— Bella! — Renée gritou, parada ao lado da Picape com as sacolas pendendo desajeitadamente nos braços magros. — O que está fazendo, filha? Ande!

No mesmo instante, Bella despertou do seu torpor a tempo de virar para sua mãe, antes que Renée curiosamente seguisse seu olhar fixo no Volvo parado do outro lado do estacionamento. Enquanto apressava o passo em direção a sua mãe sem olhar para trás, Bella sentiu a tensão pesar em seus ombros, ela sabia o que encontraria se ousasse dar uma espiada, mas não tinha ideia de quais efeitos aquilo poderia lhe causar mais tarde.

A ignorância simplesmente pareceu mais confortável naquele caso.

— O que aconteceu?

— Nada — Bella escondeu a expressão perturbada enquanto fingia procurar as chaves no bolso do sobretudo bege. — Só pensei ter visto uma coisa.

Renée não fez mais perguntas, o que evitou um assunto delicado sobre ex-namorados entre as duas. No entanto, aquilo não significava que estava acabado, Bella passou o resto do caminho até em casa em silêncio ponderando sobre um certo rapaz de cabelos cor de bronze, até avançou um sinal em seu momento de distração, apenas concordando com a tagarelice da sua mãe sobre multas enquanto sua mente permanecia distante.

Em casa, passou o resto do dia presa na cozinha com Renée. Havia um ranking limitado de bons cozinheiros em sua família e ela ocupava a primeira posição dada a experiência que seus dez anos de necessidade lhe trouxeram morando sozinha — sim, sozinha. Alice quase sempre passava bem longe da cozinha — e logo em seguida estava Renée, que até se virava bem sozinha, mas que tinha sérios problemas com o ponto dos pratos decorrente de sua falta de atenção.

Por fim, estava seu pai que falhava até mesmo na missão desafiadora de preparar macarrão instantâneo.

Não era de todo ruim para Bella cozinhar, a atividade serviu como uma distração temporária para aqueles pensamentos que ela gostaria de abafar no mais profundo do seu inconsciente. Mas não se pode fugir do passado para sempre e, algumas vezes, Bella se pegou dedilhando o pequeno chaveiro no bolso de trás do seu jeans só para relembrar a sensação gélida da prata, ou para ouvir o tilintar baixinho quando ninguém estivesse por perto.

Como se aquele hábito a levasse um pouquinho mais perto do sentimento de casa.

— Por favor, fique de olho aqui! — Ordenou ao fechar o forno, deixando a travessa de macarrão com queijo assando. — Não vou assumir danos se reclamarem do sabor.

— Não se preocupe, não vou tirar os olhos dele!

Sua mãe misturava algo que parecia ser um recheio para seus famosos tomates assados em uma vasilha de vidro parada em frente à TV, provavelmente assistindo algum de seus programas de sobrevivência favoritos na Discovery Channel. Bella balançou a cabeça, reprimindo um sorriso enquanto se dirigia para as escadas.

Renée possuía a mesma atenção de seus alunos do jardim de infância.

Ainda era um pouco cedo para sentir falta do trabalho ou de Chicago, mas ao mexer em seu Smartphone ela sentiu necessidade de checar suas mensagens e encontrar alguma nova ordem de emergência de sua chefe. Bella sabia que Victoria sempre corria para ela quando precisava resolver um pepino. Já fazia anos que ela não assumia o cargo de assistente da ruiva, mas a Sra. Hunter não parecia se dar conta disso.

Em vez de mais trabalho, Bella encontrou mensagens de texto de uma amiga muito carente.

Já chegou em Forks?

Dizia a primeira mensagem.

Primeiro dia almoçando sozinha, beirando uma crise de estresse no trabalho. Minha pena vai ser muito alta se eu jogar James Hunter do último andar? Sdds.

No silêncio de seu quarto, Bella sorriu com a brevidade de sua amiga.

Alice parecia estar lidando mais com James — algo que acontecia sempre que Bella se ausentava do trabalho. Quando Hunter perdia seu alvo de perseguições, logo tratava de procurar um novo. Ela não deixou de temer por sua amiga naquele momento, Alice não era uma completa idiota e sabia se cuidar, mas Bella sempre percebeu sua ingenuidade e o canalha de seu chefe nem de longe era um homem confiável.

Talvez eu esteja sendo paranóica, pensou.

No entanto, não era tão fácil afastar os pensamentos protetores com relação a Alice, ela era absolutamente tudo o que Bella tinha em Chicago, o mais próximo de uma irmã que ela já se deu o luxo de ter.

Seus olhos rolaram para o relógio empoleirado na parede verde-claro, faltava pouco para o fim do expediente. Um pouco ansiosa demais para esperar, Bella ligou imediatamente para sua melhor amiga enquanto se jogava na cama de solteiro — que parecia ser mais confortável em suas lembranças — apoiando os pés para o alto feito uma criança entediada.

Alice atendeu no terceiro toque.

— Sabe, por um momento eu pensei que tinha me esquecido completamente — Alice disse de modo teatral. — Como está sendo a estadia na sua adorada Forks?

— Boa, na medida do possível. Só pensei em me matar uma vez hoje, acho que isso já é algum avanço.

— E os seus pais?

— Minha mãe parece uma criança na Disneylândia, não acredita que finalmente tem sua filhinha de volta — ela sorriu fitando suas meias brancas enquanto mexia os dedos distraidamente — E meu pai… Bem, é o Charlie.

Alice riu do outro lado da linha.

— Forks ainda parece tão ruim quanto você se lembrava?

— Suportável — ponderou as palavras da amiga, ela ainda odiava Forks e toda aquela maldita chuva, mas se tornou um problema aceitável para ela. O que havia mudado? — Mas e você? Está tudo bem?

— Claro! Minha vida não é tão insuportável assim sem você. Um pouco monótona, talvez, mas aceitável — Alice brincou. — O máximo que tive de estresse hoje foi James Hunter e seus monólogos internos, quer dizer, aquele babaca se ouviria falar pelo resto dos seus dias...

— O que ele disse? — Bella questionou, alarmada.

— Ah, nada demais. Só falou sobre a promoção do cargo de co-diretora e como ele era tão experiente para ajudar no que eu precisasse. Foi tipo "acorda? Eu trabalho na revista antes mesmo de você, seu canalha."

— Nunca subestime o ego de um homem — comentou. — Escuta, quero que fique longe dele, ouviu? James sabe muito bem a posição dele na revista e usa disso para nos intimidar.

— Eu sei, amiga. Apesar de achar muito fofa essa demonstração de emoção humana ao se preocupar comigo, eu sei me cuidar. Além disso, convenhamos que você não quer saber como eu estou, quer saber como a Femme's está.

Bella suspirou.

Talvez ela não fosse a pessoa mais afetuosa do mundo e cada momento como aquele pegava Alice de surpresa, como a qualquer outro que a conhecia em Chicago. No entanto, aquela frieza explicável não anulava nenhuma consideração por aqueles que ela amava, apenas a lembrava de tentar ser mais humana — apesar de tudo.

— Isso não é verdade.

— Então, não quer saber? — provocou ela.

— Foda-se — Bella resmungou, sentindo-se a vadia mais egoísta de Forks. — Como está a revista?

— Você faltou um dia, não é como se a terceira guerra mundial tivesse estourado por aqui…

A voz doce e musical ecoava do outro lado da linha com uma empolgação que Bella já estava habituada a ouvir. Aliás, o que seria de Alice Brandon sem sua animosidade inerente?

Depois de uma hora, Bella desligou o telefone cansada de narrar desde a sua viagem até os mínimos detalhes diferentes de Forks dez anos após ser o que ela se lembrava. Alice poderia perder a noite inteira com sua curiosidade aguçada, mas Bella já se sentia um pouco cansada da viagem e pensar nos planos para aquela noite não lhe deixou mais animada.

Entre uma fofoca de trabalho e um encontro marcado com um cara novo, Alice deixou escapar que havia começado a escrever o artigo que definiria suas vidas profissionais. Apesar de saber que era da natureza da baixinha adiantar as coisas por não segurar a ansiedade, Bella não deixou de sentir uma pontada de culpa por sequer ter iniciado o seu.

Ela fitou o notebook agora metodicamente posicionado na velha escrivaninha de carvalho no canto do quarto. Estar em casa poderia ser muito bom para ela, mas Bella sabia que não podia esquecer sua vida lá fora, ainda mais no momento que que o preço de seus atos lhe custaria tão caro, era um grande jogo de tudo ou nada e perder estava fora de cogitação.

Uma noite, ela prometeu mentalmente.

No dia seguinte, voltaria a focar no que realmente importava.

Cada peça de roupa que trouxe em suas malas estava esparramada sobre a cama feito uma montanha confusa de cores e texturas. Bella queria com todas as forças apenas vestir seu moletom surrado e cair na cama dura e desconfortável, mas seus pais já esperavam em expectativa por uma data especial onde pudessem passar juntos. Dessa forma, aquele era um sacrifício que Bella estava disposta a fazer.

Meia-hora depois, ela fechava o zíper do vestido cáqui que escolhera.

O modelo discreto e elegante ressaltava suas curvas de uma forma elegante, as cores — preto com detalhes em um verde vibrante — tornavam a pele cremosa de Bella quase em um tom translúcido. Não que estivesse se vestindo para impressionar alguém, mas Alice a ensinou algumas coisas sobre moda ao longo dos anos e ela devia honrar seu esforço.

Não estava chovendo quando Bella desceu as escadas aliviada por não estragar seu trabalho usando botas e uma capa de chuva horrorosa — uma coisa que parecia inacreditável para uma noite comum de Forks.

Mais inacreditável foi descobrir que sua mãe ficou mesmo de olho no macarrão com queijo que assava no forno, agora ele exalava um cheiro bastante atraente sobre a bancada da cozinha com os outros pratos e Bella tentou não parecer muito presunçosa com seu feito. Renée também estava fazendo um grande esforço para que tudo saísse como em seus planos naquela noite.

— Acha que eu estou muito arrumada? — Renée surgiu ao pé da escada enquanto terminava de colocar os brincos de pérola que Bella lhe deu de presente no aniversário passado. — Quer dizer, os Newtons são tão chiques… não quero fazer feio.

— Está perfeita, mãe.

Bella nunca foi uma boa mentirosa, então quando deu sua opinião carregando um sorriso amável, Renée não pôde ficar mais satisfeita.

— Oh, querida. Você também está linda.

Renée alisou o cabelo castanho da filha carinhosamente, dedilhando as pequenas tranças laterais que prendiam metade do cabelo de Bella na raiz para conter alguns fios rebeldes.

Havia algo no modo como Renée olhava para ela desde sua chegada, um brilho suspeito nos olhos cor de oceano que nunca deixaram de impressionar sua filha adotiva. Bella associava aquele comportamento incomum com a saudade e a distância, ela sabia que sua ausência tinha algum efeito sobre seus velhos pais, mas talvez aquilo estivesse piorando com os anos. Renée já não tinha mais trinta anos e Bella buscou no fundo de sua memória uma pesquisa reveladora sobre mães que ficavam mais carentes por seus filhos na casa dos cinquenta.

—Obrigada — ela disse, corando levemente enquanto se afastava em direção a bancada. Elogios ainda a constrangiam. — Onde está o papai?

— Charlie teve que sair às pressas.

— Aconteceu alguma coisa na delegacia?

— Ao que parece receberam uma ocorrência de desaparecimento de uma criança… o pai estava desesperado — a mulher disse enquanto embalava uma travessa de tomates recheados com plástico filme. — Pegue as chaves do carro, nós vamos na frente, querida. Estão penduradas na sala.

Depois de uma mini-discussão sobre a escolha entre o Sedan branco de sua mãe e a velha Picape Chevy, as duas seguiram para a casa de Jessica Stanley. Bella estava acostumada com a ideia de dirigir até a casa de Jessica a duas ruas de distância, onde elas costumavam marcar os trabalhos em grupo — que Jessica sempre liderava no colegial —, mas dez anos se passaram e agora a casa de Jessica era a casa dos pais de Jessica.

Pelo que sua mãe lhe contou no caminho, Jessica se casou com Mike Newton pouco depois de terminarem a faculdade na Washington State — um casamento que Renée detalhou como excepcionalmente exagerado —, Mike assumiu os negócios da família e passou a cuidar da loja de artigos esportivos onde Bella trabalhou durante seu ensino médio, uma desculpa que ela criou para garantir sua independência mais cedo. Os dois então se mudaram para uma área nobre de Forks localizada do outro lado da cidade, quase nos limites.

O resto da história Bella deduziu sozinha.

Quando adentraram em território desconhecido, Renée começou a resmungar sobre usarem aquela sucata para se locomover, Bella fingiu não se abalar, mas uma pontada de arrependimento a atingiu em cheio quando os veículos de alto padrão parados em frente às casas surgiram em seu campo de visão. Talvez tenha sido uma ideia ruim, ela murmurou em algum momento, baixo demais para inflar o ego de Renée por ela estar certa.

A casa 1327 era muito maior do que Bella imaginou, só o jardim cuidadosamente planejado tinha três vezes o tamanho de seu micro-quarto na casa de seus pais e ela fingiu não se impressionar com a fonte renascentista que jorrava água para um pequeno lago tremulante. A casa em si era um exagero à parte, com as paredes num tom creme e janelas altas, parecia o cenário de uma adaptação dos livros de Jane Austen, Bella tinha que admitir que a construção era a cara de Jessica.

Imediatamente Bella olhou para suas vestes dentro do carro, um pouco arrependida de não ter se empenhado mais em sua aparência naquela noite.

— Mas que merda…

— Bella — sua mãe cortou com um olhar reprovador. — Você está linda, agora me ajude com as travessas.

— Por que não me avisou que vamos jantar com a Ellen DeGeneres!? — Ela resmungou, ácida, enquanto saltava para fora do carro.

Até a campainha soava irritantemente doce para Bella, bastou apenas um toque para a porta se abrir.

— Feliz dia de ação de graças!

— Feliz… — Renée parou, analisando as luzes de Natal ambulante em sua frente — Oh, Jessica… você está tão… bonita.

Jessica Stanley, por outro lado, parecia ter se esforçado muito para alguém que ia jantar em casa. A maquiagem carregada e o vestido que brilhava feito um globo de discoteca eram demais até para os padrões de Renée, que tentou disfarçar o espanto com um sorriso extremamente empolgado.

Felizmente, era melhor mentirosa do que a filha.

— Ah, é! Está tão linda… — Bella concordou,balançando a cabeça veemente — Brilha tanto que mal consigo olhar.

Renée caiu em uma gargalhada nervosa enquanto lançava seu olhar afiado sobre Bella.

— Vocês acham? — Jessica sorriu em uma mistura de orgulho e convencimento ao correr a mão pelo vestido prateado. — Obrigada! Vocês também estão ótimas.

Nesse instante, um vulto vermelho de um metro e meio cruzou a sala feito um carro desgovernado, atraindo a atenção das três mulheres na entrada.

— Freddie, eu já disse para se comportar! — Jessica gritou antes do som de algo se quebrando no interior da casa a interromper, seguido do choro combinado de dois bebês no andar de cima.

A baixinha de cabelos cor de mel suspirou e virou-se para as visitas, assumindo um sorriso forçado.

— O que estamos fazendo aqui paradas? Entrem!

Enquanto cruzavam a sala de estar de tamanho olímpico, Jessica tomou a travessa de macarrão com queijo das mãos de Bella, fazendo algum comentário sobre o cheiro maravilhoso que exalava da comida enquanto agradecia, mas ela não prestou atenção no que a mulher tagarelava depois que indicou o caminho para o corredor.

Renée rapidamente se juntou à anfitriã na cozinha enquanto Bella caminhava em direção a porta que dava para o mais uma vez surpreendente espaço. No meio do caminho, ela ouviu um emaranhado de vozes alegres vindo da direção da porta, pareciam todos amigos se divertindo e lá estava a intrusa. Imediatamente parou, talvez esperar por Renée e Jessica fosse a melhor opção.

Bella observou a área livre com certa admiração, havia algo muito sofisticado naquele lugar. Era muito verde, é claro, mas as luzes em tons quentes tornavam tudo mais leve e menos Forks no ambiente, uma corrente de feixes de luminárias se estendia até o aglomerado de pessoas no quintal, um caminho de pedras brancas no gramado indicava a mesa longa que se estendia pelo espaço. Previsivelmente, Bella percebeu que Jessica adorava fontes quando detectou a segunda, dessa vez menor, no lado esquerdo, onde alguns peixes pequenos de cores variadas tentavam fugir de um Freddie Newton curioso cutucando a água.

Por um instante, ela ficou apenas ali parada assistindo a criança inocentemente brincando com os peixinhos com um sorriso singelo. Os pés bem fixos ao chão enquanto cuidadosamente balançava seus dedinhos rechonchudos dentro da água, como se nada no mundo pudesse arrancá-lo daquele momento divertido. Bella não reparou em seus passos avançando devagar até o menino, apenas foi puxada para fora daquela bolha ao ouvir seu nome vindo da mesa.

— É Bella Swan! — Uma voz feminina exclamou.

— Bella!

Mike Newton acenou antes de correr na direção dela com um sorriso de orelha a orelha. Era inevitável não reconhecer o loiro de expressão abobalhada instantaneamente, mesmo depois de dez anos.

— Oi, Mik… — Bella tentou dizer antes de ser puxada em um abraço caloroso.

Mike pareceu não considerar o tempo longe antes de recebê-la. E mais uma vezseus fantasmas do passado insistiam em mostrar que nem de longe as coisas haviam mudado.

— A Jess me disse que tinha voltado. Mas, puxa, como você está diferente! — Ele se afastou para analisar a mulher em sua frente — Está muito bonita…

Bella deu seu sorriso amarelo em resposta, temendo que as bochechas vermelhas entregassem seu desconforto.

— Ah, o tempo também lhe fez bem, Newton.

— Vamos lá, tenho muitas pessoas para apresentar a você — disse ao tocar suas costas suavemente para conduzi-la com um brilho nas íris azuis ao ouvir seu apelido do colegial.

No fim das contas, Mike não tinha muitas pessoas para apresentar a Bella, pelo menos não muitas que ela já não conhecia.

Na longa mesa de jantar que se estendia pelo gramado estavam Tyler Crowley e sua venenosa namorada Lauren Mallory — provavelmente a mente perversa responsável por plantar a discórdia na mente de Jessica no ensino médio —, esta foi cumprimentada apenas com um sorriso educado à distância.Muito mais do que Bella costumava oferecer a desavenças.

Além deles, Angela Webber e seu noivo Ben Cheney ou Ben-do-clube-de-xadrez — como Bella maldosamente costumava o chamar no colegial — também marcaram presença no jantar.

Só foram necessários alguns instantes antes de Angela dar a volta na longa mesa e correr para Bella. De todas as suas colegas do ensino médio, Angela sem dúvidas era quem ela conseguia nomear como amiga sem vacilar. A morena de aparência frágil e óculos era a garota mais doce e amável de toda a Forks High School e, mesmo depois de dez anos, isso não parecia ter mudado.

Os pais de Jessica e os pais de Mike também estavam presentes, mas ocupados demais mimando os netos. Foi realmente uma surpresa ver os gêmeos rechonchudos de Jessica e Mike, eram coisinhas tão pequenas e lindas que Bella sentiu seu coração aquecer de alguma forma como há muito tempo não sentia.

Depois de Mike apresentar Bella para mais alguns convidados do jantar, ela ficou surpresa pelo modo como a noite fluiu. A festividade mais parecia uma reunião de back to school — de modo que a maioria das pessoas ali se conhecia desde que usava fraudas — onde lembranças do passado foram revividas com uma sensação nostálgica. Soava estranho para Bella admitir, mas o evento não estava tão desastroso como ela imaginou.

É claro que era cedo demais para cantar vitória.

— É estranho o rumo que as coisas tomaram — Angela comentou em determinado momento. — Quem diria que todos nós estaríamos praticamente casados…

— E com filhos! — pontuou Jessica, desviando os olhos da mesa para o garotinho loiro que ela tentava corajosamente alimentar há mais de uma hora.

Bella sorriu em silêncio no seu lugar.

— Ah, mas não generalize, Angela — Lauren começou. — Bella não se inclui, não é mesmo?

— Não é novidade nenhuma, Lauren. Sempre estive fora dos padrões — ela rebateu, ainda mantendo uma postura inabalável — Você mais do que ninguém deveria saber disso.

— Nem tanto, já que era completamente apaixonada por Edward Cullen… como qualquer outra garota no colegial.

Uma névoa silenciosa e constrangedora se formou na mesa logo após a fala desnecessária de Jessica, sempre se intrometendo em horas inadequadas. Mike lançou seu olhar ciumento sobre a esposa, um vislumbre de sorriso pareceu surgir na expressão amarga de Lauren, Jessica fingiu não se atingir e Ben bebericou o vinho, desconcertado.

Bella apenas fixou os olhos no peru esfriando em seu prato, visivelmente desconfortável.

— Mas Bella tem mais história para contar do que qualquer um nessa mesa — Angela quebrou o silêncio, lançando um olhar solidário para a amiga de longa data. — Por que não nos conta como tem sido Chicago nos últimos dez anos?

Uma coisa não mudou na última década: Angela ainda era sua favorita naquela mesa.

Graças a morena, Bella nunca ficou tão agradecida por tagarelar sobre si mesma, falar sobre sua vida pessoal não era algo que ela costumava fazer, mas não era um problema se ela inventasse boa parte das histórias que contava.

Depois da sobremesa, os grupos se dispersaram.

Os homens se juntaram em frente à TV de tela plana posicionada na área do lado de fora junto às suas inseparáveis cervejas para acompanhar um jogo da temporada. Charlie provavelmente estaria ali com os outros se simplesmente tivesse aparecido, uma ligação foi o bastante para anunciar sua mudança de planos e uma frustração enorme para Renée. Bella o entendia desde pequena, papai precisava trabalhar.

As crianças já dormiam inocentemente no andar de cima, mas era na sala de estar que as coisas voltaram a se tornar embaraçosas.

Bella costumava adorar se unir com suas amigas — bem, sua única amiga — para aproveitar algum tempo jogando conversa fora, podia durar a noite inteira. Mas aquele não era seu nicho, aquelas mulheres não eram Alice.

— Então, Miss Chicago — provocou Lauren Mallory com seu típico humor ácido. — O que fez você voltar para Forks depois de tantos anos? A cidade grande não é tão boa quanto você pensava?

Bella franziu o cenho, já preservando o mínimo de paciência que ainda restava. Ela estava realmente lutando muito para não ser cruel naquela noite, a dormência na ponta da língua provocava a tentação em níveis altos demais para seu autocontrole.

— Ah, na verdade, as coisas não poderiam estar melhores em Chicago — Bella ajustou a postura, de repente plantando um sorriso confiante em seu rosto. — Vim para Forks porque é um ótimo momento.

— E por que? — Indagou Jessica, interessada.

— Acabei de receber uma promoção no trabalho. Vocês estão olhando para a mais nova co-diretora da Femme's Magazine.

Ok, aquilo era uma meia verdade, Bella tentou justificar sua atitude mentalmente.

Era muita presunção passar por cima das outras candidatas e se auto-declarar vencedora, ainda mais quando Alice era uma delas, mas teria o prazer de esfregar na cara de Lauren e Jessica todas as suas conquistas. Mesmo que fosse uma a qual ela nem conquistou ainda.

Houve um pequeno burburinho na roda, seguido de parabenizações de algumas das mulheres presentes. As únicas que realmente não pareciam se importar foram Lauren e Jessica, mas Bella fingiu não notar.

— É aquela revista famosa? — Angela abriu seu doce e largo sorriso, surpresa. — Eu simplesmente adorei o artigo sobre mulheres e seus pequenos negócios em ascensão, até falei com o Ben sobre como fiquei motivada a pensar em um empreendimento para abrir aqui mesmo em Forks.

— Sim, em épocas como essa é muito importante dar a voz a mulheres como nós — comentou a vizinha misteriosa de Angela, sorrindo com um interesse surpreendente. Em todo aquele tempo de conversa na sala, poucas vezes a mulher se demonstrou realmente interessada no assunto. — Foi você quem escreveu o artigo?

— Foi sim — Bella confessou timidamente, temendo parecer exibida como sua colega Jessica, ex-Stanley, agora Newton — Eu fico muito feliz em saber que gostaram, foi meu último artigo antes da promoção.

— Bem, com toda a certeza já ganhou uma leitora.

A morena declarou com um sorriso no canto de seus lábios.

— Duas! — Corrigiu Angela, alegremente.

— A propósito, sou Leah Clearwater — ela estendeu a mão sorrindo gentilmente. — Mike não nos apresentou do jeito certo, é um prazer conhecê-la.

— Bella. Bella Swan.

Ela cumprimentou, um tanto hipnotizada com a beleza de Leah que com certeza se destacava na sala de estar, em meio a pele quase translúcida de suas vizinhas — um efeito colateral da ausência de sol em Forks — estava Leah com a pele brilhante num tom caramelo perfeito, seus olhos eram grandes e negros, tão expressivos que Bella sentia que podia ler seus pensamentos.

Era uma beleza exótica, pelo menos para os parâmetros de Forks.

— Ah, me desculpe, mas nós nos conhecemos? — Bella perguntou suavemente.

Conhecia quase todas as três mil cento e vinte pessoas que moravam naquele lugar, mesmo que só de vista. Mas não se lembrava de Leah Clearwater, algo que muito provavelmente aconteceria se elas já tivessem se encontrado antes.

— Bem, eu trabalho na Newton's há alguns anos, mas não moro na cidade, tecnicamente.

— La Push, Bella. Você se lembra? — Completou Angela.

— É, eu moro na reserva, perto da praia. — Leah explicou. — Me mudei a alguns anos para ficar com a minha mãe e meu irmão.

La Push era o que de mais perto havia de diversão em Forks.

Depois das florestas densas estava a praia grande de areia escura e compacta da reserva, era bem bonita se observar por um lado mais sombrio, o céu nublado e as águas negras de ondas vorazes criavam um ambiente meio gótico. Bella costumava visitar aquele lugar com os amigos quando o clima estava bom, ou seja, raramente.

— É claro que eu lembro — ela sorriu dando um pequeno gole na sua bebida. — Preciso visitar La Push antes que a neve se torne um problema.

— Bem, sinta-se convidada para visitar a minha casa.

— Eu vou sim, obrigada.

Bella estava finalmente se divertindo de verdade com suas duas pessoas favoritas naquela casa, mas a segunda rodada de drinks de canela chegou e o desconforto pareceu retornar com ela.

— Então, Bella. — Lauren voltou a atacar — Com tanto trabalho, como fica sua vida amorosa? Quer dizer, eu mal consigo conciliar o trabalho e Tyler todo dia… deve ser ainda mais difícil para você.

De repente, todos os olhos da roda estavam em Bella, ansiosos por uma resposta que ela não tinha. Seu estômago pareceu revirar de ansiedade.

— Ah, é verdade, Bella. — Jessica incentivou. — Quer dizer, o tempo está correndo, quando os bebês vão chegar?

A morena engasgou com a bebida por um instante, ficando vermelha rapidamente enquanto tentava recuperar o ar nos pulmões.

— Como assim bebês!?

— Ora, Bella. Você sabe o que dizem... depois dos trinta as coisas ficam bem difíceis para as mulheres solteiras.

— Eu ainda tenho vinte e oito — ela brincou, tentando disfarçar o nervosismo como uma covarde.

— Precisa se adiantar se não quiser... ficar para trás.

Seus olhos recaíram sobre a loira baixinha sentada no sofá e, embora Bella sempre tivesse uma resposta pronta em sua língua afiada, sabia que Jessica estava entrando em um território restrito para ela… ou para qualquer outro.

Aquele foi o estopim de sua noite.

— Quer saber, Jessica? Eu nem penso nisso, nem por um segundo. Acho que algumas mulheres possuem o instinto materno… outras são apenas empurradas para isso.

O silêncio pesou na roda, mas Jessica continuou travando uma batalha visual com um sorriso congelado curvando os lábios.

— Com certeza — Jessica tentou disfarçar, virando-se para pegar as taças abastecidas na bandeja e entregar a cada uma das mulheres na roda. — Eu já estava esquecendo! É uma tradição no nosso jantar de ação de graças que cada um faça um brinde revelando algo pelo qual somos gratos. Lauren, por que não começa?

— Bem, eu sou grata pelo meu namorado, Tyler. Eu era só uma adolescente inconsequente quando o conheci no colegial e nós crescemos juntos na nossa relação que… apesar de tudo, deu mais certo do que imaginávamos — Lauren olhou rapidamente para Bella. — Ou pelo menos mais certo do que a maioria dos casais da escola.

A sugestão de humor inocente até arrancou algumas risadas na roda, mas Bella permaneceu irredutível.

— Eu sou grata pelos meus bons amigos! — Angela declarou, sorridente. — Quer dizer, especificamente hoje, eu sou grata por ter minha amiga de volta na cidade.

— É muito bom ver você também — confessou Bella, sorrindo para a morena ao apertar sua mão levemente em confirmação.

— Eu sou grata pela minha vida! — Jessica disse de repente com um sorriso convencido. — Sou grata pelo meu ótimo casamento, três filhos lindos que são tudo para mim e por essa casa incrível que eu planejei por muito tempo.

Bella revirou os olhos quando ninguém estava olhando.

— Bem, já que é tradição… — Leah se ajeitou em seu lugar no sofá. — Me sinto grata por esse drink maravilhoso, obrigada por me deixar semi-bêbada, Jessica!

Uma risada escapou dos lábios de Bella.

Leah só estava naquele jantar porque Mike era seu chefe na loja de artigos esportivos. Só então, Bella percebeu que a morena compartilhava de sua opinião a respeito de Jessica ou da vadia Lauren Mallory, ambas eram cobras venenosas dispostas a constranger Bella naquela noite, custe o que custar.

— Sua vez, Bella.

Ela pensou, em silêncio.

Aquelas malditas tradições de feriado não passavam de besteiras para Bella, ela odiava pensar em respostas sem sentido para perguntas como aquela e odiava ainda mais o fato de ter que compartilhá-las em público. No entanto, a morena era sincera consigo mesma, não havia muitas coisas pelas quais ela era grata, pelo menos não que valesse a pena dizer em voz alta, mas havia poucas coisas pelas quais ela era profundamente grata.

Estas pareciam razoáveis para se compartilhar.

— Tudo bem, eu sou grata pela minha vida sexual que vai muito bem, obrigada por se preocupar, Lauren — ela ergueu o copo com um sorriso presunçoso para afrontar a loira. — Deixa eu ver, também sou grata pelo meu emprego dos sonhos e… Ah, dessa eu não posso esquecer! Acima de tudo, sou grata por não depender de homem nenhum para manter o meu padrão de vida, não é Jessica?

Por fim, Bella sorriu amargamente antes de virar seu drink completamente, sentindo o coração palpitar, um pouco acelerado demais. Ela estava cedendo ao álcool novamente após um momento de estresse, isso não era algo a se preocupar, pelo menos foi o que Bella disse a si mesma.

Leah quebrou o silêncio esquisito no cômodo com uma tosse.

— O que é um jantar sem dramas para aquecer a noite — comentou com um sorriso felino.

Do outro lado da sala, as duas mulheres pareceram assumir algum tom entre o vermelho e o roxo.

— Bella, você está bem?— Angela se curvou para a amiga, a expressão preocupada surgindo em seu rosto amável.

— Eu estou… — Bella se explicou, levando sua mão livre até a têmpora. Não se sentia bem, mas Angela não precisava saber — Acho que a viagem foi muito longa, só estou um pouco cansada. Eu preciso ir agora.

Sua mão deslizou para pegar o sobretudo elegante sobre o encosto do sofá.

— Sabe onde está minha mãe?

— Na cozinha com a Sra. Newton, eu acho… — ela hesitou. — Você quer alguma coisa?

— Não, está tudo bem, eu falo com ela — garantiu com um sorriso fraco. — Obrigada, eu adorei rever você.

— Já vai tão cedo?

— Acho que você me entende, não é?

Um assentir de sobrancelhas franzidas era o bastante para reconhecer o pedido de desculpas silenciosos de Angela pelo comportamento das amigas. Bella apenas tocou seu braço, um gesto para que ela não se preocupasse.

— Foi um prazer conhecer você — disse a Leah. Seu sorriso leve e um acenar de despedida também revelava que a morena compreendia que sua noite havia acabado por ali.

Lauren e Jessica ficaram por último sob o olhar frio e penetrante.

— Tenha uma ótima noite.

Foram suas últimas palavras antes de se direcionar para o corredor pisando firme. Seus dedos enroscaram com tanta força no casaco que ela pensou que estivesse danificando alguma coisa, mas simplesmente não se importava. Ela parou próximo da cozinha e a voz de sua mãe conversando com a Sra. Newton foi tudo que a fez continuar ali por mais alguns instantes.

— Ela é tão esforçada, sabe. No trabalho, quer dizer. Eu sei que a Bella passou muito tempo sem voltar para Forks, mas eu também sei que ela tenta ser a melhor filha que pode.

— Não entendo como você aguenta passar tanto tempo longe dela… — Sra. Newton comentou. — Filhos não deveriam ficar longe de seus pais por tanto tempo, acho que seria a pior coisa que poderia acontecer comigo.

Houve um silêncio prolongado, seguido de um suspiro profundo.

— Bella só está construindo o futuro dela, Karen — Renée explicou pacientemente. — Acho que parte de mim já esperava que ela fosse simplesmente ir embora uma hora ou outra. A única surpresa foi receber uma filha tão...

— Tão?

— Tão diferente de volta — a mulher pareceu pensativa. — Minha filha parece a minha filha, mas não é a mesma.

Seguir pelo corredor pareceu a decisão correta a se tomar, mas naquele momento seu corpo parecia pesar o dobro… ou talvez fosse sua consciência. Bella imaginava que estava tudo bem entre ela e os pais, Renée e Charlie não fizeram qualquer comentário como aquele desde que ela pisara na cidade e tudo parecia seguir normalmente como sempre foi.

No entanto, parecia que ela estava equivocada.

Sua mãe podia não ser a pessoa mais atenta do mundo com os fatos ao seu redor, mas quando se tratava de sua família, era uma analista nata. A mulher já havia percebido que havia algo de errado com Bella e ela sabia que aquela conclusão não fora decorrente de apenas um dia em Forks, mas de vários natais em Chicago, ano após ano, em que seus pais passaram com ela depois de seus convites insistentes.

Ela mesma havia se colocado naquela própria armadilha ao retornar para Forks.

Na Picape, Bella apenas permaneceu sentada por algum tempo no banco de couro com as mãos agarrando firmemente o volante enquanto as lágrimas ardiam em seus olhos, resistindo a uma luta interna para não deixá-las cair. Não era tristeza pelo desabafo sincero de sua mãe, ou amargura com as duas mulheres que a provocaram durante todo o jantar, ou mesmo vergonha pelo fim de noite desastroso em que ela simplesmente não conseguiu se conter.

Era culpa.

A culpa genuína por não ser o que seus pais mereciam que ela fosse. A filha presente e alegre que pescava aos fins de semana com Charlie e que compreendia além de todos os limites as suas tentativas de ser um bom pai, ou a garota carinhosa que aprendeu a amar a professora de jardim de infância que casou com seu pai quando ela tinha apenas cinco anos. Não como uma madrasta muito boa, mas como a única presença materna que ela havia conhecido até então.

Não demorou muito para Bella pegar a extensa e deserta estrada principal que a levaria até a conveniência mais próxima sem dar tantas voltas, ela desejava desesperadamente poupar seu tempo. Foi necessária apenas uma ligação para Charlie, pedindo para que ele buscasse sua mãe mais tarde na casa dos Newton, pois segundo ela, não estava se sentindo muito bem e não queria estragar a noite de Renée. Seu pai compassivo pareceu acreditar na desculpa esfarrapada, ele não costumava ter motivos para desconfiar de Bella em todo caso.

No pequeno estabelecimento, Bella encarou as bebidas na prateleira pelo o que pareceu uma eternidade, movendo o corpo levemente de um lado para o outro feito uma criança distraída enquanto esquentava as mãos gélidas nos bolsos do sobretudo preto. A voz na sua cabeça sempre gritava em alerta para aquelas garrafas de álcool em exposição sempre que Bella se aproximava, os dedos trêmulos flexionados hesitando demais para simplesmente agarrar os itens. Ela sabia que beber demais a arrastava para um lugar muito distante de qualquer que fosse a dor incomodando seu peito, mas funcionava feito uma roleta russa.

Ela poderia cair uma vez e se reerguer no dia seguinte.

Ou poderia cair completamente de volta para o buraco escuro que já conhecia.

A voz de Jessica substituiu seus avisos mentais por cinco segundos. Aquilo foi o bastante para seus dedos agarrarem a garrafa de bourbon e depois seguir a passos velozes até o caixa antes que se arrependesse de fato. Assim que finalizou a compra, Bella retornou para Picape estacionada no pátio vazio e lá ficou até que tivesse ingerido metade da bebida, ou pelo menos até que aquela noite ruim tivesse fugido de seus pensamentos e dormência em seu peito tivesse apagado qualquer fosse a sensação ruim que a perturbava.

Em vez disso, sua mente vagou para os protestos de Alice. Sua amiga provavelmente a condenaria por encher a cara sozinha no meio da noite, mas a sensação de relaxamento era inexplicável, ela quase não conseguia se lembrar do porque estava chateada ou porque as palavras de Jessica a atingiram tão profundamente no jantar — não que Jessica tivesse conhecimento de qualquer questão responsável por causar aquele sofrimento.

Quando se sentiu melhor, Bella girou a chave na ignição e ligou o rádio que milagrosamente ainda funcionava, sintonizando em alguma rádio local para uma música que ela simplesmente desconhecia. Sabia que havia uma grande probabilidade de ouvir os gritos de Charlie em seu ouvido quando chegasse em casa bêbada e dirigindo, mas de qualquer forma não é como se ela tivesse muitos outros lugares para onde ir.

Dessa forma, Bella seguiu o trajeto conhecido de volta com uma atenção irresponsável na estrada mal iluminada. Bastou um piscar de olhos, uma distração ridiculamente pequena, para que uma figura miúda surgisse bem na frente do feixes de luz dos faróis da Picape, forçando Bella a pisar fundo no freio e cantar pneus antes de ser violentamente arremessada na direção do painel.

As cores ao redor oscilaram na sua visão confusa. Verde, bronze, roxo tremulando nas luzes dos faróis.

Bella precisou de um minuto até que sua cabeça recuperasse a percepção das coisas ao redor, ela deslizou os dedos trêmulos até o cinto de segurança, respirando de forma irregular ao perceber que se não fosse por aquele pequeno item de segurança provavelmente seu rosto estaria arruinado sob o volante. Então ergueu os olhos em direção a estrada na sua frente, esperando que talvez um cervo estivesse ferido ou assustado, mas não foi o que encontrou.

A pequena silhueta estava caída no asfalto a mais ou menos dois metros de onde ela estava.