VI. MUDANÇA
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"Eles nunca vão fazer o que você quer que eles façam
Desista e veja-os seguir em frente
É tarde demais para uma revolução
Prepare-se para a solução final"
(Thought Contagion – Muse)
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1977
O segundo semestre letivo começou como todos os outros. Sirius retornou à Hogwarts com James e os dois encontraram Remus e Peter já na estação de trem. Como de costume, o garoto de cabelos espetados olhava para os lados em busca da cabeleira ruiva de Lily. Ele havia torrado os ouvidos do amigo nos últimos dias dizendo o quanto achava que tinha chances com a garota.
- As coisas mudaram, Almofadinhas, estou lhe dizendo – James garantiu assim que adentraram a cabine costumeira. Sirius chutou o malão para baixo do banco e se largou contra o encosto - Ela ficou ao meu lado no festival, e só reclamou três vezes! Esse ano eu conquisto a Cereja!
- Você diz isso todo semestre desde o quarto ano! – o moreno reclamou.
- Eu juro que me corrói por dentro dizer isso, mas acho que James pode ter razão – Remus comentou, e os três garotos se viraram para ele. James com um sorriso de orelha a orelha, Sirius e Peter com os olhos arregalados – Merda, já me arrependi por ter aberto a boca.
- Você tem alguma informação interna que gostaria de dividir com o grupo? – Sirius questionou.
- Petunia me disse por telefone que Lily achou James agradável no festival – o loiro comentou.
Sirius se remexeu no banco e cruzou os braços.
- Quem é Petunia? – Peter perguntou.
- Irmã da Cereja – James respondeu rápido, e voltou a olhar para Remus.
- Não sabia que você falava por telefone come ela – Sirius comentou, e o loiro o encarou de forma curiosa.
- Ciúmes?
- Até parece – o moreno bufou.
- De qualquer forma, eu liguei para Rose – Remus sentiu que seria melhor explicar – e calhou de Petunia estar junto.
Peter havia ficado quieto observando a interação entre os dois amigos. Se ele não conhecesse Sirius tão bem, diria que ele estava, sim, com um pouco de ciúmes. Resolveu implicar.
- Eu acho que Almofadinhas está com ciúmes – ele comentou.
- E é por isso que você é o mais burro entre nós quatro – Sirius respondeu irritado – eu sou o maldito Sirius Black, eu não tenho ciúmes, muito menos de uma garota que não chega nem aos pés das que estão nesse exato momento dentro desse trem. O que me faz lembrar – ele remexeu no bolso da jaqueta e retirou dali um maço de cigarros – tenho que fumar.
- Fumar – James debochou, e recebeu uma piscadela do moreno antes que ele saísse da cabine fechando a porta.
Sirius caminhou pelo vagão olhando para dentro das cabines, até que encontrou quem procurava. Abriu a porta e vestiu seu sorriso mais sedutor.
- Hey, McKinnon – ele chamou, e a garota virou para ele. Lily revirou os olhos – quer fumar?
- Você está ciente de que eu sou monitora, certo? – a ruiva perguntou, incrédula. Marlene se levantou do banco e se dirigiu à porta. Lily a encarou em descrença – Sério, Marlene?
- Ah, Lily, me dá um desconto dessa vez – Marlene reclamou.
A ruiva estudou a amiga e o maroto de cima a baixo, refletindo se deveria ou não fazer vista grossa. Godric era testemunha de que Sirius merecia cada detenção que já havia tomado, e que ela mesma não era de dar colher de chá ao garoto. Mas, se punisse ele, teria que punir a amiga.
- Só dessa vez – ela bufou.
Marlene sorriu e saiu da cabine com o maroto. James estava certo quando debochou do fato de Sirius sair com a desculpa de fumar, já que, na realidade, passou um bom tempo no fundo do vagão, perto dos sanitários, dando uns amassos em Marlene McKinnon. Ela era, sem dúvidas, a garota preferida do moreno. Desde que começou a ser assolado pelos hormônios da puberdade, Sirius teve uma longa lista de conquistas amorosas em Hogwarts, e todas terminaram de forma um tanto quanto dramática. O garoto já havia inclusive parado na enfermaria uma pá de vezes graças aos términos nada saudáveis que teve. Uma havia lhe arremessado um troféu na cabeça no dia em que ganharam a taça de quadribol – o que rendeu ao garoto um grande corte na testa -, outra batizou sua bebida com uma poção que deixou o corpo inteiro do maroto coberto de urticárias e, a última e pior, foi quando levou uma azaração que o impediu de ter ereções por duas semanas.
Marlene, no entanto, era a garota que ele já havia ficado inúmeras vezes, todas sem compromisso algum e, por consequência, sem grandes cenas. Ela era uma das mais bonitas de Hogwarts, tinha os cabelos castanhos muito claros, os olhos azuis mais penetrantes que ele já havia visto, e coxas grossas graças às corridas que era obrigada a fazer com o time nos aquecimentos para os treinos. Os dois tinham uma boa relação de amizade – não do tipo confidentes, mas eram bastante próximos – e isso fazia com que o garoto fosse mais transparente com ela do que era com as outras. Já fazia dois anos que os dois trocavam saliva e outros fluidos vez que outra longe do olhar público. O fato de Marlene ser a única mulher do time de quadribol com certeza ajudava, já que não foram poucas as ocasiões em que Sirius inventou desculpas ao time e se esgueirou pelo vestiário feminino para encontrar a morena e transar no chuveiro.
Os marotos e Dorcas eram as únicas pessoas que sabiam desse pequeno caso de sexo sem compromisso entre os dois. Marlene nunca contou à Lily por medo da reação da amiga que, além de ser monitora, odiava Sirius e James com todas as suas forças. A ruiva era, possivelmente, a única garota em todo o colégio que nunca se deixou cair nos encantos de nenhum dos marotos, mesmo tendo um dos mais cobiçados atrás dela desde o quarto ano.
Todos os garotos estavam empolgados para o semestre letivo, à exceção de Peter. Desde o quinto ano os marotos conseguiram, finalmente, atingir os objetivos de animagia para acompanhar Remus durante a lua-cheia, então aquela época do mês havia se tornado uma das preferidas de Sirius, que considerava toda a ocasião uma grande aventura. Até mesmo o lobisomem deixou de sofrer tanto durante as transformações desde que começou a ter seus amigos junto a si. Peter havia retornado à Hogwarts abatido, e os outros três sabiam a razão. A mãe do garoto era doente e, ao que tudo indicava, não havia mais como reverter o quadro. Então não era de se espantar que o último maroto não compartilhasse da mesma alegria que os amigos em voltar a Hogwarts.
Foi no segundo mês de aulas que as coisas passaram a mudar. Estavam no meio do outono, a neve já havia derretido e já era possível voltar a curtir o dia junto ao Lago Negro. Naquele dia em particular, Sirius enfiava uma torrada inteira na boca durante o café, James bebia o suco de abóbora e Remus lia concentrado o Profeta Diário. Peter não havia descido. Próximo aos três garotos, estavam Marlene, Dorcas, Mary e Alice. Lily adentrou o salão, captando a atenção de James, e se sentou com o semblante preocupado junto às amigas. James apurou os ouvidos, mas os outros dois marotos seguiram alheios ao que estava acontecendo.
- Aconteceu algo? – Dorcas perguntou.
- Não sei, talvez sim. Ou talvez eu só esteja enxergando coisas onde não tem – a ruiva respondeu, e depois suspirou alto – Túnia me mandou uma carta.
O nome fez com que Sirius levantasse a cabeça do prato e seguisse o olhar de James. O garoto passou a prestar muita atenção na interação das garotas.
- Uma colega dela simplesmente sumiu – Lily continuou – escafedeu-se da face da terra.
- Talvez a garota tenha fugido com um namorado ou algo do tipo – Marlene deu de ombros – ouvi dizer que os trouxas são bastante conservadores.
- Ouviu onde? – Mary interviu – por Merlin, Marls, vocês puro-sangue se casam entre primos!
- Eu considero isso bastante liberal – a bruxa se defendeu.
- Em casamentos arranjados – Mary pontuou, levantando uma sobrancelha.
- Argh, ok – Marlene se deu por vencida – mas mantenho o meu ponto, ela deve ter fugido.
- Não Marls – Lily respondeu muito séria, e olhou para trás a fim de se assegurar que outras pessoas, principalmente os sonserinos, não conseguissem escutá-la – Túnia me disse que todos os dias noticiam no rádio que pessoas estão desaparecendo. Famílias inteiras! Eu estou assustada.
As cinco garotas se olharam. Todas sabiam do que Lily estava falando.
- Não há nada no Profeta Diário – Dorcas comentou – se isso tivesse algo a ver conosco, nós já saberíamos. O Ministério já teria noticiado.
- Eu não confio no Ministério – James declarou, sentando-se ao lado de Lily e sendo acompanhado por Sirius e Remus.
- Com licença, você estava escutando uma conversa privada? – a ruiva reclamou.
- Desculpe, Lils, mas isso é maior que nossa... relação? – ele rebateu – eu concordo com você, algo está mudando, mesmo aqui dentro. O castelo está cheio de cochichos, minha casa está cheia de cochichos, o Ministério não está demonstrando ser muito confiável, e agora esses desaparecimentos.
Lily o encarou com os olhos arregalados e ruborizou. Desde quando James Potter havia virado um homem que se importa com algo além de si mesmo?
- Eu aposto que eles sabem o que está acontecendo – Sirius comentou, também sério, apontando com o queixo para a mesa da Sonserina. Em particular, para um grupo de sonserinos: sua prima Bellatrix, Avery, Malfoy e Dolohov. Mary sentiu um arrepio na espinha – eu aposto que tem algo a ver com ele.
- Normalmente eu diria que é sua implicância com eles, mas dessa vez eu concordo com você – Lily respondeu.
- É o seguinte: aqueles filhos da puta já deixaram bem claro o que defendem – Sirius continuou – Bellatrix é uma vaca psicopata, Malfoy vem de uma família influente no Ministério, Avery é o cãozinho de guarda dele e Dolohov é um maldito sádico. Algo não cheira bem.
- Vocês não devem andar sozinhas – James declarou, recebendo um olhar indagador de todas – eu não falo com a intenção de controlar o que vocês fazem ou não, mas não é novidade para ninguém que Dolohov é simplesmente obcecado por você, Dorcas, e você, Mary.
- Sim, mas se eles realmente defendem essa baboseira de pureza de sangue, ele nunca faria nada a Dorcas – Marlene comentou.
- Obrigada, Marls, isso me deixa bastante tranquila – Mary respondeu irritada.
- Eu não vou deixá-lo fazer nada contra você – James garantiu. Lily o encarava com espanto e admiração, e seu coração pulou uma batida – nós não vamos – ele apontou para si, Remus e Sirius – eu sugiro que ninguém ande sozinho pelo castelo, principalmente vocês, e que passemos o tempo livre em locais públicos e entre nós todos. Assim podemos evitar que eles façam algo ou, no pior dos cenários, azarar alguns malditos racistas.
Todos assentiram com a cabeça e seguiram o café silenciosamente, olhando de canto de olho, vez que outra, para a mesa dos sonserinos. Sirius tentava disfarçadamente ler os lábios de sua prima, a fim de conseguir descobrir qualquer coisa importante. Quando saíram do salão em direção às primeiras aulas do dia, o moreno sequer fez piada com o fato de James finalmente conseguir permissão de passar o tempo inteiro junto de Lily, porque sabia que o amigo estava levando a situação a sério. Todos estavam.
As suspeitas do recém-formado grupo se concretizaram o dia em que Mary McDonald foi chamada à sala de Dumbledore no meio da aula de Feitiços. Todos passaram a cochichar e fazer suposições do que teria acontecido, já que Mary era tão certinha quanto Lily: tinha notas altas, não se envolvia em confusão alguma e não costumava dar amassos pelo colégio.
Infelizmente, Sirius descobriu mais tarde naquele dia, a razão de Mary ter sido chamada foi bem mais grave: os pais da garota haviam sido encontrados mortos dentro de casa. Os garotos não tinham acesso ao dormitório feminino, então tiveram que esperar longas horas no Salão Comunal até que alguma delas descesse e os informasse do acontecido. Marlene foi a primeira a descer, com o rosto inchado e vermelho de choro. A garota não pensou duas vezes e se jogou nos braços de Sirius, que, surpreso, correspondeu ao abraço. Ele não estava acostumado com esse tipo de interação com a garota, então apenas acariciou desajeitadamente as costas dela até que ela se acalmasse e recuperasse o fôlego.
- Eles foram assassinados – a garota sussurrou. Todos estavam sentados junto à lareira. Mary havia tomado uma poção para dormir e Alice havia ficado no quarto velando o sono da amiga. Lily e Dorcas haviam se juntado aos marotos e à garota – Dumbledore disse a Mary que eles foram mortos por uma Imperdoável. Está acontecendo.
- Mary é mestiça – Sirius comentou. Tinha o braço jogado sobre o ombro de Marlene e acariciava o braço da amiga com a ponta dos dedos. Todos o encararam – a mãe dela era nascida trouxa. Primeiro os trouxas, depois os nascidos-trouxas - Lily arregalou os olhos verdes e marejados, e levantou-se com um salto.
- Eu preciso falar com Túnia – ela gaguejava, e James se levantou – eles estão caçando trouxas! E se matarem a minha família também? E se matarem minha irmã?
Sirius trancou a respiração. Era uma possibilidade. Todos os nascidos trouxas estavam correndo perigo, inclusive a própria ruiva, e inclusive dentro das paredes daquele castelo. James puxou a garota para um abraço, e todos ficaram surpresos quando Lily correspondeu, enlaçando os braços em torno da cintura do maroto.
- Nós vamos falar com Dumbledore – James assegurou à garota – vamos pedir que ele coloque alguns feitiços protegendo a sua casa, na casa de todos. Nós vamos dar um jeito, Lils. E você – ele segurou o rosto ela entre as mãos – você não vai sair da minha vista, entendido? Você é ótima em Feitiços, mas se estivermos em maior número estaremos mais seguros. Duvido que tenham comensais em Hogwarts, mas com certeza há simpatizantes, então todos devemos ficar atentos.
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Até o fim do ano letivo não se teve notícia de outro assassinato, mas foram reportados três desaparecimentos. Duas bruxas nascidas-trouxa e um jornalista. Não era coincidência, Sirius sabia disso em sua espinha. A volta para casa normalmente tinha um clima de funeral para o maroto, já que ele odiava voltar à Grimmauld Place. No entanto, dessa vez, todos estavam no mesmo humor. Algo de estranho pairava no ar, algo das trevas. O desconforto que o garoto sentia em seu âmago só aumentou quando desceu na estação e viu Walburga e Orion lhe esperando. Sentiu um coice no peito ao ver os pais ali, eles nunca buscaram ou levaram os garotos à estação, nem mesmo quando tinham onze anos.
Walburga era uma mulher alta e magra, tinha os cabelos negros e olhos igualmente negros. Vestia-se como uma tradicional mulher puro-sangue, com vestes sóbrias e completamente antiquadas. Se não fosse a personalidade horrível dela, Sirius chegou a admitir para si mesmo que ela poderia ser considerada uma mulher bonita. Orion era o filho mais velho daqui uns anos, e Sirius odiava isso. Odiava ser a cópia em carbono do pai. Odiava o pai com todas as suas forças.
Os dois receberam Sirius e Regulus sem qualquer emoção, pelo contrário: pareciam mais frios e distantes que o comum. O maroto deu uma rápida olhada para os lados e conseguiu visualizar Lily se jogando nos braços dos pais, aliviada. Petunia não estava ali, mas tudo indicava que a família inteira estava bem. Sentiu inveja da garota por ter uma família amorosa.
Chegando em Grimmauld Place, Sirius foi direto ao próprio quarto e jogou o malão em cima da cama, fazendo com que ele se abrisse e algumas roupas caíssem no chão. Não ligou, arrumaria qualquer outro dia. Naquela noite, só queria dormir e esquecer que havia voltado àquele inferno. Mal se deitou na cama por cima das roupas jogadas e ouviu três batidas na porta, seguidas de Orion adentrando o quarto.
- Vista-se decentemente e arrume suas coisas, temos um compromisso – o homem anunciou.
- Eu não tenho compromisso algum – Sirius teimou – meu único compromisso é sobreviver duas semanas nessa casa até ir para os Potter curtir meu verão com uma família normal.
Orion respirou fundo, andou a passos largos até a cama e agarrou Sirius pelos cotovelos.
- Eu mandei se vestir e arrumar suas coisas! – o homem falou alto e grave – eu estou farto do seu comportamento, já passou da hora de você honrar o sobrenome dessa família. Sem Potters traidores do sangue, sem roupas de sangues-ruins. Você é um Black, e vai agir como tal!
Sirius se desvencilhou do aperto de Orion e o empurrou para trás. O homem, com uma expressão de puro ódio, arregaçou as mangas da impecável camisa preta que usava. O garoto arregalou os olhos para a enorme marca de serpente no braço do homem. Orion sacou a varinha e, antes que Sirius pudesse reagir, foi azarado no peito pelo próprio pai. Caiu com as costas contra a cama e sentiu uma dor lancinante no tórax, que dificultou a passagem de ar até seus pulmões.
- Você vai aprender a me respeitar – Orion declarou, muito mais calmo do que estava antes, o que só deixou Sirius mais alarmado – vai aprender o seu lugar.
Orion atingiu o filho mais vezes do que o garoto conseguia contar. Sirius tentou acertar o pai com socos e chutes, mas isso só irritou ainda mais o homem. O maroto não sabia se era porque estava tentando agredi-lo ou porque o método escolhido não era bruxo. Sentia o gosto de sangue em sua boca, sentia o rosto latejando, sentia dificuldade de respirar e para ficar em pé. Quando Orion o atingiu com um último feitiço, Sirius caiu no chão como um saco de batatas, a bochecha contra o assoalho sujo ao lado da cama. Forçando o ar para dentro dos pulmões, visualizou o moletom que Petunia havia emprestado a ele no dia do festival caído no chão. Num último esforço, agarrou sua varinha e fechou os olhos, visualizando a casa de madeira amarela, e desaparatou.
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Sirius caiu de joelhos ao aparatar na grama molhada, agarrou-a entre seus dedos e viu, com sua visão enuviada, várias gotas de sangue se juntarem à água que empoçava a terra. Olhou para cima e foi com alívio que percebeu que estava em frente à casa de Lily Evans. Ao contrário de sua própria casa, que era escura e antiga, a casa dos Evans lhe parecia o local mais seguro e convidativo que poderia estar naquele momento. Depois da casa dos Potter, Sirius considerava que gostaria de morar em uma casa aconchegante e amorosa como aquela.
Estava confuso e todo dolorido. Seu nariz escorria sangue, sentia seu rosto inchado, sua visão estava embaçada e não encontrava mais forças para uma nova aparatação até os Potter. Levantou-se com uma certa dificuldade e andou até a casa, torcendo para que alguém estivesse acordado àquela hora da noite. Todas as luzes, no entanto, estavam desligadas. Andou em volta da casa até encontrar uma janela e suspirou aliviado ao perceber a luz acesa por entre as cortinas claras. Agachou-se, segurando-se na cerca viva que tomava aquela parede externa da casa e catou uma pequena pedra, arremessando-a na janela. Ninguém atendeu. Repetiu o processo e, quando a segunda pedra atingiu o vidro, ouviu-a sendo aberta. O maroto estava em tão mal estado que não se preocupava em saber de quem era aquele quarto. Se fosse o Sr. Evans a aparecer ali, ele já se daria por satisfeito, mas não conseguiu refrear o sentimento de alívio quando viu uma juba de cabelos lisos e louros surgir na janela.
- Mas que diab... Sirius? – Petunia, com a cabeça para fora da janela, indagou assustada.
Sirius se deixou cair no chão e ouviu os passos apressados de Petunia descendo as escadas. Escutou a porta dos fundos abrindo com um leve rangido e a próxima coisa que sentiu foram as duas mãos de Petunia segurando o seu rosto.
- O que aconteceu com você? – ela perguntou, apavorada, tirando o cabelo molhado que caía sobre os olhos do rapaz.
- Comensais – Sirius se limitou a responder. Não era, inteiramente, uma mentira. Seu próprio pai havia se revelado um Comensal.
- Consegue se apoiar em mim? – Petunia perguntou, enlaçando seu braço na cintura do maroto e ouvindo ele dar um suspiro de dor. No entanto, Sirius fez força e se colocou de pé, passando seu braço por cima dos ombros da garota. Ela lentamente o conduziu até a porta dos fundos e os dois entraram.
Sirius nunca havia entrado na casa das Evans e seu estado só permitiu que ele percebesse que a porta dava acesso à cozinha. Foi com bastante dificuldade que ele subiu as escadas apoiado em Petunia e chegou ao quarto da garota, que o conduziu até sua cama. Ela não parecia se importar com o fato de que ele estava completamente molhado e sujo de terra e sangue, e ele ficou surpreso com isso. Talvez Petunia fosse muito diferente de Lily nesse quesito, já que a ruiva sempre reclamava da bagunça e da sujeira que os marotos deixavam na Sala Comunal. Essa lembrança fez com que o garoto esboçasse um sorriso.
A cama de Petunia era macia e o quarto inteiro estava aquecido, o que ele não entendia como acontecia numa casa trouxa que não tinha sequer uma lareira. Sentiu Petunia ajeitando os travesseiros atrás de si para que ele deitasse e as mãos quentes da garota em seu rosto afastando seu cabelo.
A garota examinava seu rosto de perto e ele sentia sua respiração, o que, em outras circunstâncias, concederia-lhe uma brecha para um flerte. Sentiu as mãos da garota percorrendo seu tórax e levantando-lhe a blusa. Quando Petunia tocou o local onde o Sr Black o havia atingido com um dos feitiços, arfou de dor.
- Calma docinho – Sirius disse, sorrindo e tentando dar uma piscadela – não estou em condições disso agora, espere eu me recuperar um pouco.
Petunia desferiu um tapa muito leve na orelha do maroto.
- Auch! – ele respondeu.
- Você é mesmo um cachorro! – ela se queixou - Eu preciso chamar Lily, fique aqui e não se mexa – a garota avisou, com um dedo em riste contra o rosto dele.
- Mandona – ele respondeu, recostando-se nos travesseiros e fechando os olhos enquanto a loira saía do quarto e fechava a porta.
Não demorou muito para que escutasse as duas garotas entrando no quarto, e então abriu os olhos.
- Por Merlin! – exclamou Lily – o que aconteceu com você?
- Ele disse que foi atacado por Comensais – Petunia explicou, preocupada – consegue dar um jeito nele com sua mágica?
- Deixe-me ver – Lily respondeu, arregaçando as mangas e se agachando ao lado de Sirius.
Petunia permaneceu de pé ao lado da cama enquanto Lily pacientemente curava os machucados de Sirius com sua varinha. Sirius, por sua vez, não tirava os olhos da loira. Observava, enquanto sentia as dores desaparecendo de seu corpo e seu rosto desinchava, Petunia atentamente acompanhar Lily fazendo os feitiços de cura.
Passou, também, a observar os detalhes do quarto da garota. Não era muito grande, mas com certeza era o quarto mais aconchegante que ele já estivera. As paredes eram cobertas com um papel de parede claro com diminutas flores em tons de azul, rosa e amarelo. A cama ficava contra uma parede e parecia um pouco maior do que as camas de solteiro de Hogwarts, mas menor que sua cama de casal no Largo Grimmauld, e havia somente uma mesa de cabeceira de cor lilás com um pequeno abajur e alguns livros empilhados. Ao lado da porta havia um grande roupeiro antigo branco, com um espelho oval na porta central. Viu que os puxadores eram coloridos, mas não conseguiu distinguir a cor de longe. Aos pés da cama havia uma bonita escrivaninha em madeira crua, com um abajur um pouco gozado ligado. Aquele abajur poderia facilmente pertencer à avó de James de tão antigo. A luz que saía dele, no entanto, era quente e reconfortante, e iluminava toda a lateral do rosto de Petunia. Sirius se perguntou se ela sempre fora assim tão bonita e ele nunca percebera ou se ele só estava comovido pelo fato de ela não ter pensado duas vezes antes de lhe ajudar. Não, provavelmente Petunia sempre foi muito bonita e ele só não havia se dignado a prestar atenção na moça direito.
Lily havia acabado os feitiços curativos e recomendou que Sirius tomasse um banho, já que estava completamente sujo, e garantiu que, se ele jogasse as roupas para fora do banheiro, ela conseguiria limpá-las enquanto ele se lavava. Sirius assentiu e caminhou sem dificuldades até o banheiro no corredor. Estranhou que os pais das garotas não houvessem acordado com o barulho, ao que Petunia – parecendo ler seus pensamentos – disse que Lily havia encantado a porta do quarto dos pais para que não ouvissem nada.
Sirius saiu do banho se sentindo um novo homem, e ouviu algumas batidas fracas na porta. Não estava completamente curado, Lily não conseguiu tirar os hematomas dele, mas havia limpado todo o sangue e remendado suas costelas e perna. Abriu uma fresta e somente a mão de Petunia segurando suas roupas surgiu. Ele viu, pelo reflexo do espelho da pia, que a garota olhava para o lado, a fim de não conseguir enxergá-lo pelo mesmo reflexo, e isso tirou um sorriso de seu rosto.
Quando saiu do banheiro, voltou ao quarto de Petunia e encontrou as duas irmãs conversando. Lily sentada na cama e a loira junto à escrivaninha. As duas pararam de falar quando ele entrou.
- Mandei uma coruja a James – Lily disse – mas acho prudente que você fique aqui, já que não pode aparatar. Aliás, como chegou até aqui?
- Eu aparatei – ele deu de ombros.
- Mas você é menor de idade! – Lily exclamou, levantando uma sobrancelha – o Ministério vai saber que você infringiu a lei.
- Ruiva, eu estava fugindo da morte, o Ministério é a menor das minhas preocupações – ele respondeu, impaciente.
- Tem razão – ela deu o braço a torcer – de qualquer forma, avisei James, mas disse que você ficaria até amanhã conosco. Ele já pode aparatar, mas não conseguiria te levar junto dele. Ele é péssimo.
Sirius jurou ver um sorriso triunfante no rosto da ruiva, e se permitiu sorrir.
- No entanto, como mamãe e papai não sabem que você está aqui, e eu prefiro que continue assim – ela continuou – você vai ter que se virar com Petunia.
- O quê? – Petunia perguntou, sem entender.
- Sirius não vai dormir no meu quarto – Lily bufou – eu conheço bem os marotos e já gastei minha cota de encantamentos hoje. Ele vai dormir aqui no seu quarto.
- Eu posso sair daqui e ir caminhando até James, se minha presença é tão repugnante – Sirius respondeu, sentindo-se desconfortável.
- Não é isso... eu... – Lily parecia arrependida – eu estava querendo provocar Petunia e fui estúpida. Você não pode sair no meio da noite andando.
Sirius estava visualmente ofendido, com os braços cruzados parado junto ao batente da porta, e só voltou a olhar para Petunia quando Lily cruzou seu caminho e deixou o quarto, fechando a porta atrás de si.
- Ela não quis te ofender, estava só tentando me provocar – Petunia explicou, levantando-se da cadeira e caminhando até o roupeiro, de onde tirou alguns lençóis e almofadas.
- E por que ela te provocaria com isso? – ele perguntou, ainda emburrado, mas estendendo os braços para que Petunia lhe alcançasse os objetos.
- Porque quando eu te conheci, eu disse que havia te achado bonito – Petunia respondeu como se aquilo não fosse nada, e o garoto sentiu um solavanco no peito. Ela sequer corou, e isso despertou curiosidade em Sirius. Petunia o achava bonito, estava dizendo isso com todas as letras, enquanto olhava em seus olhos e sequer corava. O que essa garota tinha? Até Marlene corava!
- Então ela basicamente quis deixar explícito que você dormiria comigo no meu quarto – ela continuou, dando de ombros, ao perceber que o maroto não havia se manifestado – sua fama o precede.
- Eu não tenho tanta fama assim – ele resmungou, sabendo que era verdade. Ele tinha uma fama.
Os dois arrumaram, em silêncio, uma cama para Sirius no chão, ao lado da cama de Petunia. Quando se deitaram, Sirius sentiu uma enorme necessidade em saber mais da garota, e passou a lhe fazer o mais variado tipo de perguntas. Ficaram quase a noite inteira conversando e dando gargalhadas. Petunia estava com o rosto apoiado em uma das mãos, o cotovelo sobre a cama, de forma a conseguir enxergar Sirius deitado no chão. Cada vez que ela sorria, ele percebia o quanto ela era bonita, e se deixava fantasiar de como seria namorar uma menina trouxa. Não dar uns amassos, namorar mesmo, fazer parte da vida de alguém sem mágica.
- Achei que você era um ano mais velha que Lily – ele comentou.
- Eu sou, mas funciona diferente nas escolas trouxas – ela explicou – vocês saem entre os 17 e os 18 anos, nós saímos com 18 ou 19, dependendo de que mês você nasceu.
- E depois?
- Depois vamos para a faculdade – ela respondeu, e viu o olhar indagador dele sob a luz do abajur – é onde continuamos nossos estudos. É uma espécie de escola, mas você escolhe o que gostaria de estudar. Por exemplo: eu quero estudar literatura, porque quero ser escritora.
- É por isso que os seus dedos estão sempre sujos de tinta? – ele perguntou, lembrando-se que a viu rabiscando em um caderno com os dedos sujos no dia em que a conheceu, e que ela também tinha os dedos manchados no festival. Ela riu.
- Eu tenho bastante azar com canetas – ela explicou sorrindo – todas acabam vazando a tinta e sujando meus cadernos e minha mão.
- Então você quer ser escritora... O que gosta de escrever? – ele perguntou. Sentia-se muito curioso em saber sobre ela. Nunca compartilhou seus interesses ou escutou os interesses das garotas com quem se relacionava. Por Merlin, não sabia nem a cor favorita de Marlene, que era a sua garota mais recorrente e amiga.
- Mistério, romance, às vezes fantasia.
- Fantasias eróticas, senhorita Evans? – ele brincou, e ela deu uma gargalhada.
- Não, seu bobo – ela respondeu, e colocou uma mecha de cabelo atrás da própria orelha, e ele sorriu para ela. Merlin, ela é linda, ele pensou – para pessoas como eu, magia, feitiços e criaturas místicas são fantasia. Eu sempre gostei de ler os livros que Lily trazia para casa, são fascinantes. Dragões, duendes, lobisomens, e até mesmo bruxos... É tudo tão mágico que é... fantasia.
- Entendi – ele sorriu, e se apoiou com os cotovelos na cama improvisada, a fim de conseguir enxergá-la melhor. Ela não pareceu se incomodar com a proximidade dos rostos dos dois – essa faculdade fica aqui em Londres?
- Não, a faculdade que quero cursar fica nos Estados Unidos – ela respondeu – se eu conseguir entrar, ano que vem é meu último ano aqui.
Uma estranha sensação de tristeza o assolou quando ela contou isso. Antes que pudesse pensar, as palavras só saíram de seus lábios:
- Minha vida é sempre tão injusta – ele sussurrou.
- Por quê?
- Eu recém te conheci e sinto que já estou prestes a te perder – ele respondeu. Pela primeira vez, viu Petunia corar violentamente. Ou poderia ser só o efeito da luz do abajur, ele não saberia dizer.
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Resposta aos reviews:
Lorenzo: Que alegria seu review! Fico muito feliz que minha fic esteja tendo uma boa aceitação. Trabalhar com a Petunia não é fácil depois de sete livros pintando ela como um monstro, né? Obrigada demais pelos comentários! Ah, e espero não ter decepcionado você por continuar a narrativa no passado. Pretendo continuar assim até chegar ao momento em que parou no presente.
