XIX. Último Round

"Niisan, tem certeza do que está fazendo, entende o quanto esta sua decisão pode afetar o seu destino?"

"Eu nunca tive tanta certeza de algo Shun. Sei muito bem os riscos que corro, mas acho que talvez seja um risco necessário. Quero voltar a ser o mesmo de antes."

"Mas... e se der errado? E se..."

"E se eu não tivesse sofrido aquele acidente? Talvez não estivéssemos juntos agora, talvez não tivesse conseguido perdoar a nossa mãe, talvez... bem, não importa. São só suposições e ninguém pode viver de suposições. Fomos treinados para ser cavaleiros de Atena e esperar o pior, mas agora está tudo sob controle. Sabemos que ele nunca faria nada que viesse a me prejudicar e se eu desistir agora, pode não haver uma outra chance de ter uma vida normal ao seu lado, como um grande amigo e irmão. Lembra de quando o encontrei na casa de Peixes, após a luta contra o Afrodite?"

"Lembro. Eu disse que você sempre seria o meu irmão mais velho."

"Exato! Agora estou disposto a assumir verdadeiramente esse papel. Podemos não ter o mesmo pai, mas nossos laços nunca estiveram tão estreitos."

"Ikki, niisan!", responde emocionado, abraçando-o. "Eu tenho tanto medo..."

"Eu também tenho medo, Shun. Mas se eu quiser voltar a ser o cavaleiro de Fênix, tenho que superar mais este obstáculo e provar, não só para todos, mas a mim mesmo que estou pronto para lutar novamente.", responde com um sorriso confiante.

"Você tem razão. Além do mais não tem muita escolha, pois a June prometeu que iria usar o chicote dela se você desse uma de covarde e desistisse de lutar."

"E você acha que tenho medo dela?", respondeu rindo do próprio comentário. "Eu nunca poderia imaginar que pudéssemos nos dar tão bem. Achei que ela não fosse se aproximar de mim por causa das muletas, mas..."

"Eu sempre te falei que ela era uma boa pessoa, não falei? De qualquer forma, é realmente uma surpresa ver o quanto vocês combinam e se dão bem.", sorri e o abraça. "Falando nisso, hoje comemora o 1º mês de namoro, não é mesmo?"

"Bem, oficialmente sim! Até comprei um presente, pois sei que as mulheres gostam desse tipo de coisa. Vou entregar ao fim da luta, quando souber se estou apto a reintegrar o time dos cavaleiros de bronze ou não. Prometo!"

"Eu acredito em você, niisan. Fico mais calmo por saber que está decidido. Você sabe o quanto eu odeio violência, mas acho que no fundo você tenha razão e, já que é isso que quer, só posso desejar-lhe boa sorte!"

"Darei o melhor de mim. Não sei se poderei vencer, pois Aiolia é considerado o cavaleiro de ouro mais rápido e, por mais que eu tenha treinado e evoluído, ainda acho que as minhas pernas não estão preparadas para acompanhá-lo. Mesmo assim, não irei me entregar facilmente. Ainda mais sabendo que lutaremos sem as armaduras."

"Estarei torcendo por você, ou melhor, por vocês."

Ikki já estava completamente curado de sua enfermidade. Andava normalmente e corria em velocidades sobre-humanas, assustando as pessoas comuns. Porém, ainda não conseguia atingir a velocidade da luz, como fazia antes do acidente e era isso que o incomodava. Acreditava que ainda não estava pronto para vestir novamente o traje de Fênix, embora recebesse o incentivo dos amigos e da própria Saori.

O rapaz decidiu treinar muito, com a ajuda do irmão e do próprio Aiolia que, assim como já havia prometido anteriormente, quando o amigo ainda estava preso a uma cadeira de rodas, tornou-se seu novo mestre. Ikki conseguia superar seus próprios limites com muita facilidade e a simples presença de June parecia ser suficiente para acelerar esse processo. A amazona passou a freqüentar o apartamentos dos Amamiya desde o dia em que encontrou Fênix na loja de multimídia e o ajudou no tratamento e no treinamento.

Ao sentir-se preparado, Ikki (com o apoio de Aiolia) resolveu promover uma luta entre os leoninos. Inicialmente esta decisão causou uma grande polêmica entre todos. Afinal, Aiolia era um cavaleiro de ouro e Ikki não passava de um cavaleiro de bronze, que ainda estava sofrendo os efeitos de seu sedentarismo forçado. O próprio Roger, que não entendia nada sobre as diferenças de poder, tentou tirar essa idéia da cabeça do filho, pois achava que dois amigos não poderiam brigar. Alguns cavaleiros sugeriram que ele lutasse contra um dos cavaleiros de bronze e o próprio Jabu se ofereceu lutar contra o ex-deficiente no intuito de saber se a recuperação era mesmo plena. Infelizmente Fênix estava irredutível e o grego também não fazia questão de desistir, pois acreditava que o outro poderia corresponder às suas expectativas e até superá-las.

Diante da teimosia dos dois, a luta foi marcada na arena do Santuário. A única exigência era que não fosse feito o uso de armaduras. Mu ficou responsável por levar a caixa da armadura de Fênix e deixá-la ao lado da deusa para que a mesma pudesse voltar ao seu dono após uma cerimônia previamente elaborada. Aiolia decidiu levar a armadura de Leão e deixá-la aos cuidados de Shun durante a luta. Todos os cavaleiros sobreviventes, os soldados do Santuário e alguns convidados como os parentes dos cavaleiros presenciavam o evento, lotando as arquibancadas.

-------------- # XIX # --------------

Aiolia foi o primeiro a entrar. Estava com sua costumeira roupa de treinos e dirigiu-se ao centro da arena, cumprimentando o público que assistia. Ikki entrou logo em seguida, com um traje parecido, mas em tons escuros e repetiu as ações do grego. Ficaram frente a frente e encararam-se de forma amistosa.

"Prometo ser delicado.", dizia o cavaleiro de leão.

"Você é quem sabe, mas não serei um adversário muito bonzinho...", retribuía o outro, dando de ombros e exibindo um sorriso desafiador.

"Estamos aqui para assistir a uma luta entre os cavaleiros Ikki de Fênix e Aiolia de Leão. Esta não é uma luta de morte, mas que celebra a recuperação do nosso amigo que sofreu um acidente e chegou a estar tetraplégico, mas mostrando sua força de vontade e contando com a ajuda de pessoas muito especiais aqui presentes, pôde recuperar-se, tornando-se um exemplo a todos.", Saori dizia em pé, diante dos olhares atentos. Resumiu tudo o que acontecera desde o dia que soube que Fênix estava com traumatismo craniano, falou sobre alguns detalhes do processo de recuperação graças aos relatos de Shun, Aiolia, Roger, Ralph e do próprio Ikki. O depoimento causou comoção em quase toda a platéia e terminou com as seguintes palavras da jovem: "Eu, Saori Kido, a reencarnação de Athena, declaro essa luta iniciada. Que vença o melhor!"

Os dois prepararam-se e ficaram em posição de defesa. Ikki andou 3 passos para trás, observando atentamente cada movimento do amigo. Ainda não sabia se esperava o ataque do grego ou se ele mesmo partiria ao ataque, pois estava diante de um amigo, de um quase irmão e não sabia o que fazer, como começar. Aiolia percebeu o nervosismo do japonês e, de uma forma branda, falou:

"Acalme-se! pense que é só mais um treino. Um treino com platéia."

Ikki afirmou com a cabeça e respirou fundo, tentando relaxar.

"Isso! Agora que tal se começarmos com um bom aquecimento?"

"Boa idéia. Eu inicio!", Ikki respondia, já partindo com uma seqüência de socos em direção ao amigo.

Aiolia defendeu a todos, sem nenhum problema e conseguiu passar uma rasteira, num momento de distração do japonês, que foi ao chão, mas levantou-se imediatamente, acertando um soco de direita no queixo do grego. O cavaleiro de ouro sorriu e deu início a uma série de chutes. Ikki conseguiu desviar com pulos simples e finalizou com um salto mortal, tentando atingir um chute no rosto de Aiolia, que conteve com o braço esquerdo, mas não conseguiu derrubá-lo.

"É isso aí Ikki, está melhorando. Você sabe que essa é a velocidade atingida por singelos cavaleiros de bronze, então, o que acha de acelerar um pouquinho?"

"Demorou."

Ikki agora partiu para uma nova seqüências de socos, desta vez usando uma velocidade que superava os cavaleiros de prata, mas ainda longe de chegar à velocidade da luz. Aiolia tentava manter o mesmo ritmo, o que não era muito difícil, pelo fato de ter parado de treinar adequadamente desde o dia que saíra da Grécia. Apesar de parecer em câmera lenta aos olhos dos cavaleiros de ouro e dos cavaleiros de bronze que haviam vencido a batalha das 12 casas, era contagiante e não deixava ninguém piscar, perder um único movimento.

"O Ikki se recuperou rápido. Nem parece que já esteve condenado à paralisia.", afirmava Seiya a Shiryu.

"Ele sempre foi um grande guerreiro!", respondia o chinês.

"Eu nem acredito que o meu irmão tenha conseguido voltar ao normal.", Shun comentava emocionado.

"Você deve estar mesmo muito feliz, Shun. Acompanhou tudo desde o início e tem uma parcela enorme de culpa pela recuperação dele.", Hyoga afirmava.

"Eu não fiz quase nada. Só cuidei dele quando o Ikki não podia se virar sozinho."

"Fala a verdade, Shun! O Ikki é mesmo um vaso ruim! Pode rachar, trincar, mas são fissuras tão superficiais que faz com que a gente não possa se livrar dele tão cedo.", brincava Seiya.

"Ei, você queria se livrar do meu irmão?"

"Não, eu não poderia! Se fizesse isso teria que assumir a responsabilidade de vencer os seus adversários quando você estivesse apanhando."

"O que disse?", perguntou, fingindo ira. "Acho que vou esquecer essa minha idéia de não gostar de violência por uns minutos..."

"Não precisa, Shun! Deixa comigo. Estava mesmo precisando exercitar a técnica do caixão de gelo. Seria uma bela escultura, o que acha?"

"Eu acho que vocês estão brincando muito e perdendo a luta.", Shiryu comentava de forma divertida, chamando a atenção dos 3, que passaram a brincar com ele e logo em seguida voltaram a restar atenção na luta.

Perto dali estavam os cavaleiros de ouro. De todos os sobreviventes da batalha das 12 casas, apenas Dohko não estava entre eles, pois estava na China, vigiando o selo de Atena.

"O rapaz tem força!", comentava Aldebaran.

"Realmente foi uma ótima recuperação! Ainda me lembro de quando ele estava conosco, preso a uma cadeira de rodas. Eu pensei que ele nunca fosse se recuperar...", comentava Milo.

"Vocês ainda não viram nada. Ikki está com medo de machucar Aiolia e de se ferir, mas eu posso afirmar que isso não é nem fagulha de seu poder.", afirmava Shaka.

"O Aiolia também não anda treinando e está com receios de atingir o rapaz. Já repararam como ele evita ou ameniza os possíveis impactos na cabeça?", comentava Mu.

"É verdade! Eu tinha reparado mesmo, mas achei que fosse impressão minha...", Milo atestava.

"De qualquer forma, ele é realmente corajoso. Observem os movimentos das pernas dele e a forma como se move. Ainda está aquém do que era antes do acidente.", observou o cavaleiro de Virgem.

"Como sempre, perfeccionista!", Aldebaran fingia reclamar.

"Acho que foi por isso que ele relutou tanto em aceitar a armadura e só cedeu quando Atena permitiu essa luta."

"Pode ser, Mu.", Aldebaran afirmou dando término à discussão.

No centro da arena, a seqüência de socos e chutes havia se acabado e os dois voltaram a se encarar. Quando Ikki ameaçou fazer um movimento mais brusco, Aiolia aumentou seu cosmo e, na tentativa de pegar o japonês de surpresa, avançou com toda a sua velocidade num tiro certeiro na direção do peito do amigo.

"Pata do Leão!"

Ikki conseguiu conter o ataque com as mãos e tentou devolvê-lo, em vão. Sorriu de forma sarcástica e começou a fazer gestos, incentivando um novo ataque do outro. Aiolia caiu na armadilha e foi pra cima do japonês.

"Pata do Leão!"

Ikki desviou do ataque e acertou um soco no estômago do grego, fazendo-o ir ao chão, com as mãos no local atingido. Num ar provocativo, Agachou-se ao lado e disse:

"O mesmo golpe não funciona duas vezes com o mesmo cavaleiro."

"Tem razão. Fui mesmo imprudente...", respondeu, desequilibrando o japonês e tentando imobilizá-lo.

Ikki conseguiu evitar o ataque e logo estava em pé. Mesmo sentindo a dor do ataque do amigo, Aiolia usou a velocidade da luz para ficar atrás de Fênix, iniciando uma nova briga de socos e chutes.

Próximo dos cavaleiros de ouro e bronze maiores, estavam Jabu e seus amigos. O cavaleiro de Unicórnio cruzou os braço e bufou ao acompanhar a luta. Fez questão de falar em voz alta, para ser ouvido por todos.

"O Aiolia está fazendo corpo mole só pra deixar o Ikki ganhar. Qualquer idiota vê que ele nunca deixará de ser um aleijado. Vai acabar atrapalhando numa próxima batalha."

"Ah claro! E você ajudou muito mesmo...", Seiya respondia com sarcasmo.

"Ignore-o, Seiya! Meu irmão conhece suas capacidades."

"É um ignorante mesmo!", falava Milo. "Ikki pode não estar em plena forma, mas o Aiolia está longe de estar fazendo corpo mole."

"Vocês só falam isso pra defender o coitadinho."

"Respeite-me, moleque!", Milo exigia, elevando seu cosmo.

"Milo, acalme-se! Não vai estragar esse espetáculo por uma besteira

"Tem razão, Aldebaran. Não vou me rebaixar ao nível dele, que se diz cavaleiro. São pessoas assim que sujam a nossa imagem, envergonhando-nos."

Jabu o encarou com um olhar assassino, mas resolveu não brigar ali. Dizia que não queria decepcionar Saori, mas que no momento certo o cavaleiro de escorpião iria se arrepender. Hyoga o observou dos pés à cabeça e respondeu com um sorriso sarcástico. Sabia que o outro não tentaria nada, pois não teria capacidades para lutar contra os cavaleiros de ouro. Concordava com Milo quando este afirmou que o rapaz era uma vergonha – não só pela falta de capacidade de pensar, como de desenvolver-se como cavaleiro. Escorpião ignorou qualquer ameaça e voltou a prestar atenção na luta que se desenvolvia com maestria e arrepiava cada vez mais.

Alheios à discussão iniciada nas arquibancadas, ambos os combatentes atacaram ao mesmo tempo:

"Ave Fênix!"

"Relâmpago de Plasma!"

Os ataques poderosos arremessaram os dois corpos para trás, fazendo com que os dois leoninos gritassem de dor ao mesmo tempo. A platéia ficou em pé e Hyoga segurou Shun pelo pulso, impedindo-o de cometer alguma loucura. Andrômeda debateu-se, na tentativa de partir em socorro do irmão e só parou ao vê-lo erguer-se novamente.

Ikki apresentava arranhões por todo o corpo e um corte sem muita importância no braço esquerdo. Levantou-se com um pouco de dificuldade, devido às dores do impacto e começou a andar na direção de Aiolia, que não fazia um único movimento. O japonês não era burro e sabia que seu golpe não havia sido tão forte assim. Obviamente já esperava um golpe do amigo, que também possuía uma série de arranhões pelo corpo, mas em menor quantidade e profundidade. Não pensou entes de atacá-lo novamente.

"Ave Fênix!"

Aiolia desviou do ataque e, sem que Ikki conseguisse tomar conhecimento já estava imobilizado. Por mais que tentasse, não conseguia livrar-se do grego e uma série de flashes passou pela sua cabeça. Lembrou-se de quando apanhou de Tatsume quando tentou ir atrás Shun para tirá-lo do ônibus e livrá-lo do inferno da Ilha de Andrômeda, lembrou-se das duas vezes que tentou matar o irmão: na guerra galática e na batalha dos cavaleiros negros, lembrou-se da batalha das 12 casas e de quando ainda acreditava que os cavaleiros de bronze eram seus irmãos e foi obrigado a vê-los caídos nas 3 últimas casas do zodíaco. A última imagem em sua mente fora a imagem de Saga tentando matar Seiya e depois da luta que havia travado contra o geminiano. Neste momento, o pesadelo que tivera no dia em que começara a recuperar os movimentos de seu corpo, viera-lhe à mente, fazendo seu cosmo explodir de raiva, ódio, humilhação!

Livrou-se da imobilização de Aiolia, alcançou o sétimo sentido sem perceber e a armadura de Fênix cobriu seu corpo. O grego também elevou seu cosmo e chamou a armadura de Leão, que respondeu prontamente ao seu comando. Um grande silêncio fez-se presente. Era quase possível ouvir a batida dos corações de cada membro da platéia, que ficou em pé ao ver a imagem da Fênix aparecer atrás de Ikki e do Leão atrás de Aiolia. Sem medir a intensidade, como se estivesse diante de um inimigo, o japonês iniciou o ataque.

"Golpe Fantasma de Fênix!"

"Relâmpago de Plasma!"

Aiolia caiu com o golpe recebido e viu o japonês ser arremessado a uma distância superior a 200 metros, levantou-se e, cambaleante, correu em seu socorro. Aterrorizado, viu a cabeça ensangüentada, o olhar de medo e desespero no rosto do jovem amigo e ajoelhou-se ao seu lado, usando seu cosmo para conter a hemorragia e curar o ferimento. Olhares de revolta foram lançados, um clima de tensão formou-se no ambiente, esperando por alguma reação de Fênix. Roger e Ralph rapidamente se deslocavam pelo público na tentativa de chegar o mais rápido possível ao ferido.

"Ikki, fala comigo!", implorava Aiolia.

"Aiolia...", chamava com dificuldade, o corpo completamente inerte nos braços do grego. "Por que você fez isso, por quê?"

"Eu não queria... Me perdoe, eu não queria feri-lo. Tente não se mover, logo estará bem.", dizia carinhosamente, tentando protegê-lo e gritava por ajuda em seguida.

"Nem se eu quisesse. Eu... eu não posso me mover. Eu não sinto nada! Eu... eu voltei a ser tetraplégico... e por sua causa!"

"Não diga isso! Por favor... Você ainda está sob o impacto do meu golpe e..."

"Saia de perto do meu filho, seu assassino!", bradava Roger, perto deles.

Gritos de traidor ecoaram pela arena e Aiolia viu-se envolto pelos cavaleiros de ouro, que logo abriram espaço para Shun. Preocupado, Andrômeda dirigiu-se ao irmão, lançando um olhar de decepção e revolta ao cavaleiro de Leão. Seiya, Hyoga e Shiryu acompanhavam o jovem de cabelos verdes e mostravam a mágoa pela atitude covarde daquele grego que estava imobilizado, chocado demais para proferir qualquer palavra ou executar qualquer gesto.

"Ricky está tetraplégico... pra sempre!", anunciou o neurocirurgião.

Ao ouvir esta afirmação, o coração de Aiolia acelerou-se e passou a encarar os olhos dos amigos, tentando pedir ajuda. Não podia acreditar no que estava ouvindo. Fora o culpado por aquela situação, havia condenado seu amigo, seu quase irmão a um destino horrível daqueles. Pensou em se matar, mas não poderia! Seria muita covardia de sua parte morrer justo agora.

"Aiolia de Leão, você acaba de cometer um ato de traição diante de todo o Santuário e sabe qual é a pena para isso.", sentenciava Saori.

"Não, senhorita Saori. Não mate-o!"

"Mas Shun..."

"Eu quero que ele sofra! Toda vez que olhar o meu irmão vai lembrar-se de que foi o culpado pela tragédia. Se for para puni-lo, obrigue-o a cuidar de Ikki para o resto da vida e depois mate-o lentamente, com toda a crueldade que os livros antigos permitem."

"Que assim seja! Faço de minha sentença as palavras de Shun.", declara a deusa.

"Atena, se me permite há uma prisão no mar... no cabo Sunion, que enche de água nas marés altas. Dizem que a água não chega até o topo, possibilitando a escolha do prisioneiro morrer de fome ou afogado. É uma ótima opção para que sua sentença seja cumprida.", afirmava Milo.

"Aiolia, você denegriu a imagem de seu irmão. Ele deve estar envergonhado!", comentava um soldado mais antigo.

"Na verdade, estou com nojo desse indivíduo. Achei que tivesse criado um homem, mas vejo que criei uma cobra venenosa e peçonhenta, pronta para dar o bote. O que você fez é imperdoável.", a alma de Aiolos aparecia diante todos, na forma de um anjo.

"Aiolos, meu irmão... Eu não tive culpa! Era para ser um simples golpe e..."

"Nunca mais me chame de irmão, covarde. Espero que, quando morrer, queime nas chamas do inferno."

"Aiolos, Ikki, me perdoem!..."

"Você me chamou de traidor, acreditou que eu era um covarde e agora entendo o por quê. Depositou em minha imagem, o seu verdadeiro eu."

"É fácil falar... Você tem noção do que seja não poder se mover? Eu nunca o perdoarei Aiolia. Confiei em você e agora...", as lágrimas começaram a brotar nos olhos de Ikki. "O que vai ser do meu futuro?"

"Ikki, não se desespere! Você é um inocente e o outro mundo sabe disso. Quanto a você, Aiolia, ficar preso no cabo Sunion é uma sentença muito leve se compararmos com o julgamento de sua alma.", Aiolos dizia de forma demoníaca. "Agora eu preciso ir."

"Aiolos, espere!", gritava Aiolia.

Ao contrário do que alguns ainda poderiam esperar, o fantasma de Aiolos continua andando, mostrando as costas ao irmão. O cavaleiro de Leão entra em desespero, sentindo nojo das próprias mãos, fartas de sangue do seu amigo e com uma pontada no peito acompanha a alma de seu irmão desintegrando-se como fumaça. Passa a gritar aos céus para fazer com que ele trocasse de lugar com Ikki e que sofresse as conseqüências de seus atos. O céu, que até então estava límpido, escurece e um raio cai sobre a casa de Leão. Os dois leoninos ficam inconscientes e são colocados numa ambulância.

-------------- # XIX # --------------

"Shun, como você está?", perguntava June.

"Estou muito mal... sabia que isso não ia dar certo."

"Eu me sinto um pouco culpada. Se não tivesse forçado a barra..."

"O Ikki ia lhe dar um presente pelo aniversário de namoro após a luta."

"É a cara dele mesmo. O mais incrível é que eu tinha esquecido."

"Você?", sorri sem graça. "Ainda não acredito no que acabou de acontecer... Parece um pesadelo!"

"E eu nem sei o que dizer..."

"Você sabe que não vai ser fácil. Pretende..."

"Eu apoiarei o seu irmão e ficarei ao lado dele, independente do que o destino reservar-lhe. Prometo que não o decepcionarei."

"Não se deve ficar com alguém por pena."

"Eu sei. Tenho é muito orgulho do Ikki!", responde firmemente e abre um largo sorriso em seguida. "Aliás... Se alguém lhe ouvisse, acharia que o Fênix está condenado."

"E não está? Ele adora o Aiolia..."

"Shun, não foi nada grave. O Aiolia é muito forte, mas acho que deixou se levar pelo nervosismo da luta e de tudo o que passaram juntos. Ele recebeu o Golpe Fantasma e sofreu as conseqüências deste, mas o próprio Ikki disse que logo tudo voltará ao normal."

"Estou com medo. Não gosto de ver o niisan apanhando, mas ver o Aiolia naquele estado me cortou o coração. Eu sei que foi uma luta justa, mas..."

"Você não muda mesmo! Eu já imaginei que você fosse ficar assim, independente do resultado. Seu pai disse que eles estão fora de perigo. Então, não tem com o que se preocupar! Agora ponha um sorriso no rosto, pois tenho certeza que o Aiolia não gostaria de vê-lo chorando. Além do mais, o Ikki precisa de você..."

"Tem razão.", respira fundo e sorri. "Apesar de não ter se ferido gravemente, o niisan deve estar quebrado por dentro. Nem ele esperava que seu golpe fosse tão devastador."

"É assim que se diz, gikei."

"Ahn?"

"Oras! Não é assim que os japoneses chamam os cunhados?"

Shun responde com um sorriso encantador e levanta-se. Caminha rumo ao horizonte, em direção ao hospital ao lado de June, conversando animadamente com ela. Tinha tanto a contar, desabafar... A garota ouvia tudo atentamente e o aconselhava da melhor forma possível, como sempre fizera na Ilha de Andrômeda. Não haviam dúvidas: eram mesmo irmãos perdidos no tempo e espaço. Irmão sem laços de sangue, mas ligados para sempre através da alma, do cosmo e de um passado em comum.

-------------- # XIX # --------------

"Aiolia, Aiolia, acorde!"

"Ikki? Ikki é você? Você está andando? Mas... o quê..."

"Acho que exagerei no meu ataque. Desculpe. Como se sente?"

"Meu sistema nervoso está estranho... Parece que fiz muito mais força do que estava acostumado e meus membros não respondem direito."

"Tudo bem, logo passa. Esse é o efeito do meu golpe psíquico. Ele destrói o sistema nervoso e compromete o oponente psicologicamente. Não deveria ter usado em você, mas não pensei que fosse ter um efeito tão agressivo."

"Onde eu estou afinal?"

"Na enfermaria do santuário. Esteve fora do ar por quase uma hora e nos deixou muito preocupados. Meu pai já te examinou e falou que não foi nada grave."

"Tive um pesadelo horrível após a sua ilusão. Pensei que o tivesse atingido na cabeça e lhe condenado a ficar tetraplégico para sempre. Todos me chamaram de traidor e o meu irmão disse que tinha nojo de mim."

"Acalme-se, foi só uma ilusão. Aiolos está muito orgulhoso de você, tenho certeza!", declara, abraçando-o. "Quanto ao golpe, apesar de ter conseguido desviar de alguns socos por já conhece-lo, fui atingido na cabeça, no mesmo lugar onde fraturei naquele acidente de trem, mas isso não me afetou. Meu pai até insistiu em fazer uma tomografia, confirmou que eu já estava definitivamente curado e até brincou dizendo que eu não tinha nada na cabeça."

Aiolia riu da afirmação de Ikki e sentou-se na cama.

"Essa foi a melhor notícia que eu poderia ouvir. Torci tanto pela sua cura..."

"Eu sei amigo. Agora descanse, pois mais tarde será feita uma festa de cerimônia pelo retorno de Fênix e quero que você participe!"

"Não perderia por nada!"

-------------- # XIX # --------------

Era uma tarde linda, os relógios marcavam 5 horas da tarde, os convidados estavam com sua melhor roupa de gala e Saori usava um vestido branco, muito fino e social. Ikki estava ajoelhado, de forma respeitosa, diante da deusa. Logo atrás dela, encontravam-se os cavaleiros de ouro, ordenados pelas casas e atrás deles, estavam os cavaleiros de bronze, todos com suas armaduras.

"Ikki provou ser um grande cavaleiro e merecedor do título de Fênix. Há algum tempo, morreu como guerreiro e talvez tenha chegado a morrer como homem, revoltado pelo destino que a vida lhe havia dado, julgando-se um corpo sem vida, uma aberração da natureza eternamente dependente da tecnologia, dos cuidados de terceiros. Acreditava que havia sido amaldiçoado pelos céus, mas lutou contra si mesmo, venceu seu destino quando voltou do inferno, quando usou seus talento e capacidade para vencer seus adversários e novamente quando teve que lutar contra si mesmo. Hoje ele conseguiu vencer Aiolia de Leão, um de nossos mais fiéis e competentes cavaleiros. Foi uma batalha emocionante, que mostrou a todos o renascimento da Fênix e provou que o nosso amigo já está novamente pronto para lutar ao nosso lado. Como reencarnação de Athena, eu tenho a honra e o orgulho de entregar a armadura de Fênix a seu verdadeiro dono e peço para que isso seja feito pelas mãos de 2 cavaleiros muito especiais: Aiolia de Leão e Shun de Andrômeda."

Todos aplaudem de pé os dois cavaleiros, que chegam emocionados e fazem uma reverência à deusa ao chegar a sua frente. Shun pega o lado direito da caixa e Aiolia o esquerdo. Num ritmo lento e aparentemente ensaiado, os dois depositam a caixa à frente de Ikki e o abraçam.

"Parabéns, amigo! Eu sabia que você conseguiria."

"Niisan...", Shun não conseguiu dizer nada, estava engasgado pela emoção.

Ikki sorriu-lhes e, contendo-se para não emocionar-se, disse:

"Aiolia, se você chorar vão acabar desconfiando e eu não quero ouvir boatos de que mudei de time ou coisa assim."

"Você tem amor pela sua vida?"

"Claro! Principalmente agora que consegui provar que posso derrotá-lo."

"Vocês não tomam jeito mesmo! Até aqui...", Shun repreende, secando as lágrimas e tentando conter o choro.

Os leoninos riem e após um gesto da deusa, Ikki fica em pé e veste seu traje sagrado. A platéia aplaude e, com exceção de Jabu, que ainda reclamava alguma coisa, todos os demais cavaleiros vão cumprimentá-lo. Ao perceber que ficara por último, o cavaleiro de Unicórnio dirige-se ao de Fênix, visivelmente a contra-gosto. Num gesto de falsa distração, Jabu pisa no pé do outro ao tentar aproximar-se de seu ouvido, falando em voz baixa:

"Adorei o teatrinho. Aiolia ficou com pena e resolveu deixá-lo ganhar. Se soubesse disso, teria desejado que você quebrasse a perna..."

"Isso tudo é pelo fato de eu ter conseguido enganá-lo quando ainda estava paralítico?"

"Não interessa! Você ainda vai se arrepender de estar me tratando assim.", respondeu raivosamente e saiu pelo meio da multidão, sumindo da vista de todos.

"Ricky..."

"Não precisa ficar assustado, pai. Esse aí não é nenhuma ameaça para mim."

"Mas..."

"Esqueça o que acabou de ouvir e venha me dar um abraço! Se há algum responsável por eu estar aqui é você."

Roger ainda não havia esquecido da briga que haviam tido há alguns meses atrás. Sabia que o rapaz o vinha tratando de uma forma cada vez mais parecida com a do começo de sua relação, mas o fato de não ter recebido o perdão do japonês o entristecia profundamente. Shun tentava convencê-los de que era um motivo muito medíocre para acabar com suas vidas, com uma amizade tão bonita e nem assim Ikki se dignava a fazer um pedido explícito de perdão. Achava desnecessário. O suíço esboçou um sorriso e abraçou o rapaz com força, contendo-se para não chorar.

Fênix percebeu o quanto seu pai estava sofrendo. O seu jeito trêmulo, os olhos tristes que já não tinham o mesmo brilho de antes. Enfim! Estava visivelmente muito mais abatido do que no dia em que se conheceram, durante a consulta na Inglaterra. O jovem respirou fundo e afastou-se o suficiente para poder encará-lo nos olhos.

"Eu sei que já devia ter dito isso há mais tempo, mas... eu já o perdoei. O tempo fez com que eu entendesse os seus motivos, conhecesse o seu mundo e a você mesmo. Às vezes ainda acho que foi um pouco de covardia, mas quem não tem medo de alguma coisa? Talvez tenha sido um pouco de egoísmo, mas que pai não volta os pensamentos a si, não pensa no sofrimento que poderia ter ao perder um filho depois tê-lo de volta? No seu caso foram dois. Bem... eu não sou muito bom com palavras, mas eu gostaria que você voltasse a ser o meu pai novamente. Que passássemos uma borracha naquela discussão e voltássemos a ter a mesma relação que tínhamos antes. Afinal, se você me deu uma segunda chance de viver, por que eu não posso lhe dar também?"

"Ricky..."

"Pode chorar o quanto quiser papai, você merece. Eu sei que o meu esforço foi essencial para a recuperação, mas... você aceita esse jovem encrenqueiro, cabeça quente, ranzinza e um pouco estúpido como seu filho?"

"Não fale assim! Você é um excelente rapaz e tenho muito orgulho de ser seu pai."

"Eu te amo, pai."

"Eu também te amo muito, Ricky!"

Abraçam-se fortemente. Roger chora no ombro do rapaz, emocionando a todos que assistiam. Pai e filho são ovacionados. Milo chega por trás e pega Ikki no colo, jogando para o alto, junto dos demais cavaleiros. Fênix sorri com a brincadeira e entrega-se na mão dos amigos enquanto Shun acompanha tudo de longe, abraçado a Roger. Mal se sente em chão firme, ouve duas vozes infantis.

"Ikki, niisan!"

Fênix sorri ao ver Keshi e Yuki correrem em sua direção. Abaixou-se para ficar da altura da caçula e abriu os braços para receber um abraço dos dois.

"Você é grande..."

"E muito forte também. Nem consegui ver a sua luta, mas pelo que o Shun falou você acabou com o Aiolia."

"Não foi bem assim, Yuki. Tivemos uma luta muito disputada, mas eu acabei vencendo. Quanto à altura não sou tão alto assim... Já tenho 16 anos e estou com 1,77. Terei sorte se conseguir chegar a 1,80. Já o Shun..."

"É... ele também cresceu. Sabe que vocês ficaram mais bonitos vestidos assim?"

"Você ficou tão imponente... parece ser bem maior e mais forte com a armadura."

"Obrigado, crianças. Keshi, eu lhe devo um agradecimento especial, pois se estou recuperado foi graças às suas orações."

"...Você quase morreu por minha causa. Foi por muito pouco que eu não o deixo preso na cadeira de rodas..."

"Não fale assim, Yuki. Se não fosse aquele acidente eu não teria conhecido o irmão maravilhoso que eu tenho, ou melhor, os irmãos! Apesar de tudo, estou muito feliz por ter passado por tudo isso. Aprendi muita coisa e devo tudo a você, meu irmão!"

"Mas... e se..."

"Shh! Não pense no passado, no que poderia ter feito. Viva o presente e tente pensar um pouquinho no futuro. Promete que não ficará se martirizando?"

"Prometo!"

Num local mais afastado, Hyoga conversava com Shun.

"Detesto dizer isso, mas estou muito feliz por ter o Ikki de volta."

"Eu não entendo essa implicância de vocês!"

"Às vezes nem eu.", Hyoga sorri. "Soube que o seu irmão está namorando com a June. O que pretende fazer agora?"

"Ainda não sei. Fiquei tanto tempo cuidando dele que decidi deixar o destino cuidar de mim. Vou pensar sobre tudo o que andou acontecendo, decidir se continuo ao lado do meu pai, se volto para Tóquio, enfim!"

"Entendo."

"Ei, não precisa ficar chateado pelo que eu disse, tomar as minhas dores. Há muito que descobri não gostar da June como mulher e sim como... como uma irmã talvez."

Hyoga limita-se a sorrir.

"Shun há quanto tempo! Como você cresceu..."

"Tata? Tata, você..."

"O Ikki não te contou?", Hyoga pergunta surpreso.

"O quê?"

"A Saori pagou um curso intensivo de inglês e está pagando as aulas de grego da minha irmã."

"Meu grego ainda é uma lástima, mas consegui pegar o inglês rapidinho... Já tinha uma base na escola."

"Que bom! Agora não precisamos mais do Aldebaran para fazer as traduções simultâneas."

"Eu comecei os cursos assim que voltei ao Brasil... após ter conhecido vocês."

"Legal."

"Eu também estou muito feliz por poder falar com a minha irmã sem ter alguém no meio. O único problema é que ela está aprendendo o inglês mais rápido que eu..."

"Tem palavras e expressões que o Hyoga não entende. Acho que um pouco é pelo fato d'eu estar aprendendo o inglês americano e vocês o inglês da Inglaterra."

"Notei que você tem um sotaque estranho mesmo..."

Tata sorri.

"Eu pensei que eu fosse ser um dos mais altos, mas o Shun já está me alcançando..."

"A última vez que me medi estava com 1,74."

"Também, com um pai daquele tamanho..."

"Nem me lembre! Mas acho que você também andou crescendo Tata."

"Nem tanto! O salto me deixou mais alta. Agora estou com 1,64... Não tenho culpa se o egoísta do meu irmão resolveu pegar mais hormônio do crescimento para ele."

"Como se eu fosse muito mais alto! Acho que temos uns 9 centímetros de diferença."

Os três riem.

"Espero que o Hyoga não fique bravo comigo, mas de todas as armaduras achei que a de Andrômeda era a mais bonita."

"Verdade?", Shun pergunta timidamente.

"Ahan. Mas há uma coisa que me intriga."

"O quê?", Shun pergunta.

"Essas armaduras... Se o Shun começar a crescer muito não poderá mais usar a armadura dele, não é?"

"Não é bem assim. Elas se ajustam ao corpo. Ou você acha que todos os antecessores do Aldebaran tinham o mesmo tamanho que ele?"

"Pensando nesse sentido..."

"Shun, Tata, se me dão licença, preciso dar uma saidinha."

"Pode fazer o seu pit stop tranqüilo, mano."

Hyoga lança um olhar reprovativo à irmã e afasta-se. Não tinha intenção de ir ao banheiro. Apenas queria deixar o casal a sós. Sorriu ao vê-los conversando de forma tão animada que pareciam conhecer-se há séculos.

-------------- # XIX # --------------

"Boa noite, doutor Aiolia."

"Ikki?"

"Acha que eu ia perder a oportunidade de lhe dar os parabéns? Além de se formar, ainda conseguiu ser o primeiro da turma."

"Graças a você..."

"Ah sim! Fui sua primeira cobaia."

"Engraçadinho... Quer que eu o devolva ao estado em que lhe encontrei?"

"Pode tentar. Todos sabem que eu lhe venço com um único dedo..."

"Convencido! Eu vou querer revanche.", cruza os braços e demonstra-se ofendido, mas logo volta a animar-se. "Falando sério, se você não tivesse tido paciência para me ensinar a falar inglês e me deixado ajudar-lhe no tratamento, não sei se estaria aqui."

"Claro que estaria! Você é um bravo guerreiro e só venceu graças à sua força de vontade.", responde sorrindo. "Agora venha comigo! O pessoal está lhe esperando."

"Ok."

Ikki leva Aiolia à mesa onde estavam Shun, Roger, June, Hyoga, Tata e Ralph. Shun é o primeiro a se levantar e corre abraçar o amigo.

"Parabéns, Aiolia. Você conseguiu!"

"Sabia que até o Ikki chorou quando você homenageou o Aiolos e falou que agora tinha uma nova família, um novo par de irmãos?", pergunta Hyoga.

"Cala a boca, pato!"

"Respeite o meu irmão! Ele não é pato.", reclamava Tata, que prosseguiu em tom explicativo. "É cisne, que é muito mais bonito."

"Valeu pelo apoio moral, minha irmã."

"De nada."

"Quanto tempo mais terei que agüentar esse tipo de coisa?", Shun perguntava.

"Depende.", respondeu Tata.

"Depende do quê? De quanto tempo eles levarão pra crescer?"

"Da sua resposta."

Todos se voltam à menina de forma interrogativa. Ikki e Hyoga eram os únicos que sabiam o que estava por vir, mas conseguiram controlar-se para não rir e ainda enganaram a todos que não sabiam o que a jovem tinha em mente. Tata fingiu procurar desesperadamente por algo na bolsa e despejou o conteúdo na mesa, num gesto engraçado. De forma teatral, pegou uma pequena caixa como se tivesse achado um tesouro e guardou o restante, chamando a atenção de várias pessoas das mesas ao redor.

"Ai, Tata, não me faça passar vergonha!", pedia um Hyoga extremamente rubro, tentando esconder o rosto atrás das mãos.

"Tinha que ser irmã do pato... Vai acabar estragando a festa!", resmungava Ikki.

"Tata, o que está acontecendo?", perguntou Shun.

"Tata não, Catarina!", disse pegando a caixa em mãos e estendendo ao cavaleiro de Andrômeda. "Shun Amamiya Keller, você deseja namorar comigo?"

"Quê? Eu... M-mas..."

"Ao que sei é o rapaz quem pede a moça em namoro ou casamento...", comentava Roger.

"Tem razão, mas se eu dependesse do Shun, faríamos Bodas de Ouro antes de casar ou mesmo namorar..."

"Ei, Shun, não disse que eu o ajudava a desencalhar? É uma pena que agora o pato pertença à nossa família, mas pelo menos a irmã dele compensa."

Shun, completamente tímido e rubro, continua mudo. Ele olha o par de alianças, pega a caixa, mas permanece em estado de choque. Olha nos olhos de Tata e depois para cada um dos presentes. Já com as alianças em mãos, encara a pretendente.

"Você quer namorar comigo?"

"Bem, se você não aceitar, eu entendo. Afinal, somos tão diferentes... Moramos em países distantes, vivemos em realidades sociais quase opostas, temos um estilo de vida e uma personalidade distintas..."

"Eu nunca liguei pra dinheiro. Fui criado num orfanato e há muito pouco tempo soube quem era o meu pai, por isso não imponha essa barreira entre nós. Mas você é tão alegre, inteligente e bonita... Como se interessaria em alguém como eu: um menino tímido, chorão e com tão pouco a acrescentar em sua experiência de vida?"

"Dizem que os opostos se atraem... Quem sabe não seja o nosso caso. Além do mais, com essa carinha de anjo, acho que não é difícil que alguém se apaixone por você."

"Tata eu não sei o que dizer..."

"É só responder à pergunta que fiz anteriormente: quer namorar comigo?"

"Eu..."

"Aceita logo, Shun!", Aiolia dava forças.

"Eu prometo suportar o pato..."

"E eu serei um cunhado bonzinho.", Hyoga comentava.

"Não desperdice essa oportunidade, meu filho. Siga seu coração e seja feliz."

"Shun, acredite em si mesmo e não tenha medo.", June pedia.

Após ouvir todas as opiniões, Shun respira profundamente. Olha novamente para Tata e sorri, pegando as alianças.

"Como o meu pai disse, estamos fazendo errado. Eu quero ter a honra de perguntar se você, Catarina Yukida Santana quer namorar comigo."

"Eu aceito!"

Shun sorri e coloca a aliança de compromisso no dedo da jovem, que coloca a outra no dedo do namorado. Os dois beijam-se apaixonadamente e são ovacionados pelos amigos. Empolgada, June puxa Ikki para um beijo também. Hyoga levanta-se e vai à pista de dança, deixando os amantes a sós.

"Acho que estamos de vela.", Aiolia comenta com Roger e Ralph.

"Não por muito tempo..."

"Essa voz... Marin?"

"Achou que eu ia perder essa festa?", perguntava ao ouvido dele, o abraçando e empurrando pra pista de dança, aproveitando o ritmo romântico que tocava.

"É Roger, Você conseguiu!"

"Meus filhos... estou tão feliz por eles."

"Depois de tanta luta, você merecia a vitória."

"Graças a você meu amigo. Você foi um anjo que ficou ao meu lado..."

Ralph dá um meio sorriso tímido e fala:

"Se me dá licença, agora eu preciso voltar para casa. Prometi que voltava cedo..."

"Tudo bem, eu entendo... Você tem a sua família. Seja feliz!"

"Você também... Não esqueça de abrir o seu coração ao amor."

Os dois se abraçam e Ralph começa a adentrar a multidão rumo à saída. Em apenas alguns minutos, ele some completamente de vista, como se simplesmente tivesse evaporado no meio do tumulto. Roger levanta-se no intuito de ir ao bar pedir um drink, mas é surpreendido por um corpo caindo sobre si.

"Desculpe, senhor. Eu estava distraída e tropecei..."

Roger repara na mulher que havia dito as palavras: os olhos azuis, a pele alva e o cabelo cor de fogo davam-lhe um ar imponente. Ajuda-a a levantar-se, admirando a sua beleza. Um pouco inseguro, pergunta:

"Me acompanha num drink?"

"Só se for agora. A propósito... Me chamo Amanda, mas pode me chamar de Mandy e antes que vire as costas, devo avisar que tenho 33 anos, sou viúva e tenho um casal de filhos. O menino tem 9 anos e a menina 4."

"E o que isso tem de mais?", pergunta como se fosse um dado sem importância. "Meu nome é Roger e sou pai solteiro. Meus 2 filhos estão nessa festa: um jovem de 16 anos e outro de 14. O mais novo acabou de ser pedido em namoro..."

"As coisas estão realmente mudando...", comenta animadamente.

"Sabe... Eu adoro crianças.", Roger comenta timidamente e desvia a atenção ao garçom. "O menu, por favor!"

Ao receber o cardápio em mãos, entrega-o à Amanda.

"Escolha qualquer coisa, eu pago."

Amanda sorri, escolhe a opção mais barata e começa a conversar com ele. Em poucos minutos, o suíço cria coragem e a leva à mesa dos filhos, que passam a interrogá-la. Tão logo percebem tratar-se de uma boa pessoa, a acolhem torcendo para que o pai tenha um relacionamento sério, como sempre mereceu.

FIM


Depois de um grande atraso, eis o fim! Devo confessar que demorei um pouco por falta de inspiração e depois, quado a fic já estava na 9ª página, meu primo deletou sem querer e tive de refazer. Mas o importante é que finalmente está completa. Sinceramente, espero que tenham gostado do final...

Bom, gostaria de agradecer a todos os que leram, independente de comentar ou não! Mas devo um agradecimento especial à Angel, que betou este capítulo e me incentivou a postá-lo. Um grande abraço, mana! Há outras pessoas muito especiais que sempre me acompanharam, mas que não ousarei listar, pois posso esquecer de alguém e isso magoariapessoas muito especiais que eu admiro. Eu responderei a todos os reviews do capítulo anterior através do serviço de mensagem do fanfiction. Muito obrigada a todos e até a próxima!