XVIII. Pratos Limpos
Shun andava de um lado para o outro, deixando seu nervosismo transparecer. Era a primeira vez que Ikki tinha saído sozinho desde o acidente e não dava sinais de vida e o que era pior: deixara seu celular desligado! Começou a preocupar-se com a segurança e a saúde do mais velho. Temia que algo viesse a acontecer-lhe. Aiolia, que tentava estudar para uma prova, não conseguia mais agüentar aquilo.
"Shun, eu já disse que está tudo bem! O Ikki sempre foi independente e sabe se cuidar..."
"Estou muito preocupado sim! Ele sempre teve o dom de arrumar encrencas e meter-se em confusão. Não questiono a competência e coragem dele como cavaleiro, mas agora ele nem consegue ficar em pé sem apoio."
"Se tivesse acontecido algo, já saberíamos..."
"Se ele estivesse bem, já teria ligado avisando aonde estava e se iria demorar ou não."
"Ainda acho que você está procurando chifre em cabeça de cavalo. Você ouviu o que o doutor Ralph disse... Temos que dar uma chance para ele provar que pode ter uma vida normal mesmo estando dependente de um par de muletas. Mais cedo ou mais tarde iremos voltar às nossas rotinas e, caso Ikki fique eternamente neste estado físico – o que eu não desejo, você acha mesmo que ele vai suportar ser eternamente tratado como um inválido? Ou pior... uma criança de colo que precisa dos pais pra tudo? Já passou da fase onde ele precisava que você desse tudo na boca dele. Além disso, você pode ter esquecido, mas eu ainda lembro que ele conserva o mesmo cosmo poderoso de antes e que pode usá-lo a qualquer momento."
Shun sabia que Aiolia tinha razão. Se Ikki realmente precisasse, teria arrumado uma forma de comunicar-se, pedir apoio, mas nada! Não haviam sentido nenhuma alteração no cosmo do deficiente e muito menos a presença de guerreiros estranhos Por mais que desejasse a recuperação do mais velho, ainda não conseguia reacostumar-se à independência deste depois de tudo que passaram desde o momento em que o levou ao seu apartamento e dedicou-se a cuidar dele. Ainda lembrava-se da época em que seu irmão estava tetraplégico e não conseguia mover um único músculo abaixo do pescoço. Não fazia tanto tempo assim!
O grego largou o que estava fazendo e passou a prestar atenção no amigo. Percebeu a sua angústia e o medo que sentia pela nova situação que estavam enfrentando. Conhecia a dor da perda de um irmão, havia acompanhado quase todo o processo de recuperação do ex-cavaleiro de Fênix e a dedicação que Andrômeda havia tido no intuito de minimizar seu sofrimento e proporcionar-lhe um melhor conforto, uma vida mais próxima da normalidade possível. Viu o garoto enfrentando sozinho as constantes crises de depressão do primogênito com toda a sua força, sem esmorecer, mesmo quando lhe parecia impossível uma evolução em seu desenvolvimento e já não conseguia mais animá-lo. Apoiou uma mão em seu ombro e usou de sua calma para falar:
"Ikki pode ter os seus limites, mas os conhece muito bem. Você sabe que ele sempre foi esperto e coerente. Não se arriscaria à toa..."
"Talvez você tenha razão... Mas o meu coração não deixa eu ficar em paz ainda."
"Eu entendo!"
Shun pensou em falar sobre seus motivos, sua angústia. Antes que pudesse abrir a boca, entretanto, ouviu um barulho na porta de entrada. Suspirou aliviado, desvencilhou-se de Aiolia e aproximou-se ao perceber que alguém estava entrando. Tinha certeza de que era seu irmão e começou a formular um belo do sermão em sua mente.
O grego sorriu de canto de boca e decidiu voltar aos estudos. Por mais que não admitisse, também estava levemente ansioso com a demora de Ikki e por isso encontrava dificuldades em concentrar-se no que estava fazendo. Ainda viu a porta se movimentando e a comemoração do jovem Andrômeda.
"Ikki! Niisan!", Shun comemorava, ajudando a abrir a porta.
"Então quer dizer que o Ricky não está em casa..."
"Ahn?", Andrômeda levantava os olhos e encarava o homem à sua frente. Havia se enganado e, por mais que gostasse de seu pai, não conseguiu evitar um sorriso triste pela decepção. Abraçou-o de uma forma mecânica e respondeu num tom de velório. "Meu irmão saiu... Sozinho!"
"Pensei que fosse comemorar quando isso viesse a acontecer."
"De fato! Fiquei muito feliz ao ouvir que ele tinha decidido sair sozinho, mas agora estou preocupado. Ele já devia ter voltado e não consigo me comunicar com ele."
Roger e Ralph já estavam prevenidos para essa reação do cavaleiro de Andrômeda. O neurocirurgião já havia passado por situações semelhantes ao longo de sua carreira e por isso não estava tão preocupado com o jovem deficiente. Sempre a mesma história: a família lutando e fazendo o impossível para que o paciente conseguisse uma vida mais normal e, quando este começava a adquirir uma maior independência, transformava-se num frágil boneco de cristal pronto para partir com qualquer brisa mais forte. Os familiares temiam os primeiros passos em falso, as primeiras saídas desacompanhados e tudo parecia trazer riscos ao tratamento do paciente. O processo de aceitação e adaptação muitas vezes era lento em complicado, principalmente em casos como o de Ikki, que por algum tempo esteve extremamente dependente da ajuda de terceiros, mas principalmente do auxílio do irmão. Para o bem dos dois, Shun não poderia continuar assim e agora sentia-se na obrigação de acalmar o filho.
"Antes que eu me esqueça... boa noite!", falou num tom divertido.
"Boa noite, pai. Entre... Fique à vontade!", Shun dava passagem ao médico.
O suíço entrou no apartamento e acompanhou o filho até a sala. Sentou-se ao lado do garoto, num sofá. Usando de seu costumeiro timbre calmo, falou:
"Não acredito que você deva preocupar-se tanto. Talvez seu irmão esteja entretido com algo. Quem sabe ele não decidiu assistir um filme?"
"Já pensei nisso, mas que filme demoraria quase 5 horas?"
"Bem, ele pode ter ido tomar um lanche depois..."
"Conheço o niisan! Ele ligaria avisando."
"Pode ter esquecido. Ou então, quem sabe, arranjado uma namoradinha?"
"Quanto ao fato de ter esquecido... pode ser, mas quanto à namoradinha não acredito. Não que eu duvide que ele seja capaz de amar... longe disso! É que não consigo vê-lo como alguém que acredite em amor à primeira vista e por isso estou muito preocupado. O celular dele está desligado...", virou-se para uma direção oposta à do pai e ficou cabisbaixo, enquanto expunha suas preocupações. "E se ele tiver se metido em encrenca? Ou pior, tiver sofrido algum acidente?"
"Se fosse algo realmente grave, você já teria descoberto. Não esqueça que notícia ruim chega rápido!"
"O Aiolia também disse algo assim.", responde num muxoxo e continua, exibindo a angústia em seu olhar. "Estou com tanto medo, papai...", Shun choraminga, abraçando o pai.
"Acalme-se, querido! Aposto que a qualquer momento ele vai abrir aquela porta e entrar como se nada tivesse acontecido."
Novamente ouve-se o barulho de chave na porta e os dois viram-se na direção da entrada. A maçaneta se move e logo depois a porta é empurrada. O jovem de cabelos verdes encara o pai boquiaberto e volta-se à figura na porta. Roger sorri e, numa tentativa de despertar o garoto de seu transe, brinca:
"Se fosse combinado não teria dado tão certo..."
Andrômeda não ouve a brincadeira do pai. Concentrou-se em acompanhar a entrada de seu irmão, que trazia uma sacola pendurada em sua muleta direita e adentrava o apartamento. O jovem de cabelos verdes fica em pé e corre até ele.
"Ikki! Niisan..."
Esquecendo-se dos limites que a enfermidade do mais velho lhe proporcionava, Shun pulou sobre ele, abraçando-lhe fortemente.
"Shun, cuidado! Eu... Nós...", Ikki iria relembrá-lo que não tinha força nem equilíbrio suficiente para aquele tipo de reação, mas não conseguiu terminar a tempo. Ambos começaram a ir rapidamente em direção ao chão. Roger levantou-se, com o coração acelerado. Temia que o mais velho se machucasse e viesse a prejudicar seu tratamento.
O mais jovem também sentiu-se na obrigação de proteger o ex-cavaleiro de Fênix e, num movimento rápido, fez com que o moreno caísse em cima de si. Roger correu em direção aos dois, gritando o nome dos filhos. Aiolia, que estava em seu quarto, foi à sala e só conseguiu chegar a tempo de ver os dois atingindo o solo.
Ikki sentia-se um boneco de pano. Estava com os braços presos à muleta canadense, o que limitava ainda mais os seus movimentos. Para piorar, era vítima da gravidade e de sua distração – fatores que o levaram a deixar seu corpo ser manipulado pelo jovem Andrômeda. Tinha medo de bater a cabeça e regredir. Ao mesmo tempo, temia machucar o caçula, mas não conseguia evitar deixar seu corpo ser dominado pela ação do outro.
Encaram-se! A preocupação era evidente em ambos os lados.
O moreno logo se desvencilha-se das muletas, deixando-as próximas de si e saindo de cima do caçula. Encara os fracos membros inferiores, que novamente pareciam debochar de si! Estavam ali, movimentavam-se, porém nunca mais seriam os mesmos!
Não! Não podia entregar-se à depressão... Não agora! Tinha que reerguer-se, renascer das cinzas como a ave mitológica de sua constelação protetora. Ainda tinha o seu cosmo e por isso mesmo sentia-se na obrigação de mostrar o seu poder, provar que a Ave Fênix não havia morrido no acidente. Podia estar aleijado, mas ainda tinha o espírito guerreiro dentro de si. Pegou o par de muletas e começou a reerguer-se com muita dificuldade, com a ajuda de alguns móveis próximos de si, mas negando-se a receber qualquer ajuda.
Tão logo sentiu-se livre do peso do corpo do mais velho sobre si, Shun voltou-se a ele. Havia sido estúpido... muito estúpido! Como pôde esquecer-se da fragilidade do irmão? E se isso viesse a prejudicar o tratamento? Estava com medo das conseqüências de seu ato infantil e impensado. Sempre teve essa mania e sabia que, mais cedo ou mais tarde, poderia prejudicar, ferir alguém devido à sua espontaneidade. Por ironia do destino, essa pessoa era seu próprio irmão – doente e debilitado. Nunca iria perdoar-se! Tomado pelo desespero, mas agora sem tocar no deficiente, perguntava exibindo toda a sua angústia na voz.
"Niisan, está tudo bem? Eu lhe machuquei?"
Um sentimento de cólera começou a percorrer o corpo de Ikki. Então ele havia mesmo se tornado uma boneca de porcelana que quebraria com qualquer toque? Por que os deuses o haviam punido daquela maneira? Tinha vontade de correr, esconder-se. Isolar-se! Havia se tornado tão vulnerável e inútil que uma simples queda como aquela já fazia com que todos corressem em seu auxílio?
"Então eu virei mesmo uma boneca de porcelana que vai quebrar com um simples toque? Ou será que estou destinado a ser eternamente tratado como uma criança que depende dos adultos para tudo?"
"Ikki, niisan..."
"Ikki, acalme-se! O Shun só está preocupado."
"Eu não sou mais criança! Não quero mais ser tratado como tal... Posso estar aleijado, mas acho que já provei que ainda estou vivo e que posso me virar sozinho."
"Ricky, meu filho..."
"Niisan, por favor, me perdoe! Eu... eu não queria. Não queria ter lhe derrubado, não queria ter lhe ofendido, mas agi sem pensar, como sempre... Juro!"
"O Shun estava preocupado com você. Eu fui testemunha de todas as vezes que ele tentou ligar pra você, em vão! Por que não atendeu?"
"Como assim, Aiolia? Eu não recebi nenhuma ligação. O meu telefone não tocou..."
"Eu liguei sim. Várias vezes! E sempre dava desligado ou fora da área de serviço."
"Estranho..."
"Tem certeza que não o desligou em algum momento e esqueceu de ligar novamente?"
"Eu nunca o desligo. Deixo no modo silencioso quando preciso entrar lugares como cinema, principalmente quando estou longe do Shun, pois sei que ele sempre liga."
"Pode ser algum problema de sinal. Alguma interferência..."
"...Mas por mais de 3 horas?", Shun pergunta com a voz levemente torpe.
O silêncio se instaura no ambiente e Ikki pega o aparelho que ainda estava em seu bolso. Percebe que estava desligado, mas atribui à queda e tenta religá-lo para resolver o mistério. O display se ilumina com a mensagem de boas-vindas, mas logo toca o conhecido som de desligamento. Encara o irmão.
Shun entrara em transe. Não sabia mais o que fazer, o que pensar. Teria exagerado em sua preocupação novamente? Teria humilhado o irmão mesmo sem querer?
Alheio aos pensamentos do caçula, o moreno punia-se mentalmente. "Burro! Como pôde ser tão distraído?" Era óbvio que Shun estava preocupado! Esquecera de carregar a bateria de seu celular antes de sair de casa. Havia cometido uma enorme injustiça com ele. Sabia o quanto o irmão ainda ficava inseguro e preocupado por causa de sua deficiência. Bem que estranhara não ter recebido nenhuma ligação, mesmo depois de ter ficado tanto tempo fora. Fora imprudente ao não conferir seu celular, ao decidir não ligar ao irmão para acalmá-lo e tranqüilizá-lo. Sentiu-se ainda pior ao vê-lo encolhido, contendo o choro e percebeu a angústia transbordava de seus olhos. Sentia o medo de sua alma, o arrependimento pelos seus atos. Roger estava certo! Shun só estava preocupado... como sempre. Por mais que não gostasse – que viesse a se sentir inferiorizado com esses atos – tinha que se acostumar, fazia parte da personalidade dele.
Andrômeda sentiu as lágrimas que surgiam em seus olhos, deixando sua vista turva. Refletia sobre tudo e tentava reviver a situação, perguntando-se aonde teria errado e como poderia consertar. Antes que pudesse ter uma resposta em mente, sentiu um toque em seu ombro e olhou para trás.
Surpreendeu-se!
"Desculpe, Shun. Não deveria ter falado daquele jeito contigo. Você ofereceu o seu amor, cuidou da minha saúde, do meu bem-estar, da minha vida! Eu deveria ter percebido que a bateria tinha acabado, deveria ter ligado só para dizer que estava bem e que você não deveria preocupar-se. Você deveria estar desesperado com o meu sumiço e eu o recebi com pedras. Sei que isso não é desculpa, mas no fundo ainda não aceitei a minha condição, o meu futuro... Fiquei nervoso comigo mesmo e descontei a minha raiva em você."
"Niisan... Tudo bem, acho que exagerei novamente..."
"Como dizem por aí, um erro não justifica o outro e eu não tinha que tratá-lo daquela forma horrível. Me perdoa?"
"Não há o que perdoar... Estamos quites!"
Ikki sorri e dá um abraço tímido no caçula, que retribui – desta vez com cautela. Aiolia e Roger agora acompanhavam a cena incógnitos, com medo de interferir. O suíço admirou o amor e o carinho que havia entre os irmãos antes de ir à varanda com o intuito de tomar coragem para ter uma conversa definitiva, algo que poderia fazer com que ele viesse a separar-se definitivamente dos filhos. Depois de tanto sofrimento, de passar pela angústia das fracassadas buscas, teria que reviver novamente a dor da perda dos filhos que dificilmente viriam a perdoar-lhe! Sua vida acabaria hoje.
O médico volta à sala extremamente tenso. Sentia que estava carregando o peso do mundo em seus ombros. Tentava participar da conversa amistosa que Ikki, Shun e Aiolia haviam travado, mas não conseguia. Sua garganta estava seca e tomada por um nó que não deixava sua voz sair. Suava e tremia levemente toda vez que encarava os filhos nos olhos.
Como um poderoso cavaleiro de ouro, o grego não demorou a perceber o nervosismo e angústia do neurocirurgião. Concluiu que o suíço precisava ficar a sós com os garotos e resolveu sair. Não teria o que fazer na rua, mas precisava respeitar a privacidade da família. Lembrou-se dos estudos e uma idéia veio-lhe imediatamente à cabeça.
"A conversa está muito boa, mas eu precisarei ir à biblioteca. Marquei de estudar com alguns amigos..."
"Amigos, sei! Garanto que vai paquerar as moças. Se a Marin souber..."
"Se a Marin souber desses boatos, teremos pavão assado amanhã no cardápio, ouviu, ave emplumada?"
"Ih! Ficou nervosinho... Aí tem!"
"Ikki! Respeite-o."
"Ah esquece Shun! Eu sei que o seu irmão adora me provocar e não irei dar esse gostinho a ele. Licença."
-------------- # XVIII # --------------
"Você está bem, pai?"
A voz traz consigo um tom de preocupação. Na verdade, Shun já havia percebido anteriormente que o estado emocional de seu pai não estava nada bom, mas somente após a saída de Aiolia teve coragem de fazer essa pergunta. Parecia que lia em seus olhos a necessidade que o médico tinha de ficar sozinho com os filhos. Seria algum problema? – Algo que só dizia respeito à família? – O que poderia ser tão grave assim?
Roger o olha. Ainda ficava emocionado ao ouvir Shun pronunciar essa palavra. Seu filho, sangue do seu sangue! Não que Ricky lhe fosse menos importante, mas o jovem de cabelos verdes era o seu único filho biológico, tinha parte de suas informações genéticas, fazia parte de si! Sempre orgulhou-se ao declarar que tinha dois filhos: um de coração e o outro de sangue, mas ambos eram igualmente amados. Uma angústia o invadiu e começou a queimar seu peito. Demorou tanto para reencontrar seus filhos e agora via a possibilidade de perdê-los novamente. O médico começa a ficar nervoso, ajeita a gola da camisa extremamente alva que não havia trocado ao voltar de seu consultório, se mexe desconfortavelmente no sofá, procurando uma melhor posição, procurando – talvez – um meio de evaporar dali.
"Pai, o que você quer falar conosco? Não adianta me enrolar, pois eu sei que você tem muito o que nos esclarecer."
"Então você já sabe? Já conhece o meu segredo?"
"Hum... Então há mesmo um segredo!"
O suíço engole o seco, encarando Ikki. Havia caído no jogo dele. O rapaz apenas jogara verde e ele acabou se entregando. Agora sentia o olhar interrogativo de Shun sobre si também e não teria como escapar. Respirou fundo, mas agora sentia um peso ainda maior em seus ombros.
"Bem... como vocês sabem, eu sou rico."
Os dois acenam de forma positiva com a cabeça.
"Acontece que... não consegui toda a minha fortuna só com o meu trabalho. Eu... Eu tenho uma herança."
"Aonde você pretende chegar com tudo isso, pai? O que o seu dinheiro tem a ver com esse seu nervosismo?"
"Bom, é que...", Roger encolhe-se temeroso. Nunca imaginara que teria que responder ao interrogatório de um filho, que cada vez mais o colocava contra a parede. Não conseguiria enganar o rapaz e agora teria que ir até o fim.
"Ikki, você está deixando o papai mais nervoso...", Shun falava, aproximando-se. Sentiu um mão segurando seu pulso e parou na hora.
"Não, Shun.", Ikki pedia, olhando nos olhos do irmão. Continua falando com ele através do cosmo, para que seu pai não descubra o plano. "Se ele não falar agora, nunca mais irá falar... Vi isso nos olhos dele. Pode parecer cruel, mas é necessário. Se o nosso pai está passando por algum problema, temos que saber. Só assim poderemos ajudar..."
Shun encara o pai e depois volta-se para o irmão. Decide voltar silenciosamente ao seu local, sentado num outro sofá que o fazia ficar de frente ao pai e num ângulo de 90 graus em relação ao mais velho. Sabia que Ikki jamais machucaria Roger com palavras e que o irmão tinha razão. Se quisessem ajudar o pai, precisavam saber do que se tratava.
"Você recebeu alguma ameaça? Algo a ver conosco..."
"Felizmente não, Ricky. A verdade é que eu... eu tenho que revelar um segredo. Algo a respeito da minha família, da minha descendência."
"Tem algo a ver comigo? Algum crime cometido pelos nossos antepassados?"
"Tem a ver com os dois, mas não é nada ilegal, não se preocupem.", sorri fracamente, levanta-se e anda em círculos. Tinha que criar coragem, contar tudo. "Eu... bem, antes que vocês decidam me julgar, devo dizer que não foi nada fácil ocultar esse segredo e que há muito tinha vontade de revelar tudo, mas não tinha coragem. No entanto, sinto que, enquanto eu não for totalmente sincero com vocês, não poderei dormir em paz."
"Seja o que for, estamos ao seu lado. Confie em nós!", Shun incentivou.
"Eu, quero dizer, nós pertencemos à alta sociedade. Nasci em berço de ouro e cresci com todas as vantagens e desvantagens de ser o único herdeiro de uma das maiores fortunas da Europa. Ainda criança, descobri que o meu dinheiro era mais atraente do que eu mesmo. Ninguém procurava o pequeno Roger e sim o garoto milionário. Fui educado em colégios internos, onde aprendia várias línguas, fazia os mais variados tipos de curso e modalidades esportivas. Aprendi a dançar, esquiar, lutar esgrima, jogar golfe, nadar e cheguei a ser campeão de hipismo. Tinha que ser sempre o melhor em tudo o que fazia, por isso nunca tinha tempo para nada! Minha vida se resumia aos estudos, aos esportes e às reuniões e festas sociais impostas pelos meus pais. Não lembro de ter tido um único amigo..."
"Eu imagino o quanto tenha sido difícil, mas sinto que não é tudo."
"E você tem razão Ricky! Eu me sentia um lixo pelo fato de saber que as pessoas ao meu redor só estavam interessadas no meu dinheiro. Sempre me indagava se não havia algo em mim que pudesse atrair a amizade de outras pessoas. Precisava saber o que aconteceria se eu perdesse tudo, sentir o que era ter uma vida normal e foi aí que eu tive a idéia de convencer os meus pais a fazer com que a sociedade acreditasse que estivéssemos falidos. Foi uma loucura, eu sei, mas era a única saída para descobrir quantos amigos eu tinha.", deu uma pausa, respirou fundo, encarou algum ponto específico da parede e continuou. "Ironicamente, de toda a imensa lista de contatos, sobrou apenas um: o filho da empregada. Um menino que tinha um grande sonho e um imenso talento, mas não teria futuro! Eu sempre admirei a força de vontade dele e confesso ter ficado surpreso quando ele me estendeu a mão. Eu não tinha nada a oferecer-lhe e ele quase não tinha condições nem de se manter. Mesmo assim ele estendeu a mão e dividiu seu teto, seu alimento comigo. Afundou-se em dívidas e começou a passar fome para conseguir manter-nos... Eu, como era meio alienado e desacostumado a esse tipo de coisa, só fui perceber quando a dispensa começou a esvaziar-se e manter-se assim. Ainda tentei perguntar a ele, mas logo desconversava e tive que apelar para um detetive particular que não demorou para me dar a resposta. Não suportei vê-lo se destruindo daquela forma e contei a verdade: que eu nunca havia deixado de ser rico! Discutimos um pouco, mas logo ele entendeu o meu lado e prometeu me ajudar. Quitei todas as suas dívidas e ele me deu a idéia de ao menos fingir trabalhar para poder ter algum dinheiro dos meus pais e assim foi! Mas, ao invés de fingir, eu realmente cheguei a ser contratado por uma empresa que prestava serviço à minha família e confesso ter gostado de trabalhar. Só parei por causa dos estudos."
"Que emocionante, papai! Quem era esse garoto? Alguém que conhecemos?"
"Sim, Shun. O garoto que me ajudou chama-se Ralph Schneider."
"E por que tanto mistério sobre isso? Por que nunca comentou sobre seu real status social?"
"Tive medo."
"Medo?"
"É, Ricky. Eu... Bem, depois de tudo o que me aconteceu, eu tive medo que vocês descobrissem sobre mim, sobre minha fortuna e... vocês sabem."
"Então foi por isso? Não acredito que pensou que nós... O que acha que somos, pai? Você não é muito melhor do que o cara que me colocou no mundo! Aquele que eu deveria chamar de pai."
"Ricky..."
"Eu não sou Ricky, sou Ikki! Ikki Amamiya."
"Espere, filho..."
"Eu não sou seu filho! Você não é nada meu."
"Ricky, escute... Eu prometo que organizo uma festa e os apresento à alta sociedade inglesa como meus filhos. Vocês terão tudo do bom e do melhor..."
"Ah! Agora o seu dinheiro é mais importante... Desculpe doutor Keller, mas eu não quero participar de seus joguetes, não estou a fim de ser tratado como uma atração de circo para atrair fregueses ao seu consultório. Confesso que estou muito grato por tudo o que fez a mim, por ter me proporcionado a chance de poder ficar em pé novamente, mas não quero ser apontado como mais um de seus atos miraculosos. Não posarei de bom moço para fortalecer seu ego e mostrar a essa sociedade hipócrita que, apesar de ser aleijado, ainda tenho um comportamento de lord inglês e que ainda sou trouxa a ponto de ter esperanças de voltar a ter uma vida normal. Quer que eu diga também que já fui o cavaleiro de Fênix e que já lutei contra deuses para garantir a paz do mundo? Espero que não."
Ikki estava realmente revoltado. Nunca poderia imaginar que o pai pudesse agir daquela forma, pensar algo tão horrível a respeito deles. Justo ele que sempre se negou a receber qualquer moeda do pai – a menos quando isso era extremamente necessário ou que percebesse que tal atitude poderia magoar o suíço – agora tinha que ouvir da boca do próprio suíço que era um aproveitador, um interesseiro. Estava furioso e se negava a ficar no mesmo ambiente que o médico. Olhou as muletas e, antes que pudesse ter acesso a elas, viu o neurocirurgião afastá-las e ajoelhar-se perante ele.
"Ricky, meu filho, me perdoa!"
"Você sabe muito bem que eu não sou seu filho. Agora me dê as muletas! Eu quero ir ao meu quarto."
"Mas Ricky, me dê uma chance para explicar..."
"Vai dizer o quê? Que ficou com medo de sermos aproveitadores? De que fôssemos mercenários capazes de matá-lo a sangue frio só pra ficar com o seu dinheiro?"
"Não. Isso nunca me passou pela cabeça."
"Mas achou que fôssemos gostar mais do seu dinheiro do que de você. Talvez você seja mais hipócrita do que essa sua sociedade."
"Talvez você tenha razão, mas depois de ser criado do jeito que eu fui, de não conhecer o significado da verdadeira amizade..."
"E você acha que tivemos uma infância bela, que a nossa vida foi um mar de rosas? Você nem pode imaginar o quanto sofremos! As humilhações pelas quais passamos, as guerras que enfrentamos. Aprendi até a odiar o meu irmão e agora tenho que ouvir um filhinho de papai mimado falar que sofreu por que tinha tudo do bom e do melhor, mas não tinha um amigo verdadeiro... Quer saber? Não estou a fim de ouvir as suas desculpas e, se não quer me ajudar, não precisa. Eu volto ao meu quarto rastejando, mas não fico nem mais um segundo aqui... E não tente me impedir!"
Ikki se mexe no sofá onde estava, fazendo menção a levantar-se. Estava realmente decidido a sair da sala, de perto do suíço. Poderia aceitar qualquer desculpa, mesmos aquela! Provando a veracidade de suas palavras, apoiou a mão esquerda no braço do sofá e a direita no topo do encosto e começou a elevar o tronco.
Roger sabia que não tinha mais nada a ser feito e precisaria esperar o jovem esfriar a cabeça para poder recomeçar o diálogo. Com os olhos cheios d'água entregou o par de muletas ao filho, que não fez cerimônia em pegá-las e dirigir-se furiosamente ao quarto. O suíço ouviu a porta batendo violentamente, sinal de que o rapaz não queria ser incomodado e sentiu as pernas bambas. Num último fio de esperança voltou-se a Shun, que havia permanecido o tempo todo em silêncio. Aparentemente não movera um único milímetro de seu corpo.
"Shun, querido..."
Shun levanta-se e olha o pai, mas permanece em silêncio e começa a andar calmamente em direção ao seu próprio quarto. Estava confuso e não queria precipitar-se. Não poderia cometer um injustiça e julgá-lo como seu irmão havia feito. Preferia reletir sobre tudo aquilo antes de voltar a conversar com o ente paterno.
Roger desesperou-se. Seu filho não! Preferia a morte do que a rejeição do garoto.
"Por favor, não me ignore, meu filho."
"Eu não quero seguir o exemplo do meu irmão e precipitar-me. Odeio cometer qualquer tipo de injustiça. Portanto, deixe-me digerir essas informações e formar uma opinião a respeito. Você é meu pai e isso torna tudo ainda mais complicado e difícil."
Roger não consegue responder. Sabia que o filho tinha razão e o mínimo que poderia fazer era dar o tempo necessário para que ele pudesse pensar melhor sobre o assunto. Ao mesmo tempo sabia que havia perdido os filhos por causa de uma besteira – talvez tivesse falado de mais. Não deveria ter comentado sobre o seu temor, o que o levou a esconder seu segredo. Agora era muito tarde para arrepender-se e estava colhendo os frutos que acabara de plantar. Os frutos da mágoa, da tristeza e, talvez, do ódio!
"Bem-feito, Roger Keller!", falou consigo mesmo, logo após fechar a porta do apartamento para voltar à sua casa.
-------------- # XVIII # --------------
"Shun?"
"Oi Aiolia, pode entrar..."
"O que aconteceu? Ikki está ouvindo heavy metal em som alto e a porta do quarto dele está fechada. Eu sei que ele só faz esse tipo de coisa quando está triste ou profundamente irritado. Além disso, vi o seu pai saindo daqui com uma cara de velório."
"Sente-se! Contarei tudo o que aconteceu..."
Aiolia atende ao pedido e Shun conta em detalhes o que havia acontecido. Tenta reproduzir as palavras do pai, temendo esquecer de algo ou falar demais e acabar prestando falso testemunho. Ao final, o grego respira fundo e sorri de forma confiante.
"Então foi isso... Vocês não acham que pegaram pesado demais só porque o Roger decidiu ocultar o fato de ser podre de rico? Afinal, vocês já sabiam que ele tinha uma bela fortuna..."
"Acho que você não entendeu. Não foi o dinheiro e sim o motivo! Ele só faltou nos chamar de mercenários."
"E se eu disser que você está completamente enganado? Se eu te provar que, talvez o seu pai não tenha escolhido as palavras certas, mas acabou de dar a maior prova de amor e confiança a vocês?"
"Como?"
"Não sei se o Hyoga comentou contigo, mas o Camus também era herdeiro de uma das mais importantes famílias francesas. Descendente da alta burguesia, mas quando ainda era criança teve a sua vida completamente arruinada por causa de seu próprio irmão..." (1)
Calmamente Aiolia conta toda a triste história do falecido cavaleiro de Aquário.
Shun impressiona-se com o que ouve e chega a chorar muito durante o depoimento. Havia entendido o temor de seu pai e o motivo que o levara a ocultar seu dinheiro. O suíço não havia escolhido as palavras certas ao decidir mostrar seus motivos, mas merecia uma nova chance e um pedido de desculpas. Correu ao quarto do irmão, desligou o som e começou uma conversa que sabia ser definitiva e de extrema importância.
Ikki ouvia tudo atentamente, mas não se compadeceu! Não iria aceitar tão facilmente essa desculpa e os motivos que haviam levado Roger a ocultar sobre sua real fortuna. Entretanto, não iria transformá-lo num monstro e abominá-lo com a mesma intensidade que odiava Mitsumasa Kido. O suíço cometera um erro. Talvez por inocência, por medo, por amor! Continuou impassível durante todo o monólogo do caçula.
"Terminou?"
"Niisan, você não vai perdoá-lo?"
"Não estou pronto para isso ainda. Fiquei profundamente magoado, mas... não posso deixar ele sofrendo. Sei que o seu pai ainda nos ama como se ambos fôssemos filhos legítimos e depois de tudo o que ele fez por nós, não podemos tratá-lo como um monstro. O tempo é o melhor conselheiro e, assim como consegui vencer a mim mesmo e chegar aonde cheguei, farei de tudo para tentar dar uma segunda chance a ele."
Ao ouvir essas palavras, Shun abre um largo sorriso e o abraça. Conhecia o irmão e sabia que seria só questão de tempo até voltarem a ser uma família novamente.
Ikki, por sua vez, era mais cuidadoso. Acostumou-se ao sofrimento, à mágoa e por isso seu coração ainda estava um pouco fechado para as boas coisas da vida. Apesar disso deixou-se levar pelo jeito carismático do suíço. Talvez fosse pelo fato de ter uma personalidade e jeito de ser muito parecidos com o do jovem Andrômeda, talvez por todo o incentivo e dedicação para com sua saúde, talvez o motivo fosse algo tão complexo que nem ele mesmo poderia explicar.
-------------- # XVIII # --------------
"Doutor Keller, tem dois rapazes querendo falar contigo.", afirmava a secretária, entrando no consultório do médico.
"Ao que eu saiba não tenho nenhuma consulta a gora..."
"É um caso especial... E urgente!"
Roger não estava com cabeça para isso! Se pudesse, teria ficado em casa, chorando a perda de seus filhos, mas tinha suas responsabilidades como médico. Não poderia abandonar seus pacientes por causa de um problema pessoal. Suspirou fundo. Talvez um pouco de trabalho o ajudasse a esquecer a besteira que havia feito.
"Tudo bem!", tentou ser o mais simpático possível. "Pode mandar entrar..."
O médico viu a jovem acenar para um canto que estava fora da sua linha de visão, mas não interferiu. Esperou a aproximação do paciente. Havia esquecido de perguntar o nome, mas não teve tempo de pensar a respeito, pois viu a imagem dos filhos entrando na porta do consultório e sentando-se nas cadeiras que ficavam à frente da mesa.
"Desculpe não ter marcado hora..."
"Ricky, Shun!..."
"Ei, não precisa chorar!"
"Meus filhos... eu pensei que..."
"Não gosto de mentiras, por isso gostaria de avisar que ainda não vou consegui-lo tratar como antes, mas também não posso encará-lo como um assassino e faze-lo sofrer por um erro. Eu também errei muito e recebi o perdão de várias pessoas, por isso decidi que vou dar uma segunda chance. Só precisarei de tempo..."
"E eu não consegui ficar chateado contigo por muito tempo. Afinal, sou seu filho e te amo muito!"
"Não se preocupe, Ri... er... Ikki. Darei-lhe todo o tempo necessário e quanto a você, Shun, fico muito emocionado por saber que me perdoou apesar de tudo."
"Pode contar sempre comigo, meu pai! Aliás, você janta em casa hoje à noite?"
"Seria uma honra."
"O esperaremos no horário de sempre então e hoje eu darei um jeito de providenciar algum tipo de carne vermelha e suculenta..."
"Credo Ikki! Assim o pai não vai."
"Eu vou sim e experimentarei com muito gosto!"
-------------- # XVIII # --------------
"Shun, podemos conversar?", Ikki perguntava, entrando no quarto do irmão.
"Claro, niisan! Fique à vontade."
"Eu lembro que ainda no início do tratamento, quando eu ainda não podia me mover, você contava várias histórias a respeito da June, a amazona de Camaleão. Agora eu gostaria de saber... o que realmente sente por ela? E como reagiria, ou melhor, o que sentiria se soubesse que ela está namorando?"
"Confesso que no início confundi as coisas. Pensei que a amasse, mas depois percebi que não era um amor de casal e sim algo mais fraterno, algo mais próximo da amizade, talvez até algo como um amor entre irmãos. Por isso hoje eu não consigo me ver me aproximando dela. Mas gostaria de conhecer o tal namorado para ter certeza que ele não a faria sofrer... Por que a pergunta, niisan?"
"Bem é que..."
Ikki não sabia o que falar. Havia sentido uma atração por June, mas ainda não podia declarar-se apaixonado e por isso não poderia dar suspeitas ao irmão. Se Shun soubesse, poderia criar falsas expectativas e este era um assunto muito sério, algo que poderia implicar na felicidade de duas pessoas muito especiais a ele. O moreno vai em direção à janela, como se algo tivesse lhe chamado a atenção.
Um silêncio se instaura no ambiente, só podia ser ouvido o barulho dos carros na rua. Andrômeda conhecia muito bem o mais velho e sabia que essa atitude significava que ele estava fugindo. Precisava descobrir o motivo!
"Niisan?"
"Sim?"
"Você ainda não respondeu. Por que perguntou aquilo?"
"Nada não. Quer dizer... Eu o estava vendo: um rapaz tão jovem, bonito e saudável deve atrair a atenção das garotas, ainda mais com esse seu charme e romantismo, mas eu só o vejo sozinho. Então achei que o motivo desse seu isolamento fosse algum amor de infância e lembrei da história da June. Afinal, como seu irmão, só desejo o melhor a você!"
"Eu sei, niisan!", abraça-o ternamente e começa a fazer carícias na pele bronzeada, olhando as pessoas na rua. De seu jeito tímido, afasta-se e caminha até a cama. Toda a sua movimentação é acompanhada pelo olhar atento do mais velho. Antes que o garoto voltasse a encarar o irmão, confessa. "Na verdade, eu sou muito tímido e não sei bem o que falar quando estou com uma garota.", Andrômeda solta um suspiro triste e senta-se na cama para só depois continuar. "Não sei como agir, o que fazer... E, além disso, acredito no amor e ainda não consegui me apaixonar verdadeiramente por ninguém."
Ikki o olha ternamente. Seu irmão era realmente muito puro e inocente! Não percebera suas intenções para com a moça e ainda estava se abrindo, falando de seus sentimentos, de suas emoções. Dirigiu-se até ele e sentou-se ao seu lado. Começou a afagar os cabelos verdes e de uma forma calma, afirmava.
"Bem, se você ainda não achou seu verdadeiro amor é porque não procurou direito ou então não soube conversar, mas agora eu estou aqui e lhe ajudarei a curar esse seu coração mole assim como você ajudou a curar o meu corpo."
Shun olha o irmão de forma interrogativa e o mais velho solta uma sonora gargalhada.
"Não se preocupe. Não irei transformar-lhe num pervertido, mas prometo ajudá-lo a ficar mais descontraído para que possa encontrar a moça ideal. Eu quero vê-lo feliz e de bem com a vida, pois você merece!"
"Niisan!", Shun começa a abraçá-lo de forma emocionada.
Ikki continua com as carícias num gesto fraternal, como sempre fazia e começa a conversar com ele como nos tempos de infância. Voltara a desempenhar o papel de irmão mais velho, de tudo aquilo que sempre fora antes do acidente. Passou horas aconselhando e brincando com o caçula que entregou-se em suas mãos. Sentados na cama, haviam esquecido de todos os seus problemas, da enfermidade do moreno e de todo o receio que o mais novo ainda guardava sobre os gestos mais bruscos do ex-cavaleiro de Fênix. Como acontecera muitas vezes durante o tratamento, haviam voltado aos seus papéis originais: Ikki forte e protetor; Shun frágil e protegido. Convenceu o garoto a deitar e descansar um pouco. Foi prontamente atendido.
"Eu tenho muito orgulho de você, Shun! Está se mostrando cada vez mais forte e mesmo assim não perde esse seu jeitinho carinhoso que tanto aprendi a amar e proteger..."
"Eu também tenho muito orgulho de você niisan! Está sempre se superando, mostrando toda a sua força e coragem..."
Ikki sorri ternamente, deposita um beijo na fronte de Shun – exatamente o gesto que seu irmão havia tomado como hábito de fazer em si. Ainda sentado na cama, ajeita a coberta, pega suas muletas e dirige-se o mais silenciosamente possível para fora do quarto. Apaga as luzes e começa a pensar na própria vida, no próprio futuro e, sem que desse conta, a imagem de June aparece em sua mente, juntamente com toda a cena lamentável na loja de CDs. Olha para baixo pensando:
"Esqueça, Ikki! Ela é uma amazona e você não tem chance nenhuma nesse estado."
CONTINUA
(1) Atualmente estou escrevendo uma fic retratando a história do passado do Camus. (incompleta) Por isso decidi não fugir do tema só citar alguns pontos-chave. Se quiserem mais informações, acessem o endereço: thesenseiclub (ponto) blogspot (ponto) com
Como devem saber, o site não permite mais comentários, por isso os farei no mesmo endereço. Muito obrigada a todos os que comentaram e até a próxima.
