Algumas coisinhas antes do capítulo: Eu tentei ao máximo preservar os eventos canônicos e aproveitar as brechas que a JK usou na história, mas nem tudo funcionaria bem. No quarto livro, o Sirius fica escondido em uma caverna próxima a Hogsmeade, mas pra essa fic funcionar melhor eu considerei que ele fosse direto para a casa no Largo Grimmauld.
O que estão achando até agora? Sei que tá tudo muito sofrido, mas é porque os dois protagonistas tiveram vidas bem sofridas depois da morte da Lily e do James, mas eu prometo que a fic vai ainda abordar muitos momentos bons e divertidos. Não desistam!
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IV. PASSADO E PRESENTE
- Mesmo em meus piores pesadelos não imaginei que seria obrigado a voltar para cá – Sirius comentou, sério, jogando a bituca de cigarro no chão e apagando-a com a ponta do sapato rasgado. Remus olhou para os lados e conferiu se a rua permanecia vazia. Não fora fácil se deslocar com um foragido e um hipogrifo, mas Dumbledore deu uma pequena ajudinha e o uso de um feitiço de desilusão, o trajeto foi mais seguro. O loiro tocou o ombro de Sirius em sinal de conforto e suspirou ao seu lado.
Os dois estavam em frente ao número 12 de Grimmauld Place, a casa escura e imponente surgindo por entre outras residências casas não-mágicas. A antiga casa recebia, agora, o último descendente vivo da família Black. Sirius não havia pensado duas vezes em convidar Remus para dividir a desgraça de morar consigo, já que os Malfoy não perderam tempo em revelar aos pais dos alunos de Hogwarts e ao Ministério que o amigo era um lobisomem, deixando-o sem emprego e, portanto, sem dinheiro para se sustentar. Dinheiro. Foi com um sorriso de escárnio que Sirius percebeu que, como único herdeiro dos Black, tinha dinheiro. Infelizmente, nem todo o dinheiro do mundo poderia trazer de volta os anos perdidos preso injustamente.
Foi o primeiro a entrar na casa, sendo seguido por Remus. Estava praticamente igual: feia, escura, triste e claustrofóbica. A única diferença era a quantidade de pó, que antigamente não estava ali. Foi com surpresa que percebeu, após uma ronda minuciosa pela casa, que Monstro seguia vivo e chorando pelos cantos pela morte de sua antiga patroa: Walburga. O elfo ficou surpreso ao ver que Sirius estava vivo, e não perdeu tempo em insultar o lobisomem de "escória" e acusar o herdeiro de "traidor do sangue". Isso lhe rendeu somente um chute dolorido na bunda, graças a Remus, que segurou Sirius.
A primeira noite em Grimmauld Place foi a pior: Remus havia saído sem lhe dizer para onde, apenas avisou que voltaria no dia seguinte. Sirius, então, acomodou Bicuço no antigo dormitório de Walburga, desejando que o animal cagasse pela acomodação inteira e ele tivesse pelo menos uma singela vingança. Seguiu para o seu antigo quarto e abriu a porta do recinto engolindo em seco, observando que, à exceção da sujeira (Monstro claramente não se dignara a limpar seu quarto durante esses anos), estava tudo como ele havia deixado. Havia bandeiras com as cores da Grifinória penduradas pela parede, posteres de garotas trouxas de biquini, sua antiga vassoura estava apoiada em um canto, algumas roupas estavam em cima de sua poltrona e pilhas de livros estavam espalhadas pelo chão. Com um aceno de varinha, varreu todo o pó para fora do quarto e colocou lençóis limpos na cama. Naquele dia, seria isso. Não tinha forças emocionais para lidar com os objetos que lhe lembravam de uma vida tão distante e perdida no tempo. Agradeceu mentalmente a Dumbledore por lhe fornecer uma varinha indetectável pelo Ministério.
Dirigiu-se ao banheiro e jogou as roupas velhas no lixo. Olhou-se no espelho, percebendo que precisava urgentemente engordar. Mal reconhecia o reflexo que enxergava: um homem magro, pálido, cabelos e barba desgrenhados, coberto de tatuagens e um olhar de quem estava morto por dentro há anos. Não era, com toda a certeza, mais aquele rapaz maroto cheio de vida, que quebrava corações por onde passava e que constantemente tinha um sorriso no rosto. Entrou no chuveiro e tomou um banho frio.
Peter havia escapado novamente. Sirius havia passado longos meses se alimentando de restos de comida e de animais de pequeno porte, ficara tanto tempo em sua forma animaga que quase havia se esquecido de sua própria humanidade. Esfregava o corpo com raiva enquanto pensava em Peter. Já não lembrava da última vez que tomara banho, penteara o cabelo ou escovara os dentes. Sabia que estava fedendo a carcaça. Sentia-se uma carcaça ambulante. Desde que seguira Harry até Hogwarts, manteve-se oculto da vista de todos, tendo como única companhia esporádica o antigo gato de Lily (agora pertencente a melhor amiga do afilhado). Passara meses escondido, esperando uma oportunidade de dar fim ao rato traidor. Todo o esforço em vão. Sirius não conseguia aceitar que, pela segunda vez, perdeu Peter.
Esfregando o mau cheiro para fora de si, Sirius percebeu, com remorso e vergonha, que estivera tão obcecado em matar o traidor que, em nenhum momento durante aquele ano, pensou em se reaproximar do afilhado. "James estaria puto com você", ele pensou. Perguntou-se se o resultado teria sido diferente se ele tivesse procurado Remus desde o início e explicado a verdade. Se, assim, ele teria conseguido se aproximar de Harry mais rápido e capturado o rato, exibindo o corpo inerte e sem vida do verme e provando sua inocência a todos. Mas, como sempre, havia tomado escolhas erradas. Talvez, se tivesse tomado a decisão certa, seria mais fácil conseguir a guarda de Harry.
Aquela casa era velha e triste, mas talvez com Harry ela ficasse mais feliz. Queria, desesperadamente, uma família. Havia perdido a sua há muito tempo. James e Remus eram sua família, e a havia perdido no mesmo dia em que Harry perdera sua própria. Talvez os três pudessem se fazer companhia, talvez Harry pudesse ocupar um pedaço do espaço que James deixara. Uma pequena chama, que Sirius acreditou há muito ter se apagado, brilhou fracamente dentro de si: talvez, somente talvez, Petunia se juntasse a eles. No entanto, sabia que sua cota de desgraças ainda não estava totalmente paga e que não seria tão cedo que teria o amigo, o afilhado e a mulher que amava, todos ao mesmo tempo. Coisas boas nunca duravam para ele.
Saiu do banho e conjurou uma lâmina de barbear. Limpou o espelho embaçado com as mãos e se pôs a fazer a barba. Com um feitiço, limpou os dentes, há anos sem escovação, e se sentiu aliviado ao vê-los brancos novamente. Sorriu forçadamente para o espelho e, com lágrimas nos olhos, aliviado, conseguiu reconhecer a si mesmo no reflexo. Chorou copiosamente por longos minutos, permitindo-se sentir tudo o que havia guardado bem lá no fundo de si durante 12 anos. Naquela noite, pela primeira vez em mais de uma década, conseguiu descansar.
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Petunia, por sua vez, passou dias pensando no que Harry havia lhe dito sobre Sirius e uma ansiedade sem precedentes tomava conta de seu corpo. Queria encontrá-lo, mas ao mesmo tempo já não sabia como seria esse reencontro. Já não eram mais dois jovens, e fazia mais de doze anos que não se viam. Petunia já não era a mesma, e com toda a certeza Sirius também não era o mesmo. Sirius havia deixado claro, anos atrás, que ela não fazia parte do mundo deles. E se ele tentasse tirar Harry dela?
Só Petunia sabia o quão insuficiente se sentia para o afilhado. Não era uma bruxa, não fazia parte do mundo mágico. Por Deus, sequer sabia onde arranjar uma coruja para se comunicar com o garoto durante o ano letivo. Não sabia ajudar Harry com as matérias da escola, não conseguia levá-lo para jogar quadribol nas férias, não conseguia sequer levá-lo para comprar material escolar. A amarga e inevitável verdade era que, mais cedo do que Petunia gostaria, ela deixaria de ter espaço na vida de Harry, assim como deixou de ter espaço na vida de Lily e Sirius.
Petunia despertou de seus devaneios com o barulho da máquina de secar roupa, anunciando que o ciclo havia terminado. Recolheu as peças ainda quentes e colocou-as num cesto, carregando-o para o quarto. Quando passou pelo dormitório de Harry, avistou o menino sentado no chão, com as costas escoradas na cama, segurando uma fotografia nas mãos, pensativo. A mulher então largou o cesto no chão do corredor e se sentou ao lado do afilhado.
- Eu gosto dessa foto – o menino comentou. Estava segurando a foto que Petunia havia enviado a ele.
- Eu também – ela confessou.
- Você estava feliz aqui, Sirius também.
- Eu estava feliz – ela respondeu – essa foto foi no seu aniversário de um ano. Eu não via nenhum de vocês desde o seu nascimento, estava feliz por poder matar as saudades. Essa foi a última vez que vi Lily.
- Por que ficou tanto sem vê-los? – Harry perguntou, virando-se para a tia.
- Vocês estavam escondidos de Voldemort – a mulher respondeu. Apesar das memórias dolorosas, ela tinha a voz firme. De alguma forma, descobrir a verdade sobre a morte da irmã havia tirado um pouco do peso do coração dela – e eu não fazia parte do mundo de vocês, não era uma bruxa. Quando você nasceu, seu pai se arriscou só para me buscar e me levar até vocês. Você era apenas um pacotinho com grandes olhos verdes – ela sorriu lembrando de Harry bebê – e, no seu aniversário, Sirius me levou até lá. Naquele momento, ele era o fiel do segredo.
- Mas por que não foi mais vezes? Você não queria nos ver?
- Eu sempre quis ver vocês, querido – ela acariciou os cabelos do afilhado – mas havia uma guerra acontecendo, era muito arriscado que qualquer um deles ficasse saindo só para me levar até vocês. Eu tive que optar por ficar longe, para mantê-los seguros.
O garoto voltou a encarar a foto, encarando as figuras que se movimentavam dentro da imagem. Correu o polegar de Sirius até a tia e sorriu de canto.
- Eu gostaria de me lembrar desse dia – Harry comentou – é uma lembrança feliz. Se meus pais estivessem junto nessa foto, estariam todas as pessoas que amo.
- Seria uma lembrança bastante poderosa – Petunia respondeu sorrindo.
- Como era quando vocês eram jovens? – Harry perguntou – conheço tão pouco dos meus pais, de Lupin, Sirius e até mesmo de você, tia. Você virou amiga deles por causa da minha mãe?
- Bem... Sim e não – a loira respondeu – eu e sua mãe éramos melhores amigas. Não só porque éramos irmãs, mas porque sua mãe era a pessoa que eu mais confiava no mundo. Quando Lily descobriu que era bruxa e entrou em Hogwarts, acabamos nos afastando um pouco – a mulher sorria de canto relembrando de um passado que há tanto tempo não pensava – eu fui uma completa idiota. Fiquei com inveja por não ser especial como Lily e disse coisas horríveis a ela na estação de trem. Eu tinha 12 anos, e sua mãe tinha 11.
- Mas vocês fizeram as pazes depois?
- Sim, eu chorei por três dias depois que sua mãe embarcou – Petunia riu – escrevi uma longa carta a ela pedindo desculpas e saí andando até uma agência de correio. Fiz o funcionário do lugar revirar todos os livros de endereço tentando achar Hogwarts. Ele me disse que não existia nenhum lugar com esse nome, mas eu era teimosa. O funcionário acabou ligando para a sua avó me buscar. Eu fiquei tão brava que, antes de sair, agarrei a sineta de cima do balcão e saí correndo. Na minha cabeça, era uma punição justa por ele ter sido tão impaciente comigo.
Harry deu uma risada. Não conhecia as histórias da tia, e se ajeitou mais contra a cama, virando-se para ela interessado no que ela lhe contava.
- Lily me perdoou no Natal daquele ano e me trouxe uma variedade grande de doces do mundo bruxo. Lembro que pulamos a cerca da vizinha para capturar um sapo de chocolate que havia fugido antes que alguém visse. Inclusive foi já nesse primeiro Natal que sua mãe começou a reclamar do seu pai.
- Sério?
- Sim, James sempre fazia de tudo para chamar a atenção da sua mãe, desde que a conheceu. Eu acho que início ele só queria incomodá-la, mas, com o passar dos anos, percebeu que estava apaixonado e passou a seguir ela para todos os cantos.
- E ela? – os olhos do garoto brilhavam, e Petunia viu a irmã nos olhos do afilhado.
- Ela era bastante teimosa, demorou algum tempo para dar uma chance ao seu pai. Mas eu já sabia que ela gostava dele antes mesmo de ela saber – a loira contou, sorrindo ao lembrar da juventude com Lily – desde o dia em que James apareceu na frente da nossa casa no feriado de Natal. Foi quando conheci seu pai e seu padrinho.
- Como ele era?
- Seu pai? – ela perguntou, confusa.
- Não, Sirius – o menino explicou – ele parece tão diferente na foto, não só pela idade. Parecia mais... não sei... vivo.
Harry não conseguia achar outra forma de descrever o padrinho. O jovem rebelde e sorridente da foto era tão diferente do homem sujo e com olhos tristes que ele conhecera. Na imagem, Sirius parecia ser tudo o que Harry gostaria de ser: bonito, destemido, confiante. É claro que o garoto sabia que doze anos preso injustamente não trariam nada de bom, mas ele estava curioso. Como será que o padrinho era antes de tudo dar errado para ele?
- Sirius era... – ela começou, um pouco nervosa. Tinha sua cota de mágoa com ele, mas, ao mesmo tempo, não queria ser injusta com o homem que teria dado a própria vida por sua irmã e James – ele era leal, e rebelde, e com um grande senso de justiça. Ele e seu pai tinham isso em comum, apesar de Sirius ser mais inconsequente. Seu pai tinha sua mãe e você, enquanto Sirius... bem, ele não tinha a quem cuidar como o seu pai. Acho que é mais fácil ser desprendido quando não se tem a quem prender.
Harry tinha muitas coisas em comum com Lily, e isso era tanto um acalento quanto um inconveniente. O garoto era muito observador. Petunia havia aprendido com os anos a engolir seus próprios sentimentos e, para a maioria das pessoas, qualquer vestígio do que ela sentia passava despercebido. Mas Harry não era a maioria das pessoas, e ele percebeu a pequena vacilada na voz da tia. Ele estava curioso. Sirius havia vacilado ao perguntar sobre a tia, e já era a segunda vez que a mulher parecia vacilar falando sobre ele. Ele se perguntava se os dois, no fim das contas, não se gostavam.
O garoto viu a tia levantar do chão e pegar novamente o cesto de roupas, anunciando que dobraria e guardaria as peças e depois faria algo para que eles comessem. Entendeu que, por ora, aquele assunto estava encerrado.
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Quando Remus voltou a Grimmauld Place pela manhã, encontrou Sirius discutindo com o elfo doméstico, e não pôde evitar revirar os olhos. Sirius agia feito uma criança birrenta e provocava Monstro, fazendo os mais baixos e sujos comentários sobre Walburga, deixando a criatura a beira do colapso. Ao que parecia, algumas coisas não mudavam nunca. O loiro então adentrou a cozinha anunciando sua presença com um pigarro.
- Onde você foi? – Sirius perguntou, despretensiosamente, enquanto apontava a varinha para as panelas velhas da cozinha e tentava tirar a poeira – essa casa é um lixo.
- Fico surpreso de ver você limpando, achei que gostaria de mandar Monstro fazer isso como punição.
- O bostinha vai mijar nas minhas panelas – Sirius resmungou, e Monstro murmurou algo ininteligível, fazendo com que o moreno virasse o rosto para ele com ódio nos olhos cinzas – só saia daqui e vá lamber o quadro daquela bruxa amarga, seu pedaço de lixo!
- Por Merlin, Sirius – Remus ralhou, sentando-se junto à enorme mesa da cozinha.
- Pir Mirlin Siris – o moreno debochou, fazendo com que o loiro levantasse uma sobrancelha como se dissesse "eu não acredito que você vai agir feito criança". O homem largou uma panela dentro de uma bacia cheia de água com raiva – enfim... Onde você andava?
- Tratei de alguns assuntos com Dumbledore e sugeri que colocássemos alguns feitiços protetores no apartamento de Petunia, só por precaução – Remus respondeu e Sirius vacilou e quase deixou a panela cair no chão ao ouvir o nome dela. Remus, obviamente, percebeu isso, assim como percebeu que o amigo havia enrijecido os músculos e trancado a respiração.
- Como ela está? – Sirius perguntou, ainda encarando as panelas, agora fazendo um movimento lento de vai e vem com a varinha e tirando toda a ferrugem do objeto.
- Está se aprumando. Estava bem a última vez que a vi. Trocamos cartas durante o ano– Remus suspirou – ela está feliz por começar uma vida nova com Harry.
Sirius largou a panela e passou a limpar o balcão da cozinha em silêncio. Remus apoiou os cotovelos no tampo da mesa e esperou que o amigo dissesse qualquer coisa, mas Sirius parecia lutar internamente consigo mesmo.
- Eu acredito que ela gostaria de te ver, se essa é a sua dúvida– Remus respondeu, passando a mão direita no rosto e apertando os olhos, como se quisesse aliviar alguma dor de cabeça. Estava cansado e a lua cheia se aproximava.
- Ela me odeia – Sirius rebateu, colocando duas xícaras na mesa e servindo o café que havia passado mais cedo. O lobisomem percebeu que o amigo tentava transparecer tranquilidade, mas as mãos levemente trêmulas e os batimentos cardíacos acelerados, que Remus conseguia escutar muito alto, denunciavam que ele estava tudo menos tranquilo.
- Ela nunca odiou você – Remus respondeu, levando a xícara de café aos lábios – ela nunca acreditou que você havia entregado James e Lily, ao contrário de mim e dos outros.
- Ela te disse isso?
- Sim. Disse que viu você também, na noite em que saiu da casa de Vernon – Remus comentou, e percebeu quando o outro maroto arregalou rapidamente os olhos – o que estava fazendo perto da casa dela?
- Procurando por Harry – Sirius mentiu, e se colocou em silêncio. Parou de limpar a mesa e passou a tirar a poeira das estantes. Remus sabia que não conseguiria arrancar mais nada dele naquele momento.
- Você ficou bem – Remus mudou de assunto e Sirius o olhou sem entender. Remus apontou para a barba e o cabelo do moreno e sorriu.
- Sinto-me mais eu mesmo agora – Sirius respondeu, abrindo um sorriso tímido – não aguentava mais aquela barba comprida e o cheiro de cachorro morto.
O resto da manhã se deu com Remus e Sirius limpando a cozinha e conversando sobre trivialidades, relembrando alguns momentos do passado. Vez que outra Sirius esboçava um sorriso, mas ainda permanecia visível que o moreno estava infeliz. Remus conseguia entender, afinal o amigo passara 12 anos preso por um crime que não cometeu, e agora estava fadado a seguir preso dentro da casa que odiara a vida inteira, até que seu nome fosse limpo junto ao Ministério. O loiro também tinha curiosidade de saber como se daria o reencontro de Sirius e Petunia, e pegou-se surpreso ao perceber que sentia certa raiva do amigo.
Sirius sempre fora o garanhão de Hogwarts, saía com cinco garotas ao mesmo tempo e beijou metade da escola. No entanto, passou os últimos um ano e meio de colégio fiel a uma única garota: Petunia. Os dois ficaram um bom tempo juntos, passaram por muitas coisas juntos: o término da escola, o casamento de Lily e James, a morte dos Evans, a morte dos pais de James. Mesmo assim, ele a descartou quando cansou e, menos de um mês depois, já estava na cama com Marlene McKinnon. Petunia fora perdidamente apaixonada por Sirius, Remus desconfiava que ela ainda o amava. Já a recíproca ele tinha dúvidas se era verdadeira.
O lobisomem constantemente pensava como suas vidas teriam sido se ele tivesse tomado uma atitude antes de Sirius, já que a havia conhecido antes dos outros marotos, ou se Sirius nunca tivesse terminado com ela. A primeira alternativa lhe parecia ridícula, já que havia jurado a si mesmo que não correria o risco de casar e colocar um outro lupino no mundo. Não condenaria uma criança à vida que vivia: rejeitado, sem emprego, sem dinheiro e sem oportunidades no mundo bruxo.
A segunda alternativa, no entanto, lhe causava curiosidade. Será que Petunia e Sirius teriam, hoje, uma família? Será que Sirius teria sido preso? Será que ele teria desistido de sugerir que Peter fosse o fiel do segredo? Será que o destino dos dois era inevitável e todas as desgraças aconteceriam exatamente do mesmo jeito? Ou será que tudo teria sido diferente e hoje todos estariam felizes? Sirius também constantemente pensava nessas hipóteses, e tentava se convencer de que tudo seria exatamente do mesmo jeito, mas sabia, no fundo, que só tentava se convencer disso para se livrar da culpa que carregava nos ombros.
Naquela mesma semana, Sirius alimentou Bicuço e pediu a coruja de Remus emprestada. Escreveu uma carta para Harry, dizendo que estava com saudades e que gostaria de vê-lo ainda no verão, antes que as aulas começassem. Fez questão de dizer que estava disponível a qualquer dia e a qualquer momento, que era só o afilhado consultar quando Petunia estaria livre e se ela estava disposta a recebê-lo. Disse que gostaria que ela estivesse presente, e releu a carta várias vezes para conferir se não parecia desesperado. Amarrou o bilhete na pata da coruja e deu as coordenadas do apartamento do garoto, endereço que arrancou com muito custo de Remus, que temia que o amigo fizesse a bobagem de se colocar em risco na rua só para ir até lá.
Teve dificuldades para dormir, ficou em claro por horas, esperando que a coruja retornasse com a resposta, o que não aconteceu. Só conseguiu pegar no sono quando viu que era tarde e que provavelmente Harry estaria dormindo, razão pela qual só responderia no dia seguinte.
Harry recebera a carta de Sirius e respondeu, convidando-o para jantar na próxima sexta-feira, às 18h. Resolveu não falar nada para a tia, já que ele desconfiava que ela fosse inventar alguma desculpa para desmarcar a janta, e ele tinha pressa. Tinha pressa porque, na semana seguinte, iria para a casa de Ron. Assistiria, com os amigos, pela primeira vez na vida, a Copa Mundial de Quadribol.
Petunia passou a semana completamente alheia aos planos do afilhado, já que, desde que ganhara sua promoção, seu volume de trabalho aumentou consideravelmente. Agora ela não só revisava os textos como também fazia sugestões de edição e triagem dos textos a fim de decidir o que tinha ou não potencial para publicação. Estava tão absorta no trabalho, inclusive levando alguns textos para casa, que sequer percebeu algo diferente quando Harry a convidou para ir ao mercado comprar ingredientes para uma lasanha a ser feita na sexta-feira. A mulher acreditou que o garoto só estava querendo comer alguma comida diferente e aproveitar o início do fim de semana com ela antes de ir para a casa dos Weasley.
Portanto, quando a sexta-feira chegou, Petunia saiu alguns minutos mais tarde da editora, apagou as luzes, trancou as portas, e se dirigiu ao apartamento a pé, segurando uma pasta com contos que deveria selecionar para uma coletânea. Estava começando a escurecer, o que deixava a temperatura deliciosa. A loira sempre levava um casaco para o trabalho, já que lá havia ar-condicionado. No entanto, quando chegou na rua, viu que a temperatura estava mais quente, razão pela qual tirou o casaco e prendeu os cabelos em um coque despojado sem o uso de qualquer borrachinha, o que fazia com que alguns fios escapassem do penteado. Ajeitou o casaco e a pasta no mesmo braço e, com a mão livre, segurava a bolsa. Usava um vestido solto de crepe azul marinho. Era acinturado, mas tinha a saia esvoaçante, perfeita para o verão. Nos pés, usava seu par de sapatos pretos de salto, um dos únicos que tinha.
Chegando em casa, abriu a porta do apartamento e largou, junto ao aparador do hall de entrada, a chave e a bolsa. Uma risada conhecida foi ouvida da sala, e ela congelou. Sentiu o coração indo até a boca e pensou que, se ele batesse mais rápido, ela infartaria aos 35 anos. Respirou fundo mais vezes do que conseguiu contar e, engolindo em seco, caminhou até a sala. Harry estava sentado no sofá, rindo e conversando com o homem de costas na poltrona que, ao sentir o cheiro dela no ambiente, virou-se para a entrada da sala e a encarou com os conhecidos olhos cinzentos. O homem era Sirius Black.
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Confesso que nem eu estou me aguentando, que agoniaaaaaaa quatro capítulos inteiros sem os dois se encontrarem, mas agora finalmente aconteceu!
E aí, o que acham que vai rolar a partir de agora?
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Resposta aos reviews:
Gabi: A Petunia teve uma vida muito, muito difícil, mas as coisas vão tomar um rumo diferente agora com o Sirius de volta na vida dela. O que você acha que aconteceu entre eles? Obrigada, como sempre, por ser uma leitora tão fiel s2
