulher estava uma pilha de nervos. Era fim da tarde e ela já estava trajada com uma calça preta e uma blusa branca de mangas longas e gola alta. A janta já estava esperando no forno, era só acender o fogão para iniciar o cozimento. Faltavam poucos minutos para ele chegar e a loira andava de um lado para o outro na sala do apartamento. Levou um susto quando a campainha tocou e se dirigiu à porta. Era Remus. Petunia abriu um sorriso.
- Achei que seria melhor tocar a campainha do que simplesmente aparecer na sua sala, então confundi um vizinho que estava entrando no prédio – o loiro disse, abrindo um sorriso. Petunia deu um passo a frente e se jogou nos braços do homem, enroscando o pescoço dele e apertando-o num abraço saudoso. Ele correspondeu ao abraço imediatamente, enlaçando a cintura dela com seus braços. Fazia anos que Petunia não abraçava ninguém. Ficou tão sozinha nos últimos anos, sem amigos, sem família, que já havia esquecido do quão reconfortante era sentir o calor de uma pessoa querida contra si. Ele conseguia sentir o cheiro das lágrimas dela contra seu casaco.
– Você simplesmente não envelheceu nada – ele disse quando se separaram, tomando o rosto dela entre as mãos – está exatamente igual ao dia em que nos conhecemos.
Ela sorriu e fungou, limpando as lágrimas e o olhou nos olhos. O mesmo não podia ser dito dele, ele havia envelhecido muito. Havia mais cicatrizes do que lembrava no rosto dele, a pele que circundava os olhos tinha vincos da idade e seu rosto tinha uma aparência cansada. No entanto, ele ainda pareceu a ela tão bonito quanto fora na juventude no momento em que abriu um sorriso. Era o mesmo sorriso caloroso que ela lembrava.
- Você sempre foi um cavalheiro, Rem – ela respondeu, dando espaço para que ele entrasse – por favor, não fique parado na porta. Estava esperando você chegar para ligar o forno.
O bruxo tirou o casaco e o pendurou junto a alguns ganchinhos perto da porta, e seguiu a mulher até a cozinha. Percebeu que o apartamento era pequeno, mas aconchegante. Cheirava a flores e era iluminado por lâmpadas amarelas, o que deixava tudo muito íntimo e aquecido. Petunia acenou indicando a mesa e Remus puxou uma cadeira para que a mulher se sentasse antes dele, comprovando o que ela havia dito sobre ele ser um cavalheiro. Quando se sentou, puxou do bolso seis garrafas de cerveja, dando de ombros e respondendo "coisas de bruxo" ao olhar surpreso de Petunia.
- Pensei que, como são anos que temos que colocar em dia, uma cerveja cairia bem – ele disse, dando de ombros.
A loira buscou duas taças e Remus as serviu, reclinando-se na cadeira. Ela percebeu que ele abriu e fechou a boca várias vezes, buscando palavras para dizer o que quer que fosse dizer. Ela resolveu tomar a iniciativa.
- Eu senti a sua falta – ela confessou.
- Eu sinto muito, Túnia – ele se desculpou, inclinando-se para frente e segurando as mãos dela entre as suas. A pele macia dela contrastava muito com os dedos calejados e as mãos cobertas de pequenas cicatrizes dele – depois de tudo eu... eu tentei procurar você. Eu te mandei cartas e, quando você não respondeu, eu apareci na sua casa. Eu queria ver você, queria ver Harry, mas seu marido me mandou ir embora. Disse que você não queria nada com o mundo mágico e com... bem, com pessoas como eu.
- Eu nunca faria isso – ela respondeu, com a voz embargada – eu nunca pediria para você sair da minha vida, você era o meu melhor amigo.
- Eu mantive um olho em você – ele sorriu fracamente – eu observei vocês dois algumas vezes, só para checar se estavam bem. Por favor, me perdoe por não ter insistido. Eu sei que deveria ter insistido, eu sei, mas... depois de tudo...
- Está tudo bem, Rem – ela respondeu, apertando carinhosamente as mãos dele – eu sei que as coisas não foram melhores para você do que foram para mim. O que fez todos esses anos?
- Alguns trabalhos para Dumbledore aqui e ali – ele suspirou – fiquei bastante recluso, perdi contato com quase todos da Ordem. Na verdade, é por isso que pedi para encontrar você.
Petunia não respondeu, e Remus suspirou, desvencilhando-se, com uma mão, das mãos dela, somente para pegar a taça entre os dedos e beber três goles da cerveja.
- Vou ser professor em Hogwarts – ele disse, e ela abriu um sorriso.
- Oh, Rem, eu fico tão feliz por você! – ela exclamou, e Remus conseguiu, com seus sentidos aguçados, perceber que ela estava genuinamente feliz por ele. Não que ele duvidasse dela, mas era reconfortante saber que o tempo e as perdas não haviam arrancado esse pedaço da personalidade dela – você sempre quis ser professor.
- Sim... – ele não conseguiu refrear o sorriso, mas logo ficou sério – eu queria que você soubesse que eu vou cuidar de Harry. Ele fugiu, você provavelmente já sabe. Eu não sei o que ele quer, mas eu e Dumbledore achamos que ele vai atrás de Harry.
Petunia engoliu em seco.
- Eu vou acompanhá-lo de perto, eu prometo – ele continuou – Hogwarts é o lugar mais seguro do mundo. E eu posso colocar alguns feitiços de proteção aqui também, se você quiser. Impedir que consigam aparatar aqui dentro, ou entrar de qualquer forma.
- Vo-você acha que ele viria aqui? – ela perguntou, temerosa.
- Ninguém além de mim e Dumbledore sabe que você está aqui, mas não custa tomar alguns cuidados – ele pontuou, e ela assentiu positivamente. A loira bebeu um gole de sua cerveja e se recostou na cadeira.
- Você acha... você acha que sou louca por achar que não foi ele? – ela o questionou, e ele suspirou compreensivamente.
- Eu sei o que você sentia por ele, Túnia – Remus falou com a voz tranquila – mas ele traiu James, ele matou Peter... Ele traiu a todos nós. No fim das contas, ele era mesmo um Black.
- Eu não acredito nisso – ela confessou, e respirou fundo antes de continuar falando – eu sei o que você vai dizer. Você vai dizer que eu estou me deixando levar pelos sentimentos que tinha por ele. Vai dizer que ele conseguiu me enganar, mas... não faz sentido algum, ele amava James, eu sei que ele amava. E ele nunca seria um Black, não mesmo. Ele não é como a família dele.
- Ele é, Túnia. Eu sinto muito, mas ele é – Remus disse – não foi a primeira vez que ele mentiu a você, ele enganou a todo nós. Por anos achamos que ele gostava de você e, do nada, ele cansou e voltou à antiga vida de farra. Por anos acreditamos que ele era nosso amigo, mas ele nos traiu, e isso custou a vida da sua irmã. A família dele orquestrou a morte dos seus pais, e nada me tira da cabeça que foi ele quem denunciou onde vocês moravam.
- Eu sei – ela respondeu num sussurro, algumas lágrimas escorriam por seu rosto - talvez você tenha razão, talvez eu só queira acreditar que não foi ele porque dói menos. Eu... eu acho que o vi.
- Como assim o viu? Quando? – Remus perguntou com o cenho franzido.
- Na noite em que saí de casa, eu... eu e Vernon nos separamos. Tivemos uma briga que saiu de controle, ele me empurrou e eu bati a cabeça...
- Aquele maldito – Remus rosnou.
- Eu não sei se acabei alucinando, mas era... tão real. Eu o vi. Ele pulou entre mim e Vernon, tentou atacá-lo, tentou atacá-lo para me defender, mas então eu desmaiei.
- E ninguém o viu? Ele está sendo procurado.
- Ele estava na forma animaga. Era um cachorro, um cachorro preto.
- Você tem certeza de que era ele? – Remus perguntou, e estava visivelmente preocupado.
- Eu o reconheceria mesmo que cem anos tivessem se passado – ela pontuou – eu sei que era ele.
O loiro ficou quieto por longos minutos, absorvendo as notícias. Vernon havia agredido Petunia, aquele porco imundo havia agredido Petunia. E Sirius sabia onde ela morava, estava realmente atrás dela e de Harry. O que ele queria? Terminar o que começou? Matar Harry? Mas por quê? Voldemort estava morto, por que ele queria matar o menino? E por que diabos ele foi atrás dela? Por que diabos ele se colocou entre Petunia e Vernon? Por que protegê-la se queria matar o afilhado dela? O afilhado dele! A cabeça de Remus trabalhava de maneira frenética e, antes que desse por si, havia acabado com a taça de cerveja. Petunia reabasteceu a taça e se levantou para ligar o forno.
O lobisomem tentou jogar os pensamentos para o fundo de sua cabeça e passou a questionar sobre a vida de Petunia. Não a via há 12 anos. Apesar de ter se esgueirado algumas vezes até a Rua dos Alfeneiros para checar se ela estava bem, sempre a via de longe. Queria saber como ela havia passado esses anos, como se deu a separação com Vernon e como estava Harry. Como queria saber de Harry! Viu-o de longe algumas vezes e segurou as lágrimas. Ele era idêntico a James, tão idêntico que doía. Ele também dividiu algumas de suas experiências nos últimos anos com a amiga e, quando foi embora, já era bastante tarde. Os dois se despediram com um abraço apertado e com a promessa de que nunca mais passariam tanto tempo afastados.
Petunia dormiu agarrada a inúmeros sentimentos: saudades de sua irmã e de sua juventude. Carinho por ter visto seu grande amigo depois de tanto tempo, amada por ainda sentir o cheiro dele pela casa, provando que ele realmente estivera ali e a abraçara como há muito tempo ninguém fazia. Tristeza por ter sido relembrada de todo o sofrimento que Sirius a causou. E, por último, culpa. Culpa por ainda amar o homem que havia destruído a sua vida.
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Resposta aos reviews:
Irina Potter Jenner: obrigada pelo seu review! Fico muito feliz que tenha gostado! Essa história é muito especial para mim e estou trabalhando para deixá-la melhor do que era antes. Por favor, continue me dizendo suas impressões sobre a história.
