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O Presente de Artêmis IX

Shaina

Shaina encarou os símbolos da mensagem pela milésima vez e soltou um murmúrio de frustração. A tinta estava borrada, o tecido amassado, mas não era nada disso que a impedia de confiar no que lia. Na verdade, não queria acreditar que finalmente teria qualquer tipo de apoio depois de tanto tempo isolada em Atenas.

A primeira vez que ela escreveu naquele tecido minúsculo, demorou horas para escolher os símbolos certos da frase que queria formar.

"Armadura. Touro. Vivo. Preso. Atenas."

A pequena frase resumia sua descoberta após meses se infiltrando em serviços banais por toda Atenas. Sua objetividade melhorou, assim como a capacidade de espremer suas letras em um papel tão pequeno que poderia ser engolido se fosse necessário.

"Serva. Família Bússola. Sei local que Touro está." Foi o recado que enviou quando contemplou seu primeiro ano em Atenas. Demorou para conseguir a confiança de uma das famílias envolvidas na guerra, ser escalada para a área em que prenderam o herdeiro da armadura de Touro demorou mais ainda. Contudo, suas chances aumentaram conforme os servos eram enviados para os locais conquistados ou até mesmo para auxiliar nas batalhas.

Completava quase 2 anos longe das amazonas, já tinha um corpo mais enfraquecido pela falta de treinos, o olhar humilde era seu melhor aliado. Se considerava uma espiã perfeita, mas quase estragou tudo quando viu o garoto ser torturado pela primeira vez. Pediram que ela levasse água para uma área diferente de seu usual, desconfiava que os guerreiros mais rebeldes eram guardados ali, mas nada a preparou para a sensação angustiante que aumentava conforme ela descia as escadas do local. Sentiu como se sua energia vital era completamente drenada e quase derrubou o enorme jarro que carregava. Percebeu que nenhum outro servo demonstrava algum tipo de incômodo, nem os homens que golpeavam o herdeiro da Ilha de Creta. Acorrentado, enfraquecido, resistia aos golpes sem exibir qualquer som de dor, determinado a não responder aos insultos e provocações que recebia. Era nítido que um cosmo estranho o mantinha refém daqueles sujeitos fracotes, mas Shaina não conseguiu identificar quem era o dono da energia. Confusa em sua busca e furiosa com a covardia que presenciava, segurou o jarro com tanta força que uma parte dos ornamentos cedeu e ela quase o deixou cair. Ninguém percebeu, bem, nenhum inimigo pelo menos. Debas Aldebaran notou. Seus olhos castanhos a fitaram imediatamente, a tranquilidade de seu olhar a salvou da confusão que sentia.

Na época nenhuma notícia chegava diretamente, seja de Mayura ou de outro líder dourado. Era uma confirmação silenciosa que não havia previsão para qualquer ajuda chegar a Atenas. Muitos prisioneiros de guerra foram transformados em escravos, mas os melhores guerreiros, os que tinham uma ligação direta com os deuses, eram rebeldes demais para isso. A maioria era morta em batalha, contudo, o herdeiro da armadura de Touro sobreviveu e era mantido naquele local especial. Imaginou o que Marin faria, seu senso de observação afiado seria de grande valia nessa situação. Assim como todo seu conhecimento sobre as sutilezas mágicas que existiam por aí. Era difícil admitir que ela seria muito mais eficiente nesse momento.

Os símbolos, dessa vez, foram manchados, não conseguiu conter as lágrimas de frustração quando escreveu:

"Conheci Touro. Muitos guerreiros presos. Com magia?"

A ansiedade a perseguiu nos meses subsequentes. Começou a ser cada vez mais requisitada na prisão e temia que aquele cosmo estranho a identificaria em algum momento. Quando estava prestes a completar três anos infiltrada em Atenas recebeu sua primeira resposta. Três anos naquela identidade servil era difícil, assim como ouvir sobre as derrotas e mortes nas ilhas e cidades que eram fiéis aos deuses. Mas nada foi mais frustrante do que ler na resposta um de seus temores ser confirmado:

"Magia. A discórdia sussurra. Confie no escorpião."

Discórdia sussurra... a frase simbolizava uma criatura que jamais conseguiria derrotar. Seria a deusa Éris a responsável por toda essa confusão? Se sim, como poderia quebrar seu poder naquelas celas?

- Queime isso logo. – A voz de Leto a fez voltar para os símbolos e para seu presente. O certo seria queimar qualquer tecido recebido, mas ainda não conseguia acreditar no que decifrou. Mostrou o último grafismo para a anciã:

- Isso é realmente "confie"? Você também entende isso?

Leto tirou o tecido de sua mão ignorando os escritos:

- Finalmente vamos receber ajuda. Você não está acreditando?

- Escorpião... Não faz sentido, os espartanos queimaram o porto sul há mais de uma semana, nada indica que voltarão. Eles são liderados pelo Cavaleiro de Escorpião. E se te entregaram essa mensagem atrasada?

- Impossível – a anciã respondeu, seu olhar duro confirmou que não lhe daria mais detalhes de como recebia aquelas mensagens - Se for um Escorpião ele agirá tão preciso quanto nós agimos.

- Achei que os espartanos não eram muito conhecidos pela sutileza...

- Eles são diretos. Objetivos. Como nós somos. Isso não significa que não são estratégicos.

Shaina observou as chamas consumindo os símbolos por um tempo. Leto poderia falar o que fosse, estava convencida que o ideal agora era a ajuda de uma outra amazona. Ficar dependendo do auxílio de um cavaleiro que honrava o deus da guerra não lhe parecia o melhor dos planos no momento. Teimosa, questionou:

- Talvez Atenas sofrerá outro ataque?

- Acredite, a mensagem falaria exatamente isso, se fosse o caso. Essa retirada acontecerá com descrição. - Leto apontou para a janela, a noite ainda reinava no horizonte, mas aquele era o sinal para se lembrarem do tempo. - Você precisa ter paciência.

Shaina entendeu o recado da anciã, estava na hora de parar de questionar as ordens e voltar para seus serviços. Pensativa, fez uma despedida monossilábica e seguiu para um dos pontos mais altos da cidade. Admirava cada vez mais a resiliência das anciãs, moravam há anos na cidade e conseguiam manter a sanidade mesmo em tempos de guerra. Shaina nunca pensou que sentiria falta da Vila das Amazonas. Imatura, não pensava que seria tão difícil ficar longe dos treinos constantes e dos ritos de Artêmis.

Deveria ser grata por Leto, a anciã lhe serviu de apoio desde que Marin retirou o Cavaleiro de Leão de Atenas, entretanto a saudade de seu lar lhe perturbava. Tinha dias que acordava com uma vontade incontrolável de fugir. Ocasionalmente se via recordando até de coisas simples como o cheiro da floresta em dias de chuva ou o cantarolar de Marin aperfeiçoando suas flechas.

A garota subiu o terreno íngreme em direção ao lar da Família Bússola e tirou um tempo para olhar para a trás. Nunca esteve em outra cidade grega, mas o que via ali em Atenas a fazia ter certeza de que sua alma pertencia ao lugar que nasceu. Mesmo a essa hora, sem a aglomeração costumeira de pessoas, se sentia oprimida com tantas casas próximas umas das outras.

Atestou que essa aglomeração também dificultava a fuga de Aldebaran.

Percebeu que alguns servos se aproximavam e tratou de não deixar os pensamentos lúgubres crescerem, seguindo seu caminho sem olhar para trás novamente. Um dos homens que avistara se aproximou sem dificuldade e ela se esforçou para não o encarar, nem mesmo quando se equiparou a ela. Pôde notar que sua capa simplória tinha um cheiro diferente. Talvez de peixe? Seria um comerciante levando alimentos para as casas da região?

- Você é difícil de achar... – e, falando em um tom muito mais baixo, completou – amazona.

Só então Shaina fitou seu rosto. Era jovem, talvez da mesma idade que ela, contudo, sua expressão aguçada lhe dizia que era um espião também. Por precaução, usou o tom servil que usava para falar com os atenienses:

- Meu senhor que te enviou?

- Sua mestra, no caso... – sorrindo ele mostrou discretamente um colar prateado com um pingente enorme. Ocupava boa parte de sua mão e a pedra em seu interior não era polida. Uma Pedra da Lua? Sua superfície esbranquiçada tinha um brilho diferente. Era um objeto mágico. Talvez um talismã? Não havia insígnias ou cosmo para comprovar que aquele garoto estaria relacionado com o Escorpião dito na mensagem. A forma incisiva que falava era a confirmação que esse era seu contato, talvez um aprendiz do Cavaleiro de Escorpião – Parece que você estava se sentindo um pouco fraca.

Shaina pegou rapidamente o talismã, certa de que não havia ninguém por perto para vê-los. Uma energia intensa percorreu seu corpo. Tocar a pedra deixou os seus sentidos apurados, como quando caçava à noite com Marin. Tudo que a Lua Cheia tocava parecia trazer uma informação diferente no meio da floresta. De alguma forma, mesmo sabendo que estava quase amanhecendo, ela sentia aquela mesma potência da caçada nas sombras. Existia mesmo algum poder ali, mas não era apenas de Artêmis:

- Discórdia não está na cidade, temos certeza, mas isso vai manter sua energia, te camuflar.

Shaina começou a rascunhar um plano em sua cabeça, mas antes que processasse todas as informações, o rapaz completou suas falas e a deixou mais confusa:

- Eu encontro vocês no porto ao oeste. Precisamos sair antes do pico do Sol

Impossível, Shaina pensou. Se fosse sua mestra, a Amazona de Pavão, em sua frente, jamais questionaria esse tempo. Se foi ela quem realmente elaborou aquilo, confiava que conseguiria executar essa tarefa suicida. O orgulho a impediu de demonstrar o medo para o rapaz a sua frente, porém ele conseguiu captá-lo:

- Não posso entrar com você. – murmurou – Preciso finalizar agora o que vim fazer aqui, sua retirada vai reforçar a segurança da cidade. - deu de ombros. – Se eu falhar, você terá ajuda no porto.

Shaina respirou fundo. Aquele garoto era realmente um pupilo, talvez ele estivesse ali há tanto tempo quanto ela e agora chegou o momento de se expor. Sem saber muito bem o que falar com a possibilidade da morte eminente, deu um sorriso. Um que sua identidade servil jamais daria:

- Ajuda de um escorpião?

Ele sorriu e, dando alguns passos para trás, respondeu:

- Um escorpião dourado.

Shaina não o seguiu com o olhar, voltou-se para o seu caminho e espantou o medo que fazia sua garganta apertar. Percebeu que o que mais a afligia não era pensar em sua morte, mas sim colocar a vida de Aldebaran em risco. Não podia falhar.

Deixou suas pernas lhe levarem até o calabouço enquanto sua mente calculava toda a rota que faria, quais guardas da cidade poderiam interferir naquela fuga, como chegariam até o porto sem ninguém perceber duas figuras excêntricas correndo pelas ruas de Atenas.

Quando se deu conta, já estava descendo as escadas do calabouço e respirou fundo, aliviada por perceber que seu corpo se movimentava normalmente. Seu cosmo conseguia fluir, despertando sua inteligência corporal. Calculou quantos passos demoraria para percorrer todo o local, se algum ataque acontecesse, quanto tempo teria para o teto baixo desabar. Coisas banais que ela faria em qualquer lugar e nunca conseguiu quando entrava ali.

Notou o servo colocando água para os dois guerreiros jogados em uma sela e apressou seus passos indo até a área que algumas armaduras estavam. Rápida, acreditou que o homem não a vira, nem quando saiu. Confiavam tanto naquela energia de Éris, que deixavam a área sem ninguém o dia inteiro. Por enquanto nada suspeito lhe chamava atenção, talvez o dono daquele cosmo sombrio aparecerá quando Aldebaran for liberado.

Sem se ater ao medo desse pensamento, correu até o local do herdeiro de Touro, e ousou tocar na grade esperando qualquer tipo de reação do metal. Nada. Emitiu seu cosmo e a porta cedeu facilmente em suas mãos:

- Chegou a hora? – ouviu o taurino murmurar. Estava de olhos fechados e algo em sua postura cansada fez Shaina concluir que a pergunta era sobre a hora de finalmente alguém o matar. Um sorriso caloroso se formou em seu rosto abatido. – ... guerreira?

A garota apertou o talismã e se aproximou do cavaleiro, curiosa para saber se ele conseguia sentir seu cosmo mesmo assim tão enfraquecido:

- Será que você consegue ficar em pé? – sussurrou puxando-o pelos ombros e evitando abrir as feridas de seu braço. Ele havia emagrecido desde que chegara em Atenas, mas ainda era muito mais forte do que os guerreiros que lutava. Carregar alguém com aquela altura e peso seria um desafio para sua agilidade. Propositalmente a amazona colocou o talismã em seu pescoço, torcendo para que isso lhe fortalecesse mais rápido. – Nós precisamos correr.

Aldebaran abriu os olhos para observar o objeto mágico e então se virou para a garota, aceitando o abraço dela para conseguir se levantar:

- Sinto que isso aqui melhora.

- Nós precisamos ir para o porto, o quanto antes.

Deram alguns passos juntos e Shaina mordeu os lábios, apreensiva com a lentidão. E o peso... habilidades de guerreira não envolviam resistir a tanta pressão física por muito tempo. A saída exigiria o máximo de sua rapidez, não conseguiria manter o ritmo acelerado após a descida tortuosa. Sabia que seria impossível carregá-lo até o porto sem chamar atenção.

- E quanto aos outros? – ele parou, buscando a outra cela ocupada do lugar – Não podemos deixá-los.

- Você é prioridade.

Shaina percebeu que os jovens guerreiros estavam de pé agora, atentos aos dois. Eles não eram da Ilha de Creta. Aldebaran foi o único sobrevivente do Templo de Afrodite, todos os demais foram consumidos pelo incêndio. Pelos rumores que ouviu, aquela dupla se rebelou contra as ações de Atenas, foram acusados de traição e espionagem. Conseguiu ler em seus rostos que eles não protestariam caso ela decidisse deixá-los para trás, mesmo sabendo que seriam mortos em breve. Entendiam a importância de Aldebaran para a guerra:

- Ora, todos honramos aos deuses... – Aldebaran murmurou. Abriu os olhos e seu tom gentil provocou um acalento no coração da amazona – Vamos sair juntos.

A amazona ia comentar que eles eram dissidentes da guerra, mas o protesto se perdeu ao notar o cosmo do cavaleiro. O calor de seu corpo havia aumentado. Finalmente estava ereto, firme em suas próprias pernas. O talismã em seu peito brilhava como uma pequena lua cheia, seu poder misterioso se expandia por todo o local conforme Aldebaran queimava mais e mais seu cosmo. Shaina viu um brilho diferente nas armaduras de bronze jogadas de qualquer jeito no lado oposto do recinto. Elas reagiam aquele poder e Shaina se encorajou a não deixar nenhum presente dos deuses para trás. E isso incluía guerreiros que se recusaram a matar pessoas por uma causa fútil:

- Muito bem. – A garota disse antes de romper a cela que prendia os dois guerreiros. Percebeu que eles admiraram a velocidade com que ela se aproximou e evitou julgá-los como fracos. Ou se iriam sobreviver ao plano... Deu as costas para o trio e seguiu até as armaduras, foi quando viu uma sombra se aproximando das escadas e correu até lá, imobilizando o servo que voltava com outros objetos para serem guardados ali. Sob os olhos dos 3 homens, a amazona arrastou habilmente o servo para a cela dos guerreiros, tampou sua boca com um tecido e murmurou:

- Mesmo que ele acorde enquanto estivermos em Atenas, acho difícil que ele se dará ao trabalho de avisar o que aconteceu aqui.

Aldebaran assentiu e ela ficou satisfeita por mais que as famílias envolvidas na guerra tratassem bem os servos no geral, ela sabia que eles sentiam falta de seus rituais aos deuses. Antes da guerra, os templos serviam a comunidade com comida, cura e aconselhamento sem distinção de classe. Agora a população era proibida de entrar nos templos e não demoraria para que as construções fossem destinadas a atividades burocráticas.

Shaina observou as caixas das armaduras de bronze, ainda reagiam ao talismã, com seu cosmo único. Provavelmente buscando seus falecidos donos. Um dos símbolos lhe lembrou as penas da armadura de Pavão. Seria a caixa de Fênix? Colocou justamente essa e outra de um cavalo alado nas costas. Aldebaran fez o mesmo com as outras três e a garota notou que ele ficou ofegante:

- Você está bem mesmo para correr sozinho?

Aldebaran tocou em seu ombro, disfarçando o cansaço:

- Vai dar certo, amazona. – engoliu em seco e pediu para os demais guerreiros se aproximarem – conte o plano.

A guerreira de Artêmis sugeriu o caminho até o porto, mas antes de terminar um dos guerreiros murmurou:

- Nós vamos atrasar vocês... Vocês são rápidos, é melhor nos separarmos.

- Não. – Aldebaran protestou – eu ouvi do que vocês foram acusados, que vocês tentaram salvar crianças... Vocês já escolheram o lado dessa guerra, e aqui, do nosso lado, nenhum guerreiro é abandonado.

Shaina segurou o som debochado que quis dar. Não era bem isso que as amazonas eram ensinadas, o importante ali era o herdeiro da armadura e se ele estivesse desmaiado, o cenário seria outro:

- Se eles se ferirem, você é minha prioridade. - falou, objetiva. – Foram as minhas ordens e eu concordo, é melhor vocês irem por outro caminho.

O moreno ajustou as armaduras em suas costas e a observou seriamente. Parecia ser mais alto e mais velho agora, com aquela expressão taciturna. Ora, ora, era essa parte de sua essência que o manteve tão resistente à tortura? A teimosia?

- Muito bem, eu vou carregá-los então.

A amazona revirou os olhos, a ansiedade para sair dali virou raiva. Que perda de tempo, pelos deuses! Bem que a Pedra da Lua poderia vir com algum feitiço de convencimento:

- Aldebaran, você está há muito tempo preso. O talismã não compensa isso. – Ela sussurrou.

- Se precisar, eu vou carregá-los... – Ele deu de ombros. - Sinto muito, amazona, vamos todos juntos ou não vou.

Irritada, ela se afastou indo até a saída

- Eu vou liberar o caminho e encontro vocês no feixe de água, à direita. Contem até vinte.

- Você vai imobilizá-los sem nenhuma arma? Eu posso ir com você – disse o garoto mais forte da dupla.

Se fossem amazonas, nunca teria ouvido esse questionamento. Que irritante. Como alguém conseguiria liderar homens assim? Aldebaran sorriu como se pedisse para que ela tivesse paciência. A amazona repetiu:

- Contem até vinte.

Deu as costas e, finalmente, depois de tantos anos, pôde usar seu cosmo e correr livremente.

Ágil, imobilizou sem dificuldades os seis vigias que estavam próximos do caminho e os colocou abaixo de uma enorme oliveira. Fitou a casa principal, o local em que morava a Família Bússola, teve certeza de que ninguém importante estava acordado, já trabalhou por um tempo servindo-os diretamente e sabia os hábitos de quem poderia atrapalhar a escapatória. Só restava se preocupar com os guardas que protegiam as limitações do local...e todo o resto da cidade. E guerreiros de Éris.

Shaina pegou algumas insígnias dos rapazes desacordados, já imaginando o que poderia acontecer no trajeto e correu até o ponto combinado. Observou como estava a gruta e se voltou para esperar os fugitivos:

Dezessete, dezoito, dezenove... Antes que sua contagem mental terminasse, um rastro dourado cortou o jardim de oliveiras e o herdeiro de Touro surgiu em sua frente. Shaina fitou as figuras desengonçadas que se agarravam de qualquer jeito no corpo de Aldebaran. Bufou. Seria uma cena ridícula de ver, se não fosse ... impressionante. Mesmo carregando aqueles dois garotos, sua velocidade era muito maior que a sua. Aquela agilidade não era apenas uma consequência do talismã, sabia que o cosmo dos dourados era muito acima do seu. Ainda assim, estava surpresa. Talvez minha lentidão que o atrase, pensou, um tanto indignada:

- E então? Seguimos? – ele murmurou observando a gruta.

Shaina ignorou sua expressão bondosa e disse, seca:

- Se qualquer coisa acontecer, você segue para o porto. Sozinho. Está bem? – o cavaleiro ia falar alguma coisa, ela ignorou – Essa guerra precisa de você, Aldebaran, por favor, seja sensato.

A amazona percebeu que ele a fitava diferente agora, como se entendesse que podia ser o quão extraordinário quisesse, nada disso adiantaria se ele estivesse morto no fim do dia. O moreno assentiu com a cabeça e Shaina respirou fundo e passou a correr. Sentia o cosmo dele logo atrás e tentou não pensar que o atrasava, se dedicou a arder toda a energia que tinha para não ser um estorvo para a fuga.

Como imaginou os poucos servos que estavam por ali não entenderam o que era o rastro de luz no caminho, assim como os guardas que estavam protegendo a gruta. Ali era o momento que mais a preocupava, acreditou que poderia ter algum tipo de feitiço diferente ou até mesmo um cavaleiro da deusa Éris, mas nada. Pelo visto todos estavam mais preocupados com as fronteiras ou com as guerras fora da cidade.

Atenas ainda amanhecia e havia poucas pessoas nas ruas. Quando chegaram nas vielas próximas ao comércio do porto, o número de pessoas a preocupou. Estavam agitados organizando os produtos para a feira e poderiam trombar com eles a qualquer momento. Especialmente Aldebaran, considerando toda a área que ele ocupava carregando dois guerreiros, três armaduras... e ele próprio, o homem mais alto que Shaina conheceu, sem dúvida.

A guerreira mudou o trajeto, escolhendo um mais demorado e que garantia o silêncio absoluto sobre aquela fuga. Faltava apenas uma quadra para a descida até o porto quando reparou que o ritmo do cretense diminuiu. Shaina desacelerou, já imaginando o que viria a seguir.

Ele colocou os rapazes no chão e se ajoelhou ofegante:

- Fiquem atentos – Shaina ordenou, sem esperar que os meninos fizessem uma formação ao redor deles, ela fez Debas se sentar e se encostar na parede próxima. A forma como ele respirava a assustou. Tentava falar algo, mas Shaina o impediu – Respire, apenas respire.

A amazona colocou a mão em seu peito, tentando trazer algum tipo de conforto. Lembrou-se de quando era criança e aprendeu a subir árvores, os treinos lhe obrigavam a fazer isso repetidamente, uma tarde inteira. Achou que morreria nos primeiros dias, até que Mayura fez exatamente isso com ela, só de colocar a mão em seu peito, conseguiu se sentir mais centrada e trazer ar para o seu corpo:

- Estamos perto. Vai dar certo, você não precisa correr mais. E não ouse protestar – sibilou estreitando os olhos. Virou-se para os garotos e lhes deu as insígnias roubadas da Família Bússola – Vocês vão precisar ir sozinhos, nos esperem próximos aos barcos.

Viu nos olhos de cada um que estavam preocupados com Debas, com os dois, afinal, o que poderiam falar se alguém passasse por ali? Um casal deitado no chão poderia facilmente ser disfarçado com um beijo, mas um casal com cinco armaduras sagradas... Não enganariam ninguém. Ainda assim os três meninos aceitaram a ordem e correram. Shaina olhou ao redor, as armaduras em suas costas começavam a incomodar, mas não se deu ao luxo de tirá-las, sabia que, se o fizesse, poderia perder um tempo precioso caso precisasse correr de supetão:

- Só mais um pouco. - Ele disse, com dificuldade e apertando a mão que ela mantinha em seu peito. Apesar do talismã não emitir nenhuma luz, Shaina sentia seu poder se espalhando no peitoral machucado de Debas. Sua pele tinha marcas diferentes, não eram da tortura, pareciam ser queimaduras. Ele percebeu que a amazona encarava suas cicatrizes e disse – Do Templo de Artêmis. Fogo.

- Respire... – Shaina pediu olhando para os lados, não queria deixá-lo desconfortável pelas feridas de guerra.

Ele respirou fundo algumas vezes. E então voltou a falar.

- Tentei salvá-los, salvar a criança, mas a fumaça. – Quando voltou a fitá-lo, notou que seus olhos estavam cheios de lágrimas e a amazona ficou sem reação. Sabia que a exaustação provocava essa bagunça emocional. Sabia também que chorar apenas pioraria sua respiração. Então fez o que sabia de melhor, fingiu que não se importava:

- Você está falando muito – disse ignorando as lágrimas que caíam do rosto dele - sinal de que você já consegue levantar.

Apesar das palavras soarem duras, seu tom foi muito mais suave do que esperava e algo em seu íntimo torceu para que ele não se sentisse desprezado. Sem olhar para seu rosto, o puxou para se levantar e rapidamente ajeitou as armaduras em suas costas até que sentiu o corpo dele retesar. Havia algo errado. Sentiu um cosmo diferente ao redor:

- É um dourado. – Aldebaran atestou ajeitando as armaduras em suas costas.

- Vem do porto, droga – Shaina buscou qualquer sinal de luta, contudo apenas a claridade do céu lhe chamou a atenção. Talvez aquilo fosse um chamado? –Temos que ir, nem que seja andando.

Debas deu alguns passos em silêncio, ainda com uma postura diferente de outrora, pronto para qualquer ataque. Respirou fundo, nitidamente se convencendo a arranjar forças para continuar:

- Não precisamos correr – ela murmurou atenta às nuances da rua silenciosa.

- Precisamos sim – o herdeiro da armadura de Touro queimou seu cosmo e Shaina sentiu um arrepio em sua nuca. Aquilo era muito mais do que ganhar fôlego, ele buscava ver além do que aquela realidade material mostrava. De alguma forma a amazona soube que ele expandia sua consciência, seus sentidos, para entender o melhor o que estava acontecendo no porto. Abriu os olhos e a encarou – A luta já acabou, vamos.

Ele segurou em sua mão e a amazona fingiu não perceber o toque, mas o acompanhou em seu pedido para correr. Ainda não era a mesma velocidade de outrora, contudo era o suficiente para atravessarem sem serem vistos pelos humanos sem cosmo. Seguiram sem serem interrompidos ou esbarrarem em algum comerciante. O trajeto próximo ao mar era mais estreito que as demais ruas, Shaina ficou atenta às mercadorias que iam e vinham, buscava qualquer sinal de um Cavaleiro Dourado ou de um inimigo a altura.

Quando viu a fileira de barcos temeu os guardas que circulavam por ali responsáveis por inspecionar as frotas e evitar possíveis invasões. Antes de pensar se deveria desacelerar, notou que nenhum desses guerreiros estava nessa área. Virou no sentido norte, como o espião o havia indicado, e percebeu uma figura altiva em um dos barcos, observando-os atentamente. Sem dúvida, mesmo naquela distância e velocidade, ele os via. Seus olhos aguçados e sorriso ferino lhe lembrou o do jovem que entregou o talismã. Uma voz em seu interior lhe dizia: aquele era Kardia, o Cavaleiro de Escorpião:

- Ali... – ouviu Debas dizer às suas costas. Ele também notou aquela presença que os convidava silenciosamente para embarcar.

Os dois pularam no barco. Aldebaran largou imediatamente as armaduras no chão, e se ajoelhou, sem disfarçar sua exaustão. Ao contrário de Shaina, que manteve a postura altiva e se colocou entre seu protegido e o outro homem. Algo em sua expressão sagaz confirmava que ele era o líder daquela embarcação. Sua intuição gritava que ele seguia os deuses. Ainda assim, a guerreira não se moveu, buscando sinais de que aquele era realmente o contato esperado:

- Você está esperando algum tipo de código? – ele sussurrou, se aproximando. – Acredito que ter liberado o caminho do porto foi o suficiente. – Sorriu, arrogante - Eu sou Kardia, de Escorpião. – Disse passando por ela sem pestanejar.

Shaina não identificou seu cosmo, mas a insígnia que ele usava para prender sua capa, confirmava o que dizia. Era mesmo escorpião dourado:

- Você matou os protetores do porto. – Ouviu Debas murmurar. Ainda recuperava o fôlego e pareceu fazer um esforço tremendo para dizer as próximas palavras - Você não precisava tê-los matado...

- Seu Templo foi queimado de forma traiçoeira e você está preocupado com guardas do porto? Estamos em guerra, garoto. - A última frase foi um sussurro, mas Shaina pôde sentir a frustração em sua voz. Enquanto Debas e ela sofreram com o isolamento, aquele guerreiro vivenciava outro tipo de tortura nesses últimos anos. – Os guardas estavam questionando os rapazes que vocês salvaram. Interferi antes que todo o porto percebesse.

A amazona procurou os dois guerreiros e os viu entre as mercadorias na proa do barco. Uma sensação de alívio lhe atingiu e deixou as armaduras escorregarem, permitindo-se relaxar:

- Creta foi dominada... ainda está dominada?

O Cavaleiro de Escorpião assentiu e olhou para os machucados no peito do rapaz, o talismã brilhava de uma forma diferente de outrora, uma cor cintilante se espalhava em cada cicatriz. Havia uma espécie de cura acontecendo ali, provavelmente o objeto transmutava a energia destorcida de Éris que foi usada por tanto tempo para reter o cosmo de Aldebaran:

- Vamos precisar de você para recuperar Creta.

- E o seu... escorpião? – ela interferiu na conversa, ajeitando suas caixas para ficarem próximas as demais e puxou Aldebaran para que se sentasse em uma posição mais confortável.

- Atrasado. – Shaina não conseguiu distinguir se ele estava irritado ou preocupado. – A tarefa dele era mais simples que a sua. Nenhum guerreiro de Éris conseguirá impedi-lo.

- Éris? – o moreno questionou apertando as mãos de Shaina como se agradecesse pela posição que o colocaram.

- Você vai ter tempo para saber de tudo, Cavaleiro de Touro.

- Não sou o Cavaleiro de Touro. – Aldebaran respirou fundo – Ainda não ...

- Cavaleiro de Touro, sim. – Uma voz sussurrou na beira do barco. Era o garoto que conversou com Shaina mais cedo, estava com o rosto suado e uma de suas mãos sangrava, mas não demonstrava dor. Segurava duas enormes caixas e colocou uma delas no chão expondo o desenho de Touro. – Acredito que isso é seu agora.

O herdeiro de Ouro olhou para a caixa por um tempo e Shaina imaginou seu choque. Suja, queimada e brilhante. Ali estava o presente de Afrodite para a Ilha de Creta:

- Você emagreceu .. – Kardia disse para seu espião. O comentário deveria ser uma crítica, contudo seu sorriso orgulhoso contava outra história. Eles eram muito parecidos e Shaina não se surpreenderia se descobrisse que eram parentes.

- Estou vivo. E mais alto.

Kardia se levantou e fez um sinal para seus homens. Imediatamente começou uma correria no barco, provavelmente era a preparação para partirem. Ele se aproximou do menino e o ajudou a tirar o outro volume dourado sem se machucar mais:

- Vai ser bom te ter em casa, Milos. – as falas confirmaram que o garoto mais jovem não era qualquer guerreiro. Talvez filho de Kardia. - Vamos apenas entregar isso e vamos para casa.

Shaina olhou a outra armadura dourada. Era a armadura de Leão. A amazona pensou em Marin e o guerreiro que ajudaram a sair de Atenas há três anos. Onde eles estariam agora?

- Acho que é isso... estamos a salvo? – escutou Aldebaran murmurar ao seu lado, totalmente indiferente aos diálogos entre os dois herdeiros de escorpião. Ainda não havia se aproximado de sua armadura de ouro, a observava, mas seus pensamentos estavam muito longe dali.

Shaina desconfiou que ele demoraria a aceitar que aquela armadura era sua agora.

- Acho que nunca estaremos a salvo enquanto essa guerra continuar. – Ela olhou para as aves que sobrevoavam a costa e respirou fundo – Mas pelo menos o barco está em movimento.

Aldebaran deu um sorriso triste e a fitou:

- Qual o seu nome?

Shaina hesitou em responder, incerta se poderia revelá-la ali, daquela forma. Estava ansiosa para saber qual seria seu destino agora. Permitiram seu retorno para a Vila das Amazonas ou ela deveria seguir o destino daquelas armaduras douradas? Empertigou o corpo e disse após um longo suspiro:

- Shaina.

- Nenhuma constelação te escolheu?

Ela balançou a cabeça em negação.

- Não vai demorar, tenho certeza – ele manteve o olhar no seu por um tempo, como se estudasse seu rosto e, repetiu seu nome, como se memorizasse cada letra. - Shaina... obrigado por me salvar.


Com a falta de movimentação das reviews acabei esquecendo de postar os capítulos escritos aqui.

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