9. MAL ENTENDIDO

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03 de novembro de 1977

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Lily acordou mais cedo que o normal e desceu as escadas do dormitório feminino ainda trajando pijamas, e encontrou Remus sozinho, já de uniforme, sentado no sofá em frente à lareira. O rapaz tinha um livro aberto nas mãos e parecia bastante concentrado, o que não o impediu de perceber que a ruiva se aproximava.

- Como está a Marlene? – ele perguntou sem tirar os olhos do livro. Lily não entendia como o garoto sempre parecia estar ciente das pessoas e do ambiente ao seu redor o tempo inteiro, mesmo quando parecia distraído.

- Demorou a dormir, mas eventualmente pegou no sono e não acho que vá acordar a tempo para o café – a ruiva respondeu, sentando-se ao lado de Remus no sofá. O loiro fechou o livro e a encarou.

- Algo está incomodando você? – ele perguntou.

- Você acha que Sirius está realmente apaixonado pela minha irmã? – Lily questionou enquanto mexia nervosamente na ponta de uma mecha de cabelo que havia soltado de seu rabo de cavalo – eu não quero que Túnia sofra.

- Sua irmã é uma garota inteligente, Lily, dê mais crédito a ela – Remus respondeu, dirigindo-lhe um sorriso sincero – e a resposta é: sim. Eu nunca o vi assim. Ele passa horas escrevendo longas cartas para a sua irmã, vai todos os dias no corujal enviá-las e, sempre que recebe alguma resposta, simplesmente nos ignora e se fecha entre as cortinas da cama. Ele não saiu com nenhuma garota desde que o semestre começou e, mesmo que eu esteja me sentindo solidário à Marls, devo confessar que ele foi bastante honesto.

- Ele foi, não foi? – Lily questionou de forma bastante concordante, e suspirou – É uma situação difícil. Marls é minha amiga há seis anos, mas Túnia é minha irmã, sinto-me um pouco mal por estar feliz por uma enquanto a outra sofre.

- De fato você está numa situação delicada, mas não deve se sentir mal – Remus apertou carinhosamente o ombro da amiga, e depois deu uma gargalhada – você realmente não sabia que os dois transavam?

- Aparentemente eu era a única! – Lily respondeu indignada – como eu pude ser tão ingênua? Acreditar que Marlene saía de noite para usar o banheiro fora do quarto porque era mais confortável? Que ela saía da cabine do trem para fumar e voltava com a roupa amassada e Black com a boca inchada?

- Falando no diabo... – Remus gargalhou e apontou para a escada em que um Sirius Black muito apressado descia correndo, ajeitando a gravata de qualquer jeito sobre a gola da camisa amassada. Lily olhou do maroto moreno para o loiro com um olhar indagador, e Remus deu de ombros – ele vai checar se sua irmã já respondeu à carta que ele enviou ontem.

- Oh meu Deus, Sirius Black está realmente apaixonado por Petunia – Lily exclamou dramaticamente – devemos nos preparar, Rem, é o fim do mundo! O céu e a terra vão colapsar, os planetas vão se alinhar e um grande meteoro vai nos atingir!

Os dois gargalharam juntos e Lily anunciou que iria se trocar para o café da manhã e tentar arrastar Marlene para fora da cama. O loiro a acompanhou nas escadas, decidindo por acordar James e Peter para o café também.

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Sirius não conseguiu evitar se sentir miserável quando voltou do corujal com as mãos abanando. Ele sabia que era quase certo que Petunia sequer tivesse lido sua carta ainda, já que ele a enviou às duas da manhã e eram recém sete da manhã. Ela deveria estar recém acordando para assistir às aulas. No entanto, ele estava ansioso pela resposta. Queria que ela confirmasse que eles usariam o espelho à noite para conversar. Queria ver o rosto dela, escutar a voz dela e a risada que ecoava longe. Perguntou-se se ela sabia que era seu aniversário, que ele estava fazendo 17 anos e agora os dois não tinham uma diferença de idade tão grande (ele se sentia um pouco incomodado com o fato de ela já ter 18 anos enquanto ele tinha 16, tinha medo de que ela o considerasse muito imaturo e não quisesse nada com ele).

Quando tomou seu lugar de costume na mesa da Grifinória, o Salão ainda estava bastante vazio. James, Remus e Peter só chegaram quando ele já estava prestes a terminar a própria refeição.

- Hey, Almofadinhas, o gato comeu a sua língua? – Peter provocou, enquanto se servia de ovos mexidos.

- Cães não tem medo de gatos, os ratos é quem deveriam ficar preocupados – Sirius respondeu amargamente, empurrando o próprio prato para o centro da mesa.

- Hey, cara, qual o seu problema? Vai começar a descontar em nós agora? – Remus o repreendeu. Já estava cansado do comportamento de Sirius com Peter desde o incidente da Casa dos Gritos. Para ser justo, Peter não facilitava muito, parecia não ter voltado a confiar inteiramente em Sirius depois do quase-assassinato-premeditado de Snape orquestrado pelo Black. Mas, para seguir justo, Almofadinhas simplesmente não fazia questão alguma de ser agradável com o garoto, o que acabava por justificar o comportamento de Peter.

- É, cara! É seu aniversário! – James exclamou – O que vamos fazer? Bebidas? Jogos? Os dois? Pensei que poderíamos mandar os primeiranistas e segundanistas para a cama mais cedo e lançar um feitiço de trancar a porta, assim teremos todo o Salão Comunal para nós!

- Que seja – Sirius murmurou, e James levantou uma sobrancelha e se atirou sobre a mesa, colocando as costas da mão direita contra a testa de Sirius, chamando a atenção do grupo de Lily, que não estava muito longe.

- Quão quente uma pessoa deve estar para confirmar que está doente? – James perguntou, olhando sob o próprio ombro para Remus, que estava ao seu lado no banco – Com certeza estar muito frio também não é bom sinal né? Almofadinhas parece uma pedra de gelo, acho que está doente. Sim, está doente!

- Cala a boca, galhudo! – Sirius deu um tapa na mão do amigo, que voltou a se sentar no próprio lugar – estou bem! Sim para todas: bebidas, jogos e música. Satisfeito?

James abriu a boca para responder, mas foi interrompido por um pacote caindo entre ele e Sirius na mesa. O moreno reconheceu imediatamente a própria coruja e se atirou para frente para apanhar o pacote. Abriu com pressa sob os olhares curiosos dos amigos, mas, após alguns segundos, resolveu que gostaria de ler a carta sozinho, e se levantou do lugar, prometendo a um James reclamão que o deixaria ler a resposta mais tarde, quando estivessem sozinhos.

Saiu do Salão Principal caminhando a passos largos até chegar aos jardins. Buscou um lugar mais afastado dos outros alunos e se sentou contra uma árvore, abrindo o pacote. Havia uma pequena caixa de papelão envolta por uma fita vermelha, como se fosse um presente. Desfez o laço da fita e encontrou dois muffins de chocolate. Sorriu. Ao fundo do pacote havia uma carta, e ele a apanhou para ler antes de comer os bolinhos.

"Feliz Aniversário, Sirius!

Lily me comentou que estava receosa com a bagunça que vocês poderiam fazer para comemorar o seu aniversário, então é por isso que eu sei da data, caso você esteja se perguntando isso.

Eu recebi a sua carta, mas a sua coruja estava tão cansada que eu fiz uma pequena caminha para que ela descansasse antes de voar novamente hoje de manhã com a resposta, espero que não se importe.

Eu também sinto a sua falta, muito. É tão estranho! Nós nos vimos pessoalmente tão pouco, mas eu sinto que já nos conhecemos há tanto tempo! Corresponder-me com você tem sido a melhor parte do meu dia, e me pego todos os dias desejando que você tenha tido um dia bom.

Eu não sabia quanto peso uma coruja poderia carregar, então peço desculpas por só mandar dois muffins. É um péssimo presente, eu sei! Ao fundo da sacola há um pequeno envelope. É algo que eu achei e pensei que você pudesse gostar tanto quanto eu gostei. É algo bem bobo, então não aumente suas expectativas. Parando para pensar agora, é um péssimo presente também! Eu sou péssima com presentes, Lily é quem costuma ser boa com essas coisas.

Não vejo a hora de que chegue de noite para testar o seu espelho mágico. Confesso que ainda não sei se entendi como funciona, eu só digo o seu nome? Ou espero você me chamar? Acho melhor esperar você me chamar, não é? Enfim, estou ansiosa para finalmente poder conversar com você cara-a-cara (ou o mais próximo disso que conseguimos).

Aproveite o seu dia!

Com amor,

P."

Sirius se demorou um pouco no fim da carta, encarando a pequena palavra: "amor". Sentiu um rebuliço dentro de seu estômago, mas era bom. Enfiou a mão dentro do pacote e dali retirou um pequeno envelope, e quando o abriu seu coração quase saltou pela boca. Era uma foto de um recorte de jornal. Uma foto dele e de Petunia no dia festival. Ele estava sem camisa segurando um cigarro entre os lábios, enquanto ela estava sorrindo para alguém ao seu lado (provavelmente para Lily). O fotógrafo havia tirado a foto bem na hora em que o garoto vestia o moletom que a loira o havia alcançado. Sirius sorriu de orelha a orelha, encarando a Petunia da foto. Os cabelos úmidos e arrepiados, o sorriso encantador, o jeito em que ele mesmo sorria na foto ao lado dela. Merlin, eu estou apaixonado por ela. Como isso era possível? Alguns beijos e cartas e ele estava completamente entregue à uma garota? Sequer haviam passado a noite juntos! Na verdade, haviam. Ele no chão e ela na cama, no dia em que ela o recebeu após a surra que levou de Orion, mas isso não contava. Sequer haviam transado! E ele estava completamente entregue àquela garota. Não tinha mais olhos para ninguém, vivia os dias estudando, treinando duelo, mantendo um olho em Regulus e, em todos os outros momentos, ficava pensando nela. Era ridículo! Era ridículo, e fascinante, e emocionante, e excitante, e... bom. Era bom. Era ótimo. Era o melhor sentimento. Sim, ele estava apaixonado por Petunia Evans, e o mundo que se explodisse se não estivesse preparado para isso!

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Petunia havia passado um dia cansativo. Havia acordado de madrugada com as bicadas da coruja em sua janela e providenciou umas bolachinhas e improvisou uma caminha feita de suas echarpes para que o animal pudesse descansar antes de levar sua resposta. Passou metade de seu dia na escola e o restante em seu curso de escrita. Chegou em casa cansada, mas mesmo assim ajudou a Sra. Evans a preparar a janta. As jantas eram calmas quando Lily estava em Hogwarts, o assunto era menos excitante e Petunia acabava ficando farta de não ter tantas novidades para contar aos pais.

Quando terminou a janta, tomou um bom banho, vestiu suas calças de pijama xadrez e um suéter velho azul, e se sentou na cama com o pedaço de espelho em mãos. Não sabia como ele funcionava, era só chamar o nome dele? Talvez fosse melhor ela esperar que ele a chamasse, já que não sabia se ele estava ocupado, afinal, era aniversário dele. Provavelmente estariam comemorando com uma enorme baderna e fazendo com que Lily perdesse alguns fios de cabelos ruivos. Esse pensamento arrancou uma risada da garota.

Petunia esperou com o espelho em mãos por uma hora e meia, e nada de Sirius a chamar. Seu palpite de que ele estaria comemorando o aniversário estava quase que cem por cento correto. Na verdade, Sirius estava tentando de todas as formas se desvencilhar dos amigos no Salão Comunal para subir ao dormitório, mas estava encontrando dificuldades nisso. Somente após criar um jogo em que todos os amigos perderam e se ocuparam virando seus shots de Whisky de Fogo que ele conseguiu se esgueirar para sua cama, fechar as cortinas do dossel e lançar dois feitiços: um de imperturbabilidade e um para impedir que conseguissem abrir as cortinas. Catou o espelho de Pontas que estava em seu bolso e chamou pelo nome dela.

A imagem do espelho mostrava o teto do quarto da garota, ele sabia porque ele mesmo havia encarado aquele mesmo teto antes de pegar no sono naquela fatídica noite. Ele conseguia escutar a respiração ritmada dela e um ou outro ronco baixo, o que o fez sorrir. Sabia que provavelmente não deveria acordá-la, a garota estava visivelmente cansada. Mas ele precisava falar com ela! Esperou tanto tempo, não seria justo dormir mais essa noite sem vê-la.

- Túnia? – ele sussurrou com a boca contra o espelho. Ouviu um resmung imagem se movimentou até focalizar dois olhos azuis preguiçosos.

- Sirius? – ela perguntou, sentando-se na cama e esfregando os olhos. Merlin, ela era linda! Até com os cabelos bagunçados de ter dormido e os olhos inchados de cansaço.

- Oi linda – ele respondeu com um sorriso – desculpe acordar você, eu queria ter vindo antes.

- Não tem problema – ela assegurou – eu imaginei que vocês estivessem comemorando o seu aniversário. O que me lembra: feliz aniversário! – ela exclamou com um sorriso largo no rosto, e Sirius sentiu um puxão no umbigo.

- Obrigada – ele respondeu de forma sincera – e obrigada pelos presentes, eu amei.

- Eu sou péssima em presentes, você não precisa dizer que gostou para me agradar.

- Eu não estou dizendo para agradar você – ele garantiu – eu amei. Principalmente a foto, carrego ela comigo em meu bolso.

- Você gostou mesmo? – ela perguntou, desconfiada.

- Está brincando? É o melhor presente de todos! – ele exclamou – Sirius Black fotografado por um fotógrafo trouxa, em um festival trouxa, e ao lado da mulher mais bonita de todo o Reino Unido! Não existe presente melhor do que esse.

Petunia deu uma gargalhada.

- A mulher mais bonita do Reino Unido? – ela respondeu rindo – tem certeza de que não precisa limpar a sujeira desse seu espelho?

- Chegue mais perto – ele pediu, e ela obedeceu, centralizando o rosto na imagem ao centro do espelho – Você é linda. Merlin, como eu queria que você estivesse aqui! Isso é com certeza melhor do que as cartas, mas não chega aos pés de ver você pessoalmente! Você jogaria os jogos que inventamos, e com certeza ganharia todos! Remus ficaria puto! E bêbado! Ele é bem competitivo.

- Eu queria estar aí também – ela respondeu, gargalhando do entusiasmo dele – e eu com certeza ganharia todos os jogos! Eu não perco nenhum jogo nunca, Lily não joga mais comigo por isso.

Sirius deu uma gargalhada, de repente se lembrando de algum comentário nesse sentido no dia em que a conheceu. O dia em que não deu muita bola para ela, mas agora que estava apaixonado por ela as memórias daquele dia pareciam vir à sua mente. Sentia-se tão ridículo por ter gastado aquele dia inteiro tentando algo com aquela garota que sequer lembrava o nome. Esse pensamento o levou ao fato de que ele não havia saído com ninguém desde que beijou Petunia pela primeira vez, o que o fez se questionar, inevitavelmente, se ela também não estaria saindo com alguém. A ideia de que ela pudesse estar namorando outra pessoa o atingiu de forma afiada e dolorosa. Deixou o sorriso morrer no rosto.

- Você está bem? – ela perguntou, percebendo que ele havia ficado quieto – Sirius?

- Você... – ele falou, mas acabou engolindo em seco e hesitando. Será que ele queria saber a resposta? Será que a resposta não o machucaria? Bobagem. Era melhor perguntar de uma vez e lidar com as consequências. Aliás, desde quando ele pensava nas consequências? – Você tem saído com alguém? Eu digo... em encontros?

- Você quer saber se estou namorando alguém? – ela rebateu, e ele assentiu positivamente com a cabeça – Não, não estou.

- Não está? – ele perguntou surpreso. Mas a loira não tinha papas na língua, poderia responder e depois simplesmente socar o espelho dentro de uma gaveta até conseguir enviá-lo de volta à Hogwarts.

- Como eu poderia? Você é a única pessoa que eu penso, que eu quero conversar, que eu quero sair em um encontro – ela falou rápido – mas eu entendo se você estiver saindo com alguém, não é como se nós realmente tivéssemos algo, você nunca disse que estávamos... bem... você entendeu! Você está?

Sirius se sentiu tão aliviado que começou a gargalhar, e Petunia arregalou os olhos, sentindo-se uma imbecil. Socou o espelho embaixo de uma almofada e se deitou com a cabeça enfiada no travesseiro. Estúpida, ridícula Petunia Evans! ela se repreendia mentalmente. Sirius ficou alarmado ao ver que o rosto dela havia desaparecido do espelho, e soube na mesma hora que ela havia entendido tudo errado. Ele conseguia escutar a respiração pesada e falhada dela muito próxima, mas não enxergava absolutamente nada.

- Túnia? – ele chamou, batendo com a ponta do dedo no espelho, como se isso fosse causar algum efeito – Túnia, por favor, fala comigo.

Nada. A imagem no espelho seguia escura e desfocada, mas ele conseguiu ouvir uma fungada dela. Godric, ela estava chorando? Ele a havia feito chorar? Remexeu-se nervosamente na cama e bateu com o dedo freneticamente contra o espelho, tentando chamar a atenção dela.

- Túnia, por favor – ele pediu novamente, sentindo um nó na garganta – Por favor fala comigo! Se você não falar comigo eu vou ter que dar um jeito de aparatar aí na sua casa. Túnia?

Sirius conseguiu enxergar a imagem se movimentando e o rosto de Petunia aparecendo. Ela estava deitada de lado na cama, segurando o espelho contra o rosto. Não dava para ver muita coisa, já que ela aparentemente havia apagado a luz do quarto e deixado somente a fraca iluminação do abajur, mas Sirius conseguiu perceber que ela estava com o nariz vermelho.

- Túnia? – ele perguntou, e tinha a voz suave. Ela fungou mais uma vez.

- Me desculpe, isso é ridículo – ela respondeu com a voz embargada, e Sirius ficou alarmado. Segurou o espelho com as duas mãos – eu sou ridícula. Se você puder mandar sua coruja, eu consigo devolver o espelho. Feliz aniversário de novo, aproveite bastante. Tchau, Sirius.

O garoto abriu e fechou a boca várias vezes, mas não teve tempo de responder. Quando percebeu, a ligação havia sido encerrada no momento em que ela se despediu com um "tchau". Ele sacudiu o espelho, enxergando o próprio reflexo, e o cutucou várias vezes, chamando pelo nome dela. Mas nada. A imagem somente mudava de seu próprio reflexo para uma imensa escuridão e nenhum som, e voltava a refletir seu rosto. Atirou o espelho longe e segurou os cabelos com força "Idiota, idiota, idiota!" ele xingava a si mesmo. Respirou fundo três vezes e buscou o espelho de volta, segurando-o entre as duas mãos. Mas a única coisa que enxergava eram os próprios olhos cinzas, completamente marejados e vermelhos.

Petunia, por sua vez, jogou o espelho dentro da gaveta de sua escrivaninha e se jogou em sua cama, limpando as lágrimas que escorriam de seus olhos com as costas das mãos. Sentia-se tão estúpida! Era claro que ele esperava que ela estivesse saindo com alguém, porque ele estava saindo com alguém! O que ela esperava de diferente? Foi apenas um beijo! Alguns, para ser mais exata, e mesmo assim: só uns beijos. Ele nunca havia sequer dito que queria algo com ela, ela que criou todas as expectativas sozinha. Sirius claramente havia gostado dela, senão ele não trocaria tantas cartas com ela. Mas talvez ela tenha entendido tudo errado. Talvez ele a quisesse como uma amiga, talvez ele se sentisse em dívida por ela tê-lo acolhido em um momento difícil.

A própria Lily já havia dito que ele teve algum tipo de envolvimento com aquela colega dela, a Dorcas. E todos eram parte do mesmo grupo de amigos! Provavelmente era a mesma coisa com ela. Os dois se beijaram, foi bom, e eram amigos. Era só isso. E está tudo bem, não está? Então por que o peito dela doía tanto? Por que os olhos dela continuavam produzindo lágrimas sem parar? Por que ela estava tão magoada? Ela já não era mais uma adolescente, tinha dezoito anos, pelo amor de Deus! Deveria estar preocupada em conseguir uma vaga na faculdade, e não sofrendo por um garoto. Era ridículo!

Era ridículo, e doloroso, e triste, e sufocante. Era horrível. Petunia estava com o coração partido, porque ela era apaixonada por Sirius Black. E Sirius Black não correspondia aos seus sentimentos. No fim, o cansaço levou a loira e ela acabou adormecendo aninhada contra as almofadas, com o rosto grudento das lágrimas que escorreram de seus olhos até que ela caísse na inconsciência. Sirius, no entanto, passou a noite em claro sentado no beiral do corujal, retirando o espelho do bolso a cada cinco minutos e conferindo se o rosto que tanto queria ver aparecia ali.

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Petunia acordou muito cedo da manhã com bicadas em sua janela. Mal abriu a janela e retirou o pergaminho da pata do animal e a coruja já buscou o pacote de bolachas em cima de uma estante de livros, de tão habituada que estava ao quarto da garota. A loira se sentou em sua escrivaninha e esfregou os olhos, suspirando. Lembranças da noite anterior assolaram sua mente e ela se perguntou se realmente queria abrir a carta. A curiosidade levou a melhor.

"Túnia, por favor não devolva o espelho.

Eu não sei exatamente o que eu fiz, mas com certeza eu fiz algo para você ficar tão magoada e não querer mais falar comigo.

Por favor, fale comigo! Chame meu nome no espelho, a qualquer horário, a qualquer momento! Por favor não pare de falar comigo!

O que eu tenho que fazer para você falar comigo? Eu faço qualquer coisa! Eu posso fugir da visita à Hogsmeade e ir até a sua casa, eu posso roubar um maldito testrálio e voar até você, eu posso manter o próprio Dumbledore de refém e usar a rede flu dele para chegar até aí! Só me diga o que eu tenho que fazer!

Por favor fale comigo.

S.B."

Petunia ficou encarando a carta por longos minutos antes de decidir abrir a gaveta e retirar dali o espelho. Olhou o próprio reflexo e percebeu que estava um caco. Não podia chamá-lo nesse estado. Guardou o espelho novamente e resolveu tomar um banho para ficar mais decente. Vestiu-se com um suéter grosso vermelho e uma calça jeans simples. Penteou os cabelos molhados e conferiu no espelho da penteadeira que tinha grandes olheiras abaixo dos olhos, provavelmente de tanto chorar, mas que não conseguiria escondê-las. Respirou fundo e pegou o espelhinho na gaveta.

- Sirius? – ela chamou num sussurro, e não precisou chamar uma segunda vez para que ele atendesse ao chamado.

- Túnia? Graças a Merlin! – ele exclamou. Sirius parecia cansado. Usava a mesma roupa do dia anterior e estava em algum lugar que ela não reconheceu. Não parecia ser o mesmo cenário da noite passada.

- Onde você está? – ela perguntou, não sabendo como começar o assunto.

- No corujal – ele respondeu. O garoto quase não piscava, ficava olhando fixamente para o espelho, morrendo de medo de que Petunia terminasse a ligação. A garota assentiu positivamente, mesmo fazendo somente uma vaga ideia do que era um corujal – Me desculpe, Túnia.

- Você não tem por que se desculpar – ela admitiu, envergonhada – Você não fez nada de errado.

- Eu claramente fiz algo errado para você não querer falar comigo! – ele respondeu muito sério.

- Eu só... – Petunia começou a gaguejar – Você não fez nada de errado, eu que fui estúpida, e imatura, e completamente desnecessária. Eu interpretei tudo errado, interpretei isso – ela apontou de si mesma para Sirius através do espelho – de maneira completamente equivocada. Eu não quero perder você... digo... sua amizade...

- O quê? – ele perguntou, juntando as sobrancelhas. Estava com medo da direção que aquela conversa estava indo.

- O que eu quero dizer é que... está tudo bem que você está saindo com outra pessoa... ou outras pessoas... eu não sei – ela seguia gaguejando – Eu criei as expectativas sozinhas, então...

- Túnia – ele a interrompeu, e segurou o espelho entre as duas mãos, encarando-a através do pedaço de vidro espelhado – Eu não estou saindo com ninguém, eu sequer consigo pensar em outra pessoa que não seja você. Os beijos... todos eles... significaram tudo para mim, você entende? Eu não quero outra pessoa, eu quero você.

- Você me que-quer? – ela perguntou.

- Por que você acha que eu escrevo para você todos os dias? Por que você acha que eu lhe enviei o espelho? Porque eu quero ver você! Você realmente acha que eu fui até a sua casa só para agradecer a você? Túnia, eu não consigo parar de pensar em você desde o festival, eu... eu quero você. Merlin, eu queria atravessar esse espelho e beijar você agora mesmo!

- Eu me sinto tão boba! – Petunia respondeu envergonhada, e suspirou levando uma mão até o rosto, batendo na própria testa – eu entendi tudo errado, eu entendi que você esperava que eu estivesse saindo com alguém porque você estava saindo com alguém.

Sirius soltou o ar pelo nariz e abriu um sorriso de canto. Não o sorriso que ele usava para flertar, mas um sorriso sincero.

- Você é boba – ele respondeu – Eu fiquei aliviado ao saber que você não estava com ninguém. Eu não sabia se você retribuía os meus... meus sentimentos. Eu estava tão nervoso que você dissesse que estava com outra pessoa que, quando você disse que não estava com ninguém, eu simplesmente comecei a rir de alívio. Desculpe por ter criado todo esse mal-entendido, minha linda.

- Eu também peço desculpas – ela comentou, sorrindo timidamente – aparentemente nós nos comunicamos melhor por carta do que por esse espelho.

Sirius deu uma gargalhada, e apontou para a imagem no pedaço de espelho.

- Não ouse devolver esse espelho antes do prazo, Srta. Evans – ele acusou de forma divertida – eu não aceito nada menos do que ver o seu rosto por essa semana! Pelo menos consigo aguentar mais esse um mês e meio antes de voltar à Inglaterra e conseguir ver você.

- Eu não vou devolver antes do prazo, prometo – ela respondeu sorrindo – e estou ansiosa para o Natal.

- Descanse bastante até lá, porque durante as duas semanas de feriado minha boca vai grudar na sua como aquele sugador que vocês trouxas usam para desentupir pias – ele brincou, e ela deu uma gargalhada.

- Eu quero saber como você conhece um desentupidor de pias? – ela perguntou.

- Definitivamente não – ele respondeu – você nunca me veria com os mesmos olhos!

Os dois gargalharam e passaram mais de uma hora conversando sobre tudo um pouco. Sirius chegou atrasado para o café e Petunia perdeu o primeiro ônibus, mas nenhum dos dois se importou. O maroto se lavou e vestiu o uniforme, e passou a andar pelos corredores como se todo o cansaço da noite em claro tivesse se esvaído de seu corpo. Seria um dia bom, ou pelo menos era o que ele pensava até avistar Marlene escorada na frente do quadro da Mulher Gorda no início da tarde, esperando por ele.

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Resposta aos reviews:

Gabi: Ai como eu AMO os seus reviews! Fico tão feliz de ver que o casal que é meu xodózinho está conquistando mais pessoas. Confesso que fiquei nervosa de voltar a narrativa ao passado por motivos de: adolescentes hahahahaha. É muito diferente o jeito como adolescentes e adultos reagem a certas coisas, e temi que muita gente pudesse passar a considerar a fic muito bobinha. Mas eu JURO que é necessário passar por isso pra que a gente entenda os personagens já na vida adulta, mais maduros, mais machucados e mais alertas. Confesso que nem era a minha intenção fazer um grande mistério sobre a separação deles, mas fico feliz que inconscientemente eu tenha conseguido prender a atenção dessa forma. Obrigada demais pelas palavras! Amo vc.