8. O INÍCIO DE ALGO NOVO

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- Túnia, por Merlin, vá devagar! – Lily gritou pela segunda vez enquanto se segurava firmemente pela alça de teto do antigo carro dos Evans.

- Eu não sou uma bruxa, Lily – a loira respondeu, com uma mão no volante e a outra no câmbio manual.

- Então pelo amor de Deus, vá devagar! – a ruiva gritou de volta.

- Não sou cristã também! – Petunia respondeu rindo, parecia se divertir com o desespero da caçula.

Petunia havia tirado a carta de motorista no início do verão, mas os pais das garotas ainda não haviam permitido que ela dirigisse. A Sra. Evans não sabia dirigir e, quando um imprevisto surgiu no trabalho do Sr. Evans, a garota não pensou duas vezes em se oferecer para levar Lily até a estação de trem e, por falta de opção e muito a contragosto, o patriarca estendeu as chaves do antigo Volkswagen vermelho à filha. Era dia 1º de setembro e Lily voltaria para Hogwarts.

Por insistência de Lily, as garotas saíram de casa com boas duas horas de antecedência, a fim de garantir que o trânsito ou a pouca experiência no volante de Petunia atrasasse as duas e, no fim das contas, a decisão se mostrou acertada. Após um longo trajeto em alta velocidade, as duas chegaram ao centro de Londres e pegaram algumas quantas sinaleiras fechadas. E foi em uma delas que Lily resolveu esclarecer o dissabor entre as duas, ocorrido três dias antes.

- Você tem razão – a ruiva comentou, olhando para a irmã.

Petunia estava com os cabelos soltos, vestindo um short jeans e uma camiseta fina e branca, de mangas longas dobradas até os cotovelos. Usava os tênis amarelos manchados que tanto gostava e tinha um pé de cada meia. Ela sempre perdia os pares de meias e costumava dizer que Lily trazia gnomos de Hogwarts dentro da mala e que as pequenas criaturas se divertiam escondendo seus pertences. A loira encarou a irmã com uma sobrancelha levantada.

- Eu... eu acho que sinto algo por James – ela explicou – e acho que você tinha razão ao dizer que eu estava projetando meus sentimentos em você. Por favor me desculpe, Túnia. Eu realmente sinto muito por tudo o que eu disse.

Lily estava verdadeiramente envergonhada. Ela odiava injustiça, e castigava a si mesma sempre que percebia ter sido autora de alguma injustiça. Petunia já havia inclusive esquecido a pequena discussão entre as duas. Não teve tempo de ficar brava, já que um certo moreno apareceu em sua janela poucos minutos após a discussão. A loira sentiu as bochechas quentes, sacudiu a cabeça e soltou o câmbio do carro, levando a mão até o joelho de Lily e o apertando carinhosamente.

- Está tudo bem, Lils, de verdade – a loira assegurou – podemos passar uma borracha nisso.

- Sério? – a ruiva perguntou.

- Claro, eu odeio ficar brigada com você! – Petunia respondeu, levando de volta a mão ao câmbio e arrancando o carro. Lily sorriu e deitou a cabeça no ombro da irmã mais velha.

Não muito tempo depois, as duas finalmente chegaram até a estação de trem, e Petunia conseguiu um bom lugar para estacionar. Lily correu até a entrada da estação e buscou um carrinho enquanto a mais velha lutava contra o malão para tirá-lo do porta-malas. Com tudo ajeitado, as duas rumaram em direção à Plataforma de número 9, e Petunia parou quando chegaram no grande pilar de tijolos entre as plataformas 9 e 10, colocando as mãos nos bolsos e sentindo o pedaço de papel dobrado que havia guardado ali.

- Tem certeza de que não quer vir? – Lily perguntou, apontando com a cabeça para o pilar de tijolos.

- Você sabe que eu tenho medo de não conseguir sair, e acho que vou aproveitar para comer aquele bolinho da cafeteria aqui da estação – Petunia respondeu, dando de ombros. Hesitantemente, a loira enfiou a mão no bolso e retirou o pergaminho dobrado, estendendo-o a irmã – você... você pode entregar isso ao Sirius?

- Sirius? – Lily perguntou, arqueando uma sobrancelha.

- Na noite em que discutimos ele apareceu depois lá em casa – a garota explicou, e se apressou a continuar antes que a irmã conseguisse abrir a boca – ele pediu para me escrever, então aqui está o endereço da casa para mandar a coruja.

- Túnia...

- Por favor por favorzinho? – Petunia pediu com olhos de filhote abandonado, e Lily bufou.

- Tudo bem, eu entrego! Confesso que nem sabia que Black conseguia escrever – a ruiva murmurou mais para si do que para a irmã. Finalmente abrindo um sorriso, encarou a mais velha e estendeu os braços, tomando a garota em um abraço apertado – obrigada por ter me trazido, Túnia. Eu vou sentir sua falta!

- Eu vou sentir sua falta também – Petunia confessou, retribuindo o abraço da irmã – mas logo logo já é Natal!

Com um beijo estalado na bochecha da irmã, Lily se despediu e saiu puxando o carrinho com o malão, parando um último momento para acenar antes de desaparecer pela pilastra entre as plataformas 9 e 10. Petunia guardou a chave do carro no bolso e se dirigiu à cafeteria que costumava comprar bolinhos com os pais sempre que os três se despediam de Lily.

A ruiva não demorou a avistar seu grupo de amigas, e não ficou nada surpresa ao ver que os Marotos estavam ali junto. James ajeitou nervosamente o cabelo ao avistá-la, e Lily se aproximou do grupo com as bochechas quentes. Sirius parecia procurar algo ou alguém atrás da ruiva, e sentiu o sorriso desmanchar em seu rosto ao perceber que a garota estava sozinha.

- Você chegou cedo! – Marlene exclamou, tomando a amiga ruiva num abraço.

- Saímos de casa mais cedo, Túnia me trouxe dirigindo – Lily explicou – lembre-me de nunca mais pegar carona com ela, você tinha que ver a velocidade com que ela costurava os carros na avenida! Eu pensei que morreríamos em um acidente de carro, o que seria uma morte muito estúpida para uma bruxa.

Todos os presentes soltaram gargalhadas, mas Sirius só pareceu absorver o fato de que Petunia tinha trazido Lily até ali, o que significava que ela ainda poderia estar na estação.

- Ela já foi embora? – Sirius perguntou, jogando a jaqueta de couro que usava por cima do ombro. O garoto trajava uma calça jeans e uma camiseta branca lisa. Usava finalmente os tênis pretos trouxas que tanto queria e não podia calçar quando morava com Walburga e Orion – Por que ela não veio até aqui?

Será que ela o estava evitando? Será que ele havia cruzado os limites ao beijá-la? Ou será que alguma outra coisa havia acontecido? Sirius sentia o estômago dando piruetas, a nuca quente e um incômodo lhe subindo a espinha. Ele não estava habituado a esse sentimento.

- Ela está na cafeteria – Lily explicou, com uma sobrancelha levantada ao moreno. Ele parecia completamente alheio aos olhares indagadores que as garotas e os outros marotos trocavam – Túnia tem medo de atravessar a plataforma e depois não conseguir sair, ela acha que trouxas sem a presença de alguém mágico podem ficar presos aqui. A única vez que ela entrou aqui foi no meu primeiro ano, e só porque McGonagall havia nos acompanhado e os levou para o lado de fora.

- Isso é tão bobo! – Marlene exclamou.

- Na verdade, parece um medo justificável – Remus rebateu – se parar para pensar, faz todo o sentido! A plataforma é...

O som das vozes e a conversa dos amigos não estava mais importando a Sirius. O garoto permanecia encarando a entrada da plataforma, sacudindo nervosamente o pé esquerdo contra o chão. Após poucos segundos de reflexão, jogou a jaqueta para James e anunciou que voltaria antes do grupo embarcar.

- Por via das dúvidas, guarde o meu assento na cabine! – Sirius gritou ao longe para James, que segurava sua jaqueta de couro entre os braços, completamente desentendido.

Sirius atravessou a plataforma, saindo diretamente na pilastra entre a plataforma 9 e 10. Quase atingiu uma senhora em cheio, e teve que desviar de vários grupos de pessoas. Ele sabia onde ficava a cafeteria, Remus havia lhe apresentado as maravilhas do café expresso justamente naquele local. Só parou de correr quando avistou os longos cabelos loiros de Petunia. Ela estava no caixa, guardando o troco no bolso e sorrindo simpaticamente à senhorinha que datilografava os números na máquina. A garota segurava uma pequena sacolinha de papel, provavelmente cheia dos bolinhos que tanto gostava. Assim que se virou para a saída, avistou Sirius parado sorrindo para ela. O garoto andou a passos largos até a loira e parou quando apenas poucos centímetros os separavam.

- Oi – ele disse, sentindo-se nervoso.

- Oi – ela respondeu, sorrindo para ele. O sorriso dela pareceu derreter o nervosismo do garoto – você não deveria estar embarcando?

- Não antes de ver você – ele respondeu – achei que você estava me evitando quando vi Lily chegar sozinha.

- Eu tenho medo de atravessar a plataforma e ficar presa – ela respondeu dando de ombros, e ele deu uma gargalhada.

- Sim, Lily disse – ele comentou e engoliu em seco, pensando em como colocar o que queria em palavras – Eu queria... Eu... Droga! Eu queria saber se depois... depois do beijo...

Petunia ficou na ponta dos pés e colou os lábios nos dele. Sirius imediatamente enlaçou a cintura dela com um braço e, com a mão livre, tirou gentilmente a sacola de papel das mãos da garota, conduzindo os braços dela para seu pescoço. Quando a loira entreabriu os lábios, ele não pensou duas vezes em aprofundar o beijo e enroscar sua língua na dela, e o beijo dela era divino. Petunia tinha gosto de menta e chocolate, misturado com algo que era só dela e que ele nunca havia saboreado antes. Sirius lamentou quando ela separou os lábios dos dele em busca de ar.

- Eu também não consegui parar de pensar no beijo, se era isso o que você queria saber – ela sussurrou, e ele sorriu.

- Isso me deixa mais tranquilo – ele confessou, roçando o nariz no dela e fazendo com que a garota sorrisse. Um som de sino pôde ser ouvido, anunciando que algum trem estava prestes a sair. Não era possível escutar daqui o sino do trem de Hogwarts, visto que ele ficava na plataforma oculta aos olhares e ouvidos dos trouxas, mas o som fez com que Petunia e Sirius lembrassem que ele estava ali para embarcar para a escola.

- Você vai perder o trem – ela comentou, mas ele a calou colando os lábios nos dela.

- Só mais um beijo – ele sussurrou contra a boca dela, e ela gargalhou, apertando mais ainda os braços em volta do pescoço dele e se entregando a mais um beijo. Sirius aproveitou o que pôde da boca dela antes de deixá-la quebrar o beijo – agora sim eu posso ir.

- Boa sorte no seu último ano – ela desejou de forma sincera. Era o último ano letivo dos Marotos e de Lily, assim como o último ano de escola de Petunia antes de ela ir para a faculdade. Ela ainda teria que tomar a decisão de ir para os Estados Unidos ou estudar em Oxford, caso fosse aprovada.

- Boa sorte para você também – ele respondeu, acariciando o rosto dela com o polegar – aproveite bem o último ano longe de Sirius Black, querida Túnia – ele debochou dela – porque eu tenho a impressão de que não vai ser tão fácil você conseguir se livrar de mim.

Petunia gargalhou e depositou um singelo beijo nos lábios dele.

- Eu tenho a impressão de que não vou querer me livrar de Sirius Black tão cedo – ela respondeu.

Outro sino pôde ser ouvido e, dessa vez, Sirius finalmente se afastou da garota. Quando estendeu a sacola de volta para ela, a garota disse que ele poderia ficar, que seria um presente de início às aulas. Ele a beijou uma última vez e desapareceu na plataforma entre os números 9 e 10.

Entrou no trem e caminhou toda a sua extensão com um sorriso bobo no rosto. Aquele nervosismo se misturava com a sensação de invencibilidade que tomava o seu corpo, e Sirius se sentia confiante e feliz. Ele estava muito feliz. Ele sabia que se resolvesse conjurar um patrono naquele exato momento, o feitiço seria tão corpóreo que ele poderia verdadeiramente encostar no enorme cão que era projetado de sua varinha. Passou por quinze cabines até finalmente chegar à já clássica cabine dos Marotos, mas seu sorriso morreu quando avistou somente Peter e as garotas. Lembrou-se que, por alguma piada do destino, James era monitor-chefe junto com Lily, e que os dois deveriam estar nos vagões reservados aos monitores. Remus era monitor há três anos, então já estava habituado a fazer o trajeto de ida sem a presença constante do amigo. Mas era diferente não ter James ali, era como se ele estivesse órfão.

Sentou-se emburrado na ponta de um dos bancos, ao lado de Marlene e de frente para Peter. Ouvia as garotas conversando, mas não estava muito interessado no assunto.

- O que é isso? – Peter perguntou, apontando para a sacola.

- Para ser sincero, eu não sei – Sirius confessou, e resolveu abrir a sacola para ver o que ele continha. Avistou quatro muffins de chocolate – são bolinhos. Se quiser eu te dou um, mas você vai ter que dividir com as garotas se elas te pedirem.

- Mas você tem mais de um aí! Por que eu tenho que dividir?

- Porque esses bolinhos são meus, eu ganhei – Sirius explicou, como se fosse óbvio. Segurava a sacola fechada possessivamente contra seu peito – são meus.

- Você sempre foi egoísta – Peter resmungou, cruzando os braços, e Sirius bufou e retirou um bolinho, estendendo para o amigo. Fazia tempos que Sirius já não tinha mais saco para o amigo. Desde o incidente na Casa dos Gritos com o Ranhoso que Peter não perdia uma única oportunidade de lembrá-lo de suas piores características. Impulsivo. Egoísta. Traidor.

Sirius sabia que tinha culpa, e fora muito difícil recuperar a confiança de Remus e James. Mas Peter... Peter simplesmente parecia gostar de vê-lo mal. Pareceu inclusive decepcionado quando os quatro marotos voltaram a ser quatro após Sirius ser perdoado. Sirius foi desperto de seus devaneios pela porta da cabine sendo aberta com brusquidão. Remus, James e Lily estavam ali para passar algum tempo com os amigos antes de começar a ronda pelos vagões. A ruiva esperou que James começasse, com de costume, a chamar a atenção para si mesmo para entregar um pedaço de pergaminho dobrado a Sirius. O garoto arqueou uma sobrancelha.

- Só pegue – Lily falou baixo, lançando ao garoto um olhar significativo – Petunia mandou.

Assim que a segunda letra do nome de Petunia deixou os lábios da ruiva, Sirius se levantou rapidamente do assento e apanhou o pedaço de papel, anunciando aos demais que iria fumar e já voltava. James trocou olhares com Remus e murmurou um "o que diabos?". Somente Lily pareceu perceber que Marlene havia dito que acompanharia Sirius, como já era de costume entre os dois, mas foi deixada completamente de lado e sequer teve tempo de se levantar do assento antes que o maroto sumisse pela porta e a fechasse com força atrás de si.

Sirius atravessou o vagão inteiro até chegar no fundo, onde ficavam os banheiros. Tomou seu já conhecido lugar para filar um cigarro escondido ou dar uns amassos com Marlene e se escorou na parede, abrindo o pergaminho. Era uma carta.

"Oi Sirius,

Você comentou que gostaria de me escrever, então eu resolvi escrever primeiro para que você tivesse o endereço. Até hoje eu não sei como as corujas conseguem chegar ao destino, mas suponho que ter o endereço completo possa ajudar.

Não se sinta obrigado a me responder, eu entendo se você não quiser.

Sirius soltou uma risada pelo nariz, incrédulo por ela pensar que ele tivesse pedido para escrevê-la da boca para fora.

Minhas aulas começam amanhã (estou supondo que você receba essa carta no dia primeiro de setembro) e provavelmente eu ficarei bastante atolada durante o dia com meus exames. Lily disse que vocês também têm exames esse ano. Torço que você se dê bem, se bem que acredito que você seja bom em fazer magia se tomarmos como base o seu Patrono.

Eu penso muito nele. Foi a coisa (ou animal?) mais lindo que já vi na vida! Obrigada por ter confiado em mim e me mostrado ele.

Bom, espero que tenha um bom ano. Esperarei sua resposta, se você quiser. Se não quiser, não tem problema. *Eu entendo se não tiver significado na* Eu entendo.

Com carinho,

P."

Sirius fechou a carta ainda sorrindo, e ficou observando a caligrafia dela. Não era perfeita, na verdade por vezes parecia um pouco confusa, mas era admirável a forma como ela conseguia escrever em linha reta mesmo sem qualquer pauta para guiar o caminho. Sirius tinha essa dificuldade, suas dissertações sempre ficavam na diagonal, e ele sempre tinha pontos descontados por isso. Dobrou o pedaço de pergaminho com cuidado e o guardou no bolso da calça jeans. Pensou em fumar um cigarro, mas, ao perceber que ainda tinha a sacola de muffins na mão, apanhou um e mordeu metade. Tinha gosto de chocolate. O mesmo chocolate que estava na boca de Petunia mais cedo. Sirius decidiu que havia encontrado um novo doce favorito.

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Petunia chegou em casa e demorou mais do que gostaria colocando o carro na garagem. A Sra. Evans estava na cozinha já preparando o jantar, e recebeu a filha com a atenção completamente voltada ao livro de receitas. O Sr. Evans ainda estava no trabalho. Petunia olhou por cima do ombro da mãe e viu que a receita pedia duas xícaras de farinha, então se adiantou e buscou o pote de farinha num armário alto e largou nas mãos da mãe. Petunia era a mais alta das mulheres da casa. Lily era minimamente mais baixa que ela, e as duas claramente herdaram a altura do pai, já que a Sra. Evans era umas boas cabeças mais baixa que as filhas.

A Sra. Evans agradeceu e seguiu mexendo a vasilha enquanto lia murmurando a receita no livro que estava aberto ao seu lado do balcão. A garota suspirou e subiu as escadas em direção ao seu quarto, jogando-se na cama. Ainda tinha um sorriso no rosto. Havia beijado Sirius Black. Havia beijado de verdade, não somente encostado os lábios. E ele havia saído da plataforma em sua procura, isso deveria significar algo. Deveria significar que Lily estava errada. Petunia não tinha grandes esperanças de que viesse a desenvolver um relacionamento com o maroto, mas sabia que tampouco seria só mais uma para ele. Ele apareceu na sua casa, mais de uma vez, ele a beijou, ele a mostrou a magia mais linda que ela já havia visto, e isso deveria significar algo.

Engatinhando na cama, apanhou sua caderneta e uma caneta, e percebeu que em breve precisaria comprar outra, seria uma sorte se as folhas durassem até o Natal. Levantou-se da cama, sentou-se no parapeito da janela e passou a escrever os acontecimentos do dia. Gostava de colocar no papel mesmo os sentimentos mais bobos, os acontecimentos mais singelos e, quando possível, colar algo que a lembrasse daquele dia com fita adesiva. Tinha a ideia de que, daqui uns anos, gostaria de reler os diários e reviver alguns momentos. Colou ao lado da data o ticket do estacionamento. A primeira vez que havia dirigido. O dia em que Sirius a procurou para se despedir com um beijo.

Acabou fechando um pouco os olhos, aproveitando o pôr do sol, quando foi desperta por uma coruja cinzenta com olhos amarelos. A ave era enorme e teria assustado Petunia, não fosse a delicadeza com que o animal bicou seus dedos para avisar que tinha um pergaminho enrolado à capa. A garota desenrolou o pergaminho da pata do animal e pediu para que ele esperasse. A coruja pareceu entender, já que permaneceu junto ao parapeito da janela. A garota correu até o banheiro e encheu uma pequena xícara com água e catou alguns biscoitos em sua mochila. Ofereceu ao animal, que aceitou três biscoitos e bebeu um terço do conteúdo da xícara. A coruja bicou duas vezes os dedos da garota antes de levantar vôo e ir embora. Petunia correu até sua escrivaninha, ligou o abajur e abriu o pergaminho.

"Oi linda,

Essa deve ser a primeira vez em anos que eu escrevo uma carta, e infelizmente não tenho a sua habilidade em manter as linhas retas. Mas se esse é o único jeito que eu tenho de manter contato com você, não vejo outra alternativa que não escrever todos os dias.

Eu gostei dos muffins, acho que são minha sobremesa favorita agora. James e eu já começamos a planejar a primeira pegadinha do ano com os sonserinos, mas não conte para a sua irmã. James é monitor-chefe, então combinamos que eu vou levar a culpa sozinho. Mas não se preocupe! (estou contando com você ficar preocupada comigo. Por favor, fique preocupada comigo, não quero estar fazendo um papelão nessa carta). Como eu dizia: não se preocupe, linda, sua irmã está começando a gostar de mim, então estou confiante de que a detenção não será muito dura.

Eu provavelmente não deveria te dizer e mostrar as cartas que tenho na manga, mas existe um feitiço para remover riscos do papel, sabia? O que quero dizer é que li onde você riscou na carta.

Como você escreveu a carta antes de nos vermos na estação, você com certeza já sabe, mas se ainda tem dúvidas eu posso repetir por escrito: significou muito. Eu não sei o quanto, isso é tudo muito novo e estranho para mim. Mas significou muito, e somente hoje eu parei de pensar nele, porque felizmente você me deu outro beijo para ocupar meus pensamentos a partir de agora.

Espero que você tenha chegado bem.

O mais belo,

S.B."

- Convencido! - Petunia exclamou com uma gargalhada ao fechar o pergaminho e se deitar de barriga para cima na cama, segurando a carta com força contra o peito. O sorriso bobo que tinha no rosto enviava ondas de calor por todo o seu corpo, e ela sentia o coração quase pulando pela boca.

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O semestre correu de maneiras bem distintas para Petunia e para Sirius, ou até mesmo Lily. Enquanto Petunia ocupava os dias indo para as aulas, fazendo oficina de escrita e estudando para os exames e para as admissões das faculdades que desejava, o clima em Hogwarts estava cada dia mais pesado.

Desde o assassinato dos pais de Mary que o grupo de grifinórios sabia que algo não estava certo. Tudo se confirmou quando Sirius fora deserdado e vira a marca negra no braço do pai. Por anos os marotos alimentaram, juntamente aos outros alunos, a falsa sensação de que Hogwarts era o lugar mais seguro do mundo. Agora, no entanto, era evidente que exércitos estavam sendo formados dentro das paredes do castelo.

James ainda era mantido no escuro quanto aos assuntos do estranho grupo que se reunia na Mansão de seus pais, e resolveu criar por conta um grupo de treinamento. Voldemort já estava um passo à frente, já havia arrecadado uma boa porção de sonserinos para o seu lado, então nada mais justo que eles agissem rápido e corressem atrás do prejuízo. Mesmo esgotado pelos exames e pelas monitorias, James dava aulas de duelo com maestria, e já não tinha mais tempo e cabeça para pegadinhas ou criancices. Não foi novidade alguma que essa mudança de atitude acabou por chamar – e muito – a atenção de Lily. Os dois já eram quase inseparáveis. Faziam as monitorias juntos, James morria de medo de deixá-la patrulhar os corredores sozinha à noite, faziam dupla nas matérias que Sirius não atendia com James, e Lily se mostrou uma exemplar aluna de duelo.

Sirius mantinha um olhar atento em Regulus e no grupo de possíveis comensais que ele andava, era o melhor duelista do grupo criado por James, e tinha como únicos momentos de descontração os períodos curtos em que lia as cartas enviadas por Petunia. Ele também escrevia longas cartas, para seu próprio espanto, e percebeu – com certo atraso – que não estava saindo com nenhuma garota, e já estavam em novembro.

Marlene sempre soube que o que eles tinham era casual, mas não conseguiu evitar o choro quando confrontou Sirius no Salão Comunal uma noite e o garoto, parecendo cansado, disse em alto e bom tom que não queria mais nada, que já não queria mais seguir com ela – sendo um relacionamento ou não. A garota subiu as escadas para o dormitório limpando as lágrimas e sequer notou quando Lily a chamou. A ruiva, como a boa amiga que era, correu de volta para o dormitório atrás de Marlene. Sirius se dirigiu aos sofás perto da lareira e se jogou numa poltrona.

- O que diabos foi aquilo? – James perguntou. O garoto estava atirado em um sofá, aproveitando os poucos minutos que tinha de folga entre uma tarefa e outra. Remus estava sentado no chão, com uma pilha de livros e vários pergaminhos espalhados pela mesinha de centro, colocando em dia seus deveres. Peter estava Merlin sabia onde.

- Eu sempre disse que era casual – Sirius explicou, e recebeu olhares reprovadores dos amigos – Marlene é minha amiga! Vocês sabem que ela não era como as outras, eu sempre fui sincero. Ela sabia que era casual.

- E por que você não quer mais se isso é justamente o que você sempre quis: casual? – Remus perguntou. Ele já sabia a resposta, era muito perceptivo. Ele já havia notado o amigo escrevendo longas cartas e silenciando as cortinas da cama antes de abrir as cartas que recebia. Em quase sete anos em Hogwarts, ninguém nunca viu Sirius bater ponto no corujal como naquele semestre.

- Tem coisas mais importantes – ele se limitou a responder. Remus abriu a boca para rebater, mas todos foram interrompidos por uma Lily furiosa que apareceu do completo nada e se colocou à frente de Sirius com as mãos na cintura.

- O que você fez para ela? – Lily perguntou em tom acusatório – Eu não acredito que eu acreditei quando vocês diziam que iam fumar no vagão! Como você pôde fazer isso com ela?

- Fazer o quê, sua maluca? – o garoto se ajeitou na poltrona e revirou os olhos.

- Você sempre faz isso! Primeiro a Dorcas, agora a Marlene – a ruiva continuou acusando furiosamente, e batia o pé freneticamente contra o tapete – Quem vai ser a próxima? Hein? Quem é a próxima na sua lista de conquistas?

- Ninguém – Sirius bufou, massageando as têmporas completamente cansado daquele assunto.

- Eu não acredito, você já deve estar se atracando com alguém um armário de vassouras.

- Eu não estou me atracando com ninguém, Evans.

- Então por que você terminou com Marlene assim? Hein? Ela não é boa o suficiente para você?

- Por Merlin, Evans, não é nada disso! – Sirius aumentou o tom de voz e os outros marotos sabiam que faltava pouco para que ele explodisse. O Black tinha a fama de ser pavio curto.

- ENTÃO-O-QUE-É? – Lily perguntou mais alto, pausadamente e enfatizando cada palavra. Sirius se levantou da poltrona.

- PORQUE EU QUERO A SUA IRMÃ, DROGA! – Ele finalmente gritou, e todos no Salão Comunal se viraram para o grupo, com os olhos arregalados.

- O QUÊ? – James, Remus e Lily perguntaram ao mesmo tempo, completamente chocados. James chegou a se sentar reto no sofá e Remus derrubou o tinteiro no tapete, manchando a barra de suas calças no caminho.

- É isso o que você ouviu, Evans – Sirius baixou o tom de voz, a fim de não chamar mais atenção para si do que já havia chamado – eu não quero mais o que eu e Marlene tínhamos, eu não quero me atracar em armários de vassouras com ninguém, como você diz, eu não quero nenhuma garota dessa escola. Eu quero a sua irmã. Eu quero Petunia.

O próprio Sirius ficou surpreso com as palavras que deixaram seus lábios de maneira tão automática, tão fácil. Nunca fora fácil assim vomitar o que estava sentindo, mas ele o fez. Gritou em alto e bom som que a queria. Sirius Black. Queria uma única garota. Não era à toa que todos ali estavam em choque, ele mesmo estava em choque.

- Vo-você está apaixonado pela Túnia? – Lily perguntou num sussurro, e Sirius ficou vermelho feito um tomate.

- Eu acho que sim... Eu não sei – Sirius respondeu, nervoso – eu gosto dela, gosto dela mais do que esperava gostar. Nós trocamos cartas desde setembro, e eu não consigo parar de pensar em quando nos beijamos...

- Vocês se beijaram? – James perguntou, pulando do sofá – e você não me contou?

- Vocês iriam fazer piada! – Sirius se explicou – e ela é diferente. Ela não é como as outras garotas que eu me envolvi, eu... eu realmente gosto dela, eu a quero.

- Você está apaixonado pela Túnia – Não era uma pergunta. Lily havia afirmado dessa vez. Quando o moreno encontrou os olhos verdes dela, ela já não estava mais brava. Ela sorria amigavelmente para ele. E, como já esperado e inevitável, James sorriu ao vê-la sorrindo – eu sinto muito, Sirius, eu não deveria ter dito o que disse, eu achei que você e Marlene...

- Está tudo bem, Evans – Sirius suspirou aliviado pela discussão ter acabado – eu sei que eu tenho uma certa reputação. Mas eu garanto a você: eu prefiro morrer do que magoar a sua irmã.

Lily assentiu positivamente e deu um passo à frente, jogando os braços em volta do pescoço de Sirius e o abraçando. O garoto não conseguiu evitar a gargalhada quando ela sussurrou "fico feliz por vocês, mas eu juro por Deus Sirius: se você a magoar eu corto o seu pinto fora".

O garoto ficou boa parte daquela noite contando aos amigos sobre como as coisas haviam acontecido entre ele e Petunia. Teve que ficar acordado até tarde, já que James tinha ronda noturna e o ameaçou de morte caso não o esperassem para contar a história. Remus e James pareciam genuinamente felizes pelo amigo ter finalmente encontrado alguém por quem se apaixonar, principalmente James. O garoto não parava de projetar um futuro em que os quatro – ele e Lily, e Sirius e Petunia – fariam jantares juntos e seriam padrinhos de casamento um do outro. Sirius e Remus davam gargalhadas e se divertiam às custas do amigo sonhador e romântico incorrigível. Peter torceu o nariz e o único comentário que fez foi para manifestar a descrença de que Sirius realmente gostava da garota.

- Hey, cara – James sussurrou para Sirius, que estava deitado com as cortinas fechadas. O maroto abriu as cortinas e perguntou o que o Potter queria – como você consegue? Namorar à distância?

- Nós não namoramos – Sirius suspirou – foram só alguns beijos, eu nem sei se ela sente o mesmo. Ela me escreve todos os dias, mas não sei...

- O lado positivo é que, se virar namoro, estamos no último ano – James comentou.

- Eu acho que sim... – Sirius respondeu, ainda olhando para o dossel da própria cama – você tem sorte de ver a Evans todos os dias.

- Por que você diz isso? Eu não tenho nada com Lils! – James respondeu na defensiva, sentando-se na cama – nós não namoramos, só fazemos as rondas juntos...

- Relaxa, cara – o amigo respondeu, mas arqueou uma sobrancelha. Será que James e Lily estavam se atracando em armários de vassoura? – eu só comentei. Eu queria poder ver Petunia todos os dias.

- Eu queria poder ajudar nisso – James respondeu, voltando a deitar na cama. Sirius deu um salto – O quê?

- O espelho! – Sirius exclamou – eu posso vê-la pelo espelho! Você pode me emprestar o seu por uma semana? Eu juro pela funcionalidade do meu pênis que vou te devolver inteiro!

- Nojento – James fez uma careta – Mas okay, eu empresto. Mas só por uma semana, você sabe como os espelhos são úteis, ainda mais agora com nosso grupo.

- Claro! – Sirius abriu um sorriso e passou a vestir um casaco grosso e procurar algo em sua mesa.

- Onde você vai?

- No corujal – ele explicou – vou enviar meu espelho para ela, e então amanhã eu pego o seu para conseguir falar com ela.

- Sirius, são duas da manhã!

- E daí? Nós temos o mapa!

E assim o garoto percorreu o castelo inteiro de madrugada até o corujal, onde escreveu uma longa carta e anexou o pedaço de espelho, com instruções de como usar. Amarrou o pacote na pata de sua coruja e observou o animal levantar vôo e desaparecer pela noite.

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* O editor do fanfiction não permite riscar as palavras, então deixei sublinhado e destacado entre *

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Resposta aos reviews:

Gabi: Eles são muito fofos né? Sirius é aquele cara que não vale nada, mas é muito fiel e dedicado às pessoas que ama. Então imagina o rapaz apaixonado... Fico muito feliz que você esteja gostando! Essa fic aqui está, no momento, sendo mais fácil de escrever do que Howl (até porque ela já estava com o roteiro quase pronto). Obrigada demais pelo seu review s2s2s2s2