Dando algumas explicações: eu não abandonei as outras fics! Fiquem tranquiles! Eu só estou conseguindo, por enquanto, atualizar mais rapidamente essa aqui porque ela já estava parcialmente escrita (:
Não deixem de dar reviews! Eles são muito importantes para mim.
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III. INOCENTE
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"Oh, quão errado você pode estar?
Oh, apaixonar-me foi meu primeiro erro.
Como eu poderia saber?
Estava eu tão apaixonado para enxergar?"
(Jealousy – Queen)
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Os anos que se seguiram à morte dos Potter não foram nada fáceis para Sirius Black. A verdade é que a vida do homem nunca fora fácil, nem mesmo na companhia de seus melhores amigos e namorada. Sirius Black lembrava precisamente quando sua vida passou a ruir. Lembrava que a noite era chuvosa e casa cheirava a madeira úmida, seu quarto estava mais escuro que o normal. As grandes janelas de ébano com cortinas grossas e pesadas pareciam mais feias que normalmente eram, já que o dia lá fora era cinzento, molhado e triste. Naquela noite, Walburga abriu a porta de seu quarto de forma estrondosa, intimando o filho mais velho a descer e conversar com o Orion, que voltara de viagem. Era o primeiro dia de férias após o quinto ano em Hogwarts e Sirius acreditou que teria pelo menos vinte e quatro horas de paz, mas estava enganado.
Sirius nunca gostou de lembrar o que acontecera aquela noite, e talvez por isso o tempo tenha apagado os grandes detalhes. Sabia, é claro, o básico: seu pai o convidara – ou melhor dizendo, obrigara-o – a se tornar um Comensal da Morte, e Sirius levou a maior surra que já tomara na vida ao negar fazer parte do grupo de assassinos fascistas liderado por Voldemort. Lembrou que foi atingido por vários feitiços e, numa medida de desespero, aparatou mesmo sendo menor de idade. Lembrava que, por algum motivo, seu primeiro pensamento ao aparatar fora Lily. Até hoje não sabia o porquê de ter pensado na ruiva.
Sentou-se, cansado, ao pé de uma árvore do Hyde Park. Já fazia alguns dias que havia escapado de Azkaban, mas era a primeira noite que finalmente estava em Londres. Largou o corpo magro e sujo para trás, batendo levemente com a cabeça no tronco da enorme árvore. Poderia se dar ao luxo de descansar, nem que fosse por alguns minutos. Não aguentava mais correr e o longo período transmutado em sua forma animaga lhe drenou as energias. E não era como se Sirius Black houvesse comido decentemente nos últimos doze anos para ter muita energia.
Olhou para o céu e viu, entre os topos das árvores, que a noite estava cinzenta. Havia parado de chover há pouco tempo e o céu ainda não havia desanuviado e revelado suas estrelas. Largou os braços em direção ao chão, agarrou a grama úmida por entre os dedos e respirou fundo. O cheiro de terra molhada lhe trazia conforto e alívio. Era o mesmo cheiro que sentiu naquela fatídica noite, quando aparatou na frente da casa da família Evans.
A lembrança daquele dia tirou um sorriso tímido do rosto pálido e magro de Sirius Black. Aquele foi o pior e o melhor dia de sua vida. Foi o dia em que apanhou e saiu deserdado de casa, mas também foi o dia em que viu Petunia com outros olhos pela primeira vez. Seus pensamentos voaram até a mulher.
Sabia que ela estava criando Harry, seu afilhado, visto que os boatos sobre o menino que sobreviveu circulavam por Azkaban, e não havia passado um único dia sem pensar em Harry e Petunia. Não se permitia pensar em muitas coisas positivas, por medo de sair completamente sugado pelos dementadores, mas vez que outra um sonho teimoso insistia em povoar sua mente. No sonho, ele estava abraçado a Petunia, que sorria segurando um bebê com olhos tão verdes quanto os de Lily. Ele sabia que se tratava, na verdade, de uma lembrança que ele de fato vivenciara, mas o sentimento de que aquela era sua família inundava seu peito. Ele tentou, ao máximo, guardar essa imagem para si no fundo de sua mente, a fim de mantê-la salva dos dementadores, e havia conseguido com certo sucesso.
Transformou-se, uma última vez naquele dia, em um magro cão negro, e correu noite adentro em direção à Rua dos Alfeneiros. Percorreu o bairro entre as sombras. Não sabia ao certo qual das casas daquela comprida rua pertencia ao afilhado. Ficou algum tempo escondido entre alguns arbustos, esperando qualquer movimentação.
Ficou um bom tempo ali parado, atento, até que finalmente ouviu alguns gritos dentro de uma das casas que ainda tinha as luzes acesas. Deslocou-se com passos leves mais para perto, deixando um rastro de patas pelo caminho. Ficou aflito e pensou em sair de seu esconderijo e ver o que estava acontecendo, mas sabia que estava sendo procurado e que se expor naquele momento colocaria todo o seu plano de capturar Pedigrew por água abaixo.
Mesmo ao longe, sua audição levemente aguçada pela forma de cachorro o fez distinguir a voz de Petunia ao longe, e seu coração deu um salto. Conseguia ouvir os gritos de Vernon. Jamais esqueceria a voz daquele homem. Sabia que não podia se aproximar e andou frustrado em círculos, cogitando jogar tudo para o alto e se expor. Inquieto, uivou na tentativa de atiçar os cachorros vizinhos para que intervissem no que quer que estivesse acontecendo dentro daquela casa. Não demorou muito para que um enorme Rotweiller atendesse ao seu pedido e corresse até os fundos da casa.
Pouco tempo depois, a porta da frente se abriu e um menino saiu furioso carregando o malão. O coração de Sirius foi até a boca, pois podia jurar por sua vida que estava vendo James. Sentiu que havia voltado no tempo e só foi resgatado de seu estado de choque quando uma mulher loira correu atrás do menino, perdendo-o na esquina. Sirius apertou os olhos de cão e, mesmo na escuridão, reconheceu Petunia. Não importa quanto tempo passasse, sempre a reconheceria. E sempre sentiria o coração na boca do estômago. Com muito cuidado, passou a se movimentar por entre os arbustos, acompanhando de perto a mulher que chorava e gritava por Harry.
Sirius cogitou, pela segunda vez naquela noite, desfazer-se de seu disfarce e tomar sua forma humana para tomar Petunia nos braços quando a viu parada no meio da rua, com as duas mãos no rosto limpando as lágrimas. Poucas vezes na vida havia visto Petunia chorar. Em todas elas quis tomá-la em seus braços e garantir que tudo ficaria bem. Mas, na maioria delas, foi estúpido e não o fez. Essa seria mais uma dessas vezes.
- Onde está aquele moleque? – Um homem muito gordo, que Sirius reconheceu como Vernon, perguntou se aproximando da mulher. O sangue de Sirius ferveu ao ver com seus próprios olhos que Petunia havia se casado com Vernon, aquele porco imundo.
- É bom que vá embora mesmo, e de preferência que não volte mais! Não gastarei mais um centavo com esse ingrato! – continuou o homem.
- Você... – Sirius viu Petunia com o dedo em riste, uma expressão de puro ódio estampada no rosto, aproximar-se de Vernon. Sirius quase quis sorrir. Petunia era mais tranquila que Lily, mas ainda tinha o sangue Evans fervendo em suas veias. - quem é você para falar de ingratidão? Eu estive com você nos últimos doze anos! Estive com você, aguentando seu comportamento esnobe e infantil, assumindo o filho que você teve com uma puta qualquer! A única razão de eu ter aguentado esse seu traseiro gordo todos esses anos foi aquele menino que acabou de sumir! - ela continuou, aumentando cada vez seu tom de voz - eu não tenho mais nenhum motivo para seguir com você! Você me dá nojo! Harry tem razão, eu deveria ter tirado nós dois daqui há anos!
- E com que dinheiro você acha que vai embora? - Vernon riu zombeteiramente, ainda com os olhos vidrados na mulher à sua frente, fazendo pouco caso das palavras dela - sem mim você não tem onde cair morta! Vai voltar para aquele traste que não te quis? – ele riu de forma debochada e Sirius rosnou baixo - Vai é dormir ao relento em uma vala qualquer, ou na cama de algum bêbado que lhe oferecer uns trocados, como a puta que você é!
Petunia cruzou a distância que os separavam e olhou no fundo dos olhos do homem. Sirius conseguia prever que algo bom não viria dali, apesar do tempo passado, conhecia Petunia e sabia que ela só agia assim quando estava em seu limite.
- Eu prefiro ser a puta de um bêbado do que sua esposa – Petunia respondeu, por fim.
O momento que se seguiu foi muito rápido. Sirius viu Vernon agarrar Petunia pelo braço e jogá-la no chão, e nada mais do que um sentimento de puro ódio tomou conta de seu corpo. Já não controlava seus instintos, sentia-se um animal por completo, e estava com sede de sangue. Saltou de seu esconderijo e se colocou entre Petunia e Vernon, mostrando os enormes dentes arreganhados ao homem. Queria matá-lo, iria matá-lo, Iria estraçalhar a carne dele e garantir que ele nunca mais encostasse um dedo em sua garota. Quando o homem correu para dentro da casa, por longos segundos Sirius cogitou derrubar a porta e estraçalhar o homem com seus próprios dentes, matá-lo de forma lenta e dolorosa, mas foi desperto de seu frenesi pelo movimento de Petunia atrás de si.
Virou-se e encontrou a mulher contra a caixinha de correio, a mão direita pressionando atrás da cabeça, a respiração pesada e os olhos arregalados. Sirius se aproximou do rosto dela, e sabia que ela o reconheceria assim que olhasse em seus olhos. Desesperou-se ao ver que ela tinha as mãos sujas de sangue, e conseguia ver a consciência se esvaindo dela a medida em que ela lhe olhava assustada. Ela sabia que era ele, e tinha medo. Isso o destruiu por dentro. Cutucou-a com o focinho tentando acordá-la, mas foi obrigado a correr e se esconder quando alguns vizinhos apareciam para conferir do que se tratava a gritaria. Ele só saiu dali quando viu uma senhora preocupada carregar Petunia com a ajuda de outro vizinho para dentro da casa vizinha. Com o coração pesado, Sirius correu a procura de Harry.
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Nos meses que se seguiram, Petunia dividia sua rotina entre arrumar a casa, regar algumas plantas que havia adquirido, procurar emprego nos classificados do jornal e sair para caminhar no centro de Londres, em busca de algum lugar que precisasse de alguém. Ela havia feito amizade com um jovem rapaz de uma livraria nas redondezas, que ficou surpreso com o conhecimento de literatura da mulher e a ajudou a montar um currículo. Após alguns meses, quando já estava ficando desanimada, finalmente recebeu uma ligação para comparecer à uma entrevista de emprego.
Era em uma editora no centro, e a mulher se apaixonou pelo lugar no momento em que colocou os pés ali dentro. O cheiro de papel novo, o barulho das máquinas folheando as páginas e cortando o papel, o trabalho manual de alguns funcionários costurando cuidadosamente uma página na outra, tudo era mágico. Ela foi conduzida até uma salinha no andar superior e lhe foram entregues três textos que ela deveria revisar em um período de uma semana. Caso conseguisse, o emprego era seu. O supervisor deixou claro, no entanto, que a vaga estava sendo disputada por mais três pessoas, todas com mais experiência profissional que ela.
Petunia, no entanto, não desanimou. Sentiu-se insegura, é claro, mas tentou acalmar a si mesma, relembrando do quão boa costumava ser naquilo. O talento não teria sido perdido com o tempo, não era possível. Durante uma semana, não saiu do apartamento. Revisou minuciosamente os textos, circulava o que estava errado ou o que considerava não estar muito bom. Realizou vários apontamentos nos cantos das páginas, sugerindo alterações. Quando entregou na editora os textos revisados, passou três dias ansiosa.
Era fim da tarde de uma quinta-feira quando correu para atender ao telefone. Havia conseguido o emprego! O próprio editor do local havia ligado pessoalmente para prestar seus elogios e informar que a aguardava ansiosamente na segunda-feira pela manhã. Petunia se sentiu tão feliz que dançou sozinha pela sala, abriu um vinho e comemorou sozinha essa grande vitória. Sentiu-se independente, e livre, e capaz. Sentiu-se com 18 anos novamente, quando era destemida e segura de si. Talvez, no fim das contas, aquela Petunia não estivesse completamente perdida.
Assim que recebeu o seu primeiro salário, Petunia se deu a liberdade de comprar alguns utensílios para o quarto de Harry. Deixaria para comprar roupas novas ao afilhado quando ele voltasse, já que provavelmente ele cresceria muito durante o ano letivo e, se ela comprasse roupas por conta, corria o risco de não servirem mais no menino. Um dia, após o trabalho, bateu o olho em uma colcha vermelha em uma loja de artigos de cama, mesa e banho, e não pensou duas vezes em comprar. Se bem recordava, as cores da Grifinória eram vermelho e dourado. Não conhecia muito do mundo mágico, mas lembrava da mãe lavando as gravatas de Lily e das bandeiras penduradas pelo quarto de Sirius.
Queria que tudo fosse uma surpresa para Harry, mas Remus havia informado a Harry de que a tia havia saído da Rua dos Alfeneiros quando o menino quis informar que não passaria o Natal com ela. A loira ficou chateada, mas entendeu que nunca fora capaz de proporcionar uma celebração de verdade ao sobrinho, que só encontrou acolhida na escola. Harry a havia enviado, junto com a carta, um formulário para visitas a um povoado bruxo. Explicou que havia esquecido de pedir que ela assinasse e que esperava, com sorte, que a diretora de sua casa aceitasse a entrega atrasada da autorização. Sentou-se no sofá e apoiou um pergaminho em um livro para conseguir escrever.
"Querido Harry,
Espero que consiga visitar o povoado, estou enviando a autorização assinada.
Desejo que passe um bom Natal com seus amigos, é uma data especial para passarmos com quem amamos. Quando você retornar, receberá alguns presentes que comprei a você.
Tome cuidado em seu passeio, querido.
Amo muito você.
Com amor,
Petunia Evans"
Enrolou o pergaminho junto ao formulário e o prendeu cuidadosamente com uma fita de cetim. Amarrou tudo ao pé de Edwiges, que esperava pacientemente junto à janela. Sorriu quando o animal lhe deu uma leve bicada nos dedos, pedindo carinho. Deu ao animal algumas bolachinhas para aguentar a viagem de volta e só fechou a janela quando as asas brancas já não eram mais visíveis dentro da noite.
Sentou-se novamente no sofá e se sentiu melancólica. Assinou, pela primeira vez em muito tempo, como Petunia Evans, apesar de ainda não estar legalmente divorciada. Isso lhe arrancou um sorriso, mas também a lembrou dos tantos natais na casa dos Evans em que Lily não estava. Era normal que, nos primeiros anos em Hogwarts, Lily voltasse para casa e comemorasse as festas em família. No entanto, quando a loira tinha por volta dos 15 anos, a irmã só voltava para passar a virada de ano com eles. Ela narrava, com brilho nos olhos, o quão mágico era o Natal em Hogwarts. Petunia ficava feliz pela irmã, mas era justamente naqueles momentos que a loira era confrontada com o fato de que faria cada vez menos parte da vida de Lily. As duas pertenciam a mundos diferentes e, por mais que quisesse, ela não poderia, jamais, fazer parte do mundo da irmã.
Na noite de Natal, Petunia foi convidada para uma confraternização da editora. Resolveu se arrumar e inclusive cortou os cabelos em um salão próximo, deixando-os pouca coisa abaixo dos ombros. As pontas loiras ficaram tão renovadas que ela usou os cabelos soltos, como há muito não fazia. Optou por um vestido de mangas longas verde musgo, que acabou acentuando as pequenas nuances de verde de seus olhos. Olhou-se no espelho e gostou do que viu. Sentiu-se segura de si, e acabou sorrindo em frente ao próprio reflexo. Naquela noite, Petunia recebeu uma promoção.
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Num geral, Petunia só tinha notícias de Harry por intermédio de Remus. O amigo lhe mandava cartas recorrentemente, colocando-a a par da vida escolar do sobrinho e perguntando sobre sua vida. Manifestava, em todas as cartas, a vontade de lhe encontrar para que conversassem pessoalmente, e sempre terminava os escritos dizendo que sentia saudades dela. Petunia sempre corava ao final das cartas, lembrando-se de que Remus fora quem manifestou algum interesse nela primeiro, mas fora Sirius quem havia lhe arrebatado o coração. O amigo não mencionara Sirius uma vez sequer nas cartas, o que, de certa forma, deixou Petunia aliviada. Às vezes se repreendia mentalmente por, após tantos anos, mesmo com a morte de sua irmã e com a prisão do ex-namorado, ainda sentir o estômago dando saltos ao pensar em Sirius, ainda guardar aquela imagem que tinha dele e, por consequência, amá-lo.
Certo dia, sentiu uma vontade absurda de ver o rosto dele outra vez e correu até seu quarto, tirando uma pequena caixa empoeirada debaixo da cama. Dentro da caixa havia uma fotografia bruxa do aniversário de um ano de Harry, poucos meses antes da morte da irmã. Fuçou entre os papeis antigos até encontrar a fotografia, e lembrou do dia com todos os detalhes.
Na foto, Petunia segurava Harry no colo e estava com a boca aberta dando gargalhadas em frente a uma mesa com docinhos e enfeites. Lily havia preparado tudo com muito carinho, e poucas pessoas foram convidadas, tendo em vista que a irmã e o cunhado já estavam escondidos das vistas do mundo bruxo, como medida de segurança. A loira lembrava que, antes da foto, só havia visto a irmã no nascimento de Harry. Ela havia, propositalmente, ficado afastada de Lily para não a colocar em risco. Hoje, no entanto, arrependia-se e sentia um amargor na boca do estômago ao pensar que poderia ter convivido mais com a irmã. Sirius estava ao seu lado. Uma mão do moreno repousava em sua cintura, enquanto a outra segurava a pequena mãozinha de Harry. Sirius também sorria, mas sorria olhando para ela. Remus estava do outro lado da loira, segurando um balão. Tinha o sorriso sincero e jovem que, atualmente, raramente aparecia em seu rosto. A loira lembrou que, nesse dia, teve esperanças de o ex-namorado quisesse reatar o relacionamento. Lembrava que torcia com todas as forças que o rapaz lhe quisesse de volta, que declarasse que a amava, que pedisse que ela não se casasse com Vernon. No entanto, nenhum de seus desejos se concretizou.
Sirius não trocou duas palavras com ela após a foto, não disse que a amava, não se importou ao saber que ela estava noiva. Quatro meses depois, Lily e James morreram e Petunia acabou se casando com Vernon, que lhe prometeu que cuidariam de Harry como se fosse um filho. Sorriu amargamente e colocou a foto de volta dentro da caixa.
O banho de água fria veio dois meses depois, quando Harry enviou uma longa carta à tia. Ela conseguia ver as manchas de lágrimas do menino no papel, manchando algumas letras escritas às pressas. Ela largou a carta na mesa e apoiou os cotovelos na madeira, apoiando a cabeça entre as mãos e respirando fundo. Edwiges bicava de leve seu cabelo fazendo barulhinhos reconfortantes, como se consolasse a mulher. Petunia leu e releu várias vezes a carta, sentindo as palavras de Harry lhe atingirem como facas.
"Como pôde me esconder isso? Ele era amigo deles! Ele traiu meus pais!
Por que ele? Como meu pai o pediu para ser meu padrinho? Por que não você?
Por que você nunca me falou? Como pôde me deixar acreditando tanto tempo em uma mentira?"
Percebeu, com a leitura da carta, que nunca havia contado a Harry que ela era, de fato, madrinha dele. Ele sempre a chamou de tia e, só naquele momento, Petunia se deu conta de que o menino considerava que havia sido largado aos cuidados dela pelo simples fato de ela ser a única parente viva. Toda a revolta do garoto era compreensível. Ela errou tentando poupá-lo desse sofrimento. Respirou fundo e apanhou um pergaminho e uma caneta.
"Querido,
Eu deveria ter contado, eu errei. Eu não queria que você sofresse mais do que já sofreu.
Você é tudo para mim, querido. Eu queria proteger você disso, mas subestimei sua maturidade e passei por cima de um direito seu, e, por isso, eu peço que você encontre lugar no seu coração para me perdoar.
Eu gostaria muito que pudéssemos conversar sobre isso pessoalmente, mas entendo que devo a você algumas explicações que não podem esperar.
Seus pais foram as pessoas mais incríveis que já conheci. E eles amavam você muito, muito mais do que possa imaginar. Sirius era o melhor amigo do seu pai, era o irmão que seu pai não teve. Eles se amavam e confiavam um no outro. E por isso ele é seu padrinho. Assim como eu sou sua madrinha. Ele segurou você nos braços antes mesmo que eu pudesse fazer o mesmo.
Eu sinto tanto, Harry. Eu não tive coragem de contar a você. Por favor, perdoe-me. Podemos conversar sobre isso quando você voltar, eu prometo.
Sem mais segredos.
Com amor,
Petunia Evans."
Petunia pensou por longos minutos, até tomar a decisão de buscar a foto bruxa dentro da caixinha. Colocou-a com cuidado dentro de um envelope junto com a carta e entregou a Edwiges. Acabara de enviar a Harry uma das únicas recordações físicas que tinha de Sirius, e se sentiu vazia. Por que era tão difícil abrir mão daquela foto? Era justo que Harry a tivesse, não ela.
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Em Hogwarts, Harry ficou longos minutos encarando a foto. Estava sozinho em um dos jardins da escola, aproveitando um momento de necessária solidão antes do toque de recolher. Segurava a fotografia com as duas mãos, e tinha os cotovelos apoiados na guarda da ponte que atravessava o Lago Negro. Sentiu raiva quando colocou os olhos na fotografia pela primeira vez, e pensou em jogá-la no lago para a Lula Gigante, mas não teve coragem. Encarava a imagem com o cenho franzido. Sua tia estava praticamente igual, mas ostentava um sorriso que ele nunca havia visto pessoalmente. Estava bonita. Usava uma jaqueta de couro, peça de roupa bastante inusitada para a Tia Petunia que conheceu a vida inteira. Encarou Sirius por longos minutos, e não conseguia acreditar que aquele rapaz que mais parecia um integrante de alguma banda de rock ou algum ator de cinema, com um sorriso no rosto e segurando sua mão, fosse o mesmo homem que estampava as capas de jornais.
Não conseguia acreditar que ele havia traído seus pais e que, por culpa dele, passou a vida como órfão. Sentiu revolta ao ver que seu professor estava na foto também. Lupin sabia de tudo, também era amigo deles. E nunca lhe falou nada! Sentia que todos a sua volta sempre souberam mais da sua vida do que ele mesmo. Sentia-se traído. Não conseguiu esconder o desgosto quando ouviu passos se aproximando e, ao olhar para trás, encontrou o professor, tão mais velho do que na foto que segurava entre os dedos.
- Pensei que pudesse fazer uso de uma palavra amiga, vi que você parece distante nos últimos dias – o homem loiro se aproximou, escorando-se ao lado de Harry. Arregalou os olhos em surpresa ao ver a foto que o menino segurava.
- Onde você esteve todos esses anos? – o menino perguntou, com o maxilar travado.
- Trabalhando para Dumbledore – Remus suspirou – cuidando de você e Petunia de longe.
- Cuidando de nós? – Harry cuspiu as palavras – onde você estava quando Vernon bateu nela? Quando ele me bateu?
- Eu sinto muito, Harry.
- Você sente muito, Tia P sente muito – o garoto falava raivoso – daqui a pouco Sirius aparece dizendo que também sente muito. O que há de errado com vocês?
Remus ficou em silêncio. Deixaria que o menino despejasse o que quer que tivesse em seu coração. Fez-se um longo tempo de silêncio.
- Quando você disse que os conhecia – Harry disse, um pouco mais calmo – não imaginei que fosse tão próximo. Vocês todos pareciam muito próximos. Especialmente Tia P e ele.
- Nós éramos – Remus respondeu – eles eram.
O garoto encarou o professor. Harry podia ser muito parecido fisicamente com James, mas os olhos e a personalidade eram de Lily. Ele lembrava que a ruiva ficava exatamente assim quando ficava brava com algo. Não conseguiu refrear uma risada fraca.
- O que é tão engraçado? – o menino perguntou, bufando.
- Você parece sua mãe – Remus respondeu – é como se eu estivesse do lado dela quando estudávamos aqui.
- Como era? No tempo de vocês?
- Bem... – Remus coçou a cabeça e suspirou, encarando o lago – nós éramos quatro. Seu pai, eu, Sirius e...
- Peter Petigrew – Harry respondeu.
- Sim, Peter – o lobisomem confirmou – seu pai e Sirius eram praticamente grudados um ao outro, e Sirius sempre o apoiava nas maiores loucuras que James planejava. E sua mãe odiava. Eles discutiam muito, foi só no penúltimo ano de Hogwarts que sua mãe passou a olhar seu pai com outros olhos.
Harry esboçou um fraco sorriso, e Remus pediu a foto. O garoto estendeu o pedaço de papel ao professor, que a segurou delicadamente e sorriu fracamente ao olhar as figuras se movendo na fotografia.
- Esse foi seu aniversário de um ano. Estávamos em meio à guerra, então só os amigos mais próximos compareceram. Peter não foi, estava doente. Sua mãe quis tirar essa foto.
O homem olhava a foto com atenção. Petunia parecia tão feliz, ele lembrava daquele momento como se fosse ontem. Ela havia ficado distante desde o nascimento de Harry, e ele sabia que ela não estava bem depois do término com Sirius. Mas, naquele momento, a criança havia recém tomado leite e respondeu a um questionamento da madrinha com um arroto, o que arrancou risada de todos os presentes. Petunia gargalhava, ele ria para a foto, mas Sirius... Sirius olhava para ela. Ele sempre a olhava daquele jeito. Como ele conseguia? Como alguém conseguia ter o coração tão frio a ponto de enganar por tantos anos todos ao seu redor? Sirius era tão bom em manipular todos que qualquer um que o visse olhando para a loira, concluiria que ele era irrevogavelmente apaixonado por ela. Ele olhava para ela como se ela fosse o sol depois de meses de completa escuridão. No entanto, quando a foto fora tirada, ele já havia quebrado o coração dela e engatado um relacionamento com Marlene McKinnon. Poucos meses depois, traiu James e isso custou a vida do amigo e de Lily. Devolveu a foto a Harry, que parecia mais calmo, conversou mais um pouco com o garoto e o acompanhou até o castelo.
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Petunia conseguiu um dia de folga para buscar o afilhado na estação de trem. Era a primeira vez que o faria, Vernon sempre esperava impacientemente dentro do carro o garoto chegar e não a deixava descer. Ela trajava um vestido simples preto estampado com pequenas flores brancas, ao longe parecia que vestia uma peça de poá. Usava sapatos com saltos não muito altos e grossos, e tinha os cabelos soltos. Carregava, a tiracolo, um casaco fino. Abriu um sorriso quando viu o afilhado carregando o malão, acompanhado de se amigo ruivo e sua amiga com cabelos cacheados.
O garoto se despediu dos amigos e correu até a tia, com um sorriso. Harry largou o malão e tomou a tia em um abraço apertado. A loira retribuiu, percebendo que o sobrinho estava da mesma altura que ela.
- Como você cresceu em apenas um ano! – ela comentou no abraço dele – vai ser ótimo ter alguém para alcançar as prateleiras mais altas do nosso novo lar.
Harry se separou dela e encarou a tia nos olhos. Havia sido tão injusto com a mulher. Gritou com ela no dia em que saiu no meio da noite, despejou sua raiva nela naquela carta. Fora tão injusto com ela e, agora que sabia de toda a verdade, queria mostrar a ela que ele reconhecia todos os sacrifícios que ela havia feito até então.
- Eu te amo, Tia P – ele disse, e Petunia segurou as lágrimas – obrigada por ser minha madrinha.
- Oh, querido – ela o abraçou de novo – e eu te amo, muito. Preparado para conhecer seu novo quarto?
- Tenho certeza de que é perfeito – ele respondeu, separando-se da tia e apanhando a alça do malão. Arrastou-o para fora da estação enquanto segurava a mão de Petunia. Ela sorriu ao ato. Harry não andava de mãos dadas com ela desde que era muito pequeno.
Quando chegaram em casa, Harry sorriu para cada detalhe do apartamento e garantiu à tia que nunca havia visto quarto mais bonito que o dele. Amou a sensibilidade da mulher de ter escolhido as cores da Grifinória para o ambiente e ter colocado um pequeno porta-retrato na cabeceira dele com a única foto que os dois tinham juntos além da que ele já possuía. Apoiou a fotografia bruxa de seus pais e a que a tia o havia dado meses antes ao lado do porta-retrato. Agora que sabia de toda a verdade e que Sirius nunca traiu seus pais, pegou-se tento um carinho especial por aquela foto. Estava ansioso para conversar com Petunia e explicar tudo o que havia descoberto.
A madrinha ajudou o garoto a desfazer o malão e guardar os pertences, convidando-o para comprar algumas peças de roupas novas no dia seguinte. Harry contava animadamente como havia sido o ano, tomando o cuidado de deixar o assunto do padrinho para mais tarde. Contou das partidas de quadribol, do primeiro passeio a Hogsmeade, disse que a autorização que a tia enviou não foi aceita, mas que ele usou a capa da invisibilidade. A mulher ficou surpresa que Harry tivesse o objeto, já que, até onde lembrava, James havia emprestado a alguém logo após o nascimento do afilhado. Ele explicou à tia que Dumbledore havia dado a ele a capa no primeiro ano, já que esse seria o desejo de James.
Harry ajudou a tia a preparar o jantar e adorou a nova cozinha. Era consideravelmente menor do que a da Rua dos Alfeneiros, mas cem vezes mais aconchegante pelo simples fato de que era a cozinha deles dois. Preparar a janta com Petunia lembrou o garoto das vezes em que os dois faziam bolo juntos quando ele era pequeno, e isso desbloqueou boas memórias que ele tinha com a tia e havia esquecido com o tempo.
Com a janta pronta, os dois se sentaram um em frente ao outro e comeram com o som baixo da música que vinha do rádio da sala.
- Obrigada por ter me mandado aquela foto, tia P – o menino disse após uma garfada, e a mulher enrijeceu os ombros por alguns segundos, não falou nada – eu tenho tantas coisas para perguntar a você, e tantas outras para te contar.
A mulher tirou os olhos do prato e encarou o afilhado, dirigindo-lhe um sorriso tímido. Sabia que mais cedo ou mais tarde essa conversa aconteceria.
- Sirius é inocente – o garoto falou, e isso definitivamente pegou a mulher e surpresa – ele não traiu meus pais. Peter traiu. Peter está vivo, e foi ele quem entregou meus pais a Voldemort.
A mulher largou os talheres sobre o prato e sentiu lágrimas escorrendo de seu rosto.
- Co-como você sabe? – ela perguntou.
- É... complicado – Harry não sabia até onde a tia conhecia a vida do padrinho, não sabia se ela sabia que ele e Peter eram animagos. Seria difícil explicar que Peter passou doze anos na forma de um rato – mas Sirius não estava atrás de mim, estava atrás dele. Professor Lupin está de prova.
- Você o viu? – ela perguntou.
- Peter? Sim.
- Não, Si-sirius – ela gaguejou.
- Sim – garoto respondeu – ele perguntou de você, se você estava bem. Parecia preocupado.
Harry lembrou que o padrinho o havia convidado para morarem juntos. Os três. Ele, Harry e Petunia. "Se ela quiser", ele havia dito. Estranhou quando viu o homem gaguejar do mesmo jeito que a tia havia gaguejado agora ao perguntar se ela estava bem. Ele não perguntou como ela estava, perguntou se ela estava bem, como se soubesse de algo errado com a tia. Pareceu preocupado. Harry, observador como era, percebeu quando os ombros do homem relaxaram quando ele contou que Petunia havia se separado de Vernon. Aquilo o havia deixado encucado.
- Se não fosse pela foto que você me mandou, eu jamais imaginaria que vocês dois eram próximos.
- Ele era o melhor amigo do seu pai, nós... convivemos bastante – ela pontuou, nervosa.
- Posso chamá-lo para jantar conosco um dia? – ele perguntou e ela arregalou os olhos – se não for problema, eu digo... ele é inocente, e é meu padrinho, eu... eu realmente gostaria de poder conviver mais com ele.
- Claro, querido – ela respondeu. Sabia que Harry tinha o direito de conviver com Sirius, assim como o homem tinha direito de conviver com o afilhado. Ela era uma mulher adulta, poderia muito bem engolir sua mágoa pelo bem do garoto. Já havia aguentado coisa pior. Havia aguentado Vernon por anos, Sirius não poderia ser pior.
Harry abriu um sorriso e deu o assunto como encerrado, ajudou a tia a recolher a mesa e lavar a louça, e dormiu em sua cama nova, sentindo-se, pela primeira vez, em casa fora das paredes de Hogwarts.
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E aí? O que acham que aconteceu entre e Petunia e o Sirius? Como acham que isso vai se desenrolar?
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Resposta aos reviews:
Gabi: SUA LINDA! Coisa bem boa te ter acompanhando mais uma história minha s2. Você é mais do que bem vinda para comentar o que está achando! O Sirius é muito shippavel né? hahaha eu sou completamente apaixonada por ele. Essa fic veio justamente porque eu queria muito ver explorada mais a relação da Lily com a família. Tenho irmã e sou muito próxima, e queria muito uma abordagem que tratasse da relação delas e de como fazerem parte de mundos diferentes impactou a vida das duas. E, claro, como boa romântica e completa cadelinha do Sirius eu tive que shippar ele com a Petunia.
Irina: Obrigada por mais um comentário! Espero que minha escrita esteja facilitando a tradução para o espanhol!
