VII EU MENTI

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"Ela vem em cores em todos os lugares

Ela penteia o cabelo

Ela é como um arcoíris

Colorindo o ar

Em todos os lugares

Ela chega colorindo"

(She's a rainbow – The Rolling Stones)

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Sirius acordou com um pulo. Lily havia entrado como um furacão no quarto de Petunia, mas a loira, ao contrário do garoto, apenas bocejou e se sentou preguiçosamente na cama. Provavelmente ela já estava acostumada com entradas bruscas por parte da irmã mais nova.

- James está aqui – a ruiva anunciou.

- Que horas são? – Petunia perguntou, esfregando os olhos. Se não fosse o estado de alerta em que Lily o havia deixado com o susto, ele provavelmente esboçaria um sorriso à loira.

- Seis e meia – a garota respondeu, e franziu o cenho para a careta da irmã – é melhor que ele tenha vindo tão cedo, papai e mamãe seguem dormindo. Assim mantemos o sigilo sobre a... situação. Vou esperar vocês dois lá fora.

Assim como Lily entrou, também saiu, deixando os dois sozinhos novamente no quarto.

- Parece que já é hora de você ir embora – Petunia comentou bocejando, e Sirius a encarou. Ela tinha o cabelo bagunçado, os olhos semicerrados de sono, a camiseta amassada e o sorriso mais encantador que o garoto já tinha visto. Ele não conseguiu evitar sorrir antes de se levantar da cama improvisada no chão. Ela repetiu o gesto dele e, somente ali na claridade da manhã que ele percebia que ela trajava somente uma camiseta branca muito larga e surrada do The Runaways, e um short rosa claro. Como ele não havia percebido que ela era o tipo dele? Não o tipo de garotas que ele gostava de ficar, mas O tipo, a garota ideal. Sentiu-se subitamente nervoso.

Quando chegaram ao pátio, tanto Petunia quanto Sirius ficaram surpresos de ver que James não estava sozinho. Parados ao seu lado, conversando gentilmente com Lily, estavam Fleamont e Euphemia Potter. A loira percebeu que se tratava dos pais do maroto graças à grande semelhança da mãe e do filho. A Sra. Potter tinha os cabelos muito escuros e olhos claros, mas seus traços eram os mesmos do garoto. Ela era uma mulher bonita, apesar da idade. O Sr. Potter era ainda mais velho que a esposa, e ostentava grandes olhos castanhos e cabelos igualmente castanhos. Os dois pareciam pessoas carinhosas e honestas.

Era óbvio que James havia juntado dois mais dois. A história de que Sirius fora atacado por comensais jamais colaria com ele. Ele havia visto o amigo deixar a estação com Walburga e Orion. Sirius enfiou as mãos no bolso na calça e caminhou envergonhado até os dois adultos. Euphemia pegou o rosto do garoto, que era bem mais alto do que ela, entre as mãos.

- Oh, querido – a mulher disse – James me contou o que aconteceu.

- Você foi bastante corajoso, filho – Fleamont declarou, apoiando uma mão no ombro de Sirius – Sinto muito que tenha passado pelo que passou por tomar o lado certo.

- Você sabe que é bem-vindo conosco – a Sra. Potter falou.

Sirius estava de costas para Petunia, então a garota não conseguiu enxergar o rubor que tomou todo o rosto do rapaz. No entanto, não conseguiu deixar de sorrir para a cena. Ficava comovida e feliz de saber que o garoto tinha o apoio do amigo. Perguntou-se, internamente, se Sirius não tinha família. Por que os Potter estavam aqui para buscá-lo e não os seus próprios pais? A garota também percebeu que James estava bastante sério, desfazendo a expressão somente para sorrir timidamente à Lily, que corou feito um tomate e abraçou os próprios braços.

- Você fez um fantástico trabalho com os feitiços, Lily – Euphemia comentou, sorrindo à ruiva.

- Obrigada, Sra. Potter. Fiz o melhor que consegui.

Petunia percebeu que James inflou o peito, como se estivesse orgulhoso da garota. A loira abafou uma risada. Ela apostava todas as suas economias que a irmã e o garoto ficariam juntos até o próximo Natal, era só a ruiva parar de fingir que não sentia nada pelo rapaz.

- E você deve ser Petunia – o Sr. Potter comentou, fazendo com que a loira pulasse com um susto por ter sido percebida entre os bruxos. O homem se aproximou dela e lhe estendeu a mão. Quando ela aceitou o cumprimento, ele gentilmente colocou sua outra mão sobre a dela – James nos contou que foi você quem encontrou Sirius. É um grande alívio, e uma grande alegria, saber que nossos filhos têm pessoas tão leais ao lado – o homem não soltou a mão dela, mas se virou ao restante das pessoas – Os tempos estão mudando, garotos. E devemos nos preparar e nos unir. Todos nós.

Petunia encontrou os olhos cinzas de Sirius focados em si, e se sentiu desconfortável. Sentia que o Sr. Potter estava compartilhando um presságio de que algo estava errado, e o olhar do garoto, somado ao estado em que havia chegado na noite anterior, pareciam corroborar o mau-agouro. A Sra. Potter anunciou que eles deveriam ir embora, e agradeceu novamente à Lily e Petunia. James se despediu dela e da irmã com um abraço, ficando visivelmente nervoso ao envolver a ruiva em seus braços. Ao contrário do que a própria Petunia esperava, a garota correspondeu ao abraço. Sirius se dirigiu até a loira e parou na frente dela, as mãos remexendo nervosamente dentro dos bolsos da calça.

- Obrigado por tudo, Túnia – ele disse, e era a primeira vez que usava o apelido que Lily havia inventado – eu diria que deveríamos repetir, mas honestamente gostaria de pular a parte em que apanho quase até a morte.

Ela riu do comentário ele, e ele sentiu os ombros menos tensos. Estendeu a mão para a garota com um sorriso no rosto, e sentiu um calafrio quando ela aceitou o cumprimento. A mão dela era tão quente que, em contraste com as mãos sempre frias dele, fizeram com que um choque percorresse os dedos do garoto.

- Fico realmente feliz de ver que agora você está bem – ela comentou – Só... não seja um estranho.

- Não serei – ele piscou para ela e, relutantemente, soltou a mão da garota antes de se afastar. James segurou a mão de Fleamont, enquanto Sirius tomou a mão de Euphemia.

- Você vai me contar absolutamente tudo – James sussurrou contra o ouvido do amigo antes que os quatro desaparecessem do quintal dos Evans.

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Já havia se passado três semanas desde que Sirius chegou na Mansão dos Potter. Sirius contou o que havia acontecido logo no primeiro dia, e o Sr. Potter ficou visivelmente alarmado quando o garoto contou sobre a marca de serpente no antebraço de Orion. No dia seguinte, o Sr. e a Sra. Potter passaram o dia em uma reunião com um grupo de pessoas que Sirius nunca havia visto na vida. James já havia perguntado milhares de vezes todos os detalhes do ocorrido, mas parecia disposto a encontrar alguma peça faltante do quebra-cabeça imaginário que havia criado.

- Eu só não entendi por que você aparatou lá e não aqui – James repetiu, pela décima vez, o mesmo comentário, deitado na cama enquanto jogava um pomo de ouro para cima e o apanhava assim que ele abria as asas.

- Porque a primeira coisa que eu vi foi o moletom dela, Pontas! Pronto, está aí a sua resposta – Sirius finalmente admitiu, e James se sentou desentendido, esquecendo o pomo de ouro no ar.

- Moletom da Lily? Por que você estava com o moletom dela? Ela te deu o moletom? Você tem algo com ela?

- Não, galhudo, o moletom da Petunia – ele suspirou – lembra que ela me emprestou no dia do festival? Eu esqueci de devolver e quando Orion começou a me atingir, a primeira coisa que eu vi foi o moletom dela. Então, sei lá, pensei nisso e aparatei.

- Ah...

James relaxou os ombros e pareceu aliviado. Deu de ombros, e isso incomodou Sirius mais do que se o amigo tivesse feito piadas ou o bombardeado com perguntas sugestivas. O moreno bufou e se escorou na poltrona ao lado da janela, encarando a vista do dia ensolarado. Tentava, mas não conseguia parar de pensar na garota. A garota que, em um primeiro momento, pareceu tão comum. Que, em um segundo momento, deixou-o intrigado e que, logo depois, acolheu-o dentro de seu próprio quarto sem ao menos fazer perguntas. Fazia dias que pensava nela e em Lily. Afinal, a ruiva havia passado por cima de toda a implicância que tinha com ele para lhe curar os ferimentos. Queria visitá-las, agradecer novamente por terem lhe ajudado, mas não sabia como. Não podia aparatar e, como Lily bem disse, James era péssimo em aparatação, e não queria correr o risco de acabar estrunchado. Já havia sido ferido o suficiente. Mas Godric, como queria vê-las! As duas o haviam acolhido no momento mais difícil de toda a sua vida, e sequer o bombardearam de perguntas. Não entendia se elas queriam preservar sua intimidade ou se simplesmente as duas compraram a desculpa dos Comensais. Lily já estava bem assustada desde o assassinato dos McDonald, mas e Petunia? Bom, ela provavelmente já sabia da existência dos comensais e Voldemort, já que ela e Lily eram muito próximas. Saiu de seus devaneios quando o elfo doméstico dos Potter bateu à porta, chamando-os para almoçar.

Quando chegaram à sala de refeições da Mansão, Euphemia e Fleamont já estavam sentados a mesa. Enquanto o homem parecia concentrado enquanto lia o Profeta Diário, a mulher mexia os dedos inquietamente sobre a mesa. Assim que avistou os dois garotos, a Sra. Potter se levantou da mesa.

- Eles chegaram, querido – a mulher anunciou ao marido, que largou o jornal ao lado do prato e se colocou em pé também.

- Algo aconteceu? – James perguntou desconfiado, arqueando uma sobrancelha e bagunçando os cabelos já bagunçados.

- Por favor, sentem-se meninos, temos algo a falar com os dois – Fleamont anunciou, apontando para os assentos na mesa. Os dois garotos obedeceram. Sirius se sentou em frente a Sra. Potter e ao lado de James. O Sr. Potter estava na ponta da enorme mesa.

- Sirius querido – Euphemia começou – entramos em contato com o Ministério a respeito da sua situação e recebemos uma resposta hoje. Veja bem, nós dois – ela apontou hesitantemente para si e para o marido – tentamos obter a sua guarda.

- Vo-vocês querem me adotar? – Sirius questionou, já sentindo algumas lágrimas se formarem no canto de seus olhos. Ele sabia que os Potter sempre o acolheram como a um filho, mas nunca imaginou que era, de fato, tão querido e amado por eles a esse ponto. Nunca em sua vida ninguém havia feito questão de tê-lo, então se sentiu encabulado e emocionado. Lembrava que Walburga nunca fora uma mãe muito carinhosa, e Orion sempre fora distante e controlador. Tudo piorou quando ele foi escolhido para a Grifinória. Sirius nunca ouviu palavras de carinho ou conforto dentro de casa, pelo contrário, seus pais sempre deixaram bastante claro o quanto ele era uma decepção. Apostaram todas as suas fichas em Regulus e, assim que o mais novo entrou para a Sonserina, o maroto se viu cada vez mais distante do irmão, que parecia contente em seguir os mesmos passos da família. Sirius era um estranho dentro de sua própria casa, era indesejado, era um fardo. Encontrou família junto a James, Remus e Peter. E agora os Potter. Eles o queriam como filho!

- É claro que queremos, querido – a mulher respondeu, estendendo os braços ao centro da mesa e apanhando a mão do garoto entre as suas. James sorriu à cena – você é nosso filho e nós amamos você, você sabe disso.

Sirius levou sua mão livre até o canto dos olhos e secou as lágrimas que começavam a escorrer. James deu dois tapinhas no ombro do amigo e o abraçou de lado. O garoto de cabelos espetados era habituado a uma família amorosa, mas sabia que o amigo não teve a mesma sorte e sabia exatamente o quão importante era para Sirius ouvir que era bem-quisto.

- No entanto, hoje fomos informados pelo Ministério que não podemos adotá-lo, já que você já é maior de idade.

- Mas eu tenho dezesseis – o maroto respondeu, completamente desentendido. Ele havia feito dezesseis anos em novembro, ainda faltavam meses para que fizesse dezessete.

- Aparentemente minha querida prima, sua mãe, tirou-o da tapeçaria da família – Euphemia explicou, e conseguiu escutar Sirius resmungar "é claro que a vaca tirou", mas resolveu fingir que não havia escutado o palavrão – isso quer dizer que, como deserdado, você está emancipado. Eu sinto muito, querido.

- Isso é... Essa é a melhor notícia de todas! – Sirius exclamou, pulando da cadeira. O Sr. e Sra. Potter trocaram olhares desentendidos, mas James abriu um sorriso. O garoto entendia o motivo da felicidade do amigo.

- Queremos que saiba que não ficará desamparado, você é parte dessa família – Fleamont pontuou – você não ficará à míngua pela deserdação dos Black.

- Sr. Potter, eu não me importo de ter que trabalhar para lhe pagar cada centavo gasto comigo – Sirius respondeu, tentando se manter sério – eu não quero o dinheiro deles. Eu finalmente estou livre! Vocês sempre foram a minha família, não eles.

- Não seja bobo, rapaz, você não tem que pagar absolutamente nada - Fleamont respondeu, não refreando o sorriso orgulhoso, e Euphemia limpou as próprias lágrimas.

James e Sirius, depois da notícia, tiveram dificuldades de almoçar civilizadamente. Os dois queriam gritar, pular, correr e voar em suas vassouras. Sirius estava livre de sua família! E, de quebra, estava emancipado! Poderia trabalhar, poderia largar a escola se assim quisesse, poderia comprar uma motocicleta, buscar sua própria casa, poderia aparatar sem ser rastreado! Pensar em aparatar levou involuntariamente seus pensamentos à garota que o havia ajudado. A garota que tomou seus pensamentos desde aquela fatídica noite. E então Sirius tomou uma decisão.

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Lily havia adquirido um novo passatempo nas semanas que se seguiram a ida de Sirius e James: importunar Petunia. A ruiva parecia disposta a convencer a irmã, de qualquer jeito, de que a loira não poderia ceder ás investidas de Sirius. Já era noite e a ruiva estava deitada na cama da irmã, enquanto a loira rabiscava algo em um caderno sentada junto à escrivaninha.

- Eu mal o conheço! – Petunia se defendeu da provocação da caçula – de onde você está tirando essas ideias?

- Talvez dos olhares que vocês trocaram – Lily debochou – talvez por ter visto vocês dois de mãos dadas no festival...

- Honestamente, Lils, se você tirasse sua cabeça por dois segundos de James, você veria o quão absurdo é tudo o que você está dizendo!

- Eu não tenho minha cabeça em J...Potter!

- Continue mentindo para si mesma – Petunia bufou – você viu o estado que ele chegou, o que queria que eu fizesse? Você é a bruxa aqui, você sabe melhor do que eu o que está acontecendo.

- Eu não estou questionando você ter ajudado ele, Túnia – Lily se sentou na cama e arrastou-se até mais perto da irmã – você fez a coisa certa. Você foi incrível, e agiu exatamente do jeito que você sempre age: com humanidade. Eu sinto muito orgulho de você, sabia? Eu só... eu só me preocupo com você em relação a ele. Sirius não presta, se você visse o jeito que ele deixou a Dorcas ano passado. Não só a Dorcas, todas as garotas com quem ele sai. E são várias, se quer saber.

Petunia largou o lápis com raiva em cima da mesa e encarou a irmã.

- E o que diabos eu tenho a ver com isso? O que diabos isso tem a ver com o que aconteceu?

- Por que ele aparatou aqui e não nos Potter? – Lily rebateu com outra pergunta – Aconteceu algo e você não quer me dizer! Ele quer tentar a sorte com você, Túnia. Eu percebi desde o festival. Isso é o que ele faz, ele vai atrás de garotas do colégio, deixa-as completamente aos pés dele e depois joga fora.

- Eu não estou aos pés dele, Lils. Eu sequer estudo em Hogwarts, eu não sou uma bruxa, então esse seu discurso não faz nenhum sentido.

- É exatamente por isso! – a ruiva exclamou muito alto – você é presa fácil! Ele sabe que não vai precisar conviver com você depois, é muito mais fácil para ele jogar o charme em uma tr...

- Continue – Petunia respondeu, engolindo em seco – uma trouxa? Era isso o que você ia dizer? É isso o que você pensa de mim? Que eu sou uma presa fácil? Que eu sou estúpida? Que o fato de eu não ser especial como você ou como ele me torna alguém irrelevante?

- Túnia... – Lily começou a lacrimejar, sentiu-se muito culpada. Não era, de forma alguma, o que ela estava tentando dizer. Mas ultimamente parecia que a ruiva metia os pés pelas mãos. Não sabia o que estava acontecendo, mas estava sempre dizendo as coisas erradas na hora errada. Sequer teve tempo de terminar a frase, pois Petunia arrastou a cadeira com força contra o chão e se levantou. Caminhou até a porta e a abriu, acenando para que a irmã saísse.

- Você está transferindo o que você sente por James para mim – a loira disse duramente – porque sim, você sente algo por ele. Então faça o favor de resolver isso com você mesma e com ele, e me deixe fora disso.

A ruiva assentiu, limpando as lágrimas, e saiu do quarto da irmã. Petunia fechou a porta com força e se atirou na cama, limpando também as poucas lágrimas que tinha nos olhos. Como Lily podia pensar tão pouco dela? Será que a irmã estava tão cega alimentando a fachada de que odiava James e seus amigos que não conseguia enxergar o que estava logo a sua frente? Por Deus, ela somente comentou que havia achado Sirius bonito, não foi nada demais! A própria Lily já havia dito mais de uma vez que o garoto era muito bonito. Não era como se Petunia estivesse perdidamente apaixonada por um mulherengo. A garota engatinhou até a ponta da cama e esticou o braço para pegar seu caderno e colocar alguns pensamentos no papel, queria clarear a mente. Gostava de escrever como desabafo. Assim que pegou o caderno, levou um susto quando uma pedrinha voou para dentro do quarto e passou raspando em seu nariz.

Meteu a cabeça para fora da janela e o viu. Sirius estava no quintal, com uma mão dentro do bolso, e a outra segurando uma segunda pedrinha. Ao enxergar o rosto dela, ele sorriu e acenou.

- Você quase atingiu o meu rosto! – ela sussurrou, reclamando, e ele cerrou os dentes e sorriu amarelo, arqueando os ombros e murmurando um "me desculpe". Ela sacudiu a cabeça e sussurrou que ele o esperasse ali, que ela iria descer.

Quando deixou seu quarto, a casa inteira já estava escura, à exceção do quarto de Lily. A loira conseguia enxergar a luz amarela do abajur atravessando por baixo da porta. No entanto, nenhum barulho era audível, o que denotava que a irmã havia provavelmente lançado um feitiço silenciador.

Petunia trajava a mesma camiseta surrada e o short do dia anterior, que basicamente era o seu pijama. De pés descalços e andando sutilmente a fim de não fazer a madeira do assoalho ranger, a garota fez seu caminho até o andar de baixo e saiu pela porta dos fundos da cozinha. Sirius sorriu abertamente quando a enxergou, e ela colocou um dedo nos lábios indicando que ele fizesse silêncio. Da mesma forma que havia feito no festival, a garota apanhou o pulso dele e o arrastou para longe da casa, conduzindo-o para a calçada. Quando estavam longe o suficiente, o garoto soltou a risada que havia abafado.

- Você sempre arrasta as pessoas assim? – ele repetiu a pergunta que havia feito anteriormente.

- Só pessoas que aparecem na minha casa no meio da noite – ela respondeu piscando um olho para ele, e, para o descontentamento dele, soltou-lhe o pulso.

Os dois caminhavam lado a lado no meio da rua, ele com as mãos nos bolsos e ela com os braços sacudindo levemente ao lado do próprio corpo. Ele a observava, e ela sabia. Sirius encarava os cabelos loiros e lisos, levemente bagunçados, o short que parecia relativamente novo, em combinação com a camiseta que já estava bem gasta e provavelmente deveria ir para o lixo. Encarou os pés dela e viu que ela estava descalça. Pensou em se oferecer para transfigurar algum objeto em um sapato para ela, mas ela pareceu ler seus pensamentos.

- Eu gosto de andar descalça.

- Você é engraçada – ele comentou, voltando a encarar o rosto dela. Estava completamente alheio ao caminho que faziam. Só conseguia olhar para ela. Ela finalmente virou o rosto para ele.

- Esse é o seu jeito de dizer que sou esquisita ou que sou feia? – ela perguntou, provocando-o.

- Nem alguém cego conseguiria achar você feia – ele respondeu – mas, para ser honesto, você é um pouco esquisita, mas de um jeito bom.

Ela levantou uma sobrancelha para ele, e ele riu. Ela era, definitivamente, esquisita. Mas não por ser, de fato, esquisita, mas por fazê-lo sentir coisas que ele não estava acostumado. Ao mesmo tempo em que era confortável estar na presença dela, o coração dele insistia em bater muito rápido e ele encontrava mais dificuldade que o normal de decidir as palavras para falar com ela. Sentia vontade de simplesmente despejar que queria saber absolutamente tudo sobre ela, que ela poderia se sentir à vontade para falar por dias sem parar, só para que ele tivesse o privilégio de saber do que ela gostava, do que não gostava, do que queria, do que pensava. Sirius percebeu que já não estavam mais tão iluminados pela luz da lua, e tirou a atenção do rosto dela para olhar em volta. Estavam na mesma praça que atravessou com James e Remus no dia em que a conheceu. As altas árvores quase tapavam todo o céu e a vista da rua, e isso dava privacidade aos dois.

- Devo me preocupar por você ter me trazido até aqui? – ele brincou.

- Os vizinhos são abelhudos – ela explicou, dando de ombros, e seguiu andando para dentro do parque entre as árvores.

- E você não tem medo de ficar aqui à noite? É bastante ermo.

- Eu estou com um bruxo! – ela respondeu como se fosse óbvio, e ele soltou uma gargalhada. Ela havia parado em um pedaço iluminado pela luz da lua, e isso a deixava parecendo algum ser místico trouxa. Um anjo, talvez? Ela se aproximou dele e o olhou no rosto – você já não tem mais nenhum machucado, isso é bom.

- Vantagens de se ter mágica – ele deu de ombros, e a observou se sentar junto a um banco de madeira. Seguiu-a e se sentou ao lado dela, agradecendo mentalmente o banco ser pequeno, pois isso o obrigava a ficar próximo da garota sem que fosse estranho. Ela se ajeitou no assento, sentando-se de lado no banco, de pernas cruzadas, de frente para ele. Ele repetiu o gesto e, no fim, os dois ficaram com os joelhos encostando. Ele gostou disso.

- Você não me perguntou o que aconteceu – ele comentou, com a voz baixa. Esse pensamento o acompanhou por dias.

- Eu não sabia se você queria falar sobre isso – ela explicou – ainda mais comigo.

Estranhamente, ele queria falar sobre isso com ela. Não sabia se era por ela ser completamente alheia à sua vida, mas tinha tanta vontade de que ela soubesse sobre si quanto tinha vontade de saber sobre ela. E, considerando que ela o havia ajudado sem fazer perguntas, ela parecia a pessoa mais confiável do mundo.

- Minha família é... complicada – ele suspirou – para dizer o mínimo. Eles sempre foram preconceituosos, com toda essa mania de pureza de sangue. Eu sinceramente achei que fosse bobagem de velho, até... bem, até Voldemort.

- Sua família o apoia? – Petunia perguntou, e Sirius assentiu positivamente – é por isso que o Sr. Potter disse que você tomou o lado certo?

- Sim.

A loira jogou a cabeça para o lado, como se o estivesse analisando. Ele não conseguia decifrar o olhar dela. Petunia era familiarizada com a situação do mundo bruxo, Lily fez questão de desabafar com ela sobre a divisão social da escola, sobre o Ministério começar a interferir na grade curricular, e sobre como a família de Mary fora assassinada por Comensais. Não foi difícil para ela ligar os pontos após saber que Sirius era puro-sangue e que sua família estava ao lado de Voldemort.

- Sirius, foi o seu pai que... que agrediu você? – ela perguntou hesitantemente. Ele assentiu positivamente mais uma vez – isso é horrível! É absurdo! Como ele pôde fazer isso?

- Docinho, ele teria me matado se tivesse a chance – Sirius respondeu, soltando uma risada pelo nariz. Petunia pegou o rosto dele entre as mãos e o virou para os lados, como se procurasse algum machucado. Ele instintivamente colocou suas próprias mãos sobre as dela carinhosamente.

- Que bom que você conseguiu sair ileso... bem, não ileso, mas vivo. Eu não entendo como podem ter feito isso com você – a garota respondeu, tentando tirar as mãos do rosto dele, e ele apertou carinhosamente as mãos dela antes de permitir que encerrasse o singelo toque – como você veio aqui? Achei que menores de idade não podiam usar magia.

- Pronta para uma notícia engraçada? – ele perguntou, arqueando uma sobrancelha e rindo – aparentemente eu fui deserdado. O que quer dizer que estou magicamente e legalmente emancipado.

- E você está feliz por isso? – ela questionou, também arqueando uma sobrancelha.

- Claro que estou! Posso fazer magia. Vem aqui – ele se levantou do banco e estendeu a mão para ajudá-la a se levantar. Desde quando eu sou um cavalheiro? Ele perguntou mentalmente a si mesmo.

Ela assentiu positivamente e aceitou a mão dele, e deixou que ele a guiasse por dentro das árvores. O garoto olhou para os lados e murmurou algo que ela não entendeu. Em poucos segundos, um fio prateado deixou a ponta da varinha dele e dançou pelo ar em volta dos dois. O feixe de luz foi se tornando espesso e tomando forma, até virar, finalmente, um grande cachorro prateado com orelhas pontuas e focinho comprido. Era como se o cachorro fosse feito da própria luz da lua, e aquilo era a coisa mais linda que Petunia já havia visto em toda a sua vida. O cachorro corria no ar em volta deles dois, deixando um rastro de luz em seu caminho. Ele parecia cutucar Petunia e chamá-la para brincar, e ela não conseguiu refrear o enorme sorriso que se formou em seu rosto.

Sirius observou a garota, de boca aberta, dar uma volta no próprio eixo para seguir o cão-patrono com os olhos, completamente maravilhada pela visão. Ele sorriu ao vê-la tentar acariciar o cachorro, que parecia pedir carinho a ela. Ela ficou surpresa ao perceber que seus dedos não conseguiam tocar o animal, como se ele fosse, de fato, feito de luz. Ela sentia o calor que emanava dele, ouvia o barulho dele cortando o vento, mas não conseguia tocá-lo.

- Isso é lindo – ela exclamou, visivelmente encantada, acompanhando os movimentos do cão – o que é?

- É um patrono – Sirius explicou, ainda observando a interação da garota com seu patrono – ele toma a forma de um animal de acordo com a pessoa que o conjura. É um feitiço de proteção, é como se fosse a materialização das nossas memórias e pensamentos felizes. É algo parecido com o que os trouxas entendem por "alma".

- Eu nunca vi algo tão lindo em toda a minha vida – ela sussurrou, e ele sorriu.

- Achei que não gostasse de cachorros – ele provocou, chegando mais perto dela. Ela quebrou o contato visual com o patrono e o olhou nos olhos. Percebeu que ele tinha olhos quase tão cinzas quanto o prateado do feitiço.

- Eu menti – ela respondeu, sorrindo para ele. Sirius sentiu algo remexendo dentro de seu estômago e uma ânsia inexplicável de ficar mais perto dela. O sorriso dela era tão encantador que os olhos dele involuntariamente foram aos lábios da garota. Ela deu um passo a frente e ficou com o rosto muito perto do dele, o que fez com que ele encarasse novamente os olhos dela. Olhos grandes e azuis, com pupilas dilatadas feito bolitas graças à fraca iluminação do local, ou pelo menos foi isso que ele pensou. Ele queria beijá-la, queria desesperadamente beijá-la, mas tinha medo de avançar. Desde quando ele tinha medo de avançar para um beijo? É só um beijo, certo?

Antes que ele pudesse tomar qualquer atitude, os dois ouviram vozes se aproximando a alguns feixes de lanterna. O patrono de Sirius se dissipou no ar e a garota exclamou "merda" antes de puxá-lo pelo pulso e arrastá-lo para fora do parque. O garoto subiu a mão até conseguir entrelaçar os dedos nos dela e os dois saíram correndo de mãos dadas. Enquanto corriam, ele ficou preocupado com o fato de ela estar de pés descalços e acenou para que ela subisse em sua garupa. Petunia não pensou duas vezes e pulou nas costas do garoto, que saiu correndo com ela. Os dois gargalhavam baixo durante o trajeto, parecia que ele corria por sua vida com ela balançando em suas costas.

Assim que chegaram à frente da casa dos Evans, ela desceu da garupa dele e os dois ficaram frente a frente, ofegantes e com um sorriso bobo no rosto. Ela tinha os pés sujos de terra e ele algumas gotas de suor na testa. Os dois estavam parados em frente ao pequeno portão branco e nenhum dos dois parecia realmente com vontade de se despedir. No entanto, Petunia sabia que Lily estava acordada quando saiu de casa, e provavelmente deve ter notado a ausência da irmã mais velha. Suspirou em derrota.

- Eu devo entrar, Lily deve ter notado que eu saí – ela disse, e ele assentiu positivamente – eu realmente me diverti. Adorei que você me mostrou seu patrono.

- Posso te mostrar outros feitiços em uma próxima oportunidade – ele respondeu rápido. A desculpa de mostrar mais mágica a ela era perfeita para que ele pudesse vê-la mais vezes. Ela sorriu.

- Eu adoraria – ela respondeu num sussurro.

- Eu posso escrever para você? – ele perguntou, sentindo-se nervoso – eu digo... Eu vou estar em Hogwarts e você aqui, então pensei que...

- Eu adoraria isso também – ela sorriu e, num suspiro, afastou-se dele, mas sem nunca quebrar o contato visual. Buscou desajeitadamente com a mão o trinco do portão e o abriu. Após pensar alguns segundos, inclinou-se para a frente e o beijou rapidamente na bochecha – Boa noite, Sirius.

Ele ficou ali parado. Mesmo depois de ela já ter entrado para o pátio da casa, ele ainda sentia o calor de onde ela havia depositado o beijo. Ficou parado feito estátua no lugar, observando-a se dirigir à casa. No entanto, antes que ela chegasse até a varanda, ele a chamou num sussurro alto. Ela virou para trás e ele correu até ela, parando na frente da garota. Tomando coragem, ele a enlaçou pela cintura e grudou os lábios nos dela. Foi somente um beijo casto, sequer abriram os lábios para aprofundar o beijo, mas Sirius sentiu um arrepio percorrendo sua espinha inteira. Assim que separou a boca da dela, sorriu.

- Obrigado – ele sussurrou, sentindo a respiração dela em seu rosto.

- Você já me agradeceu -e ela respondeu, sorrindo sem jeito.

- Obrigado – ele continuou pausadamente, encarando-a no fundo dos olhos dela, como se quisesse enxergar através deles – por ter entrado na minha vida.

- De nada – ela sussurrou de volta, e ele gargalhou baixo. Buscou a boca dela mais uma vez e pousou um singelo beijo nos lábios dela de novo.

- Boa noite, Túnia.

Relutantemente, ele afrouxou o aperto na cintura dela e a observou entrar em casa. Virou as costas e se dirigiu até a calçada, rindo para si mesmo. Estava feliz. Não fazia um mês que sua vida havia virado de cabeça para baixo, e ele estava feliz. Havia apanhado, sido deserdado e teria de lutar contra sua própria família numa guerra que, ele sabia, estava se aproximando. Mas Merlin, ele havia beijado Petunia. Ele estava com os Potter, e havia beijado a garota que tomou todos os seus pensamentos nas últimas semanas. Aparatou na Mansão e suspirou antes de entrar. Sentia borboletas na boca do estômago, e riu ao pensar que era exatamente assim que o amigo devia se sentir em relação a Lily. Sentiu-se bobo, mas também feliz.

Entrou no quarto e ignorou o bombardeio de perguntas do amigo, apenas tirou os sapatos, deitou-se na cama de barriga para cima e passou a encarar o teto sorrindo. Sequer ligou quando James arremessou um travesseiro em seu rosto. Ficou ali repassando mentalmente todos os segundos daquela noite. Lembrando dela agarrando seu pulso, do sorriso dela ao ver seu patrono, da confissão dela de que, na verdade, gostava de cachorros, dos dois correndo de mãos dadas, do som da risada dela e, por fim, do beijo dela. Umedeceu os próprios lábios e percebeu que ainda tinham o gosto dos lábios dela. Sorriu novamente. James desistiu de fazer mais perguntas, decidido a tirar a limpo no dia seguinte, e Sirius dormiu pensando em Petunia.

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Resposta aos reviews:

Gabi: A vida do Sirius é muito difícil, né? Ainda não sei o rumo da história até o fim, mas com certeza quero reservar mais alegrias pra ele, coitado. A Petunia é uma grande guerreira! Ainda vou explicar direitinho como se deu toda a história dela e do Sirius e o porquê de ela ter casado com o verme do Vernon hahahaha. Mas ela é minha xodozinha, eu gosto muito do jeito que tô trabalhando ela. Acho que é bem comum a gente ser mais destemido e livre na juventude e, dependendo do que acontece na vida, a gente ir se fechando. Mas vou dar felicidade pro nosso cristalzinho! Tô demorando a atualizar por bloqueio criativo de escrita, mas o próximo de Howl também já tá na metade. Tô me esforçando pela minha leitora fiel! beijosss

Lorenzo: Espero que esteja gostando da narrativa se dar no passado por enquanto, acho que é interessante saber o que levou a separação deles! Obrigada demais por acompanhar essa história que, eu confesso, tinha bastante receio em postar.

Irina: estou sentindo falta dos seus comentários! Espero que esteja tudo bem e que esteja conseguindo acompanhar a história!