XIII. Sufoco
"Boa noite, Shun."
"Boa noite dout... desculpe, pai. Entre!"
"Tudo bem?" Roger pergunta, entrando no pequeno quarto de hotel onde Ikki, Shun e Aiolia estavam instalados.
"Tudo." Shun responde entre sorrisos, abraça o pai e fecha a porta.
Ainda abraçado ao filho, o médico percorre o quarto com os olhos, de forma crítica e pode constatar que aquele apartamento tem apenas dois quartos, cozinha, uma pequena sala de estar conjugada à copa e uma porta fechada, que provavelmente era o único banheiro do lugar. Tudo era muito estreito e apertado, embora alguns móveis e objetos tivessem visivelmente mudado de lugar para possibilitar uma maior liberdade nos movimentos da cadeira de rodas. Cordialmente, o suíço se solta do abraço enquanto imagina o sufoco que o seu querido Ricky devia passar ali e pergunta, tentando disfarçar sua angústia e ansiedade:
"E o Ri... Ikki?"
"Ah! Meu niisan está tomando banho. Nós pensamos que você só viria mais tarde."
"Pois é... o último paciente não veio e por isso saí mais cedo. Como não agüentava esperar, vim direto pra cá e acabei chegando quase uma hora antes do que eu imaginava."
"Fiquei feliz ao vê-lo novamente. Ah! Quer tomar alguma coisa? Sinta-se à vontade."
"Poderei sentir-me à vontade se você parar de me tratar como visita. Sou seu pai, esqueceu?"
"Não, mas..."
"Eu sei, Shun! Eu também estou me sentindo estranho desde a nossa conversa. É tudo tão novo, tão fantástico, tão irreal..."
"É verdade. Somos pai e filho e nem nos conhecemos, mas acho que poderemos ser grandes amigos."
"Claro! Devo confessar que o seu irmão fez um bom trabalho na sua educação. Você é um menino de ouro."
"Meu niisan é muito especial mesmo, mas não foi só ele! Ikki me criou nos meus primeiros 6 anos de vida, mas depois tive outras influências."
"Entendo. Falando em outras influências, onde está o seu amigo?"
"O Aiolia está ajudando o Ikki. Apesar do meu niisan já conseguir tomar banho sozinho, o banheiro desse apartamento é muito apertado e a cadeira não chega ao box. Pra piorar, tem um degrau de uns 15 centímetros para chegar no chuveiro e por isso ele precisa de auxílio..."
"Pra variar, o mundo é de quem está no padrão. Até a altura tem que ser mediana para você conseguir encaixar-se ao mundo. Eu também sofro quando preciso me instalar em hotéis por causa do tamanho das camas, da altura do chuveiro e de outras coisinhas. E isso que eu só tenho 1,92; imagina quem tem mais de 2 metros!"
"Deve ser difícil mesmo.", Shun fala entre sorrisos. "Ser baixinho também tem as suas desvantagens, como ter que usar uma cadeira para alcançar os objetos da prateleira mais alta de uma estante – e olha que eu nem sou tão baixo assim."
"Pode deixar... logo você não precisará mais disso, mas terá que se abaixar pra passar em determinados lugares."
"Ai... é verdade! Espero não crescer muito mais que você..."
Roger e Shun sorriem. Estavam tão distraídos na conversa que nem ouviram o som de passos vindo na direção deles, o que causou um pequeno susto no médico ao ouvir o timbre forte e inconfundível de voz de Ikki, que estava conversando com Aiolia.
"Eu disse que tinha ouvido a campainha..."
"Ok, você acertou. E agora?"
"Já vão começar a discutir?" Shun perguntava em tom rigoroso aos dois que acabavam de chegar e agora fingiam medo do mais novo.
"Ih sujou! Desculpe Shun."
"Você sabe que é brincadeira. Se bem que eu duvido que você tenha coragem de bater no niisan mais bonito que você tem."
"Até que eu descubra um outro niisan, você é o único.", Shun falava fazendo cafuné no irmão e arrancado sorrisos de todos, inclusive de Roger.
"Tinha esquecido!...", Ikki fala batendo comicamente a mão na testa. "Aiolia, Este é o nosso pai, Roger Keller. Pai, esse é o nosso amigo Aiolia."
"Prazer, doutor Keller."
"O prazer é meu. Mas, por favor, me chame de Roger. Doutor fica tão impessoal..."
"Tem razão, senhor Roger."
Todos dirigem-se à sala, onde conversam por um bom tempo. Aos poucos, os quatro sentiam-se cada vez mais próximos e encontravam semelhanças entre a personalidade de Roger e a de Shun. Ikki foi o primeiro a notar que até no jeito de andar os dois pareciam e Aiolia comentou sobre a posição parecida que os dois adotavam ao sentar e a forma alegre e ao mesmo tempo contida que eles faziam as expressões corporais. Num determinado momento, Shun levanta-se avisando que faria a janta e convida o pai para fazer a refeição com eles. Curioso por provar o tempero de seu filho, o médico aceita e passa a conversar com Ikki e Aiolia, que sabiam o quanto Shun detestava receber ajuda na cozinha, pois sabia que, principalmente o grego, só ia para atrapalhar e experimentar o tempero ou, como o mais velho dos Amamiya brincava, só ia para comer antes da hora.
"Falando em comer, você andou engordando..."
"Você está me chamando de gordo? Ah! Agora vai ver quem é o gordo, Fênix."
"Fênix?", estranha Roger.
Ikki e Aiolia se entreolham. O grego sabia que havia falado demais e sentiu o sangue subir, pois não conseguiria enrolar o médico tão facilmente. Poderia inventar ser uma brincadeira por causa do renascimento de Ikki, mas tinha que ser algo bem formulado. Afinal, a Fênix é uma ave mitológica e de muita importância na Grécia, não poderia ser usada para apelidos banais ou chacotas.
O japonês sabia que não poderia esconder esse segredo durante toda a sua vida. Mesmo que Ikki não voltasse a trajar a armadura de Fênix, Shun era o cavaleiro de Andrômeda e teria que proteger a deusa caso surgisse algum oponente. Nessas guerras, nunca sabiam quem ia sobreviver ou não e Roger deveria ter conhecimento dos riscos que o filho corria. Por mais que os segredos sobre o Santuário devessem ficar só entre os cavaleiros, Ikki não achou justo que o médico desconhecesse o futuro incerto de seu irmão e resolveu desabafar.
"Nós somos cavaleiros de Atena. Quer dizer... o Shun e o Aiolia são; eu ainda não sei se poderei voltar a trajar a minha armadura..."
Aiolia olha Ikki um pouco assustado e Roger demonstra não entender ao certo o que aquela afirmação significava. Sem o menor remorso, Fênix revela tudo o que aconteceu na infância deles: falou do orfanato, o treinamento pesado que sofreram, a luta contra ao cavaleiros de prata e ouro e até arrependeu-se de ter tentado matar Shun logo depois de voltar da infernal Ilha da Rainha da Morte. O grego o ajuda a falar e explicar os fatos que envolviam o santuário e o treinamento de cavaleiros. Ao contrário do esperado, Roger alegrou-se por saber que seus filhos lutavam pela justiça, mesmo correndo risco de morte a cada luta e prometeu a si mesmo que faria o impossível para ver Ikki novamente vestindo sua armadura e vencendo novos desafios.
-------------- # XIII # --------------
"A janta já está quase pronta!", Shun avisa da cozinha. "Arrumem a mesa, fazendo o favor?"
"Ok!", Aiolia e Ikki respondiam em coro.
Fênix dirigiu-se à cozinha, enquanto Aiolia trocava a toalha da mesa de jantar. Como de costume, Ikki equilibra uma bandeja retangular de inox, forrada com um guardanapo de pano, entre os braços da cadeira de rodas, deixando apenas as alças para fora e coloca os talheres que seriam usados no canto direito dela. O grego chega e coloca 4 pratos no lado esquerdo e 4 copos no centro da bandeja. Antes do ex-cavaleiro de Fênix voltar à mesa onde fariam a refeição, Aiolia ainda coloca os guardanapos de papel e a caixa de palitos de dente. Ao ver a bandeja cheia, o jovem paraplégico volta à sala tirando uma fina da estreita porta.
Roger acompanha tudo com curiosidade. Ikki logo vai preenchendo a mesa com os objetos que estavam em seu colo e, apesar de verificar a dificuldade com a qual o jovem organizava a mesa, o médico resolveu não mover um único músculo, temendo menosprezar a capacidade do rapaz ou magoar-lhe de alguma forma. Como um buffet ensaiado, assim que Fênix termina de colocar os pratos, copos e talheres, Aiolia vem carregando uma pesada panela, enquanto Shun trazia outra mais leve. Rapidamente a mesa estava devidamente organizada para a refeição e todos já estavam prontos pra começar a refeição.
Durante a refeição, o médico faz diversos elogios à comida, fazendo Shun demonstrar a sua timidez. Ikki e Aiolia ajudam Andrômeda a ficar cada vez mais constrangido e Roger decide proteger o filho, entrando na brincadeira. Num determinado momento, o jovem de cabelos verdes resolve demonstrar a sua força, substituindo a timidez pelas provocações leves. O jantar prossegue alegre e culmina com um delicioso pavê de chocolate como sobremesa. Ao término da sobremesa, Aiolia começa a limpar a mesa, recolhendo todos os objetos.
"Eu gostaria de falar com vocês antes de voltar pra casa."
"Eu cuido da cozinha. Podem conversar com o seu pai..."
"Acho que você não entendeu Aiolia... Você também está incluído na minha conversa."
"Mas senhor Roger..."
"É importante! Eu insisto."
"Vamos deixar a louça pra depois. Se o nosso pai disse que queria, ou melhor, quer conversar contigo, deve ser importante.", Ikki afirma.
"Meu niisan tem razão. Depois nós ajudamos!", Shun diz com um leve sorriso.
"Já que insistem...", Aiolia pára o que estava fazendo e volta a sentar-se.
"Eu estive reparando nesse apartamento que vocês se instalaram. Ele é muito pequeno e apertado... Eu não gostaria de dizer isso, mas é visível o desconforto do Ricky e por isso quero oferecer-lhes uma instalação mais apropriada. Eu conheço um apartamento mobiliado amplo, moderno e à medida pra vocês a 3 quadras da minha casa. Posso pagar um mês de aluguel para que fiquem lá."
"Desculpe, mas não aceito esmolas.", Ikki responde friamente.
"Mas filho..."
"Eu sei que está pensando na minha saúde e confesso ter gostado disso, mas não posso aceitar a sua oferta. Vai ser uma grande despesa e... bem, mesmo estando preso a essa cadeira de rodas, não gosto de ser tratado como um inválido, não admito depender da caridade de ninguém!"
"Ricky, eu não quero lhe dar esmolas. Não aceite essa minha oferta como uma ofensa, por favor!"
"Nissan?"
"Ikki, Ikki! Sempre orgulhoso..."
"Talvez eu esteja errado, mas não quero que sintam pena de mim. Sei quais são as minhas limitações, mas não é por isso que serei menos capaz de fazer as coisas. Apesar de tudo, ainda tenho braços fortes e uma boa inteligência e memória. Sei que, mesmo ficando paraplégico pro resto da vida, não sou um inválido... posso aprender as coisas e dar um rumo à minha vida..."
"Ikki, niisan..." Shun começa a chorar, emocionado pelas palavras do irmão.
"Não posso negar que suas palavras sejam sábias Ricky, mas o que eu estou propondo não é uma esmola... vocês devem pagar mais de 100 libras por dia para ficar nesse hotel, certo?"
"Na verdade, gastamos algo entre 150 e 200 libras.", responde Aiolia.
"Agora pensem quantos dias vocês já ficaram a quanto já gastaram por essa espelunca. Como a consulta será em 7 dias, vocês terão que ficar mais uns 8 dias, pelo menos. Nem é preciso calculadora para saber que vocês gastarão, no mínimo, 1500 libras ou mais. Quantas residências cobram esse valor? Só verdadeiros palacetes... Olha, será vantajoso para os dois lados: ficará perto da minha casa e a despesa de vocês será menor. Para não causar constrangimentos, eu arrumo o negócio e vocês podem pagar da forma que bem entender... E então?"
"Niisan, aceite! Podemos morar perto do nosso pai..."
"Estou aqui por acidente. Decidam o que achar melhor.", Aiolia diz levantando as mãos e demonstrando sua imparcialidade da resposta.
"É um bom negócio, mas preciso conversar com a Saori antes de decidir.", Ikki finalmente responde.
"Bom, decidam logo e me comuniquem depois.", Roger diz mais animado.
"Ok!", responde Ikki, que é acompanhado de Aiolia e Shun logo em seguida.
-------------- # XIII # --------------
"Ralph?"
"Roger! Finalmente resolveu tirar um tempo pros amigos."
"Desculpa, mas você sabe que eu sou viciado em trabalhar e ajudar as pessoas. Se eu pudesse, faria tudo de graça, mas infelizmente não dá!"
"É! Você não muda mesmo. Nem física, nem moralmente... Às vezes parece que toma banho com formol pra evitar o envelhecimento.", Ralph fala de forma divertida e volta a expressar-se seriamente. "Soube que anda fazendo trabalho voluntário, cuidando de pessoas carentes às quartas-feiras. É um gesto muito bonito e que serve de exemplo a muita gente que passa pelo mesmo drama que já passei. Tudo o que sou e o que tenho devo a você que me apoiou moral e financeiramente quando eu mais precisei."
Ralph Schneider era de uma singela família de origem alemã e mal tinha condições para manter-se na faculdade. Com a ajuda de Roger, conseguiu não só se formar em fisioterapia, como montar uma clínica especializada em reabilitação de pessoas portadoras de necessidades especiais – inicialmente em sociedade com o amigo e posteriormente conseguira tornar-se o único dono. Eles se conheceram logo no primeiro ano de faculdade e nunca se separaram, mesmo depois do casamento do alemão.
"Eu sempre soube que você tinha futuro e vejo o belo trabalho que está fazendo com os portadores de deficiência. Estou muito orgulhoso do que se tornou..."
"Obrigado. Mas o que o trouxe aqui? Eu te conheço e sei que não veio só elogiar o meu trabalho."
"Trago um pedido e uma boa notícia."
"Pode falar."
"Sabe aquele seu apartamento mobiliado perto da minha casa que você alugava para estudantes?"
"E como esquecer daquilo? Já me trouxe enormes dores de cabeça... Felizmente estou fechando negócio. Venderei por um preço um pouco abaixo que o valor de mercado, mas é um bom negócio."
"Por favor, desfaça o negócio. Eu preciso desse apartamento."
"Mas eu não posso. Infelizmente o negócio veio numa hora crítica. Eu estava precisando desse dinheiro..."
"Eu pago! Seja qual for o preço, você sabe que eu tenho cacife pra bancar. É só escolher a forma de pagamento... Olha, eu estou disposto a pagar o verdadeiro valor de mercado e ainda lhe dar um bônus. Você escolhe qualquer coisa no valor de até 25 mil libras..."
"Eu não quero abusar de você, mas já que propôs o negócio, aceito. Mas sem bônus, apenas o preço justo! Esse era o seu pedido?"
"Era e agora lhe direi a boa notícia, que o fará entender o propósito dele."
Sem muitos rodeios, Roger desabafa tudo o que lhe acontecera no dia anterior: a descoberta dos filhos, a paralisia de Ikki e as condições que os garotos viviam. O suíço sempre soube que poderia confiar no alemão, que era o único que conhecia todo o seu triste passado.
Ralph por sua vez, apoiou o amigo e prometeu ajudar-lhe de todas as formas possíveis. Pediu para que o amigo enviasse Ikki até sua clínica e prometeu fazer o impossível para que o rapaz gostasse do ambiente – o que ajudaria e muito na reabilitação. Conversando com o amigo, Ralph decidiu ajuda-lo a modificar o apartamento de uma forma imperceptível, que daria uma maior liberdade ao jovem deficiente e ao mesmo tempo não o deixaria constrangido ou revoltado. De forma contagiante e animada, começou a fazer planos que ajudariam os rapazes nessa fase tão difícil que estavam passando e citou vários projetos de sua clínica.
Roger empolgou-se por vários deles e agora torcia para que Ikki resolvesse ficar definitivamente ao seu lado. Claro que iria ajudá-lo e tinha certeza que acharia um meio de reverter o estado de saúde do jovem assim que visse os novos exames, mas queria facilitar a vida do garoto até a cura definitiva.
Logo que pôde o suíço voltou ao apartamento dos filhos e falou sobre a clínica de Ralph, deixando Ikki animado. Principalmente quando soube que seria convidado para participar de um grupo experimental que não só trocaria experiências através de histórias, como também experiências práticas de movimentos que aprendiam sozinhos e facilitavam numa maior qualidade de vida. Também poderia voltar a praticar esportes, saindo da ociosidade e retornando à rotina conturbada e ativa que tinha antes do acidente.
-------------- # XIII # --------------
Depois de 3 longos dias, todos os exames haviam ficado prontos e os rapazes ainda não haviam decidido pela mudança de apartamento. Ikki já tinha ido duas vezes à clínica e confessou ter gostado por sentir-se mais independente e constatar que muitas pessoas passavam pelo mesmo drama que ele estava passando. Não se cansava de refletir e lembrar do primeiro dia, o dia em que as pessoas se apresentaram e contaram as suas histórias.
-------------- # INÍCIO DO FLASHBACK # --------------
Entrou um pouco tenso na sala onde seria feita a primeira reunião do grupo, mas encorajou-se ao perceber que pessoas de todas as idades freqüentavam o lugar, demonstrando força de vontade e tentando um meio de amenizar o sofrimento. Alguns sorriam e pareciam muito alegres, mesmo quando sabia que ficaria eternamente preso a uma cadeira de rodas ou dependente de muletas. Descobriu pessoas que nunca souberam o que era andar, pois nasceram deficientes e nunca tiveram a oportunidade de ficar em pé, sentir a areia quente da praia ou o azulejo frio em dias de inverno sob seus pés. Ouvia os depoimentos de cada pessoa atentamente e comparava ao que estava vivendo.
"Eu perdia a propriocepção.", contava um homem de cabelos grisalhos e aparentemente normal. "Eu sei que é um termo estranho e eu não aparento nenhum tipo de paralisia. Nem sei se o que eu tenho pode ser chamado de paralisia... Na verdade, nem eu sei como classificar o meu problema." O homem deu uma pausa e encarou os outros à sua volta, respirando profundamente antes de continuar. "Apesar de estar me movendo, não tenho nenhum tipo de sensação nos músculos, nas articulações ou tendões. Sei que também tenho uma ligeira perda de outras modalidades sensoriais – como afirmou o meu médico. Ele classificou essa tal de propriocepção como um sexto sentido e explicou que é ela a responsável por monitorar e ajustar a posição e o tono das partes móveis do corpo; que são exatamente o que eu não sinto. Graças a esse sentido podemos nos movimentar e fazer qualquer tipo de coisa de forma automática e inconsciente, mas eu não consigo! Dependo exclusivamente dos meus olhos para fazer toda e qualquer tarefa, pois é como se eu constantemente perdesse meus membros. Se eu não os vejo, não consigo localizar. Chego a sentir como se estivesse desencarnado! É muito estranho... Parece que o que eu tenho é um tipo de polineurite – seja lá o que isso signifique – e não tem cura..."
O homem continuou contando o próprio drama e Ikki sentiu a angústia daquele senhor tão triste e confuso. Ele olhou pros lados e viu um menino de pouco mais de 7 anos inquieto numa cadeira de rodas. Mal o senhor terminara de contar sua história, o garoto ergueu o braço e pediu para falar. Todos o encararam de forma curiosa, esperando pelo relato – que veio de uma forma alegre e debochada.
"Eu queria falar que nunca soube o que era andar... Nasci com defeito de fábrica." – o menino sorri e continua – "Eu tinha vontade de brincar com os outros, mas sei que não posso... Sabe, apesar de tudo, eu tenho amigos muito bons. Eles vêm na minha casa e brincam comigo! Inventam brincadeiras e formas de... como se diz? Ah! Eles fazem de tudo para que eu brinque também. É divertido e por isso nem ligo por ser assim."
Todos o encaram com compaixão e ternura. Independente de estar dizendo consciente ou não, por um momento o garoto foi muito sábio e todos se sentiram tocados com o depoimento. No grupo de 12 pessoas, Ikki logo percebeu que entre os homens e as mulheres, era possível aprender muito. Ouviu depoimentos de 3 jovens confessando que estavam ali por causa de acidente de trânsito – um deles tinha perdido mais que o próprio orgulho numa disputa de racha, perdera o amigo e agora só se locomovia com a ajuda de um andador. Não era a deficiência que o incomodava e sim a culpa pela morte do outro que entrara em seu carro a contra-gosto e sempre o aconselhava a parar com essas loucuras.
"É estranho como mesmo estando certo, respeitando as regras de trânsito, você pode perder tudo!", comentou uma bela moça de 19 anos. Seus cabelos eram castanhos, assim como os olhos que refletiam sua angústia e melancolia. "Se hoje estou aqui, se estou paralítica foi por causa de um bêbado desgraçado! Era noite e eu estava dirigindo o carro onde estava minha família. Sempre fui uma pessoa correta e cuidadosa, mas não vi quando o maldito surgiu na outra pista, num carro escuro, com os faróis apagados. Foi muito rápido e quando vi, já estávamos prensados entre um poste e o carro daquele assassino. Perdi meu pai e minha irmã, minha mãe perdeu a sanidade devido ao desespero e eu fiquei condenada a essa maldita cadeira de rodas pro resto da minha vida!... O mais irônico é que o idiota não sofreu nenhum arranhão. Está preso, mas logo sairá da cadeia e poderá matar e destruir mais vidas...", a jovem ainda queria desabafar mais, queria extravasar toda a sua angústia, mas não conseguiu e começou a chorar compulsivamente, sendo amparada pelo mesmo senhor que afirmava ter perdido a propriocepção.
Ikki foi o último a contar sua história. Não sabia como começar o seu depoimento e tudo o que poderia revelar sobre o que lhe acontecera. Não falaria ser um cavaleiro de Atena, ter sido concebido através de um estupro e nunca admitiria todas as atitudes imperdoáveis do seu verdadeiro pai biológico. Afirmou apenas que não gostaria de falar sobre seu passado, mas contou que fora atropelado por um trem na tentativa de salvar a vida de um menino de 11 anos e a experiência de ter ficado tetraplégico, dependendo da ajuda de seu irmão para tudo. O japonês não mencionou o fato do garoto que salvara ser seu irmão, mas não sentiu-se mentiroso, falso, pois, na época, ele nunca teria desconfiado da identidade de Yuki. Falou da pequena esperança que tinha de voltar a andar com a ajuda de Roger Keller, mas que ao mesmo tempo já estava se preparando para receber a notícia de que ficaria paraplégico para o resto da vida. Recebeu o apoio e um olhar de surpresa de muitos dos que estavam ali. Nunca imaginariam que o rapaz passara por algo tão terrível ao tentar um ato de heroísmo.
-------------- # FIM DO FLASHBACK # --------------
No final daquele dia, Roger apareceu no pequeno e apertado quarto de hotel dos rapazes e pediu para ver os exames. Com boas expectativas, Shun entregou tudo ao pai e os três ficaram decifrando as expressões do médico que analisava insanamente cada chapa, cada pedaço de papel que estava em suas mãos. Num determinado momento, suspirou e jogou tudo na mesa da cozinha – atitude que assustou os rapazes e minou todas as esperanças que eles pudessem ter. Ao perceber isso, o neurocirurgião desculpou-se e tentou consertar o estrago que havia feito.
"Por favor, não tomem conclusões precipitadas. Infelizmente o caso é muito complexo e não sei o que dizer... Preciso de outras opiniões e muita pesquisa antes de dar qualquer diagnóstico. Eu quero um tempo pra pensar, refletir..."
"Entendo!", Ikki respondeu com a voz um pouco embargada pela decepção. "Pode ficar tranqüilo, pois não iremos pressionar. Esperarei a resposta mesmo que isso demore anos, mas não esqueça que ela será definitiva."
O suíço concordou com a cabeça e demonstrou a sua frustração por não poder dar nenhuma resposta positiva ao filho. Sentindo o desespero do pai, Shun o apoiou e convenceu Ikki a aguardar a resposta na Inglaterra, ao lado do pai. Um misto de incerteza, angústia e otimismo invadiu o cavaleiro de Leão que agora já não tinha mais tanta certeza da recuperação do amigo, mas sabia que precisava acreditar em um milagre e fazer o papel da alavanca que o impulsionaria à cura.
CONTINUA
Esse capítulo é de minha inteira responsabilidade. Não foi betado por niguém e, devo confessar que havia perdido a conversa de Roger e parte do trecho onde o Ikki tinha ido à clínica de reabilitação, por isso reescrevi tudo às pressas e não ficou tão bom quanto o original.
Sei que não posso me alongar na conversa, mas ainda preciso desculpar-me com os meus fiéis leitores. Eu entrei em depressão por causa do excesso de trabalhos e provas da faculdade - principalmente pelos baixos resultados que obtive, mesmo estudando muito! Para piorar, as 2 únicas reviews que recebi eram de amigas que eu já sabia a opinião e fiquei um pouco receosa de continuar, pois encarei essa queda de espectadores como algum tipo de falha no meu texto e graças à Madame Verlaine, Pisces Luna, Sinistra Negra,Angel e outras, decidi continuar e, ao contrário do que eu havia dito à tia Vê - como a Madame Verlaine gosta de ser chamada -, eu não alterei os meus planos! Bom, se quiserem saber mais ou ver as respostas das reviews, acessem o site:
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Próximo capítulo: HOPE¹
¹Esperança, em inglês
