Sei que devo pedir desculpas pela demora, mas o excesso de provas e trabalhos da faculdade não me deixava terminar o capítulo. Devo agradecer à Pices Luna, que betou esse capítulo e puxou a minha orelha em alguns parágrafos. Eu tenho muito orgulho dessa moça que é minha sobrinha virtual. Beijinhos, Luna!


XVII. Um Último Segredo

Com o passar do tempo, Ikki mostrava cada vez mais sua coragem e determinação admiráveis nas longas sessões de fisioterapia. Aprendera a ser mais paciente consigo mesmo e continuava participando das reuniões com outros deficiente físicos – bem como a jogar basquete em cadeira de rodas.

Sentiu-se maravilhado quando, apenas 10 dias após a visita de Tata, percebeu o primeiro movimento de um dos dedos do seu pé direito. No início decidiu não contar a ninguém, pois achava que tudo não passasse de uma espécie de ilusão. Aos poucos, entretanto, percebeu que sinais como esse tornavam-se cada vez mais comuns e agora tinha testemunhas de que não estava acontecendo – a começar por Ralph, seu fisioterapeuta. Não havia sido só ele, mas Shun, Aiolia e até Roger haviam presenciado movimento nos membros inferiores de Ikki, que enchia-se de esperanças em relação à expectativa de cura. Atribuiu o milagre ao remédio de Tata e sentia-se cada vez mais otimista.

Foi com muita luta que finalmente conseguira manter-se em pé com apoio, dar seu primeiro passo. Passou da cadeira de rodas ao andador numa velocidade impressionante. Sua determinação e força de vontade estavam operando milagres. O próprio Ikki percebeu, ao constatar, nesses últimos momentos que não conseguia mais trazer mágoas dentro de si, mesmo estando agora dependentes de muletas. Sabia que este poderia ser o seu final, que nunca poderia voltar a andar, mas a expectativa de cura surgia como uma realidade e trazia algo novo e completamente inexplicável consigo! Agora olhava para trás de cabeça erguida e sabia que ainda não havia vencido a guerra – apenas mais uma batalha. Suas pernas ainda estavam tão fracas que não conseguiam sustentar nem o peso de seu próprio corpo, mas finalmente funcionavam.

O jovem ia redescobrindo o poder da vida, o prazer de sentir-se em pé e a importância da sensibilidade nos membros inferiores. Sabia que às vezes chegava a ser infantil, mas apenas quem já perdeu temporariamente as pernas poderia entendê-lo. A recuperação de sua independência, a auto-estima cada vez mais elevada... A estigma de aleijado deixando sua mente! Seu corpo poderia não estar curado, mas sua alma havia ganho um novo sopro de esperança e vivacidade. Agora andava descalço pelo apartamento, mesmo recebendo broncas e protestos de quem quer que o visse. Ikki sorria, respondendo:

"Deixe-me sentir o frio, as aspereza do piso! É algo tão gostoso, emocionante... Poder sentir, perceber que minhas pernas estão aqui e funcionam! Posso não ter voltado ao normal, mas olhem pra mim e diga se isto não é um milagre, uma bênção."

Obviamente essa declaração tirava a capacidade de contestação e trazia lágrimas aos olhos de Shun e Roger, toda vez que ouviam a desculpa. A batalha não estava sendo fácil, mas Ikki era um grande guerreiro e conseguia demonstrar o quanto estava feliz com tamanha recuperação.

O jovem, que inicialmente não conseguia sentir um único músculo de seu corpo, agora já conseguia mover praticamente todo o corpo. Por mais que suas pernas não fossem perfeitas, elas já eram boas o suficiente para possibilitar o contato direto com o solo, uma discreta sustentação de seu corpo, dando-lhe uma maior liberdade e renovando suas esperanças. Durante a fisioterapia, animava-se na tentativa de devolver o tônus, a força e a resistência de antes, mas não cobrava tanto de si mesmo. Tinha consciência de estar fazendo seu melhor – e isso já lhe bastava.

-------------- # XVII # --------------

Numa das inúmeras lojas multimídias de Londres um jovem moreno, amparado por um par de muletas canadense, analisava a contracapa de 6 CD's. Estava concentrado naquilo quando, devido a um pequeno desequilíbrio, deixou que os objetos em suas mãos caíssem no carpete avermelhado. Até tentou evitar o desastre, mas sua deficiência não lhe permitiu.

Os vendedores e demais clientes observaram a cena como se fosse uma piada. Alguns não conseguiram abortar a risada. O jovem cerrou os olhos apertadamente e voltou-se ao chão, como se tentasse desvendar uma fórmula para conseguir reparar seu erro. Estava muito envergonhado diante da cena. Era um aleijado! Nada poderia mudar...

Uma jovem loira de olhos azuis olha de forma reprovativa aos demais. Havia acompanhado tudo e, sem reparar no rosto do deficiente, aproximou-se. Não esperou nenhuma reação do rapaz para pegar os CD's e levantar-se, fato que o deixou desconcertado.

Reparou na moça: era uma moça linda, delicada... frágil! Sabia que dificilmente conseguiria executar a mesma tarefa com êxito, mas seu orgulho falava mais alto. Não que fosse machista, mas deixar que aquela princesa fizesse algo para si era vergonhoso. Sentiu vontade de correr, sumir de vista a cada movimento dela. Reparou nos traços, nas curvas! Era realmente muito atraente, mas sabia que não era para seu bico.

Indiferente às reações do rapaz, a moça pôs-se finalmente em pé, encarando os olhos dele. Quando viu seu rosto, um turbilhão de emoções e lembranças vieram-lhe à mente e não conseguiu conter um forte grito, assustando o deficiente. Todas as pessoas que estavam na loja, olharam curiosamente para o casal. Os seguranças começaram a aproximarem-se, prontos para agir caso fosse necessário.

"O que foi?... Tudo bem com você?"

"Ikki... eu... eu não.. esperava vê-lo aqui... assim!", a jovem respondia tremulamente.

"Senhorita, se quiser expulsamos o aleijado!", afirmava um dos seguranças. "Ele não irá mais incomodá-la...", completava, com um sorriso sombrio e nefasto, analisando o deficiente dos pés à cabeça.

Ikki estava surpreso com aquilo tudo. Não sabia o que pensar, como reagir! Não tinha idéias de quem era a jovem e qual seria o motivo da reação dela. Não sabia se conseguiria lutar e nem o motivo da batalha – não que estivesse com medo, pois era o cavaleiro de Fênix. O que o incomodava era o local, a situação! Por mais acostumado que estivesse a uma luta ou às brincadeiras de Aioria e Shun, agora era diferente! Não sabia se estava preparado para um desafio daquele: encarar dois brutamontes com cerca de 1,90m sem ter o equilíbrio completo do corpo. Se estivesse acompanhado... Por mais que Shun detestasse machucar os outros, sabia que o irmão seria capaz de tudo para protegê-lo.

O segurança aproximou-se, estralando os dedos. Seria muito fácil dar uma surra no rapaz que certamente estava merecendo. Nenhum inocente deixava uma jovem tão nervosa! Não estava ligando para a debilidade do cliente. Iria mostrar-lhe à força como respeitar uma dama! Além disso, a expressão de ira no rosto do rapaz a cada novo passo dos seguranças, demonstrava que ele tinha culpa no cartório.

Ikki era um cavaleiro de Atena, mas agora a raiva falava mais alto. Não sabia se tinha condições físicas para lutar – estava inseguro, fraco! Ao mesmo tempo seu orgulho não o deixava rebaixar-se e lutaria com honra se fosse preciso. Seu coração pulava e seus músculos tremiam numa reação inexplicável até para ele. Respirou fundo, procurando os olhos da moça e tentando descobrir o motivo do grito.

Antes que os seguranças tocassem no rapaz, a jovem ordenou com firmeza e segurança:

"Não se atrevam a tocar num fio de cabelo de Ikki. Está tudo bem... Somos amigos."

Os seguranças olharam incrédulos para a jovem. Principalmente ao ver Ikki boquiaberto com tal afirmação. Não moveram um músculo, incertos da afirmação.

"Eu já disse que está tudo bem! Só fiquei surpresa em reencontrá-lo..."

"Ok, fiquem à vontade! Se precisar...", respondia o chefe da segurança, dispersando os demais com um gesto de cabeça.

"Sei como agir!", respondeu a jovem, de forma simpática.

Ao perceber-se livre do cerco, Ikki respirou aliviado. Ainda lançava um olhar inquisidor à loira, que sorriu graciosamente após a confusão. Ainda um pouco inseguro, perguntou:

"Como sabe o meu nome... Você me conhece?"

"De fotos somente. E das narrações de seu irmão...", a jovem sorria ao ver a sobrancelha erguida de Ikki e a expressão confusa que ele exibia. Certamente encarando-a como se fosse uma louca. "Sou June, a amazona de Camaleão...", apresentou-se.

"June? O que você faz sem a máscara?", pergunta numa primeira reação. Nunca imaginaria encontrá-la ali – principalmente em trajes ocidentais. Percebendo a gafe que acabara de cometer, tenta remendar. "Ai, que pergunta idiota!... Você não precisa ficar saindo por aí de máscara. A menos que estivesse em alguma missão. Afinal, é um acessório para tornar as mulheres semelhantes aos homens e só é preciso usar no Santuário, nos treinamentos e em batalhas."

"Pois é... Agora que estamos em paz, sou uma jovem como todas as outras.", reponde com simpatia. Discretamente desvia seu olhar ao par de muletas e depois volta a encarar os olhos do cavaleiro. "Soube do seu acidente... Como você está?"

"Como pode ver, já estou quase andando. É bem verdade que ainda tenho alguns problemas de locomoção e que às vezes me atrapalho com as muletas, mas graças a Zeus eu já posso ficar em pé. Não preciso ficar preso a uma cadeira de rodas ou, o que era pior, ter que depender do Shun até para comer... como se eu fosse um bebê de colo!"

Diante do depoimento, June não sabe o que dizer, o que fazer... Começa a olhar os CD's que ainda tinha em mãos e, no intuito de fugir daquela conversa, comenta:

"Como eu imaginava!... Guns N'Roses, Iron Maiden, Evanescence... É bem o seu estilo."

"Sim, sou roqueiro. Pelo que o Shun me falava de você, eu cairei pra trás se me afirmar que gosta de música romântica."

"Só em momentos especiais...", diz entre sorrisos. "Na verdade, gosto mesmo de techno, dance e coisas nesse estilo."

"Interessante. Falando em música... será que sobrou algum CD intacto?"

"Não se preocupe! Pelo que observei, apenas a embalagem desse do Iron se danificou.", mostrava um dos CD's.

"Então vou levá-lo! Também ficarei com os dois do Guns e... este último do Evanescence."

"Nossa! Ta podendo, heim?"

"Meu pai nos mimou demais...", diz com um sorriso. "E você, o que vai levar?"

"Nada."

"Como assim?

"Não tem o que eu quero. Já olhei tudo e... depois que inventaram a MP3, você sabe..."

Ikki responde entre sorrisos. June recoloca na prateleira os CD's que o rapaz não levaria e fica com os outros em mãos. Percebendo o embaraço da amazona, o japonês sorri. Sabia o quão difícil era para uma pessoa como ela lidar com aquela situação – ainda mais pelo fato de estar lidando com um cavaleiro do nível dele. Certamente ela não queria magoá-lo, mas não sabia os procedimentos a serem tomados.

"Já que está por aqui, abusarei da sua boa vontade e pedirei para me ajudar a levar os CD's ao caixa."

"Ah! Claro..."

Ikki sorri e, com um pouco de dificuldade devido ao espaço apertado, movimenta a muleta esquerda para frente e, em seguida, a perna direita. Logo após avança com a muleta direita para, então, dar um passo com a sua perna esquerda. O movimento é inicialmente lento, mas, em seguida, torna-se mais rápido, mostrando a destreza que ele tinha com esse tipo de assessório. A amazona, que havia ficado para trás, o alcança.

"Você... precisa de ajuda?"

"Se já não me bastasse o Shun, agora outro, digo... outra. – responde sorrindo e revirando os olhos. Em tom de brincadeira, continua: "Aposto que isso deve ser coisa do mestre de vocês... Ainda estou em dúvida se treinou pediatras ou pedagogos. Apesar das muletas eu ainda posso me virar sozinho, sabia?", mantém o sorriso o tempo todo, terminando com uma piscada do olho direito.

"Desculpe. Eu não queria ofender...", responde cabisbaixa. Sua real intenção, no momento, era esconder a face enrubescida.

"Tudo bem, já me acostumei com isso...", exibe um sorriso sincero. "Não posso falar que foi um mar de rosas... na verdade, foi muito difícil... passei por momentos de depressão, cheguei a perder as esperanças, mas consegui erguer a cabeça e seguir em frente. Sabe... as pessoas se acostumam com limitações e, às vezes, têm que lutar contra si mesmas para superar-se. É uma luta... constante, árdua, difícil e com resultados demorados, mas o resultado compensa."

"Fico feliz ao perceber que você pensa assim... Deve ter sido muito difícil passar por tudo o que passou. Ainda mais pelo fato de ser um dos mais poderosos cavaleiros de Atena."

"Você pode não acreditar, mas eu me diverti bastante em muitas ocasiões. A pérola de todas – a situação mais esdrúxula – aconteceu antes de eu me submeter à cirurgia no cérebro, quando eu ainda estava no Santuário e obviamente foi causada pelo acéfalo do Jabu.", Ikki relembrava as cenas no rio e depois na casa de Gêmeos. (1)

"O que ele aprontou?"

"Vamos tomar um café e eu conto."

"Combinado!"

-------------- # XVII # --------------

"Roger, você tem que falar a verdade! Esses rapazes são mais espertos do que parecem e ficarão ofendidos se descobrirem de outra forma..."

"Eu sei Ralph! Mas... Já sofri demais por causa disso. Você sabe..."

"Eles te amam e isso não vai mudar."

"Será? Cansei de sofrer decepções, de ver as máscaras caindo... Eu quero que me vejam como Roger e não como... você sabe!"

"Mas amigo..."

"Por favor, Ralph, me entenda!"

"Eu lhe entendo. Mas... E eles? Irão entender?"

Roger fica cabisbaixo, sem saber o que responder. Já conhecia os filhos o suficiente para saber a reação que teriam se achassem que estivessem sendo traídos. Sentia-se entre a cruz e a espada!

"Ikki confiou cegamente em você quando decidiu aceitar a operação. Por que você não dá uma chance a eles de mostrar suas capacidades, o verdadeiro eu?"

"Talvez você tenha razão! Já não consigo mais olhar nos olhos deles... principalmente no do Shun. Ele é tão alegre, meigo, simpático..."

"Lembra você na mesma idade. Apesar do fato de acreditar que esse segredo deva ser revelado numa conversa a sério com eles, se precisar de apoio, pode contar comigo."

"Eu sei, Ralph... Eu sei!", afirma entre sorrisos, abraçando-o e recebendo outro em troca.


(1) Capítulo 10 – O blefe