XVI. Novos ânimos a Ikki

Haviam-se passado 3 meses desde a cirurgia. Ikki, entretanto, continuava paralítico e sem sinais aparentes de melhoras. Naquele dia, receberiam a visita de Hyoga, Tata e Aldebaran que ficariam em Londres aguardando um vôo para Tóquio. O convite veio de Shun, que queria dar novos ânimos ao irmão. Pelos cálculos do rapaz, as visitas só chegariam após a fisioterapia do mais velho. Entrou sorrindo no quarto do moreno, que estava perante o computador, entretido numa sala de bate-papo enquanto ouvia Iron Maiden em alto volume.

"Ikki, está na hora da sua fisioterapia... Vamos?"

"Não vou hoje!"

"Como assim não vai? Niisan, você sabe o quanto isso..."

"É inútil, me faz sentir pior?... Sei!"

"Não fale assim, Ikki. Você vai ver, logo estará tudo bem... Você vai conseguir passar por tudo isso!", sorri e dirige-se ao armário. "Pegarei uma roupa. Vista-se logo!"

"Droga, Shun, quando vão entender? Quando vão aceitar que sou um inválido, que tudo isso é em vão e estou aleijado pro resto da vida?", pergunta colérico.

Devido à discussão, nenhum dos irmãos pôde ouvir o interfone, que Aiolia atendeu. Eram os visitantes! Tinham chegado mais cedo do que o esperado... O grego logo foi abrir o portão a eles.

"Niisan...", choraminga.

Shun sabia que o irmão estava depressivo por não ver novos resultados. Já haviam feito tudo por ele e tudo conspirava para um fim trágico e triste! Era-lhe lúgubre ver seu irmão deficiente – embora sempre fizesse o impossível para não demonstrar, mas às vezes também se perguntava se não seria mais fácil aceitar o destino, essa nova condição. Já estavam se acostumando àquilo e... Não! Não poderia continuar nessa linha. Tinha que acreditar que nada fora em vão e que ainda veria o mais velho novamente em pé, trajando a armadura de Fênix. Abraçou-o levemente emocionado.

"Não comece a chorar, Shun. Você sabe que é verdade... Eu me submeti àquela maldita cirurgia à toa. Estou confinado a esta cadeira de rodas pra sempre! Se não fosse assim, já teria tido algum sinal, como aconteceu quando comecei a recuperar os movimentos das mãos..."

Tata, Aldebaran e Hyoga já haviam sido informados da discussão e por isso não se assustaram tanto quando chegaram e ouviram Ikki berrando a plenos pulmões. Hyoga fechou os olhos apertadamente, imaginando as condições psicológicas de Shun.

"Sabíamos que seria demorado.", Shun tentava conforma-lo.

"Demorado? Já se passaram 3 meses desde o dia da cirurgia e nada!", esbraveja, empurrando os objetos que estavam sobre a escrivaninha e levando a maioria ao chão. "Acho que já está na hora de se conformar, de aceitar que nunca mais poderei voltar a andar, não é?"

"Enquanto o nosso pai e o doutor Ralph..."

"Nosso? Você quer dizer seu pai! Roger é somente seu pai e não meu.", diz em fúria executando um movimento brusco que o levou ao chão.

"Ikki... Niisan...", Shun estava confuso! Não sabia se o acariciava, ajudava ou lhe dava bronca por duvidar do amor do suíço. Correu até o irmão caído que erguia a cadeira do chão e encarava o objeto com fúria, como se ele fosse o culpado por todas as suas desgraças.

"Deixe-me em paz, Shun!", debatia-se tentando escapar do contato do caçula – como se isso lhe fosse uma ofensa. "Já basta eu não poder correr, extravasar a minha raiva..."

"Mas..."

"Saia daqui!", gritava o moreno, tentando demonstrar que poderia se virar sozinho.

"Como queira...", sai do quarto em prantos, com uma expressão de pesar.

Todos viram Shun correndo desconsolado do quarto do irmão e entrando em seu quarto. Hyoga foi atrás do amigo, numa tentativa de acalmá-lo. Conhecia a sensibilidade de Andrômeda e por isso sabia que o coração dele devia estar em pedaços. Aldebaran conteve-se em sua curiosidade, mas ouviu o desabafo do grego, contando sobre o estado emocional de Ikki. Deu forças ao leonino e esclareceu a situação à confusa Tata. Resolveram que o melhor seria deixar que os ânimos de todos se acalmassem e Aiolia aproveitou para servir um lanche aos visitantes.

Ikki estava certo da irreversibilidade de seu estado. Antes parecia tão fácil!... Agora, depois da cirurgia, tudo era pior, mais doloroso, mais triste... mais real. Nunca teve tanta raiva das pernas, da cadeira, do destino, do mundo e de si mesmo! Novamente sobre seu único meio de locomoção, fitou os membros inertes e trouxe o pé direito perto de seu rosto, olhando-o com uma clara expressão de fúria.

"Por que não se move? Por quê?"

Se pudesse, esmagaria aquilo! Estava revoltado com a teimosia de seu membro, da indiferença de comportamento, mas sabia que não adiantaria. Não poderia ressuscitar um morto! Começou a chorar ao perceber que não poderia mais fazer o que realmente tinha vontade: jogar-se na cama ou sumir no mundo, isolar-se de tudo e de todos. Era um desgraçado, um amaldiçoado pela vida.

Tremulamente aproximou-se da cama, deitou-se ali e abraçou o travesseiro. Desta vez chorava copiosamente numa mistura de sentimentos que nem ele sabia distinguir. Maldita hora que se submetera à cirurgia e adquirira esperança! Se soubesse...

-------------- # XVI # --------------

Haviam-se passado quase 2 horas desde a discussão de Shun e Ikki. Tata insistira em ter uma conversa franca com o ex-cavaleiro de Fênix e todos continuavam na sala. A irmã de Hyoga adquirira os trejeitos de sua família brasileira com origem italiana e por isso gesticulava e falava muito. Às vezes a jovem se empolgava e era preciso que alguém pedisse para que ela diminuísse o volume da voz. Mesmo perante o clima pesado que havia se instaurado no apartamento, a moça conseguia fazer com que todos sorrissem. O único problema era que Aldebaran tinha que fazer as traduções simultâneas – visto que a garota só sabia falar português. Num súbito, de seu jeito alegre, ela saiu do sofá num pulo, como se tivesse levado um choque e pediu para ir ao banheiro. O gesto, que inicialmente assustara Hyoga, logo foi motivo de gargalhadas na sala e Tata saiu do ambiente sorrindo.

Apesar do fato de ser irmã gêmea de Hyoga, a brasileira era muito baixa – tinha menos de 1,60 m de altura – e parecia ser muito mais jovem do que os 14 anos indicados na identidade. Sempre muito simples, a jovem trajava uma calça jeans e uma camiseta larga com estampas coloridas. O cabelo loiro estava preso num rabo de cavalo alto e não havia nenhuma maquiagem no rosto branco, levemente bronzeado. Ela sempre fora muito distraída e um pouco curiosa. Apenas quando saiu do banheiro notou a porta do quarto de Ikki aberta e o viu deitado na cama. Seu semblante estava muito triste e ela não resistiu, adentrou o quarto do rapaz e tocou sua face, expondo-lhe um sorriso meigo, apertando-lhe a mão e afagando seus cabelos escuros.

"Quem é você?", perguntou o japonês.

A menina fez uma expressão clara de que não havia entendido a pergunta e o rapaz, que havia falado em inglês, repetiu a pergunta em grego e japonês. Tata suspirou fundo, soltou um sorriso nervoso e sentiu-se decepcionada por não poder ajudar o rapaz. Voltou-se a mão que ainda segurava e passou a acariciá-la como se passasse alguma espécie de creme ou loção. Sentou-se no chão e passou a observá-lo respeitosamente e Ikki percebeu que a menina não estava dirigindo-lhe um olhar de pena e sim de ternura.

Pensando tratar-se de um sonho, o moreno estendeu a mão livre e tocou o rosto da loira com receio de que aquele anjo desaparecesse com seu contato. Tinha certeza que aquilo era uma ilusão!

Tata sorriu e fechou serenamente os olhos para melhor sentir o toque do japonês.

Ao sentir o calor da pele da menina, Ikki recolheu a mão como se houvesse levado um choque e passou a encará-la com medo. Rapidamente puxou a outra mão e estudou a melhor forma de fugir dali. Elevou seu cosmo numa tentativa inútil de dar nova vida às pernas, sentindo um nó na garganta que o impedia de soltar qualquer espécie de som. Estava com medo! Muito medo... Será que aquele belo anjo era a imagem da morte, que viera buscar-lhe pela sua má criação? Havia desejado tanto isso... pedido e orado para que os deuses lhe dessem a liberdade, mesmo que fosse através da morte!

A jovem percebeu o desespero do rapaz e tocou-lhe nos braços. Sentou na cama, depositando um beijo terno na fronte de Ikki, que havia se assustado ainda mais com o gesto. Tata o abraçou ternamente, tentando proteger-lhe.

"Acalme-se! Não irei machucá-lo...", pedia num timbre doce e suave.

Ikki não entendera a mensagem e nem imaginava a língua que estivesse sendo usada, mas sentiu-se tocado pela suavidade da menina e relaxou. Sentou-se recostado ao respaldar da cama e passou a admirá-la. Era uma lástima que não podia compreendê-la!

Aiolia, Hyoga e Aldebaran haviam corrido ao quarto de Ikki por causa da alteração de cosmo do amigo. Não haviam sentido nenhum cosmo estranho ou agressivo, mas sabiam que algo estava acontecendo. Entraram no quarto e viram Tata ao lado dele, sorrindo encantadoramente.

"Tata? Ikki?", gritava Hyoga, assustado.

"Tata?... Então..." – Só agora o japonês percebia que aquela jovem era a irmã de Hyoga. Sorriu aliviado, tirando um peso de suas costas.

"Sim, essa é a minha irmã.", concluía o russo.

"Que susto ela me deu!", Ikki então contou tudo o que acontecera desde a chegada dela e todos caíram na risada.

Tata arqueou as sobrancelhas, tentando entender a piada e Aldebaran contou tudo. Após entender a reação de Ikki, ela gargalhava da situação. Assim que pôde acalmar-se e voltar à seriedade, a jovem pediu:

"Gostaria de ter uma conversa séria com o Ikki. Queria poder falar em particular com ele, mas como sei que isso não é possível, Aldebaran terá que ficar para executar as traduções... Se os outros não se incomodasse, preferiria que nos deixassem a sós."

Aldebaran traduziu o pedido que prontamente foi atendido por Hyoga e Aiolia. Antes do russo cruzar a porta, entretanto, Ikki perguntou:

"E o Shun? Alguém sabe dele?"

"Está dormindo... Dei um calmante por causa do estado emocional dele.", avisou o russo.

Ikki baixou a cabeça sentindo-se culpado. Assim que se viu com Tata e Aldebaran, o japonês decidiu sair da cama. Com toda a naturalidade que a experiência lhe dava, passou à cadeira de rodas sozinho e passou a fitar a loira com interesse, esperando a reação dela.

"Ikki, sei que está revoltado." – põe a mão no ombro dele – "E entendo isso...", baixa o olhar, fitando o nada. "Pois já passei por um drama semelhante..."

O japonês tenta olhar Aldebaran, ansioso por saber o que ela dissera. A frase tinha sido dita num tom de melancolia e sofrimento – por isso o deixava tão intrigado. O brasileiro traduziu exatamente o que a menina dissera e fez o rapaz sentir um frio na espinha com tal confissão.

"Como assim?" – Coloca a mão direita no queixo de Tata, demonstrando a curiosidade que tal informação havia lhe causado. Ikki puxa levemente a face da menina, forçando-na a encará-lo nos olhos.

"Conte a sua história, Tata, eu traduzirei a ele...", Aldebaran pedia.

A menina sorriu e respondeu com um aceno positivo de cabeça. "Obrigada, Deba.", respondeu virando o rosto para encarar o taurino e voltando-se imediatamente a Ikki.

"Ikki, traduzirei tudo conforme ela disser... Independente de ser em primeira pessoa e no feminino. Digamos que serei a legenda...", afirma Aldebaran.

"Ok."

"Pode começar, Tata."

"Bom, aconteceu quando eu tinha 4 anos e já não lembro de muita coisa...Eu contraí uma doença grave e desconhecida... Acham que é alguma espécie de infecção proveniente do leite de até ser febre aftosa..." – Sorri nervosamente, esperando Aldebaran terminar a tradução. Senta-se na cama, fitando a janela aberta e questionando-se a respeito do que acabara de afirmar. Nunca engolira essa explicação, visto que a febre aftosa só dava em vacas – pelo que sabia. Tinha vergonha de falar esse tipo de coisa, pois já havia sido alvo de brincadeiras estúpidas e gozações até de primos que sabiam dessa história. Além do mais, essas lembranças não lhe eram nada agradáveis. As poucas imagens que lhe vinham à mente sempre causavam muita dor e sofrimento. Era um assunto difícil, mas era a única forma de ajudar o rapaz.

Ikki aproxima-se dela. Não sabia onde a menina queria chegar. Desde quando uma doença pode ser comparada à sua paralisia? Não tinha nada a ver! Pensou em argumentar, mostrar que nada poderia ser comparado à deficiência e encarou-a. Ao olhar nos olhos da jovem, entretanto, conseguiu ver o medo, a tristeza e, ao invés de dizer suas verdades, teve vontade de abraçá-la, mas conseguiu conter-se.

"Sei que aparentemente, isso nada tem a ver contigo." – falava num tom sereno, como se pudesse ler os pensamentos do rapaz. Olhou-o nos olhos e suspirou fundo para tentar criar coragem de continuar a história. Decidiu por narrar tudo num tom mais imparcial, como se aquilo não houvesse acontecido consigo, embora a narrativa continuasse em primeira pessoa.

"Eu comecei a ficar doente, ter náuseas, Vômitos e emagreci, emagreci muito. Cheguei a ter anorexia... Ficava no hospital, com tubos presos aos meus pulsos...", nesse momento sua voz falhou e tornou-se levemente embargada, numa ameaça de choro contido após uma respiração profunda. "Mas não era aquilo que me impedia de sair da cama... e sim a minha fraqueza..." – Seus olhos ficaram enevoados ao reviver o pesadelo que muitas vezes tinha. Soltou uma lágrima, mas conseguiu recompor-se.

"Fiquei de cama por dias, talvez meses, não sei ao certo... Até hoje sonho com o dia que tentei levantar-me e não pude. Era um dia de sol e não tinha uma nuvem no céu... Ouvia os pássaros cantando, algum barulho estranho e queria ver, mas não podia! Não conseguia sair da cama, pois minha cabeça pesava muito... Meu corpo estava fraco e seco... Eu vi! Vi os meus membros em pele e osso. Vi meu corpo esquelético...", fazia gestos exagerados, lembrando-se daquela fase tão difícil – como se estivesse revivendo tudo novamente. "Cheguei ao ponto de não ter força nem para mover meu braço... Definhava a cada dia, a cada segundo..."

As lembranças sempre eram muito difíceis à menina. Tata agora estava lacrimejando, mas não conseguia chorar! Queria poder extravasar aquela angústia através das lágrimas, mas não conseguia.

"Ei, calma...", Ikki pedia, sem tocá-la.

"Tata?" – Aldebaran foi até a jovem e a abraçou. "Acalme-se!...", pedia carinhosamente.

"Não se preocupem... estou bem!", sorri, voltando a ficar séria. A jovem vê os objetos que ainda estavam caídos no chão e alguns sobre a escrivaninha. Calmamente, começa a organizá-lo sobre o móvel enquanto continuava sua história.

"Eu estava morrendo e ninguém achava a cura... Você já passou por algo semelhante quando se acidentou e por isso sabe o quanto é trágica essa situação. Todos querem ajudar, mas ficam de mãos e pés atados.Nem mesmo os médicos, as pessoas em quem confiamos podem ajudar... Ver a sombra da morte, ou no seu caso, da paralisia eterna e..."

Tata leva a mão à boca e deixa-se cair de joelhos, fingindo estar pegando um lápis que caíra sob a escrivaninha. Enquanto Aldebaran terminava a tradução, ela aproveitava para acalmar-se. Depositou todos os objetos que tinha pego sobre a escrivaninha e passou a ordená-los. Um torturante silêncio de 3 minutos fez-se no ambiente. A brasileira virou-se sorrindo, mas com os brilhos das teimosas lágrimas destacando-se em seus olhos.

"Eu não conseguia me mover... Sentia dores aterradoras e via a minha pele esquelética ficar cada dia mais feia, magra.", havia terminado de organizar os objetos e agora encarava os dois. "Um dia percebi que meu corpo era puro pele e osso. Havia virado um verdadeiro monstro!..." – solta um sorriso nervoso e deita-se no chão, observando as nuvens através da janela. "Levaram meus exames aos melhores laboratórios do país, mas meu corpo vencia os antibióticos e doses cada vez mais fortes eram necessárias..."

A voz era cada vez mais fria, mas levemente melancólica devido às duras lembranças de sua infância. Tata levanta-se e senta-se na cama, olhando nos olhos do japonês enquanto continuava a confessar seus piores momentos de infância. "Eu via a minha mãe ao meu lado, os olhos vermelhos pelo choro compulsivo que até hoje me persegue nos meus piores pesadelos. Mas ela não tem culpa... Ela me amava e isso era uma prova, pois fui dada como morta!..."

"Nossa! Que drama..." – comentava Ikki, colocando a mão no ombro da garota.

"Ele achou triste." – Aldebaran traduziu quando a loira o fitou.

"Sim... É muito triste, mas eu estou aqui... Viva e saudável graças a um milagre!" – sorri – "Quando iam mandar meus exames pros Estados Unidos, descobriram a cura... Foi um tratamento chato, demorado, mas que me salvou... Eu tive que fazer fisioterapia para voltar a andar normalmente quando me curei da doença. Também fui obrigada a fazer 1 ano de psicomotricidade no início de minha adolescências por falta de coordenação motora condizente à minha idade.", dá uma pausa, aguardando a tradução. "Mesmo assim, nunca pude voltar ao normal. Sei que não tenho nenhuma deficiência aparente, mas eu nunca pude dançar... Sempre odiei o fato de não conseguir, sempre me rebaixei por ser descoordenada pra certas coisas, por não conseguir seguir o ritmo das músicas... Hoje, entretanto, vejo que isso não me faz menos inteligente, menos capaz... Meu desempenho escolar comprova isso! Na verdade, o que importa é que estou viva, tenho uma família que me ama e, mesmo não sendo perfeita, posso progredir e fazer algo de útil à sociedade e, quem sabe à minha família brasileira..." – sorri por fim, apertando a mão de Ikki.

"Você tem razão... Mas não é fácil! Ser dependente...", fala, cabisbaixo.

"Eu sei que não. Isso magoa, meche com o orgulho... Sabe, vou te contar mais dois segredinhos: o primeiro é que, além desse meu histórico desse drama no passado, ainda sofro com um desvio de 1 grau ao fim da coluna que faz com que eu sinta dores horríveis ao ficar muito tempo sentada. Por isso eu não paro num mesmo lugar...", sorri ao levantar-se de forma serelepe e ficar de joelhos ao lado do japonês, acariciando as coxas do rapaz. "O segundo é que conversei com uma senhora sábia antes de vir... Ela è descendente de negros e índios e conhece a natureza. É famosa pelos seus medicamentos naturais e falei sobre você..."

"S-sobre mim? E o que ela disse?"

"Deu um ungüento pr'eu trazer... O mesmo que me ajudou quando fiquei 3 meses de cama. Vou pegar, já volto."

"Ok!"

A menina sai e volta com um pote transparente, cheio de uma pasta esverdeada. Caminhou até ikki e levantou a calça que ele estava trajando até a altura do joelho.

"O segredo é a direção... Você sempre tem que passar esse creme assim.", passa a mão na canela dele, na direção tornozelo-joelho. "É sempre pra cima..."

"Entendi. Obrigado!..."

"Não foi nada.", sorri. "Alguma pergunta, alguma dúvida?"

"Quanto tempo tenho que ficar com isso?"

"Como você deve ter percebido, ele fica invisível em contato com a pele, por isso recomendo que passe depois do banho, quando suas pernas já estiverem enxutas e não mexa mais... Esqueça que passou o creme, pois quanto mais você ficar com ele, mais rápido será o efeito."

"Pode deixar... prometo passar todos os dias e ficar 24 horas com ele."

"Agora sorria e procure o seu irmão... Ele estava tão triste que teve que tomar calmante..."

"Eu soube... O Hyoga me disse.", suspira fundo e a encara com uma expressão de tristeza. "Às vezes acho que ele sofre mais do que eu..."

"O importante é que você não perca a esperança. Sei que é um rapaz bondoso e vai se recuperar logo." – afirma pondo a mão no ombro dele.

Ikki sorri, acenando afirmativamente com a cabeça e após despedir-se parte à procura de Shun. Aldebaran olha a jovem com ternura e admiração.

"Eu não sabia que você tinha passado por isso..."

"Tirando as sessões de fisioterapia, o resto é a mais pura verdade."

"Haha! E que pasta é aquela?"

"Não fará mal... Foi uma amiga da minha mãe quem fez. Ajuda na circulação sanguínea e é muito usada para drenagem linfática..."

"Você o enganou?"

"Não. Em nenhum momento prometi que ele voltaria a andar, mas será bom na circulação sanguínea dele e será útil caso a paralisia seja psicológica."

"Você é uma figura...", diz entre sorrisos.

A moça sorri largamente, apresentando um leve rubor nas maçãs do rosto. Olhando pro alto, ela pergunta: "Vamos voltar à sala?"

"Vamos." – diz bagunçando os cabelos dela.

Os dois voltam à sala. Aldebaran aproveita para tomar água e Tata fica ao lado do irmão, mesmo sem conseguir comunicar-se com ele.

-------------- # XVI # --------------

A porta do quarto de Shun estava fechada. Ikki bate levemente.

"Shun, abre a porta!..."

"Ta aberta...", responde choramingando, com a voz torpe pelo calmante.

Ikki abre a porta e adentra o quarto, aproximando-se da cama.

"Shun, desculpe a minha atitude de hoje. Eu não queria brigar contigo..." – toca o braço do irmão, uma das únicas parte que conseguia alcançar.

Andrômeda estava deitado na cama, na transversal. A pose cansada, as mãos tocando o lado direito do colchão, próximos ao respaldar, enquanto os pés tocavam o lado esquerdo. Ikki estava exatamente do lado direito, tentando fitar o rosto de Shun, que escondia-se do mais velho.

"Ei... Não fique assim!... Sei que errei, de novo, mas me perdoe."

"Niisan?"

"Tentarei me controlar, serei menos impulsivo, agressivo..."

"Estou com medo!...", diz sentando-se na cama, ao centro do colchão, abraçado aos joelhos

"Eu também, Shun. Eu também... Venha, me dê um abraço." – abre os braços.

"Ikki, niisan!", Shun engatinha até ele. "Meu niisan...", declara, emocionado, abraçando o outro.

"Não estou sendo um bom irmão, me desculpe!"

"Eu entendo e fico muito feliz por essa sua atitude, iniciativa. Nós vamos vencer essa batalha! Não esqueça que é a Fênix que ressurge das cinzas, o grande cavaleiro que consegue sempre se superar..."

"É, mas devo agradecer à Tata. Ela conseguiu conseguiu fazer com que eu enxergasse que a minha paralisia não é o fim... e sim o começo! Ela me deu novas esperanças..."

"Que bom, niisan! Você sabe que sempre estarei ao seu lado...", comemora sentando-se no colo de Ikki, o abraçando e beijando como um filho pequeno beija seu pai.

"Ei, calma! Assim você me derruba...", reclama entre sorrisos.

Shun sorri e olha no olho de Ikki. "Estava com saudades desse seu sorriso." – afagava os cabelos do moreno.

"Tenho saudades de quando você penteava o meu cabelo... Eu podia sentir a sua energia, o seu carinho, afeto..."

"Não seja por isso!", pula do colo de Ikki e volta a ficar em pé. Pega uma escova e volta, dedicando-se a pentear os cabelos do irmão como fazia, nos tempos em que o mais velho ainda não tinha controle suficiente dos braços e mãos.

"Eu sei que isso não é desculpa, Shun, mas o problema sou eu... Estou cansado de tudo isso! Quando olho para essas malditas pernas mortas...", agarra as coxas com força os olhos fortemente cerrados. "Sinto-me um fraco, um incompetente... É como se eu lutasse e perdesse... Nem você e nem o Aiolia nunca me cobraram – nem me cobrariam, mas sinto que não faço o meu melhor. quando olho o Roger, um clima de frustração toma conta de mim, pois ele deu tudo de si e eu...", baixa os olhos, enevoados pelas lágrimas.

Shun pára de pentear Ikki e senta-se no colo dele, olhando nos olhos do irmão e segurando a mão direita, deixando que toda a sua honestidade, confiança, força e energia transparecessem diante do mais velho.

"Você está fazendo o melhor, niisan. Eu estou de prova de seu esforço...", com toda a sua serenidade, Shun narrava todos os progressos, a dedicação que o irmão tinha para com a fisioterapia, as tentativas frustradas – ou não – de desenvolvimento físico e mental. Sempre o acalmava com gestos, confortando-o entre seus braços. "Eu entendo que este momento seja difícil, mas também sabíamos que a cura não seria garantida...", afasta o tronco e toma o rosto do irmão entre seus dedos, fazendo Ikki encará-lo nos olhos. "Eu ainda acredito nela... Tenho certeza que o verei novamente em pé, trajando a armadura de Fênix, mas se não der, não desanime e pense que nada foi em vão... Lembre-se que o nosso pai sempre terá orgulho do grande Ricky."

O moreno deixou que seu tronco tombasse para frente, e sua cabeça se apoiasse no ombro do caçula. As lágrimas do moreno escorriam fartamente pela sua pele bronzeada, molhando a roupa do jovem Andrômeda. Ikki soluçava e tremia de medo, tristeza, angústia, mas também sentia-se feliz pelos últimos acontecimentos. Nunca estivera tão próximo de uma vida normal, de uma família! A ironia do destino era imensamente cruel! Justo quando estava fraco, entrevado numa cadeira de rodas, pudera, finalmente, sentir o poder do amor. O ex-cavaleiro sentia seus cabelos sendo acariciados e deixou-se relaxar com a carícia enquanto pensava em seu futuro, analisava seu passado e tentava arrumar seu presente. Adormeceu lembrando de sua vida e do que estava por vir.

CONTINUA


Nota: Gente! Desculpem, mas eu não consegui ler o capítulo por dausa do depoimento da Tata! Para quem não sabe, este é um caso real, que aconteceu comigo. Foi exatamente como o relatado... Bom, se houver algum erro, desculpem-me! Ah eu gostaria de pedir outro favor. Vote num dos temas pro capítulo 17:

1) "Mini-resumo" de tudo o que aconteceu até a batalha das 12 casas

2) Encontro de Ikki e June numa loja de CDs. O leonino apareceria andando de muletas.

Desde já, agradeço a compreensão. NÃO ESQUEÇAM OS REVIEWS! XD

Beijos.